O chilrear de um pássaro, cheep-cheep-cheep. A luz do sol que entrava pelas janelas. Uma atmosfera que só se encontra nas profundezas de uma floresta.
Qualquer um deles teria sido o suficiente para despertar Vaqueira de seu sono, mas não foi o que realmente a acordou.
— Mmn, hggh… ahhh…
Ela empurrou para o lado o cobertor de pele, espreguiçando-se bastante. O frio da manhã era agradável ao seu corpo nu.
Não houve tempo para saboreá-lo, no entanto.
Uma coisa a despertou do sono.
Clank, clank. Era o som metálico de raspagem que podia ser ouvido do quarto de hóspedes adjacente.
— Certo…! — Vaqueira deu-se um tapa revigorante em cada bochecha, em seguida, começou a enfiar seu corpo amplo em suas roupas. Ela vestiu a calcinha com pressa, fechou os botões da camisa e então…
Minhas calças! O que há com minhas calças…?
Ela não estava nem um pouco acima do peso, mas de alguma forma simplesmente não conseguia colocá-las. Seus dedos escorregaram, talvez por causa de sua pressa.
— Ohh, para…!
Ela estalou a língua e decidiu que não era algo com que normalmente se preocupava. Em vez disso, empurrou a divisória que a separava da sala de estar, vestindo apenas uma camisa por cima da roupa íntima.
— B-Bom dia!
— Hrm…
Como esperava, ele estava lá.
Ele estava com seu capacete de aço de aparência barata de sempre e uma armadura de couro encardida, sua espada de um comprimento estranho no quadril e seu pequeno escudo redondo no braço esquerdo.
Também estava carregando sua sacola de itens diversos; parecia pronto para partir em uma viagem a qualquer momento.
Ela murmurou um “Hmm” ou algo parecido como uma forma de distraí-lo e então abraçou o próprio braço.
— Você já está indo…?
— O esconderijo dos goblins é quase certamente rio acima — disse ele, assentindo com firmeza — Se colocassem veneno no rio, seria o fim.
— Sim, isso seria ruim — disse Vaqueira com um sorriso ambivalente. Sua cabeça cheia do clima, do sol e de seu tio. Tudo girando e girando… — Er, bem… Tenha cuidado, viu?
Essas foram as palavras que finalmente saíram de sua boca – aquelas palavras óbvias e banais.
Ele acenou com a cabeça e respondeu:
— Eu vou.
Então caminhou em direção à porta em um ritmo ousado.
Enquanto ela o observava ir embora, Vaqueira abriu a boca várias vezes, mas a cada vez, fechou novamente sem dizer nada.
— Você também… — Com a mão na porta, ele balançou a cabeça ligeiramente — Todas vocês.
Então houve um som quando a porta foi aberta e outro quando foi fechada.
Vaqueira soltou um suspiro. Ela pressionou a mão no rosto, em seguida, passou pelo cabelo.
Ah, pelos… O mais suave dos gemidos escapou dela.
De repente, houve um farfalhar de pano e uma voz atrás dela.
— Ele foi embora?
— Sim… — Vaqueira deu um pequeno aceno de cabeça e esfregou o rosto. Por fim, virou-se lentamente — Você gostaria de ter a chance de dizer adeus?
Garota da Guilda, ainda em suas roupas de dormir, murmurou:
— Na verdade não — e coçou a bochecha desajeitadamente. Ela deu um sorriso fraco —, não… quero que ele me veja antes de eu maquiar meu rosto.
— Não posso dizer que não simpatizo, mas…
Garota da Guilda podia não estar maquiada e podia não ter arrumado o cabelo. No entanto, tanto quanto Vaqueira poderia dizer, ela ainda ostentava uma beleza sem adornos.
Ainda assim, ela e Vaqueira tinham mais ou menos a mesma idade. Vaqueira sabia como se sentia e estava, de fato, dolorosamente ciente disso. E ainda assim…
— Gosto que ele seja capaz de ver a minha aparência normal.
— Invejo a sua coragem… — disse Garota da Guilda, de alguma forma triste.
Vaqueira tentou distraí-la com um aceno de mão desdenhoso.
— Só tento não pensar nisso, só isso.
Nenhuma delas disse no que estavam tentando não pensar:
Que cada despedida poderia ser a última.
***
O porto dos elfos: em uma coleção de folhas que saíram para o rio como uma ponte, os aventureiros foram reunidos.
— Mm… Hmm… — Alta Elfa Arqueira semicerrou os olhos como um gato e soltou um grande bocejo; ela ainda estava meio adormecida. Os outros aventureiros, porém, já estavam ocupados carregando a bagagem no barco.
