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O Começo Depois do Fim – Cap. 377 – Última Resistência

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POV BAIRON WYKES

A elfa anciã pesava quase nada em meus braços enquanto corríamos entre as casas até o limite da caverna. As ruas ainda estavam cheias de pessoas, algumas delas sem tomar nenhuma ação apesar de confusas, mas a maioria estava correndo na mesma direção que nós.

Um turbilhão de vozes aumentava e diminuía enquanto corríamos pela cidade. Virion falava com todos, sem parar de correr, direcionando-os até os túneis mais profundos. Aqueles que eram mais leais a Virion tinham hesitado a princípio, mas com suas palavras, rapidamente nos seguiram com quaisquer amigos e família que ainda tinham.

A entrada do túnel estava lotada com uma multidão de pessoas. Pelo menos metade do santuário estava lá, ocupando o buraco estreito que levava para a rede de cavernas e túneis.

— Não se esqueçam, fiquem junto dos líderes designados!

O elfo refugiado, Feyrith Ivsaar, gritava de cima de uma plataforma de terra que foi conjurada ao lado da entrada.

— Eles vão levar vocês pra um lugar seguro! Nós vamos enviar uma mensagem quando o perigo passar!

Rinia se contorceu pra sair dos meus braços, batendo em meu cotovelo quando seus pés estavam no chão.

— Obrigado pelo seu serviço à Dicathen, General Wykes. Eu preciso que você organize um grupo de guardas e procure no vilarejo. Nós precisamos garantir que todo mundo escape dessa caverna. Virion e eu vamos liderar enquanto você nos dá cobertura.

Olhei pra Virion esperando confirmação, ele acenou.

— Estou contando com você para garantir que estas pessoas tenham tempo para fugir da caverna.

Bati continência.

— É claro, Comandante.

Virando nos meus calcanhares para sair, uma mão firme segurou meu braço. Virion me olhou nos olhos e disse:

— Não enrole. Eu vou te aguardar quando isso tudo terminar, entendeu?

Acenei firmemente e Virion me soltou.

Aqueles que estavam mais perto já tinham reparado em Virion e Rinia, e em poucos momentos, o par estava engolido pela multidão assustada, dúzias de vozes gritavam ao mesmo tempo.

Me afastei deles, observando a cena geral e procurando nossos guardas. Alguns tinham se juntado perto de algumas das várias rochas espalhadas, enquanto outros estavam no meio da multidão, ajudando Albold e Feyrith em seus esforços. Fiz uma nota mental de quem tinha se juntado aos dois causadores de problemas, então fui na direção dos outros guardas.

— Você, volte até o vilarejo e procure por algum remanescente. Todos precisam evacuar.

Os homens deram olhares incertos na direção da saída lotada.

— Agora!

Gritei, fazendo se assustarem.

— Sim, senhor!

Disseram em uníssono antes de saírem.

Voei para cima, observando de uma altura de quinze metros enquanto eles corriam de volta à cidade. O caos abaixo me trouxe a memória desconfortável da queda do castelo. Tentei tirar a lembrança da mente, mas imagens de eletricidade rebatendo na pele cinza invadiam meus pensamentos.

Nada que eu tinha tentado com a Foice tinha machucado ele. E agora, algo ainda mais forte e perigoso estava vindo.

Meu olhar passou pela multidão enquanto o medo crescia. Odiava ele, o impulso para fugir, o questionamento que corria em minha mente. Deveria ter ficado com minha família, abandonando Virion e todas essas pessoas ao destino? Deveria ir embora agora, salvando a mim mesmo? Eu devia a minha vida a essas pessoas?

Eletricidade pulava da minha pele e corria pela minha armadura. Estava entre as pontas dos meus dedos, ansiosa por direcionamento.

Foquei nessa sensação. Essa vontade de atacar. Deixei que o seu brilho me cegasse, tentei não ver meus impulsos vulneráveis. Como Virion, apesar de tudo que tinha encarado e todas as perdas que sofreu, me tornaria um farol para inspirar e fortalecer.

