A Viscondessa Ametista e eu seguimos para a câmara de assembleia com dezenas de nobres nos seguindo. Ninguém falava. Apenas o som dos passos ecoava pelo salão. Os nobres eram como soldados de elite prestes a entrar em sua batalha final.
Os nobres das outras facções, que já haviam chegado à câmara de assembleia, se viraram para nos olhar. Me senti sufocado. Alguns estavam furiosos. Outros, com inveja. Alguns pareciam idolatrar Ametista e a encaravam com estrelas nos olhos. Todas as emoções conhecidas pelo homem pareciam estar direcionadas a ela naquele momento.
— Olá, pessoal. Parece que a reunião vai recomeçar logo — disse Ametista, exibindo um sorriso despreocupado. — Estou aqui com os membros da minha facção. Estou atrasada?
Ninguém respondeu, mas parecia que ela não buscava uma resposta em primeiro lugar. Sorrindo, Ametista se dirigiu ao seu assento, mas se virou para olhar para mim.
— O que está fazendo, Conselheira?
— O quê?
— Seu assento é bem ao lado do meu. Me siga, rápido. Tenho certeza de que você não pretende deixar meu lado frio e vazio.
Ah, minhas memórias estão vagas, então ela está sendo atenciosa comigo.
Eu me curvei e a segui. Ao me aproximar do assento designado para mim, toda a câmara de assembleia entrou em meu campo de visão. Era muito diferente do parlamento que eu conhecia. A câmara era circular, não um semicírculo. Parecia um Coliseu. O trono estava exatamente no centro, como um pilar, e os assentos dos nobres o cercavam.
A parte mais incomum era…
Água?
Sim, canais de água haviam sido instalados sob os assentos. Quando me sentei, tive que colocar os pés na água. Os canais se espalhavam como uma teia de aranha pela câmara, até alcançarem os esgotos instalados abaixo do trono.
Ametista tirou suas botas de couro e sentou.
— É Líquido Amniótico. — Ela me disse.
Olhei ao redor e vi os outros nobres também tirando seus sapatos, como se estivessem acostumados a isso.
— Líquido Amniótico?
— Sim, você ouviu certo. Existe um grande lago subterrâneo na capital. A água é retirada de lá e espalhada pelos canais da capital. Este é o primeiro lugar por onde a água passa, a câmara de assembleia da Torre de Platina.
Seguindo o exemplo de todos, também tirei meus sapatos.
— Por que vocês deram esse nome?
— Tem muitos significados e usos. Nós fazemos leis na assembleia nobre, e as leis compõem o reino. Portanto, o reino nasce aqui mesmo. “Estejam sempre cientes de que estamos dando à luz o reino.” É por isso que é chamado de Líquido Amniótico.
Tirei minhas meias e mergulhei os pés no canal. A água morna se infiltrou entre meus dedos.
— Está quente…
— Sim, porque agora é inverno. A água é fresca no verão. Também ajuda a regular a temperatura da câmara.
— Fascinante.
— A cor da água também muda, dependendo da gravidade da agenda. Por exemplo, quando a assembleia decide subjugar um dos reinos de dragões, o Líquido Amniótico fica vermelho como sangue. Os canais na capital também ficam vermelhos para informar às pessoas que há uma emergência.
— Ah…
— Em resumo, a água que as pessoas usam em suas vidas é a que passa pelos dedos dos pés dos nobres. Isso parece trazer uma satisfação fetichista para um pequeno número de nobres e cidadãos. É prático de muitas maneiras, não é?
Isso é nojento…
Ametista riu.
— Senhor Gong-Ja, você não é nada como a Conselheira Rio Eterno.
— Perdão?
— Minha Conselheira nunca faz essa cara. Será engraçado se sua identidade for revelada, mas a reunião vem primeiro agora. Agradeceria se pudesse ser cuidadoso para que as pessoas não percebam que algo está errado.
Hmm.
— Como a Conselheira fala?
— Hã? Você não se lembra?
— Não, minhas memórias estão um pouco embaçadas. Sinto como se estivesse vendo o Líquido Amniótico pela primeira vez.
Ametista sorriu.
— Hmm. Bem, é simples. Ela é geralmente educada, mas também impassível. Se você conseguir falar como se fosse indiferente a tudo no mundo, então acertará em cheio.
Relaxei minhas sobrancelhas.
— Quer dizer assim?
Ametista descansou o queixo na palma da mão e olhou para mim.
— Está bom, mas tente ser um pouco mais impassível. Minha conselheira realmente não dá valor a este mundo.
— Não dar valor ao mundo…
— Sim. Seja uma pessoa qualquer, um cidadão ou o próprio reino, nada importa para ela. As únicas pessoas que têm um lugar em seu coração sou eu e a filha dela. Todos os outros são apenas ruído branco.
