Dark?

Como um Herói Realista Reconstruiu o Reino – Vol. 04 – Cap. 05.1 – Mensurando a Nostalgia e o Futuro

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— Um dia no 12º mês, 1.546º ano, Calendário Continental —

A capital real estava totalmente envolta em uma atmosfera invernal, e houve tantos dias frios consecutivos que parecia que a neve iria começar a cair em breve. Era uma manhã em que eu realmente não queria sair debaixo de um cobertor quente.

— Tenho alguns negócios importantes para resolver na cidade castelo hoje… — falei, trazendo o assunto à tona enquanto tomava o café da manhã com minhas quatro noivas, como de costume. — Ajudaria se uma mulher viesse junto. Uma de vocês se importaria?

— É a trabalho? Não parece que você está indo para se divertir. — Liscia perguntou como representante do grupo, ao que concordei com um sorriso irônico.

— Infelizmente, sim. É um assunto importante desta vez, então, tenho que ir pessoalmente.

— Entendo… eu posso ir. E quanto a vocês? — perguntou Liscia, direcionando o assunto para as outras três. Parecia que ela já tinha a dignidade da primeira rainha, deixando todas as outras juntas sob ela.

Roroa foi a primeira a levantar os braços acima da cabeça em um X.

— Infelizmente, você vai ter que me excluir. O Querido já me pediu para negociar com a guilda dos comerciantes.

— Sobre tornar os comerciantes de escravos em funcionários públicos, você diz? — perguntou Liscia.

— Isso mesmo. O Querido já transformou os comerciantes de metais usados ​​em funcionários públicos e os fez trabalhar na indústria de reciclagem, ou algo parecido, mas desta vez não vai ser tão fácil. Os comerciantes de metais usados ​​eram como catadores de lixo, então não faziam parte de uma guilda. Comerciantes de escravos, por outro lado, embora possam ser desprezados, são membros registrados de uma guilda. Se os retirarmos da guilda e os colocarmos sob o controle do estado, isso estará efetivamente criando um monopólio sobre os escravos.

Roroa pegou o saleiro enquanto dizia isso, então continuou:

— Se fosse metal ou sal, haveria algum precedente, mas nunca ouvi falar de alguém criando um monopólio sobre escravos antes. Escravos não são algo que você produz para consumo local. Naturalmente, eles também vêm de outros países. Se estamos nacionalizando o comércio de escravos, precisaremos interromper esses fluxos vindos de outros países. Como servidores públicos, os seus salários serão estáveis, mas nunca ganharão dinheiro de mão beijada. É por isso que os comerciantes de escravos que querem ganhar muito dinheiro irão para outros países. Também haverá alguma resistência.

— Estou pronto para enfrentar alguma resistência nesse assunto — falei.

Eu estava bem com escravos condenados serem sentenciados a trabalhos forçados, mas queria acabar com a era em que mulheres e crianças eram vendidas para que houvesse menos bocas para alimentar e onde era dado como certo que o filho de um escravo também era um escravo. Isso não era apenas do ponto de vista humanitário, mas também para tornar este país mais próspero como um todo.

No entanto, Roroa, que fora encarregada das negociações, tinha uma expressão sombria.

— Tenho certeza de que seu objetivo é reduzir o número de escravos, Querido… mas não tenho certeza se há escravos condenados e escravos econômicos neste país para atender à demanda. Esse é um grande problema.

— Vai ser muito difícil? — perguntei.

Roroa balançou a cabeça.

— Eu vou conseguir. Afinal, quero ver este mundo sem escravidão que você tem me falado. Onde todos ganham dinheiro, todos usam dinheiro e todos fazem a economia girar… Esse é o mundo que eu quero ver.

Contei à esperta Roroa um pouco sobre a história econômica do meu mundo. Havia contado a ela sobre a era da revolução tecnológica em que os produtos começaram a ser produzidos em massa. Havia demanda por mercados para vender esses produtos, e então, houve um movimento para libertar os escravos que não possuíam bens, a fim de criar esse mercado.

Naturalmente, eu sabia que havia pessoas que lutaram sob a ideologia de que todas as pessoas deveriam ter direitos iguais. Eu não podia negar o trabalho árduo dos escravos que lutaram para ganhar sua própria liberdade, ou os esforços daqueles que desejavam que eles fossem livres. No entanto, como em qualquer sistema, sempre se resumia a se esse sistema era ou não adequado para a época em que existia.

A guerra entre o Norte e o Sul dos Estados Unidos foi chamada de guerra de emancipação, mas foi mais porque o Norte sustentou o ideal de libertar os escravos para reunir apoio contra as forças do Sul, que incluíam muitos donos de plantações. O que antes havia sido considerado um ideal impraticável, foi realizado no momento em que se alinhou com os fatos da situação.

Por outro lado, não importa quão maravilhoso seja um ideal, se não estiver de acordo com a época, será pisoteado.

No final das contas, é uma questão da época em que vivemos. Quer dizer, mesmo quando a escravidão acabasse, teríamos conflito entre a classe capitalista e os trabalhadores esperando por nós na próxima era. Porém, na história que contei a ela, Roroa parecia ver uma nova fronteira.

— Pode ser um pouco difícil de lidar, mas se nos movermos junto com o Império, pode ser feito — disse ela. — Se metade do território governado pela humanidade neste continente está se movendo para reduzir a escravidão, será difícil se oporem a nós. Então, quando houver falta de mão de obra, embora isso seja inverso à causa e efeito de sua história, Querido, a tecnologia terá que avançar para preencher a lacuna.

— Sim — falei. — Tenho algumas idéias em relação a isso. Pode deixar isso comigo.

— Estou contando com isso. Porque eu farei o que estiver ao meu alcance.

Eu concordei.

— Estou contando com você.

— Mwahaha. Diga isso novamente.

Roroa e eu cruzamos os braços com firmeza. Eu realmente contava com ela para cuidar da situação econômica.

Bem, se Roroa não poderia fazer companhia, que tal Aisha ou Juna?

— Lamento ter que dizer isso, mas tenho uma reunião para nosso próximo programa de música, então não poderei acompanhá-los — disse Juna.

— F-Fui convidada a me juntar aos novos recrutas para treinamento… — disse Aisha. — Claro, se você insistir nisso, senhor, vou deixar de lado meu compromisso anterior para ficar com você.

— Não, não vou insistir — falei. — Hm… Mas, bem…

Eu realmente não queria levar uma grande comitiva desta vez. Se eu tivesse muitas pessoas comigo, colocaria a outra parte em guarda. Embora, dito isso, eu não me sentia totalmente seguro indo sem guarda-costas. Digo, Liscia, de qualquer forma, estaria comigo.

Embora Liscia tenha mais destreza em combate do que a guarda normal.

Os Gatos Pretos estavam lidando com operações clandestinas em muitos outros países, então provavelmente não podiam dispensar as pessoas para servirem como guardas. Se possível, eu também queria Aisha, que tinha a maior força de combate individual, ou Juna, que também poderia reunir inteligência, nos acompanhando. Enquanto eu pensava nisso…

— Vossa Majestade, posso oferecer uma sugestão? — A criada, Serina, que estava parada junto à parede, fez uma reverência elegante.

— Serina? Você tem uma opinião sobre isso? — perguntei.

— Sim. Se você está procurando um guarda, há uma pessoa que eu gostaria de recomendar.

— Quem poderia ser? — perguntei.

— O instrutor pessoal de Vossa Majestade, Sir Owen.

— Urgh… O Velho Owen, huh…

Ela estava se referindo ao velho general e chefe da Casa de Jabana, Owen Jabana. Ele era um velho forte, cuja personalidade era séria e honesta a ponto de ser excessivamente impetuosa. Eu gostava de sua disposição para expressar uma opinião e o havia contratado como consultor  e educador.

