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Matador de Goblins – Vol. 06 – Cap. 03.5 – Recursos Mágicos

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Havia apenas uma porta na câmara mortuária para a qual os aventureiros fugiram. Os outros três lados da sala eram paredes. Tudo o que restava ali eram os detritos espalhados dos goblins.

A sala era completamente estranha às criaturas, que não pensavam em nada, exceto em como aproveitar ao máximo o que a qualquer momento tinham em mãos.

Quando colocaram a mulher no chão, ainda amarrada à cadeira, o Garoto Feiticeiro de repente exclamou:

— Acabamos de deixar que nos encurralem…!

— Ah, não é o necessário caso — disse Lagarto Sacerdote ao lado da entrada, totalmente em guarda. Ele segurava uma Garrespada, a qual já havia amolado com Dente Afiado. E estava sangrando: havia literalmente comprado a fuga com sangue.

— Mas onde estão o Matador de Goblins e…? — Sacerdotisa, por sua vez, estava apoiada contra a parede mais interna, respirando pesado. Manter o milagre Luz Sagrada, mesmo enquanto corriam pelo labirinto, era pedir muito de uma jovem tão fisicamente frágil. Seu rosto estava pálido, sem qualquer sangue, exausto.

Anão Xamã esfregou as mãos ensanguentadas e encontrou uma poção em sua bolsa de itens.

— Tenho certeza de que a Orelhas Compridas e o Corta-Barba nos alcançarão em breve. Aqui.

— Obrigada…

Segurando a poção com ambas as mãos, Sacerdotisa abriu o frasco e bebeu sem pressa, deixando cada gole umedecer os seus lábios. Cada vez que engolia, sentia um pouco de calor retornando ao corpo. Não era tão restauradora quanto um milagre dos deuses, mas os efeitos benignos de uma poção não eram nada desprezíveis.

Ela fechou os olhos e soltou um suspiro. Sim, agora se sentia um pouco melhor. Sacerdotisa ajustou o aperto em seu cajado.

— Temos que cuidar dessa mulher agora mesmo… — falou, mas quando estava prestes a lançar Cura Menor, Anão Xamã a parou.

— Pega leve. Você precisa descansar. Esses ferimentos não vão matá-la tão cedo.

A pequena clériga cambaleou um pouco, então escorregou pela parede e caiu no chão com um baque surdo.

— Obrigada — disse voltando a respirar, mas Anão Xamã só acenou com um “Não pense nisso” em sua direção.

De qualquer forma, com seu nível de habilidade, Sacerdotisa acharia muito difícil recolocar os dedos decepados. Então seria muito melhor guardar o seu milagre.

— Você está bem, criança?

— Sim, sem proble…!

— Bom — disse categoricamente Anão Xamã. Ele sem dúvidas podia ver através da bravata do garoto. E então semicerrou os olhos. — Apenas um conselho — acrescentou. — Ninguém será capaz de ajudar, mesmo se você entrar em apuros de novo, porque você está exausto demais.

— Eu não estou exausto…! — Ao contrário daquela garota ali, parecia sugerir – mas mesmo o garoto não conseguia dizer isso em voz alta.

Ele também se aproximou e se encostou à parede, embora mantivesse distância de Sacerdotisa. E então abaixou os olhos para as mãos. O sangue nelas havia secado e formado manchas vermelhas; esfregou as mãos para tentar removê-las.

Clérigos devem ficar na retaguarda e fazer as suas preces.

Ele percebeu as coisas idiotas que havia dito. Ela havia dado ordens, erguido seu cajado para iluminá-los e correu tanto quanto qualquer um dos outros.

Então olhou para o lado, onde podia ver Sacerdotisa, ainda respirando com dificuldade e tomando a sua poção. Até Garoto Feiticeiro podia entender que ela estava tentando restaurar a sua vitalidade para ficar pronta para a próxima luta.

Ele parcialmente abriu os lábios e voltou a fechá-los. Sua língua parecia grande demais para a sua boca. Então engoliu um pouco de saliva e voltou a tentar.

— Me… des…

— Estão aqui! — A voz aguda de Lagarto Sacerdote o interrompeu.

Garoto Feiticeiro piscou várias vezes, virando-se para olhar para a escuridão do corredor por onde passaram. Ele rapidamente discerniu a luz de uma tocha se aproximando.

— Droga, Orcbolg… ainda está vivo!

