LEVAMOS AISHA E ARUS de volta para casa.
Lilia quase desmaiou ao ver a barriga redonda de Aisha. Depois de cair sentada, levantou-se rapidamente e correu direto para a cozinha. Quando reapareceu com uma faca na mão, corri para segurá-la.
— Me solte! Esta é a única maneira de me redimir…! — gritou ela.
Tirei a faca dela e expliquei onde Aisha esteve, o que aconteceu lá, sobre o que tínhamos conversado e que eu estava satisfeito com o resultado daquela conversa. Lilia parecia exausta depois de ouvir minha explicação, mas se acalmou. Não muito tempo depois, acabou de cama.
Será que Lilia sempre foi uma mulher tão frágil? Ela estava tão pálida que não pude deixar de me perguntar. Por outro lado, no último ano, ela esteve à beira de um colapso por exaustão na maior parte do tempo, então talvez isso fosse inevitável.
Tirei um tempo para realmente conversar com ela enquanto cuidava de sua saúde. Disse-lhe que tinha reservas sobre membros da família se casarem. Mas também expliquei que Aisha e Arus, apesar de quão distorcido seu relacionamento tivesse se tornado, levavam um ao outro a sério. Arus encontrara seu próprio senso de determinação no último ano, e Aisha amadurecera também. Eu sentia que as pessoas deveriam ser livres para viver da maneira que quisessem, pelo menos dentro do razoável. Expliquei tudo isso a Lilia, que ouviu em silêncio.
— Sou uma mulher imoral — disse ela. — Seduzi o Mestre Paul e a Senhora Zenith ficou tão triste e zangada. Acredito que Aisha colocou as mãos no Mestre Arus porque é minha filha. Oh, quantas vezes pensei no último ano… se ao menos eu nunca tivesse dado à luz a ela… Claro, não tenho intenção de dizer isso a ela. Já disse isso à Senhora Zenith, e ela ficou muito chateada comigo.
Zenith estava sentada numa cadeira no quarto de Lilia. Como sempre, eu não fazia ideia do que ela estava olhando. Parecia estar divagando, mas, apesar de sua condição, Zenith estava sempre nos ouvindo e observando.
Se Lilia realmente disse a Zenith que desejava que Aisha nunca tivesse nascido, Zenith provavelmente bateu nela. Diabos, até eu ficaria bravo. Se era assim que ela se sentia, então qual fora o sentido daquele dia em que Paul, Zenith, Lilia e eu conversamos e resolvemos as coisas? Toda a alegria que sentimos quando Norn e Aisha nasceram desapareceria no nada.
— Já foi ruim o suficiente ela ter dormido com ele, mas quando vi o tamanho da barriga dela, senti que ela tinha ido longe demais. Não há volta agora — disse Lilia. — Aisha é minha filha. Ela seduziu um de seus mestres, alguém a quem deveria estar protegendo, e tentou usar o corpo para criar um lugar para si mesma dentro da família. É como se tivéssemos sangue sujo de súcubo correndo em nossas veias. Mesmo que ela não tenha enganado o Mestre Arus para se apaixonar por ela, é claro como o dia que ela teve um efeito no coração dele.
Eu disse a ela que não acreditava que isso fosse verdade. O sangue delas não era sujo. Os dois apenas acabaram se estabelecendo num relacionamento de mestre e servo conosco. Qualquer um trabalharia duro para fazer a pessoa que ama olhar para si. As pessoas afetam umas às outras. Não há como mudar isso.
No caso de Aisha e Arus, eles eram próximos demais e com uma diferença de idade grande demais. Arus podia ser imaturo, mas Aisha também era. Ela tinha mais anos de vida, mas era só isso. Expliquei tudo aquilo a Lilia.
— Mestre Rudeus… O que devo fazer? — perguntou ela fracamente.
— Passei muito tempo pensando antes de falar com Aisha e me senti em paz com as coisas. Lilia, acho que você precisa tirar um tempo para falar com ela e Arus juntos. Com calma.
Ela considerou isso.
— Se fizer isso, sei que vai entender — acrescentei.
Ela entenderia que, apesar de sua imaturidade, Arus tinha um senso real de determinação. Entenderia que Aisha amava Arus genuinamente, à sua própria maneira. Entenderia que talvez Aisha o tivesse guiado a se apaixonar por ela, mas nunca o enganara.
