Quantos minutos… quantas horas se passaram?
Sem uma janela para olhar, presas no subsolo onde nenhum sino de Centoria podia alcançar, não havia como saber a hora do dia. O Delegado Espadachim sempre dizia que queria produzir um relógio que pudesse ser carregado, e, embora estivesse trabalhando nisso com o mestre do arsenal, Sadore, eles estavam longe de terminar.
Toda vez que ouvia isso, Ronie pensava: “Os sinos sempre nos dizem a hora exata, então qual seria o sentido de carregar um item desses?”. Mas agora que estava nesta situação, ela tinha que admitir que havia um sentido, afinal.
Além disso, os milhares de sinos por todo o Reino Humano tocavam uma melodia chamada “Pela Luz de Solus”. Era uma canção linda, mas saber que a história da Igreja Axiom estava cheia de tantas falsidades tornava muito mais difícil para Ronie entrar naquele clima de adoração sempre que ouvia o hino tocar agora.
As artes, como música, pintura, escultura e poesia, ainda eram estritamente controladas pelo Índice de Tabus. Apenas aqueles que recebiam a vocação para criá-las podiam seguir pelo caminho criativo, e o governo imperial tinha que avaliar uma obra concluída antes que pudesse ser revelada. Se o conteúdo da arte tivesse qualquer indício de sentimento negativo em relação à lenda da gênese ou à Igreja Axiom, ou visasse um efeito muito vulgar ou divertido, eles não seriam aprovados.
O Delegado Espadachim queria eliminar esse órgão normativo imediatamente, mas havia votos contrários no Conselho de Unificação — sendo o principal deles o de Nergius —, então isso ainda não acontecera. Ronie achava este um tópico complicado, mas esperava que um dia as pessoas pudessem cantar o que quisessem — e pintar e escrever as histórias que quisessem, sem estarem presas a suas vocações.
Mas para ver esse mundo se tornar realidade, ela precisava escapar viva deste lugar.
Enquanto reunia sua determinação, uma voz que era o completo oposto resmungou:
— Ugh, não adianta.
Tiese estava tentando abrir a fechadura usando Encarnação, mas agora estava deitada de costas no chão.
— E Kirito a abriu como se não fosse nada.
A situação era perigosa e não era brincadeira, mas Ronie não pôde deixar de rir de sua amiga.
— Qual é?! Você sabe que não pode simplesmente repetir o que ele faz como se fosse fácil.
— É, eu sei… E você? — sussurrou Tiese de volta. Ronie não disse nada.
Enquanto sua parceira tentava destravar a porta da cela, Ronie estava estudando a parede da prisão subterrânea, mas não encontrou a porta escondida que esperava — nem mesmo nenhuma seção que pudesse ser mais fácil de destruir. Os blocos eram feitos do granito especial de Norlangarth, colocados sem sequer uma fresta entre eles. Uma aprendiz de cavaleira não conseguiria soltá-los em silêncio, e, se tentassem destruir qualquer parte da parede ou das barras com força, o som chegaria à mansão acima.
Tiese finalmente se sentou e abraçou os joelhos.
— Shimosaki está bem, certo? — murmurou ela.
Era a quarta vez que ela perguntava isso. Mas Ronie se ajoelhou ao lado de sua amiga, esfregou suas costas gentilmente e disse:
— Ele está ótimo. Você o verá muito em breve.
Tiese assentiu silenciosamente. Enquanto continuava a esfregar, a própria Ronie estava secretamente preocupada com Tsukigake.
Entre a mansão e o portão de Centoria, havia principalmente uma pastagem plana com algumas características aqui e ali, e a plantação imperial particular. Ela não achava que animais que atacariam um dragão bebê vivessem ali, mas, para ser justa, Ronie não sabia muito sobre a propriedade. Não se podia negar a possibilidade de perigo inesperado, mas, por enquanto, tudo o que Ronie podia fazer era rezar para que Tsukigake fizesse a viagem em segurança.
Deuses acima…
Ela sabia que o Reino Celestial além das nuvens e os deuses que diziam habitar lá não existiam de verdade, mas Ronie rezou para eles mesmo assim.
— …Por favor, deem sua proteção a Tsukigake e Shimosaki!
Ela não ouviu nenhuma resposta. O único som foi o de rochas pesadas se roçando.
A extremidade esquerda do corredor iluminado por lanternas começou a se separar, e a parede de pedra espessa subiu lentamente. Ronie e Tiese pularam de pé e se encostaram na parede dos fundos. Os goblins na cela adjacente grunhiram e guincharam.
Da escuridão além da porta escondida, surgiu a figura do homem de manto que o Imperador Cruiga chamava de Zeppos, tão suavemente quanto tinta derramada do vazio negro.
O molho de chaves em sua mão direita tilintou enquanto ele entrava no corredor e parava diante da cela de Ronie e Tiese. Ele olhou para dentro com um movimento rangente, encarando atentamente as duas garotas, e então se endireitou novamente sem dizer uma palavra. Depois disso, deu mais alguns passos pelo corredor e parou diante da cela adjacente.
Provavelmente era apenas uma patrulha de rotina, mas Ronie se aproximou cuidadosamente das barras de ferro para observá-lo. Ele havia selecionado uma chave de seu molho e estava justamente colocando-a na fechadura.
O clique frio e duro que fez foi seguido por mais guinchos dos goblins. O homem abriu a porta mesmo assim e, com uma voz estranhamente torcida, disse:
— Vocês três. Fora da jaula.
Instantaneamente, os guinchos pararam. Então uma voz sussurrante perguntou:
— Você… vai nos soltar?!
Três segundos depois, Zeppos disse:
— Sim.
Ronie sentiu que era mentira. A pausa era suspeita, e eles se deram ao trabalho de sequestrar esses goblins da estalagem em Centoria do Sul. Não iam simplesmente libertá-los agora.
Mas os goblins saíram da cela sem qualquer dúvida aparente sobre suas palavras.
— Passem por aquela porta — disse Zeppos, apontando não para a saída do lado direito da passagem que levava à superfície, mas para a porta escondida à esquerda. Os três começaram a andar, com Zeppos seguindo-os para bloquear sua rota de fuga.
Quando ele começou a passar pelas barras de ferro, Ronie não conseguiu se conter.
— O que você vai fazer com essas pessoas?
