Quando o primeiro dia do festival escolar estava chegando ao fim, me joguei na cama. Angie e Lívia haviam ido para casa antes da pós-festa, então Raymond, Daniel e eu fomos forçados a nos entreter.
Enquanto refletia sobre os eventos do dia, Luxion flutuou na minha frente.
— O que foi? — perguntei.
— Só a escória comete adultério.
— De que diabos está falando?
— Essas foram suas palavras, na verdade. Não se lembra do que fez hoje? Você tentou seduzir a rainha. Agora então, permita-me confirmar, você não disse que adultério era uma ofensa imperdoável?
Acenei para sua questão.
— Você não entende. Não consegui conter meus sentimentos.
— Tudo o que diz é tão superlativamente hipócrita que fico de fato impressionado. Talvez deva levar um espelho o tempo todo para que possa se lembrar de suas próprias cores verdadeiras?
— Não, quero dizer, vamos lá… Se tiver que dizer sim ou não para a senhorita Mylene, é óbvio que direi sim!
— Ela é a rainha. Se tiver que dizer sim ou não, é óbvio que deveria ser um retumbante não.
Sim, tudo bem, porém Luxion não tinha como entender meu coração, ele era uma I.A. inorgânica, limitado pela “razão” e “lógica”!
— Percebe que, quando a rainha falou sobre desejar memórias da academia, é provável que sua intenção fosse que você a acompanhasse até as barracas dos outros alunos? — continuou Luxion. — O fato de que aceitou de imediato sua fala como um convite para cortejá-la me leva a questionar sua sanidade. Oh, perdoe-me. Suponho que não tenha sido uma grande questão para começar, não é?
— Você é o idiota aqui. Esta academia existe por uma razão e apenas uma razão, encontrar uma noiva para casar. Ela obviamente quis dizer que queria que alguém a pedisse em casamento. — eu reconsidero. — Espere, não, espere. Talvez Mylene quisesse dizer que queria andar pela academia juntos. Tipo, como um encontro? Foi isso? Augh, nunca considerei essa possibilidade. No entanto, o objetivo desta escola é ficar comprometido, certo?
Embora sua voz permanecesse sem inflexão como sempre, Luxion de alguma forma parecia exasperado.
— Esse é um objetivo primordial para os garotos sim, contudo a academia é um lugar de aprendizagem.
— Sério? É a primeira vez que ouço falar.
— Maravilhoso. Por fim, você pode começar a se dedicar aos estudos.
— Desculpe, mas ainda tenho uma noiva para encontrar.
— Ainda não desistiu? Não sabe quando parar.
Dei de ombros.
— Sou o tipo de cara que segue em frente, mesmo quando todos ao meu redor me odeiam.
Que alívio seria simplesmente desistir, mas não posso escapar das regras da sociedade, não importa o quanto possa aproveitar cada chance de lutar contra elas. A pior parte? Mesmo se tentasse fugir, outros sofreriam as consequências. Os outros nobres apontariam o dedo e sussurrariam sobre minha família. Não posso deixar algo assim acontecer, nem com meus pais, nem com meus irmãos.
Hã? E minhas irmãs, você pergunta? Pfft, quem se importa com elas?
— Suponho que seja tudo uma questão de perspectiva. Independentemente. Mestre, pretende mesmo ajudar aquela garota? — perguntou Luxion.
Fiz uma careta para o teto.
— Temos um feriado depois do festival. Vou ajudá-la então.
— Isso não vai te beneficiar.
Não posso negar, contudo ao pedir a Lívia para nos apresentar e mediar, Carla havia oficializado o pedido. Claro, ela enganou Lívia para conseguir o que queria, porém aos olhos dos outros nobres, parecia que Lívia havia aceitado seu pedido e confiado a mim. Não importava se Lívia não soubesse o que Carla queria de antemão. Se recusasse Carla agora, teria um efeito negativo em Lívia, já que tecnicamente a responsabilidade de completar a tarefa era sua. Além do mais, se desistir agora, as pessoas me considerariam um péssimo aliado. Em suma, Carla havia atraído nós dois para uma armadilha.
Poderia tê-la recusado por essa falta de transparência, com certeza. Não sou absolutamente obrigado a ajudar os dissimulados. Sendo honesto, não queria ajudá-la, no entanto tinha outro motivo para fazê-lo, e um urgente.
Carla queria que eliminássemos alguns piratas aéreos. Papel bastante normal para a nobreza. O problema era mais profundo do que isso.
— Se a região de Carla está sofrendo nas mãos de um fora da lei, ela não deveria solicitar ajuda da coroa? — Luxion perguntou.
— Deveria sim. O palácio está muito mais pronto para ter pena de sua triste história. Contudo, veja, esses piratas têm um item essencial para a protagonista.