É verdade, ele é um guerreiro capaz, e dado o seu posto, não teria muito que fazer enquanto eu estivesse fora. Contudo, ele é sempre espalhafatoso, e não acho que ele é adequado para sair discretamente.

Enquanto eu considerava a idéia, Serina continuou:

— Você também deve levar Carla do Corpo de Criadas com você.

— Huh?! Eu?! — Carla, que estava ao lado de Serina, gritou de surpresa.

— Carla está alistada no Corpo de Criadas, mas é escrava de Vossa Majestade — disse Serina. — Em momentos como este, você deve usá-la como seu escudo… igual um burro de carga.

— Você estava prestes a dizer escudo de carne?! — protestou Carla. — Espere, mesmo agora que você corrigiu para burro de carga, ainda é muito ofensivo!

 

 

Serina pegou seu chicote de treinamento de criada.

— Ah! Sim senhora! Vou servir com sinceridade e devoção! — Carla reverenciou às pressas.

Ela foi completamente domada, hein…

— Em todo caso, Carla, estarei contando com você — falei.

— E-Entendido, mestre — disse ela.

Então, por enquanto, ficou decidido que nós quatro: Liscia, Owen, Carla e eu iríamos juntos para a cidade castelo.

Já me sentia exausto só por ter tomado essa decisão.

E, assim, chegamos à cidade castelo de Parnam.

Liscia, Owen, Carla e eu estávamos andando pela rua comercial no meio do dia. Por estarmos ali em segredo, viajávamos a pé e não de carruagem.

— Gahaha! — Owen riu. — Estou contente por você ter me escolhido como seu guarda-costas, Vossa…

— Shh! Owen… Quantas vezes eu tenho que dizer a você para não me chamar de Vossa Majestade no meio da cidade assim? — sibilei.

— Oh, minhas desculpas.

A maneira como Owen riu sem parecer nem um pouco culpado fez minha cabeça doer. Ele parecia estar de bom humor por ter sido escolhido como meu guarda-costas, então estava ainda mais temperamental do que o normal.

— Desta vez estamos aqui em segredo… então, por favor, estou implorando — falei

— Mas é claro, estou ciente disso — disse Owen em voz alta.

Ele estava mesmo? Para um grupo que tentava ser discreto, nós nos destacávamos de forma estranha.

Lá estava eu ​​usando as roupas de viajante Kitakaze Kozou que se tornaram minha roupa favorita quando estava disfarçado; Liscia vestindo o mesmo uniforme de estudante que usou quando fomos pela primeira vez à cidade castelo juntos; Carla, a dragonata, com uniforme de criada; e um velho machão com armadura leve de aventureiro. Todos nós estávamos caminhando juntos. O que havia com esse conjunto completamente estranho? Eu não poderia culpar os transeuntes por virarem a cabeça para nos dar uma segunda olhada.

— Mesmo um grupo de aventureiros montado às pressas pareceria mais com um grupo unificado do que nós… — murmurei.

— Se você tivesse apenas usado um uniforme de estudante como da última vez, não teria sido melhor? — perguntou Liscia. — Não é como se Sir Owen não pudesse se passar por um professor com a roupa que está usando.

— Da mesma forma, se você tivesse se vestido como uma aventureira, poderíamos ter parecido um grupo de aventureiros — falei.

Enquanto discutíamos um com o outro, ambos olhamos para a criada dragão atrás de nós.

— O-O quê?! Por que vocês dois estão olhando para mim? — choramingou Carla.

— De qualquer forma, Carla iria se destacar, hein — disse Liscia.

— Quero dizer, sim, afinal ela está usando esse vestido de criada extremamente revelador — falei. — Ela estaria deslocada, não importa como nos vestíssemos.

— Você não está sendo muito cruel quando eu nem mesmo uso isso por escolha própria?! — protestou Carla em voz alta, mas… bem, era um vestido de criada.

Claro, tínhamos proposto que ela trocasse para outra coisa, mas Serina não estava disposta a ouvir isso. O uniforme de criada de Carla não era o tipo clássico com uma saia longa; era um tipo de vestido com babados (ou, para ser mais exato, aqueles usados em cafés temáticos de criadas). Serina era uma completa sádica para fazê-la andar pela cidade com ele. Carla estava vermelha de vergonha a um bom tempo…

— A propósito, Vossa… Sir Kazuya, esta é realmente a estrada que você deseja seguir? — perguntou Owen, um tanto confuso.

— Hm? Sim, é… Por que? — perguntei.

— Não, é só que, se bem me lembro, esse caminho leva a…

— Ah! Isso mesmo… — Liscia parecia também ter percebido algo, mas não parecia querer dizer. — Se continuarmos nesta estrada…

Ah, então é isso…, percebi.

— Se continuarmos, vamos chegar nas velhas favelas, hein?

— De fato — disse Owen. — Não é um lugar que eu gostaria de levar vocês dois.

Mesmo na capital real, Parnam, havia um lado negro. Por causa da grande população, existiam aqueles que tiveram sucesso nos negócios, aqueles que tiveram um lucro mediano e aqueles que fracassaram completamente. As favelas eram um lugar onde aqueles que fracassaram, mas não caíram o suficiente para se tornarem escravos, se arrastavam e trabalhavam por seu salário diário.

Muitas das casas eram barracos. Era anti-higiênico e sujeito a surtos de doenças. As pessoas que se reuniam neste lugar eram de origem questionável e a taxa de criminalidade era alta.

Resumindo, era esse tipo de lugar.

— Agora isso é tudo passado — falei.

— Isso mudou? — perguntou Liscia.

— Seria mais prático mostrar isso a vocês. Digo, quando eu estava pensando no que fazer a respeito do futuro da favela… — Fiz um gesto como se tivesse algo como uma mangueira em minhas mãos enquanto falava. — Conheci alguém que estava estranhamente entusiasmado, circulando por aí e dizendo: “A sujeira será limpa!”

Quando chegamos na antiga favela…

— Huh? — Liscia inclinou a cabeça para o lado em confusão.

— Hm? — Owen fez o mesmo.

Quando viu a reação deles, Carla também reparou.

— Há algo estranho aqui, Liscia?

Mesmo depois de ter sido rebaixada e se tornado uma escrava, Liscia forçou Carla a continuar falando com ela do jeito que fazia antes. Elas ainda eram boas amigas. Seria um problema se acontecesse em público, mas eu não ia dizer a Liscia como se comportar.

Ainda com uma expressão vazia no rosto, Liscia respondeu a Carla:

— Hã? Ah, sim… Nunca estive em favelas antes, mas estou surpresa com o quão diferente é de tudo que eu tinha ouvido.

— O que você ouviu? — perguntou Carla.

— Que é um lugar escuro, úmido, mofado e com péssima ordem pública. Já ouvi o mesmo — explicou Owen.

Ele estava certo. As favelas costumavam ser assim.

— É verdade que parece disperso, mas o lugar parece bem limpo para mim, sabe? — disse Carla.

O que víamos diante de nós agora era uma cena de casas que pareciam blocos brancos de tofu alinhados. Para colocar em termos que um público moderno entenderá, imagine o tipo de casas temporárias que são construídas na área afetada após um terremoto. Embora fossem simples, recebiam muito sol e eram brilhantes. Elas também eram bem ventiladas, então não eram úmidas. Admito, poderiam ficar um pouco secas no inverno. Mesmo assim, quando víamos crianças desenhando no chão e brincando, era difícil imaginar que a ordem pública fosse ruim.

— Isso é mesmo a favela? — perguntou Liscia.

— Sim. Ficou muito melhor, não é? — respondi, estufando meu peito com orgulho. — Quando estava tratando do problema de saneamento da cidade, trabalhei muito para colocar tudo aqui em ordem.

— O problema de saneamento? — perguntou Liscia. — Se bem me lembro, você mencionou isso quando proibiu que as carruagens percorressem todas as estradas, exceto as maiores, e quando instalou o sistema de água e esgoto, certo? Reconstruir as favelas também fez parte disso?