— Tudo bem.
Devo chamá-los? Ou devo dar um tempo?, perguntei-me.
— Pode trazê-los agora — disse ela, respondendo à minha pergunta não dita.
Assenti e saí do quarto.
Na sala de estar, encontrei Aisha e Arus respondendo às várias perguntas das outras crianças com expressões sérias. Chamei-os para falar comigo em particular.
— Sim?
— O que foi?
Contei-lhes sobre a condição de Lilia, suas preocupações, como ela sentia que era culpa dela que Aisha tivesse acabado assim, que ela acreditava que Arus tinha sido enganado e que estava com o coração partido por como as coisas tinham acontecido. Pedi que fossem falar com ela juntos. O par assentiu e se levantou.
— Esperem. — Justo quando estavam prestes a sair, eu os parei.
Havia mais algumas coisas que eu precisava dizer. Três coisas para Arus, para começar.
Primeiro, que ele ia falar com a mãe da mulher que amava, não com a Vovó Lilia. Segundo, que por ser incapaz de proteger a mulher que amava, ele a levara àquela situação difícil. Terceiro, que ele ia tirar a preciosa filha de Lilia dela.
Depois, mais três coisas para ele.
Ele precisava focar em entender: entender o quanto preocupara as pessoas ao seu redor, como suas ações foram erradas e como as ações de Aisha também foram erradas. Precisava entender suas falhas e as dela.
Ele também precisava pensar. O que poderia ter feito melhor para ajudar Aisha em tudo isso? O que precisava aprender daqui para frente? Para fazer isso, precisava saber como Lilia se sentia. Precisava ouvir os verdadeiros sentimentos da mãe de Aisha, a mulher que cuidara e se preocupara com ela mais do que ninguém.
Finalmente, precisava convencer Lilia. Se queria ficar com Aisha, precisava começar por ela.
— Certo! Entendi! — Arus assentiu com uma expressão que lembrava muito a de sua mãe. Fiquei um pouco preocupado, mas sabia que ele tentaria o seu melhor.
Disse a Aisha para ser verdadeira sobre o que nós dois tínhamos discutido e os sentimentos que a levaram a fugir. Ela sabia o que dizer para fazer a mãe ficar quieta, e sabia que mentiras contar para convencê-la a concordar com as coisas. Disse a Aisha para não recorrer a nada disso. Lilia ficaria furiosa, quase certamente, mas Aisha precisava aceitar isso e falar com ela de coração aberto. Isso era o que significava ser franco com alguém.
— Entendi. — Assim como Arus antes dela, Aisha assentiu com um olhar sério no rosto.
Sussurrei boa sorte para eles enquanto os via sair da sala.
Não sei sobre o que Aisha, Arus e Lilia conversaram depois daquilo.
A conversa deles foi longa – cinco horas, seis horas? Talvez mais. Em vários momentos, ouvi Lilia gritando. Em outros, era Aisha quem gritava. Conforme o tempo passava, esses momentos se tornavam mais esparsos até pararem completamente, e então a conversa deles chegou ao fim.
Quando Lilia voltou para o andar de baixo, parecia morta de cansaço, mas também como se um grande peso tivesse sido tirado de seus ombros. Não esperava que ela estivesse completamente livre de reservas, mas tinha certeza de que fora convencida.
Depois disso, Aisha e Arus pediram desculpas à família:
— Sentimos muito por preocupar a todos. Sentimos muito por causar tantos problemas. Sentimos muito por trair a confiança de vocês.
Disseram tudo isso com as cabeças baixas.
Primeiro e acima de tudo, ninguém na família os atacou por suas ações. Lucie fuzilou Arus com o olhar, e Norn repreendeu Aisha, mas foi só isso. Na verdade, parecia que todos estavam aliviados.
Discutimos as respectivas punições de Aisha e Arus em seguida. Isso foi um pouco mais complicado.
Primeiro, Aisha seria expulsa da família. Seu nome seria apagado do registro da família Greyrat por enquanto.
Foi Aisha quem propôs isso. Íamos punir a traidora. Esse tipo de coisa era necessário, não importava aonde você fosse neste mundo. Destinava-se a proteger a dignidade da família Greyrat. Para garantir que não fôssemos subestimados por estranhos.
