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Mushoku Tensei: Reencarnação Redundante – Vol. 02 – Cap. 12 – Nina Britz

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NAQUELE DIA, visitei o salão de treinamento do Santuário da Espada, embora tivesse ouvido dizer que era chamado de “o Salão Efêmero”, de todos os nomes.

Alec estava à minha direita. Ele sorria e não emitia o menor sinal de hostilidade. Em sua cintura, ele tinha a espada de duas mãos que o próprio Deus do Minério forjara da pedra preta que eu criara. Não tinha poderes especiais, mas – como era de se esperar do “deus” no nome de seu criador – era uma bela lâmina. Alec gostou da lâmina de quase dois metros e agora a carregava regularmente. Orsted estava à minha esquerda. Ele manteve seu capacete preto e não disse uma palavra. Ele ficou tão perfeitamente imóvel que se poderia confundi-lo com um recorte de foto. Eu quase esperava que uma mosca pousasse nele, mas ele era tão intimidador que nem um mosquito teria tentado. As outras pessoas aqui além de nós não estavam olhando para mim, Alec ou Orsted. Seus olhares estavam todos fixos na pessoa à minha frente: Eris. Ela estava de pé com uma espada de treino de madeira na mão. Sua expressão era séria, e ela não parecia com raiva, mas qualquer um podia ver o quão firmemente ela segurava sua espada.

Eris no centro do Salão Efêmero. A seus pés jazia um Santo da Espada com o pulso quebrado.

— Eu me rendo. — Ele finalmente murmurou. Parecendo amargurado, se levantou e se curvou. Sem esperar que Eris respondesse, ele voltou para o lado do salão.

Ao lado do salão de treinamento havia uma fileira inteira de guerreiros do Deus da Espada, cerca de vinte, pelo que parecia. Era realmente um mundo pequeno quando considerei que todos eles eram Santos da Espada. Como um mundo inteiro espremido em um espaço pequeno.

Em frente a Eris sentava-se um jovem e uma mulher. O homem provavelmente tinha mais ou menos a minha idade, embora eu não soubesse ao certo. Dito isso, eu não tinha certeza se poderia chamá-lo de “jovem” ou não. Por outro lado, muitos dos Santos da Espada estavam na casa dos trinta e quarenta, então acho que ele contava como jovem. Ele tinha o braço em volta da mulher sentada ao seu lado e, em comparação com os Santos da Espada, parecia relaxado – mesmo com Orsted na sua frente. Orsted ainda era Orsted, mesmo com o capacete reduzindo o efeito da maldição, e esse cara estava relaxado.

Nada menos do que o Deus da Espada Gino Britz. Enquanto ele irradiava autoridade com uma garota pendurada em seu braço, era difícil de acreditar que tínhamos a mesma idade. No mínimo, eu nunca poderia ter enfrentado Orsted enquanto colocava meu braço em volta da minha esposa e passava a mão em suas costas. Eu levaria um soco por isso – principalmente de Eris – de qualquer maneira. Não que eu me importasse com a visão de Eris me batendo quando eu tentava tocar em seus seios de vez em quando.

O nome da mulher era Nina, e ela era uma amiga de Eris que detinha o posto de Imperadora da Espada. No entanto, ela não estava realmente emitindo energia de “Imperadora da Espada”. Em vez disso, estava encostada feliz em seu marido, Gino, e apenas batia na mão dele sempre que se aventurava perto demais de seu peito. Era como se eles nem nos vissem. Estavam repugnantemente apaixonados.

Certo, devo explicar como acabamos em uma situação tão tensa. Anteriormente em Mushoku Tensei!

Reúnam-se, meninas e meninos! Meu nome é Rudeus Greyrat! Vamos nos divertir!

Hoje, estávamos visitando o ponto turístico mais quente e legal do Continente Norte: o Santuário da Espada! Pensando no futuro, eu precisava ter uma conversa com o Deus da Espada, e ainda havia a história de Eris com o antigo Deus da Espada para lidar! Assim, decidi ir prestar minhas homenagens e acertar as contas, por assim dizer. Não consegui falar com o atual Deus da Espada da última vez, então esta era minha visita oficial.

Junto comigo para a viagem estava – você adivinhou – Eris! Pelo que eu sabia sobre o Estilo Deus da Espada, seus praticantes tendiam a ser do tipo que te cortam ao meio primeiro e fazem perguntas depois. Achei que seria melhor levar o mínimo possível de magos, como da última vez. Tinha certeza de que todos eram pessoas de bom caráter moral, claro, mas Eris desde então matara Gall Falion no Reino de Biheiril, e ele foi o sogro do atual Deus da Espada!

O que você acha? Depois disso, eu poderia entrar e pedir um favor a ele?

É verdade que, dependendo da atmosfera lá, eu estava preparado para ir para casa sem levantar o assunto. Tudo podia acontecer! É por isso que planejei que apenas nós dois fôssemos.

Pelo menos, esse era meu plano, mas havia uma reviravolta chocante reservada. Quando disse que estava indo para o Santuário da Espada, Orsted disse que viria junto com um ar de grande importância. Essa importância era provavelmente que ele estava preocupado que eu falasse demais e deixasse o Deus da Espada com raiva. Em outras palavras, ele viria caso eu estragasse tudo. De qualquer forma, eu não tinha motivos para dizer não, então concordei. Orsted era um cara tranquilizador para se ter por perto.

Como Orsted ia, Alec insistiu em ir também. Sabe, o cara um pouco obcecado demais em se tornar um herói, que provou ser tão ruim em ler o ambiente quanto Cliff fora na época? Sim, aquele Alec!

Pessoalmente, eu gostaria de ter dito: “Desculpe, não posso ter ninguém que vá causar problemas.” Eu era grato a Alec por cuidar de Sieg com tanta frequência, mas isso era um assunto totalmente diferente.

Lorde Orsted disse: “Como quiser.” Assim, foi decidido. Eris, Orsted, Alec e eu iríamos todos juntos para o Santuário da Espada.

Então nós fomos! Quando chegamos, a visão pacífica de uma aldeia rural coberta de neve nos acolheu. Eu estava um pouco nervoso, mas já estive aqui antes, e desta vez, tinha três companheiros confiáveis comigo.