Os goblins pararam, aparentemente confiando completamente que estavam prestes a ser libertados, e olharam para Ronie e Tiese com olhares de confusão e desculpa. Atrás deles, Zeppos gargalhou.
— Keh-heh…! “Pessoas”, você os chama.
— O que é tão engraçado?! — exigiu Tiese. Zeppos se virou para espiar a cela novamente. Seu sorriso havia desaparecido.
— Uma vez goblin, sempre goblin — não importa o quanto o mundo mude.
Essas palavras soaram de alguma forma familiares para Ronie. Mas antes que pudesse situar a memória, Zeppos se endireitou e latiu uma ordem para seus prisioneiros:
— Agora andem. Subam as escadas, e eu os deixarei sair.
Os goblins retomaram sua marcha, e Zeppos os seguiu para a escuridão da porta escondida. Quatro pares de passos subiram as escadas de pedra e desapareceram. Por último, houve um rangido de madeira, e o silêncio retornou às celas.
— …Ele não está realmente os libertando… está? — sussurrou Tiese. Ronie teve que concordar.
— Acho que… eles terminaram de se preparar para algo. Não sei o que é… mas tenho certeza de que vai envolver fazer algo com aqueles pobres goblins — sussurrou ela.
Tiese mordeu o lábio, com a expressão preocupada.
— Kirito disse que os sequestradores poderiam cometer outro assassinato em Centoria e culpar os goblins sequestrados pelo ato. Se isso for verdade… então alguma alma inocente em Centoria vai morrer de novo.
— …Sim.
A mente de Ronie disparou. Se a conjectura de sua parceira estivesse correta, os sequestradores — o Imperador Cruiga e Zeppos — cometeriam outra atrocidade. Mas quem eles matariam — e onde?
Kirito também dissera outra coisa. Se o assassino conseguiu matar Yazen em violação ao Índice de Tabus, e foi porque ele era um ex-servo da propriedade particular, então outros servos poderiam estar igualmente vulneráveis.
Ele chegara a essa conclusão porque Asuna fora capaz de ouvir a voz do assassino através da vidência do passado. As palavras que o assassino dissera pouco antes de matar Yazen:
“Uma vez servo, sempre servo. Se não gosta disso, então morra aqui e agora!”
— …Ah!
O som da voz de Zeppos, ainda fresco de poucos minutos atrás, inundou a mente de Ronie.
“Uma vez goblin, sempre goblin.”
Exceto pelo sujeito, era exatamente a mesma frase.
Era isso. Era fraco demais para ser uma certeza e não indicava nenhum tipo de causalidade. Mas Ronie tinha absoluta certeza de que sua intuição estava correta neste caso.
— … Aquele homem … Zeppos. Foi ele quem matou Yazen na estalagem — disse ela, com a voz trêmula. Tiese balançou a cabeça decididamente, com expressão firme; ela chegara à mesma conclusão.
— Sim… eu também sinto isso. Não sei o quanto do Índice de Tabus ele pode quebrar, mas está claro que ele vai usar os goblins para fazer algo muito pior do que o que aconteceu com Yazen. Temos que detê-lo.
— Sim.
Ronie encarou a escuridão além da porta escondida do outro lado das barras. A porta ainda não havia sido retornada à sua posição fechada.
Ela não sabia a hora precisa, mas se tudo estivesse indo bem, Tsukigake já deveria estar chegando ao portão de Centoria. Infelizmente, ela não podia falar a língua humana. Quantos minutos levaria para os guardas no portão perceberem que Tsukigake era um filhote de dragão, enviarem um mensageiro para a Catedral e entregarem um relatório a Kirito, Asuna ou a um dos Cavaleiros da Integridade para que alguém pudesse vir aqui na propriedade particular para salvá-las…?
E a carruagem que Ronie e Tiese pegaram para chegar aqui ainda estava no lado leste do lago. Mesmo o Delegado Espadachim não conseguiria adivinhar que elas estavam, na verdade, na floresta do lado oeste do lago e presas em uma masmorra sob a mansão. Elas teriam que torcer para que Tsukigake estivesse com a equipe de resgate, mas tudo isso levaria tempo, então mesmo que tudo corresse o mais suavemente possível, elas deveriam supor que a ajuda não chegaria por pelo menos mais uma hora.
Era otimista demais acreditar que nada aconteceria aos goblins que foram levados para cima antes disso. As garotas precisavam fazer algo agora mesmo, ou seria tarde demais.
Mas era impossível quebrar suas barras de ferro silenciosamente, e restava saber se conseguiriam fazê-lo. Além disso, sucesso ou fracasso, os sons da tentativa certamente chegariam à mansão, onde o imperador e seu comparsa ouviriam. Tal coisa poderia significar um desastre para seu refém, Shimosaki.
“O que podemos fazer? Qual é o melhor plano…?”
Ronie apertou os olhos, sem nenhuma resposta clara vindo à mente.
Ela sentira essa sensação horrível apenas uma semana antes. Foi quando visitara o Palácio de Obsidia no Território das Trevas com Kirito, quando a filha da Embaixadora Sheyta e do Comandante Iskahn, Leazetta, fora sequestrada, com a exigência de sua libertação sendo a execução pública de Kirito. Se não fizessem o que era exigido, a vida de Leazetta teria sido tirada.
Com o prazo se aproximando, Ronie perdera a calma. Na presença de Kirito, ela afirmara que se ele escolhesse sua própria execução, ela exigiria receber o mesmo destino ao seu lado.
E em resposta, Kirito dissera: Não vou desistir. Vou encontrar uma maneira de resgatar Leazetta… e voltarei para a Catedral com você. Aquela é a nossa casa.
Ele estava certo. Ela não podia desistir. Tinha que pensar com todas as suas forças. O que era algo que ela poderia fazer aqui sozinha, sem esperar que Tsukigake fizesse tudo dar certo? Tinha que haver uma maneira de não perder nem os goblins nem seu dragão.
— Tiese… — murmurou Ronie, no exato momento em que sua melhor amiga disse:
— Vamos quebrar as barras.
— Huh…?
Essa era seu último recurso, não a primeira coisa que esperava ouvir. Ronie balançou a cabeça e protestou:
— M-mas se eles nos ouvirem lá em cima, Shimosaki vai…
No entanto, os lábios de Tiese se contraíram, como se ela esperasse essa refutação. Ela olhou para o teto da cela subterrânea.
