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Rei do Labirinto – Vol 02 – Cap. 14 – A Princesa Branca Ishkriella

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1

Crac… crac…

As rodas da carruagem rangiam enquanto atravessavam a floresta escura.

No banco do cocheiro, um homem barbudo segurava as rédeas. Tinha cerca de trinta anos, usava armadura de couro sob o casaco e trazia uma espada larga ao lado. Um charuto curto saía da boca.

— Quantas vezes vou precisar repetir? Isso fede — reclamou uma mulher sentada ao lado dele. Também parecia ter uns trinta e poucos anos. Usava chapéu com aba e casaco.

— E como eu já disse, já estou quase acabando. Além do mais, esse charuto está mascarando outros cheiros. Quando terminar, você vai poder curtir meu maravilhoso odor corporal.

— Deixe o garoto aproveitar esse prazer. Vou descansar um pouco lá dentro. Mini-faísca!

Após o encantamento, três esferas de luz do tamanho de punhos surgiram do peito dela. Escondido sob o casaco, trazia um cajado pronto.

As esferas acertaram três dos cinco monstros que saltavam das árvores contra a carruagem. Os monstros soltaram gritos curtos e caíram inertes. Ela havia acertado pontos vitais com precisão.

Os outros dois gritaram e desabaram também. Cada um tinha uma faca cravada no rosto.

— Retornem — ordenou o homem, e as duas facas voaram de volta para suas mãos. Ele pegou uma folha, limpou o sangue das lâminas e guardou-as nas bainhas escondidas na armadura de couro.

— Só estamos vendo monstros do tipo morto-vivo por aqui. Que raro.

— Nem me fale. Nos últimos cinco dias vi mais mortos-vivos do que em toda a minha vida.

Monstro não era uma categoria específica de criatura. Era apenas o nome que os humanos davam a tudo que não fosse humano e considerassem ameaça.

Alguns monstros eram seres vivos; outros, não. Os não vivos eram classificados como mortos-vivos ou demoníacos, entre outros. Havia também os que apenas pareciam vivos e surgiam já adultos, sem nascer de pais. Em geral, os não vivos tinham aparência horrenda, e os mais fortes atacavam com magias poderosas ou maldições. Muitos também envenenavam.

Encontrar mortos-vivos fora de labirintos específicos era raríssimo. Mesmo assim, nos últimos três dias o grupo sofrera ataques constantes deles.

Logo chegaram a um lugar adequado para acampar.

— Tá bom. É cedo, mas vamos parar aqui hoje.

— Perfeito.

Quando a carruagem parou, um garoto desceu. Era Zara. Usou uma faca para cortar galhos que atrapalhavam.

Em seguida, desceu um homem de uns cinquenta anos, vestido com roupas sacerdotais gastas. Olhou ao redor, fez um encantamento e ergueu as duas mãos. Era uma barreira simples comum em acampamentos: dificultava a aproximação de monstros e ainda trazia efeitos como recuperação de estamina.

O barbudo desatrelou os cavalos e deixou-os pastar. A feiticeira preparou um fogão de campanha. Zara escolheu um canto plano na grama e estendeu uma pele de animal.

— O lugar está pronto.

Da carruagem saiu uma caixa. Era sólida, lindamente decorada e grande o suficiente para caber uma criança pequena. Flutuava no ar enquanto saía do veículo.

Uma mulher vestida de branco, traje típico de sacerdotisa de santuário, saiu atrás da caixa com as mãos abertas, como se a carregasse. Havia distância entre ela e a carga, porém, não a tocava diretamente.

Usava a habilidade Mãos Invisíveis. Depois de colocar a caixa com cuidado no lugar preparado por Zara, soltou um suspiro aliviado.

Era a Princesa Branca Ishkriella. Famosa adivinha e cliente desta aventura.

2

Zara chegara a uma cidade grande depois de atravessar o Grande Desfiladeiro. Lá havia até uma Guilda de Aventureiros.

Pensara em aceitar um pedido na guilda, mas hesitara. Se aceitasse, teriam que verificar sua medalha. Sendo rank S, temia chamar muita atenção.

Enquanto comia numa taverna, o homem barbudo se aproximou depois de olhar cuidadosamente ao redor.

— Ah, é você. Tenho algo a lhe dizer. Pode subir para o quarto quando terminar de comer?

No quarto indicado, Zara foi convidado a entrar.

Estavam lá o barbudo, uma mulher vestida de sacerdotisa branca, outra que parecia feiticeira e um homem com roupas de sacerdote. O barbudo explicou a situação.

— Esta mulher tem um pedido para você. É a Princesa Branca Ishkriella. Certamente já ouviu o nome. Quanto ao pedido…

Apontou para a caixa sobre a mesa.

— …Escoltem esta mulher e esta caixa até o Templo do Oceano. O grupo será eu, você e estes dois. Temos carruagem, então a viagem será tranquila. Ah, conhece o Templo do Oceano? Fica na ponta da península a leste daqui, bem na borda do continente.

Depois de ouvir o tempo estimado e confirmar a recompensa, Zara aceitou.

O nome do barbudo era Borante. Usava principalmente espada larga, mas gostava de variar conforme o inimigo. Também adorava armas de arremesso, como facas.

A feiticeira se chamava Himatra. Especialista em magia ofensiva, principalmente fogo, mas também conhecia algumas magias de contenção.

O monge corpulento era Gondona. Especialista em magia de apoio. Dizia não ter força de combate, mas se orgulhava do poder mágico. Sua maça rústica sugeria que era mais forte do que admitia.

Só de olhar para os três, Zara percebeu que eram aventureiros de elite. Ficou impressionado que um grupo tão capaz tivesse se reunido numa região tão rural.

— Por que me escolheram?