— Que vista ótima. Eles com certeza têm uma ótima seleção de espadas para uma aldeia rural. Oh, avistei nosso primeiro aldeão!

Tremendo ao lado de meus companheiros estoicos, continuei uma conversa comigo mesmo até chegarmos ao salão de treinamento principal do Deus da Espada.

Um grupo de Santos da Espada sorridentes nos mostrou o Salão Efêmero. Todos eram agradáveis, e a atmosfera parecia amigável. No entanto, por alguma razão, eu tive essa sensação de formigamento na espinha.

É tudo coisa da sua cabeça! Eu disse a mim mesmo. Concentre-se no Deus da Espada!

Nesse momento, um dos Santos da Espada falou. 

— Se não houver problema, gostaria primeiro de ver a espada da Rei da Espada Berserker Eris, que matou o antigo Deus da Espada.

Que tal isso como “olá”?!

Antes que eu pudesse me virar, o Deus da Espada deu de ombros. 

— Como quiser — disse ele.

O inferno se instalou depois disso.

Ainda sorrindo, mas irradiando hostilidade por trás dos olhos, os Santos da Espada se moveram para desafiar Eris. Oh, eles pareciam amigáveis, e estavam usando espadas de treino, mas eu podia ver sua má intenção. Eles usariam aquelas espadas de madeira para espancar Eris até a morte sob o pretexto de treino. Era óbvio à primeira vista que eles não se conteriam.

Mas então, Eris  tecnicamente ainda era uma Deusa da Espada. Seriam necessários mais do que alguns Santos da Espada para superá-la. Ela facilmente virou o jogo contra seus pretensos agressores. Enquanto derrubava um, e depois outro, os sorrisos dos Santos da Espada se transformaram em rosnados de ódio. Eles não estavam mais escondendo sua malícia. No meio de tudo isso, apenas uma pessoa parecia totalmente serena – Gino. Até Nina parecia um pouco perturbada com o assassinato nos olhos dos Santos da Espada, mas ficou claro pelo rosto de Gino que ele não poderia se importar menos.

De qualquer forma, fiz o meu melhor para colocar uma cara alegre e explicar o que estava acontecendo. Para todo o bem que fez!

Haah. Meu estômago dói. Como chegamos a isso?

Tive a sensação de que estraguei tudo logo de cara. Com a vibe aqui, era uma causa perdida. Eu só queria uma chance de explicar, mas qualquer chance de uma conversa estava totalmente arruinada agora.

Não tive tempo de impedi-la! Ela é simplesmente, sabe, muito rápida!

Sério, antes que Gino terminasse de dizer: “Como quiser”, Eris avançou sem hesitação, com sua espada de madeira na mão. Mais Santos da Espada esperavam no centro do salão de treinamento. No instante que levei para baixar meu peso para onde agora estava, Eris já havia vencido um deles. Então, outra rodada de Santos da Espada se adiantou.

— Minha vez!

— Sou eu quem você enfrentará a seguir! — O que era isso, bate-e-volta?

Senti que já passava da hora de acabar com essa farsa. Havia pouco mais de vinte Santos da Espada, e Eris já havia derrubado quase todos eles. Não, ela estava na verdade lutando contra o último, o que significava que seria a vez do Deus da Espada Gino a seguir. Por enquanto, ele estava sentado acima de tudo, mas se seu povo fosse eliminado, ele não teria escolha a não ser se apresentar.

Os Santos da Espada provavelmente estavam antecipando aquele momento em que o Deus da Espada mataria a espadachim de cabelos vermelhos. Eles queriam vingança contra quem matou o antigo Deus da Espada. Eles basicamente declararam que estavam ansiosos por isso. Este era o prelúdio de uma execução.

Eu estava arrependido de minhas escolhas. Talvez vir aqui tenha sido uma má ideia. Mesmo Eris não sairia ilesa de uma luta com o Deus da Espada, e não havia como eu lutar com ele a essa distância. Pelo menos as coisas não estavam de todo ruins. Meus reflexos podiam ser lentos demais, mas Orsted e Alec parariam a lâmina do Deus da Espada por mim. Eris poderia se arranhar um pouco… mas contanto que estivesse viva, eu não reclamaria. Eris estava pronta para o que acontecesse. De qualquer forma, eu era grato por eles terem vindo conosco.

A única coisa era que, se eu interferisse em um duelo entre Eris e o Deus da Espada, a negociação estaria fora de questão. Eu não tinha certeza do que aconteceria exatamente… mas o que quer que fosse, eu já podia sentir a dor de estômago chegando. Eu tinha que parar isso, e então descobrir alguma maneira de nos colocar em uma posição para conversar. Esse era meu trabalho aqui.

Escute, Rudeus. Eles são um bando de cabeças quentes, mas você pode fazê-los ouvir se realmente tentar conversar com eles. Dê o seu melhor, ouviu? Mãos à obra!

— Urgh… eu me rendo.

Nesse momento, o último Santo da Espada caiu. Assim como o último, ele agarrou o pulso. Pensando bem, basicamente todos eles estavam segurando os pulsos. Para alguns, era o esquerdo, e para outros o direito, mas Eris nem se deu ao trabalho de mudar as técnicas. Não admira que estivessem extra furiosos.

Nina era a próxima, então? Mas ela não parecia que ia se mover tão cedo. Eu não saberia dizer por que, mas tive a sensação de que provavelmente seria Gino. Quando o Deus da Espada agisse, seria quando eu faria minha jogada.

Observe atentamente. Esta é a arte do Go-no-Sen. Assim que o Deus da Espada se levantar, é quando eu entro, pronto para me humilhar! “Nossa, essas foram algumas batalhas espetaculares. Fiquei com sede só de assistir. O que me dizem de pararmos para uma pausa, tomar uma xícara de chá?”

É assim que eu faria minha entrada. Foi suave o suficiente? Não soaria como se eu estivesse tentando provocá-lo, não é? Seria melhor dizer algo em louvor aos Santos da Espada derrotados.