— Fico feliz em ver que você se lembra — falei. — Sim. É fácil para bactérias patogênicas crescerem em lugares escuros, úmidos e mal ventilados. Além disso, por ser uma favela, os moradores não recebem alimentação adequada, então fica mais fácil adoecer. Se uma epidemia tivesse começado, este teria sido um terreno fértil para ela se espalhar rapidamente.

— Bactéria patogênica… Sinto que já ouvi essa palavra — disse Liscia.

Ela e os outros estavam olhando para mim com rostos que pareciam dizer “O que é isso? É de comer?”

— Huh? Eu não expliquei isso da última vez? — perguntei.

Ah, pensando bem, usei essas palavras quando falei sobre as lagoas de sedimentação, mas não expliquei em detalhes, pensei. Nesse caso… Acho que devo começar explicando como as pessoas ficam doentes.

— Bem… Neste mundo, existem pequenas criaturas, pequenas demais para serem vistas e existem em números muito grandes para serem contadas no ar, no solo, em nossos corpos; em todos os lugares que você possa imaginar. Essas criaturas minúsculas fazem as coisas apodrecerem e causam doenças. Por outro lado, também fazem com que os alimentos fermentem, e também há algumas com efeitos positivos.

Usando meu parco conhecimento de ciências (eu era um estudante de humanas, lembre-se), expliquei para Liscia e os outros sobre bactérias e microrganismos. Não achei que estavam entendendo muito bem, mas Liscia, que sabia que meu conhecimento poderia estar muito à frente da academia deste país em alguns tópicos, parecia satisfeita, já que “Se Souma diz que existem, provavelmente existem.”

O estudo da medicina e higiene não era particularmente bem desenvolvido neste mundo. Um grande fator disso, era provavelmente a existência de magia de luz. A magia de luz aumentava a capacidade do corpo de se curar, até mesmo permitindo que se recuperasse de feridas graves. Podendo até mesmo recolocar membros decepados se usada rapidamente.

Parecia que, por causa disso, o estudo da medicina e da higiene não havia se desenvolvido. Era por isso que, neste mundo, havia muito poucos que sabiam da existência de bactérias e microorganismos.

A magia da luz apenas ativava a habilidade natural do corpo de curar, então tinha a desvantagem de não ser capaz de curar doenças infecciosas ou feridas de pessoas idosas cuja habilidade natural de curar havia diminuído. Por causa disso, até recentemente, o uso de drogas duvidosas e remédios populares duvidosos era excessivo quando se tratava do tratamento de doenças infecciosas. Quando abordei a questão da higiene, pensei que algo precisava ser feito sobre essa situação rapidamente.

Mas antes que eu pudesse fazer isso, primeiro precisava que as pessoas ficassem cientes da existência de bactérias e microorganismos que não podiam ver.

— Mas como as pessoas podem estar cientes de algo que não podem ver? — perguntou Liscia.

— Neste mundo, existem pessoas que sabem sobre bactérias e microrganismos… ou melhor, uma raça que sabe — falei. — Quando essa raça se concentra em seu “terceiro olho”, pode ver microorganismos que você normalmente não seria capaz de ver. Solicitei a ajuda deles.

— Um terceiro olho… Você quer dizer a raça três-olhos? — perguntou Liscia, ao que eu assenti.

A raça três-olhos. Eles eram uma raça que, como poderia esperar de seu nome, tinha três olhos.

Viviam nas terras quentes do norte do reino. Seu traço marcante era que, além dos olhos esquerdo e direito padrão, também tinham um terceiro olho em uma posição ligeiramente mais alta no meio da testa. Seria bom imaginá-los parecendo Tien Shin *** ou ***suke Sharaku, mas não era realmente um globo ocular. Esse olho era pequeno e vermelho. À primeira vista, parecia que uma joia estava embutida ali.

Liscia soltou um suspiro.

— Estou surpresa que tenham concordado em ajudar. Eu ouvi que a raça deles odeia manter contato com estranhos.

— A razão para a xenofobia deles, na verdade, origina-se daquele terceiro olho, ao que parece.

Os três-olhos podiam ver coisas que outras raças não podiam. Parecia que essa tinha sido a razão pela qual começaram a afastar os estranhos. Os três-olhos poderiam dizer se alguém tinha uma boa higiene ou não à primeira vista. Isso os tornava malucos por limpeza, e começaram a evitar o contato com outras raças, tanto quanto possível.

Além disso, com aquele terceiro olho, os três-olhos souberam da existência de bactérias. Eles sabiam que eram a causa de doenças que não podiam ser tratadas com magia de luz. No entanto, não importa o quanto insistissem nisso, as outras raças que não podiam ver a bactéria não acreditaram neles. Em um mundo cheio de superstições, mesmo que falassem a verdade, poderia parecer que estavam tentando lançar o mundo no caos com alguma nova teoria duvidosa.

Por causa disso, os três-olhos passaram a odiar o contato com outras raças e desenvolveram seu próprio sistema independente de conhecimento e prática médica apenas para sua própria raça. Quando se tratava do estudo de doenças infecciosas em particular, sua ciência médica estava séculos à frente deste mundo. Neste mundo onde se pensava que os humanos e os homens-fera viviam longas vidas se chegassem aos sessenta, os três-olhos, que originalmente tinham a mesma expectativa de vida, agora viviam, em média, até os oitenta.

— Foi assim que eu, como alguém que sabia que o que eles estavam dizendo é a verdade, consegui organizar reuniões e solicitar sua ajuda — falei. — Feito isso, para demonstrar suas habilidades, criei um sistema que permitiria que outras raças vissem bactérias e microorganismos.

Em outras palavras, um microscópio óptico. Este mundo já tinha lentes. (Afinal, eles tinham óculos.) Para o resto, desenhei um diagrama (que me lembrava vagamente) de como um microscópio funcionava, e os acadêmicos e artesãos criaram um para mim. Aquele microscópio óptico provou que os três-olhos estavam falando a verdade.

— Mas, cara, os de três olhos são realmente incríveis — falei. — Eu nunca teria imaginado que eles já tivessem desenvolvido antibióticos.

— An-de-bo-de-cos?

— Substâncias que evitam que as bactérias se multipliquem da forma como eu estava falando.

O famoso exemplo seria a penicilina, suponho. Quer dizer, até mesmo um estudante de humanas como eu já tinha ouvido falar disso. (Embora fosse um conhecimento que adquiri lendo mangá.) Era extraída de um molde de cor azul esverdeado, não?

No caso dos três-olhos, eles estavam extraindo os seus de um tipo especial de criatura viscosa que vivia em condições nada higiênicas. Eles eram uma subespécie de gelin e tinham o mesmo tipo de formato que os *limes Metal Líquidos. Eles não tinham nome, mas aproveitei a chance para batizá-los de “gelmedics”. Pelo que eu tinha ouvido falar de seus efeitos, não havia dúvida de que era um antibiótico, mas embora fosse semelhante à penicilina, também poderia ser muito diferente.

Aliás, os três-olhos chamavam essa droga de “a droga”.

Parecia que isso ia ficar confuso no futuro, então usei minha autoridade como rei para dar a ela o nome de “três-olhosédio”. Era o remédio da raça de três olhos, então encurtei para três-olhosédio. Quer dizer, não teria problema chamá-la de “a droga” ou “a pílula”… mas, como um bom japonês, sempre pensei em drogas de forma completamente diferente.

— Esse… três-olhosédio… é isso? — perguntou Liscia. — Impede que as bactérias se multipliquem, mas de que adianta?

— É uma cura para doenças infecciosas — falei. — Basicamente, você pode pensar nisso como uma droga milagrosa que trata doenças epidêmicas e evita que feridas infeccionem, suponho.

— Tratar doenças epidêmicas?! Ele pode fazer isso?!