Os barcos élficos eram elegantes vasos em forma de lágrima esculpidos nas raízes prateadas da bétula branca.
— E erga, e ho, e hup, e oh!
Anão Xamã estava ocupado alinhando tábuas de madeira ao longo da amurada como escudo, transformando a pequena casca em um navio de guerra tosco.
— Eles não poderiam ser feitos um pouco mais… bonitos? — perguntou o elfo com capacete brilhante, fazendo uma careta.
— “Mendigos temerários não podem escolher”. Não temos muitos deles e eu tive que preparar com pressa. Não há tempo para se preocupar com a aparência — bufou Anão Xamã, irritado, e coçou a barba branca. — Não que eu fique feliz em pendurar tudo dessa forma, de qualquer maneira.
Teria sido uma coisa se tivessem tido mais tempo, mas em um piscar de olhos, isso era o máximo que poderia ser feito. O elfo devia ter reconhecido isso, porque em vez de continuar reclamando, estendeu a mão para o vento.
— Ó sílfides, belas donzelas ventosas, concedam seu beijo mais raro; abençoem nosso navio com uma bela brisa.
Houve um assobio quando o vento soprou no ritmo do cântico do elfo e começou a soprar ao redor do barco.
— Tenho uma certa afinidade com os duendes pelo fato de ser um elfo, mas ainda sou um patrulheiro, um rastreador. Peço-lhe que não espere milagres.
— Acredite em mim, eu não espero — disse Anão Xamã com um sorriso malicioso e um olhar pelo canto do olho para Alta Elfa Arqueira. — Todo mundo é bom em algumas coisas… e não em outras.
— Yawn… — Alta Elfa Arqueira ainda esfregava os olhos, as orelhas compridas caindo tristemente. Parecia ainda precisar de algum tempo para ficar completamente acordada.
— E onde está a irmã mais velha dela? — perguntou Anão Xamã.
— Parece que as duas irmãs ficaram conversando até bem tarde na noite passada…
— Ainda está nos braços de Morfeu, hein?
O elfo com capacete brilhante soltou um suspiro, então franziu a testa como se sua cabeça doesse.
— Os humanos são bem trabalhadores… Minha nova irmã mais nova poderia aprender algo com eles.
Ele estava olhando para os dois clérigos, que já estavam a bordo do barco e oferecendo suas orações aos deuses.
— Ó Mãe Terra, abundante em misericórdia, por favor, por sua mão reverenciada, guie a alma de nós que deixamos este mundo…
— Ó grande ovelha que caminhou pelo Cretáceo, conceda-nos um mínimo de seu sucesso longamente entoado em batalha!
Sacerdotisa estava se agarrando a seu cajado e implorando à Mãe Terra para mantê-los seguros em sua aventura.
Lagarto Sacerdote estava fazendo um gesto estranho com as palmas das mãos juntas e persuadindo seus ancestrais para ajudá-lo no combate.
Mesmo que esses não fossem pedidos de milagres propriamente ditos, não havia dúvida de que a proteção dos deuses estaria com eles.
— Uff… — Terminando suas orações por enquanto, Sacerdotisa se levantou e enxugou seu suor enquanto o barco balançava suavemente na correnteza. — Não tenho certeza de que devemos implorar aos deuses por favores como este. Devemos tentar por conta própria até entender onde somos insuficientes. — Ela parecia que ia cair a qualquer momento; agora uma mão com escamas a sustentava e Lagarto Sacerdote assentiu.
— Acho que tentar não vem com deméritos. Por que orar a um deus que não lhe conceda a vitória, mesmo depois de ter apostado tudo em uma batalha tremenda, despendendo todos os seus esforços?
— Acho que isso pode estar um pouco além do que estou falando.
Um deles era uma clériga devota e serva da Mãe Terra.
O outro era um Lagarto Sacerdote que venerava seus antepassados, os temíveis nagas.
Mas essa diferença não significava que necessariamente deviam estar em desacordo.
— De qualquer forma, vamos fazer o nosso melhor. — Sacerdotisa assentiu para si mesma, segurando seu cajado com vigor.
— Já terminaram? — perguntou Matador de Goblins ao emergir do convés inferior.
Seus braços estavam cheios de provisões e roupas de dormir e ele correu o olhar ao longo dos escudos que haviam sido colocados nas laterais da embarcação.
— Ah, sim, os escudos estão levantados, fizemos nossas orações e temos a bênção do vento também.
— Entendo — murmurou Matador de Goblins. — Obrigado pela ajuda.
— Ah, de nada!
Sacerdotisa tinha um sorriso brilhante no rosto; Matador de Goblins acenou para ela e então corajosamente desceu para o cais. As folhas grandes estremeceram ligeiramente sob o peso dele e de seu equipamento; uma ondulação correu ao longo da superfície da água.
