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O Começo Depois do Fim – Cap. 348 – Colegas

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POV CAERA DENOIR

Mantive meu rosto impassível, meu tom nivelado e minha postura reta entrando em sua sala de aula. Afinal, eu deveria ser vista pelos outros apenas como uma colega, nada mais.

Então, por que, pela graça de Vritra, deixei escapar seu nome, anunciando o fato de que já nos conhecemos?

À minha volta, os alunos começaram a sussurrar chocados enquanto tentavam determinar a relação entre nós. Minha mente já estava girando, tentando imaginar quais deveriam ser minhas próximas palavras para, com sorte, apagar quaisquer rumores em potencial que pudessem se espalhar a partir desta sala. Grey não gostava de atenção e preferi não começar com o pé esquerdo mais uma vez.

Tentei caminhar através da onda de adolescentes mimados quando uma jovem feroz com curtos cabelos dourados entrou no meu caminho.

Ela me fez uma reverência treinada antes de falar alto o suficiente para seus colegas ouvirem.

— Lady Caera do Alto Sangue Denoir, minha mãe e meu pai pediram que eu transmitisse votos de boa sorte a você e ao seu sangue, se nos encontrássemos na escola.

— Você deve ser a mais nova do Alto Sangue Frost. — afirmei.

— Enola

Disse a loira com orgulho.

— Sou uma fã sua desde que suas ascensões anteriores vieram a público. Me esforço para um dia me tornar uma ascendente tão distinta quanto você, Lady Caera.

Eu dei a ela um aceno de cabeça.

— Neste caso, seria bom pra você se tomasse anotações desta aula.

A garota Frost, junto com os alunos ao seu redor, franziram a testa em confusão e ofensa enquanto eu passava. A garota à direita de Enola, que se apegava a ela de uma forma servil que a marcava como sendo do sangue Redcliff, fez uma rápida reverência antes de escoltar sua mestra para fora da sala.

Os sussurros ficaram mais altos enquanto os alunos agora tentavam deduzir o que minhas últimas palavras significavam, mas minha atenção estava no professor de olhos dourados em pé com os braços cruzados no ringue de treinamento.

Grey ficou em silêncio, seu rosto ilegível, mesmo quando travamos os olhares.

Eu temia que ele já soubesse o que havia me trazido para esta escola. Mas pior do que isso, temi que ele não soubesse mas presumisse naturalmente.

— Peço desculpas pela grosseria dos meus colegas.

Uma voz soou, me tirando dos meus pensamentos.

O dono da voz, um jovem magro com pele de ébano e olhos penetrantes, passou por alguns dos outros e estendeu a mão.

— Eu sou Valen do Alto Sangue Ramseyer. Nunca tivemos o prazer, mas—

— Eu tenho negócios com o seu professor.

Interrompi, ignorando sua mão estendida enquanto varria um olhar frio através da multidão de alunos.

— E como ele mencionou… a aula acabou.

O queixo do herdeiro Ramseyer cerrou quando recuou a mão antes de sair andando de uma maneira arrogante. Os sussurros e murmúrios só aumentaram com o resto da classe seguindo o exemplo. Apenas o último aluno a sair ficou sem palavras, seu corpo magro curvado para frente enquanto ele lutava para subir as escadas, seu olhar grudado em seus sapatos.

Endireitei minha blusa quando comecei a descer em direção a ele. Agora que éramos apenas nós dois, minha mente começou a correr, tentando pensar nas próximas palavras para quebrar essa tensão.

Soltando um suspiro, parei no meio da escada e me conformei com as palavras.

— É bom ver você de novo.

Mais uma vez, fui recebida com silêncio, a única mudança em sua expressão sendo uma sobrancelha levantada de suspeita.

Levantei minhas mãos em um gesto apaziguador enquanto também mostrava meu anel a ele.

— Eu apenas vim dizer “oi” e conversar com um amigo.

— E aqui estava eu preocupado que você estivesse me perseguindo.

Respondeu, inabalável em sua impassividade.

Balancei a cabeça seriamente.

— Ah, sim. Porque ansiava por sua presença mal-humorada e vagamente ameaçadora.

A menor contração perturbou o canto de seus lábios.

— Eu não sou mal-humorado.

Soltei um escárnio quando me sentei no assento mais próximo.