Minha nossa, vocês no Santuário da Espada realmente se empolgam com seu treinamento!

Sim, eu iria com essa. Dessa forma, eles poderiam dizer a si mesmos: “Oh, bem, é treinamento. Às vezes você perde.”

Ok, ok. Vamos lá. Vamos fazer isso.

Houve uma pausa. O Deus da Espada não se moveu, e Nina também não se adiantou.

— Acabou? — disse o Deus da Espada Gino Britz, seu tom despreocupado em meio à tensão crepitante. — Agora, por qual razão você veio me ver?

Hã? Parecia que ele ia me ouvir antes da luta. Isso não era muito do Estilo Deus da Espada, mas me convinha. Eu me adiantei.

— Primeiro, gostaria de me desculpar. — Eu disse.

— Pelo quê? — perguntou Gino.

— Pelo antigo Deus da Espada. — Enquanto eu dizia isso, houve uma mudança no ar ao redor dos Santos da Espada, como se tivéssemos finalmente chegado ao que eles estavam esperando.

Ele nos deu uma chance! Agora é a nossa hora! É hora da vingança! Se fossem cães, estariam latindo e prontos para atacar. Por um momento, me perguntei se deveria ter sido menos direto, mas teria terminado da mesma forma. Não havia como evitar a verdade.

O Deus da Espada tinha um olhar duvidoso no rosto. Vê-lo assim me fez hesitar também. Eu disse algo estranho? Quase comecei a olhar ao redor nervosamente. Então, Gino assentiu com um ar de compreensão.

— Agora que você menciona, a Nina disse algo há muito tempo sobre te ajudar, eu acho. Suponho que se você matar o pai de um aliado, tem que se desculpar, hein?

Ele soava como se não tivesse nada a ver com ele. Os Santos da Espada pareciam mais chocados do que eu.

— Mas meu mestre… isto é, o antigo Deus da Espada Gall Falion, foi lutar com você por vontade própria, certo? Se alguma coisa, não deveríamos ser nós a nos desculpar? Se isso diz respeito a todo o Estilo Deus da Espada e ele o atacou, então somos nós que quebramos o acordo. O que está acontecendo com isso, afinal? Não sei de nada.

Eu gostaria de ter perguntado a ele o que estava acontecendo. Eu estava realmente falando com o cara mais importante do Estilo Deus da Espada agora? Eu esperava alguém mais, sabe, relutante em ouvir a razão, na linha de Atofe. Esse cara talvez estivesse muito tranquilo. Era uma sensação estranha, mais como se eu estivesse falando com alguém do Estilo Deus do Norte, se é que me entende. Atofe excluída, claro.

— Hum… — Acalme-se. Apenas responda à pergunta dele primeiro.

— Aquela foi apenas uma conversa entre Nina e Eris – foi antes que qualquer acordo formal fosse alcançado. Na verdade, vim aqui uma vez antes, mas me disseram que você estava ocupado, então fui embora de novo… Pensei que Nina teria mencionado a você?

— Eu mencionei — disse Nina, assentindo vagamente —, mas não surgiu desde então.

— Mm — concordou Gino. — Nunca ouvi nada sobre nos opormos ao Deus Dragão Orsted. Dito isso, se ele lutou com você… — Os olhos de Gino se estreitaram. — Parece que meu predecessor se opôs a você?

O fervor dos Santos da Espada aumentou. Eu podia praticamente ouvi-los pensando: Tudo bem, vocês o ouviram! Hora de sacar nossas espadas e lutar! Vamos, se apressem!

— Espere. — Eu disse apressadamente. — Se você pudesse se acalmar… — Gino ergueu as sobrancelhas.

— Eu pareço chateado para você?

— De forma alguma! Você é a própria imagem da calma! Olhe, a questão é que viemos aqui para nos desculpar e para garantir que você e eu não continuemos inimigos. Uma relação hostil com os poderosos guerreiros do Estilo Deus da Espada não é o que queremos. Gostamos de estar em bons termos com pessoas poderosas. Estamos aqui prontos para oferecer amizade a você. Podemos oferecer ajuda com canais de distribuição para espadas e suprimentos de comida, manutenção de infraestrutura e até mesmo construção. Por outro lado, se você se opuser a nós, podemos cortar essas coisas. Será ruim para todos. Certo?

Depois que terminei de dizer tudo isso, Gino suspirou.

Eu posso ter me estendido um pouco demais. Dado que eu estava imaginando Atofe, deveria ter encurtado. Mas esse cara não parecia tão simples a ponto de se virar e dizer: “Claro, serei seu aliado!” só porque eu lhe consegui uma garrafa de vinho muito rara.

Gino me olhou e depois falou. 

— Preciso soletrar para você entender? Meu predecessor não me disse nada sobre um rancor. Isso significa que sua decisão de lutar com você não foi em nome de todo o Estilo Deus da Espada – foi pessoal. Não tem nada a ver conosco, e por isso não tenho interesse em lutar. Isto é mais importante para mim do que aquilo.

Enquanto dizia isso, ele puxou Nina para perto e enterrou o rosto em seu cabelo. As bochechas de Nina ficaram rosadas, mas ela não o impediu.

Eu entendo que você está louco por ela, mas talvez devesse considerar não fazer isso em público? Olha, a Eris está vermelha! Seus olhos estão saltando para fora da cabeça. Ela também estava de braços cruzados e com os pés afastados como se estivesse pronta para lutar.

Sério, era este o Deus da Espada com quem eu estava falando? Suas respostas inteligentes estavam me assustando. Era aterrorizante. Praticantes de alto escalão do Estilo Deus da Espada eram mais do tipo que gritavam algo como “Que diabos você está falando? Chega de conversa! Você vai morrer pelo que fez ao meu pai!” E então eles te atacariam. Certo? Espere, esquece. Aquela era Atofe – então, Estilo Deus do Norte. Mas eles eram praticamente os mesmos, não eram?

Houve um pensamento. Talvez esse cara na minha frente fosse um sósia, como alguém do escritório encarregado das relações diplomáticas.