— Parece que é mais resistente do que eu esperava.

Alta Elfa Arqueira entrou na sala pulando, elegante como um cervo.

Matador de Goblins correu atrás dela.

E atrás deles…

— OOOLRTTTTR!!

O troll gigante soltava fumaça e balançava a sua clava.

O simples peso dava aos aventureiros uma vantagem na velocidade. Mas se algum deles perdesse o equilíbrio e caísse, seria o fim.

Matador de Goblins e Alta Elfa Arqueira correram, sendo os únicos que ouviram uma enorme clava quebrando as paredes e o chão logo atrás deles.

— Estou cansada disso! — exclamou Alta Elfa Arqueira enquanto irrompia na câmara mortuária. — O que diabos é aquela coisa?! Já cansei! Quero lutar com um monstro legal ao menos uma vez!

— Acho que os legais são ainda mais fortes do que esse — adicionou Anão Xamã.

— Eu mesmo preferiria um dragão — ofertou Lagarto Sacerdote.

Anão Xamã sabia, entretanto, que enquanto estivessem zombando ou reclamando, não havia nada com o que se preocupar. Ele soltou um suspiro.

— Então, o que faremos, Corta Barba?

— Estou pensando nisso — disse Matador de Goblins, olhando ao redor da sala e pelo seu grupo.

Lagarto Sacerdote, Anão Xamã e o garoto ruivo pareciam estar bem.

Alta Elfa Arqueira respirava com dificuldade e Sacerdotisa estava cansada.

Matador de Goblins enfiou a mão na bolsa de itens e pegou duas garrafas, passando-as para as garotas.

— Tomem isso.

— O qu…? Ah…

— Uma poção de Vigor, eh? Obrigada.

Sacerdotisa parecia um pouco confusa, mas Alta Elfa Arqueira abriu a garrafa de bom grado e tomou todo o seu conteúdo.

Cada um deles tinha o seu próprio suprimento de poções, mas, naquele momento, não havia tempo para questionar o que era de quem.

— E-então tá… Obrigada… — Sacerdotisa hesitou muito mais do que Alta Elfa Arqueira, mas acabou levando a garrafa aos lábios. Era a sua segunda poção de Vigor. A cor cada vez mais saudável de suas bochechas contrastava com a expressão sombria ainda em seu rosto.

— Bom, estamos todos preparados — disse Matador de Goblins, percebendo a mudança dela com o canto do olho. — Quero água. Pode produzir com um feitiço?

Embora a pergunta não tivesse sido dirigida especificamente a ele, Garoto Feiticeiro fez um barulho de desconforto. Bola de Fogo era o único feitiço que sabia, e já havia usado toda a magia que podia naquele dia. Ele de alguma forma achou que esse homem saber esse tanto era profundamente humilhante.

— Não adiantaria aprender um feitiço desses — descobriu-se falando o garoto, quase fazendo bico.

— É mesmo? — respondeu Matador de Goblins.

Percebendo a situação, Anão Xamã logo interveio.

— Água? Bem, se a da chuva for boa o suficiente, podemos dar um jeito. Pode ser um pouco fraca, mas aqui tem um teto e tudo mais.

O rugido e os estrondos do troll estavam se aproximando.

— Pronto — sussurrou Lagarto Sacerdote.

— Mas escuta, Corta Barba. Agora você não pode só usar um dos seus truques de sempre.

— Não importa — disse bruscamente Matador de Goblins. — Um banho será o bastante.

— Então tá.

— E precisaremos de mais Luz Sagrada. Consegue fazer isso?

— Eu… — A voz da Sacerdotisa tremia, e ela teve que morder o lábio para forçar as palavras a saírem. — Sim, eu… Eu consigo. Eu farei!

— Bom. — Isso resolve tudo. Assim que Matador de Goblins fez esse pronunciamento, o inimigo já estava sobre eles.

— OLTROOOR!!

As salas e passagens do mausoléu eram grandes o suficiente para que um troll se movesse com facilidade. A visita de quem os construtores esperavam neste lugar?

— Eeyah!

— Olha a…

Sacerdotisa demorou um pouco para se agachar e Alta Elfa Arqueira saltou para cobri-la.

Os pregos de metal da clava roçaram o seu cabelo, cortando as fitas que usava para amarrá-los para trás.

— Você está bem?! — perguntou Sacerdotisa.