 

Separador Tsun

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Com uma eficiência nascida do desespero, os refugiados sob nossos cuidados continuaram a sair pelo funil da entrada da caverna. Virion e Rinia já tinham ido à frente, liderando o grupo principal para um destino desconhecido. Meus soldados haviam explorado a vila duas vezes; os únicos que ainda permaneciam estavam lotando a entrada do túnel, esperando sua chance de escapar.

Fui o primeiro a sentir a mudança na mana. Um pouco além da última casa no limite da cidade, um tremor correu pelo ar e a luz se moldou em uma forma oval tremeluzente. Alguém gritou.

Desci para o chão, entre o portal e aqueles que ainda tentavam fugir. Os guardas estavam gritando instruções para que andassem mais rápido.

Duas figuras apareceram. O primeiro estava no mesmo uniforme imaculado que sempre usou, seus olhos inumanos absorviam tudo ao redor.

O segundo era mais jovem, mais feroz. Era magro e tinha a barba feita, sua cabeça batia nos ombros de Windsom, seus olhos negros não refletiam luz nenhuma. Ao invés de um uniforme elegante ou armadura, usava roupas vermelhas folgadas, como se estivesse aqui para um simples duelo de treino.

O peso esmagador de sua intenção contrastava rispidamente com sua aparência.

— Asuras!

Gritei, minha voz rebateu nas pedras como trovão.

— Vocês não são mais bem vindos neste lugar. Saiam agora, ou—

Uma pressão intensa apertou meu peito, me interrompendo.

— Silêncio, humano.

Disse Windsom. Não havia indícios em sua expressão ou tom de voz de que já havíamos estado do mesmo lado nesta guerra, ele não apresentava nenhuma empatia ou arrependimento.

— Eu vim com uma proclamação do Lorde Kezess Indrath do Clã Indrath dos dragões, chefe entre os Asuras de Epheotus.

— Nossa aliança falhou.

Estas palavras vibraram pelas pedras e pelo ar, pareciam estar vindo de todas as direções ao mesmo tempo, até mesmo ecoando de volta da entrada do túnel. Gritos temerosos se seguiram.

— Vocês se mostraram sem capacidade de julgamento e fracos na fé. Vocês são um perigo para sua própria nação, para o futuro de suas próprias raças. Por isso, Lorde Indrath julgou necessário eliminar este santuário e todos os que residem aqui.

Eu dei um passo à frente, com o queixo erguido, uma lança longa feita com eletricidade estalando em minhas mãos.

— Seu lorde não tem autoridade aqui. Voltem para suas casas e deixe nosso lar para cuidarmos. Nós vamos vencer essa guerra sem vocês.

O Asura mais jovem fez um a careta, seu nariz se torceu como se tivesse pisado em alguma coisa imunda. Mas foi Windsom que falou.

— Você sabe o que fazer, Taci. Lorde Indrath espera muito de você.

O dragão com olhos de galáxia se virou e sumiu dentro do portal, que desapareceu.

Atrás de mim, os últimos refugiados estavam se empurrando para entrar no túnel, cuja abertura estava lotada com pessoas agitadas, que gritavam assustadas. Os guardas formaram um círculo em volta delas, suas armas foram apontadas para o jovem Asura.

Reunindo meu poder, avancei com minha lança, que se estendeu em um arco de eletricidade, mas o Asura, Taci, apareceu vários metros para o lado, o ataque fez uma cratera no chão de pedra.

O mundo pareceu ficar mais lento quando a eletricidade correu pelos meus nervos, elevando meus reflexos e percepção, algo que eu tinha aprendido do garoto Leywin antes de sua morte. Finas gavinhas de eletricidade saíam de mim em arco, como extensões do meu sistema nervoso, me permitindo sentir ataques de qualquer direção, até mesmo antes de chegarem a mim.

O barulho da explosão ainda estava ressoando pelas muralhas, abafado e embotado pelos meus sentidos acelerados e então Taci se moveu. Mesmo sobe os efeitos do Impulso do Trovão, eu mal conseguia acompanhar. Ele deu um único passo, o chão parecia me puxar em sua direção. Mal consegui desviar para o lado e evitar a sua mão de foice, as gavinhas de eletricidade ajudaram a redirecionar a força de seu ataque, mas mesmo passando por mim, pude ver seus olhos negros me rastreando.