Independentemente disso, eu estava grato por ele se sentir assim. Mesmo que fosse estranho ele estar tão despreocupado com um de seus parentes sendo morto… Acho que ele considerou a situação e decidiu priorizar o futuro em vez de seus próprios sentimentos. Isso fazia sentido para mim. Aposto que ele pensou nas coisas e se decidiu há muito tempo.

— Nesse caso, permita-nos…

— Espere! — gritou um dos Santos da Espada, levantando-se de um salto. Ele estava com o rosto vermelho e apontando para nós – não, para Orsted.

— Todos nós reverenciávamos o antigo Deus da Espada! Através da observação dele brandindo sua espada, aprendemos, estudamos e nos tornamos mais fortes! E eles o mataram! Aquelas pessoas ali! Devemos ficar parados?! Eles mataram o homem a quem devemos tudo! Vocês querem fazer do Estilo Deus da Espada um motivo de chacota?!

— Tudo bem, vá em frente então — disse Gino sem perder o ritmo. — Vá buscar uma espada de verdade. Eu assistirei.

O Santo da Espada congelou. 

— O quê…?

— Tenho certeza de que eles vieram aqui prontos para uma luta. Olhe, aquela é a Rei da Espada Berserker Eris, o Deus Dragão Orsted e o Deus do Norte Kalman III, com Rudeus Greyrat atrás deles para apoiá-los com magia. Mesmo que todos vocês atacassem de uma vez, eles os eliminariam antes que conseguissem desferir um único golpe.

— Mas…

— Vamos, mãos à obra. Vou me certificar de que seu corpo seja bem cuidado, e até lhe darei um funeral. Não posso dizer se suas mortes farão algo para preservar a honra do Estilo Deus da Espada, mas tenho certeza de que seus cadáveres ficarão satisfeitos.

O Santo da Espada ficou ali em silêncio por um momento depois disso, e depois se sentou novamente, com os punhos tremendo de frustração reprimida. Então, ele disse com a voz trêmula: 

— Não temos… escolha a não ser segui-los? Sem lutar, sem vingar o antigo Deus da Espada…

— É o que estou te dizendo, se não gosta, vá pegar sua espada. Não vou forçar nada a nenhum de vocês. Façam o que quiserem. Assim como meu pai e os outros. — Gino soava cansado disso.

Gostei da ideia de convencê-los rapidamente em vez de deixar qualquer rancor apodrecer – embora parecesse duro que isso fosse uma questão de vida ou morte.

Nesse momento, Eris falou. 

— Todos os Imperadores da Espada se foram, hein?

Gino se virou para encará-la. 

— Meu pai deixou o Santuário da Espada junto com os outros. Parece que ficaram descontentes por eu me tornar Deus da Espada.

Aparentemente, “Imperadores da Espada” não incluía Nina. A formulação de Gino sugeria que ele estava falando dos dois Imperadores da Espada que foram discípulos diretos do Deus da Espada anterior. Agora que Eris disse, percebi que não conseguia ver ninguém que se encaixasse na descrição.

— Espero que a esta altura eles já tenham aberto seus próprios salões de treinamento em Asura ou Millis, ou talvez no Reino do Rei Dragão. Quer dizer, suponho que eu também poderia ter partido. — Gino deu de ombros. — De qualquer forma, você veio só para se desculpar? Foi gentil da sua parte fazer isso, mas sinceramente não sei por que se deu ao trabalho.

Oh, cara. Sem querer falar mal de ninguém, mas Gino era um pouco demais – como dizer? Frio, filosófico ou simplesmente bizarro.

— Não, há mais. — Eu disse. — É uma longa história, mas na verdade estamos lutando contra um ser chamado Deus-Homem…

Expus os detalhes da batalha entre nós e o Deus-Homem. Deixando de lado tudo o mais, Gino parecia um cara com quem eu poderia raciocinar. Se pudéssemos chegar a um acordo sem derramamento de sangue, tanto melhor! Parecia anticlimático, mas tudo bem. Assim que parei de olhá-lo através de óculos coloridos de Deus da Espada, Gino era um jovem simpático com uma boa cabeça nos ombros. Depois de garantir sua cooperação, poderíamos nos sentar para uma xícara de chá e nos conhecermos melhor. Tinha certeza de que ele pararia de parecer tão assustador então.

— Em conclusão — Eu disse —, gostaria de solicitar formalmente a cooperação da Escola do Deus da Espada em nossos futuros empreendimentos.

— Eu recuso.

Você… hã? Sério?

— Não vou trabalhar com você.

Houve um “Ooh!” dos Santos da Espada, mas eles pareciam tão confusos quanto eu.

— Então, você vai ficar do lado do Deus-Homem? — perguntei, hesitante.

— Não. Também não vou trabalhar contra você.

Ok…? 

— Você quer dizer que vai ficar neutro? Posso perguntar por quê?

— Pretendo permanecer fiel aos ensinamentos do meu mestre.

— Que ensinamentos?

— O mestre sempre dizia para ser forte por si mesmo. Sinceramente, não entendi o que ele quis dizer por muito tempo. Duvido que alguém aqui tenha entendido. Mesmo os Imperadores da Espada como meu pai não entenderam. Quando percebi que queria a Nina, ficou claro para mim. Uma espada é algo que você empunha por si mesmo – puramente para cumprir seu próprio propósito. Nada mais.

Gino falou rápida e fluentemente, e havia convicção em sua voz que me dizia que ele acreditava na verdade inabalável de sua sabedoria.

— Por causa disso — continuou ele —, não vou trabalhar com você. Eu empunho minha espada apenas por mim. Tudo o que faço, faço por mim mesmo.

— Mesmo que sua família estivesse em perigo, você não pegaria sua espada? — perguntei.

— Pegaria. Se eu os amasse, pegaria — respondeu Gino. Então, pela primeira vez, ele olhou diretamente para mim. Seu olhar era forte e imponente, nada parecido com a imagem que a descrição de Eris pintara dele. — Ou você está dizendo que vai matar minha família se eu me recusar a trabalhar com você?