— …Não acho que haja muitas pessoas nesta mansão. Provavelmente apenas o imperador e Zeppos… Caso contrário, não há razão para o próprio imperador se arriscar a aparecer diante de nós.
Era verdade que, mais cedo, o Imperador Cruiga agira como um chamariz, atraindo a atenção das garotas até que Zeppos pudesse se esgueirar por trás e capturar Shimosaki. Se houvesse outros seguidores, seriam eles os deixados para serem a distração.
— Sim… isso pode ser verdade, mas…
— Acho que se forem apenas dois, podemos recuperar Shimosaki em segurança se os pegarmos de surpresa. Felizmente, eles provavelmente deixaram nossas espadas logo além da porta escondida.
— …
Ronie olhou para a escuridão além da porta novamente. Quando elas largaram suas espadas no chão, o Imperador Cruiga as chutou pela porta, mas não houve nenhum sinal de que foram levadas para cima. Se conseguissem escapar da cela, havia uma boa chance de terem suas espadas de volta.
Se ela tivesse sua espada, sabia que poderia vencer a luta, fosse aquele o verdadeiro imperador ou não. A verdadeira preocupação era Shimosaki. Mesmo que fossem apenas os dois homens lá em cima, elas deveriam pelo menos saber com antecedência onde o dragão estava sendo mantido se fossem realizar um resgate surpresa, como Tiese sugeriu.
— Tiese — disse Ronie, erguendo as mãos para sua amiga —, me dê suas mãos.
— Huh…? — Ela estendeu a mão, sem entender, e as apertou.
— Podemos não conseguir abrir a fechadura com Encarnação, mas podemos usar a Encarnação para captar um sinal — disse Ronie.
Os olhos vermelho-bordô de Tiese se arregalaram. Em seu treinamento de Encarnação, o poder de afetar outras coisas era, na verdade, igual em importância ao poder de sentir as coisas. Suas difíceis lições de meditação eram para desenvolver essa parte da Encarnação. Elas se sentavam no salão de treinamento, de olhos fechados, e extinguíam seus pensamentos, expandindo sua capacidade de perceber o mundo através do reino da imaginação.
Kirito, que tinha o maior poder de Encarnação do mundo, disse que podia sentir um dragão a uma distância de dez quilômetros, mas, para as garotas, não era nem uma garantia segura de que pudessem sentir uma pessoa na mesma sala. Agora elas estavam tentando fazer isso através do teto de pedra espessa. Era uma tentativa imprudente, mas era o único método que tinham para identificar a localização do pequeno dragão.
Tiese começou a dizer algo, provavelmente pensando a mesma coisa, mas então fechou a boca. Ela apertou mais firmemente as mãos de Ronie e fechou os olhos.
Ronie fez o mesmo e inspirou o ar frio da cela subterrânea.
Em frente a ela, Tiese inspirou, segurou por um segundo e depois expirou lentamente.
A Encarnação era um poder individual, mas, ao se dar as mãos e combinar a respiração, a lei da unidade de corpo e espírito permitia que fosse amplificada por várias pessoas. Era uma técnica muito avançada, e mesmo com Tiese, que ela conhecia tão bem, elas só haviam conseguido algumas vezes antes. Mas a Encarnação de uma pessoa provavelmente não seria suficiente para sondar através do teto.
A cada respiração, suas taxas respiratórias se aproximavam da sincronização. A sensação de tocar a pele se fundia em uma só, de modo que nenhuma delas conseguia dizer onde sua própria mão terminava e a da outra começava. A fronteira entre o eu e o mundo externo se desvanecia, muito lentamente, e seus sentidos se expandiam.
Havia três auras diretamente acima da cela do porão. Pareciam estar deitadas lado a lado. Devia ser o trio de goblins da montanha.
Um pouco mais longe, havia mais duas presenças. Pareciam insuportavelmente frias, frias demais para serem humanos vivos, mas sem dúvida pertenciam ao Imperador Cruiga e a Zeppos.
E em um canto da mesma sala, havia uma aura pequena, mas muito quente. Assim que sentiram isso, a respiração de Tiese saiu de sincronia. A combinação de sua Encarnação vacilou brevemente e depois se estabilizou. Elas podiam sentir a preocupação e a solidão de Shimosaki, mas ele não parecia estar gravemente ferido.
Então elas expandiram seu alcance. Isso lhes deu uma ampla compreensão da disposição da mansão. Fazia jus à reputação de uma vila imperial, pois havia muitos quartos no primeiro e segundo andares, mas, além da grande câmara onde as cinco pessoas e Shimosaki foram encontrados, elas não sentiram nenhum outro habitante.
Se subissem as escadas atrás da porta escondida, estariam no que parecia ser um depósito no térreo. Se descessem o corredor a partir daí, a porta para o grande salão ficava a apenas cinco mels de distância. Se corressem a toda velocidade, poderiam chegar lá em quinze — talvez até dez segundos.
Ronie e Tiese abriram os olhos e se encararam.
Não havia necessidade de palavras. Elas se soltaram e se viraram para as barras.
O ferro era muito resistente, provavelmente extremamente difícil de destruir com as mãos nuas, mas elas ainda tinham suas bainhas de espada vazias. Os níveis de prioridade das bainhas estavam muito abaixo dos de suas espadas, mas provavelmente ainda eram resistentes o suficiente para suportar um único golpe.
— …Ei, você se lembra da história de como Eugeo e Kirito escaparam da prisão sob a Catedral Central? — sussurrou Tiese, para a surpresa de Ronie.
— Claro. Eles cortaram as correntes de metal e as usaram para quebrar as barras.
— Na época em que eles nos contaram, achei que soava tão imprudente… Quem diria que um dia estaríamos tentando fazer o mesmo?
— Eu não, com certeza — disse Ronie, sorrindo brevemente. Então ela removeu sua bainha vazia do fecho do cinto de sua espada, moveu-a para a mão direita e a ergueu em uma postura vertical. Tiese se preparou da mesma maneira.
Elas não sabiam o que o imperador e Zeppos estavam fazendo com os goblins lá em cima no grande salão. Mas uma vez que dessem o próximo passo, não poderiam se dar ao luxo de perder um único segundo com hesitação.
— …Me desculpe! — disse Ronie silenciosamente para sua bainha, inspirando bruscamente.