— Hmm? Ah. Por causa da adivinhação da Princesa Branca. Foi assim com todos nós. Ela disse que muitos monstros poderosos atacariam no caminho, então precisava de escoltas fortes.

Zara duvidava que adivinhação pudesse ser tão precisa, mas já aceitara o pedido.

— Meu nome é Zara. Minha arma principal…

Fez uma pausa e bateu com a direita no cabo da espada na cintura.

— …é a espada.

3

Até Zara, que pouco entendia de assuntos mundanos, já ouvira falar da Princesa Branca Ishkriella.

Era uma sacerdotisa errante chamada por reis e mercadores ricos para fazer adivinhações. Previa o clima, fortunas, resultados de guerras, detalhes de conspirações, partos, caminhos de vida, praticamente tudo. E nunca errava.

Às vezes recusava se oferecessem fortunas, e outras orientava as pessoas a seguirem seu próprio caminho em vez de depender dela.

Quando sua vida chegava ao fim, escolhia uma jovem talentosa como sucessora, e as duas se escondiam. Anos depois, após aprender tudo e herdar a proteção divina, surgia uma nova sacerdotisa com o nome Princesa Branca Ishkriella.

Assim, a Princesa Branca viajava pelo mundo há mais de mil anos recebendo revelações dos deuses.

Havia muitas impostoras. Mas por mais que alegassem ter poder de adivinhação, não conseguiam se passar pela verdadeira se não carregassem sempre uma caixa. A caixa nunca saía do lado dela – nem para movimentos mínimos – e flutuava graças à habilidade Mãos Invisíveis.

Pessoa comum não conseguia imitar aquilo. Mãos Invisíveis era uma habilidade rara, e usá-la por muito tempo consumia mana demais.

Era famoso que ela viajava em carruagem própria, protegia a caixa o tempo todo e mantinha Mãos Invisíveis ativa. Quem conseguisse replicar isso sem truque ganharia muito dinheiro, verdadeira ou não.

A Princesa Branca que meditava diante de Zara era, sem dúvida, a verdadeira. Como o nome sugeria, cabelos e pele eram completamente brancos, não um branco vivo, mas transparente, cristalino, quase como água. Tinha algo de inumano.

— Ela chamou sua atenção, garoto?

— Sim. Há algo estranho nela.

— Ha ha ha. Bem colocado. Mas, falando em estranho, você também é bem esquisito. Parece já acostumado a montar acampamento.

— Acho que sim. Mas se notar algo, por favor me avise.

— Nossa, que menino educado.

No primeiro dia ficou claro que Zara não estava acostumado a acampar no meio da floresta, mas ninguém o criticou pela inexperiência.

O motivo foi o que aconteceu na primeira noite. Pouco antes do acampamento, foram atacados por cinco gárgulas. Ao vê-las, Zara saltou do assento e as abateu num piscar de olhos.

Himatra era a cocheira; quando Borante e Gondona pularam da carruagem ao ouvir seu grito, Zara já guardava a espada, calmo como sempre.

Nas terras fronteiriças, derrotar uma gárgula sozinho era prova de cavaleiro de elite, mas nenhum cavaleiro conseguiria sem ajuda.

Gárgulas eram mortos-vivos rápidos, astutos e muito resistentes à magia. Tinham forma humana, sem pelos, presas e asas de morcego. Corpos duros como bronze; um arranhão já causava ferimentos graves. Voavam livremente.

Eram monstros difíceis.

As gárgulas que Zara matou estavam todas decapitadas, prova de talento anormal. Borante soltou um suspiro de admiração pelos cortes precisos.

Ele era habilidoso assim, mas não sabia acampar. Ficou parado olhando quando tentaram decidir a ordem de vigília.

Aventureiros que se reuniam no interior – especialmente os que aceitavam pedidos sem guilda – quase sempre tinham algum segredo. Deveria ser o caso do garoto também, mas sua inexperiência não fazia sentido.

Himatra pensou que talvez fosse um nobre ou pupilo de cavaleiro do alto escalão, tornado aventureiro após a ruína da família. Isso explicaria não querer mostrar a medalha. Mas não batia: o equipamento de Zara não tinha elegância nobre e ele claramente dominava suas ferramentas. Não era novato.

Era ótimo escondendo presença e nunca baixava a guarda, nem relaxando. Não parecia vida de quem fora mimado por criados. Himatra achava esse desequilíbrio muito estranho.

Na verdade, Zara não era totalmente inexperiente em acampar, tinha experiência demais dentro de labirintos. Só nunca montara um acampamento de verdade.

Quando dormia no labirinto, não usava cobertor nem nada confortável; apenas enrolava a espada num travesseiro ou casaco. Não precisava cortar o mato e nem fazer fogo com frequência. Se algo se aproximasse, ele mesmo resolvia. Por isso seu sono era leve e curto.

Ou seja, justamente por estar acostumado à dureza do acampamento solo é que não tinha experiência em montar um acampamento grande nem nunca pensara em revezamento de vigília. Também usava poções para recuperar estamina no labirinto.

— Ha ha ha. Enfim, essa carne defumada está uma delícia. Fico feliz que tenha vindo, senhor Zara. Ficaria ótimo com vinho.

— Para com isso, Gondy. Hoje é sua vez de vigiar — repreendeu Himatra. Gondona era o mais velho, mas ela falava com ele de igual para igual.

— Gond. Pode beliscar o quanto quiser, mas nada de bebida — disse Borante, também no tratamento íntimo.

— Essa carne é realmente deliciosa. De que animal é? — perguntou a Princesa Branca, com vários pedaços rosados no prato.

Pouco antes, Zara oferecera à Princesa os melhores cortes de um pedaço grande e bem defumado.

Ele conseguira essa carne nas Montanhas Gahra, e todo o grupo adorara.

— Carne de ettin.

— Entendi — disse a Princesa Branca com um sorriso largo.