— Não se preocupe comigo! — gritou Alta Elfa Arqueira, seu cabelo em desordem. — Só faça!

Ó Mãe Terra, abundante em misericórdia, conceda tua luz sagrada para nós que estamos perdidos na escuridão!

Ela ergueu o seu cajado o mais alto que pôde, de onde estava jogada no chão, oferecendo súplicas misericordiosas à deusa. E, claro, a Mãe Terra estava longe de negar o pedido rasgalma de sua devota seguidora.

— RRLLRTTOOR?!

Houve uma explosão de luz quase solar. O flash preencheu a câmara, inundando-a com iluminação sem fim.

O troll cambaleou para trás e, na mesma hora, pôde-se ouvir o grito de Matador de Goblins:

— Água!

— Certo! Vá agora, kelpie, é hora de se ocupar! Terra no rio e mar no céu, torne tudo confuuuso! — entoou o Anão Xamã, segurando uma pequena estatueta de cavalo que tirou da sua bolsa de catalisadores. Assim que ele falou, ouviu-se um relincho agudo e um vento úmido galopante, logo transformando-se em uma garoa.

Como havia dito o Anão Xamã, o ato de invocar um kelpie para produzir uma precipitação não era nada mais do que Chamar Chuva.

— Todo seu, Corta Barba!

— Depois… Isso. — Enquanto falava, Matador de Goblins pegou uma coisa de sua bolsa de itens e a jogou no troll.

— ORLTLRRLR?!

Na mesma hora o monstro começou a berrar. Sua pele acinzentada e porosa começou a rachar e quebrar enquanto olhavam, iniciando pelas partes queimadas.

Quando alguém deve limpar algum lote e precisa se livrar de uma pedra enorme, a rocha às vezes é aquecida até ficar muito quente e, depois, água fria é aplicada a ela. Isso faz com que a rocha acabe rachando, e depois fica fácil quebrá-la com um martelo.

E quanto ao troll? Era feito de rocha, dizia-se que se transformava em pedra quando exposto à luz do dia. E era exatamente como um hipotético pedregulho.

— TLRORL?!

O troll, entretanto, não entendeu o que acontecia. E pensar que a bruma desceria sobre ele só por ser salpicado com um pouco de água!

— TTLLOOTTTTTL?!

— Simples, mas surpreendentemente eficaz — comentou Matador de Goblins, observando o troll enquanto ele agarrava o próprio rosto e se debatia.

Não estava totalmente claro se mesmo Matador de Goblins entendia a ciência por trás do que havia feito. Mas o que importava era o resultado das suas ações.

O pó de fogo – chamado pelos alquimistas de salitre – absorveu a água e o calor do troll, acelerando o processo de resfriamento.

— Onde no mundo ele aprendeu a fazer isso…? — perguntou Alta Elfa Arqueira com um toque de aborrecimento.

— Ah…! — Sacerdotisa se pegou pensando em sua visita à cidade da água.

Lembro dele perguntando sobre como fazer guloseimas geladas…

— ORLT?! TOORLRLOT?!

Talvez fosse isso uma evidência de poderes curativos ou não, ser resfriado por um choque e imediatamente depois superaquecido era demais para se suportar. O troll, angustiado por seus ferimentos não mostrarem sinais de regeneração, começou a se debater em um surto de loucura.

Com uma risada sibilante, Lagarto Sacerdote torceu as suas mandíbulas em um sorriso bestial.

— Muito impróprio, isso. Devemos poupá-lo de sua miséria? — Ele saltou no monstro, rapidamente seguido por um disparo de Alta Elfa Arqueira.

— O que quer que seja essa grande criatura — disse Matador de Goblins, jogando sua arma para longe, mas imediatamente pegando outra espada entre os detritos —, assim que terminarmos, iremos matar todos os goblins.

O destino do troll dependeria sempre do que acontecesse com os goblins restantes. Em meio a tudo isso, porém, o garoto, escondendo-se atrás da retaguarda, observava Matador de Goblins com real intensidade.

Agora entendo. Ele está certo – o que eu disse para aquela garota foi terrível.

Mas quem era esse homem, que parecia considerar um troll pouco mais do que um incômodo, mas tão ansioso para caçar goblins?

Sim, o jovem foi descuidado. Ele agiu como o novato que era. Tinha uma parte na responsabilidade e culpa.

Mas eu simplesmente não posso admitir que este homem, dentre todas as pessoas, estava tão certo…!