Um calafrio percorreu o salão de treinamento. A voz de Gino era fria como gelo e beirava o assassino. Senti um suor frio brotar por todo o meu corpo. Se eu estivesse sozinho, provavelmente teria me urinado. Este era o Deus da Espada, aquele que tomara aquele título depois de derrotar o Deus da Espada Gall Falion em um instante. Um cara estranho, sim, mas um dos melhores espadachins do mundo – uma força a ser reconhecida. Eu senti.

— Não. — Eu lhe disse. — Eu também amo minha família.

— Oh? Fico aliviado em ouvir isso. — A nota assassina desapareceu de sua voz. — Parece que você é tudo o que ouvi dizer que era, Rudeus.

— O que as pessoas te disseram?

— Que você se tornou o seguidor do Deus Dragão pelo bem de sua família, e que devastou um país inteiro.

— Uh, isso é verdade, em linhas gerais. Não devastei nenhum país, no entanto.

— Você tem mais coragem do que eu esperava. — O olhar de Gino se moveu para ambos os lados de mim, para Eris, Alec e os Santos da Espada. Todos eles tinham as mãos em suas espadas. Alguns até já as haviam sacado. Virei-me para olhar para trás, mas vi que Orsted nem sequer se mexera. Como eu poderia esperar. Eu também não me movi, mas isso foi apenas porque ainda estava abalado por Gino.

— Em outras palavras, você é um homem em quem posso confiar — continuou Gino.

O que “em outras palavras” deveria significar?

— É por você ser um homem assim que me sinto seguro em dizer que não vou trabalhar com você. Minha espada luta por mim e por aqueles que amo, e por mais ninguém.

— Oh… Tudo bem.

Entendi Gino Britz melhor agora. Ele só queria proteger as pessoas que amava com suas próprias mãos – não muito diferente de mim. Eu falhei em fazer isso e me joguei à mercê de Orsted, mas tinha certeza de que Gino achava que conseguiria. Além do mais, ele não estava errado. Ele simplesmente não parecia motivado a fazer mais nada. Claro, ainda era o Deus da Espada; mesmo que declarasse sua neutralidade, isso não impediria que os inimigos viessem até ele, mas parecia que ele não tinha em si o ímpeto de criar mais.

Não tinha certeza de por que ele não incluía o antigo Deus da Espada entre as pessoas que amava, mas supunha que isso era diferente. Aquele homem vivera e morrera em seus próprios termos. Gino não parecia se opor a isso.

— Hmm…

Não conseguia ver de que outra forma eu ia convencê-lo. Gino estava completo consigo mesmo. A menos que desistíssemos de lutar contra o Deus-Homem, ou ele – como eu – sentisse que não poderia proteger sua família apenas com sua força, ele não mudaria de ideia. Não importa como tentasse persuadi-lo, eu estaria apenas agarrando o ar. Ele tomou sua decisão e não podia ser movido. Era exatamente como se esperaria do chefão da escola do Deus da Espada.

— Ok. — Eu disse. — Nesse caso, pelo menos tenha cuidado se o Deus-Homem aparecer em seus sonhos. Ele mentirá, dizendo que é tudo pela sua família, mas se você ouvir, perderá tudo.

— Entendo — disse Gino.

Eu não queria, mas… era hora de recuar. Gino não ia trabalhar contra nós, então isso era alguma coisa. Ele não seria nosso aliado, mas também não seria um inimigo. Depois de aprender que tipo de homem ele era, acreditei em sua palavra de que estava confiando em mim o suficiente para ser honesto. Isso era bom o suficiente para mim.

— Se eu morrer e outra pessoa tomar meu lugar — acrescentou Gino —, certifique-se de voltar. Esta não é mais do que minha decisão pessoal, sabe.

— Obrigado, farei isso — virei-me para olhar para Orsted. Quem sabia o que se passava sob aquele capacete? — Isso funciona para você, Lorde Orsted?

Ele assentiu lentamente. 

— Funciona.

Quando isso terminou e eu curei os ferimentos dos Santos da Espada, as coisas passaram para uma sessão de treinamento com Alec. Isso significava que eu estava sentado na frente do salão de treinamento, no lugar de honra, observando enquanto Alec lutava livremente com os Santos da Espada. Os Santos da Espada só tinham espadas de treino, mas estavam claramente lutando para matar. Aposto que achavam que poderiam se safar se matassem Alec no calor do treino.

Alec os repeliu sem problemas. Dito isso, talvez por serem Santos da Espada, ou talvez por estar distraído, alguns deles ocasionalmente o atingiram – com a Espada da Luz. No final, no entanto, suas espadas ainda eram apenas de madeira. No momento em que atingiam, a madeira se estilhaçava, e Alec não sofreu nenhum dano. Aquela aura de batalha era muito OP.

Embora, eles usassem espadas de treino incomuns no Santuário da Espada. Parecia que tinham um núcleo de algo como ferro para lhes dar algo mais próximo do peso correto. Sem a aura de batalha, um golpe no lugar errado provavelmente seria suficiente para matar. Ei! Isso explicava por que havia apenas Santos da Espada aqui. Apenas o nível avançado e acima podiam evocar uma aura de batalha.

— A propósito, Lorde Orsted, por que você veio comigo? — sussurrei para Orsted, que estava ao meu lado.

— Desejava dar uma olhada em Gino Britz.

— Você quer dizer o que há de diferente nele do que o normal?

— De fato.

Gino observava silenciosamente a luta, com Nina ao seu lado como sempre. Ao lado dela sentava-se Eris, e as duas conversavam sobre algo. De vez em quando, eu ouvia o nome “Gall Falion”. Presumi que estivessem falando sobre a morte do antigo Deus da Espada.

— O que você acha? — perguntei.

— Ele está inalterado. É obstinadamente teimoso em sua determinação de viver apenas para si mesmo.

— Hã.

— Quando criança, Gino era instável, propenso a ser influenciado pelas palavras do Deus-Homem. Agora, pelo que vi aqui, não precisamos nos preocupar.

— Tudo bem. — Dependendo de como você pensasse, uma parte neutra que não era um inimigo era meio que um aliado. Tornava improvável que ele se tornasse um discípulo, por exemplo. Ele não nos ajudaria a nos preparar para o futuro, mas não era como se todas as outras nações estivessem colocando toda a sua energia nisso também. O importante era que ele não se tornaria um peão do Deus-Homem. Claro, ele ainda poderia se voltar contra nós, quisesse ou não… mas quando se começava a pensar assim, não havia fim.

