Antes do início do calendário da Era Humana, ou seja, mais de 380 anos antes do presente, existiam Objetos Móveis designados pelo sistema, conhecidos como Bestas Divinas.
Uma serpente prateada habitava os vales profundos das montanhas do império oriental. Uma fênix de fogo dos vulcões do império do sul. Um gigantesco dragão de gelo que protegia as montanhas do império do norte. E um leão alado que corria pelas pastagens do império ocidental — e outros ainda.
Havia mais de quarenta dessas criaturas no total, e embora não tivessem seus próprios fluctlights, eram programas de IA de primeira classe equipados com seu próprio motor de verbalização que lhes permitia comunicar com os habitantes do reino. As pessoas adoravam essas Bestas Divinas como os deuses da terra e deixaram para trás muitas lendas sobre suas proezas.
Mas para a garota que estabelecera a Igreja Axiom no ano 30 da Era Humana e se autodenominava Administradora, qualquer deus além daqueles da História autoescrita da Igreja era um impedimento a ser tratado. Ela transformou todas as Bestas Divinas em armas — Objetos Divinos — ou fez com que seus Cavaleiros da Integridade as exterminassem. No ano 100 da Era Humana, as Bestas Divinas haviam sido completamente dizimadas, e todos os registros de contato humano com elas foram entregues às chamas.
Os animais que atualmente habitavam o Reino Humano não podiam falar a língua humana. Mas, de todos eles, havia uma criatura com uma inteligência artificial muito limitada, e esse era o parceiro do Cavaleiro da Integridade: o dragão.
Dragões não podiam falar a língua humana, mas podiam entender as ordens de seus mestres em um grau muito complexo. Um dragão também possuía um coração que se esforçava ao máximo para servir a um mestre com quem o dragão compartilhava um laço estreito.
Assim, a dragoa juvenil da Aprendiz de Cavaleiro da Integridade Ronie Arabel, Tsukigake, correu e correu, cumprindo sua ordem: “Siga pelo corredor até a superfície e encontre uma maneira de chegar ao portão norte de Centoria.”
A diminuta dragoa bateu suas pequenas asas enquanto subia a escadaria de sessenta degraus, e então passou seu corpo por entre as barras do portão no topo e saiu para o ar livre mais uma vez.
Atrás dela estava o portão de ferro pelo qual acabara de passar, e à esquerda e à direita havia arbustos espinhosos e cobertos de vegetação, deixando apenas o estreito caminho à frente. Mas Tsukigake não queria seguir pelo caminho. Ela sabia que a mansão ficava naquela direção, com sua aura sinistra e desagradável. Se fosse por ali, os humanos sombrios que capturaram seu irmão, Shimosaki, a encontrariam. Eles não eram assustadores, mas Tsukigake não poderia salvar sua Mestra se fosse pega.
A dragoa virou à direita e olhou para o topo do arbusto. A planta era tão alta quanto sua Mestra, então ela tentou pular e bater as asas para passar por cima, mas a tentativa não foi nem de perto alta o suficiente. Tsukigake continuou tentando, mas eventualmente suas asas se cansaram, e ela caiu de volta no caminho de pedra, onde quicou como uma bola algumas vezes antes de se levantar novamente.
Passar pela sebe exigiria medidas mais drásticas.
— Krrrr! — piou Tsukigake para se encorajar, e então dobrou as asas e enfiou o focinho na base da sebe. A maioria dos arbustos tinha um espaço entre o chão e as raízes, mas os galhos desta planta se estendiam até pouco acima do solo e ostentavam espinhos afiados de três cens de comprimento. Tsukigake tentou se agachar o mais baixo possível para deslizar pelo chão e passar pela pequena abertura, mas um espinho prendeu a base de seu pescoço, enviando uma dor aguda por sua carne.
Tsukigake queria recuar, mas rangeu as presas e continuou a empurrar. Os espinhos duros cravaram na penugem macia de suas costas, rasgando a pele que ainda não desenvolvera suas escamas defensivas. A dor era tão forte que ela gemeu, mas continuou a se mover.
Levar mais de um minuto para atravessar a sebe, que não tinha mais de cinquenta cens de espessura. Quando Tsukigake finalmente se livrou dos espinhos, ela se esparramou nas folhas úmidas, ofegante.
Assim que a dor diminuiu um pouco, ela curvou seu longo pescoço o máximo possível para olhar suas costas. Aquelas belas e macias penas amarelas estavam rasgadas e desgrenhadas, com manchas vermelhas onde ela sangrara.