Dito isso, eu não tinha desejo de punir Aisha tão severamente. Sua expulsão da família era pouco mais do que um arranjo para o público. Ao mostrar ao mundo como a punimos, evitaríamos manchar nosso bom nome ou o que quer que fosse. Eu não gostava, mas tínhamos que fazer.
Apesar disso, era na verdade bastante inútil a longo prazo. Em alguns anos, ela se casaria com Arus e entraria novamente na família.
Então, assim que Aisha desse à luz seu filho, jogaria fora seu nome e seria banida da casa.
Banida era uma palavra dramática. O que ela realmente ia fazer era se matricular na academia real no Reino de Asura. Os eventos que transcorreram a ajudaram a perceber que ainda era imatura. Frequentando a escola, ela poderia se tornar uma pessoa perfeita!
Obviamente não, mas ela queria começar do zero com sua educação. Aisha disse que queria aprender a ser mais tolerante com as falhas dos outros. Isso a separaria de Arus por mais de alguns anos.
Isso deixava sua verdadeira punição: eu tiraria seu filho dela. Aisha não poderia vê-lo até que Arus se tornasse um homem e se casasse com ela. Assim que desse à luz e ficasse com o bebê por um curto período, eles seriam separados. Essa era a punição de Aisha. Eu não sabia se realmente contava como uma, mas sabia o quão doloroso era ser mantido longe de seu filho, então achei que isso era o suficiente.
Embora ela pudesse ter concordado, não pude deixar de hesitar. Tirar uma criança inocente de sua mãe era uma decisão difícil. Sentia-me mal pelo bebê. Íamos assumir a responsabilidade e cuidar dele no lugar dela, mas era possível que isso deixasse uma cicatriz profunda no coração da criança.
Quando considerei isso, parte de mim quis dizer: Isso não é o suficiente? Deixe a Aisha ficar. Ela e o Arus podem ficar de chamego juntos.
Mas Aisha precisava ser punida pelo que fizera, e precisava experimentar as consequências de seus fracassos. Com isso em mente, tudo o que eu realmente podia fazer era mostrar ao filho dela mais amor do que ela poderia.
Depois de ser afastada de Arus, será que Aisha cresceria sozinha? Acontecesse o que acontecesse, eu – não, nós – planejávamos cuidar dela em sua jornada.
Quanto a Arus, ele deveria voltar para casa e retomar seus estudos. Ele era imaturo demais para suportar o fardo de um nível semelhante de punição. Tanto física quanto mentalmente, era incapaz de proteger Aisha. Sua responsabilidade agora era refletir sobre suas ações e dedicar tudo de si para amadurecer.
Assim que atingisse a maioridade, se formasse na escola e fosse reconhecido como homem por mim e por sua mãe, poderia fazer o que quisesse. O que basicamente significava que estávamos bem com ele indo para o Reino de Asura e tomando Aisha como sua esposa. Em outras palavras: Vá assumir a responsabilidade e busque sua mulher.
Arus obviamente não ficou feliz em perder Aisha, mas depois de notar as olheiras sob os olhos dela e pensar nos resultados de sua batalha com a Eris, assentiu seriamente. Ele ainda tinha muito o que crescer, física e mentalmente, mas tinha a determinação de que precisava.
Ele era realmente filho da Eris, o que significava que não tínhamos com o que nos preocupar nesse aspecto. Arus ficaria bem e, quando ficasse, poderia ir até a Aisha.
O mundo em geral acabaria sabendo que Arus tomaria Aisha como esposa. As pessoas provavelmente ficariam confusas e se perguntariam: Ela foi banida ou casada?
Estava tudo bem. Turvar as águas tornaria a verdade mais difícil de entender. Não estávamos no negócio de tornar os detalhes de nossos assuntos pessoais conhecidos por estranhos.
Levei Aisha e Arus para ver todo mundo, para que pudessem abaixar a cabeça e pedir desculpas. Visitamos todos que nos ajudaram a procurá-los. Contei-lhes sobre tudo o que aconteceu. E obviamente, já que foram arrastados para tudo isso, contei-lhes a verdade sobre as punições de Aisha e Arus.
— Hahaha! Fico feliz que os tenha encontrado! — disse Zanoba com sua habitual risada alegre.
— Se você vai banir Aisha, então não se importaria se eu a tomasse para mim, sim? — perguntou Ariel desconfiada, mas eu disse não.