Eu não poderia culpar Liscia por estar surpresa. Embora os tratamentos médicos deste país (em particular, os tratamentos regenerativos) pudessem estar, em algumas áreas limitadas, à frente da ciência moderna, em geral, estavam no mesmo nível que o Japão no Período Edo. Quando se tratava de doenças infecciosas, tomavam chás medicinais, tentando amenizar os sintomas. No entanto, com antibióticos, era possível tratar a causa oculta das doenças até certo ponto.

Liscia pareceu surpresa.

— Isso é terrível… Temos negligenciado uma droga incrível como essa por todo esse tempo…

— Bem, as outras raças não reconheciam a existência de bactérias e microorganismos, então, mesmo que os três-olhos tivessem dito que os antibióticos poderiam combatê-los, você provavelmente não iria acreditar neles. Se parar para pensar, os três olhos só conseguiram encontrar essa forma de lutar contra as bactérias porque podiam vê-las.

— Então, podemos produzir este três-olhosédio em massa?! — perguntou Liscia, parecendo desesperada para ouvir mais.

Sim, eu poderia entender como ela se sentia. Eu mesmo agi de forma semelhante durante as reuniões com o ancião dos três-olhos. No entanto, Carla e Owen, que estavam nos observando, ficaram com os olhos arregalados de surpresa com a maneira como Liscia estava agindo.

Eu balancei a cabeça para ela.

— Ainda não temos capacidade para isso, mas estamos aumentando lentamente a produção. Eu já tinha distribuído para os militares quando a guerra com a Amidônia estourou, na verdade. Você não percebeu?

— Felizmente, nunca precisei tomar nenhum… Ah! Agora que você mencionou, eu acho que o número de fatalidades foi baixo se comparado ao número de feridos naquela batalha. Isso foi graças ao três-olhosédio?

— Pode ser — falei. — Afinal, bactérias entrando em uma ferida e tornando-a pior é uma das coisas que isso pode ajudar a prevenir.

— Incrível… — sussurrou ela.

— De qualquer forma, os três olhos estão dando toda a sua colaboração e o país não tem intenção de ser mesquinho no que se refere a atendimento médico. O maior obstáculo será o número de “gelmedics” dos quais podem extrair três-olhosédio, mas graças a Tomoe, resolvemos esse problema facilmente.

Criaturas viscosas como os gelins eram, na verdade, categorizadas como plantas, e ela não conseguia se comunicar com eles tão bem quanto com os animais; mas, a partir de seus pensamentos, ela foi capaz de saber seu ambiente preferido e as condições necessárias para que se multiplicassem. Agora tínhamos os gelmedics se multiplicando ativamente em seus criadouros.

— Nossa irmãzinha é muito conveniente, não é? — adicionei.

— Ela com certeza é — disse Liscia.

O público começou a chamar Tomoe de Sábia Princesa Lobo. Dados os rinossauros, o exército orangotango de Van e agora os gelmedics… não havia dúvida de que ela estava fazendo jus a esse nome.

— E, bem, seguindo nesse assunto, nosso país está no meio de uma revolução médica e higiênica, e uma parte disso foi consertar essas favelas — falei. — Destruímos as casas antigas para melhorar a luz do sol e o fluxo de ar. Enquanto estávamos nisso, eliminamos os criminosos e as drogas ilegais, que estavam limpando a área de uma forma diferente. Todos os residentes se mudaram para cabanas novas pré-fabricadas. As cabanas são pequenas e apertadas, mas são gratuitas. Além disso, por tê-los trabalhando na limpeza da cidade, podemos apoiá-los financeiramente e gerenciar a higiene local.

— Você está fazendo todo tipo de coisa, hein… Não está se esforçando demais, está? — perguntou Liscia, parecendo preocupada.

Coloquei a mão em sua cabeça.

— É cansativo, sim… mas é gratificante. Posso ver a cidade e o país reconstruídos da maneira que quero que sejam. Se o resultado for mais pessoas sorrindo no final, então está bom.

— Bem… Então tá — disse ela. — Mas se houver algo que eu possa fazer por você, é só dizer.

— Claro. Estarei contando com você.

Liscia e eu sorrimos largamente um para o outro.

Mas conforme nosso ânimo melhorava…

Pshhhh.

De repente, ouvimos um som como o de ar vazando de algo…

Quando olhei para frente, imaginando o que poderia ser, vi alguém com um grande barril nas costas usando um cilindro de metal na ponta de uma mangueira que saía daquele barril para espalhar algum tipo de névoa no chão.

Essa pessoa era uma mulher de aparência exótica com pele não tão escura quanto a de um elfo negro, mas ainda castanha e de cabelos loiros. Ela parecia ter vinte e poucos anos. Provavelmente era bonita e tinha um corpo bem torneado, mas com a máscara triangular que usava sobre o rosto e o barril pendurado nas costas, foi tudo desperdiçado. A testa daquela mulher tinha o terceiro olho exclusivo da raça de três-olhos brilhando nela.

— Hehehe… Hohoho… Ahahahahahaha! A sujeira será limpa! — Depois daquela risada de três estágios, a mulher entusiasticamente borrifou o chão e as cabanas com algum tipo de névoa.

Aquela cena incrível deixou Liscia, Carla e Owen sem palavras. Quanto a mim, senti minha cabeça começando a doer de novo.

— O que você está fazendo, Hilde? — perguntei, cansado.

O nome dela era Hilde Norg. Em uma demonstração de gratidão por nosso apoio e pela redenção de sua honra, os três olhos a emprestaram para nós para ajudar a reformar nosso sistema de medicina. Ela era a sua única “médica”.

Nesse mundo, havia muito poucos médicos no sentido que um japonês moderno pensaria. Os que realizavam a grande maioria dos tratamentos médicos eram magos de luz, e os que administravam remédios de ervas para ajudar a aliviar os sintomas da doença eram curandeiros e feiticeiros.

Muitos desses magos de luz eram afiliados à igreja e, portanto, a maioria dos hospitais também ficavam anexados aos prédios da igreja. Por isso era normal que as pessoas neste mundo fossem à igreja quando estavam doentes, mas para os três-olhos era um pouco diferente.

Como sua tecnologia médica era muito mais avançada, podiam tratar a maioria das doenças e ferimentos dentro de casa. Quando adoeciam com uma doença tão grave que não podia ser tratada em casa, procuravam pela primeira vez um remédio preparado pelo médico. Naturalmente, aquele médico era o maior especialista de sua raça e, portanto, só podia preparar remédios para alguns deles.

Aquela ali, pulverizando um desinfetante (água de cal, provavelmente), Hilde, era a única médica de sua raça, considerada a que tinha o maior grau de conhecimento médico, mesmo para os padrões dos três-olhos. No entanto, do jeito que estava vestida no momento, parecia apenas um fazendeiro pulverizando produtos químicos agrícolas.

Hilde estava dando uma risada alta e entusiasmada até um momento atrás, mas agora estava com um sorriso sombrio e tinha uma atmosfera pesada ao seu redor.

— Honestamente… eu não disse a vocês para recolherem os excrementos dos seus gatos?! Porque continuam deixando-os ao ar livre, há bactérias por todo o lugar! Oh, pelo amor de Deus! Imundo, imundo!

Desta vez, enquanto borrifava desinfetante, bateu os pés, indignada. Ela podia ter parecido emocionalmente instável, mas isso era normal para Hilde.

Ela, com seu conhecimento de farmacologia e um olho para bactérias considerado excelente até pelos padrões dos três-olhos, também demonstrava uma obsessão pela limpeza que era intensa até pelos padrões de sua raça. A ponto de ser normal andar por aí com um desinfetante daqueles.

Poder ver demais nem sempre era bom.

— Vejo que você continua a mesma de sempre, Hilde — falei.

— Hm? Você é … Quem é você?

Tirei meu chapéu de formato cônico e mostrei meu rosto.