Tsukigake não tinha conceito de um “valor de vida”, mas como todas as criaturas vivas, ela sabia que, enquanto o sangue continuasse a vazar, ela acabaria morrendo. Ela roçou a penugem desgrenhada com o focinho e lambeu cuidadosamente cada ferida. A saliva de dragão tinha uma leve propriedade curativa, então, depois de lamber o suficiente, as feridas pararam de sangrar, exceto as na parte mais distante de suas costas, que sua língua não conseguia alcançar.
Mas pelo menos a dor estava em um nível suportável. Com um último tremor para sacudir a lama e as folhas, Tsukigake se ergueu sobre as patas traseiras.
Nada além de uma floresta densa se estendia à frente. A luz do sol estava se tornando rica e amarela através das coníferas, e embora quase nenhuma chegasse ao chão, era o suficiente para dizer as direções.
Ronie dissera para ir a Centoria, a grande cidade humana ao sul. Tsuki nunca estivera nesta floresta antes, e elas vieram até aqui de carruagem, então a distância era uma questão, mas ela tinha que voltar o mais rápido possível, independentemente.
Felizmente, ela comera bastante peixe do lago mais cedo, então ainda não estava com fome. Ela não comera muito peixe nos estábulos nos últimos meses por causa do cheiro dos peixes mortos, mas pegá-los na água fora divertido, e eles tinham um gosto muito bom, por estarem tão frescos. Tsuki teve que parar de pensar em peixes, porque lembrar o sabor a deixaria com fome novamente. Ela começou a galopar de quatro através das árvores.
Diferente dos gramados e lagos da Catedral onde Tsukigake vivia, o chão da floresta era úmido e escorregadio, e as rochas e raízes escondidas sob as folhas caídas dificultavam a corrida. Cada vez que tropeçava, a pequena dragoa rolava e rolava, mas continuava a se mover para o sul.
Depois de contornar uma árvore especialmente grande, o nariz sensível de Tsukigake captou o odor de algo em decomposição.
Havia um local no chão cercado por árvores retorcidas onde a terra fora cavada. O solo preto era frio, úmido e pegajoso, diferente do solo macio e exuberante dos canteiros de flores da Catedral. O cheiro de podridão vinha do buraco, mas mesmo de perto, Tsukigake não conseguia ver o fundo.
— Krr…! — ela cantou baixinho, recuando da beira. Se caísse, não havia como saber se conseguiria escapar, e não era hora de se distrair.
Em vez disso, a dragoa contornou o poço fedorento e continuou correndo por mais alguns minutos, momento em que mais luz ficou visível à distância. A saída estava próxima. Tsukigake correu e correu, com as asas batendo, pelos últimos dez mels, e irrompeu por entre duas grandes e antigas árvores para o campo aberto.
Os campos que cercavam a floresta estavam iluminados de dourado pelos raios de sol poente. Tsuki inspirou avidamente o ar fresco e frio enquanto subia uma pequena colina.
De lá, ela viu uma parede branca distante à direita que cruzava a pastagem, a superfície cintilante do lago à esquerda, e a cidade humana em linha reta, pequena à distância. Estava mais longe do que Tsukigake imaginara, mas se continuasse correndo, chegaria lá eventualmente.
“Eventualmente” não era bom o suficiente, no entanto. Neste exato momento, a Mestra, a amiga da Mestra e Shimosaki estavam presos e apavorados naquele lugar horrível de masmorra.
— Kyurrr! — Tsuki guinchou, baixo o suficiente para que nenhum daqueles humanos sombrios pudesse ouvir, e retomou a corrida.
Era mais fácil do que passar pela floresta, mas a grama aqui ainda era alta e resistia ao pequeno corpo do dragão. Tsukigake teve que projetar a cabeça para frente e usar as patas dianteiras para afastar as gramíneas enquanto corria.
Depois de cinco minutos, a sensação de fome era real desta vez. Criança ou não, um dragão era um dragão e exigia muito mais comida para manter seu valor de vida do que um cão ou uma raposa do mesmo tamanho.
O grande lago brilhava dourado a apenas cem mels à esquerda. Muitos peixes deliciosos nadavam sob a superfície, e o pensamento deles começou a desviar seu caminho para a esquerda, mas Tsukigake balançou a cabeça e voltou à direção correta. Um pouco de fome não seria fatal, mas a Mestra estava em uma situação de vida ou morte.
Se a memória da janela da carruagem servia, a parte sul da área ao redor do lago era um campo muito grande que caíra em desuso. Provavelmente haveria uma ou duas batatas velhas e enrugadas lá. Tsukigake correu por mais cinco minutos com base nessa esperança.