Borante ficou com olhar perdido. Himatra cuspiu o vinho. Gondona abriu outra garrafa.

Aventura em grupo é muito divertida.

Foi o que Zara pensou.

4

No dia seguinte choveu. Após discussão, decidiram ficar parados e observar a situação.

A Princesa Branca estava dentro da carruagem com sua caixa. Zara também, fazendo guarda.

Era uma carruagem para quatro pessoas, mas o interior era mais espaçoso que o normal – provavelmente projetada para dar lugar à caixa e facilitar entrada e saída.

A caixa estava ao lado da Princesa; Zara sentava-se à frente. Olhando seu rosto, achou que ela parecia ao mesmo tempo jovem e madura.

A chuva não era forte, mas batia sem parar no teto. O ambiente silencioso dentro da carruagem dava a sensação de estar em outro mundo.

— Você é uma pessoa estranha, Zara.

— Certamente não tanto quanto você.

— Sinto em você a bênção da deusa Bora.

— Se é você quem diz, deve ser verdade.

— Você sempre viaja sozinho?

— Sempre entrei sozinho nos labirintos. Desde pequeno estive cercado de mestres e guias, então nunca estive realmente só. Saí para viajar sozinho há uns três meses.

— Entendo. Eu tive um companheiro nas minhas viagens. Mas ele envelheceu, adoeceu e morreu naquela cidade. Na verdade… provavelmente sempre estive sozinha. Sozinha tempo suficiente para esquecer o que é solidão.

— Quando você se separou da última Princesa Branca?

— Hmm… É isso que o mundo diz de mim. Na verdade, fui eu quem espalhei o boato de que o nome e o dever da Princesa Branca eram passados de geração em geração. Nunca foi assim. Sempre fui eu.

— Então você é a Princesa Branca há mais de mil anos?

— Sim. Mas você não parece muito surpreso. Eu tinha razão. Você é mesmo uma pessoa estranha.

— Tudo bem contar um segredo tão importante e antigo para mim?

— Meu dever logo estará cumprido. O fim está próximo — disse a Princesa Branca, olhando para a caixa.

— Dizem que essa caixa é a fonte do seu poder mágico. Está perdendo força?

— Não, não. Nada disso. Finalmente chegou a hora do que está dentro dela completar sua jornada. Cuidar desta caixa até lá foi o papel que meu mestre me deu. Faz muito, muito tempo.

— Você já teve vários companheiros ao longo dos anos?

— Sim. A vida dos humanos é muito curta. Já nem lembro quantos atendentes tive. Normalmente os dispenso quando chegam a certa idade e contrato novos.

— Mas desta vez não.

— Sim. Porque o fim está próximo.

Zara ia perguntar o que os esperava no Templo do Oceano, mas não teve chance. De repente, foram cercados por uma horda de monstros que se aproximava pouco a pouco do acampamento.

Zara se moveu para enfrentar os inimigos, mas Borante o segurou antes que saísse.

— Não. Gondona pediu para não ajudarmos. Fique na carruagem, Zara.

Zara fechou a porta.

Os inimigos eram problemáticos. Cercavam em grande número, mas o que realmente incomodava Zara era o modo de andar e a presença que sentia. Provavelmente eram…

— Expulsar Mortos-Vivos!!

O encantamento de Gondona ecoou pela floresta chuvosa, e uma luz intensa brilhou.

O efeito foi devastador.

Expulsar Mortos-Vivos era uma habilidade comum entre clérigos: afastava mortos-vivos. Usada de forma errada, porém, podia enfurecê-los e aumentar muito o poder de ataque. Não causava dano a nada além deles, mas servia para atrair atenção.

Um monge aventureiro dizia que era usada para reunir inimigos fracos e eliminá-los de uma vez. Também se dizia que, em ranks altos, causava dano massivo aos adversários próximos. Mas aquilo ia muito além.

Pela janelinha da carruagem, Zara via tudo claramente. Ghouls próximos foram atingidos por raios e evaporaram.

Revenants mais distantes foram arremessados para trás, derreteram em lama e foram levados pela chuva.

Deviam ser mais de cem criaturas repugnantes, mas foram exterminadas com um único encantamento.

— Gondy! Então você sabe fazer mais do que só beber vinho!

— Gond! Você disse que não sabia magia ofensiva!

— Ha ha ha! Aquilo não foi magia ofensiva.

— Então o que foi?

— Apenas a disciplina de um clérigo. Gritar assim me deu fome. Senhor Zara, teria mais daquela carne defumada?

5

A chuva forte virou garoa e parou na manhã seguinte. O grupo seguiu em frente.

Não tinham avançado muito quando foram atacados por vinte mortos-vivos fracos liderados por um que parecia um leopardo.

Borante enfrentou o chefe. O monstro leopardo era bípede e empunhava uma cimitarra larga.

Por um tempo, lutaram em igualdade com a espada larga de Borante, mas depois que ele jogou um saquinho no ar e o cortou, os movimentos do monstro ficaram lentos e Borante o matou facilmente.

Himatra queimou os mortos-vivos menores com três Bombas de Chamas.

— O que tinha naquele saquinho?

— Pimentas selvagens secas e moídas.

— Que golpe baixo! Pensei que você fosse homem.

— Não se usa bola de fogo no meio da floresta.

— Acabou de chover, está tudo bem.

— Ha ha ha! Que bom ver vocês tão amigos.

— Ei, Gondy! Por que diabos você está bebendo ao meio-dia?

Mais tarde, foram atacados por cerca de trinta mortos-vivos. Tinham rostos demoníacos, mas eram do tamanho de crianças.

— Não sinto muito poder mágico deles, então eu resolvo sozinha. Vai ser rápido.

Gondona viu Himatra saltar do assento do passageiro e murmurou:

— São zafans. Muito resistentes a fogo. Também atacam com itens, por isso o poder mágico é baixo.