De repente, me lembrei do feitiço de informação que a dona original deste corpo havia deixado sobre Ametista:
Minha mestra. Meu coração. Meu sangue. Meu tudo neste mundo.
Quando me lembrei dessa nota, meu coração ficou dormente por algum motivo.
Ametista parecia divertida.
— Sua atuação é bastante boa. Você já recebeu treinamento de atuação?
— Enquanto escalava a Torre, tive a oportunidade de fazer parte de uma trupe.
Seu sorriso se alargou.
— Você é surpreendentemente versátil, senhor Gong-Ja. Você se parece muito com minha Conselheira Rio Eterno. Tudo bem se eu continuar te chamando de Conselheira em vez de senhor Kim Gong-Ja de agora em diante?
Por algum motivo, meu coração começou a bater forte novamente. Eu estava apenas fazendo contato visual com ela, mas meu peito parecia apertado e minha cabeça estava enevoada. Era exatamente como quando o trauma começou.
Felizmente, uma voz chamou minha atenção pouco antes que a névoa me engolisse completamente.
— Todos de pé para Sua Majestade, a Rainha Sol!
A reunião recomeçou.

https://tsundoku.com.br
Assim que a reunião começou, nobres das outras facções lançaram ondas de ataques contra Ametista. A primeira pessoa a abrir fogo foi a Condessa Presa do Tigre da Torre, que estava esperando por seu momento desde que saímos da sala de descanso.
— A Viscondessa Ametista aceitou rebeldes como seus subordinados pessoais. Não estou falando apenas das Unhas Vermelhas. A Assembleia de Pedra, Pedregulho, Feignevil, Avatar Celestial, Coração. Todas as organizações rebeldes que causaram problemas recentemente se tornaram seus subordinados. Uma nobre com tal histórico não pode ser recomendada para um ducado.
Centenas de nobres olharam para Presa do Tigre da Torre. A rainha não a impediu de falar. Isso parecia mais uma audiência sobre Ametista do que uma reunião regular.
— É apenas correto prender os rebeldes que estiveram se escondendo atrás da Viscondessa Ametista e puni-los de acordo com os crimes que cometeram. Se a Viscondessa é verdadeiramente leal ao reino, ela cooperará. Não é verdade, Viscondessa? A menos que você esteja tramando traição, por que abrigaria fugitivos?
— Condessa, todas as pessoas que aceitei como subordinados foram capturadas por mim — retrucou Ametista com um sorriso. — Todos os prisioneiros capturados no campo de batalha tornam-se propriedade do general. Estou lidando com minha propriedade como quero, então o que há de errado nisso?
— Mesmo que sejam traidores que apontaram suas espadas contra o reino?
— Propriedades não podem cometer pecados. A espada de um excelente guerreiro pode derramar o sangue de centenas de pessoas, mas ninguém culpa o massacre pela espada. Culpam o guerreiro, em vez disso. Eu apenas coleciono espadas que derramaram muito sangue.
— Você está os tratando como objetos?
— Sim.
Presa do Tigre da Torre pareceu surpresa com essa resposta.
Ametista piscou, fingindo surpresa.
— Eu disse que eles são minha propriedade. Se tem um problema com isso, deveria tê-los capturado você mesma. Ou você pode abolir a escravidão. Ah, verdade. Há muitos escravos no Condado de Tigre. Parece meio nojento ver um território que depende da economia escravista para suas finanças. Você poderia ter reformado a economia da propriedade se realmente quisesse resolver o problema da escravidão.
— Quem você pensa que é para se meter na gestão do meu condado…
— Pense nisso. Os prisioneiros que capturei são minha propriedade privada. Não sei que direito você acha que tem para interferir nos assuntos da minha família. Não seria melhor para nós duas cuidarmos de nossos próprios negócios?
Presa do Tigre da Torre rangeu os dentes.
— E se o crime foi cometido por uma pessoa real, não por sua propriedade?
— Hmm?
Ela olhou para a pessoa no trono.
— Vossa Majestade, posso apresentar minha opinião?
— Prossiga.
— Nos dois mil anos de história do reino, nenhum novo ducado foi estabelecido. Considerando a magnitude do assunto, acredito que um processo rigoroso de triagem para verificar as qualidades do candidato a duque é necessário.
A Rainha Sol ouviu Presa do Tigre da Torre em silêncio. Ela não saía de seus aposentos há sessenta anos. Aqueles que não trabalhavam não tinham sucesso nem autoridade. A rainha era assim, então os nobres não a respeitavam.
Presa do Tigre da Torre continuou.