— E-eu me rendo…! — Houve um baque quando um dos Santos da Espada caiu.

— Minha vez a seguir! — disse outro, levantando-se imediatamente e se dirigindo para o centro do salão de treinamento…

A próxima coisa que soube foi que todos os Santos da Espada estavam sentados ou esparramados no chão. Cada Santo da Espada estava caído. Pela segunda vez hoje. O Deus do Norte Kalman III era mesmo incrível, hein?

Houve uma calmaria no barulho que encheu o salão.

— Então, bem no final, ele disse: “os fortes vivem livres”. — A voz de Eris soou claramente através do silêncio. Ela olhou para cima, surpresa com o som de sua própria voz. Sua boca imediatamente se formou em uma linha fina, e ela fuzilou com o olhar os Santos da Espada que se aproximaram dela.

Eles olharam para baixo, murmurando e lançando olhares para Gino. Ouvi comentários como “Fazendo seus aprendizes lutarem suas batalhas…” e “Ele sequer se importa com a honra do Estilo Deus da Espada?”

A expressão de Gino estava tão despreocupada como sempre. Pelo que eu sabia, ele ouvia coisas assim todos os dias.

— Não vai participar do nosso treinamento, Deus da Espada? — perguntou um dos Santos da Espada, aproveitando o silêncio de Gino. O homem, que tinha um enorme hematoma se espalhando pelo rosto, foi o primeiro a desafiar Alec. Ele também foi quem pediu a Gino para esperar mais cedo.

— Não. Estou bem aqui — respondeu Gino.

— Por quê?!

— Por que eu faria isso? Pedi a ele para treinar com vocês porque me pediram. Se todos já tiveram o suficiente, então é isso.

O rosto do Santo da Espada se contorceu, e ele tremeu de raiva. Incapaz de suportar por mais tempo, ele gritou: 

— As coisas eram melhores com o antigo Deus da Espada! Ele defendia a honra do Estilo Deus da Espada! Ele não os teria deixado entrar aqui, não importa quem fossem! Não admira que os Imperadores da Espada tenham partido! Você é o Deus da Espada, mas nem sequer nos ensina suas habilidades! Você se esconde sozinho para fazer todo o seu treinamento, e depois fica no salão de treinamento flertando com sua mulher dia após dia após dia! É a mesma coisa aqui, com essas pessoas. Você deveria buscar vingança, mas em vez disso os entretém enquanto eles pedem para ser seu servo! Se você tivesse engolido seu orgulho e se submetido a um inimigo mais forte, ainda teria sido melhor do que isso! Em vez disso, você faz uma declaração meia-boca de neutralidade?! Você quer nos tornar seus inimigos, seus seguidores? O que há de errado com você?! De que adianta um Deus da Espada como você?!

Um silêncio caiu sobre o salão de treinamento. A expressão de Gino não mudou. Ele parecia tão despreocupado como antes – vago, até. Como se estivesse se perguntando sobre o que esse cara estava falando.

O homem, por outro lado, ficou pálido, como se soubesse que falara demais.

— A espada de cada pessoa é sua. Uma vitória para mim não é uma vitória para você, nem defenderia sua honra — disse Gino suavemente. — Derrotei o último Deus da Espada porque queria o que Nina e eu temos agora. É por isso que ajo assim. Não o fiz para defender a honra de ninguém, e não o fiz porque queria ser sua babá. Se você não gosta, está livre para ir embora. Não me importaria de renunciar como Deus da Espada, mas se eu entregasse o título a você, você me expulsaria, não é? Não tenho forte objeção a partir, mas é um mau momento para mim agora, enquanto nossos filhos ainda são tão pequenos.

Houve um suspiro dos Santos da Espada enquanto eles olhavam para o chão novamente. Eu quase esperava que alguém gritasse: “Esse não é o problema! Por que você não consegue entender?!” A energia no salão era atroz. Aparentemente, as coisas não estavam indo muito bem entre o Deus da Espada e seus alunos.

Seria porque Gino ainda era jovem? Se ele não resolvesse as coisas com esses caras, poderia facilmente se ver cercado de inimigos.

— Não precisa ser assim. Você poderia pelo menos dar um show a eles. — Foi Nina quem quebrou o silêncio. Ela levantou a cabeça do ombro de Gino, sentou-se ereta e dobrou as pernas sobre si. — Eu também gostaria de te ver lutar — disse ela.

— Tudo bem! Só por você, Nina. — Assim, Gino se levantou, como se toda a sua relutância até agora não passasse de um ato. Nina o tinha tão na mão? Mais precisamente, se conseguia mudar o jeito, ele era realmente estável? Para mim, pelo menos, ele parecia tudo menos são.

— Que tal você, Eris? — disse Nina. — O Gino está mais forte do que antes.

Em resposta, Eris também se levantou. 

— Ok — disse ela. Ela olhou para mim e depois jogou algo. Peguei sem pensar e vi que era sua espada — a espada mágica Cachimbo de Vento. Era a espada que o antigo Deus da Espada usara.

Gino e Eris se moveram para o centro do salão de treinamento, onde Alec estava. Ele deu de ombros. 

— Tudo bem, quem eu enfrento primeiro?

— O mais fraco, obviamente — disse Eris, empurrando Alec para trás. Ele assentiu em aceitação e voltou para nós. Não havia uma gota de suor nele. Eu nunca o vira suar, nem mesmo… Espere, isso não era verdade. No Reino de Biheiril, eu o vi encharcado.

— Que bando de inúteis. — Ele sussurrou enquanto se sentava ao meu lado. — Aqui eles têm a chance de aprender com aqueles que são melhores que eles, mas não estão interessados em aprender.

— Sim, até eu pude ver isso.

— Certo? Eles são ainda piores do que aquela gangue que fica em volta da minha avó.

Para ser justo, era um pouco diferente para a guarda pessoal de Atofe. Para eles, era aprender ou morrer, então não tinham escolha a não ser ficarem mais fortes.