— Ah, vamos lá. Se um anão não tomar um gole agora, quando é que isso vai rolar?

— Certo, muito bem então. Este é pelo nosso retorno seguro; pelo futuro daquela acólita, e por um monte de monstros mortos!

Ouçam, ouçam! Suas vozes ressoaram, seguidas rapidamente pelo barulho de copos e respingos de vinho.

Há uma razão pela qual aventureiros e álcool começam com a mesma letra; estão inextricavelmente ligados.

Muitos grupos estavam relaxando na taverna da Guilda após mais um dia de trabalho.

Nossa, mas o inimigo daquele dia foi difícil. Bem, quem usaria a espada encantada que encontraram? Que graça, aquela garota da aldeia era linda.

A pior parte foi quando você errou aquele ataque. Mas então houve aquele golpe final. Muitas chances para usar feitiços.

A celebração da vitória tinha que chegar primeiro. Em seguida, uma consideração cuidadosa do que poderia ter saído melhor. Eles riam dos erros de seus companheiros e regavam seus sucessos com elogios.

Dividiam o saque obtido, discutiam sobre a possibilidade de vender ou usar qualquer equipamento obtido e falavam com entusiasmo sobre a próxima aventura.

Por convenção, os aventureiros não discutiam ou reclamavam sobre equidade durante a aventura em si. Ninguém queria uma briga no meio de uma masmorra. Esses detalhes eram reservados para “depois da sessão”, o tempo após o término da aventura. Nessa fase, o grupo deixava tudo rolar, para que nada ficasse não dito, para que, se na próxima vez morressem, pudessem fazê-lo sem arrependimentos.

O grupo de Matador de Goblins seguia essa tradição.

— O que há de errado com você, Orcbolg? Sei que você não é muito de conversar, mas podia dizer ao menos algo em um momento como este!

— É mesmo?

— Com certeza!

Embora Alta Elfa Arqueira estivesse apenas bebendo do seu próprio vinho aguado, estava mais do que feliz em servir aos outros enquanto esvaziavam os seus copos. Era menos pela função do que por diversão pessoal – talvez não o melhor lado da sua personalidade; mas a bebida talvez já estivesse subindo à cabeça.

Em contraste, Matador de Goblins calmamente derramou vinho entre os sarrafos de seu visor, como sempre.

— Sinto muito, milady garçonete, mas posso incomodá-la por um pouco de salsicha?

— Claro, mestre lagarto! O de sempre? — Garçonete Felpubro apareceu abrindo caminho através da multidão de aventureiros, ziguezagueando entre assentos e mesas. — E queijo por cima, correto?

— Ah, doce néctar! Sim, indubitavelmente! — E então Lagarto Sacerdote, tendo pedido um acompanhamento para a sua bebida, bateu com o rabo no chão. Tudo isso foi como de costume, mas…

— Ahh, vamos lá, seu copo está ficando solitário! Beba!

— Certo…

Sacerdotisa, por exemplo, não parecia consigo mesma, sentada com ombros caídos.

Na verdade, era ela quem sempre assiduamente servia todos, certificando-se de que todos os copos continuassem cheios. Caso contrário, seria de se esperar que Alta Elfa Arqueira ficaria totalmente libertina com sua comida e bebida.

— Eu só… Sabe, hoje… — Sacerdotisa parecia que ia começar a chorar a qualquer momento. Seu olhar sombrio não era o mais adequado para uma clériga, muito menos para um grupo como este.

Então, mais uma vez, seria difícil culpá-la. Foi a sua primeira experiência como líder de um grupo, e foi razoavelmente bem – até que ela se atrapalhou. Funcionou, mas só porque um dos outros membros do seu grupo conseguiu assumir tudo. Mas se ele não tivesse o feito, certamente seriam eliminados.

Assim como em sua primeira aventura.

— Aww, vamos lá! Ainda estamos todos aqui, não estamos? Não se preocupe! — Elfos que viveram dois mil anos não estavam inclinados a se preocupar com detalhes tão triviais. — O que, você esperava entrar no jogo e ser capaz de administrar tudo com perfeição? — O tom e a expressão da Alta Elfa Arqueira (como testemunha a grande contração de suas orelhas) deixaram claro o quão bobo ela achava que era isso. — Isso está além até mesmo de um elfo. Se você encontrar um elfo capaz disso, puxe as suas orelhas, porque garanto que estarão presas.