Orsted assentiu com seu habitual olhar assustador.
Alec procurara no Continente Demônio e encontrara Kishirika, que lhe dissera onde o par estava escondido com um olhar presunçoso, mas já era tarde demais.
Ruijerd tinha uma expressão aliviada, porém complicada, no rosto quando ouviu a notícia.
— Hah, então você acabou pegando eles? — disse Perugius com um bufo.
Aparentemente, ele ficara do lado da Aisha em tudo isso, embora sem muito entusiasmo. Eu ia dedurar ele para o Orsted mais tarde.
Quando fomos ao Bando Mercenário, os membros estavam em posição de sentido com os rabos encolhidos e olhando para o ar. Alguns deles poderiam ter me traído para ajudá-la, mas eu não ia puni-los por isso. Muitos deles provavelmente estavam sendo chantageados, e havia também aqueles que ficaram do meu lado, como Linia e Pursena. Ao perdoá-los, ficariam me devendo uma.
Além disso, nada do que aconteceu foram grandes traições causadas pelo Deus Homem. Isso foi apenas um conflito interno. Mesmo se ele tivesse se envolvido, o Bando Mercenário existia em todo o mundo. Tentar destruí-lo seria um saco enorme, e havia um monte de membros que sabiam operar os círculos de teletransporte e as tabuletas de contato. Puni-los teria mais deméritos do que méritos.
Linia e Pursena ficaram do meu lado desde o início, mesmo que não tenham ajudado muito na busca. Elas realmente desceram a lenha nos traidores.
Ei, se isso ajudasse a limpar a organização, eu as deixaria em paz.
Nenhum dos caras que ficaram do lado da Aisha disse que ela os forçou a ajudar, embora parecessem aterrorizados. Por tudo o que ela fazia, eles realmente a respeitavam. Eu esperava que ela entendesse isso.
Ninguém estava realmente bravo com Arus ou Aisha. Eu estava muito grato.
Depois que as desculpas terminaram, chegou a hora do parto.
O filho de Aisha e Arus. O bebê, um menino saudável, era meu primeiro neto. Seu nome era Leroy Greyrat. Era um menino agitado que parecia com ambos os pais; era esperto como a Aisha e adorava seios como o Arus.
Quando perguntei à Aisha por que não criaram o nome Leroy a partir de uma mistura dos nomes deles, ela riu e disse: “Porque não somos você, Rudeus.”
Enfim, ele era meu neto, mas não parecia real. Apenas alguns anos atrás, Chris era apenas um bebê. Parecia mais que eu de repente tinha um novo filho, mas aqui estava eu, um avô de verdade.
Aisha começou a cuidar do filho como se fosse a coisa mais natural do mundo. Você nunca pensaria que era o primeiro filho dela. Fazia sentido, já que ela ajudara a criar todo mundo, de Lucie a Chris, sem pensar duas vezes. Não é como se tivesse criado sozinha, mas aprendeu a fazer tudo. Agora que era mãe, podia lidar com tudo.
Todos ajudaríamos a criar o menino, é claro. Apesar de tudo o que aconteceu, todos aceitaram Leroy na família e cuidaram dele. Isso me deixou muito feliz.
Lilia, em particular, mudou de atitude assim que Leroy nasceu. Ela o mimava tanto que se pensaria que ela nunca tivera reservas sobre Aisha e Arus se casarem. Mas eu entendia o lado dela. Lilia e eu não éramos parentes de sangue, então aquele era seu primeiro neto verdadeiro. Assim que superou o fato de que Arus era meu filho, não teve problemas em amar o menino de verdade.
Ela ficaria bem a longo prazo, mas eu estava um pouco preocupado que o mimasse demais.
Quanto a Arus, ele praticava trocar fraldas com uma expressão super séria no rosto. Estava aprendendo os meandros de cuidar de um bebê com Aisha e Lilia. Eu ia ficar com o bebê, mas Arus cuidaria da maior parte da criação da criança. Obviamente, eu ajudaria, mas Arus precisava aprender o que significava ser pai. Tornara-se pai na jovem idade de doze anos, mas tinha que assumir a responsabilidade mesmo assim.