Himatra soltou um grito. Zara saltou da carruagem e decapitou os inimigos em sequência rápida. Ao voltar e descobrir que Gondona conhecia os monstros, ela ficou furiosa.

— Por que não avisou?! Meu cabelo queimou! E você está bebendo de novo! Eu não acabei de falar para não começar ao meio-dia? Seu monge bêbado! E o que aqueles fantasminhas estavam pensando usando magia de fogo no meio da floresta?!

— Você também usou.

Naquele dia não sofreram mais ataques. No dia seguinte, porém, enfrentaram um inimigo bem pior.

— Isso é um dullahan?

— Parece que sim. Primeira vez que vejo um.

— É, é um dullahan.

O grupo começara cedo, mas agora um cavalo gigante bloqueava o caminho. Montado nele, um cavaleiro sem cabeça, de armadura completa.

Mais precisamente, a cabeça não estava nos ombros, estava segura no braço esquerdo. Na mão direita, uma espada longa nua, grande demais para ser usada com uma mão, mas o monstro a brandia sem esforço.

— Esse é meu. Sempre quis enfrentar um — disse Borante, avançando.

Começou um duelo entre o dullahan com espada longa e Borante com espada larga. Ambos lutavam com técnica apesar do peso das armas. Era um espetáculo.

— Parece que é a minha vez — disse Zara.

Foi para a traseira da carruagem, onde outro dullahan surgira. Outro duelo de espadas começou. Ambos terminaram quase ao mesmo tempo, com vitória humana.

Mas não acabou aí.

— Ah! — exclamou Himatra.

— Hmph. Eu sabia — disse Gondona.

Assim que Borante derrotou o dullahan, dois surgiram atrás. O mesmo aconteceu com Zara, agora eram quatro.

Borante manteve a concentração. Correu para os dois dullahans e os derrotou rápido. Zara despachou os seus também.

Logo depois, apareceram o dobro. Quatro diante de Borante, quatro diante de Zara.

Gondona virou-se para Himatra, que ia ajudar Borante.

— Desculpe pedir isso, senhorita Himatra, mas pode restringir o movimento dos quatro da frente? Não precisa ser por muito tempo. Faça Borante voltar enquanto os segura.

— O quê? Tss. Você tem algum plano, né?

Himatra obedeceu.

Quando Borante voltou à carruagem, Gondona mandou que jogasse facas em todos os dullahans. Passou um líquido de um frasco em cada lâmina.

— É água benta. Muito útil contra mortos-vivos.

— Entendido, Gond.

O plano funcionou perfeitamente. Os poderosos dullahans sumiram ao serem atingidos pelas facas com água benta. Novos também pararam de surgir.

Gondona virou-se para ajudar Zara, mas ele já terminara.

— Hooo. Impressionante. Você tinha arma com elemento sagrado.

Zara assentiu. Gondona deu um tapinha no ombro dele e fez sinal para entrar na carruagem. Borante e Zara subiram; Gondona pegou as rédeas e Himatra sentou-se ao lado.

— Não é justo! Eu também lutei! …Ei, quantas vezes vou precisar repetir para você não beber? Me dê isso aqui.

Himatra tomou a garrafa de Gondona e bebeu um longo gole de vinho.

Foram atacados por mortos-vivos todos os dias, mas graças ao talento único de cada um, conseguiram repelir todos.

— Olha, finalmente chegamos à borda da floresta.

— Sim. Mas primeiro temos que lidar com aqueles.

Quatro vultos negros enormes estavam agachados ali perto. Quando a carruagem se aproximou, levantaram-se, cada um encarando o grupo com três olhos brilhantes.

— O que são esses?

— Bugbears.

— Ah, então é essa a aparência… Ei, Himatra, o que você…

Himatra terminou um encantamento e disparou a magia.

— Invocar Cometa!

— O QUÊ?! Não usa isso aqui!!!

Um cometa caiu do céu e aniquilou os quatro bugbears.

Deram azar de estar tão juntos.

O que antes era a borda da floresta agora era uma cratera gigante. Árvores, grama e terra choveram sobre o grupo. Felizmente a magia não causou incêndio. Após uma breve discussão, deixaram a floresta.

6

— Senhorita Himatra, pegue isso — disse Gondona.

— Hã? O que é?

— Erva medicinal que acelera a recuperação de mana. Pode ferver ou comer crua. Mastigue bem e engula o suco junto com a saliva.

— Parece meio estranho, mas obrigada. Se acelera mesmo que um pouco, aceito de bom grado.

— Dizem que é muito amarga.

Himatra jogou a erva na boca. Um segundo depois fez careta, mas não cuspiu.

Logo após saírem da floresta, foram atacados por enxames de gafanhotos e moscas monstruosas. Os chefes de cada enxame chamavam-se Adoban e Nasu. Havia um número impossível de inimigos.

Gondona criou uma barreira protegendo a cliente e a caixa, Himatra lançou magias de fogo sem parar, Borante usou explosivos contra mortos-vivos que se aproximavam dela, e Zara matou os chefes, encerrando a batalha.

7

Chegaram ao oceano. Havia praia, e a água verde brilhante se estendia até onde a vista alcançava.

A brisa salgada do mar era revigorante; parecia melhorar a vitalidade a cada respiração.

Era a primeira vez que Zara via o mar e ficou profundamente emocionado. Ficou animado ao saber que a ilha à direita se chamava Ilha Yuto, terra natal do grande feiticeiro Gil Linx. Desde pequeno ouvia histórias da vida dele, então aquele lugar parecia sagrado.

O grupo continuou rumo ao Templo do Oceano. Por três dias inteiros não foram atacados por mortos-vivos. Em certo momento, salvaram uma família viajante de goblins.

Acampavam todo dia em lugares onde sentiam a brisa do mar. O vinho era delicioso, e o peixe, fresco. Himatra era uma ótima cozinheira.