Então, as patas dianteiras de Tsukigake afundaram abruptamente no chão e ela prontamente perdeu o equilíbrio. A dragoa rolou e rolou antes de finalmente parar, e suas costas ficaram frias e molhadas onde tocaram o chão. A ardência das feridas em suas costas retornou, fresca e dolorosa, e ela lamentou em agonia.
Mas ela não podia simplesmente ficar ali. Esta era a área do pântano, onde a água do lago escorria e cobria uma vasta extensão de terra. Tsukigake nunca estivera em algo assim, tendo sido criada na Catedral Central, mas seus instintos diziam que permanecer na água fria aumentaria a perda de vida. A dragoa sentou-se, esticou o pescoço e a cabeça, e examinou a área novamente.
As áreas à frente e à esquerda estavam bloqueadas pelo pântano, então o único terreno seco era à direita. Mas não estava nada claro o quão longe havia para contornar a área úmida. Se continuasse até aquela parede branca à distância, significaria muito tempo perdido.
— Krrrrrr…! — Tsuki choramingou, totalmente perdida.
Nesse momento, em resposta ao seu lamento, uma pequena criatura colocou a cabeça para fora da grama a uma curta distância e guinchou:
— Kyu-kyu!
Tinha pelos curtos e marrons, orelhas quase tão longas quanto seu corpo inteiro e olhos pequenos e redondos. A criatura olhou para Tsukigake e inclinou a cabeça para a direita, como se perguntando que animal era aquele.
Tsukigake se perguntou o mesmo. Do focinho pontudo à ponta de sua cauda curta, tinha cerca de trinta cens de comprimento. As pessoas da capital chamavam isso de rato-d’água-de-orelhas-compridas, mas, claro, Tsukigake não sabia disso.
Examinando o corpo elíptico do rato marrom, que não tinha uma fronteira discernível entre a cabeça e o tronco, Tsukigake começou a se perguntar se teria um bom gosto. O animal sentiu a súbita pontada de fome do dragão e começou a recuar para a grama, então ela o chamou novamente.
— Krrr!
Espere!
Se o rato ouviu o pensamento de Tsukigake ou não, não ficou claro, mas ele parou de se mover, deixando apenas seu nariz longo e trêmulo para fora da grama. Dois segundos depois, ele emergiu de forma lenta e hesitante novamente.
Se ela assustasse o rato novamente, a criatura fugiria para salvar sua vida, então Tsukigake baixou o corpo o máximo possível e arrulhou, tentando tranquilizar o outro animal de que não iria comê-lo.
— Rrrrrr…
O rato torceu a cabeça novamente, desta vez para a esquerda, e saiu da grama. As pontas de seus longos membros eram palmadas. Era claramente um animal que vivera nesta área por muito tempo. Talvez soubesse o caminho através desses pântanos.
— Kyurrr, kyurrrrrn!
“Quero ir para o sul. Diga-me, se souber o caminho.” — Tsukigake não conseguia colocar esses pensamentos em palavras, então teve que esperar que eles fossem entendidos de alguma forma. As longas orelhas do rato se contraíram. Ele guinchou:
— Kyu!
Pareceu a Tsukigake que a criatura estava reclamando que estava com muita fome para fazer tal coisa.
“Se você me mostrar o caminho, posso te dar quantos peixes saborosos você quiser”, ofereceu ela.
“Não quero peixe. Gosto de comer nozes. Mas não há uma única árvore por aqui.”
Mas neste momento, um pequeno objeto preto surgiu na água entre os dois animais. O rato guinchou e pulou na água, agarrando o objeto com as duas mãos.
Era de fato uma noz. Provavelmente caíra de uma das árvores à beira do lago na água, e depois flutuara lentamente até ficar presa no fio d’água que ia para os pântanos. O rato a ergueu cuidadosamente até a boca e a mordeu com seus longos e grandes dentes da frente, mas só fez um som encharcado e pastoso, não o crocante adequado de uma noz seca. Perdera a maior parte de sua vida por absorver tanta água.
— Krrrrr, kyurrr!
“Se você me mostrar o caminho, posso te dar muitas nozes frescas. Secas e crocantes, nada encharcadas.”
— Kyuu!
“Sério? Mesmo uma única noz seca por ano seria considerada um achado de sorte.”
“Eu prometo. Você pode comer quantas quiser, todos os dias.”
“Ok, então. Siga-me.”