Ele entendia isso e se esforçava ao máximo para assumir o controle. Além disso, ainda frequentava a escola, e Eris tornara seu treinamento ainda mais intenso do que antes. Ele estava trabalhando duro de muitas maneiras, tudo para que um dia pudesse ir buscar a Aisha.
Hum…
Ocorreu-me que um dia meus outros filhos também se casariam, e eu acabaria com mais netos.
Tudo isso aconteceu cedo demais para o Arus, mas Lucie era maior de idade. Ouvi dizer que ela estava namorando o Clive antes de atingir a maioridade, mas ele se mudou para Millis, e eles perderam contato. Talvez tivessem feito uma promessa um ao outro sobre o futuro, mas a realidade podia ser cruel. Não seria estranho se ela encontrasse um novo amor na academia.
Lara não parecia remotamente interessada nesse tipo de coisa, mas… ela era o tipo de garota que acabaria trazendo alguém para casa do nada. Como sempre, estava grudada no Leo. Provavelmente teria que encontrar alguém que o Leo aprovasse.
As outras crianças eram jovens demais para esse tipo de coisa. Mas, ao mesmo tempo, eu achava que Arus era jovem demais, e ele tinha um filho agora! Quem poderia dizer? Daqui para frente, poderiam acabar com alguém questionável, assim como Arus e Aisha.
E se a Chris gostasse muito de homens mais velhos e, quando crescesse, trouxesse para casa alguém desempregado, acima do peso e com trinta e quatro anos? Sentia que instintivamente diria não, mas teria que me segurar e conversar. Se fosse um homem de meia-idade desempregado, talvez tivéssemos muito sobre o que conversar. Não, isso não poderia ser suficiente para me convencer. Ele teria que mostrar que estava falando sério sobre ela.
— Ora, ora. Você quer meu peito? Poxa, Leroy. Você é tão filhinho da mamãe — disse Aisha.
— Aisha, você não deve mimá-lo demais — repreendeu Lilia.
— Sim, Mãe.
Leroy enterrou o rosto feliz no peito de Aisha. Lilia sentou-se ao lado dela com um sorriso gentil no rosto. Arus tinha um olhar que dizia: Ele não tem jeito mesmo.
Amigão, você está esquecendo que era igualzinho quando era bebê, pensei. Espere um segundo. Se for esse o caso, e se quando o Leroy fizer dez anos, ele for atrás da Lily ou da Chris? Vou acabar sendo bisavô aos quarenta?
Parei para considerar isso.
Não, não. De jeito nenhum.
De qualquer forma, quando as coisas aconteciam, muitas vezes ocorriam de maneiras imprevisíveis. Caso essa hora chegasse, eu queria responder com calma em vez de perder a cabeça como fiz desta vez.
Pensei nisso enquanto olhava para o trio feliz, mesmo que aquele momento não fosse durar.
Chegou a hora de nos separarmos.
Aisha vestia trajes de viagem completamente diferentes de seu uniforme habitual de empregada, e estava parada na entrada da casa com uma bolsa. Dentro da bolsa havia algumas roupas e coisas de seu quarto, mas seu uniforme de empregada não estava lá. O uniforme que ela usara por tantos anos agora estava guardado no depósito do porão.
— Até mais, Leroy…
Aisha segurou o filho nos braços. A criança a quem dera todo o seu amor por apenas alguns dias. Aisha dissera que tirar seu filho dela era uma punição fraca, mas começou a chorar enquanto o segurava. Arus chorou, e Lilia também. Só de olhar para eles ficava claro que Leroy não era uma criança indesejada. Aquilo me levou às lágrimas também.
— Certo… Mãe, Rudeus… Por favor, cuidem bem do Leroy.
Aisha o entregou a Lilia. Leroy olhou para Aisha inexpressivamente, depois pareceu perceber algo, porque começou a chorar rapidamente. Talvez tivesse captado que estava sendo tirado de sua mãe. Aisha acariciou gentilmente a cabeça dele e o beijou.
— Arus, vamos dar o nosso melhor, tá bom? — disse ela.
— Tá — respondeu Arus com um aceno de cabeça.
Ele ainda era pequeno, mais ou menos da mesma altura que Aisha, mas eu tinha certeza de que seria muito mais alto que ela quando se reunissem.
— Ok, pessoal… Vejo vocês de novo.
No fim, Aisha disse isso a todos que estavam lá para se despedir dela. Não Adeus. Não Sinto muito. Mas Vejo vocês de novo. Fiquei feliz em ouvir aquilo.