— Pela primeira vez você está fazendo sentido, Orelhas Compridas!

— Pfft! Eu sempre faço sentido! — respondeu ela, estufando seu pouco peito.

Mas isso durou apenas um momento. Seus olhos ficaram semicerrados e ela virou o rosto vermelho para o outro lado da mesa.

— Enfim, e quanto a você?

Além do Matador de Goblins e Sacerdotisa, havia mais uma pessoa à mesa que não falava muito. Era o jovem, que apoiava o queixo em uma das mãos, amuado, e empurrava um pedaço de salsicha por todo o prato.

Fazia certo sentido: fora sua primeira aventura e não tinha quase nada do que se orgulhar. Ele correu à frente, pensando muito de si, e caiu direto em uma armadilha. Sua magia seria o ás na manga, e a usou na hora errada.

Sua experiência parecia quase o oposto da glamorosa aventura com que tantos sonhavam.

Bem, acho que é a sua realidade. Alta Elfa Arqueira soltou um suspiro e voltou a cuidar da sua bebida, como se já tivesse perdido o interesse.

— Não há necessidade para tanta consternação — disse o Lagarto Sacerdote. — Você voltou da sua primeira aventura em segurança, e isso é motivo suficiente para comemorar.

— Ele está certo, garoto. Nem todo mundo encontra um troll logo na primeira vez. — Por bem ou por mal. Anão Xamã deu um tapinha nas costas do garoto emburrado e tomou um gole de vinho.

— Se aquele troll idiota não estivesse lá — disse o garoto —, então nem eu teria problemas com aqueles goblins…

— Em todo caso, há uma só coisa a fazer — disse o anão, generosamente enchendo o copo do garoto. — Beba! Este é um vinho decente.

O garoto olhou para o copo como se fosse mordê-lo, então virou tudo em um só gole.

— Guh?! Cough! Hack! Ugh! — Ele engasgou com o álcool que feriu a garganta.

— Então, vê? Na primeira vez que você tenta não dá certo! — A risada do Anão Xamã foi um pouco maldosa e um pouco encorajadora. O garoto lançou-lhe um olhar ressentido e abriu a boca como se fosse dizer algo.

Antes que pudesse falar, entretanto, se viu com a boca cheia de salsicha e surpreendeu-se com um prato da coisa.

— Vamos, agora, acalme a sua língua com o gosto da minha salsicha coberta com queijo.

A carne, tão quente que chegava a fumegar, estava parcialmente enterrada em um queijo derretido e pegajoso. Lagarto Sacerdote pegou um pouco da sua própria porção (visivelmente maior que qualquer outra) e enfiou na boca. A pele da salsicha estalou enquanto ele mastigava; sua boca enchendo com os ricos sucos. O salgado dos condimentos realçava a doçura do queijo, uma perfeita combinação.

— Néctar! — exclamou ele, juntando as mãos como se em adoração. Então ofereceu um prato para Sacerdotisa. — Pegue um pouco. Delicioso, isso garanto. E auspicioso também. Afinal, uma refeição deliciosa é a coisa mais encorajadora após uma experiência difícil.

— Acho que você está certo… — Com muita hesitação, Sacerdotisa aproximou seu garfo da salsicha. Ela espetou um pedaço e levou à boca, que se abriu apenas o bastante para uma mordiscada.

— Eu também… queria ter feito melhor lá.

— Ha! Ha! Ha! Ha! — riu jovialmente o Lagarto Sacerdote. Sacerdotisa o encarou. Ele estava de pé, alegava que seu rabo atrapalhava quando tentava se sentar em uma cadeira. Isso só serviu para enfatizar a sua altura.

Sacerdotisa estufou um pouco as bochechas, recebendo um aceno aprovador do homem-lagarto.

— Esse fogo no coração é uma coisa boa. Se não desejar fazer nada, nunca o fará. O que é o progresso senão a tentativa de seguir em frente? — Um dedo escamoso apontou para cima, desenhando um círculo no ar. — Os nagas, meus temíveis ancestrais, primeiro rastejaram nos pântanos antes de caminhar na terra com quatro patas, donde tornaram-se nagas.

Este era um mito dos homens-lagarto. Sacerdotisa não estava familiarizada com isso.

Detritos no mar tornaram-se peixes, então os peixes emergiram na terra, pisaram no solo, levantaram-se e por fim tornaram-se os nagas que tudo governavam.