— Certo…

Virando as costas para mim, Grey começou a mexer nos controles da plataforma de treinamento. A sala de aula de Kayden tinha algo semelhante, então eu deveria ter adivinhado o que estava para acontecer, mas—

Uma forte pontada de dor subiu pela minha parte traseira e nas minhas costas, fazendo-me gritar e pular do assento.

Gray sufocou uma risada, finalmente abandonando seu comportamento frio enquanto eu olhava para ele.

— Pena que Regis está dormindo. — disse ele.

— Ele teria adorado isso.

Esfreguei no local onde a runa indutora de dor havia me chocado.

— Tão infantil…

Ele teve a boa graça de parecer envergonhado, esfregando a nuca, mas ainda sorrindo como um idiota.

— Eu estava terminando aqui. Quer dar uma caminhada? Devíamos conversar sobre o que aconteceu.

— Não. — rebati.

Depois, soltei um suspiro.

— É, suponho que sim.

Depois que ele trancou seu escritório e guardou a esmo alguns implementos de treinamento, saímos do prédio, caminhando lentamente na direção do Salão Windcrest, onde estávamos ambos hospedados.

— Então…

Comecei depois de um minuto de silêncio constrangedor.

— Professor Grey, hm?

— É. Parece…

— Cauteloso?

Eu terminei por ele.

Ele me deu um aceno rígido.

— Foi uma jogada inteligente.

Afirmei com um leve sorriso.

— O que você fez com aqueles mercenários nas Relictombs… bem, é um segredo aberto que era você, mas depois do seu julgamento, o Alto Salão não tinha interesse em persegui-lo, e os Granbehls deixaram sua propriedade das Relictombs e voltaram para Vechor, onde têm estado muito quietos.

O ritmo de Grey gaguejou e suas sobrancelhas franziram.

— Você está muito bem informada.

— Sim, bem, eu tenho meus recursos

Disse, observando um grupo de alunos passar correndo.

A atividade constante e a agitação do campus sempre foram empolgantes e, de certa forma, exaustivas para mim. Tive professores particulares enquanto crescia, e quando Sevren, Lauden e eu nos socializávamos, era por causa de jantares formais em nossa propriedade, ou na de algum outro Alto Sangue. Só muito mais tarde, quando era adolescente, consegui frequentar a academia, e mesmo assim apenas por duas temporadas. Embora muitos dos alunos aqui fossem de Altos Sangues, meu sangue Vritra me garantiu que eu sempre seria tratada como uma estátua cristalina ao invés de uma pessoa real.

Mesmo nas Relictombs, sempre fui protegida pelo disfarce de Haedrig e pela presença de meus guardas, Taegan e Arian. A academia era diferente, especialmente porque meu sangue adotivo junto com minhas próprias realizações trouxeram uma boa quantidade de atenção indesejada.

— Lady Caera.

Uma voz nítida anunciou atrás de nós. Grey e eu paramos e nos viramos, e vi o rosto de Grey se achatar em uma máscara impassível pelo canto do olho.

O dono da voz era um mago com cabelo excessivamente estilizado e um manto vistoso. Não o reconheci.

— Lady Caera.

Repetiu com uma reverência. Seus olhos permaneceram nos meus, nem mesmo reconhecendo a presença de Grey.

— Uma honra finalmente conhecê-la. Eu sou Janusz do Sangue Graeme, professor de…

— Com licença.

Disse em um tom educado que ainda conseguia transmitir minha rejeição.

— Temo que você tenha interrompido minha conversa com o professor Grey. Talvez possamos falar mais tarde, em um momento mais apropriado.

Com um breve aceno de cabeça, afastei-me do homem, que parecia como se eu o tivesse esbofeteado.

Me virei para Grey, curioso para ver sua reação, mas o ascendente sem coração já havia me deixado.

Idiota, pensei com uma carranca antes de alcançá-lo.

Me vi lançando olhares furtivos para Grey, observando seu perfil afiado enquanto caminhávamos em silêncio.

— Peço desculpas se algum boato se espalhar porque você foi visto comigo.

— Eu não sabia que estar em sua mera presença iria chamar tanta atenção.

Grey disse, seu tom carregando apenas uma pitada de humor provocador.

— Perdoe-me por não saber o quanto isso é uma honra.

— Você está perdoado.

Respondi sabiamente antes de deixar escapar uma risada suave.

