A Ursa Maior, a autoridade máxima da filial terrestre, mudou a típica expressão intimidadora para uma careta de confusão quando viu Cosmo mumificado por correntes prateadas. Quando imaginou as inúmeras perguntas se passando na cabeça da diretora e percebeu o que tinha feito, Antares puxou elas na intenção de soltar o melhor amigo.
O movimento foi tão rápido que fez a cadeira rodopiar como um pião, a cabeça do pobre coitado pendendo para os lados como se admirasse uma trilha de meteoritos em meio ao mundo embaçado ao redor.
— M-Me desculpa Cosmo! Eu esqueci de te desamarrar…
— Obrigada por trazê-lo, Antares. Está dispensada. — A Ursa estalou os dedos da mão direita, e Antares se direcionou para a saída após uma breve reverência.
— Se possível, eu gostaria de comentar… — A segurança se forçou a virar o torso para encarar a Diretora, como se uma força sobrenatural estivesse a impedindo.
— Eu estou de acordo com as suas propostas, fique tranquila. Por favor, se retire, tenho uma reunião daqui a pouco e não vou tolerar atrasos.
— Mas eu tenho certeza que, se me der mais um tempinho da sua atenção, podemos…
— Não tente me desafiar, Antares! Qual é a primeira coisa que todo funcionário deve falar quando isso acontece?
— M-me perdoe pela desobediência, mas…
— Apenas diga, sem desculpas! — A mulher bateu os dedos na mesa com uma velocidade frenética, como se maquinasse a punição adequada caso Antares não lhe desse a resposta desejada.
— Me perdoe pela desobediência. A senhora sabe o que é melhor para todas as estrelas da Terra…
— Muito bem, certifique-se de fazer um trabalho exemplar.
— Eu agradeço, minha senhora… — completou Antares quando atravessou o grande portão. — Boa sorte, Carinha…
A julgar pelo tom da conversa, Cosmo entendeu que a Ursa Maior não o chamou para dar uma promoção ou jogar conversa fora. A situação demandava bastante seriedade, e por isso, o rosto se fechou por completo.
— Peço desculpas pela minha subordinada, ela geralmente traz os funcionários problemáticos dessa maneira e todos do Casarão Administrativo se acostumaram com isso.
— Isso significa que estou na sua lista negra?
— Não seja tão precipitado, rapaz. Você está aqui por outro motivo — De maneira rápida, a Ursa Maior estirou o braço direito e estalou os dedos outra vez, o som ecoando como o badalar de um sino.
As luzes da sala se apagaram, como se estivessem aguardando o gesto da mulher desde o começo. Em seguida, um trio de garotinhas surgiu debaixo da mesa com joias de cores variadas nas mãos, além de encararem o professor com o mais profundo tom de malícia. Juntas, elas representavam as Ursas Menores.
Herdaram o mesmo tom de pele da Diretora, com a adição de dentes caninos, garras afiadas, adornos felpudos na gola e barra dos vestidos. Pareciam crianças que ansiavam conhecer tudo sobre o mundo, mesmo que muitos inocentes tivessem que se machucar no processo.
— Preparem a simulação, não temos muito tempo…
— Sim, Mamãe! — falaram as três, evidenciando uma proximidade incomum com a mulher.
Com as pedras em mãos, as meninas levantaram os braços para as partículas mágicas seguirem o trajeto lento e gracioso até a mesa. Depois de se unirem em uma pequena esfera colorida, o brilho semelhante ao flash de câmera iniciou a transmissão.
A imagem mostrava um homem idoso vestindo o simples macacão de pedreiro e esbanjando alguns dentes de ouro na arcada superior. A julgar pela postura curvada e a presença mínima de fios capilares, é perceptível que a vida não rendeu bons frutos ao pobre coitado, e mesmo assim, sua imagem era familiar para o professor.
— Você conhecia o Scallix? Um senhor de temperamento forte, vulgar, representava tudo que um homem pode ser de…
— O Seu João? Ele é uma das pessoas mais bondosas que eu… — Cosmo parou assim que percebeu o olhar afiado da Diretora. Pela própria segurança, ficou em silêncio até que o tom de ameaça sumisse do ambiente.
— Apesar dos pontos irrefutavelmente fracos, ele foi um dos melhores funcionários na Tropa de Exploração. No entanto, deixou de trabalhar em nossa organização há muito tempo, sabe o porquê?