Depois disso, ainda sofreram vários ataques de mortos-vivos, mas nenhum muito forte. A força do grupo explicava a facilidade com que passaram por eles.

Quando faltavam uns quatro ou cinco dias para o templo, os ataques de mortos-vivos ficaram subitamente mais intensos. Eram atacados com frequência até durante as refeições; o cansaço mental e físico começava a pesar.

— Todos, escutem.

Borante falou após o jantar.

— Faltam uns dois dias para o templo. Mas se sairmos cedo e forçarmos os cavalos, é uma distância que dá pra cobrir em um dia só. Que tal tentarmos chegar amanhã?

Os três aventureiros concordaram, assim como a Princesa Branca. Todos confiavam que este grupo conseguiria.

8

Partiram muito antes do amanhecer. Diferente da floresta, a região do litoral não ficava completamente escura à noite. Os ataques dos mortos-vivos eram ferozes, mas o grupo os repeliu sem deixar a carruagem diminuir a velocidade.

— Droga… Tem um monstro médio bloqueando a estrada.

— Eu cuido! Não diminuam a velocidade da carruagem.

Zara saltou e correu à frente. Cortou rapidamente as pernas do morto-vivo e chutou-o para fora do caminho. A carruagem passou raspando na criatura profana.

Zara alcançou a carruagem por trás. Gondona abriu a porta na hora exata e o puxou para dentro.

— Belo trabalho, garoto.

Borante soltou um assovio impressionado do banco do cocheiro.

9

Continuaram avançando às pressas, comendo algo que haviam trazido para matar a fome. Poucas horas depois do meio-dia, Borante gritou:

— Estou vendo!

Zara abriu a porta e olhou. A estrada que acompanhava o oceano levava a um cabo íngreme. No topo, um edifício grandioso.

É o Templo do Oceano.

— Princesa Branca, já dá para ver o templo. Estamos quase lá — disse Zara após fechar a porta.

Estavam perto, mas todos estavam exaustos de tanto se forçar. Gondona curava qualquer ferimento com seu poder de cura formidável, mas o cansaço mental e físico era extremo. Himatra, que disparava ataques de longo alcance sem parar, estava especialmente esgotada.

— Senhor Zara, quero formar um grupo — disse Gondona.

Zara ficou confuso.

Formar grupo oficial era comum em labirintos: distribuía experiência igualmente e facilitava a luta. Muitos dependiam disso para saber posições e gerenciar estamina.

Mas fora de labirintos era raro. Geralmente não fazia sentido e exigia revelar nome real e estamina restante. Não era algo que Zara quisesse fazer.

Não entendia por que Gondona pedia isso agora. Mesmo assim, fez conforme pedido e formou grupo com ele como líder.

Foi até o banco da frente, explicou a Borante e Himatra, tocou a medalha de aventureiro de cada um e os adicionou ao grupo.

Ao voltar para dentro da carruagem, Zara pensou:

Este monge provavelmente passou a maior parte do tempo em labirintos.

Dentro de labirintos, monges gerenciavam a estamina do grupo. As técnicas incríveis de recuperação de estamina de labirinto, porém, não funcionavam no mundo exterior – cada um cuidava da sua.

O pensamento de Zara foi interrompido quando a carruagem inclinou de repente para um lado.

— Merda! Fomos atingidos. A roda dianteira direita se foi. Desculpem, vou soltar os cavalos — disse Borante.

A carruagem seguiu por inércia, rangendo e balançando. Depois virou forte para a esquerda, capotou várias vezes e parou de cabeça para baixo.

Zara reagiu rápido: agarrou a Princesa Branca, chutou a porta e escapou enquanto ainda rolava. Parecia que Borante também conseguira saltar, mas Himatra foi arremessada e caiu de cara na areia.

A Princesa Branca desmaiara de choque nos braços de Zara, normal, pois usara Mãos Invisíveis durante toda aquela tensão.

Himatra gemia.

Zara deitou a Princesa com cuidado na areia e ouviu Gondona chamá-lo.

— Senhor Zara, segure esses monstros um pouco!

Sangue escorria da testa de Gondona.

A atenção de Zara já estava nos inimigos antes mesmo do pedido. Ele os abateu um após o outro.

Ao olhar para Gondona, viu o monge rezando de joelhos na areia, cabeça baixa, segurando objetos rituais ou selos sagrados.

Borante tentava tratar Himatra quando os dois e Zara foram envoltos por uma luz suave.

Ah, entendi. É um level up.

Zara finalmente percebeu. Gondona provavelmente era clérigo com a habilidade Juramento. Isso permitia pedir aos deuses que subissem o nível de membros do mesmo grupo ou de quem tivesse a medalha. Todas as batalhas intensas da viagem haviam acumulado experiência suficiente. Graças ao level up, ferimentos foram curados e estamina e energia mental restauradas.

— Gondy, isso foi incrível.

— Você nos salvou, Gond.

Borante e Himatra voltaram rapidamente à luta, mas Zara notou algo: o ferimento na testa de Gondona continuava lá. Ele não subira de nível.

Como ele não subiu de nível depois de tantas batalhas? Quem é esse monge afinal?

— Cadê a caixa? Cadê a caixa?!

Era a Princesa Branca. Acordara.

O impacto do capotamento arremessara a caixa pela porta. Felizmente caíra na praia e não se quebrara completamente, mas havia rachaduras pelas quais Zara via algo branco.

A Princesa correu até a caixa e a examinou.

— Começou. Mas este lugar serve — disse para si mesma, olhando a caixa e o templo no cabo. Depois gritou para o grupo:

— Todos, o conteúdo desta caixa logo estará pronto. Não pode ser movido agora. Protejam-na até terminar!

— Entendido.

— Deixem conosco.

— Pode mandar.