— Ah, então você tem que realizar este pedido por motivos relacionados ao jogo?
— Para que a protagonista, Lívia, exerça o poder da Santa, é preciso três itens específicos. Dois deles Lívia deve adquirir sozinha. Os piratas ficam com o terceiro. Você não pode pegá-lo até eliminá-los do mapa.
O primeiro item, a Pulseira Sagrada, estava escondido na masmorra sob nossos pés. Os piratas tinham o segundo item, o Colar Sagrado. O último da trindade era o maior e no atual momento ficava no templo principal da capital, o Cajado da Santa. Lívia precisava dos dois primeiros para se tornar a Santa. Assim que o templo reconhecer sua Santidade, eles automaticamente concederiam o cajado a ela. Depois de ter tudo isso, seu poder seria bem amplificado.
— Mas pensei que o evento dos piratas aéreos não deveria acontecer até o nosso segundo ano. — murmurei.
Não foi planejado para ser o ponto de virada no meio da história? Devíamos ter tido cerca de mais um ano para nos preparar. No jogo, a protagonista tomou emprestada a ajuda de seus interesses amorosos para derrotar os piratas que ameaçavam o domínio de certo conde.
Aliás, foi aqui que as rotas se dividiram e a protagonista ficou presa em uma rota específica.
— Você não pode solicitar a ajuda do reino no lugar? — Luxion perguntou — A Casa Wayne é apenas um baronete. Como a casa de vassalos, servem a um conde, não é?
— Sim… Porém estão meio em apuros agora. A ex-noiva de Brad é da casa daquele conde, a Casa Offrey. Carla é uma de suas servas, ela está puxando as cordas.
— Essa outra mulher é como Angelica?
— Nah, este é um lixo fedido.
Na verdade a garota Offrey era minha cliente problemática, a filha do conde que encostou meu rosto no chão da cafeteria hoje cedo. Ela era terrível o suficiente no jogo, porém conhecê-la hoje provou que é muito pior em pessoa. Eu esperava uma surpresa agradável, como Angie, mas não deu muito certo pra mim.
Deveria ter adivinhado. No jogo, a garota Offrey também atraiu aqueles piratas para seu território, para que ela e sua família pudessem torná-los capangas. Isso, por sua vez, estabeleceu algumas das bases que levaram à guerra no ato final do jogo.
Quando compartilhei isso com Luxion, ele disse.
— Mestre, você parece estar priorizando suas ações com base nos benefícios que eles pagaram no jogo, porém vejo pouco mérito em se envolver aqui na realidade. Não concorda?
— Se o príncipe Julius e sua gangue vão ser tão inúteis, não tenho escolha. Não posso ficar parado assistindo a situação se transformar em uma guerra.
Seria ainda mais problemático.
Sendo franco, se Lívia não se tornasse a Santa, teria que pegar Luxion e fugir do continente atacado. Resumindo, se deixasse esse problema crescer, não seria tão simples quanto “encontre o oponente, derrote o oponente”.
— Mas por que Carla… Não, você disse que quem a puxava pelas cordinhas era a ex-noiva, Offrey… Por que estão empurrando esse pedido para você?
— Armadilha, duh. Como disse, até eu estava desanimado com a personalidade dela. No jogo, era tão desprezível que quase chegava a ser engraçado.
No evento, a garota Offrey ficou tão irritada com a protagonista por ser uma mera plebeia na famosa academia que a atraiu para a luta com os piratas. Quem diria que eu também me envolveria nisso?
Veja, no jogo, a garota Offrey tinha o problema de ser chamada de “dinheiro novo” e “arrivista” o tempo todo, então ver os interesses amorosos bajulando a protagonista pressionou todos os seus botões de raiva. Contudo, uma vez que a brigada dos idiotas mal notou Lívia em nossa realidade, eu realmente não consegui rastrear seus motivos desta vez.
— Mestre, se continuar assim, você não vai acabar como parceiro de Olivia?
— Eu? — zombei. — Que ridículo. Sou um personagem mob.
— Se você diz. — Luxion fez uma pausa. — Tem certeza de que está tudo bem? Pelo que descreveu, parece que Olivia deveria estar na vanguarda desta resolução. Se esse evento envolver o equipamento da Santa, não deveria, como Santa, recuperá-lo ela mesma?
— Nós dois somos mais adequados para o trabalho pesado. Além do mais, Lívia não conseguiria lidar com isso sozinha, não em seu estado atual. Tenho que assumir por agora e, de qualquer maneira, é mais eficiente dessa forma.
— Você está sendo superprotetor.
Com esse aviso final, Luxion ficou em silêncio por completo.
Tradução: Demiurgo
Revisão: Bravo
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