— Ele sofreu um acidente gravíssimo que prejudicou o desempenho no trabalho, e depois de ser hospitalizado, o Setor de Exploração lhe concedeu a aposentadoria.
— Precisamente. Muitos funcionários se perguntam como está o velho colega de equipe depois de tantos milênios, mas nenhum deles sabe a verdadeira história.
— Como assim?
A esfera mágica emitiu novas imagens do Seu João num piscar de olhos, levantando uma camada fina de névoa por todo o escritório. A partir daquele momento, aquele poder simulou cada movimento e cenário em sintonia com as palavras da Ursa Maior, determinada a revelar todos os fatos ao rapaz dos trajes elegantes.
— Sabíamos que Scallix trabalhava num ambiente insalubre para uma estrela de sua idade, e por isso, lesões e machucados eram algo corriqueiro em suas explorações. Descobrimos, porém, que ele fazia isso de propósito.
— Isso é terrível! — gritou a pequena ursa de cabelo azulado.
— Horrível! — bufou a garota de cabelo vermelho.
— Impensável! — terminou a menina das mechas esverdeadas.
— Nós tentamos mudá-lo de departamento para evitar uma catástrofe, mas a reação negativa dele acabou por confirmá-la. Sua pele mudou de cor, rachaduras se alastraram por todo o corpo como se algo quisesse sair de sua casca. E então… Veio o primeiro choque, e a situação piorou.
A imagem de Seu João, que estava se contorcendo com os sintomas descritos, soltou uma onda de energia capaz de demolir a montanha de papeis sobre a mesa e até lançou a cartola elegante de Cosmo pelos ares. A partir daquele momento, a sequência de eventos tomou um rumo inesperado.
— Seus colegas fizeram de tudo para acalmá-lo, mas o velho havia perdido o juízo por completo. A cada nova onda de choque, sua aparência mudava, o comportamento mais primitivo, e aos poucos deixava de ser o Scallix que todos conheciam. Chegou ao ponto que o corpo cedeu ao descontrole que simplesmente…
Assim que a Ursa Maior fechou o punho esquerdo com muita força, o velho se desintegrou em milhares de partículas coloridas, a força varrendo os poucos documentos restantes e poluindo o ambiente com bastante poeira.
— Quando alguém perde o controle, a energia interna entra em desequilíbrio e quando o corpo não for capaz de contê-la, será liberada em uma explosão de proporções devastadoras. Vocês humanos conhecem essa parte final como Supernova, em outras palavras, a morte de uma estrela.
Cosmo não conseguia tirar as imagens do primeiro dia de aula e do descontrole de Luna. A explicação era condizente com o caos instaurado na Cúpula da Iniciação, mostrando que algo muito pior teria acontecido se não tivesse tomado uma atitude.
— Naquele momento, os membros da Tropa de Exploração deveriam ter seguido o Protocolo de Segurança para evitar que Scallix virasse uma Supernova. Poderia recitá-lo para mim?
O professor franziu a testa por um breve momento, intrigado pela linha de raciocínio que a Ursa Maior desenvolveu com aquela conversa. No entanto, sabia que a palavra não era inexistente no vocabulário de alguém tão importante quanto a Diretora, logo, relembrou dos procedimentos sem hesitação.
— Quando uma estrela estiver fora de controle… Você deve isolá-lo em um ambiente longe de mercadorias, construções e da civilização.
— Certo, e depois?
— Identifique os pontos de maior vulnerabilidade do indivíduo, atrás da nuca e na região do busto quando desprotegida. Em seguida, acione o estabilizador de acordo com a gravidade da mutação para imobilizá-lo.
— E se nada disso funcionar? Qual é a coisa mais importante que uma estrela deve fazer?
— Saia do local o mais rápido que puder. Não há mais nada… Que possa ser feito… — respondeu Cosmo com um leve teor de preocupação. Ele sabia o motivo de estar ali.
— Como alguém que conhece o protocolo, eu lhe pergunto… Qual motivo te levou a desconsiderá-lo quando uma Supernova estava prestes a acontecer no seu próprio local de trabalho?
— Terrível, horrível, impensável! — repetiram as Ursas Menores.
— Ela era só uma criança! A senhora sabe muito bem como o uso dos estabilizadores causam danos permanentes em qualquer funcionário. E-eu pude resolver a situação de uma forma mais…
— Independente, Professor Cosmo! — A ursa vociferou, silenciando o protesto — Sabe o quanto perderíamos com seu descuido? Estamos com uma baixa severa no quadro de funcionários e faz séculos que o Ancião não manda seus Escolhidos para arrumar a bagunça. Você não estaria aqui se fizesse o seu trabalho da forma correta!