— Talvez ter algum drama entre nós faça esses Altos Sangues se esquecerem de mim.

O canto dos lábios de Grey curvaram-se levemente enquanto olhava preguiçosamente para frente.

— Você age como se a única coisa que valorizássemos fosse uma fofoca interessante. — zombei.

— Não é? — Grey retrucou.

Balancei a cabeça.

— Terei que apresentá-lo ao Professor Aphelion. Vocês dois deveriam ser amigos rápido, dado o seu ódio mútuo pela classe nobre.

— Já nos encontramos.

Declarou Grey, antes de voltar seu olhar para mim.

— Mas eu gostaria de saber mais sobre ele.

— Kayden do Alto Sangue Aphelion era um mago distinto.

Respondi enquanto passávamos entre a Capela e o portal das Relictombs. A moldura do portal zumbia com energia, indicando que alguém acabara de usá-lo.

— Uma regalia em sua terceira runa, filho principal de sua casa, e na fila para ser o próximo Alto Lorde antes de ser ferido na guerra.

— Ele estava na guerra?

Grey voltou a esconder suas emoções por trás de um rosto inexpressivo. Poderia muito bem estar usando uma máscara.

— Estava.

Disse, sem saber por que isso iria surpreendê-lo, ou mesmo se ele estava surpreso.

— O boato é…

Me segurei e deixei as palavras sumirem.

— Na verdade, não cabe a mim dizer. Mas é do conhecimento geral que ele foi capturado e torturado pelos cidadãos de Dicathen.

Gray franziu a testa e pareceu se concentrar ao longe. Não pude deixar de me perguntar que memória havia surgido. Ele havia perdido pessoas na guerra?

— Falei algo errado? — perguntei.

— Não. Estou apenas… pensando na guerra. — disse ele.

Parei, mordendo meu lábio enquanto pensava sobre o que Grey havia dito.

De repente, tudo fez sentido. Sua insistência em fazer as coisas sozinho e evitar os outros, a maneira como parecia se afastar de si mesmo sempre que Dicathen ou a guerra eram mencionados, como ele nunca falava sobre sua vida antes das Relictombs…

— Você estava na guerra, não estava?

Gray congelou antes de virar em minha direção, seus olhos normalmente apáticos agora frígidos e afiados.

— O que te faz pensar isso?

Hesitei. Parecia claro como o dia, agora que fiz a conexão, mas também era o interesse de minha mentora por ele. Eu não tinha certeza se poderia, ou deveria, confirmar que Foice Seris era minha mentora ainda.

— Esquece

Disse ele com uma única sacudida afiada de sua cabeça.

— Isso não importa. Sim, estava, mas prefiro não falar sobre isso.

— Sinto muito. É claro. — respondi.

Grey não seria o único soldado que ficou marcado na guerra. Quando recusou o convite dos Denoirs, atribuí isso à sua individualidade frustrante, mas agora podia ver como evitava intensamente qualquer uma das redes políticas tecidas na sociedade Alacryana. Não insisti no assunto, apesar da curiosidade feroz que eu tinha por este misterioso ascendente e seu passado.

Ainda assim, não pude deixar de pensar na guerra enquanto caminhávamos em silêncio. A guerra em si era um tópico regular de conversa entre os sangues nomeados e os Altos Sangues, mas eu nunca me imaginei lutando contra Dicathen, muito menos pensei em como isso poderia ter me mudado.

Nunca ansiei pelo tipo de glória que a guerra traz. Não tinha interesse em matar aqueles que nunca me fizeram mal, independentemente de onde nasceram ou a quem juraram fidelidade.

E por causa dos ensinamentos de Foice Seris, sabia que a expansão do Alto Soberano para Dicathen era egoísta, na melhor das hipóteses, e que não beneficiava o povo de Alacrya, nobreza ou não. Eu não conseguia imaginar ser forçada a lutar por uma causa que não apoiei.

Se minha vida tivesse sido diferente, entretanto, se Foice Seris não tivesse escondido a manifestação de meu sangue, eu poderia muito bem ter sido treinada para o massacre e lançada contra os habitantes de Dicathen.

E então? Eu teria retornado como Grey, quieta, fria e muitas vezes ilegível? Ou eu teria me tornado mais como Kayden, indisposto e agindo como se nada no mundo importasse mais?

