— Droga! Quem eles pensam que são, falando comigo daquele jeito? Droga, droga, droga! — gritou Sapphias em um acesso de raiva após retornar ao seu quarto, pontuando suas maldições com socos no travesseiro de sua cama. Sua barragem furiosa ecoou na forma de uma série de baques surdos. Depois de um tempo, a futilidade desse exercício superou sua raiva, e ele desinflou com um longo suspiro.
— Eu… preciso entrar no conselho estudantil. Não posso me dar ao luxo de estragar tudo… — disse ele, rangendo os dentes.
Sua expressão era marcada pela careta tensa de alguém que estava ficando sem opções. Ele olhou para a escrivaninha ao lado, sobre a qual repousava uma carta de poucas linhas que dizia…
“Minha Querida,
Você está bem?
Eu continuo com boa saúde, como de costume. Não consigo te ver, no entanto, e isso é uma fonte frequente de tristeza para mim.”
Era o começo de uma carta de amor — e uma bem melosa, por sinal! Sapphias, veja bem, tinha uma noiva que lhe fora prometida desde que eram crianças. Casamentos arranjados não eram incomuns no cenário político acirrado da nobreza. Eram um método importante através do qual as famílias aprofundavam laços entre si e adquiriam poder. Pedigree, riqueza, força militar… Tais fatores e mais eram todos parte do complexo cálculo de interesses próprios concorrentes que formavam a base dos casamentos nobres, muitos dos quais envolviam participantes relutantes. No caso de Sapphias… contra todas as probabilidades, ele e sua futura esposa realmente compartilhavam afeto mútuo. Eles compartilhavam tanto afeto, na verdade, que transbordava para tudo o que faziam juntos. Eles flertavam em suas cartas. Flertavam em seus encontros. Flertavam quando se visitavam em casa. Flertavam tanto que começou a desgastar suas famílias que, na tentativa de manter a sanidade, evitavam ativamente estar no mesmo cômodo que eles.
A garota era filha de um Marquês. Embora não tão estimada quanto os Quatro Duques, o pedigree de sua família era mais do que adequado para ela ser uma noiva apropriada. Ela era uma jovem donzela justa que pensava em Sapphias como um jovem respeitável e íntegro. A validade de sua opinião era talvez um tanto suspeita, mas seus defeitos mútuos, no entanto, deram origem ao que era, sem dúvida, um casal ideal entre a nobreza de alto escalão. Eles também tinham mais do que uma semelhança passageira com Mia em como seus cérebros tendiam a ficar presos no modo romance, mas nunca admitiriam isso.
Claro, não havia nada de errado com nada disso. O problema era que Sapphias escrevera uma carta para sua amada se gabando de como estaria no conselho estudantil.
— Devo dizer a ela que falei cedo demais e não consegui entrar? Nunca! A vergonha! Só a vergonha já seria demais!
Ele segurou a cabeça e lamentou em desespero. Era um lamento que vinha do fundo do coração de um homem atormentado pelo amor.
Neste ponto, provavelmente seria prudente mencionar que ele não estava sozinho em seu quarto. Seu colega de quarto, um jovem chamado Dario, também estava presente. Dario era o irmão mais novo de sua noiva que, através das conexões dela, conseguiu se matricular em São Noel como assistente de Sapphias. Ter acesso à melhor educação do continente deveria ter sido uma bênção incondicional, e de fato, ele estava extremamente feliz por ser um estudante aqui, mas vinha com uma condição — de vez em quando, ele tinha que assistir seu futuro cunhado se lamentando em desespero porque estava com problemas para escrever cartas de amor para sua irmã. Melhor escola do continente ou não, isso ainda era um tipo especial de inferno.
— Ei, Dario, o que eu devo fazer? Você acha que ela vai me perdoar?
— Uhh… Claro, por que não? Quero dizer, ela tende a ser bem “ah, tanto faz” com as coisas… — respondeu ele, um tanto cansado.