O impulso do Asura mudou no meio do ataque, sua figura se borrou e pulou de maneira sobre-humana, muito rapidamente para que pudesse reagir.

De repente estava voando na direção da construção mais próxima. O ar saiu dos meus pulmões quando bati e passei por ela. A poeira e os destroços me cegaram, ouvi o barulho da pedra se movendo, e senti o peso da construção inteira cair em cima de mim.

Mas mesmo através dos escombros, podia ouvir os gritos de morte dos guardas.

Raios saíram de mim como uma explosão, peso que me pressionava e cegava foi jogado longe. Me envolvi em uma capa de eletricidade e voei com toda velocidade para a entrada do túnel. Pedras voavam por todo o lado, vindas da construção que destruí.

Os corpos mutilados dos meus soldados estavam espalhados pelo chão, seu sangue manchava as pedras cinzas. Parecia que um exército tinha passado por cima deles, massacrando-os ali mesmo.

Taci estava de pé sob Lenna Aemaris, chefe dos guardas de Virion desde que escapamos para o santuário. Ela se virou em minha direção, tossindo sangue, com os olhos esbugalhados, incrédulos. Então, Taci a golpeou com o pé, eliminando seu último fio de vida.

Apesar de poder se mover mais rápido do que os olhos conseguiam acompanhar, Taci andava com calma na direção da massa agrupada de pessoas que estavam logo na entrada do túnel, cada passo deixando uma pegada sangrenta pra trás.

A eletricidade estalou entre meus dedos, se condensando em um orbe vibrante azul e branco, que voou pelo ar. Passou vários metros acima da cabeça do Asura, flutuando entre ele e as pessoas, então soltou um clarão de luz. Um raio bateu na parede acima do túnel e uma sessão do muro caiu, tampando a boca do túnel com pedras pesadas, abafando os gritos que vinham de dentro.

Ao mesmo tempo a orbe começou a girar, soltando faíscas que se tornaram lanças de eletricidade e aceleraram na direção do Asura. À medida que ele golpeava cada lança para o lado, elas penetravam o chão ao seu redor.

A eletricidade pulou da ponta de cada lança, se erguendo ao seu redor como postes, formaram correntes e algemas que se prenderam nos pulsos e tornozelos de Taci. Meu corpo inteiro irradiou mana enquanto voei pela caverna e me choquei contra ele.

Houve uma explosão de energia azul e branca, seguida por um trovão que abalou a caverna, ressoando a partir das paredes e construções até se tornar uma onda de choque ensurdecedora.

Minha cabeça girou quando recuei, preparando uma lança de raios e novamente carregando meu sistema nervoso com eletricidade. Meus olhos se dilataram quando procuraram pelo meu oponente, que deveria estar na minha frente, mas não estava.

Tarde demais, ouvi o barulho suave de suas roupas cortando o ar. Mesmo com meus reflexos elevados, não consegui levantar meus braços a tempo, seu golpe me acertou no peito, me lançando pelo chão quando apareceu bem na minha frente. Golpeei pra baixo com minha lança, prendendo-a à pedra, que rachou e guinchou em protesto quando parei de repente, com meus músculos gritando e reclamando.

Uma dor embotada e pulsante vinda de dentro imediatamente removeu da mente essa outra dor mais leve. Olhando para baixo, percebi que a parte frontal da minha armadura estava amassada e pressionava dolorosamente meu esterno.

Passos suaves atraíram minha atenção de volta para Taci, que estava me observando cuidadosamente se aproximando.

— Pensei que Lorde Indrath tinha dito que isso deveria ser um teste da minha força…

Bufei e soltei minha lança da pedra.

— Indrath deveria ter esperado até que você tirasse as fraldas antes de te mandar aqui, garoto.

Os olhos negros de Taci se estreitaram, então seu corpo se tornou um borrão quando repetiu a manobra de um passo. Minha lança golpeou para o lado para tentar intercepta-lo, mas mudou a sua direção, dando um passo quase instantâneo para o lado, dando a volta em minha lança antes de se aproximar. A ponta do seu cotovelo desceu sobre meu ombro ao som de metal se partindo e ossos se quebrando.