— Me deparei com vários relatórios que levantam muitas questões sobre o caráter moral da Viscondessa Ametista. Portanto, com sua permissão, gostaria de convocar testemunhas aqui.
A Rainha Sol virou a cabeça e olhou para Ametista, pedindo silenciosamente sua cooperação. Ametista sorriu como se dissesse à rainha para não se preocupar.
— Eu permitirei — respondeu a Rainha Sol.
Presa do Tigre da Torre fez uma reverência.
— E serei eternamente grata.
As testemunhas entraram na câmara uma após a outra. A primeira pessoa a pisar no Líquido Amniótico foi um homem idoso vestido de forma impecável.
Presa do Tigre da Torre perguntou:
— Qual é o seu nome?
— Meu nome é Brookstone.
— Qual é seu status e origem?
— Sou um cidadão. Há quarenta e um anos, vim do Baronato do Arauto da Morte e me estabeleci na capital real.
— Brookstone, você entrou neste lugar como um mero cidadão. As bênçãos concedidas a você não são de forma alguma leves.
O velho se ajoelhou e colocou a testa no chão.
— Serei eternamente grato por esta bênção.
— Você anteriormente circulou um apelo aos nobres dizendo que foi injustiçado.
— Pareceu que o mundo desabou ao meu redor após perder minha única neta, então ousei traçar alguns traços medíocres com o pincel para escrever algumas palavras. Peço desculpas por macular os olhos dos honoráveis.
Virei a cabeça para o assento ao lado do meu. Lá estava a Marquesa Coelho Brancaneve, que havia ficado pálida.
— É uma pena que você tenha perdido sua neta. No entanto, são os céus que decidem a perda da vida de uma pessoa, e você não é o único que perdeu um membro da família. O que o fez achar isso tão injusto a ponto de registrar um apelo?
— É natural que a vida de um cidadão humilde termine como uma erva daninha cortada, mas gostaria de falar de injustiça porque os céus não levaram minha filha.
Como se fosse uma governante benevolente, Presa do Tigre da Torre perguntou:
— Como sua neta morreu?
— Minha neta foi chicoteada até a morte por uma nobre chamada Coelho Brancaneve.
O Líquido Amniótico ficou turbulento enquanto os nobres se mexiam em seus assentos.
— Coelho Brancaneve? Esse nome soa familiar. Você sabe algo mais sobre eles?
— Quando minha neta morreu há seis anos, só ouvi que sua assassina era chamada de Lady Coelho Brancaneve.
— Lady Coelho Brancaneve… Não é ela a marquesa sentada ali agora?
Os nobres olharam para Coelho Brancaneve, que não estava apenas pálida, mas tremendo.
Presa do Tigre da Torre se virou para ela.
— Marquesa.
— Sim?
— Este cidadão aqui diz que você chicoteou a neta dele até a morte há seis anos. Isso é verdade?
— Ah, é. Eu-eu…
Ametista se levantou. A água ao redor de seus pés respingou enquanto ela fazia uma leve reverência.
— Vossa Majestade.
— Prossiga — disse a rainha.
— Como a família da Marquesa Coelho Brancaneve está sob minha proteção, eu deveria ser a repreendida pelo crime de minha subordinada. Acredito que não é correto que a Condessa Presa do Tigre da Torre questione minha subordinada.
— O que acha, Condessa?
— Que gentil e atenciosa. Na verdade, também gostaria de fazer uma pergunta à Viscondessa Ametista, não à Marquesa.
Presa do Tigre da Torre parecia triunfante. Parecia que era isso que ela estava planejando.
— Viscondessa.
— Sim, Condessa Presa do Tigre da Torre.
— Você estava ciente do que a marquesa havia feito?
— Sim, eu estava.
O Líquido Amniótico ficou turbulento novamente.
— Por quanto tempo?
— Já sabia quando a aceitei como minha subordinada. A própria Marquesa confessou diretamente para mim — respondeu Ametista.
— O quê? Isso significa que você a aceitou como sua subordinada mesmo sabendo de seus pecados?
— Suponho que sim.
Presa do Tigre da Torre bateu o punho na mesa.
— Por quê?! A Marquesa chicoteou uma jovem cidadã até a morte. Você não tem vergonha? Como pode aceitar uma pessoa tão cruel como sua subordinada?
Ametista sorriu. Isso fez meu coração bater forte. Ela disse:
— Não sei se você sabe, mas a Marquesa era notória por seu caráter. Lady Tola, Lady Idiota, Lady Sem Cérebro… Ela ouviu todo tipo de insultos. Depois que a conheci, pensei que deveria criá-la adequadamente.
— Criá-la adequadamente?
Coelho Brancaneve estava tremendo ainda mais agora.