E ir para casa não proporcionava escapatória, pois ele estaria sujeito ao inverso, com sua irmã falando sem parar sobre seus momentos românticos com Sapphias. Isso, ele pensou, pelo menos sugeria que um pequeno fracasso como não entrar no conselho estudantil não afetaria o relacionamento deles.
— Mas… Não, não posso. Tenho uma imagem a manter. Gah! Se ao menos Sua Alteza fizesse o que eu disse para que ela me devesse um favor! Droga…
Por mais estranho que o momento pudesse ser para Dario, não durou muito. Naquele instante, alguém bateu educadamente na porta.
— Hm, eu atendo. Com licença por um momento, Lorde Sapphias.
— Vamos, pode parar com o Lorde. Seremos irmãos em breve. Sinta-se à vontade para me chamar de algo mais casual, como Saph.
— Terei isso em mente, Lorde Sapphias.
Ele caminhou até a porta com uma velocidade que traía seu desejo de se remover da situação atual, apenas para franzir a testa inquisitivamente ao ver um homem desconhecido quando a abriu.
— Perdoe a intromissão, Lorde Sapphias Etoile Bluemoon. A Senhorita Rafina deseja falar com você.
— …Eh?
Sapphias se virou para o homem com uma expressão igualmente inquisitiva. Ele era um mensageiro enviado pela figura de autoridade central da academia, Rafina Orca Belluga. Sem o conhecimento de Sapphias, no entanto, ele poderia muito bem ser um mensageiro do Inferno.

https://tsundoku.com.br
— S-Senhorita Rafina… Uh, acredito que Vossa Senhoria desejava me ver?
Sapphias, após ser levado ao escritório do conselho estudantil do qual tanto queria fazer parte, passou pela porta e foi banhado… não por uma onda de satisfação por finalmente pisar em sua câmara sagrada, mas pelo olhar enervante de Rafina, que estava sentada com as costas contra a cadeira. Ela sorriu docemente para ele, xícara e pires segurados graciosamente em suas mãos, e tomou um gole antes de colocá-los na mesa vazia ao seu lado.
Normalmente, seria considerado inaceitavelmente rude convocar alguém e, quando chegassem, cumprimentá-los desfrutando de uma xícara de chá sozinho. O único cenário legítimo para tal gesto seria quando a parte convocada estivesse consideravelmente em falta… e Sapphias tinha uma ideia muito boa de qual poderia ser essa falta. Sua cabeça lhe dizia que não havia como ela ter descoberto, mas seu instinto tinha certeza de que ele estava em apuros.
Rafina, enquanto isso, manteve os olhos em sua xícara enquanto girava silenciosamente seu conteúdo âmbar, ou inconsciente ou indiferente à sua apreensão.
— E-Então… Senhorita Rafina?
— Hm? Oh, minhas desculpas — disse ela com uma risadinha curta. — Eu estava pensando em algo.
— Hã? Uh, no que seria?
— Oh, apenas… No que uma amiga minha faria em uma situação como esta.
— Hã… Não tenho certeza se eu—
Foi então que Sapphias percebeu que eles não estavam sozinhos. Atrás de Rafina estava uma garota que ele reconheceu. Seu rosto estava mortalmente pálido, e por um bom motivo; era ela quem ele subornara para espalhar rumores maliciosos sobre Rafina.
— Parece haver muita coisa acontecendo nos bastidores, não é? Devo dizer, no entanto, que você deve aprender a cobrir melhor seus rastros, ou essas suas ações certamente o levarão à ruína — disse Rafina com sua voz prateada.
Só então ela ergueu os olhos de sua xícara de chá e o olhou nos olhos. Ele estremeceu com o olhar dela, puro e penetrante como gotas de orvalho refletindo o sol da manhã.
“Você não está enganando ninguém.”
Novamente, as palavras de Mia ecoaram em sua mente.
N-Não pode ser! Será que ela realmente sabe?
O choque enrijeceu seu corpo enquanto o pavor subia lentamente por sua espinha. Rafina observou essa reação pensativamente antes de continuar em um tom gentil demais para ser totalmente genuíno.