Tsukigake não sabia se eles haviam trocado palavras dessa maneira precisa, mas pelo menos pareceu assim. O rato terminou de comer a noz enegrecida, moveu-se por uma mancha de terra seca próxima e mergulhou em um grande tufo de grama alta.
A dragoa pulou apressadamente sobre a água e enfiou a cabeça no local onde o rato havia desaparecido. Entre a grama alta, havia um túnel de cerca de trinta cens de diâmetro. Grama seca estava amarrada e compactada contra as paredes — claramente não era um desenvolvimento natural.
O rato parara mais adiante no túnel, abanando o rabo para indicar que queria ser seguido. Era um aperto para a pequena dragoa, que era um pouco maior que um roedor, mas não era tão ruim quanto aquelas barras na cela subterrânea, e a grama seca sob seus pés era um alívio.
— Krrrr! — Tsukigake gritou para se encorajar, e então avançou pelo túnel escuro e estreito. O rato virou para a frente e acelerou pela passagem, com seus membros curtos se movendo rapidamente.
Cerca de três mels à frente, o túnel se bifurcava para a esquerda e para a direita. O rato disparou pela passagem da esquerda sem diminuir a velocidade, então Tsukigake o seguiu. Logo houve outra bifurcação, e eles escolheram o caminho da direita desta vez.
Agora chegaram a uma sala redonda de um mel de diâmetro, tecida com a mesma grama seca do túnel. Ao longo de suas paredes, um rato adulto e três filhotes comiam o que pareciam ser sementes de grama. Quando Tsukigake apareceu, o adulto soltou um guincho de aviso, mas seu guia pelos túneis guinchou algo em explicação, o que acalmou seu parceiro. Ele então passou pelos filhotes curiosos e enfiou a cabeça em uma nova passagem.
Aparentemente, os ratos com patas palmadas haviam tecido esses túneis de grama seca por todo o pântano. Seria muito fácil se perder neles sem um guia. Enquanto corriam, seus passos faziam barulho de água, então o fundo estava claramente em contato com a água. Todas as ilhas que pontilhavam o pântano encharcado deviam estar conectadas pelos túneis de grama seca, que tinham flutuabilidade suficiente para se manterem à tona.
No momento em que Tsukigake perdeu a conta de quantas bifurcações, cruzamentos e pequenas câmaras haviam passado, havia uma pequena luz no final do túnel. O que a princípio parecia um beco sem saída, na verdade tinha grama mais solta ao redor das paredes, que se abria o suficiente para permitir a entrada de um pouco da luz do sol poente.
O rato parou no beco sem saída, enfiou o focinho pontudo pela fresta na grama e cheirou cuidadosamente o ar exterior. Então ele passou a cabeça inteira. Satisfeito, ele saiu do túnel, afastando a grama ao sair.
Com um pouco mais de dificuldade, Tsukigake conseguiu sair do túnel e descobriu que agora estavam no lado sul do pântano. Havia pastagem seca à frente e uma cerca de madeira construída por humanos além dela. Aquela devia ser a área do campo que ela vira da carruagem.
— Kyurrr, Krrr!
“Obrigada, Sr. Rato. Posso continuar daqui”, disse Tsukigake. Mas a cabeça do rato marrom girou e inclinou para a direita.
— Kyuiii!
“Quando você vai me dar as nozes?”
“Não as tenho agora. Mas vou te trazer muitas nozes muito em breve, eu prometo!”, Tsukigake tentou desesperadamente transmitir. Mas as longas orelhas do rato apontavam para cima e se achatavam, para frente e para trás, em aflição.
“Não, quero comê-las agora! Quero comer muitas nozes secas e crocantes!”
“Então… venha comigo. Você pode ter suas nozes se formos para a cidade.”
Os olhos redondos do rato piscaram em confusão.
“Cidade? O que é cidade?”
“Cidade é… onde há muitos humanos.”
“Humanos? Humanos nos perseguem com paus quando nos veem.”
“Você ficará bem se estiver comigo. Não temos tempo. Vamos!”
Tsukigake começou a marchar novamente. Mas o rato agarrou a ponta da cauda do dragão.
— Krrrr!
“Qual é o problema?”
— Kikiii!
“Você não pode ir por ali. Papai disse que algo assustador está do outro lado daquela parede.”
“Assustador? Você quer dizer humanos?”
“Não sei… mas nenhum de nós que passou por aquela parede jamais voltou.”
Tsukigake considerou essa informação. O lado sul da cerca de madeira visto da carruagem era simplesmente um campo que se tornara inculto com o desuso, e não havia humanos ali. A Mestra dissera que todos os servos haviam sido liberados. O que quer que isso significasse. Se a “coisa assustadora” de que o rato estava falando eram humanos, não haveria mais perigo ali.