Com esse pensamento, levantei os olhos bem a tempo de ver Eris erguer sua espada de madeira. Como de costume, ela a segurava acima da cabeça em uma postura ofensiva. O Deus da Espada Gino se abaixou sobre o pé de trás, com a mão na espada. A postura me lembrou de Ghislaine, mas a de Gino era muito mais tranquila.

Quando Ghislaine se abaixava naquela postura, ela abanava o rabo com um brilho temível nos olhos, como se estivesse esperando o momento certo para cravar os dentes em sua presa. Gino, enquanto isso, estava vazio. Como Orsted mais cedo, ele estava tão imóvel que parecia que o tempo havia parado. Nada poderia passar por ele.

Eris se aproximou lentamente dele. Se não fosse por nossa conversa anterior, meu coração estaria na boca. Ele poderia atingi-la, mas ela não morreria. Isso ia ficar bem, certo?

Talvez eu devesse abrir meu Olho da Previsão, por via das dúvidas. Mas mesmo com o olho demoníaco, eu ainda não conseguiria ver sua espada se mover. Poderia contar com Orsted para detê-lo se ele estivesse prestes a desferir um golpe mortal?

— Presumo que não precise de um sinal de início? — perguntou Gino a Eris.

— Não — respondeu ela.

E então, acabou.

Eris leva um golpe na mão da espada e cai de joelhos. Sua espada de madeira gira pelo ar e atinge a parede do salão de treinamento com um baque.

Foi tudo o que consegui ver com o olho demoníaco antes que, mal um segundo depois, se tornasse realidade. Para mim, parecia que Eris se moveu primeiro. Antes que ela terminasse de dizer “Não”, a ponta de sua espada já era um borrão, mas ela perdera. Gino foi mais rápido, e seu golpe quebrou o braço de sua espada. Exceto que não foi apenas o braço de sua espada. O dedão do pé da frente de Eris estava dobrado na direção errada. Então ele atacou duas vezes? Um ataque de múltiplos golpes?

O braço e o dedão de Eris estavam quebrados, mas ela não recuou. Seria preciso mais do que isso para detê-la. Ela avançou com sua única perna boa, um sorriso selvagem no rosto… e então, de repente, ela relaxou e se rendeu.

— Chega — disse Orsted, sua voz ecoando pelo salão.

Com isso, as pessoas começaram a soltar “Oohs” de admiração e a dizer coisas como “Incrível!” Mas eram a minoria, e mesmo assim, suas vozes carregavam uma nota de confusão.

Os Santos da Espada sussurravam entre si. 

— O que aconteceu? Ela desviou do primeiro golpe?

— Ele atacou o tornozelo dela primeiro. Ela não desviou completamente, então o dedo do pé dela…

— Mas e o segundo golpe?

Acabou tão rápido que eles não conseguiram dizer quem foi o vencedor, mas era óbvio à primeira vista. Eris caiu no chão, suando em bicas, enquanto o Deus da Espada, ainda de pé, baixou languidamente sua espada.

Gino concordou com a exigência dos Santos da Espada por uma demonstração, mas eles nem sequer conseguiram entender o que ele fez. Qual era o sentido? Talvez frustrados com isso mesmo, os rostos dos Santos da Espada estavam de pedra.

Por baixo disso, vi um toque de alívio. A honra da escola do Deus da Espada estava salva. Se seus egos estivessem satisfeitos, então isso era uma vitória para mim.

— Incrível, Deus da Espada! — disse Alec um pouco alto demais. — Seu primeiro golpe foi direcionado ao tornozelo dela, mas então você subiu pelo caminho mais curto possível para atingir o pulso dela. Não importava se você atingisse o tornozelo dela ou se ela desviasse. De qualquer forma, você atrasou o primeiro golpe dela o suficiente para criar uma abertura em seu pulso onde você poderia contra-atacar. Apenas um lutador com total confiança na velocidade de sua espada poderia realizar tal feito!

Parecia que ele ouvira a confusão dos Santos da Espada. Eles assentiram, dizendo: “Ah, entendi agora.”

Obrigado pelo comentário, Alec.

Alec permaneceu sentado, mas havia um toque de reprovação em seus olhos enquanto olhava para Gino. Era um olhar que dizia: Você é o mestre deles. Deveria ensiná-los.

— Antigamente, você ainda me atacaria, mesmo nesse estado — disse Gino.

— Se fosse a hora de me manter firme, eu ainda estaria lutando — respondeu Eris.

— Você é mesmo incrível, Eris. — Com um toque de sorriso, Gino assentiu lentamente.

Em resposta, Eris riu, mas havia gotas de suor em sua testa. Um pulso ou tornozelo quebrado não era suficiente para fazê-la chorar, mas ainda devia doer. Levantei-me e corri até ela.

— Você está bem? — perguntei.

— Sim — disse ela lentamente. — Estou bem. Se apresse e me cure. Mas não tenha nenhuma ideia sobre tocar em qualquer outra coisa! Estamos em público.

— Sim, senhora.

Imediatamente lancei um feitiço de cura para consertar os ossos quebrados de Eris. Como fui devidamente avisado, não tentei passar a mão. Apesar de ser uma batalha simulada, Gino bateu com força suficiente para quebrar ossos. Estremeci ao pensar no que teria acontecido se ele tivesse atingido sua cabeça ou pescoço. Pelo menos Orsted estava aqui, então, contanto que ele não arrancasse a cabeça dela, não haveria dano permanente.

O Deus da Espada era mesmo incrível. Eu não vi sua espada se mover, assim como seu predecessor. Eu não queria esse cara como meu inimigo.

— E então? — perguntei a Eris.

— Ele foi devastador. Odeio dizer, mas nunca tive chance. — Eu estava perguntando sobre seus ferimentos, mas essa foi a resposta que obtive. Ela soava genuinamente arrependida e estava franzindo a testa. Ser mãe não tornou Eris menos séria sobre seu trabalho com a espada. Nesse contexto, ela – oh, quem eu estava enganando? Ela estava apenas frustrada porque perdera. Eris sempre odiou perder.