Minha visão escureceu, então estava olhando para ele do chão, com meu corpo inteiro dormente e todas as minhas magias se desfazendo quando perdi o foco.

Ele estendeu a mão. Houve uma movimentação de mana, de repente estava segurando uma lança longa e vermelho-sangue. A lança se ergueu acima de sua cabeça, mas ao invés de ser golpeada pra baixo, ela continuou a subir pelo ar, levando Taci consigo. Pisquei. Taci estava abaixo de mim, caindo para o teto da caverna e eu estava despencando atrás.

O mundo parecia estar de cabeça pra baixo. Consegui ver rapidamente o rosto de Taci enquanto ele examinava a caverna antes que algo me batesse pelo lado, agitando meus ossos quebrados no ombro.

Os sons de magias, gelo estilhaçando, vento soprando e pedras quebrando explodiram do nada e por todo lugar ao mesmo tempo.

Pisquei, tentando ver o que tinha me acertado. Um rosto como de fada me olhou e deu uma piscadela e de repente estávamos desviando abruptamente para evitar algo, um borrão vermelho em algum lugar, pedra se chocou contra pedra.

— Mica?

Disse, com o pensamento lento pela dor e esforço.

— Sempre querendo aparecer, não? Lutando com um Asura no mano a mano sem esperar pelo resto de nós.

Mica cantarolou quando nós pousamos, o impacto novamente abalou meu corpo inteiro. Ela me pôs de pé e seus olhos se voltaram para Taci.

— Tem quanto tempo que a população fugiu?

— Tempo que não é suficiente.

Grunhi, movendo meu braço pra tentar analisar quão ruim era o ferimento.

— Nós temos que o segurar aqui.

Ela me olhou por um momento, o ar explodiu com mísseis de gelo muito atrás dela.

— Bom, então é melhor se aprumar logo.

Ela me deu um sorriso confiante então saiu voando para ajudar Aya e Varay, que estavam rodeando Taci como moscas e suas magias pintavam o ar com linhas coloridas.

Voltei minha atenção para dentro de mim, tentando entender o que havia de errado. O Asura só tinha me golpeado duas vezes, nem havia usado magias, mas toda a parte ao redor do meu núcleo estava inchada e com hematomas. No mínimo, minha clavícula estava quebrada e talvez mais ossos, além de que havia uma dor irritante que subia pelo meu pescoço até a base do crânio, sugerindo que meu pescoço também estava fraturado.

Me levantei e enviei mana para as partes machucadas do meu corpo, apoiando os ossos quebrados e fraturados. Sem um emissor, não havia nada que eu pudesse fazer para acelerar a cura. Simplesmente iria ter que lutar dessa forma.

O ar acima do vilarejo havia se tornado puro caos.

Até mesmo de onde eu estava, podia sentir o frio das magias de Varay quando ela congelava o próprio ar, fazendo com que grossos flocos de neve caíssem nas construções antigas. Gelo se formou nos braços e pernas de Taci, apesar de ter se estilhaçado quando avançou contra a Varay, isso o atrasou o suficiente para que ela pudesse evitar o ataque, conjurando uma parede de gelo opaco entre eles e recuando a todo vapor.

Assim que ele desacelerou, o gelo começou a se formar novamente, deixando-o mais pesado. Seus olhos escuros pareciam ter perdido o foco por um momento, olhando para longe ao invés de procurar no ar pelas outras Lanças.

Um calafrio correu pela minha coluna ao ver essa expressão passiva e quase curiosa. Sua boca era apenas um risco escuro em seu rosto, uma sobrancelha estava levemente erguida em consideração. Não era o olhar de um homem lutando uma batalha de vida ou morte, parecia mais com a expressão de uma besta de mana que brincava com sua presa e testava seus limites…

Apesar de sua falta de foco, Taci repeliu facilmente uma séria de magias antes de se focar novamente na batalha. No entanto, independentemente da direção que olhasse, pilares de gelo apareciam para interromper sua linha de visão, um vento forte soprava em seu rosto para o distrair.