Era a maneira do homem-lagarto falar de progresso, ou talvez evolução; sua cultura o encorajava a seguir sempre em frente.

Embora isso fosse tudo muito interessante, Sacerdotisa não tinha certeza do que significava para ela, e acabou revelando um sorriso ambíguo.

Posso ao menos entender que ele está tentando me encorajar.

— Ei, a propósito — disse Alta Elfa Arqueira, interrompendo no momento em que Sacerdotisa dava uma mordiscada na salsicha, que então não teve nada a dizer. Sem dúvidas, a elfa não tinha a intenção de ajudar a garota; apenas tinha a tendência de saltar para qualquer assunto que lhe aparecesse à cabeça. — E quanto àquilo, sabe; a garota acólita? O que aconteceu com ela? Vai ficar bem?

— Ah, sim — disse Sacerdotisa, balançando a cabeça rapidamente e enxugando os dedos que estiveram em sua boca. — Conseguiram recolocar os dedos dela. Assim que ela descansar, vão pensar no que fazer depois.

— Que bom ouvir isso. Digo, sei que ainda é difícil, mas enquanto continuar viva, sempre há algo mais que possa fazer.

Para a Alta Elfa Arqueira, foi apenas um comentário passageiro. Por isso, foi ainda mais surpreendente quando uma resposta voltou-se a ela.

— Às vezes você está vivo e ainda não há nada que possa fazer! — Era o garoto.

Ele estava olhando para a Alta Elfa arqueira com tanta intensidade que poderia destruí-la com o poder de seu olhar penetrante.

— Ela foi derrotada por goblins, não foi? Nunca vai superar isso. Sem chances.

— Q-qual é o seu problema? — disse a elfa, franzindo os lábios e parecendo um pouco intimidada. — Não acho que isso seja tão certeiro…

— Bem, mas foi assim para a minha irmã mais velha! — gritou o garoto, batendo na mesa circular com a mão.

Alta Elfa Arqueira recostou-se em choque, suas orelhas murchas contra a cabeça.

Os pratos chacoalharam, a comida derramou e o vinho caiu quando o garoto bateu na mesa. Lagarto Sacerdote rapidamente começou a pegar os pratos maiores, com Anão Xamã ajudando. Pareciam ter se nomeado os guardiões do jovem bêbado.

Eh, os jovens costumam ficar assim depois de um pouco de vinho.

Isso era melhor do que manter os sentimentos só para si. Essa, pelo menos, foi a avaliação do anão.

— Ela perdeu para os goblins! As coisas que eles fizeram…!

— Irmã mais velha? — disse uma voz muito baixinha.

Reflexivamente, o olhar de todos os aventureiros sentados à mesa voltaram-se ao orador. Era Matador de Goblins, que até o momento estava bebendo o seu vinho em silêncio.

— Você tem uma irmã mais velha?

— Eu tinha uma irmã mais velha! — gritou o garoto. O álcool havia despertado as suas emoções, e então as palavras saíram em uma torrente. — E eu ainda a teria, se ela não tivesse morrido depois de ser esfaqueada com uma lâmina envenenada por um goblin!!

— Hã…?

Ninguém pareceu notar o sangue fugindo do rosto de Sacerdotisa após aquele comentário.

Seus pensamentos tornaram-se uma estonteante mistura de Claro e Não pode ser…

Suas mãos tremeram um pouco. Sua garganta secou mesmo enquanto engolia saliva; a ela soou terrivelmente alto.

Uma lâmina envenenada. Morta por um goblin. Cabelos ruivos. Uma lançadora de feitiços.

Como poderia esquecer?

— Minha irmã era incrível! Se aqueles goblins não tivessem usado veneno, teria os arrasado! — disse o garoto com uma espécie de meio gemido. Então atirou o seu copo com toda a força que pôde.

Oop. Lagarto Sacerdote o agarrou com a cauda.

— Mas aqueles bastardos da Academia, eles só…! Podem ir direto para o inferno.

Com essas últimas palavras, quase sussurros, o garoto desabou na mesa.

As vozes dos outros aventureiros na taverna pareceram diminuir por um momento? Ou tinham escutado o garoto gritando? Havia mais algum presente olhando para ele?

Bem, mesmo se houvesse, não teria dito nada.