Aisha passou pelo portão da frente e se virou. Olhou para minhas três esposas. Olhou para as crianças. Então, assentiu levemente com a cabeça. Depois de acariciar gentilmente Byt, que estava enrolado nos pilares do portão, ela partiu.
— Ei… Sylphie, Roxy, Eris?
No caminho de volta para casa, chamei minhas esposas. Todas pararam e olharam para mim com expressões intrigadas.
— Tenho algo sobre o qual quero conversar com vocês. Poderiam vir ao quarto?
— É importante?
— Sim, é.
Uma vez pensei que não fosse necessário. Ainda achava, mas decidi contar a elas de qualquer maneira. Agora que Aisha se fora, eu tinha que contar. Sobre as memórias que eu tinha da minha outra vida. Sobre quem eu costumava ser. Daqui para frente, eu ia conversar com meus filhos sobre todo tipo de coisa, perguntar sobre suas vidas e brincar mais com eles.
Tinha certeza de que acabaria repetindo meus erros. Não importava o quão cuidadoso eu fosse, não importava o quanto eu entendesse, às vezes meu corpo não fazia o que eu mandava. Tinha certeza de que ainda havia coisas me incomodando da minha vida anterior que eu simplesmente não lembrava. Queria que minhas esposas soubessem disso. Dessa forma, se algo me pegasse de novo como aconteceu desta vez, eu poderia ter a ajuda delas.
— Muito, muito importante — murmurei.
Sabia que elas nunca perderiam a fé em mim. Com essa certeza no coração, dirigi-me ao quarto.
Quatro anos se passaram.
Arus herdou a Espada de Luz da Eris.
Ele era agora um Santo da Espada que usava o Estilo do Deus da Espada, e um Mago do Vento de nível Santo. Era um usuário de nível Avançado de magia de água e fogo. Tinha um pouco de dificuldade com magia de terra e cura, mas mesmo assim, era nível Intermediário em ambas e capaz de conjuração silenciosa também.
Como repetira um ano, não foi o primeiro da turma, mas se formou com notas excelentes. Se nada mais, melhorara absurdamente em comparação a onde estava quatro anos atrás. Qualquer um que o observasse durante esse tempo concordaria que ele se esforçou muito.
No dia de sua formatura, perguntei-lhe se sentia que era um adulto que obtivera a força para proteger Aisha tanto mental quanto fisicamente.
Ele me disse que não sabia. Arrependera-se de suas ações anteriores naquele dia em que lutou com a Eris, e sabia que as coisas não podiam continuar as mesmas. Ainda assim, amava Aisha e faria tudo ao seu alcance para protegê-la. Fiquei satisfeito com essa resposta e disse que esperava grandes coisas dele.
Arus me encarou, surpreso.
— Sim, senhor! — disse ele após uma pausa. Assenti, e então ele foi treinar com a Eris para que ela reconhecesse suas habilidades.
Depois disso, foi buscar Aisha no Reino de Asura. Ela se formara na Academia Real e estivera trabalhando sob o comando de Ariel nesse meio tempo.
Aisha mudara um pouco nos quatro anos em que estiveram separados. Tornara-se alguém que tentava entender os sentimentos das outras pessoas. Parou de tentar tirar vantagem das fraquezas de todos, perdeu muito de seu egoísmo e livrou-se de grande parte de sua natureza calculista. Transformou-se no tipo de pessoa que tirava tempo para pensar em tudo e encontrar o melhor resultado, não o mais otimizado.
Poderia se argumentar que ela perdeu seus pontos fortes. Afinal, Aisha não manipularia mais as pessoas ao seu redor em seu benefício, não as chantagearia nem usaria outros truques para obter os resultados que queria. Pessoalmente, eu via isso como crescimento.
Os dois compraram uma casa na Cidade Mágica de Sharia e começaram a viver lá como uma família. Arus, Aisha e Leroy.
Nós nos encontrávamos bastante. Os três vinham frequentemente à nossa casa para visitar, e éramos bem-vindos na deles. Aisha ainda ajudava nas tarefas domésticas e a cuidar do jardim às vezes, como sempre fizera. Mas não usava mais uniforme de empregada. Nunca mais o usou.
Tradução: Gabriela
Revisão: Pride
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