Sem muita surpresa, ela disse:

— Ah, é só o rei, hein. — Então voltou ao trabalho de pulverizar desinfetante.

— Me chamar de “só” o rei é um pouco maldoso — falei. — É tecnicamente uma posição importante, sabe?

— Então por que não tenta se vestir de acordo? — perguntou ela. — Pensei que você fosse um mendigo.

Ela continuava tão áspera quanto sempre. Eu tinha uma imagem de médicos sendo ásperos, mesmo no meu antigo mundo, e parecia que as coisas eram as mesmas neste. Hilde, em particular, não era do tipo que se preocupava muito com a posição da pessoa com quem estava falando.

A filosofia dela era: “A doença atinge a todos nós, bons e maus, ricos e pobres, homens e mulheres, independentemente da raça. Então, diante de um médico como eu, todos os pacientes são iguais.”

Esse era o seu argumento, aparentemente.

— De qualquer forma… Hilde, deixe-me apresentá-la — comecei. — As duas damas são…

— Eu sei quem elas são — disse Hilde com um suspiro, como se saber quem elas eram fosse algo normal. — Elas são famosas, não são? A princesa e a filha do antigo General da Força Aérea, certo?

— Hein? E quanto a Sir Owen? — perguntei.

— Não quero saber nada sobre esse velho imundo

— O quê?! — protestou Owen. — Quem você está chamando de imundo?! Tomo muito cuidado para me arrumar adequadamente!

— Fique longe, seu idiota musculoso! Você ao menos se lavou direito?! — gritou ela.

Pshhhh.

— Ei, garotinha, não borrife essa névoa estranha em mim! Eu estou limpo, sabia? Todos os dias, despejo água sobre meu corpo nu e depois me esfrego com uma toalha seca! — gritou Owen.

De repente, fui forçado a imaginar um machão tomando banho nu à luz do amanhecer. Sim… Parecia sujo só de imaginar. Talvez tendo elas próprias imaginado uma cena semelhante, Liscia e Carla pareciam prestes a vomitar.

Parecia que continuar pensando nisso só iria piorar o estado mental de todos, então era hora de mudar de assunto.

— A-A propósito, Hilde, o que você está fazendo aqui hoje?

Minha tentativa forçada de mudar de assunto foi recebida por um bufo de Hilde.

— Se eu deixar as pessoas aqui com seus próprios recursos, se tornam anti-higiênicas em um estalar de dedos. Estou fazendo visitas regulares para instruí-los sobre higiene e desinfetar a área.

— Faz sentido… — falei. — A propósito, seu parceiro está com você hoje?

— Não diga que ele é meu parceiro. — Hilde cuspiu as palavras, aparentemente irritada. — Se você está procurando por Brad, ele está “lá fora”. Ele disse: “Se eu tiver que examinar porcos gordos, prefiro tratar os cães selvagens não contaminados”… ou algo assim.

— Vejo que ele também nunca muda…

— Talvez você pudesse repreendê-lo também, senhor — disse ela. — Aquele cara sempre empurra os médicos novatos para mim.

— E-Entendo…

O Brad que surgiu em nossa conversa era o outro médico atuando junto com Hilde para impulsionar a reforma do sistema médico deste país. Seu nome completo era Brad Coringa. Ele era um homem humano, e suas habilidades como médico eram boas, mas… sua personalidade era um pouco problemática.

Não consigo imaginar o Brad sendo capaz de explicar as coisas aos outros. Mostrar habilidades práticas no campo oferecerá orientação para seus juniores, mas Hilde terá que ser a única ensinando de forma acadêmica…

— Ei, você está me ouvindo, s-e-n-h-o-r? — disparou Hilde.

— E-Eu entendi — falei. — Vou tentar ao menos falar com ele. — Se ela ia me pressionar a respeito disso com aquele sorriso raivoso, eu só tinha que acenar com a cabeça e concordar com ela.

— Então? O que o rei e sua comitiva estão fazendo aqui? — exigiu saber Hilde.

— Oh… eu estava planejando visitar o chefe dos lobos místicos — falei. — Enquanto faço isso, também pensei que poderia fazer uma visita ao centro de treinamento profissional que Ginger tem mantido funcionando.

— Oh, então esse é o tipo de negócio que você tinha. — Liscia bateu palmas como se finalmente entendesse algo.

Ah, agora que pensei sobre isso, eu não disse a ela o que estávamos fazendo, disse?

— Então, uma vez que o ancião dos lobos místicos faça uma conexão para mim, planejo ir “para fora” — acrescentei.

— Ohh, você vai “para fora”, não é, senhor? — perguntou Hilde. — Nesse caso, talvez eu vá junto.

— Huh? Por que isso?

— Isso deveria ser óbvio. Para colocar algum senso naquele idiota obcecado por exames, é por isso.

Hilde tinha um sorriso no rosto, mas seus olhos não sorriam.

— B-Bem… Apenas tente não exagerar, certo? — perguntei nervosamente.

— Hm, você continua falando sobre ir “para fora”, mas o que exatamente isso significa? — Carla hesitantemente levantou a mão e perguntou.

— Se estamos falando de “para fora” da perspectiva de estar dentro da cidade, isso só pode significar fora dos muros — disse Hilde friamente.

— Para fora dos muros… você quer dizer…? — Liscia parecia ter entendido algo e tinha uma expressão pensativa no rosto.

Sim… Provavelmente era exatamente o que ela estava imaginando.

Independentemente, deste modo, ao nosso grupo composto de um viajante estrangeiro, uma estudante, uma donzela dragão e um machão juntou-se uma médica.

Sim… Este grupo estava fazendo cada vez menos sentido.

Nossa primeira parada foi no centro de treinamento profissional de que Ginger estava encarregado.

A Destilaria Kikkoro dos lobos místicos, que produzia missô, molho de soja e saquê, entre outros produtos, ficava nas antigas favelas. O mesmo aconteceu com o centro de treinamento profissional de Ginger. Ambos exigiam um espaço considerável, e aquele era o único lugar adequado.

Embora nem fosse preciso mencionar a instalação de treinamento, a Destilaria Kikkoro também tinha facilidade em garantir trabalhadores neste local, por isso não era um ponto ruim. Só isso já fazia valer a pena consertar o lugar.

O centro de treinamento profissional era cercado por paredes de tijolos e havia vários prédios dentro do complexo. O lugar tinha acabado de ser inaugurado e estavam apenas ensinando leitura, escrita e aritmética para os candidatos, mas a intenção era experimentar todo tipo de ideias diferentes no futuro, então o número de prédios aumentou.

Quando fomos entrar pelo portão da frente, várias crianças saíram correndo por ele.

— Tchau, Sra. San!

— Tchau!

Todos tinham cerca de dez anos, talvez. Não estavam bem vestidos ou arrumados, mas pareciam cheios de energia.

Quando olhamos pelo portão, a ex-escrava que agora era a secretária de Ginger, Sandria, estava acenando para as crianças.

— Adeus, crianças. Tomem cuidado no caminho para casa.

O leve sorriso com que ela se despediu era gentil, muito diferente do comportamento mal-humorado que demonstrou quando nos conhecemos.

Então, ela pode fazer uma expressão assim também, hein…

Enquanto eu pensava nisso, Sandria reparou em mim e fez uma reverência respeitosa.

— Ora, Vossa Majestade, que bom que você veio nos visitar.

— Ei, Sandria — falei. — O Ginger está?

— Ele está no escritório. Vou te mostrar o caminho até lá.

Seguimos Sandria para dentro de um dos edifícios.

Tinha um design simples e quadrado, sem frescuras, mas poderia dizer que este prédio tinha muitos cômodos, mesmo do lado de fora. Pareceria um hospital ou escola para um japonês moderno.

Fomos conduzidos à frente de uma sala no primeiro andar daquele prédio com uma placa que dizia “Escritório do Diretor”. Quando Sandria informou ao ocupante que ele tinha visitas e abriu a porta, Ginger, que aparentemente estava fazendo um trabalho de escritório, levantou-se às pressas.