— Você me apresentou um dilema… Veja bem, acredito que aqueles que erram devem ser punidos. Claro, errar é humano, e na maioria dos casos, a misericórdia pode muito bem ser necessária. Mas você, Sapphias… Você é o filho mais velho de um Duque — disse ela, fixando-o com um olhar gélido. Era puro, e brilhante, e congelante. — Nascemos em solos diferentes, mas em posições semelhantes. Você está, presumo, bem ciente da necessidade de assumir a responsabilidade por seus atos de uma maneira digna de sua posição?
Suor, profuso e frio, escorria por suas costas. A garota que ele descartara como uma mera filha de um duque de uma nação minúscula era, ele agora percebia, uma executora da justiça agindo em nome de Deus. Neste momento, sua espada de julgamento pairava sobre seu pescoço, e seus olhos ardiam com a convicção necessária para dispensar a retribuição justa sobre aqueles que pecaram. Antes que ela o abatesse, no entanto, a aspereza em sua voz se suavizou.
— Mas sei que Mia o perdoaria. Ela diria que isto é uma escola. Que é um lugar de ensino, e expulsar estudantes após apenas um erro seria cruel. E ela lhe mostraria misericórdia.
A punição servia a duas funções. Buscava aplacar as queixas da vítima, forçando o agressor a sofrer em troca, e servia como disciplina para aqueles que erravam. Disciplinar era, em essência, educar.
— Neste caso, suponho que eu seria a vítima, não seria? — ela se perguntou em voz alta, pressionando uma mão pensativa na bochecha. — Mas parece que a verdadeira vitimização me escapou… Como naquela vez com Tiona, não há necessidade de aplacar nenhuma queixa minha. Isso nos deixa com a garantia de que aqueles que erraram se arrependam de seus atos.
Sapphias observou com perplexidade enquanto ela falava de um incidente totalmente desconhecido para ele. Então ela riu.
— Diga, Sapphias, por acaso você sabe se a Mia disse alguma coisa?
— Ela disse… que lutará com você de forma justa e limpa — respondeu ele, repetindo o que Tiona dissera.
A palavra do assistente era a ordem do mestre. Tal era a natureza da sociedade nobre. Para Sapphias, uma nobre inferior como Tiona não era diferente de um assistente. Portanto, ele transmitiu as palavras dela a Rafina como se fossem de Mia, sem pensar duas vezes.
— Ah… entendo. Ela diria isso, não diria? É exatamente o tipo de pessoa que ela é, essa minha querida amiga… — disse Rafina, sua voz sumindo em pensamentos.
Então, a tristeza nublou sua testa, e ela suspirou.
— Então, por que ela não me permitiu convidá-la para o conselho?
Tradução: Gabriella
Revisão: Matface
💖 Agradecimentos 💖
Agradecemos a todos que leram diretamente aqui no site da Tsun e em especial nossos apoiadores:
- decio
- Ulquiorra
- Merovíngio
- S_Eaker
- Foxxdie
- AbemiltonFH
- breno_8
- Chaveco
- comodoro snow
- Dix
- Dryon
- GGGG
- Guivi
- InuYasha
- Jaime
- Karaboz Nolm
- Leo Correia
- Lighizin
- MackTron
- MaltataxD
- Marcelo Melo
- Mickail
- Ogami Rei
- Osted
- pablosilva7952
- sopa
- Tio Sonado
- Wheyy
- WilliamRocha
- juanblnk
- kasuma4915
- mattjorgeto
- MegaHex
- Nathan
- Ruiz
- Tiago Tropico
📃 Outras Informações 📃
Apoie a scan para que ela continue lançando conteúdo, comente, divulgue, acesse e leia as obras diretamente em nosso site.
Acessem nosso Discord, receberemos vocês de braços abertos.
Que tal conhecer um pouco mais da staff da Tsun? Clique aqui e tenha acesso às informações da equipe!


Comentários