— Era de se esperar do professor que traumatizou muitos com o péssimo modo de explicar o óbvio — debochou a garota de cabelos azulados — Um deles está gritando até hoje quando soube que morreu!
— Ou quando teve uma mulher que quase armou um protesto, ele certamente aliviou os nervos dela, né? — complementou a menina ruiva.
— Vocês nem ficaram sabendo da última! — disse Ursa de cabelo verde, que tinha bons ouvidos para as fofocas alheias. — Hoje teve um velho que ia processar a gente!
— Chega! — ordenou a Ursa com outro estalo, e na mesma hora as pequeninas se calaram. — De fato, esses exemplos mostram que seus alunos causaram muitos problemas ao nosso Conselho. Não é à toa que você está muito abaixo em nosso ranking de professores, isso faz mal para o cumprimento das metas.
— Eu me dedico para entregar o melhor ensino que essa organização tem a oferecer, não importando a dificuldade que…
— Por favor, poupe-me de suas desculpas! — respondeu a Ursa Maior com rispidez, e percebendo que se excedeu um pouco, voltou ao tom de voz anterior. — Como sou uma das figuras de maior autoridade depois do Ancião, eu deveria prendê-lo pelo crime que cometeu, mas forças externas me aconselharam a ser mais “generosa” com você… — Assim, encerrou a fala com desdém.
— E o que isso quer dizer?
— Que está dispensado da função de professor, e irei te encaixar em outro departamento. Há outros setores que são mais seguros de atuar, como a limpeza e manutenção dos depósitos, auxiliar os oradores na execução dos discursos…
Cosmo ouviu as opções da Diretora em absoluto silêncio, e sendo conhecida pelo temperamento elevado, ela tinha paciência de sobra para ler uma enciclopédia completa dos cargos e departamentos do Conselho.
Porém, o rapaz não gostou de nenhuma delas, pois não se via recolhendo o lixo dos foguetes ou ajeitando páginas de um texto destinado a pessoas que demoravam séculos para ler. Ensinar os outros era a única coisa que fazia de melhor, e agora, estava prestes a perder seu maior prazer sem qualquer tipo de resistência.
Não é como se lhe faltassem meios de expressar o descontentamento, mas a Ursa jogando palavras ao vento era uma cena estranha e, ao mesmo tempo, familiar. Cosmo teve a impressão de ter presenciado o mesmo acontecimento em outro lugar, e dessa forma, alguma coisa despertou nos confins da mente do pequeno astro.
— Eu… Eu não posso…
É o seu dever, por que não entende isso? Não vamos tolerar um elo fraco! — A voz de um homem ressoou como um fantasma sussurrando na imaginação de Cosmo. Aquela sensação foi tão incômoda que tirou do jovem uma reação nunca antes vista!
— Não! Você não vai se intrometer na minha vida outra vez! — gritou Cosmo levantando-se da cadeira em um ímpeto de fúria.
Aquilo foi um momento tão inesperado que deixou até as Ursas Menores de queixo caído. Porém, a pessoa mais impactada pela resposta de Cosmo foi a grande diretora, que ficou encarando o professor de maneira ameaçadora.
Na mesma hora, um par de caninos formou-se na arcada superior, as sobrancelhas franziram enquanto as pupilas em tom de magenta brilhavam como um incêndio fora de controle. Ela parecia ofegante, com a ansiedade de uma predadora em reduzir seu alvo em milhares de pedaços.
E naquele exato momento, Cosmo percebeu que a reunião pacífica havia terminado.
— O que você disse? — perguntou a Ursa Maior, sentindo o sangue ferver como um vulcão em erupção.
— Eu disse alguma coisa? S-sim! Eu disse: Não, eu preciso voltar pro trabalho e ensinar os meus alunos! Poderia tirá-los da detenção agora?
— Eu não te dei permissão para sair. Sente-se! — A Diretora realizou outro estalo, e quando os dedos emitiram o barulho semelhante a um sino, Cosmo sentiu o corpo pesar tanto que desabou na cadeira e bateu a cara na mesa.
— E-eu não consigo me mexer! O que está acontecendo?
— O que te faz pensar que eu daria ouvidos ao seu pedido? Sou eu quem sabe o melhor para todas as estrelas desta filial, então a mudança vai acontecer. Você entendeu?