— O-Ora, Vossa Majestade, já faz um tempo — disse Ginger, correndo até nós. Ao contrário de Sandria, ele o fazia timidamente e parecia que ainda se sentia tenso ao falar comigo.

— Não há necessidade de ser tão rígido — falei. — Sou eu quem está te incomodando aqui.

— N-Não… Não é incômodo algum…

— Sua secretária está com a cabeça erguida, não é? — comentei.

— Porque minha lealdade pertence apenas a Lorde Ginger — disse Sandria com indiferença enquanto se movia para o lado de Ginger.

Deveria ter soado como uma declaração bastante desrespeitosa, mas havia algo em seu comportamento que não me deixava entender dessa forma. Ela era como a criada de Liscia, Serina, ou o representante público da empresa de Roroa, Sebastian. Aquelas pessoas que encontraram o mestre que pretendiam servir pelo resto de suas vidas tinham uma intensidade única. Era como se pudessem enfrentar o próprio rei em nome de seu mestre.

— Ginger, deixe-me apresentá-la — falei. — Esta é minha noiva, Liscia.

— Olá. Eu sou Liscia Elfrieden. — Liscia sorriu e se curvou, fazendo com que Ginger ficasse muito ereto.

— A-A princesa?! Obrigado por ter vindo visitar nosso humilde estabelecimento! E-Eu sou… Ah, não, sou aquele chamado Ginger Camus. Com mais apoio do que mereço de Sua Majestade, fui capaz de me tornar o diretor desta instalação…

— Heehee! Não precisa ficar tão tenso. É um prazer conhecê-lo, Ginger.

— S-Sim, senhora! — Ginger rigidamente pegou a mão de Liscia e a sacudiu.

— Parece quase que você está mais tenso do que da primeira vez que me encontrou… — murmurei.

— Tenho certeza que ele está — disse Carla. — Até que seu noivado com ela fosse anunciado, mestre, Liscia era algo como o que hoje chamamos de lorelei para o povo do reino. Aquela flor inalcançável, a princesa que estava tão acima que poderia muito bem estar acima das nuvens, está agora bem diante de seus olhos. Ele não pode ser culpado por estar tenso.

A explicação de Carla fez sentido para mim. Membros da Casa Real, especialmente uma princesa ou uma rainha… eram, de certa forma, como ídolos nacionais. Eu tinha visto no noticiário a enorme febre que tomou conta da Inglaterra quando uma nova princesa nasceu. Mesmo no Japão, as notícias sobre a Casa Imperial e pessoas ligadas à família imperial chamavam bastante a atenção.

Depois disso, também apresentei Carla e Owen. Então, quando fui apresentar Hilde…

— Hilde e eu já nos conhecemos — disse Ginger. — Ela faz exames médicos gratuitos nas crianças que vêm aqui. Realmente tem sido de grande ajuda.

Ginger curvou a cabeça para ela, fazendo com que Hilde assumisse uma expressão estranha.

— Hmph. Os pirralhos estão imundos, só isso. Quem sabe quais doenças estão carregando por aí.

— Você diz isso, mas ainda vem nos visitar uma ou duas vezes por semana — disse Sandria. — Se as crianças se machucam, você as cura. Eu acho que, apesar de tudo o que você diz, você realmente gosta de crianças, não é?

— Sandria… Se você falar demais, vou costurar sua boca, entendeu? — disparou Hilde.

— Ah, perdão. — Sandria se desculpou com indiferença enquanto Hilde a encarava.

Sim… Olhando para Hilde agora, me fez lembrar da senhora idosa da padaria no bairro onde eu morava há muito tempo atrás. Sempre que as crianças iam até ela, ela dizia: “Olha aí os visitantes barulhentos”, assumindo uma atitude azeda, mas depois acrescentava: “Que pirralhos famintos vocês são”, e costumava dar sobras de pãezinhos doces. Agora que penso nisso, tinha sido sua maneira de mascarar sua timidez.

Hilde bufou.

— Estarei esperando do lado de fora até que vocês terminem de conversar.

— As crianças foram todas para casa, só para você saber.

— Cala a boca, Sandria! Quem disse que eu queria brincar com as crianças? — disparou Hilde.

Eu não falei que você queria brincar com as crianças… — disse Sandria.

— Hmph!

Quando Hilde saiu, batendo violentamente a porta atrás dela, todos nós demos um sorriso de esguelha.

Agora… era hora de voltar aos assuntos que nos levou ao local.

Liscia, Ginger, Sandria e eu nos sentamos em uma mesa de conferência. Liscia e eu estávamos sentados de um lado, com Ginger e Sandria sentados à nossa frente. Carla e Owen estavam atrás de nós.

Liscia ergueu a mão.

— Hm, tenho muitas perguntas… O que exatamente vocês dois fazem aqui?

— No momento, ensinamos os candidatos a ler, escrever e fazer aritmética — respondeu Ginger com um sorriso gentil.

— Isso é algo como uma escola?

— Sim. É uma escola onde todos podem aprender, independentemente da classe.

Neste país, já existiam instituições educacionais adequadas. O uniforme que Liscia usava pertencia à Academia Real de Oficiais, e havia também a Academia Real, que tinha pesquisadores de todas as áreas, bem como a Escola de Magos, especializada no estudo da magia. No entanto, essas instituições educacionais eram quase inteiramente para os filhos dos cavaleiros e da nobreza. Não havia escolas comuns destinadas a servir às pessoas comuns. Esse centro de treinamento profissional estava servindo como um teste para esse tipo de escola comum.

— Além disso, não é só para crianças — disse Ginger. — Os adultos também podem aprender aqui.

— Adultos também? — perguntou Liscia.

— Muitos adultos dizem que não sabem ler, escrever ou fazer cálculos. Quanto mais pobre for sua origem, mais provável será esse o caso. Aqui também oferecemos a essas pessoas um lugar para aprender. Durante o dia, as crianças aprendem e, à noite, os adultos que terminaram o trabalho durante o dia vêm aqui estudar.

— Hm, então você os separou adequadamente em diferentes períodos de tempo…

— A ideia de criar um horário noturno para os adultos aprenderem foi de Sua Majestade — disse Ginger.

Não foi realmente ideia minha. Eu apenas recriei as escolas noturnas que tínhamos no outro mundo.

Ginger juntou as mãos na frente da boca.

— Isso é tudo que podemos fazer por enquanto. Porém… de agora em diante, seremos capazes de fazer mais e mais. Não é verdade, senhor?

Ginger passou a palavra para mim, então eu balancei a cabeça com firmeza.

— Sim. Daqui em diante, pretendo que você ensine temas mais especializados. Por exemplo, treinar aventureiros para explorar masmorras e proteger as pessoas, passar técnicas de engenharia civil, trabalhar com Hilde e seu povo para treinar novos médicos, estudar maneiras de melhorar nossa agricultura, silvicultura e pesca… Ah, eu também  gostaria de um lugar para treinar chefs.

— Essa é uma ampla gama de assuntos… — disse Liscia.

Acho que já percebeu agora que eu disse isso, mas o centro de treinamento profissional que eu queria criar era uma escola profissionalizante, ou talvez algo como uma universidade composta por departamentos especializados.

O foco principal do estudo acadêmico neste mundo era magia ou monstros. A magia podia ser aplicada com alguma versatilidade a qualquer número de campos e também tinha ligações com a ciência e a medicina. Quanto ao estudo de monstros, desde que o Domínio do Lorde Demônio apareceu, se tornou um dos tópicos de pesquisa mais importantes.