Ela não podia usar uma de suas técnicas com a própria bainha, mas se lançou como se fosse fazê-lo de qualquer maneira.
— Haaaah!!
— Yaaaa!!
As duas avançaram com gritos ferozes, balançando suas bainhas vazias para baixo na forma do Corte Relâmpago estilo Norkia, também conhecido como Vertical estilo Aincrad.
As bainhas de madeira e couro pareceram assumir um brilho azul-claro, o que certamente era um truque de vista. As duas bainhas fizeram contato com as barras de aço e se estilhaçaram com um tremendo som de esmagamento.
Mas um momento depois, o conjunto de barras, com dois mels de altura e quatro de largura, dobrou em dois lugares diferentes, soltou-se de onde encontrava a pedra e voou para o outro lado do corredor. Toda a passagem subterrânea tremeu.
— Vamos lá! — foi a mensagem silenciosa de Tiese.
“Dez segundos!”, Ronie pensou de volta, pulando para o corredor.
Elas correram pela porta aberta e se encontraram em um pequeno depósito. Havia tiras de couro na parede direita que pareciam restrições e uma variedade de lâminas de formas estranhas e recipientes de vidro à esquerda. Estava claro para quê essas ferramentas eram usadas, mas elas afastaram esse pensamento e examinaram o chão à fraca luz que entrava na sala atrás delas.
A Espada Raio de Luar de Ronie e a Espada de Dotação-Padrão de Tiese foram jogadas no canto da sala como se fossem apenas galhos. Ronie foi a primeira a avistá-las, pegou sua espada com uma mão e a de Tiese com a outra, jogando-a para sua parceira.
Três segundos se passaram.
Uma escadaria de pedra subia da parede em frente a elas. Elas subiram as escadas, pulando cinco de cada vez, com as lâminas na mão.
Ronie chutou a porta no topo, colocando-as em um espaço de armazenamento maior. As janelas davam para o norte, mas havia bastante luz do sol poente entrando por elas, tornando o ambiente muito mais claro do que a câmara subterrânea. As muitas prateleiras de exibição e suportes de armadura que revestiam o chão e as paredes estavam totalmente vazios. Quando a mansão foi interditada, todos os tesouros de dentro certamente foram retirados. Virando-se para olhar para a porta que chutara, Ronie viu que ela fora feita para parecer uma grande estante e teria sido difícil de avistar deste lado.
Sete segundos se passaram.
As portas reais para fora da sala ficavam a oeste e ao sul. Elas aprenderam a disposição geral da mansão com sua invocação, então correram direto para a porta oeste e a chutaram também.
O golpe foi tão forte que quebrou as dobradiças, fazendo a porta bater contra a parede do outro lado. Elas correram por ela para um corredor longo e opulento que ia para a esquerda e para a direita. O papel de parede vermelho era decorado com lírios e falcões.
Quinze mels pelo lado esquerdo do corredor, a entrada para o grande salão ficava à direita.
Oito segundos. Nove.
Usando cada grama de sua força de cavaleiro, Ronie avançou pelo corredor em dois segundos e desferiu um chute giratório no centro das enormes portas duplas. Não as arrancou das dobradiças, é claro, mas elas se abriram com força suficiente para quase quebrá-las, revelando o que havia além.
Dez segundos.
A vasta sala ocupava um terço inteiro do primeiro andar da mansão. Estava sombria por dentro; cortinas pretas cobriam todas as janelas do lado sul. Mas não estava totalmente escura, porque dez ou vinte velas queimavam perto do centro do espaço.
As velas estavam dispostas em um círculo de cerca de dois mels de diâmetro, dentro do qual os goblins estavam deitados. Uma figura negra estava do lado de fora do círculo, entoando algum tipo de arte. Estava claro que algo ruim estava em andamento, mas havia uma prioridade mais urgente no momento.
Ronie olhou ao redor, com os olhos arregalados, e avistou um saco no canto esquerdo do salão — e uma segunda figura escura começando a correr em sua direção.
Aquela sombra tinha que ser Zeppos. Elas não precisaram pensar duas vezes sobre o que havia no saco.
“Tiese!”, Ronie gritou em sua mente, estendendo a mão esquerda.
Tiese se juntou a ela, erguendo a mão — transferindo sua espada para a esquerda — para cruzar sobre a de Ronie.
— Chamada do Sistema! Gerar Elemento Térmico! — cantou Tiese, enquanto Ronie acrescentava:
— Formar Elemento! Forma de Flecha!
Os cinco elementos de calor que Tiese criou foram instantaneamente transformados em cinco flechas pela arte de Ronie. Este lançamento sincronizado era uma técnica de alto nível para reduzir o tempo de execução pela metade. Tiese e Ronie eram apenas aprendizes de cavaleiro, mas praticavam isso muito antes, quando eram aprendizes primárias na Academia. É por isso que tinham uma pequena chance de realizar habilidades avançadas como Unidade de Corpo e Espírito e Lançamento Sincronizado, que até mesmo cavaleiros adequados achavam difíceis.
Levou apenas dois segundos para terminarem de preparar a arte, e elas falaram o comando final juntas.
— — Disparar!! — —
Cinco luzes brilhantes cortaram a escuridão.
As flechas flamejantes rugiram em direção à figura de manto preto, que saltou para fora do caminho com agilidade sobre-humana. As flechas atingiram a parede uma após a outra, causando pequenas explosões.
— Vá, Tiese! — gritou Ronie, controlando as duas últimas flechas com Encarnação.
Com as mãos livres, Tiese avançou em direção ao saco de linho. Ronie curvou o caminho das flechas de fogo restantes para perseguir Zeppos e empurrá-lo para mais longe.
A quarta flecha também errou. Mas a quinta pegou seu manto esvoaçante, incendiando-o.
Zeppos silenciosamente jogou fora o manto e recuou ainda mais. Tiese alcançou o saco naquele ponto e cortou a corda firmemente amarrada com sua espada.
— Shimosaki! — ela gritou, enfiando a mão no saco. O dragão juvenil saiu dele; algumas de suas penas azul-claras haviam caído com o tratamento rude. Mas uma vez agarrado ao peito de sua mestra, ele cantou baixinho.