Vários ciclones carregando pedaços de gelo e pedras afiadas estavam rodopiando entre todo o gelo, tentando puxar o Asura e o derrubar. Enquanto olhava, ainda focado em preparar o meu corpo, um dos ciclones passou por ele. Ao invés de o prender, no entanto, pareceu se desfazer nas suas defesas, dissipando a mana de vento e seu conteúdo choveu pela caverna muito abaixo.

Porém, no mesmo instante, foi jogado pra trás. Apenas meio metro, mas o suficiente para que não pudesse lançar outro ataque. Então, a gravidade mudou novamente e ele desceu quase um metro na direção do chão, depois alguns centímetros na direção do teto, tirando o seu equilíbrio.

Rangendo os dentes, me lancei no ar, já acumulando mana em minha mão. Taci parou de tentar resistir à tempestade de magias que o atingia e seu peito se ergueu quando inspirou profundamente. Uma mão subiu lentamente, com os dedos apertados. A mana ao redor dele tremeu, ele virou seu punho rapidamente. Houve um crack ensurdecedor, senti a mana se quebrar.

Mica gritou e pelo canto do olho a vi cair do ar como um pássaro atingido por uma flecha.

Ao mesmo tempo, Taci chutou um pilar de gelo e desapareceu. Instintivamente, me virei para Aya quando ele apareceu ao seu lado. Ela estava cercada por uma rajada de vento, mas a lança de Taci penetrou essa barreira sem esforço.

Liberei a eletricidade em minhas mãos na forma de um clarão de luz entre Aya e Taci.

Ao mesmo tempo o ar ao redor do Asura congelou.

Por um instante, não pude ver o que aconteceu. Então o bloco de gelo se despedaçou, observei enquanto Aya deslizava da ponta da lança e caía.

Com um rugido, Mica apareceu como uma pedra de catapulta, se chocou contra o Asura. Seu martelo se quebrou contra o braço levantado dele, depois se reformou e quebrou novamente quando ele o empurrou para o lado.

Um pulso de força elétrica pulou dos meus dedos para o martelo dela, quando o próximo golpe caiu, uma explosão de raios empurrou Taci para o lado. Logo atrás dele, um orbe preto como o vazio, uma esfera escura da qual a luz não podia escapar, apareceu e ele cambaleou na direção do orbe.

Mas tinha que recuar e me preocupar com o corpo em queda de Aya. Houve um boom baixo quando eu atingi minha velocidade máxima, tirando ela do ar um pouco antes de ter caído nos destroços de um dos inúmeros prédios destruídos na luta.

Ela estava respirando com dificuldade, seus olhos estavam esbugalhados e seus dentes como os de um animal.

— Que droga, ele é muito forte. Aquela lança…

Voei pra trás de uma casa, com uma frágil esperança de que Varay e Mica pudessem o segurar por um momento para que eu inspecionasse a ferida de Aya. Mas quando a coloquei no chão e comecei a examina-la, me empurrou de lado.

— Estou ótima, Bairon. Aquela lança fez algo, interrompeu minha mana, mas não estou muito machucada

Disse, indicando uma ferida que sangrava em sua lateral.

Enquanto Aya falava, olhei pra ela com calma. Haviam se passado meses desde a última vez que eu vi outras Lanças. Aya estava esquelética, seus olhos estavam escuros. Já não existiam mais os lábios com beicinho, nem a mana que fazia sua voz vibrar com um toque de sedução, que costumava exibir como um tipo de armadura.

Não havia tempo para imaginar pelo que os outros passaram desde a batalha em Etistin e a queda do castelo, mas eu também sabia que todos nós poderíamos morrer aqui.

— Aya, você tem certeza de que está bem?

Ela me empurrou para o lado.

— Não temos tempo. Vamos—

— Nós não podemos lutar com ele de igual pra igual. Mesmo estas táticas para atrasa-lo só vão durar mais um tempo. Essa não é uma luta para ele, é algum tipo de jogo de guerra maldito

Comentei, arrancando um olhar bravo de Aya pela interrupção.

— E sobre as suas ilusões? Talvez—

Ela bufou, começando a flutuar e encarando ferozmente Taci, com olhos cheios de ódio, a necessidade desesperada por vingança esculpida em cada traço do seu rosto.