Tornar-se um aventureiro era o mesmo que ser responsável por si mesmo. Todos tinham algum fardo que carregavam ou alguma esperança abraçada. Buscavam riquezas, ou fama, ou renome marcial, ou disciplina, ou dinheiro, ou sonhos, ou ideais, ou fé.

Embora não houvesse dois iguais, o peso do que havia em seus corações era o mesmo.

Como poderia comparar o desejo de colocar comida à mesa no outro dia e o de sondar as profundezas de ruínas desconhecidas? Que diferença havia entre um iniciante dando tudo de si e lutando contra ratos gigantes nos esgotos e um velho lutando cara a cara com um dragão?

Era por isso que ninguém disse nada.

A exceção – a única – era o homem que, apesar de ser um aventureiro experiente, continuou a caçar goblins.

— É mesmo…? — murmurou baixinho o Matador de Goblins, sua própria voz soando com um gemido muito semelhante ao do feiticeiro.

Ele pegou o seu próprio copo e tomou um gole.

Então houve um barulho quando levantou-se da mesa.

— Estou voltando. Encontre um quarto para ele. Não importa onde.

Houve um clique silencioso da sua língua. O garoto ainda não havia conseguido um quarto em qualquer pousada.

O aventureiro tirou uma única moeda de ouro da bolsa em seu quadril e a jogou sobre a mesa.

— Isso deve cobrir as despesas.

— Claro, nós cuidaremos disso. — O Anão Xamã acenou com a cabeça, mas não disse mais nada, só pegou a moeda com seus dedos grossos.

— Ah… — Sacerdotisa parecia estar, talvez, prestes a dizer algo para o homem enquanto ele passava. Sua boca abriu, mas nada saiu, exceto, em uma voz baixa, o nome dele. — Matador de Goblins, senhor…

— Descanse um pouco.

Ela encontrou uma luva de couro surrado colocada em seu ombro delicado.

No momento em que se moveu para colocar a sua pequena mão sobre a dele, já tinha ido embora.

Ela olhou para um lado e para o outro, à sua procura; o viu dirigindo-se para a porta com os seus passos despreocupados de sempre.

— Espera aí, Orcbolg! — gritou a Alta Elfa Arqueira, sua voz cortando o burburinho da taverna. — E amanhã? Vamos fazer uma pausa?

A resposta foi curta e fria.

— Não sei.

Assim que ele começou a empurrar a porta de vaivém da Guilda, Matador de Goblins encontrou-se com outro aventureiro que entrava.

— Nossa! Se não é o Matador de Goblins! — exclamou um homem bonito, mas de aparência durona. Era o aventureiro empunhando a lança.

Talvez ele mesmo retornasse de uma aventura. Estava coberto de sujeira e poeira, e cheirava um pouco a sangue.

— Não pule para cima de mim desse jeito, cara, você me assustou pra…

O que quer que ele estivesse prestes a dizer, engoliu. Em vez disso, olhou atentamente para o capacete de aparência barata de Matador de Goblins.

— Qual é o problema…? — perguntou ele. — Aconteceu alguma coisa?

— Nada.

Matador de Goblins praticamente empurrou Lanceiro para o lado quando deixou a Guilda.

Lanceiro ficou parado na porta, olhando para ele como se não pudesse acreditar no que tinha visto.

Nunca tinha se deparado com Matador de Goblins empurrando alguém.

Não há nada que os aventureiros gostem mais do que uma boa bebedeira.

A farra dentro da Guilda atravessava as paredes e janelas para dar um ar de alegria à noite.

Se um aventureiro estivesse encolhido em algum beco, em algum lugar tão escuro que nem mesmo a luz das luas gêmeas o alcançava, quem notaria?

Armadura de couro de aparência barata e um capacete encardido. Mesmo um novato recém-chegado teria equipamentos mais sofisticados.

Era perfeitamente comum: um aventureiro novato, trôpego com o alívio de sobreviver a uma aventura, começa a beber demais.

— Uma irmã mais velha, ele disse…? — rosnou o aventureiro, colocando o capacete de lado.

Ele pensava que tinha sido capaz de realizar pelo menos uma coisa?

Pensava que tinha conseguido fazer ao menos uma coisa certa?

— Idiota…

Ele cerrou os dentes e os punhos, mas não fez nada para aliviar a sensação de que havia um peso de chumbo em seu estômago.

Incapaz de resistir à onda de náusea, no beco vomitou.

 


 

Tradução: Taipan

 

Revisão: Shibitow

 


 

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