— Ho ho ho. Estou pronto.

Criaturas que pareciam sereianos emergiram da água por toda a praia. Depois começaram a surgir cada vez mais longe, saindo das ondas. Eram sahagins.

A batalha final começou.

10

— Santuário!

A voz de Gondona ressoou ao lançar a magia. A caixa e a Princesa Branca, que rezava diante dela, foram cercadas por uma parede protetora semitransparente.

Que voz grave e bonita.

— Benção!

Os olhos de Himatra brilharam de raiva. Parecia querer xingar Gondona, e com razão: ele lançou Benção em si mesmo.

Benção era excelente magia de suporte que aumentava muito a defesa física, mas durava muito pouco. Em batalhas de chefes em labirintos ainda valia a pena; em batalhas longas contra muitos inimigos, não.

Se fosse usar, o lógico seria lançar em quem estava na vanguarda ou em um feiticeiro com baixa defesa física. Um monge que ficava atrás usar em si mesmo parecia covardia e egoísmo. Era natural ficar bravo quando alguém desperdiçava mana em vez de curar.

Mas a raiva logo virou choque.

— Benção! Benção! Benção!

Gondona lançou Benção quatro vezes seguidas. Borante, Zara e Himatra foram envoltos pela luz azul fosforescente do apoio.

Os três ficaram boquiabertos. Ele não levara tempo algum para os encantamentos.

Ele prepara o próximo encantamento mentalmente enquanto lança o atual.

Zara sentiu arrepios. Ouviu falar de feiticeiros que faziam isso, mas era a primeira vez que via. E a surpresa não acabou aí.

— Repelir o Mal! Repelir o Mal! Repelir o Mal! Repelir o Mal!

Começando por si mesmo, Gondona lançou a magia nos quatro. Uma luz laranja suave surgiu fora da aura azul que já os cercava.

— O que é isso? — perguntou Zara. Não conhecia a magia.

— Técnica para afastar o mal. Aumenta muito o ataque físico contra monstros de elemento sombrio e demoníaco. Defesa física contra ataques sombrios também aumenta, assim como resistência a status negativos. Vamos!

— Hã?

Ainda chocados, viram Gondona virar as costas e correr direto para os sahagins, brandindo uma maça enorme. Derrubou três inimigos no ar, onde explodiram e morreram.

Os sahagins se enfureceram e o cercaram. Ele começou a girar a maça sem critério, cada golpe mandava vários inimigos pelos ares, onde explodiam.

Sahagins eram inimigos que nem um espadachim rank A conseguiria derrotar com um único golpe.

O que estou vendo agora?

Não era hora para esse tipo de pensamento. Zara, Borante e Himatra também estavam sendo cercados. Não tinham como proteger os cavalos, então bateram no traseiro deles para fugirem e partiram para o combate.

Zara se surpreendeu mais uma vez. Cortava os sahagins como manteiga com golpes leves da espada. Causava dano massivo sem nem precisar mirar em pontos vitais, a maioria morria com um golpe só. Não precisava de técnica nem força; bastava balançar a espada.

Sua defesa também aumentara tremendamente: ataques diretos não causavam dano. Num combate corpo a corpo como aquele, era o melhor apoio possível.

Não acredito que conseguimos lutar tão calmos cercados por tantos inimigos.

Considerando o poder do buff, era impressionante que ainda estivesse ativo. Benção e a magia laranja deveriam ter acabado há muito tempo.

Quando Zara pensava que a duração era impossível, Gondona lançou novamente Benção e a magia laranja quatro vezes seguidas.

Zara então entendeu por que Gondona lançava primeiro em si mesmo: quando o buff dele expirava, significava que o dos outros também expiraria em breve. Era um indicador fácil para relançar sem deixar buracos. Provavelmente fazia de propósito para expirar um pouco antes.

Espera. Magia de apoio não precisa estar bem perto do alvo?

Ouvira que Benção só funcionava se estivesse literalmente a um sopro de distância. Qualquer obstáculo entre lançador e alvo também impedia.

Como ele consegue lançar apoio a vários metros de distância, no meio de uma batalha tão intensa?

Zara não entendia bem, mas provavelmente tinha a ver com estar no mesmo grupo.

Então é isso que apoio de verdade pode fazer.

A Princesa Branca ainda rezava diante da caixa. Uma luz fraca piscava lá dentro, piscando cada vez mais rápido e intenso.

Zara não sentia que o número de inimigos diminuía, mas estavam conseguindo matar todos que se aproximavam.

Logo cada um caiu num papel claro.

Zara reunia inimigos com ataques de bater e correr.

Borante reprimia uma área ampla com uma maça de corrente e armas de arremesso – explosivos e facas que voltavam após matar.

Himatra lançava magias de longo alcance para atrapalhar o avanço inimigo e, de vez em quando, usava ataques de área para limpar grupos reunidos por Zara.

Gondona mantinha o apoio, protegia Himatra e esmagava quem escapava do grupo.

A defesa estava muito alta, mas ainda levavam dano.

Quando os ferimentos se acumulavam e os movimentos ficavam lentos, Gondona gritava…

— Heal!

…e todos se curavam. As magias funcionavam de distância absurdamente longa.

Se é esse o benefício de formar grupo, vale a pena revelar minhas informações.

Os sahagins continuavam surgindo na mesma velocidade, mas a defesa mantinha tudo sob controle.

Dá para ganhar.

A esperança de Zara não durou muito. Algo surgiu para esmagá-la.

Bem além da linha d’água, o oceano se abriu e uma figura gigantesca emergiu.

Era Dagon, criatura dita ser o deus dos mortos-vivos do oceano.

Nuvens escuras cobriram o céu, tingindo as águas de cinza opaco.

O deus avançava lentamente para a praia, forçando caminho entre mar e céu.