— Talvez… talvez… algo assim pudesse funcionar uma vez antes do Asura perceber o que está acontecendo e que diferença isso faria? Não, eu não vou brincar com essa divindade.

O vento chicoteava ao redor dela enquanto voltava para a luta, tudo o que eu podia fazer era segui-la.

O buraco negro que Mica havia conjurado já tinha desaparecido. Varay estava coberta com uma armadura de gelo, mas as duas Lanças estavam na defensiva e não podiam se afastar do turbilhão de ataques de Taci.

Aya estava gritando em sua direção. O ar se contorceu e se condensou em mísseis curvados que atiraram em sucessão rápida, bombardeando as costas do Asura.

Segui logo atrás dela, enviando arcos de eletricidade dentro dos mísseis de vento, moldando os raios em algo mais sutil enquanto eu conjurava Ruptura Energizada. Quando os projeteis imbuídos com raios acertaram, os impulsos elétricos se espalharam pela pele dele como teias de aranha, vibrando pela sua barreira de mana e penetrando seu sistema nervoso para paralisa-lo.

Ele mal piscou.

Aya se aproximou de Taci e uma dúzia de lâminas transparentes o atacou de todas as direções.

A figura dele pareceu que estava piscando pelo ar, se movendo com tamanha precisão que era como estivesse se teletransportando um centímetro por vez, usando apenas o movimento e esforço absolutamente necessário para evitar um ataque ou deixa-lo se despedaçar em um braço ou ombro. Com cada movimento, sua lança vermelha atacava, cortando e penetrando todas as direções ao mesmo tempo, rasgando magias que não conseguia desviar, quebrando outras para reabsorver a mana para alimentar sua própria força.

As outras precisavam recuar, mas estavam travadas no mesmo lugar.

Olhando para o teto, encontrei o que precisava. Tinha um grande pedaço de pedra rica em ferro acima de onde os outros estavam lutando. Lancei um projetil de mana de eletricidade na sua direção, mas ao invés de destruir a pedra, a imbuí com a mana, então manipulei ela para girar em arco pelo ferro.

Taci chutou pra trás, fazendo Mica sair girando, então rodou sua lança ao redor de si em um círculo. Quando segurou com menos força, puxei. O ferro se tornou um imã gigante, arrancando a lança das mãos surpresas de Taci. Ela voou em linha reta pelo ar e bateu no teto com um estrondo.

Imediatamente envolvi a pedra com tanta eletricidade que ela derreteu, fundindo a lança no teto.

Varay aproveitou a oportunidade e recuou, conjurando várias barreiras de gelo enquanto o fazia.

Mas Aya continuou lutando. A esfera de lâminas que a cercava se expandia e condensava, havia tantas se movendo e tão rapidamente, que Taci não podia mais se desviar delas. Ao invés disso, virou seus olhos escuros em sua direção, deixando que as lâminas o acertassem de todos os lados, mas elas não fizeram nada.

— Você sabe o propósito dessa provação?

O Asura perguntou, olhando Aya diretamente nos olhos.

— Confirmar que eu tenho a força necessária para aprender a técnica Devoradora de Mundos… a mesma técnica que destruiu seu lar.

O campo de batalha pareceu congelar. Como se em câmera lenta, Taci alcançou e segurou a mana que estava rodando pelo ar, como tinha feito antes. Mas no instante antes dele quebrar a magia de Aya, ela a liberou. Seu corpo se tornou como o vento, que envolveu Taci e se reformou, deixando Aya logo atrás dele, com a lâmina em seu pescoço.

Eles se moveram ao mesmo tempo. A lâmina dela moveu para o lado quando ele girou, usando a mão como a ponta de uma lança para acerta-la no estômago, quebrando sua barreira de mana.

Com uma nitidez horrível, observei quando seu braço atravessou a barriga dela e saiu pelas costas. Estava pingando com o seu sangue, segurava com punho firme uma seção do que parecia ser sua coluna vertebral.

Mesmo a vinte metros de distância, vi a luz sair de seus olhos. Quando seu corpo caiu, senti um calafrio no estômago.