Obriguei-me a me concentrar na copa das árvores e nos pássaros cantando ao meu redor, afastando quaisquer pensamentos sobre a guerra. Não havia benefício em pensar sobre tudo isso agora.

Quando finalmente alcançamos o salão Windcrest, segui Grey até seu quarto. Enquanto ele segurava a porta aberta para mim e eu via o interior, não pude deixar de rir.

Ele checou o quarto, carrancudo.

— O quê?

— Desculpe, é exatamente como eu imaginei. Totalmente desprovido de pertences pessoais ou confortos caseiros. Parece que você está pronto para partir a qualquer momento.

Grey me olhou com uma sobrancelha levantada.

— Isso é meio rude. Como é o seu quarto então? Você trouxe toda a sua coleção de bonecos de pelúcia com você?

Fiquei boquiaberta com ele, então estreitei meus olhos e cruzei os braços defensivamente.

— Para que você saiba, eu só trouxe um, e seria um insulto chamá-lo de mero “boneco de pelúcia”, considerando o quão feroz ele parece.

Sua fachada de gelo rachou momentaneamente, deixando passar um sorriso breve, mas brilhante, que me lembrou de nosso tempo nas Relictombs. As coisas sempre foram mais fáceis sem as distrações da vida, normal.

Ajudando-me a sentar no tabuleiro de Disputa dos Soberanos, li a inscrição e corri os dedos ao longo de uma das peças de pedra vermelha.

— Eu gosto do Hercross vermelho e cinza. — disse distraidamente.

— É mais impressionante do que as peças simples em preto e branco que tenho.

Sem preâmbulos, Grey retirou alguns itens de seu armazenamento dimensional.

— Já era hora de eu devolver isso.

Estendeu a adaga de lâmina branca do meu irmão, punho primeiro. O medalhão Denoir pendia dele, refletindo a luz enquanto girava lentamente.

Resisti ao impulso de seguir a localização de Grey usando o medalhão depois que ele foi liberto do Alto Salão. Mesmo quando meus pais e mentora insistiram para que eu espionasse pra eles, não ativei a função de rastreamento. Eu queria ganhar a confiança do homem, e persegui-lo com magia parecia uma maneira ruim de fazer isso.

Ainda assim, havia um certo conforto em saber que eu poderia encontrá-lo se realmente precisasse. A ideia de desistir dessa capacidade me deixava inquieta.

— Fique com eles.

Disse, minha voz tremendo levemente.

— Sevren ficaria feliz em saber que sua adaga continua a ser usada nas Relictombs.

— E você não quer sacrificar seu poder para me rastrear, se necessário. — acrescentou.

As palavras não eram cruéis ou raivosas, apenas prosaicas.

— Não foi o que eu—

— Já perdi a capa do seu irmão. — interrompeu.

— Se esta adaga é tudo que você tem para se lembrar dele, então você deve ficar com ela. Quanto ao medalhão, não vou precisar da proteção do Alto Sangue Denoir.

Tive um nó na garganta quando pensei em Sevren. Lenora e Corbett decidiram que ele devia estar morto e decidiram seguir em frente antes mesmo de eu receber a confirmação de Grey, mas sempre mantive esperanças. Ver Grey com aquela adaga e o manto azul-petróleo que Sevren preferia tinha frustrado essa esperança, mas falhou em fornecer qualquer fechamento real.

— Você está certo.

Disse depois de respirar fundo.

— Obrigada.

O cabo de prata escovado era frio ao toque. Pressionei meus dedos nas ranhuras, mas elas eram grandes demais para mim. Puxando a bainha para examinar a lâmina, minha respiração ficou presa na minha garganta. Inscrito na base da lâmina estava um símbolo: um hexágono com três linhas paralelas esculpidas dentro dele.

— O que é?

Grey perguntou, estudando minha expressão cuidadosamente enquanto se sentava na minha frente.

— Nada, é só que…

Deslizando a bainha de volta ao lugar, guardei a adaga e o medalhão em meu novo anel dimensional.

— Antes, na sala dos espelhos, enquanto eu ainda era…

— Haedrig?

Grey perguntou quando hesitei.

— Sim. Eu disse que tinha estudado éter um pouco.

Grey acenou com a cabeça se inclinando para frente em sua cadeira.