Zara, Borante e Himatra sentiram desespero. Gondona então gritou com voz poderosa:

— Todos, para cá!

11

Sem poder parar de lutar um segundo, diminuíram o perímetro defensivo até Gondona e ouviram suas palavras.

— Isso é um deus demoníaco. Conheço uma magia que acho que será muito eficaz contra ele. Não creio que consiga matá-lo, mas posso imobilizá-lo por um tempo. O encantamento, porém, leva bastante tempo. Durante isso, não poderei usar Benção nem Curar. Ficarei completamente indefeso. Santuário provavelmente expirará no meio. Posso contar com vocês três para me protegerem?

Gondona conhecia uma magia poderosa que podia virar o jogo e pedia que o protegessem enquanto a preparava.

Queriam obedecer, mas tinham durado até ali graças à defesa e cura dele. Já estavam no limite do esgotamento. Pedir para lutar sem magia de apoio era quase pedir que sacrificassem um membro, ou a vida.

Não, espera. Posso usar aquilo.

— Entendido. Borante, Himatra! Tenho um pedido. Podem me dar tempo para tirar um item?

Não sabiam o que Zara planejava, mas responderam na hora.

— Claro! — disse Himatra.

— Conte comigo! — completou Borante.

Borante aumentou a intensidade e repeliu os sahagins que vinham. Himatra lançou magias pequenas e rápidas contra inimigos próximos. Não conseguiriam manter aquele ritmo por muito tempo, mas davam a Zara o tempo necessário.

Zara abriu o Tesouro. Portas de luz azul surgiram diante da mão aberta e se abriram para os lados. Procurou rápido e tirou uma espada.

Borante viu o Tesouro de canto de olho. Já notou que Zara tinha um, mas era a primeira vez que via a tela de operação.

Olha o tamanho desse Tesouro, a largura da tela, a complexidade… Isso é de família real ou de chefe de grande casa nobre. Quem é esse garoto afinal?

Zara fechou o Tesouro e avançou, eliminando rapidamente os sahagins que vinham. A velocidade com que corria e brandia a arma o fazia parecer outra pessoa.

— Eu vou repelir os inimigos. Borante, proteja Himatra e Gondona. Himatra, use apenas magias de longo alcance!

Os dois não puderam fazer nada além de ficar quietos e obedecer. Era assim tão anormal a força e movimentação de Zara naquele momento.

A espada que Zara usava chamava-se Espada de Bora, e suas bênçãos eram tremendas:

Poder de Ataque ×3

Taxa de Crítico +20%

Velocidade de Movimento +80%

Velocidade de Ataque +80%

Roubo de Vida +10%

Regeneração de Mana +20%

Atributos Básicos +60%

Recuperação Automática de Dano

Todas as bênçãos funcionavam fora de labirintos. Zara herdou esta espada divina do pai. Usou-a dentro de labirintos, mas era a primeira vez no mundo exterior.

O poder era demais para um humano suportar, as consequências eram severas. Seu pai morreu por usar demais a Espada de Bora.

Se você enchesse um saco de couro até cem vezes sua capacidade, esvaziasse e enchesse de novo com a mesma quantidade, o saco acabaria se rompendo. Por isso, Zara proibiu a si mesmo de usar a arma fora dos labirintos. Agora, porém, levantava a proibição.

Sua velocidade aumentou tanto que os inimigos pareciam parados. Sua força ficou tão grande que um simples balanço da espada os mandava voando. A lâmina também curava instantaneamente qualquer ferimento.

Zara devastava o inimigo. O número mínimo que conseguia passar por ele era facilmente eliminado por Borante e Himatra, apesar do esgotamento total.

Enquanto a batalha continuava, Dagon avançava lentamente para a praia.

Gondona ainda preparava seu encantamento.

Quanto mais perto Dagon chegava, mais evidente ficava seu tamanho colossal e sua aparência intimidante. Sua presença era tão forte que Zara duvidava ter alguma chance. Quando estava prestes a pisar na praia, espalhando miasma, a magia tão esperada finalmente chegou.

— Martelo da Convicção!!!

Raios de luz do alto do céu rasgaram as nuvens e caíram no oceano. Um vórtice de luz se expandiu, engolindo as nuvens, e no centro surgiu um martelo gigante, também de luz.

O martelo mirou a cabeça de Dagon, acelerando e espalhando fragmentos multicoloridos. Era maior que a própria criatura. Atingiu Dagon em cheio na cabeça, criando um espetáculo de luz rica e um som harmonioso que parecia vir de um órgão divino.

Os aventureiros esqueceram completamente a batalha ao assistir à cena mítica.

Dagon cambaleou violentamente, fumaça subindo do corpo, acabou caindo para trás e provocando uma onda gigantesca.

Os sahagins que cobriam toda a praia foram atingidos pelo impacto do martelo de luz e voaram pelos ares, morrendo instantaneamente. Novos pararam de surgir, provavelmente porque Dagon foi derrotado.

Conseguimos.

Borante e Himatra desabaram, sem forças nos membros. Haviam atingido o limite físico e mental. Até Zara sentiu que ia cair.

Mas não caiu. Não podia. A dor pós-uso do poder da espada divina era tão grande que nem desmaiar conseguia. Em um labirinto, teria usado poção para curar a dor, mas isso não funcionava agora.

O… o pai sempre suportava essa dor quando usava a Espada de Bora?!

Gondona estava de bruços na areia, também desabado após lançar aquela magia colossal. Zara se perguntou quanto o sacerdote pagaria por se forçar tanto.

De repente, silêncio na praia. Zara só ouvia as ondas. O céu estava completamente limpo, como se as nuvens cinzentas tivessem sido afastadas pela magia celestial. Tons de vermelho anunciavam o entardecer.

A Princesa Branca então gritou:

— Está nascendo!

12

A caixa se partiu e revelou um pequeno dragão branco.