— Krrrr…
Ronie ficou aliviada, mas também preocupada com o retorno tardio de Tsukigake. Ambas as emoções a inundaram de uma vez, mas ela as reprimiu e gritou:
— Tiese, leve Shimosaki para fora! Deixe isso comigo!
— Mas…?! — protestou sua parceira.
— Vá! — insistiu ela.
Para resgatar os goblins aparentemente inconscientes, a batalha com Zeppos e o imperador que cantava estranhamente era inevitável. Tiese não podia lutar carregando o dragão, e se seus adversários conseguissem capturá-lo novamente, as garotas provavelmente nunca o teriam de volta.
— …Tudo bem! Volto logo! — gritou Tiese, balançando sua espada em uma linha reta. Uma cortina próxima se partiu, e o vidro atrás dela se estilhaçou tremendamente.

Uma luz vermelha inundou o salão, agora que um retângulo fora cortado da escuridão. Zeppos recuou ainda mais sem seu manto, como se temesse o poder de Solus.
Sob seu manto, ele usava o que parecia ser um tipo de restrição. Cintos de couro cobertos de tachas envolviam seus membros e tronco magros, e à primeira vista, era impossível dizer se era para ser uma armadura ou algum tipo de punição.
E até mesmo a carne que aparecia por entre as tiras de couro tinha uma cor antinatural. Não estava claro, apenas pela luz refletida do pôr do sol, mas parecia ser cinza-azulado — não algo que se associaria à carne humana viva.
Sinto que já vi essa cor antes, percebeu Ronie enquanto Tiese saltava pela janela quebrada e escapava para o jardim da frente do prédio. Ela correu para a floresta próxima para encontrar um lugar seguro para esconder Shimosaki.
Até que sua parceira retornasse, seria uma luta de dois contra um. Ela não podia tentar fazer muito, mas estava preocupada com os goblins no chão e com a arte perturbadoramente longa que o Imperador Cruiga estava recitando.
Ela ouviu sua voz rouca, mas não entendeu uma única palavra do que ele estava dizendo. O que quer que fosse, não seria nada agradável quando ele terminasse.
Com a ponta de sua espada direcionada a Zeppos, Ronie começou a gerar um novo elemento de calor com o propósito de interromper o lançamento do imperador.
Mas primeiro, sem um som, Zeppos desembainhou duas adagas dos cintos de couro em volta de suas coxas. A de sua mão direita era ligeiramente maior, mas a da esquerda estava manchada com uma substância verde. A da esquerda era a faca envenenada usada para ameaçar Shimosaki na masmorra. E a da direita era provavelmente a faca que tirou a vida de Yazen.
Zeppos se aproximou, circulando ao redor das velas no centro da sala. Ao passar pela luz deixada pela janela agora aberta, iluminou um rosto que estivera escondido até agora.
Não havia um único fio de cabelo em sua cabeça. Seu rosto longo e estreito, como o resto de seu corpo, era azul, e seus olhos brilhavam com pupilas extremamente pequenas. Ela não reconheceu suas feições.
— Vocês saíram daquela cela muito antes do que eu esperava, garota! — resmungou Zeppos, sua boca sem vida se torcendo.
— Esperava…?! Então… você deixou a porta escondida aberta de propósito?! — respondeu Ronie.
O homem magro lhe deu um sorriso fino.
— Mas é claro. Como grão-camareiro da família Norlangarth, eu nunca seria descuidado o suficiente para simplesmente esquecer de fechar uma porta.
— Camareiro…?! — ofegou Ronie. O sorriso de Zeppos se aprofundou.
Antes e depois da batalha no palácio, Ronie nunca encontrara o grão-camareiro do Império Norlangarth, então é claro que não o reconheceria. Mas Ronie sabia o que acontecera com ele: na reunião após a repressão da rebelião, a General Serlut, líder do Exército de Guardiões Humanos, fizera um anúncio de que ela ainda se lembrava vividamente.
— O grão-camareiro imperial… está morto. Ouvi dizer que ele resistiu à rendição, assim como os oficiais da nobreza, e foi morto pelo exército.
— Esse era meu dever e meu prazer. Eu morreria e voltaria à vida quantas vezes Sua Majestade Imperial exigisse — anunciou Zeppos, cruzando os braços sobre o peito, com as facas em punho. Ele olhou brevemente para o homem de manto parado no centro do grande salão.
Falando em pessoas que deveriam estar mortas, o Imperador Cruiga Norlangarth continuava com seu canto sinistro. E, diferente do caso de Zeppos, a própria Ronie fora responsável por acabar com a vida do imperador. Ela ainda podia sentir a sensação de sua espada cravando fundo no peito do homem.
Se esses dois não fossem impostores, então, como Zeppos disse, eles haviam voltado à vida. Mas Kirito — que tinha a Encarnação mais forte de todo o mundo humano —, Asuna — que empunhava o poder divino de Stacia —, e Ayuha Furia — líder da Brigada de Artífices Sagrados —, até mesmo a semideusa Administradora, que governou o mundo por mais de trezentos anos —, não poderiam realizar o feito de ressuscitar os mortos. Eles não poderiam realmente ter voltado à vida. Tinha que haver algum truque… algum mecanismo maligno que Ronie não conseguia nem imaginar.
Sentindo algo na expressão de Ronie, Zeppos descruzou os braços e disse:
— Deixei a porta do porão aberta para atraí-las aqui, naturalmente. Vocês serão parceiras de treinamento de combate perfeito para os goblins, mas eles não conseguem passar por aquela pequena passagem, é claro.
— Treinamento de combate…?! Não conseguem passar…?! — repetiu ela, com a voz rouca. Ela deu uma olhada nos goblins deitados no círculo de velas. Eles eram muito claramente menores que Zeppos e o imperador — e até mesmo que Ronie. E não houve problema em tirá-los da cela em primeiro lugar.
Desafiava toda a compreensão, mas havia uma coisa que ela sabia com certeza. Ela tinha que parar aquela arte sagrada o mais rápido possível. E o primeiro passo para fazer isso era eliminar Zeppos.
— …Já ouvi conversa fiada o suficiente — anunciou Ronie. — Se vocês voltaram dos mortos, vou apenas mandá-los de volta para as profundezas do inferno! — Preparando-se, ela brandiu sua arma.
Zeppos carregava uma lâmina em cada mão. Isso significava que ele não podia usar artes sagradas. Mas ela podia — e ela ia imobilizá-lo, e então fechar a distância e cortá-lo em dois.