— Deve ser minha vez, então.

Enquanto eu levava Eris de volta, Alec se levantou, com o rosto brilhando de excitação – mas antes que pudesse se apressar, ele olhou para Orsted.

— Lorde Orsted, posso?

— Como quiser.

Orsted estava lhe dando permissão para dar uma surra em Gino? Isso poderia mudar a ordem dos Sete Grandes Poderes. Gino declarara sua neutralidade, e a derrota de Eris agora mesmo satisfizeram os egos dos Santos da Espada. A partir de agora, o Santuário da Espada era neutro. Se o Deus da Espada perdesse, a equação mudava. Não apenas Gino, mas a maior parte do Santuário da Espada poderia se voltar contra nós. Isso era complicado. Eu deveria impedir?

Não! Eu não podia dizer nada, não depois que Orsted dera o sinal verde. Tudo o que eu podia fazer era pensar em como consertar se desse errado.

— Em guarda! — Alec se adiantou. Esta era uma batalha simulada com espadas de madeira, mas os lutadores ainda eram um Deus do Norte e o Deus da Espada. Não era exagero chamá-la de uma batalha entre Grandes Poderes. Sete era apenas um número arbitrário. Qual venceria?

Em termos de experiência, Alec tinha a vantagem. O Deus da Espada venceu seu predecessor, mas ainda era jovem. Ele ainda não fez o suficiente. E Alec tinha seu orgulho como Deus do Norte Kalman III. Ele também tinha uma prévia de seu oponente e podia seguir seus movimentos.

Alec ficou com a espada estendida à sua frente. Gino se abaixou sobre o pé de trás. Quem se moveria primeiro? Geralmente, se esperaria que Gino, o lutador do Estilo Deus da Espada, atacasse, e o lutador do Estilo Deus do Norte contra-atacasse. Mas eu tive a sensação de que o oposto poderia acontecer.

Foi Alec quem se moveu primeiro.

Desta vez, eu vi: um impulso do centro, movendo-se tão rápido que parecia sem movimento em vez de câmera lenta. A espada de Gino era ainda mais rápida. Ele cronometrou seu corte perfeitamente para encontrar a ponta do impulso de Alec, desviando-o por meros graus… e foi o máximo que vi. A próxima coisa que soube foi que a espada de Gino havia desaparecido. Um momento depois, vi a mão esquerda de Alec pendendo, mole e quebrada. Simultaneamente, Alec recuou. Uma linha preta permaneceu no chão do salão de treinamento onde ele estivera. Gino deve ter usado o mesmo ataque simultâneo com que venceu Eris, mas desta vez atingiu o pulso primeiro.

Alec reajustou sua pegada na espada com a mão quebrada. Bem, eu pensei que estava quebrada, mas curou quase que instantaneamente. Isso devia ser seu sangue de demônio imortal em ação. Havia um fogo em seus olhos que parecia dizer: “No Estilo Deus do Norte, é aqui que a verdadeira luta começa.”

Dando um passo à frente, Gino lançou um ataque feroz. A cada golpe de sua espada, ele quebrava um dos braços ou pernas de Alec. Não levava mais de um instante para Alec se recuperar, então os ataques não o incapacitavam, mas essa era a única vantagem. Alec provavelmente estava tentando muitos movimentos, mas nenhum abalava seu oponente. Gino não permitiu uma única abertura para Alec partir para a ofensiva.

Finalmente, Alec baixou sua espada e disse: 

— Eu me rendo.

Ele estava ileso, mas suas roupas estavam em farrapos, e a ponta de sua espada de madeira estava em lascas. Gino, enquanto isso, estava ileso. Ele estava úmido de suor, mas ainda era uma vitória esmagadora. Eu não esperava que houvesse uma lacuna tão grande, não contra um oponente tão forte quanto Alec. Gino poderia ter rivalizado com os Grandes Poderes – espere, esquece. Ele já era um deles.

— Minha nossa, você é forte! — exclamou Alec. — Isto foi um lembrete de que não importa o quão forte você seja, sempre há alguém mais forte.

— Ah, mas você lutou com uma mão só. Quem sabe o que aconteceria em uma batalha real?

— Se esta fosse uma batalha real, espero que eu estivesse em pedaços — disse Alec, aceitando graciosamente sua derrota.

Isso era o que o Deus da Espada podia fazer com uma espada de treino sem bainha. Com uma espada de verdade, ele seria ainda mais rápido. A diferença entre eles poderia ser ainda maior então.

— Certo. — Ainda segurando sua espada de madeira, Alec voltou para onde estávamos sentados. Apesar de perder, sua expressão era brilhante. Havia um toque de decepção ali, mas nada como ele gritando e chorando no Reino de Biheiril. Acho que ele também cresceu.

— Hm? — olhei e vi que todos os olhos no salão de treinamento estavam em mim. Mesmo que a luta tivesse acabado, Gino ainda estava no centro do salão. Ele também estava me observando.

Ouvi os Santos da Espada falando em voz baixa. 

— O Sétimo Grande Poder…

— Vamos testemunhar uma batalha entre dois Grandes Poderes!

— Não que o Deus da Espada vá perder, claro.

— Podemos até ver alguns dos poderes do Deus Dragão Orsted.

O quê? Hã? O que disse agora?

— Lorde Rudeus — Alec sussurrou em meu ouvido —, por todos os meios, demonstre para eles o poder da Armadura Mágica com a qual você me derrotou!

Com isso, respondi automaticamente. Eu já tinha meu discurso preparado.

— Minha nossa, vocês no Santuário da Espada realmente se empolgam com seu treinamento! Mas olhem só? O sol está prestes a se pôr, e estou morrendo de fome! O que me dizem de encerrarmos por aqui?!

Não foi muito bem recebido.

Encerrei minha visita ao Santuário da Espada. Os Santos da Espada todos acharam que eu era um covarde, mas o que eu me importava? O Santuário da Espada – ou melhor, Gino Britz – permaneceria neutro enquanto vivesse. Isso era bom o suficiente para mim.

 


 

Tradução: Gabriella

Revisão: Pride

 

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