 Meus olhos acompanharam seu movimento até que ela sumiu, então focaram novamente na batalha justo quando Taci virou um borrão antes de esmagar Mica contra a parede com as costas da mão sangrenta.

Uma camada grossa de cristal se formou ao redor de Mica, mas quando o Asura golpeou, houve um som como de vidro estilhaçando, rachaduras apareceram na superfície. Ele golpeou novamente e pedaços de cristal negro voaram pelo ar. No seu terceiro golpe, a magia do Cofre do Diamante Negro se quebrou e seu braço penetrou até o ombro.

Quando ele puxou, um instante depois, sangue jorrou de dentro pelas rachaduras do cristal.

Um raio sólido de eletricidade branca deformou o ar entre nós, trazendo um cheiro de ozônio queimado e Taci tropeçou para o lado.

Varay apareceu no ar frígido e nebuloso ao meu lado, uma brisa suave balançava seu cabelo curto. Sua mão gelada envolveu meu punho e o raio se tornou um feixe de energia branca e fria. Ela olhou em meus olhos, cheia de determinação.

— Não guarde nada pra depois.

Quase soltei uma risada.

— Voltou não tem nem dez minutos e já quer dar ordens.

Sob o peso combinado de nosso feixe de mana, Taci estava sendo empurrado para trás e uma camada de gelo induzido por eletricidade se formava sobre sua pele. Por um instante, senti uma faísca de esperança.

Houve um clarão vermelho quando a lança reapareceu na mão de Taci como um escudo, separando o raio ao meio, cada metade atingiu a parede atrás dele com um impacto. Uma avalanche de pedras caiu sobre os prédios abaixo, destruindo-os e soterrando metade da vila nos escombros.

Empurrei e empurrei, concentrando tudo o que eu tinha naquele ataque único, o aperto de Varay se tornava mais forte e mais gelado enquanto ela fazia o mesmo.

A lança de Taci cortou o feixe, dividindo-o em dois.

Cambaleei para o lado quando a caverna explodiu. Uma lâmina invisível de mana quebrou o telhado e abriu uma ravina profunda na parede atrás de nós com uma explosão.

O ar ao meu redor estava cheio de uma névoa vermelha. Com horror, me virei lentamente para Varay. O braço esquerdo dela, com o qual tinha me empurrado, tinha sido vaporizado, deixando apenas uma ferida vermelha e preta fumegando no seu ombro.

Então, Taci estava na nossa frente. Um painel no formato de escudo, feito de eletricidade azul e branca, apareceu em minha frente com o barulho de um trovão, mas a lança vermelha de Taci cortou por ele sem esforço, me cortando no peito. O sangue jorrou pela abertura em minha armadura e tudo ficou preto por um segundo antes de eu voltar à realidade.

Estava caindo. Acima de mim, Varay estava segurando a lança vermelha com um braço feito de gelo semitransparente. Taci girou a lança, quebrando o braço e a lâmina longa cortando Varay.

Minha visão se escureceu e meus olhos perderam o foco. Pisquei e então ela estava caindo.

A cabeça de Varay estava indo em uma direção, e o resto do seu corpo em outra.

Tentei me levantar, mas meu corpo inteiro gritava de dor. Olhando pra baixo, vi que eu tinha sido cortado do ombro até os quadris, através da armadura e da mana. Era difícil dizer se eu já estava morto e minha mente só não tinha percebido isso ainda, ou se o sangue que caia do buraco da minha armadura era o que iria me finalizar.

Mas eu era o único que restava.

Puxei o ar, tremendo, enquanto meus olhos se fixavam onde cada uma das minhas companheiras havia caído. Meu peito se apertou. Uma pressão intensa se acumulou atrás de meus olhos. Grunhindo no fundo da minha garganta, me virei de lado e me forcei a levantar, brevemente consciente de que minhas entranhas não tinham caído ainda.

Taci já estava se movendo para o túnel destruído para começar sua caçada.

— Asura!

Gritei, com a voz rouca e a visão borrada com lágrimas.