Antes disso, apenas os monstros que surgiam em masmorras eram objetos desse tipo de pesquisa. No entanto, depois que o Domínio do Lorde Demônio apareceu, o número e a variedade de avistamentos de monstros aumentaram em dez vezes. As pesquisas sobre o assunto foram apressadas a fim de encontrar alguma solução para o problema. Além disso, a pesquisa sobre os materiais que poderiam ser coletados de monstros era indispensável para o desenvolvimento de tecnologias.

Esse tipo de pesquisa sobre magia e demônios estava sendo feito principalmente na Academia Real. Certamente era verdade que os resultados desse tipo de pesquisa de ponta poderiam levar a novos desenvolvimentos em outros campos acadêmicos.

No entanto, e esse era um ponto de vista meu como japonês, pensei que havia descobertas incríveis e revolucionárias esperando para serem encontradas em pesquisas que, à primeira vista, pareciam inúteis. Por exemplo, como as técnicas que eram polidas e refinadas nas fábricas do centro sem chamar muita atenção podiam criar peças indispensáveis ​​para uma nave espacial.

Não importa qual seja o assunto, se alguém o domina, é o primeiro da classe. Se pudesse se tornar o número um, poderia se tornar o escolhido.

É por isso que eu queria criar um lugar onde as disciplinas que haviam sido negligenciadas por este mundo – educação, engenharia civil, agricultura, silvicultura e pesca, culinária e arte – pudessem receber estudos especializados e serem ensinadas a outras pessoas. E então, se pudéssemos ver os resultados em um determinado campo de nosso experimento neste centro de treinamento, construiríamos um centro de treinamento (neste momento, mais ou menos uma escola profissionalizante) para aquela disciplina em outra cidade.

Para isso, primeiro seria necessário elevar o nível médio de escolaridade do reino, e por isso começamos ensinando leitura, escrita e aritmética no ensino fundamental.

Perguntei a Ginger:

— Bem, o que você acha? Como estão as coisas no centro de treinamento?

— Bem… estamos fazendo um bom trabalho ao reunir crianças com menos de 12 anos — disse Ginger. — O sistema de merenda escolar que você propôs funcionou bem, eu diria. Há momentos em que fica agitado, mas criamos um ciclo em que eles aparecem, estudam, têm uma refeição adequada e depois vão para casa.

— Sistema de merenda escolar? — perguntou Liscia.

— Se crianças com menos de 12 anos vêm aqui e estudam, recebem refeições gratuitas. Se estudarem aqui, podem comer. Assim que isso se tornar amplamente conhecido, os filhos de famílias com problemas financeiros terão maior probabilidade de vir aqui estudar. Muitos dos pais acham que é melhor mandá-los aqui para estudar e economizar o dinheiro que seria necessário para alimentá-los do que forçar as crianças a trabalhar pelo pouco dinheiro que podem conseguir. Afinal, se estudarem corretamente, podem ser capazes de escapar da pobreza no futuro.

— Hmmm — disse Liscia. — Esse é um sistema bem pensado. Isso é algo que eles também fazem no seu mundo, Souma?

— Sim — falei. — É um método frequentemente usado para fornecer apoio em países pobres.

Liscia parecia impressionada, mas a expressão de Ginger estava mais obscura.

— É verdade, estamos fazendo um bom trabalho com as crianças. No entanto, por outro lado, é difícil reunir os adultos, que não estão cobertos pelo sistema de merenda escolar. Estamos fazendo o que podemos, ensinando-os à noite, uma vez que seu trabalho termina, mas… “Vivi toda a minha vida sem ser capaz de ler, escrever ou fazer cálculos. Por que eu deveria aprender isso agora?”, é o que dizem, e nem mesmo nos dão uma chance.

— Bem, se eles nunca tiveram uma educação, posso entender como podem pensar dessa forma — falei.

Somente ao receber educação adequada é que alguém é capaz de compreender o valor disso. Embora as crianças possam perguntar: “Por que estamos estudando?” quando se tornam adultos, pensam: “Por que não estudei mais?” Elas podem ter esse arrependimento porque começaram a estudar quando crianças.

— Bem, esclarecê-los sobre o valor da educação é uma parte do nosso trabalho — falei. — Eu vou inventar algo.

— Por favor, senhor.

Ginger e eu apertamos as mãos normalmente.

Finalmente, depois de falar sobre uma série de coisas, nos despedimos de Ginger e Sandria e deixamos o centro de treinamento.

O próximo lugar que visitamos foi a Destilaria Kikkoro, não muito longe do centro de treinamento.

Essa destilaria, que usava um hexágono com o caractere de lobo no centro como sua marca, era administrada por lobos místicos como Tomoe e produzia molho de soja, missô, saquê e mirin.

Ali, encontramos outra pessoa que eu conhecia.

Quando entramos no terreno, vimos um homem roliço vestindo roupas de mangas curtas, apesar do frio do inverno.

— Hm? Poncho? — perguntei.

— O-Ora, Vossa Majestade! Bom dia para você, sim.

Quando nos viu, Poncho baixou a cabeça para mim. Talvez tivesse se acostumado com a ideia de que só deveria se curvar uma vez. Antes, ele balançava a cabeça para cima e para baixo constantemente.

— O que você está fazendo aqui, Poncho? — perguntei.

— Oh, isso mesmo! Veja isso, senhor! — Poncho se aproximou com seu corpo roliço.

— Whoa, você está chegando perto demais! — exclamei. — O que é isso, tão de repente…?

— Finalmente, finalmente, está completo! Este “molho” que você tem pedido! — O geralmente tímido e reservado Poncho estava incrivelmente animado, empurrando uma garrafa cheia com um líquido preto em minha direção.

O molho que eu pedi?

Ah…!

— Não quer dizer que finalmente está pronto, não é?!

— Por favor, experimente você mesmo, sim.

— Agora mesmo! — Pinguei algumas gotas do líquido preto nas costas da minha mão e depois as lambi.

Tinha um sabor vegetal ou de frutas e um aroma apimentado. Não havia dúvida, isso era o que chamávamos de molho em japonês. No entanto, ao contrário do molho inglês comum, tinha uma forte doçura e acidez, junto com uma profundidade de sabor.

Esse era definitivamente o tipo de molho que acompanhava yakissoba, um molho para pratos à base de farinha.

— O sabor do molho… é um sabor masculino — comentei, citando um certo mangá gourmet.

— Que tipo de bobagem você está falando agora? — disse Liscia revirando os olhos, me trazendo de volta à realidade.

— Acontece que o molho que estivemos tentando fazer finalmente está completo, então fui tomado pela emoção.

— I-Isso é um grande acontecimento? — perguntou Liscia.

— Claro! Porque, com isso, posso fazer yakisoba, okonomiyaki, monjayaki, takoyaki e sobameshi. Também fica bom em pratos fritos.

— Eu mal sei o que é qualquer um dos pratos que você acabou de nomear… — murmurou Liscia.

— Vou fazer para você em breve. Quero dizer, mesmo que sobre alguma coisa, tenho certeza de que Aisha fará com que desapareçam diante de nós.

Mas, mesmo assim… enfim, havíamos aperfeiçoado esse molho para pratos à base de farinha.

Foi um longo processo. Já havia um molho semelhante ao molho inglês neste mundo, mas não era o tipo de molho encorpado que funcionaria bem com yakissoba. Pensei que poderia criar um de alguma maneira, e estava trabalhando nisso por meio de um processo de tentativa e erro, mas sem nenhum conhecimento real de molhos, isso provou estar além das minhas capacidades. Foi por isso que acabei criando aqueles pãezinhos de espaguete antes dos pãezinhos de yakissoba. Eu meio que tinha desistido do desenvolvimento, mas parecia que Poncho tinha continuado por mim.

— Estou impressionado que você foi capaz de recriá-lo — falei a ele. — Você nunca tinha provado isso antes, certo?

— Ouvi as palavras de Vossa Majestade: “É mais espesso do que o molho inglês comum, doce, e acho que parecia um pouco amargo”, o conhecimento de que havia um prato de macarrão, “yakisoba”, no qual você colocava o molho e misturava, e a lembrança do prato de massa que você chama de Espaguete Napolitano, me deram a dica que eu precisava.