— A jovem cresceu sendo abusada por sua família. O antigo Marquês Coelho Crista Branca, avô da Marquesa, era um gênio, mas não de uma maneira boa. Ele não conseguia entender pessoas menos inteligentes que ele, então não tentou entender sua neta. Seus abusos verbais e físicos maliciosos definiram a infância da Marquesa Coelho Brancaneve.
Presa do Tigre da Torre franziu a testa.
— E daí? Está dizendo que a Marquesa deveria ser perdoada porque teve um passado lamentável?
Ametista cobriu a boca com a manga e riu.
— Não, se eu a tivesse deixado em paz, a Marquesa Coelho Brancaneve teria vivido como Marquesa Sem Cérebro para sempre. Alguém teria enviado um assassino um dia e a deixado ter uma morte confortável sem nenhum arrependimento pelo pecado que cometeu. Não acho que esse seja um bom final para ela.
— O quê?
— Levei-a sob minha proteção e fizemos uma viagem de quinze dias. — Ametista cantarolou, parecendo estar relembrando um passado feliz. — Mostrei como é a vida para essa jovem nobre que nunca lavou um prato ou uma camisa na vida. A forcei a experimentar a vida de uma pessoa que não pode comer a menos que trabalhe. Ela foi forçada a enfrentar a realidade: se trabalhasse como plebeia, seria quase impossível sobreviver.
“Graças a essa viagem, a Marquesa Coelho Brancaneve percebeu que, mesmo que estivesse infeliz, sua infelicidade era suportável. Eu regularmente dava aulas para ela. Às vezes, íamos ao porto norte, onde mostrava a vida cotidiana dos comerciantes. De vez em quando, mostrava a ela um ataque de bandidos para que pudesse ver a vida das pessoas sendo esmagada em um instante.
As bochechas de Ametista estavam rosadas, como uma pregadora focada em sua cerimônia.
— Entende? A Marquesa Coelho Brancaneve tem apenas quinze anos, mas já experimentou a morte de plebeus, comerciantes e bandidos. Vou me arriscar e garantir que ela se tornará uma grande política, uma das doze melhores neste reino.
Presa do Tigre da Torre zombou.
— Ha. Eu estava me perguntando aonde você queria chegar com isso, mas você está basicamente sugerindo encobrir seu erro antigo porque ela se tornará uma grande política no futuro. Com uma mentalidade tão podre…
— Você realmente não sabe de nada, Condessa.
— O quê?
Ametista ficou ainda mais entusiasmada.
— O que importa se ela se tornará uma grande política no futuro ou não? O importante é que, mesmo que se torne uma nobre tão grandiosa, ela cometeu um erro que nunca pode ser desfeito. Quanto melhor a Marquesa se tornar, mais miserável ela será. Você entende isso?
Presa do Tigre da Torre só pôde olhar para Ametista enquanto ela continuava sua defesa.
— Não importa o quão bem governe ou quantas vidas ela conforte, ela nunca poderá se considerar uma boa pessoa. É natural, já que nada mudará o fato de que matou uma criança.
Ametista juntou as mãos como se estivesse orando.
— Vou criar a Marquesa Coelho Brancaneve para ser a maior e mais infeliz nobre do reino. A cada dia que passar, ela experimentará uma mistura de infelicidade, autorreprovação e vergonha. Condessa, imagine o dia em que essas coisas definirão completamente a Marquesa. Cada vez que ela acenar a mão, isso emanará infelicidade. Seu passado se agarrará à sua sombra em cada um de seus passos.
Ametista sorriu tão brilhantemente quanto uma santa.
— O que acha? Não será adorável?
Tradução: Rlc
Revisão: Pride
💖 Agradecimentos 💖
Agradecemos a todos que leram diretamente aqui no site da Tsun e em especial nossos apoiadores:
- decio
- Ulquiorra
- Merovíngio
- S_Eaker
- Foxxdie
- AbemiltonFH
- breno_8
- Chaveco
- comodoro snow
- Dix
- Dryon
- GGGG
- Guivi
- InuYasha
- Jaime
- Karaboz Nolm
- Leo Correia
- Lighizin
- MackTron
- MaltataxD
- Marcelo Melo
- Mickail
- Ogami Rei
- Osted
- pablosilva7952
- sopa
- Tio Sonado
- Wheyy
- WilliamRocha
- juanblnk
- kasuma4915
- mattjorgeto
- MegaHex
- Nathan
- Ruiz
- Tiago Tropico
📃 Outras Informações 📃
Apoie a scan para que ela continue lançando conteúdo, comente, divulgue, acesse e leia as obras diretamente em nosso site.
Acessem nosso Discord, receberemos vocês de braços abertos.
Que tal conhecer um pouco mais da staff da Tsun? Clique aqui e tenha acesso às informações da equipe!


Comentários