Ele parou e me olhou, com os olhos pesados e sem interesse. Uma única gota de sangue brilhante estava espalhada na lateral do seu pescoço onde Aya havia o cortado, apesar da ferida em si já ter se curado.

Apertei os punhos, a pedra abaixo de mim tremia e uma chama intensa de fúria acendia dentro de mim. As lágrimas secaram quando minha determinação se firmou. Estava preparado para a morte, mas saber que as Lanças, os maiores magos de Dicathen, tinham se juntado pra tirar uma única gota de sangue deste Asura era insuportável.

Eu sabia que garantir que os outros escapassem era o verdadeiro objetivo desta batalha, mas isso não significava que eu tinha abandonado meu orgulho. Eu era um Wykes, mesmo que o resto da família não fosse mais digna do nome.

— Fúria do Senhor Trovão

Proferi. O feitiço exigiu todo o meu foco, minha raiva e minha mana.

Meu sangue se tornou em eletricidade nas minhas veias. Uma luz branca começou a sair das feridas em meu torso, queimando em meus olhos e dentro da minha pele. Mana divergente imbuiu cada partícula do meu corpo.

O Asura mudou a lança para uma posição defensiva, seus olhos negros sem vida me penetravam.

Meu grito de guerra foi como um trovão quando deixei sair minha fúria. Um rastro de eletricidade me seguiu quando voei pra cima, me transformando em uma arma na direção de Taci. Me movi como o raio que eu canalizei, irregular e imprevisível, cheguei até ele em um instante. A eletricidade que saía de mim esfaqueou de todas as direções, mil adagas em chamas elétricas penetraram cada centímetro quadrado dele.

Sua lança me penetrou, mas a eletricidade correu pela haste até a sua mão. Quando removeu a arma, um raio atingiu o seu peito.

Sorri, com sangue cheio de eletricidade entre meus dentes.

— Queime, divindadezinha.

Ondas de choque começaram a sair do longo corte em meu peito e cada uma atingia o Asura, removendo suas defesas. Envolvi uma mão ao redor de seu pescoço para garantir que não pudesse escapar, quando a sua lança me penetrou novamente, isso só permitiu que mais do meu poder fluísse.

Uma brisa fresca passou pela minha bochecha, fechei os meus olhos. Estava pronto. Tinha segurado o tempo que podia. Essa era uma morte da qual eu poderia ficar orgulhoso.

Logo antes de eu explodir, uma voz pequena e familiar sussurrou em meu ouvido.

— Você fez o suficiente, Bairon. Não é a sua hora.

Meus olhos se abriram de repente, procurei loucamente pela voz, incerto se era real e com medo de que era minha própria mente pregando peças em mim.

À medida que eu perdia a concentração, a luz que saía de mim foi diminuindo. A lança de Taci subiu, quebrando nosso contato e desceu novamente no meu ombro já estilhaçado. Mal notei quando cai no chão como um meteoro.

Taci limpou cinzas do seu uniforme vermelho. Mesmo o tecido que usava estava ileso, reparei com amargura.

Lutei para colocar meus cotovelos abaixo de mim, pra me levantar e lançar meu feitiço final, fazendo o dano que eu pudesse no Asura, mas a voz veio novamente, cheia de ar e muito real no meu ouvido.

— Não se mova. Não importa o que ver. Não se mova.

Taci caiu ao meu lado. Ele não sorriu com a vitória ou me ofereceu alguma banalidade sobre nossa batalha. Havia uma careta em seu rosto quando levantou a lança uma última vez.

Deixei meu corpo relaxar, finalmente largando o fardo que eu havia carregado desde a queda do conselho. Tinha feito tudo o que podia. Apesar de que eu tinha esperanças de que Virion e Rinia chegassem ao seu destino a tempo, havia um tipo de paz em me submeter às ordens suaves dessa voz estranhamente familiar.

A lança caiu, penetrando meu peito e meu núcleo.

À medida que a escuridão tomava conta de mim e deixava meus olhos se fecharem pela última vez, um pensamento fugaz se alojou na minha fria sonolência.

Eu imaginei que a morte doeria mais.

 


 

Tradução: Reapers Scans

Revisão: Reapers Scans

QC: Bravo

 

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