Além disso, a fome de Tsukigake estava atingindo o auge. Se não houvesse nada para comer no campo, não haveria força para correr.
— Krrrruu…!
“Está tudo bem. Não há mais nada assustador lá. Se não passarmos por lá, não conseguiremos chegar à cidade.”
Mas o rato ainda parecia desconfiado, até que finalmente seu apetite venceu a cautela.
— Kiki!
“Tudo bem, eu vou com você.”
“Bom. Vamos nos apressar, então.”
Tsukigake começou a correr pelo chão firme e seco. O rato era surpreendentemente rápido e a acompanhava.
Eles atravessaram a pastagem e se aproximaram da cerca de madeira, onde rapidamente olharam para a esquerda e para a direita. Havia uma entrada para o campo um pouco à esquerda, então eles se dirigiram para lá.
Felizmente, não havia portão nem barras na simples entrada do campo. A placa de madeira pendurada na travessa tinha as palavras humanas “Plantação da Propriedade Imperial”, mas nem Tsukigake nem o rato conseguiam ler, é claro.
Além do portão, eles sentiram o cheiro de terra e plantas murchas. Não era um cheiro bom, mas pelo menos era melhor do que aquele buraco escuro na floresta.
A plantação continha fileiras e mais fileiras de vegetais, cujos nomes eles não conheciam, mas como não havia ninguém para cuidar deles, todas as plantas haviam morrido. Folhas amarelas e murchas cobriam o chão, e muitas das plantas haviam murchado completamente até se transformarem em nada e retornarem ao poder sagrado.
Não parecia que Tsukigake encontraria vegetais ou frutas comestíveis. Desapontados, eles continuaram trotando pelo meio da plantação. Pelo menos, o chão era mais fácil de correr aqui do que em outros lugares. Se passassem por este campo, Centoria estaria muito perto. Já havia muitos pequenos edifícios no horizonte, além dos quais estava a visão familiar da torre branca se erguendo à distância.
— Krrrr!
“Lá. Aquela é a cidade”, disse Tsukigake, com orgulho, ao rato. Para sua decepção, o roedor não pareceu particularmente impressionado.
— Kikii!
“Isso é estranho. Eles têm nozes lá?”
“Claro. Muitas delas. Tantas que você e eu nunca poderíamos comer todas em nossa vida.”
“Sério? Então posso levar algumas de volta para o Papai, a Mamãe e minha irmã?”
“Claro. Vou perguntar se você pode ter algumas para toda a sua família.”
Como estavam tão absortos em sua conversa enquanto corriam, Tsukigake inicialmente não percebeu que havia algo mais entre o cheiro de colheitas em decomposição.
O rato notou primeiro e guinchou um aviso alto.
Do cume à frente e à direita emergiu uma sombra longa e estreita — mas ainda maior que Tsukigake — que bloqueou seu caminho.
Era uma criatura como a dragoa nunca vira antes. O tronco e a cauda eram longos e esguios, e as pernas eram curtas, mas poderosas. Havia pelos brancos ao redor de seu focinho e olhos longos e salientes, mas todo o resto era cinza-escuro.
A besta ficou em silêncio, bloqueando seu caminho, então Tsukigake chamou cautelosamente:
— Kyurrrrrr…!
“Deixe-nos passar. Só queremos chegar à cidade.”
Mas a criatura cinzenta apenas encarou os dois com olhos vermelho-claros e não deu resposta.
Eles não sabiam o que fazer. Então veio um barulho de arrastar dos campos de ambos os lados. Mais da mesma criatura emergiu das plantações em ruínas. Havia quatro delas. Duas delas se esgueiraram por trás em total silêncio, o que significava que cinco desses animais agora cercavam Tsukigake e seu guia.
As criaturas cinzentas eram um flagelo para os servos que antes trabalhavam nesses campos, que as chamavam de quatis-de-nariz-pontiagudo. Eram noturnos e onívoros e comiam as colheitas nos campos à noite. Com a permissão de seus supervisores, os servos podiam deixar cães grandes vagarem pelos campos à noite. Os cães lutavam bravamente contra os quatis para limitar os danos, mas, uma vez a cada dois ou três anos, um bando deles atacava e matava um cão.
