— Pelo amor do sol… Mia, você percebe as implicações do que está pedindo, certo? — perguntou um Sion assustado.
Ao lado dele, um Keithwood igualmente alarmado estreitou os olhos para Mia, tentando decifrar a intenção por trás de seu pedido.
— Você está me dizendo para desafiar a Senhorita Rafina pelo posto de presidente?
— Sim, mas é realmente uma sugestão tão absurda? Não há nenhuma regra que diga que apenas um Belluga pode ser presidente, há? Parece-me que todos deveriam ter o direito de concorrer na eleição.
Keithwood teve que engolir em seco para não ofegar com as palavras de Mia.
Ela está… Entendo. Então a Princesa Mia discorda do status quo atual da eleição presidencial ser pouco mais que uma formalidade.
E enquanto ele processava as implicações lógicas dessa conclusão, teve que engolir em seco uma segunda vez; a epifania que teve pareceu uma bomba explodindo em sua cabeça.
Sistemas e instituições sempre existiram por uma razão. As eleições do conselho estudantil da Academia São Noel, da mesma forma, eram realizadas por uma razão, e uma bem simples. As escolas, por sua natureza de reunir um grande número de jovens em um só lugar, tendem a ser focos de problemas. Incidentes entre estudantes eram dores de cabeça para qualquer administração acadêmica, mas para São Noel, cujo corpo discente consistia em grande parte de jovens nobres e da realeza, uma disputa mal administrada poderia se transformar em uma crise internacional de grandes proporções, com consequências diplomaticamente desastrosas.
Arbitrar tais questões era, portanto, um dever importante do presidente do conselho estudantil. Dada essa responsabilidade, era crucial que os candidatos em potencial possuíssem uma qualidade particular — popularidade generalizada. Somente alavancando uma quantidade esmagadora de apoio dos estudantes, um presidente poderia esperar exercer controle sobre aqueles que nasceram no poder. A eleição destinava-se a ser um meio de demonstrar essa popularidade, mas fora reduzida a uma formalidade. Rafina Orca Belluga seria a presidente do conselho estudantil. Ninguém questionava esse fato. Nem mesmo o sábio mestre de Keithwood.
O propósito da eleição era demonstrar a cada estudante que, através de seus votos, eles mesmos eram os que selecionavam seu presidente do conselho estudantil. Esse propósito precisa ser reafirmado, e parece que a Princesa Mia acha que agora é a hora de fazê-lo.
Keithwood voltou seus pensamentos para a reunião durante a qual Rafina pedira solidariedade na luta contra a sociedade secreta das Serpentes do Caos. Diante deste desafio incomum e difícil, era necessário que ela se provasse. Ela precisava demonstrar que era realmente alguém que comandava o apoio inequívoco de seus colegas estudantes. Ao fazer isso, ela também colocaria um ônus sobre seus apoiadores; eles a escolheram, e então, eles tinham que assumir a responsabilidade por sua escolha. Ao torná-la presidente, eles eram obrigados a obedecer a seus decretos. Esse, ele imaginou, era o novo status quo que Mia estava tentando estabelecer.
Se for assim, então ela precisaria legitimar a eleição, e a única maneira de fazê-lo é alguém concorrer contra Rafina. Alguém que tenha uma chance real de vencer. O que… explica por que ela está falando com Sion.
Um candidato fraco não serviria. Os estudantes precisavam ser apresentados a uma alternativa legítima a Rafina e ainda assim escolhê-la em vez de seu oponente. Só então a interação de escolha e responsabilidade entraria em vigor. Ao investir sua confiança nela, os estudantes davam crédito ao seu papel e peso às suas palavras.
Mas e se seu novo concorrente acabar destronando Rafina? Só consigo imaginar que ela já pensou nisso e decidiu que está disposta a aceitar essa eventualidade, contanto que o processo eleitoral seja justo e autêntico, mas nesse caso… Por que ela simplesmente não concorre?
Ele recebeu sua resposta quase imediatamente.
— Não se preocupe, Sion. A tarefa pode parecer assustadora, mas tenho toda a confiança de que você estará à altura do desafio — disse ela, dando ao príncipe um sorriso gentil e encorajador.
Mia tinha um plano. Após obter conselhos da — no estilo Mia, claro — proeminente especialista em romance de seu tempo, Anne, que supostamente conhecia a mente masculina como a palma de sua mão, ela elaborara um plano mestre para convencer Sion a concorrer na eleição. Era, na verdade, o mesmo método que ela usara para persuadir o irmão de Tiona.
Os homens adoram quando são reconhecidos por seus talentos. Tudo o que tenho que fazer é dizer a ele que ele tem o que é preciso para ser presidente, e ele vai topar na hora!
— Não se preocupe, Sion. A tarefa pode parecer assustadora, mas tenho toda a confiança de que você estará à altura do desafio.