— Chamada do Sistema! Gerar Elemento Térmico! — O mais rápido possível, ela recitou a geração de elementos que Tiese havia feito momentos antes, e invocou cinco elementos de calor.
Zeppos avançou, com as adagas em punho. Ele provavelmente pensou que, sem o lançamento sincronizado delas, ele era mais rápido — mas esta era a armadilha de Ronie.
Ela manteve os elementos flutuando onde os gerara, então saltou para trás e gritou:
— Disparar!!
Os elementos de calor não refinados liberaram seu poder armazenado, explodindo com uma tremenda rajada.
Elementos processados eram necessários em artes de ataque para realmente atingir um alvo. Forma de Flecha priorizava precisão direcional e poder de perfuração. Forma de Pássaro era boa para rastrear um objeto em movimento. Havia outros comandos com outros efeitos também — mas nenhum deles era necessário se o inimigo ia correr direto para o elemento de qualquer maneira. Simplesmente descarregá-los era suficiente.
Assim como Ronie esperava, Zeppos acabou bem no meio da explosão. Aquelas tiras de couro que mal podiam ser chamadas de armadura não o ajudariam. As artes de calor eram básicas, mas cinco elementos de uma vez tinham poder suficiente para que até mesmo um soldado jovem e resistente pudesse perecer facilmente.
Mesmo que ele ainda estivesse vivo, estaria imobilizado. Esta era sua chance!
— Haaah! — gritou ela, erguendo a Espada Raio de Luar enquanto irrompia pela fumaça negra que flutuava no ar.
Kchiiing! Houve um barulho ensurdecedor, e sua espada parou, um choque percorrendo desde seu pulso até seu ombro.
— ?!
Para o espanto de Ronie, Zeppos emergiu da fumaça que se dissipava.
A maioria das tiras de couro estava queimada e carbonizada — e rasgada em vários pontos. Seu peito direito era a parte mais danificada, onde o couro esfarrapado pendia frouxamente, revelando um buraco fundo o suficiente para caber dois punhos inteiros.
Mas era só isso. Não havia uma gota de sangue, e a faca maior que sua mão direita segurava acima da cabeça estava firmemente bloqueando a espada de Ronie.
Era impossível. Como ele poderia estar de pé, com um buraco no peito fundo o suficiente para esmagar um pulmão e também seu coração? Um membro da Ordem dos Cavaleiros da Integridade balançara sua arma de Objeto Divino com força total. Como um camareiro, nem mesmo um guarda, poderia bloqueá-la com uma só mão?
Zeppos sorriu, bem em seu rosto.
Ela pulou para trás novamente, tentando escapar da pequena lâmina, sua ponta afiada brilhando com aquele verde horrível. Mas não foi a tempo. A faca deslizou pelo espaço como uma cobra verde e entrou em sua vizinhança. A borda de seu manto se rasgou sem um som.
“Shunk!”
Ela ouviu um som úmido e desagradável.
Mas originou-se de uma peça de metal prateado que veio voando de trás de suas costas — provavelmente uma estaca feita de elementos de aço — perfurando profundamente o estômago de Zeppos.
— Ronie!
Era Tiese, pulando de volta pela janela quebrada, com a Espada de Dotação Padrão em punho.
— Afaste-se dele!
Ela obedeceu à voz de sua parceira e pulou para trás novamente, longe da faca envenenada que parara a milímetros de seu plexo solar. Zeppos tentou segui-la, não mais sorrindo, mas então Tiese gritou:
— Disparar!!
Uma segunda estaca veio rugindo mais perto, atingindo Zeppos nas costas e perfurando-o, até que a ponta pontiaguda ficou visível através da frente de seu peito. Sangue enegrecido espirrou de sua boca.
Certamente ele estava morto desta vez. Nenhum ser humano poderia sobreviver sendo perfurado no coração por uma estaca de três cens de largura. Certa de sua vitória, Ronie plantou os pés e ergueu a espada para dar o golpe final.
— Não! Ele ainda está se movendo! — gritou Tiese.
Se não fosse por isso, a cabeça de Ronie poderia ter sido cortada limpamente pelo golpe em velocidade da luz da faca de Zeppos.
— O quê…?!
Ela jogou a parte superior do corpo para trás o máximo que pôde, atordoada. A lâmina de metal opaco passou por seu pescoço perto o suficiente para que ela pudesse sentir o ar dela.
Com o golpe errado, Zeppos recuou com passos desajeitados — ele não estava morto, mas também não estava ileso. Ele parou perto do centro do grande salão e estendeu seus braços armados, como se para proteger o círculo de velas.
Tiese usou aquele momento para atravessar o salão e correr para o lado de Ronie. Ela apontou sua espada para Zeppos e gritou:
— Ele não é humano, Ronie!
— Huh…?! O que você quer dizer…? — gaguejou ela.
Tiese olhou para a janela quebrada pela qual acabara de pular e depois para a frente novamente.
— Na floresta, encontrei uma enorme pilha daqueles sacos. Estavam todos cheios de terra… argila de cheiro desagradável.
— Argila…?
A menção daquela palavra fez algo na mente de Ronie piscar. A pele acinzentada de Zeppos. O corpo que apenas se amassou com a explosão de fogo. O sangue escuro e enegrecido.
Ronie vira algo com as mesmas propriedades no Palácio de Obsidia, no Território das Trevas. Não era um humano. Era um monstro gigantesco que apareceu no repositório do tesouro.
— …Um lacaio! — gemeu ela. Tiese assentiu, e os lábios manchados de preto de Zeppos se curvaram em um sorriso.
Lacaios. Vida artificial que apenas os magos sombrios do Território das Trevas podiam fabricar. Eles recebiam apenas ordens simples, mas seus grandes corpos continham vida massiva e eram muito resistentes ao calor e ao frio. Se Zeppos era um lacaio feito de argila, em vez de uma pessoa, isso explicaria por que seu peito apenas se amassou quando atingido por cinco elementos de calor.
Mas isso apenas levantava novas questões.
— Lacaios… são monstros irracionais que não sabem falar. Mas ele… — gritou ela.
Então Zeppos falou, sua voz ressoando e difícil de discernir com as estacas de elemento de aço em seu estômago e peito.