Mas, como os residentes das propriedades particulares foram libertados de sua servidão há um ano, eles se mudaram para Centoria e as aldeias vizinhas, levando seus cães com eles. Os campos ficaram em pousio sem ninguém para cuidar deles, e mesmo as plantas que continuaram a frutificar durante o próximo meio ano estavam totalmente murchas agora. A maioria dos quatis morrera de fome sem sua fonte de alimento — os animais selvagens no Underworld tinham uma área de habitação prescrita e não podiam vagar além dela —, mas os indivíduos com o maior valor de vida conseguiram sobreviver comendo os animais menores que entravam nos campos, os insetos que antes ignoravam e até mesmo a carne de sua própria espécie. Não era comida adequada, no entanto, e por isso estavam constantemente com fome e perigosamente desesperados.
Somente quando os quatis que os cercavam começaram a rosnar ameaçadoramente, Tsukigake percebeu o perigo em que estavam.
O rato-d’água-de-orelhas-compridas tremia em silêncio. Tsukigake protetoramente envolveu seu companheiro com sua longa cauda e rosnou.
— Gyurrrrrrrr!
“Se pretende lutar, eu desaconselharia”, ela tentou dizer, mas os quatis apenas rosnaram mais alto e mais ferozmente. E, diferentemente do rato, não havia sentido ou vontade por trás de suas vocalizações.
Embora Tsukigake não pudesse saber disso, como parentes distantes das Bestas Divinas dos tempos antigos, os dragões tinham a capacidade de compartilhar sua vontade com os animais selvagens. O poder foi inicialmente projetado para alertar as unidades de animais regulares para longe dos habitats das Bestas Divinas. Todos os animais não receberam sua própria inteligência artificial desde o início — apenas por terem contato com as Bestas Divinas, uma unidade animal recebia um nível mínimo de capacidade de raciocínio e um banco de dados.
Em outras palavras, o companheiro rato adquiriu essa habilidade quando Tsukigake falou com ele. Mas esse fenômeno só funcionava em unidades com uma prioridade muito menor do que o falante. E a prioridade desses quatis, que eram resistentes o suficiente para terem sobrevivido a essas condições severas, era apenas ligeiramente inferior à de Tsukigake. Os cinco não tinham a capacidade de pensar racionalmente; eram movidos apenas pelo princípio fundamental de caçar para satisfazer sua fome.
Tsukigake encarou as bestas selvagens que não respondiam aos seus pensamentos.
A dragoa nunca estivera nesta situação antes. Para esse assunto, ela nunca estivera sozinha fora da Catedral antes. Mas seus instintos lhe diziam que essas criaturas não queriam apenas lutar por comida, mas pretendiam matar o par de companheiros estranhos.
Se Tsukigake morresse ou se ferisse, ela não poderia pedir ajuda para sua mestra e Shimosaki. A vida de Tsuki estava atualmente baixa, mas, olhando novamente, os quatis também estavam magros e famintos, então talvez se corressem com todas as suas forças, pudessem escapar dos predadores.
Mas o rato era uma história diferente. Não era lento, claro, mas eles vieram de longe dos pântanos, então certamente estava cansado. Tsukigake prometera ao roedor todas as nozes deliciosas que pudesse comer. Ela não podia abandoná-lo agora.
Não havia rotina no programa de IA de Tsukigake para deixar o rato como um chamariz sacrificial para escapar dos quatis. Então, a dragoa juvenil reuniu sua coragem para lutar contra os cinco predadores e rugiu o mais ferozmente que pôde.
— Garrrrrrr!
Desta vez, as bestas selvagens entenderam seu significado. O quati parado diretamente à frente delas abriu a boca para expor presas pequenas e afiadas.
— Gyaaaaa!
No mesmo instante, dois quatis saltaram dos lados.
Tsukigake apertou a cauda em volta do rato petrificado e pulou o mais alto que pôde. Os quatis também pularam, mas as asas do dragão lhe deram um impulso extra.
Os quatis colidiram no ar; caíram no chão em um emaranhado. Tsukigake aproveitou a oportunidade para planar em direção ao oeste, aterrisando no meio do campo. Ainda havia talos altos de milheto de pé neste local específico, o que os esconderia por alguns momentos.
Mas não haveria escapatória com o rato enrolado na cauda de Tsukigake — e ainda menos chance de lutar contra cinco predadores enquanto protegia a criatura. O primeiro passo tinha que ser esconder o rato em um local seguro.
Para isso, Tsukigake escolheu um balde de madeira deixado entre as fileiras de plantas. Estava se decompondo em nada, mas por enquanto, ainda mantinha sua forma. Ela rolou o balde vazio sobre o rato e sussurrou “Fique quieto!”.