Simplificando, ela ia bajulá-lo. E não ia parar por aí. Afinal, ela estava lhe pedindo para desafiar Rafina em público; seria preciso mais do que um pouco de gordura de leite metafórica para movê-lo à ação. Ela ia servir-lhe um suculento hambúrguer de “você consegue” entre dois pães grossos de “eu acredito em você”. Hoje, Mia estava com tudo. Ela descartara sua vergonha, aumentara a breguice ao máximo e carregara o prato com a coleção mais florida e arrepiante de elogios hiperbólicos que conseguia pensar. Tudo o que restava era enfiá-los goela abaixo nele.
Vou te bajular tanto que você não terá como me recusar!
Assim que estava prestes a começar sua ofensiva bajuladora, no entanto, Sion falou.
— Desculpe, mas não posso fazer isso — disse ele, seu tom mortalmente sério.
— O quê— Hã? Mas—
— Eu sei o que você está tentando fazer, Mia.
E-Ele sabe?! C-Como?! Ele percebeu que estou apenas tentando fazê-lo ficar com todo o trabalho pesado?!
Os poros na nuca dela — veteranos nisso a esta altura — abriram-se imediatamente e se prepararam para encharcar os arredores de suor frio, apenas para pausar na próxima frase de Sion.
— Você está me dando uma chance de me redimir pelo que aconteceu em Remno, certo?
— …Hm?
Ela lhe lançou um olhar inquisitivo, perguntando-se do que diabos ele estava falando, mas ele simplesmente continuou falando, não prestando atenção à sua reação.
— Você planeja impressionar os estudantes com a importância de uma eleição legítima, após o que me dará a importante tarefa de concorrer contra a Senhorita Rafina como seu oponente, e, ao fazer isso, me permitirá redimir por minhas falhas anteriores. É um plano impressionante. Honestamente. A pura astúcia é louvável. E eu sinceramente aprecio sua consideração. Mas até eu tenho um pouco de ego a manter.
Ele passou por ela, seus rostos paralelos e opostos, e parou para uma última observação.
— Tenho toda a intenção de me redimir por minhas falhas passadas, mas ganharei a chance eu mesmo. Não posso permitir que minha própria redenção seja filantropizada, para que minha dignidade não me abandone para sempre.
Hã? Hã? O quê? Do que ele está falando?!
Então, ele se afastou, sua camisa esvoaçante adicionando um toque de estilo dramático ao seu passo. Mia encarou sua forma que se afastava com olhos arregalados e perplexos antes de se virar para Abel, sua expressão torcida em um apelo silencioso por ajuda. Ele lhe deu um sorriso irônico e balançou a cabeça.
— O que posso dizer? Ele é o orgulhoso príncipe de Sunkland, afinal. Ele sabe que você tem boas intenções, disso tenho certeza.
Isso… não é o que eu quero dizer…
Nada fazia sentido. Era como se houvesse uma conversa separada acontecendo que ela não entendia. Em sua confusão, ela não percebeu que seu plano mestre já havia sido descarrilado… antes de bater em uma parede de tijolos, explodir em chamas e, em seguida, explodir em um espetacular show de fogo e destroços. Não havia como montá-lo de volta, então ela deveria ter saído de lá o mais rápido possível. Infelizmente, a necessidade de fazer uma retirada rápida não lhe ocorreu — um erro tático que lhe custou caro, pois a janela de oportunidade para escapar rapidamente desapareceu.
— Outra coisa de que tenho certeza, Mia — continuou Abel —, é que se você concorrer na eleição, farei tudo o que puder para apoiá-la.
— …Eh?
— Como oponente da Senhorita Rafina, você provavelmente terá que lidar com muitos olhares estranhos das pessoas, mas confie em mim quando digo que estarei sempre ao seu lado. Ganhe ou perca, estarei com você a cada passo do caminho.
— Ahh, Abel…
Havia convicção em seus olhos enquanto ele pegava as mãos dela nas suas, e ela prontamente se perdeu em seu olhar sincero.

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Mais tarde, após retornar ao seu quarto e passar o resto da tarde murmurando coisas como “Ahh, Abel… Você é tão maravilhoso…” para si mesma, o ar fresco da noite começou a tirá-la de seu devaneio, forçando-a a confrontar a cruel realidade de sua situação.
— Hnnngh… Hnnnnngh… Como… Como chegou a este ponto…
Depois de perceber que fora encurralada sem saída, ela voltou a enterrar o rosto em travesseiros encharcados de lágrimas por mais duas noites antes de finalmente encontrar sua determinação. A notícia da candidatura de Mia se espalhou pela escola como fogo, e em pouco tempo, a eleição do conselho estudantil começou, pondo em movimento toda uma série de tramas, esquemas e conspirações.
Tradução: Gabriella
Revisão: Matface
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