— A Igreja Axiom… não foram as únicas pessoas… a estudar artes sagradas… O Imperador Cruiga — na verdade, todas as quatro dinastias imperiais, as de sangue mais antigo e régio, realizaram pesquisas intermináveis por séculos, tudo para completar uma arte muito especial.
— Todas as quatro dinastias imperiais… juntas?! — ofegou Tiese.
Ronie estava igualmente chocada. Como membro de uma família nobre inferior em Norlangarth, Ronie sentira por muito tempo que os outros três impérios eram entidades tão distantes que poderiam muito bem não existir. A ideia de que ela poderia simplesmente voar sobre as Muralhas Eternas, que pareciam o próprio fim do mundo, era algo que ela não compreendeu até depois de participar da Guerra do Outromundo.
Mas Zeppos estava dizendo que os imperadores dos quatro impérios cooperaram em pesquisas de artes sagradas por séculos. Era uma revelação chocante, mas, refletindo melhor, não era impossível. Mesmo sob o governo da pontífice, um passe de viagem permitiria que seu portador passasse pelas Muralhas Eternas, e os quatro palácios imperiais que cercavam a Catedral estavam, na verdade, a menos de um quilômetro de distância se vistos de cima das muralhas. Os próprios imperadores poderiam não passar por elas, mas seus agentes certamente poderiam.
Alguém como, digamos,… um grão-camareiro.
— Que tipo de arte sagrada é essa?! — exigiu Tiese.
Zeppos apenas a olhou de forma sinistra.
— Geh-heh-heh-heh! Se vocês ainda não conseguem perceber, são realmente garotas estúpidas. Deveria ser óbvio! Falo do poder divino que a pontífice monopolizou, a arte que confere a vida eterna!
— Vida…
— Eterna?!
Ronie e Tiese ficaram atordoadas em inação. Zeppos, enquanto isso, tremeu de prazer ferido e emoldurou sua cabeça estreita com as facas que segurava.
— Geh-heh-heh…! Usamos todas as artes, todas as drogas, até mesmo venenos virulentos, para experimentar o processo de interromper a diminuição natural da vida. E o laboratório para nossos experimentos foram as celas subterrâneas onde vocês foram mantidas. Todos os servos que morreram naquelas celas deram suas vidas por um propósito grande e honrado — confessou ele, sua admissão horrível adornada por gargalhadas ásperas.
O ódio e a inveja profundos e ardentes contidos em sua voz e olhar pesaram fortemente na mente de Ronie.
O grão-camareiro da família imperial tinha status e poder equivalentes aos dos mais altos nobres. Por que um homem assim sentiria inveja de duas meras aprendizes de cavaleiro? Então ela ofegou.
Zeppos não estava com inveja de Tiese e Ronie pessoalmente. Ele estava com inveja do próprio conceito dos Cavaleiros da Integridade. As almas imortais cujas vidas foram congeladas, de modo que viveram por uma eternidade.
Os imperadores e altos nobres desfrutavam de todos os privilégios e luxos que um ser humano poderia possuir, mas a vida eterna era a única coisa que permanecia para sempre fora de seu alcance. Como eles devem ter olhado para a imponente estrutura branca que se erguia sobre seus próprios palácios, amaldiçoando e invejando a pontífice e seus Cavaleiros da Integridade! E porque o Índice de Tabus forçava sua lealdade e obediência à Igreja Axiom, mesmo os imperadores não podiam tornar sua resistência conhecida.
Mas os Cavaleiros da Integridade sofriam à sua maneira. Ronie aprendeu isso quando se juntou à Catedral.
Aqueles cujas vidas foram congeladas estavam fadados a dizer adeus repetidamente àqueles cujas vidas não foram. Até mesmo a Comandante Fanatio. Ela era imortal, tendo vivido mais de duzentos anos, mas seu filho Berche não era como ela. Enquanto ninguém ressuscitasse a arte de congelamento de vida que morreu com a Administradora — e enquanto ela não implementasse esse procedimento em Berche —, seu filho envelheceria e morreria antes de sua mãe. Era um destino insuportavelmente cruel para mãe e filho.
— A vida eterna vai contra todas as regras da natureza — declarou Ronie, tentando desesperadamente manter a voz sob controle. — Vocês mataram tantas pessoas inocentes em busca de algo que não deveria ser… É imperdoável.
O rosto artificial de Zeppos se contorceu de raiva.
— Suas cavaleiras amaldiçoadas! — cuspiu ele, borrifando sangue negro de seus lábios. — Vocês não têm o direito de proferir essas palavras!
Se Zeppos era um lacaio, como Tiese suspeitava, não havia como adivinhar como seu corpo funcionava exatamente. Ele tinha enormes estacas em seu peito e estômago e ainda estava vivo, então claramente não era humano, mas isso não significava que era simplesmente argila em forma humana. Para começar, havia claramente sangue fluindo em seu corpo, então talvez se ele perdesse tudo, finalmente morreria. Sua forma era muito menor que a de um lacaio verdadeiro, então ele devia ter muito menos sangue também.
Dos três lacaios que enfrentaram no Palácio de Obsidia, dois foram reduzidos a pó pelos socos do Comandante Iskahn, e o terceiro foi partido ao meio pelo golpe de mão da Embaixadora Sheyta. Causar esse tipo de dano poderia não ser possível no nível de habilidade de Ronie e Tiese, mas, se pudessem evitar suas facas e cortar um braço ou uma perna, poderiam vencer.
O verdadeiro problema era o homem que Zeppos estava protegendo com sua vida: o Imperador Cruiga. Mais de três minutos se passaram desde que invadiram o grande salão, mas seu canto continuava. Quanto mais longa a recitação, mais complexos e poderosos os efeitos de uma arte sagrada — e Ronie não conhecia nenhuma arte que durasse tanto tempo. O comando de Asuna para a vidência do passado pareceu muito longo, mas mesmo isso foi apenas cerca de dois minutos.
Elas não podiam deixar a luta com Zeppos se arrastar sem esperar que ele morresse de perda de sangue, apenas acabar com ele o mais rápido possível para que pudessem parar a arte do imperador.
— Tiese, quando eu executar minha técnica, você o impede com elementos de luz — sussurrou Ronie para sua parceira.