— Foi principalmente Sevren quem estudou éter. Isso é o que a insígnia é: uma runa antiga que significa éter. Três marcas para tempo, espaço e vida, e o hexágono como um símbolo de conexão, ligação e construção. Ele o usou como uma espécie de… assinatura, suponho. Algo que começou quando criança, marcando coisas com o símbolo do éter para dar a elas “poder”. Nunca parou de fazer isso.

— Entendo.

A atenção de Grey permaneceu no anel onde a adaga estava agora armazenada.

— Não percebi. Não tinha visto essa runa em particular antes.

Girei o anel em volta do meu dedo enquanto as animadas conversas com Sevren sobre magia e as Relictombs voltavam para mim.

— Ele achava que havia mais nas Relictombs do que os Soberanos nos contaram. Que, ascendendo, poderíamos aprender como fazer o que eles fizeram… manipular a estrutura da realidade por meio do éter.

Grey começou a mexer no tabuleiro do jogo, movendo um escudo central para a frente.

— É isto que você acha?

Não tinha certeza se ele queria jogar ou estava apenas se mexendo, mas rebati pegando um conjurador ao longo da borda direita para ameaçar qualquer peça que passasse da linha.

— Bem, eu te conheci nas Relictombs, e você pode empunhar éter, então…

Grey estava impassível movendo um segundo escudo para apoiar o primeiro.

Enfiei uma mecha de cabelo azul atrás da orelha enquanto enviava outro lançador ao longo do lado esquerdo da placa para forçar sua sentinela no meio.

A chave para a verdadeira vitória na Disputa dos Soberanos era garantir um caminho através do tabuleiro. Isso exigia premeditação, mas também criatividade. Era um jogo lento e cauteloso. Alternativamente, ao focar apenas na destruição do Sentinela inimigo, era possível terminar o jogo rapidamente, mas muitas vezes deixava os dois jogadores insatisfeitos.

— Nós dois sabemos que você estar aqui não é coincidência.

Grey disse enquanto fazia seu próximo movimento.

— Não.

Admiti, pesando meu movimento, e minhas palavras, cuidadosamente.

— Não é.

Decidindo que uma ação ousada era necessária, movi um atacante para o centro do campo.

— Quando você não se jogou aos pés dos meus pais adotivos após o julgamento, eles arranjaram para que eu ajudasse o Professor Aphelion a fim de espioná-lo e… conquistá-lo, se eu pudesse. Minha mentora.

Segurei o nome de Foice Seris, ainda hesitante em revelar essa conexão.

Me pediu para ficar de olho em você também, separadamente.

O foco de Grey nunca saiu do tabuleiro. Não vacilou, franziu a testa ou piscou. Trocamos alguns movimentos antes que ele falasse novamente.

— Acho que sou muito popular.

Eu fiz beicinho e olhei para ele com raiva.

— Você é uma aberração com a qual ninguém parece saber o que fazer e, por minha própria imprudência, fui algemada com a responsabilidade de ter notícias sobre você.

Grey piscou surpreso, ao que respondi com uma risada genuína.

— Eu só estou brincando… pelo menos parcialmente. Acho que forçar a me tornar uma assistente do Professor Aphelion também foi a maneira de meus pais me punirem por fugir.

O misterioso ascendente coçou desconfortavelmente o cabelo louro-trigo e seus olhos perderam o foco por um instante.

— Oh, então você escolheu acordar agora. — disse asperamente.

Levantei uma sobrancelha para ele, não entendendo até um momento depois, quando a pequena e feroz forma de cachorrinho de Regis saltou de seu lado e caiu no chão com um tropeço.

— De novo?

Perguntei enquanto ele se virava, sua cauda de fogo balançando.

— Seu mestre está abusando de você?

O filhote se jogou de costas e olhou para Grey, o focinho enrugado condescendentemente.

— Meu estado atual foi devido à negligência grosseira dele, sim.

Sorrindo, me abaixei para acariciar a cabeça dele.

— Sinto muito. Você fica muito mais grandioso quando está em tamanho completo.

O peito peludo de Regis inchou.

— Eu sei, ok?

Me virei para Grey, que estava olhando para o filhote de lobo das sombras daquela maneira que ele fazia quando estavam se comunicando mentalmente.

— É rude excluir convidados da conversa, sabe?

Grey fez uma careta e coçou a nuca.

— Estava apenas o mantendo atualizado. Ele esteve fora por um tempo.