Não houve resposta, mas o animal certamente entendeu que se mover ou fazer qualquer som seria perigoso. Por precaução, ela precisava afastar o inimigo. Tsukigake correu para o sul, fazendo muito barulho de propósito, e numerosos passos se aproximaram da direita.
“Se eles me cercarem, acabou. Tenho que separá-los e lutar com eles um por um.”
A dragoa se escondeu entre os talos de milheto, saltando para a esquerda e para a direita aleatoriamente. O número de passos vindo atrás dela diminuiu. Assim que teve certeza de que havia apenas um quati em perseguição direta, Tsukigake usou suas asas para fazer uma mudança súbita de direção.
No momento em que a criatura emergiu de entre os talos e viu um dragão avançando diretamente em sua direção, ela se ergueu sobre as patas traseiras. Tsukigake disparou em direção à sua garganta indefesa como uma flecha e mordeu fundo.
O gosto do sangue fresco não era muito agradável. Talvez agora Tsuki passasse a ter aversão a carne crua; mas isso era supondo que ela sobrevivesse a este encontro. O quati desabou, incapaz de pedir ajuda com as presas em sua garganta.
Ele se debateu desesperadamente com as patas dianteiras, com as garras afiadas brilhando, mas Tsukigake agarrou seus pulsos para evitar ser arranhada — algo que os dragões podiam fazer porque seus dedos eram preênseis, como os dos humanos. Após dez segundos de mordida, os movimentos do quati diminuíram, até que a força finalmente saiu de seu corpo.
Tsukigake soltou a criatura perecida e ouviu atentamente. Havia um conjunto de passos se aproximando rapidamente da esquerda. Não havia tempo para se esconder também. A dragoa deitou-se ao lado do quati morto e parou de se mover.
Um momento depois, um novo quati irrompeu pela fileira de talos.
Quando viu seu companheiro desabado no chão devido à sua luta com Tsukigake, ele rosnou. Ao se aproximar, ele cheirou, captando o odor do sangue do quati morto.
Seja por preocupação com seu companheiro ou interesse em devorar o cadáver, o segundo quati desviou sua atenção de Tsukigake por um momento — tempo suficiente para o dragão pular para cima e morder seu pescoço.
O método de se fingir de morto funcionou, mas como estava vindo do lado, Tsukigake não conseguiu agarrá-lo pela garganta.
— Gyooo! — o quati uivou, tentando se livrar do dragão agarrado ao lado direito de seu pescoço. Tsukigake tentou agarrar os braços da criatura como na última vez, mas não funcionou desta vez, e as garras que se agitavam rasgaram as penas felpudas do dragão para cortar a pele.
Sangue espirrou e se misturou no chão ao redor das duas criaturas enquanto rolavam, travadas em combate. Isso custaria mais vida, mas Tsukigake não podia relaxar seu aperto agora. A dragoa cravou suas garras na garganta de sua presa e rasgou para baixo com toda a sua força.
Esse foi o fim da segunda besta. Ela caiu no chão, morta, e Tsukigake se levantou cambaleante sobre o cadáver.
A dragoa examinou seu próprio corpo; havia inúmeras marcas de garras do pescoço ao peito. O rolamento violento no chão havia puxado as feridas de espinhos em suas costas, que agora vazavam sangue fresco. E ainda havia três com quem lutar.
Agora, atraídos pelos gritos do segundo quati, os outros se aproximaram de três direções ao mesmo tempo. Tsukigake não tinha energia suficiente para correr e separá-los novamente. Ela teria que lutar contra todos eles juntos.
Segundos depois, os quatis irromperam através dos talos mortos. Um deles era o líder, o primeiro quati que bloqueara seu caminho. Era visivelmente maior que os outros dois.
O quati chefe soltou um rugido feroz quando viu os corpos de seus dois companheiros mortos.
— Gruaaaah!!
Tsukigake não precisava entender a vontade por trás do grito para sentir a fúria intensa contida nele. Determinada a pelo menos igualá-los em ferocidade, ela reuniu a força que lhe restava para rosnar de volta.
— Garurrrrrr!!
Tsukigake estava viva há pouco mais de um ano, mas era um dragão, a criatura mais poderosa do mundo. Os quatis, que funcionavam com um algoritmo muito rudimentar, recuaram ao sentir uma ameaça que ia além do valor de vida e prioridade — mas, claro, não fugiram.
— Gaurr!! — latiram os dois quatis menores, atacando de ambos os lados.
As armas do quati eram uma mandíbula e garras poderosas. As principais armas de Tsukigake eram as mesmas, mas com a adição de uma cauda forte e ágil.