— Mamãe, podemos ficar com as roupas quando acabar com ele? — falaram as Ursas Menores querendo profanar o visual estiloso de Cosmo.
— A senhora não pode fazer isso! Se me retirar, quem vai ensinar aqueles pobres novatos?
— Haverá professores mais capacitados para isso! E mesmo que eu os liberte, é questão de tempo até que arranjem mais confusão para eu arrumar. Você nunca será capaz de ensinar aquelas estrelas problemáticas a serem estrelas de verdade!
— É mesmo? Eu te desafio!
— Me desafiar? Você não está falando sério. — A ursa debochou.
— Vamos fazer uma aposta, você e eu. Liberte os novatos e vou ensiná-los a serem grandes profissionais. Assim, eu vou provar que sou um bom professor, e que você está errada!
— Quem é você pra falar desse jeito com a Mamãe? — As meninas tentaram intervir, mas a Ursa Maior as impediu com um simples gesto de mão.
Parecia que toda a raiva da Ursa havia desaparecido, à medida que os caninos foram diminuindo, as sobrancelhas voltando à posição original e até sua respiração desacelerou. Assim que a tensão passou e os olhos retornaram ao brilho de costume, Cosmo sentiu que o peso equivalente a três elefantes diminuiu aos poucos, o que possibilitou corrigir a postura.
— Muito bem, eu vou participar desse “joguinho”. Se fizer cada um daqueles trastes aprenderem algo de valor, manterá seu emprego e irei aceitá-los em nossa filial — Logo, a Ursa levantou-se da poltrona e andou na direção de Cosmo rodeando a sua cadeira. — Mas se fracassar… Se uma Supernova acontecer outra vez… Você será banido do Conselho das Estrelas.
— Mas, minha Senhora… O Conselho compõe a galáxia inteira, tem certeza é possível banir uma estrela?
— Eu não sei, mas confesso que estou curiosa em ver como isso vai acontecer — A Ursa Maior soltou uma pequena risada e não passou uma sensação agradável. — Temos um acordo?
Cosmo ficou pensativo quando a Ursa Maior estendeu a mão para confirmarem a aposta. A essa altura do campeonato ele não poderia voltar atrás, pois não se sabe o que aconteceria se a mulher ficasse zangada outra vez, fora que o destino de quatro estrelinhas e seu trabalho estavam em jogo.
Aquela era a chance de mostrar a capacidade de fazer aquilo que tanto amava e não ser ridicularizado pelos colegas de trabalho. Quem sabe não receba mais alunos ou a oportunidade de dar aulas para os Escolhidos do Ancião? Não havia outro caminho além de arriscar.
Com isso em mente, ele apertou a mão da Ursa Maior com bastante força, algo que espantou aquelas pestinhas de vestido, mas convenceu a gerente de que aquilo era uma decisão séria. Um pacto entre os dois foi selado, e não poderia ser rompido.
— Meninas, vocês sabem o que fazer.
— Sim Mamãe! — gritaram as pequenas ursas em uníssono, se jogando na direção de Cosmo.
Como estava recuperado e tinha condições de sair dali sozinho, mas as Ursas Menores viram que era a chance perfeita de puni-lo o expulsando do escritório. Ao menos, ele não tentou resistir ou aquelas garras afiadas iriam rasgar suas belíssimas roupas.
— Adeus, Professor Cosmo. Foi um prazer apostar com você.
Autor: Marhsall Evans.
Revisão: ***
💖 Agradecimentos 💖
Agradecemos a todos que leram diretamente aqui no site da Tsun e em especial nossos apoiadores:
📃 Outras Informações 📃
Apoie a scan para que ela continue lançando conteúdo, comente, divulgue, acesse e leia as obras diretamente em nosso site.
Acessem nosso Discord, receberemos vocês de braços abertos.
Que tal conhecer um pouco mais da staff da Tsun? Clique aqui e tenha acesso às informações da equipe!
Tarde da noite no 1º dia, 4º mês, 1548º ano, Calendário Continental — ...Eu…
AVISO: PODE CONTER SPOILERS 📃 Outras Informações 📃 Apoie a scan para que…
Seria inútil se preocupar com isso agora, já que ela tinha que seguir essas…
Quando Número 76 entrou na sala de estar, as outras quatro bruxas estavam sentadas…
Já era a manhã do dia seguinte quando Roland acordou no Mundo Real. Ele…
Após o jantar, depois que Zero foi para o quarto fazer o dever de casa,…