Um dragão.

Dragões eram criaturas divinas que só apareciam em lendas antigas. Pensava-se que ver um na era atual era impossível (exceto monstros de labirinto chamados dragões, que não tinham nem um pingo de divindade).

Mas agora havia um dragão genuíno diante deles.

A criatura misteriosa dirigiu seu olhar inocente a Zara, refletindo o azul do céu e o vermelho do entardecer. Tinha o tamanho de uma criança de doze ou treze anos. Flutuava no ar, cantando feliz.

— Kwee! Kwee-kwee!

Cabeça e abdômen cobertos por escamas brilhantes como pérolas. Costas com escamas azuladas de textura dura. Asas transparentes pequenas, batia-as de vez em quando, como se lembrando que as tinha. Conseguia voar apesar da inexperiência graças a uma habilidade especial que possuía desde o nascimento.

Zara ouviu um baque. A Princesa Branca desabara.

Correu até ela cambaleante. Seu corpo estava pesado e cheio de dor, era como carregar metal nas costas enquanto atravessava um pântano denso.

Os outros aventureiros ainda estavam inconscientes.

— Muito obrigada. Consegui cumprir meu dever em segurança. Por favor, aceite isso — disse a Princesa Branca. Deitada de costas no chão, estendeu-lhe quatro joias.

Era a recompensa prometida. A pedra que aceitara antes já era valiosíssima, mas não imaginava o preço dessas joias. Era o que aquele grupo colorido de aventureiros arriscou a vida para ganhar.

— Zara. Tenho um pedido.

— O que é, Princesa?

— Gostaria que você desse um nome a esta criança dragão.

— Não sabia que ainda havia dragões no mundo.

— A maioria desapareceu há muito tempo. Esta criança pode muito bem ser a última.

— Você recebeu este ovo de dragão da pessoa que serviu, certo?

— Sim. É o primeiro e último filho de minha mestra, Kaldan, e de seu honrado esposo. Lady Kaldan me confiou o ovo. Eu sou Paksalimana, um espírito das águas que serviu Lady Kaldan.

— Se você serviu a deusa-dragão Kaldan, então deve conhecer Narillia.

— Narillia! Esse nome me traz lembranças… Ela era tão adorável. Como veio a saber dela?

Zara resumiu o que aconteceu.

— Ah, então Narillia encontrou alguém querido e estão vivendo felizes. Até ajuda as pessoas. Que notícia maravilhosa. Fico feliz por poder transmitir isso a Lady Kaldan. Muito obrigada, Zara.

A Princesa Branca não derramou uma lágrima, seu corpo já era feito de lágrimas.

— O marido da deusa Kaldan também era dragão?

— Não. Era humano. Feiticeiro de raro talento e um dos melhores criadores de labirintos da história.

Zara notou que o Templo do Oceano emitia uma luz fraca. Parecia descer sobre o bebê dragão recém-nascido.

— Por que o templo está brilhando? — murmurou Zara, e a Princesa Branca respondeu:

— O hoje chamado Templo do Oceano, originalmente era o Templo do Dragão. Os países que receberam a proteção divina de Lady Kaldan ficavam onde hoje é a capital do Império Gorenza. Após serem atacados por nações invejosas de sua prosperidade, Lady Kaldan procurou uma terra de paz e acabou aqui. Com o tempo, pessoas que a serviam chegaram e construíram este templo.

Narillia dissera que a deusa Olgoria, invejosa da beleza e popularidade de Kaldan, a difamara como dragão maligno e incitara países vizinhos a atacar e destruir os lugares sob sua proteção. Kaldan viera para cá depois.

— Graças à fé profunda de seu povo, este templo mantém forte poder protetor até hoje. Também carrega a proteção do pai e da mãe de Kaldan, deus dos céus e deusa da terra. Mas esta terra acabou se tornando insegura. Lady Kaldan disse que a criança morreria junto com ela se ficassem juntas, então me confiou o ovo. Depois partiu para o norte com o marido, onde suas vidas terminaram.

O Reino de Baldemost fora fundado após a morte de Kaldan. Como descendente da nobreza daquele país, Zara não pôde evitar a dor no coração ao ouvir a história de Paksalimana.

— Entre todos os deuses, Lady Kaldan subjugou mais monstros mortos-vivos que traziam dor e sofrimento às pessoas. A malícia dos mortos-vivos é profunda, e o cheiro de Lady Kaldan no ovo os fazia considerá-lo inimigo mortal. Por isso, nos últimos mil anos, usei magia continuamente para esconder sua presença. Mas com o tempo e a proximidade do nascimento, tornou-se impossível ocultar a energia divina que transbordava, e os mortos-vivos começaram a atacar. Para afastá-los, Lady Kaldan guiou heróis da era moderna até mim. Mesmo sem você ter percebido, você e os outros criaram um vínculo com Lady Kaldan.

O corpo da Princesa Branca ficava cada vez mais transparente, e a voz, mais fraca. Provavelmente chegava ao fim da vida. O bebê dragão olhava a Princesa com olhos redondos adoráveis, às vezes olhando curioso para Zara.

— A criança dragão poderá crescer em segurança nesta terra. Seu espírito divino já serve como luz que destrói mortos-vivos. Com seu nascimento, a proteção divina do templo – do deus dos céus e da deusa da terra – também foi restaurada. Tudo está bem. Todas as minhas promessas foram cumpridas.

Após essas palavras finais, o corpo da Princesa Branca virou água e desapareceu ao ser absorvido pela areia. Parte do líquido tocou Zara no caminho, curando toda a sua dor. Uma onda insuportável de cansaço o fez desmaiar.

O bebê dragão, corpo brilhando vermelho com a luz do pôr do sol, ficou sozinho ao som do vento e das ondas do mar.

 


 

Tradução: Rlc

Revisão: Pride

 

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