Esperei que Grey dissesse mais alguma coisa, para retomar nossa conversa anterior, me perguntar coisas, me dizer para sair, qualquer coisa, mas permaneceu em silêncio. Cansada do jogo, decidi que uma verdadeira vitória não estava nas cartas naquele dia. Usando um conjurador que permiti ficar isolado perto de sua propriedade, matei um escudo encalhado e parei alguns espaços de sua sentinela.

— Você planeja seguir em frente com o que os Denoirs e esta Foice mentora misteriosa pediram?

Ele disse finalmente, deslocando sua sentinela para frente.

Senti o sangue subir no meu rosto. Isso é exatamente o que mais me preocupava: que, mesmo depois de tudo que passamos juntos nas Relictombs, ele ainda não confiasse em mim.

— Se você acha que eu iria espioná-lo mesmo depois de informá-lo de que fui enviada para espioná-lo, então um de nós não merece estar moldando jovens Alacryanos, embora eu não possa ter certeza se esse alguém é você ou eu.

— Por que você está aqui, de verdade?

Ele perguntou, seu olhar firme me prendendo à minha cadeira.

A pergunta não deveria ter me pegado desprevenida, mas eu ainda me debatia para formar uma resposta.

A verdade é que eu não conseguia afastar a sensação de que Grey era de alguma forma a chave para desvendar os segredos das Relictombs. Ele era um enigma, uma pessoa diferente de todas as que eu já conhecia, e não pude deixar de me sentir atraída por ele. Sentada em frente a ele agora, sentindo o peso de sua atenção me esmagando, sabia que era tolice chamar meus sentimentos por ele de românticos. Era um fascínio, e eu sabia que isso levaria a algo perigoso para nós dois.

Queria ver o que ele iria realizar. Não para desfrutar da glória refletida de suas realizações, mas para fazer parte de qualquer mudança que causasse no mundo, para ter o poder de fazer minha voz ser ouvida.

Pegando minha peça de conjurador, fiz meu movimento final.

— Porque eu confio em você, Grey. Não há muitas pessoas nesta vida sobre quem eu possa dizer isso, mas confio em você e ainda espero ganhar sua confiança pra mim mesma.

Ele encontrou meus olhos. Por um momento, sua máscara caiu. Vi surpresa e dúvida nas linhas de sua testa, apreciação na curva de seus lábios, admiração e medo em seus olhos… Seu rosto carregava um mundo de emoções conflitantes, na duração de batimento cardíaco, e quando a máscara voltou a subir no momento seguinte, entendi.

Ninguém conseguia suportar o peso de todos aqueles sentimentos contraditórios o tempo todo, então ele os enterrou.

— Bom.

Disse ele com firmeza, seus olhos no tabuleiro em vez de mim.

— Porque pessoas dignas de confiança são raras, e eu também gostaria de poder confiar em você.

Como se não estivéssemos falando de nada mais urgente do que o clima, Grey agarrou uma peça de atacante e a deslizou pelo tabuleiro, através de uma lacuna em minhas defesas que eu não tinha notado, e a acertou contra minha sentinela. A peça caiu na mesa com um barulho.

Fiquei boquiaberta. Embora Grey tenha me derrotado por acaso quando jogamos nas Relictombs, foi apenas porque eu tinha sido gananciosa, muito focada na verdadeira vitória. Desta vez, ele armou e colocou a isca na armadilha, então esperou que eu caísse nela.

Grey recostou-se na cadeira e cruzou os braços.

— Vamos continuar deixando os Denoirs pensarem que você está fazendo o que eles querem. Envie um relatório, diga a eles o que quiser.

Arrastei meu olhar para longe do tabuleiro, onde eu estava absorta refazendo os últimos movimentos.

— O quê? Tem certeza?

O ascendente de olhos dourados apenas balançou a cabeça.

— A maneira mais certa de perder uma guerra é com um mensageiro traidor.

Regis balançou a cabecinha para seu mestre.

— Ele diz coisas tão assustadoras com tão poucas emoções…

— Bem, agora que todos nós nos encontramos e concordamos em confiar uns nos outros…

Grey se inclinou para a frente e apoiou os cotovelos na mesa, um brilho de fogo em seus olhos dourados como mel.

— O que você acha de me ajudar a roubar uma relíquia morta?

 


 

Tradução: Reapers Scans

Revisão: Reapers Scans

QC: Bravo

 

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