— O espaguete? — perguntei.

— Sim, o espaguete, sim. Esse espaguete usa o molho de tomate chamado ketchup que desenvolvi com você, certo, senhor? Eu sabia que ketchup ia bem com pratos de macarrão, então pensei que algo semelhante a ketchup poderia ter sido usado com este prato de macarrão chamado yakisoba, sim.

— Ahh! — exclamei.

Agora entendi! Este sabor doce e picante veio de frutas e vegetais! Em outras palavras, esse molho para prato à base de farinha foi feito adicionando molho de tomate e outros ingredientes a um molho inglês grosso, não? Poncho tinha um paladar incrível para descobrir isso sozinho.

— Então, para dar uma maior profundidade de sabor à mistura de molho inglês e molho de tomate, experimentei adicionar o molho de soja e o mirin produzidos aqui na Destilaria Kikkoro. Hum… Como acha que me saí? — perguntou Poncho, hesitante.

Coloquei minhas mãos nos ombros dele.

— Poncho… você se saiu bem.

— Senhor! Você é muito gentil, sim!

— Me diga, esse molho pode ser produzido em massa? — perguntei.

— Acredito que a Destilaria Kikkoro tem tudo o que precisamos.

Isso era maravilhoso. Agora eu poderia escrever outra página na história da culinária do reino. Quando Poncho e eu começamos a conversar com entusiasmo sobre molhos, os outros membros do grupo… principalmente as mulheres, Liscia, Hilde e Carla… olharam, revirando os olhos.

— Souma não é um comilão, mas às vezes pode ser muito exigente com os detalhes mais estranhos — disse Liscia. — Qual será o motivo para isso?

— É assim que os homens são, Princesa — disse Hilde. — Eles são apaixonados por coisas desnecessárias e que as mulheres não entendem e não pensam no problema que vão ter fazendo isso. Eles são criaturas bizarras.

— Você fala como se fosse por experiência pessoal — disse Carla. — Você conhece alguém assim, Madame Hilde?

— Não pergunte sobre coisas que você não deveria, garota dragonata — retrucou Hilde. — Vou costurar sua boca, entendeu?

— S-Sim, madame! Eu não vou te perguntar mais nada, sim! — Carla fez uma saudação apressada, aparentemente tendo sido infectada com um pouco do estilo de fala de Poncho.

E, bem, eu estava animado com a descoberta inesperada, mas era hora de cumprir meu real objetivo. Separei-me de Poncho e então, no escritório do diretor da Destilaria Kikkoro, me encontrei com o ancião dos lobos místicos que também era o diretor deste lugar.

Sentamos em frente a ele do mesmo modo de quando visitamos Ginger. O cabelo branco do ancião, sobrancelhas brancas e barba branca eram todos longos e grossos, me lembrando um maltês. Só que dentro de todo aquele cabelo havia um velho.

O ancião curvou a cabeça profundamente, ainda permanecendo sentado.

— Nós, os lobos místicos, somos infinitamente gratos a Vossa Majestade por sua proteção, a construção desta Destilaria Kikkoro e todo o seu apoio. Agradeço em nome do meu povo.

— Está tudo bem — falei. — A pequena Tomoe também fez muito por nós. Além disso, foi por sorte que vieram pessoas como você, que sabiam cultivar arroz e produzir molho de soja, missô, mirin, saquê e muito mais. Posso comer comida saborosa e também compartilhar com outras pessoas.

— Você é muito gentil dizendo isso — falou o ancião. — Agora, senhor, que tipo de negócio te trouxe até aqui hoje?

— Sim… eu estava pensando que era hora de resolvermos o problema de fora.

— Por “de fora”, quer dizer… o campo de refugiados?

Quietamente balancei a cabeça.

Quando fui invocado para este mundo, este país enfrentava muitos problemas. A crise alimentar, nobres corruptos agindo contra o estado, países vizinhos tramando uma invasão, como lidar com o Lorde Demônio, sua relação com o Império – a lista continuava.

No entanto, senti que a grande maioria desses problemas já havia sido resolvida. De alguma forma, havíamos superado a crise alimentar e a situação doméstica parecia boa. Nossos inimigos estrangeiros foram varridos, e quando se tratava do Lorde Demônio, formamos uma aliança secreta com o Império para lidarmos com o assunto juntos. Eu havia trabalhado com todos esses problemas, um por um, e o último que restou foi a questão do campo de refugiados.

Fora das muralhas do castelo que rodeava Parnam, havia uma vila de refugiados que veio do norte para após o aparecimento do Domínio do Lorde Demônio.

Eu chamava de vila, mas na verdade era apenas um grupo de barracas e cabanas concentradas em um só lugar. Das muitas raças que compunham os refugiados, eu tinha sido capaz de ajudar os lobos místicos em prol de colocar seus talentos especiais em uso, mas eles representavam apenas uma pequena porcentagem da população total de refugiados. Mesmo agora, muitos deles ainda viviam naquele campo de refugiados.

Tecnicamente, mesmo quando as coisas ficaram caóticas, o alimento básico foi fornecido o tempo todo, mas não podiam ficar assim por muito mais tempo. Havia questões de higiene, e se eu desse suporte por muito tempo, isso criaria atrito com o povo deste país.

Se possível, eu queria que o resto deles escolhesse viver como pessoas deste país, assim como os lobos místicos fizeram, mas… parecia que seria difícil. Seu desejo era voltar para sua terra natal. Se aceitassem a cidadania neste país, seria o mesmo que desistir de retornar à sua terra natal.

Para essas pessoas que desejavam que a ameaça do Domínio do Lorde Demônio um dia fosse varrida, permitindo-lhes retornar para suas terras natais, simplesmente não era algo que poderiam aceitar. Eu havia enviado meus vassalos ao campo de refugiados várias vezes para negociar, mas sempre foram rejeitados.

— Queremos voltar à nossa terra natal — diziam eles.

Ou:

— Vamos ficar aqui até que chegue a hora.

Eu entendia como se sentiam quando disseram essas coisas, então não poderia ser muito duro com eles. No entanto, não havia mais tempo sobrando.

— A partir de agora o frio do inverno só vai ficar mais forte — falei. — Se eles ficarem em tendas e choupanas, os mais fracos, as crianças e os idosos, serão os primeiros a morrer de frio. Antes que isso aconteça, quero ir lá pessoalmente e pressioná-los a tomar uma decisão.

— Senhor… — disse o ancião.

— Para fazer isso, gostaria que você enviasse um mensageiro ao campo de refugiados para mim primeiro. Peça ao mensageiro que diga a eles que estou indo. É improvável que o caos vá estourar dessa forma.

— Entendo. — O ancião se levantou e se ajoelhou no chão, curvando a cabeça profundamente para mim. — Nós, lobos místicos, já fomos salvos pela mão de Vossa Majestade. Se for possível… pedimos a você que salve o resto de nossos companheiros também.

— Sim… pretendo fazer tudo que puder — falei, enquanto o ancião pressionava sua testa contra o chão e me implorava.

— Que tal dizer mais claramente, algo como “Deixe comigo”? — disse Liscia, mas parecia que ela assumiria a tarefa para si.

— Vou tentar persuadi-los, mas… quem toma a decisão final não sou eu — expliquei. — São eles que devem decidir o seu próprio futuro. Assim que eu receber essa decisão, decidirei como vou lidar com eles. Mesmo que isso signifique forçá-los a ver a dureza da realidade.

— Souma… — Liscia tinha uma expressão preocupada no rosto, mas não havia como evitar isso.

Se tudo corresse bem… olhariam para sua realidade atual, não um ideal, quando fossem tomar uma decisão.

 


 

Tradução: Bucksius

 

Revisão: Sonny Nascimento (Gifara)

 

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