As habilidades das duas garotas com a espada, artes sagradas e Encarnação eram equivalentes. Em seu coração, Tiese provavelmente não queria colocar todo o perigo diretamente nos ombros de Ronie — mas havia uma área onde uma diferença significativa de poder existia entre elas. A Espada de Dotação Padrão do exército de Tiese tinha um nível de prioridade de 25, enquanto a Espada Raio de Luar de Ronie estava em 39. Tinha que ser Ronie quem o cortaria.
— Você está certa de que os Cavaleiros da Integridade e a Igreja Axiom podem não ter direitos absolutos — gritou Ronie, brandindo sua espada sobre a cabeça —, mas estamos sempre nos esforçando para sermos corretos e justos, e não importa o que digam, o que vocês estão fazendo é maligno!
Como se assumisse a vontade de sua mestra, a espada começou a brilhar em um azul intenso. Quando Tiese proferiu o comando de criação, ela avançou, impulsionando-se do chão.
Asas invisíveis bateram em suas costas, impulsionando-a para a frente com grande força. Em um instante, ela cruzou mais de dez mels de distância em direção ao inimigo. Era a técnica de carga ultrarrápida do estilo Aincrad, Salto Sônico.
— Você também será forragem para nossas grandes ambições, garota!! — gritou Zeppos, mostrando dentes amarelos e afiados como presas. Ele girou suas facas para segurá-las com a lâmina para trás e se preparou para enfrentá-la em combate.
Uma luz branca envolveu suas feições ferozes. Houve três rajadas afiadas em sucessão — as balas de luz de Tiese passaram por Ronie no ar.
As artes baseadas em luz não eram tão poderosas quanto as de calor ou gelo, mas apresentavam uma velocidade e precisão avassaladoras — ideais para cegar alvos. Era também o elemento oposto do lacaio construído com trevas, então causaria algum dano extra nesse aspecto também.
Fumaça roxa começou a chiar de onde a luz feroz queimava o rosto de Zeppos. Ele parou apenas por um breve instante, mas foi o suficiente para Ronie. Seu brilho azul avançou em uma inclinação entre as facas que ele estava abaixando.
A Espada Raio de Luar cortou fundo o ombro direito do ex-camareiro e atravessou seu lado esquerdo. Zeppos congelou em posição com as mãos perto da cintura, a boca aberta em um grasnido.
— …Imper…ador… Crui…gaaa……!
A metade superior de seu corpo magro deslizou para a esquerda e caiu no tapete com um baque surdo. Um momento depois, sua metade inferior tombou de joelhos.
Ronie teve que pular para fora do caminho do jato de sangue negro que saiu das duas metades do corpo do homem.
A certeza de que desta vez elas haviam vencido ameaçou inundar seu corpo com alívio, mas a batalha não acabara. Elas tinham que derrotar o Imperador Cruiga antes que ele terminasse sua arte sagrada.
Diante de seus olhos havia um anel de velas silenciosas e tremeluzentes. No meio, três goblins no chão, de olhos fechados. E além deles, um homem de manto preto, com os braços erguidos, em meio a uma fervorosa recitação.
Se o imperador ressuscitado também era um lacaio, então meias medidas não o derrotariam. Como Zeppos, elas teriam que cortar seu corpo ao meio ou cortar sua cabeça.
Reunindo toda a sua força de vontade, Ronie assumiu uma postura para realizar outra técnica de espada.
No momento seguinte, várias coisas aconteceram ao mesmo tempo.
— Ronie!! — gritou Tiese.
— Cumpra seu dever, Zeppos! — trovejou o imperador, pausando sua recitação.
Gahk! Um choque percorreu o pé direito de Ronie.
Um momento depois, uma dor severa percorreu seu corpo e sua mente. Ela olhou para baixo e viu a cabeça e o braço esquerdo de Zeppos cravando sua faca profundamente no peito de seu pé. A lâmina estava manchada de verde.
Ela rangeu os dentes enquanto uma dormência severa se seguia à dor. Tinha que fazer algo antes que o veneno se espalhasse por todo o seu corpo, mas havia várias artes diferentes para neutralizar veneno, e ela não conseguia dizer qual usar sem saber o tipo de veneno.
— Rrgh! — Ronie rosnou, cortando o braço de Zeppos com sua espada. Então ela usou a ponta contra o cabo da faca envenenada para arrancá-la de seu pé. O sangue que jorrou da ferida já parecia mais escuro.
Na tentativa de retardar a propagação do veneno, Ronie gerou cinco elementos de luz e usou sua espada para cortar profundamente a carne acima do joelho direito. Mais sangue jorrou, mas a cor ainda estava ligeiramente avermelhada. Ela infiltrou os elementos de luz na ferida e executou a Forma de Névoa para difundi-los em sua corrente sanguínea.
Os elementos de luz neutralizariam o veneno até certo ponto, mas, para purificar completamente as toxinas, ela precisava usar uma arte especial que envolvia as ervas medicinais na bolsa que carregava na cintura. Ela teria apenas que tentar todas as artes de cura que conhecia, uma após a outra.
Ela estendeu a mão para trás para abrir a bolsa com a mão esquerda, mas seus dedos já estavam perdendo a sensibilidade e ela não conseguia desatar o cordão de couro. A força estava saindo de sua perna esquerda, assim como da perna direita ferida, e seu corpo tombou.
— Ronie! — gritou Tiese, que correu para apoiar Ronie enquanto ela caía. Sem perder tempo, ela balançou sua espada no que restava de Zeppos no chão, cortando diretamente sua cabeça que ainda se contorcia.
Além do som surdo de uma substância semelhante a argila sendo partida, houve um clangor metálico agudo. Zeppos foi cortado em dois, do cérebro à mandíbula. Desta vez, sua vida estava realmente extinta; os pedaços perderam a forma e derreteram em uma lama. A metade inferior de seu corpo mais próxima se transformou em um catarro preto que se espalhou pelo chão e começou a evaporar.
Onde a cabeça de Zeppos havia desaparecido, havia um objeto estranho. Era um disco de prata modelado para parecer uma pétala de lírio e uma pena de falcão — a insígnia especial dada àqueles que serviam ao Império Norlangarth. A pétala e a pena eram reservadas para as mais altas honras.
O disco estava partido perfeitamente em dois, quebrado pela espada de Tiese. Fumaça roxa subia da rachadura, emitindo um som fraco como um grito de lamento.
Tradução: Gabriella
Revisão: Fábio_Reis
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