— Fico grato por sua ajuda.
— Não precisa pensar nisso — respondeu o elfo com capacete brilhante uniformemente. — No entanto — acrescentou —, se deseja me agradecer, traga minha cunhada de volta em segurança.
— Muito bem — respondeu Matador de Goblins sem hesitação. Ele se virou para olhar para a garota em questão, que ainda parecia perigosamente instável.
Sacerdotisa estava se esforçando para calar Anão Xamã, que estava sugerindo que um mergulho no rio faria bem à elfa.
— Eu aceito — disse Matador de Goblins.
— Muito bem — respondeu o elfo. Seu rosto relaxou com o que poderia ter sido alívio, mas ele logo tornou sua expressão tensa novamente. Em seguida, enfiou a mão em uma bolsa de itens em seu quadril e retirou um pequeno frasco de mel dourado e encorpado. — Isso é um elixir — disse. — Um remédio secreto transmitido aos elfos. Dizem que é feito com uma combinação de ervas, variedades de seiva de árvore e sucos de frutas, junto com um ritual aos espíritos. A tampa foi selada com uma folha de papel de rei, então o elixir pode ser bebido apenas uma vez.
Matador de Goblins pegou a garrafa sem dizer uma palavra e a colocou em sua bolsa de itens.
— Se eu não voltar, por favor, cuide das duas mulheres.
— Eu irei.
— E dos goblins também.
— Mas é claro. — O elfo acenou com a cabeça e então, depois de pensar por um momento, acrescentou sombriamente: — Ela pode não ser perfeita, mas agora é minha cunhada e eu a conheço há muito tempo, cuide dela.
— Enquanto estiver ao meu alcance, farei isso.
Mesmo o elfo, durante toda sua longa vida, pareceu surpreso com a resposta de Matador de Goblins.
— Você não leva nada levianamente, não é? — disse ele, sua expressão suavizando um pouco, mas ele falou tão baixo que apenas as árvores puderam ouvir. Então continuou: — Os anciãos receberam algum tipo de notícia da cidade da água.
— Oh?
— Mas mesmo eu ainda não sou maduro o suficiente para os cálculos dos Alto Elfos. Não consigo adivinhar que movimento os anciãos podem estar planejando fazer.
A imaginação élfica abrangia um vasto período de tempo. A menor e aparentemente mais insignificante coisa podia dar frutos muitos anos depois.
As ações que eles tomariam ali, naquele momento, provavelmente seriam as mesmas. O elfo com capacete brilhante cerrou os dentes. Ele seria o próximo chefe e, ainda assim, sequer foi informado de quais eram as novidades.
Não que não pudesse adivinhar, é claro, mas um palpite ainda era um palpite. Não um fato.
Enquanto não soubesse o que as ondulações na superfície poderiam formar, ele só poderia ficar em silêncio.
Matador de Goblins olhou para o elfo silencioso e grunhiu. Então, lentamente, como se nada tivesse acontecido, abriu a boca:
— Além disso, tome cuidado com o rio.
— São vocês que precisam tomar cuidado — disse o elfo levemente, sentindo-se um pouco estranho com a indiferença das palavras de Matador de Goblins. — Acredito que hoje haverá alguma névoa.
Suas orelhas se contraíram como folhas quando ele ouviu o som do vento e olhou para a luz pálida do céu da manhã.
— Os goblins não são o único perigo nesta floresta. Na hora errada, a própria natureza pode ser sua inimiga. Tenha isso em mente conforme avança. — Porque, afinal… o elfo com capacete brilhante e Matador de Goblins olharam para a floresta. — Você estará viajando para a escuridão.
— Para a escuridão — repetiu Matador de Goblins suavemente.
O mar de árvores que se estendia até a nascente do rio abrigava uma escuridão impenetrável.
Uma brisa quente trazia um ar úmido e espesso. Como o interior de um ninho de goblins, pensou Matador de Goblins. E isso era um fato.
O que devia fazer, então? Considerou por um instante, então formulou seu plano.
— Tenho mais um pedido…
— Qual é? — O elfo olhou para ele interrogativamente.
— Prepare outro barco.
— Farei isso. — O elfo acenou com a cabeça, fazendo o sinal ritualístico de uma promessa de seu povo.
Vendo isso, Matador de Goblins disse:
— A propósito — como se tivesse acabado de pensar em algo —, estive pensando… É verdade que os elfos não conhecem o conceito de “limpar”?
— Nós conhecemos — respondeu o elfo com capacete brilhante, parecendo muito cansado —, mas algumas irmãs não.
— Entendo…
Tradução: Nero
Revisão: Kenichi
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