Ela se lançou, fingindo uma mordida, depois girou rapidamente e atingiu ambos com a cauda. Suas belas penas da cauda se soltaram, mas os quatis guincharam e voaram para o lado, colidindo com a linha de talos. Como as plantas estavam murchas, suas cascas externas estavam rachadas e quebradas, e os corpos dos animais se prenderam nelas, deixando-os se debatendo impotentes no ar.
Isso não fazia parte do plano, mas deixou claro que esta era a oportunidade final. Tsukigake saltou do chão e avançou de frente para o quati chefe.
— Gwaa!
A criatura arreganhou as presas e mordeu. Tsukigake curvou seu longo pescoço, tentando mirar na garganta, mas o inimigo ergueu as patas dianteiras para proteger seu ponto fraco em um gesto surpreendentemente humano. A cabeça de Tsukigake se ergueu por instinto, e sua mandíbula se chocou com a de seu adversário. Eles morderam um ao outro, com as mandíbulas e presas entrelaçadas.
Uma dor lancinante percorreu o rosto de Tsukigake. Era impossível dizer se o sangue que inundava sua boca era do inimigo ou dela mesma. A única coisa certa era que a vida estava jorrando de ambos. Quem quer que se esgotasse primeiro, morreria.
Até este ponto, Tsukigake nunca experimentara o que era estar perto da morte.
Sua mãe dragão, Akisomi, ainda era jovem e não participara da guerra, então ela não vira a morte humana de perto. Mas pegar peixes vivos e comê-los no lago hoje fora uma experiência chocante. Peixes que nadavam e giravam na água, uma vez presos na boca de Tsukigake ou de Shimosaki, simplesmente se contorciam uma vez e depois ficavam completamente imóveis.
Provavelmente era verdade, então, que muitos animais morriam assim para alimentar animais maiores todos os dias. Os quatis não atacaram Tsukigake e o rato por diversão. Era o que eles tinham que fazer para sobreviver.
Mas Tsukigake não ia desistir e se tornar comida de outra pessoa. Sua mestra e seu irmão estavam presos em uma masmorra subterrânea — e os humanos sombrios que os capturaram não o fizeram porque estavam com fome. Era por algo pior, para que pudessem machucar aqueles com os quais Tsukigake se importava… talvez até matá-los. Isso não podia acontecer.
De repente, Tsukigake sentiu algo picar a parte de trás de sua garganta. No fundo de seu corpo, algo quente estava surgindo, inchando. Não podia ser contido.
Com a mandíbula travada sobre a boca do quati chefe, Tsukigake liberou aquele calor. Uma grande chuva de faíscas se espalhou onde suas mandíbulas se encontravam, queimando o pelo de ambos os animais. Mas a maior parte do calor — as chamas — inundou o corpo do quati, causando danos fatais.
— Gyau! — guinchou o quati líder, afastando-se do rosto de Tsukigake e rolando no chão, se contorcendo e convulsionando. Eventualmente, ele parou de se mover.
Tsukigake não sabia o que havia feito. Ela não sabia que emitira a maior arma de um dragão, o sopro de calor, ou que isso tinha um custo terrível de vida.
Naquele ponto, a vida de Tsukigake era menos de um décimo de seu máximo. E o sangue continuava a escorrer de suas costas, peito e rosto.
Ainda assim, a pequena dragoa conseguiu se levantar e se virar para o outro lado.
Os dois quatis menores presos nos talos de milheto haviam acabado de se libertar e pulado de volta para o chão. O chefe podia estar morto, mas eles ainda não desistiram. Eles rosnaram, aproximando-se cada vez mais.
Tsukigake não tinha energia para rosnar de volta — apenas para manter seu corpo ensanguentado ereto. Se ela caísse, os dois saltariam sobre ela de uma vez.
A visão da dragoa estava escurecendo. Seus membros estavam pesados e fracos. Mas ela não podia cair. Ainda não. Não até chegar à cidade e pedir ajuda.
Ela achou que ouviu um som.
Os quatis olharam para o céu. O rosto ensanguentado de Tsukigake se ergueu também.
Bem alto no céu escurecido pelo pôr do sol, algo voava em linha reta. Não era um pássaro. Não era um dragão. Era algo como uma estrela, rugindo como uma rajada de vento e emitindo uma luz verde.
“Eu nunca vi isso antes — mas sei o que é.”
Movida por um sentimento estranho que não entendia completamente, Tsukigake começou a uivar.
Não produziu nenhuma vocalização, mas a estrela mudou de curso, como se a tivesse ouvido alto e claro.
Tradução: Gabriella
Revisão: Fábio_Reis
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