Havia um homem que Shizuku Kurogane amava. Ele esteve ao lado dela durante toda a sua infância e, em um mundo cheio de adultos assustadores, ele era o único que sorria gentilmente para ela. Ele era, é claro, seu irmão mais velho, Ikki Kurogane. A razão pela qual ela o beijou quando se reencontraram após quatro anos foi porque o amava.
Ela nem sempre o viu sob uma forma romântica. Na verdade, até há quatro anos, o seu amor por ele era normal, um amor familiar. Os seus sentimentos só começaram a mudar quando ele saiu de casa.
No entanto, depois que ele partiu, não foi tão simples assim perceber um amor romântico que sempre existiu. Quando Ikki fugiu, há quatro anos, ninguém se preocupou em procurá-lo. Nem seus pais, nem mesmo o irmão mais velho de Shizuku. Foi então que ela começou a perceber como ele era tratado pelo resto da família. Mesmo antes de partir, todos fingiam que ele não existia.
Quando percebeu o que ele havia sofrido, Shizuku ficou revoltada com sua total ignorância. Ela nunca havia percebido a dor que Ikki carregava consigo por trás dos sorrisos gentis que lhe mostrava. Como pôde não entender o que estava acontecendo até depois dele partir? Ela passava mais tempo com ele do que qualquer outra pessoa.
Oprimida pelo arrependimento, Shizuku logo passou a ressentir-se de sua família. Não só eles ignoraram Ikki sem motivo algum, além de sua falta de talento como Blazer, mas mesmo depois que deixou a casa e cortou todos os laços com a família, ainda estavam tentando impedir seu sonho, apenas porque achavam que seria vergonhoso se alguém com o nome Kurogane se tornasse um Cavaleiro Mágico de Classe F. Era repugnante.
Assim, Shizuku Kurogane tomou uma decisão. Não importava se era tabu. Se o pai, a mãe e o irmão de Ikki não lhe davam o amor que merecia, tudo bem. Ela sozinha daria a ele o amor que nunca recebeu; a ajuda deles era desnecessária. Lhe daria o amor de um pai, uma mãe, um irmão, uma irmã, um amigo e uma mulher, tudo ao mesmo tempo. O amaria mais do que qualquer pessoa já havia sido amada antes.
No entanto, foi justamente por causa de sua determinação distorcida que ela agora enfrentava um grande problema: Stella Vermillion, a garota que afirmava ser criada de seu amado Ikki. Era óbvio para Shizuku que Stella tinha uma queda por ele.
Ambas amavam o mesmo homem. Stella transformou sua promessa a Ikki em correntes que o prendiam a ela, e isso incomodava Shizuku. Além disso, ela percebeu a profundidade do amor de Shizuku por seu irmão e estava fazendo tudo o que podia para atrapalhar o caminho dela.
Hoje, as suspensões das duas finalmente terminaram. Shizuku pensou em convidar Ikki para ir ao cinema para comemorar, mas aquela mulher desagradável se intrometeu e exigiu que ela fosse também. Shizuku ficou irritada. Stella disse: “Ainda não conheço muito bem o Japão, então quero que você me mostre a cidade” o que era um argumento perfeitamente válido, então, naturalmente, Ikki concordou. E Shizuku não suportava que ele estivesse sendo enganado por aquela mulher tão facilmente.
Nada disso era culpa de Ikki, é claro. Ele era perfeito. A culpa era toda daquela vadia da Stella. Shizuku faria com que ela pagasse por ter roubado seu irmão.
— Aquela vadia maldita — ela murmurou ao sair do banho.
— Meu Deus. Vejo que você está de mau humor hoje também — disse sua colega de quarto, Nagi Alisuin, enquanto passava um pente pelo cabelo molhado de Shizuku e começavam a secá-lo. — Aconteceu algo entre você e a Princesa de novo?
— Sim — respondeu Shizuku com uma voz desanimada, não se importando que Alisuin estivesse penteando seu cabelo.
Shizuku tentava ser o mais educada possível com seu amado Ikki e até mesmo com Stella, mas perto de Alisuin, não se importava com a maneira como falava. No momento, também não parecia composta e graciosa; estava inflando as bochechas e fazendo beicinho como uma criança mimada.
— Heh. As meninas apaixonadas têm uma vida difícil — Alisuin disse, sorrindo ao ver a expressão dela refletida no espelho. Sabia que ela estava apaixonada por seu irmão. Ela mesma havia lhe contado. Honestamente, porém, não tinha certeza do motivo.
Nos anos desde que Ikki deixou a casa, ela passou a não gostar tanto de homens e mulheres, tornando-se um pouco misantropa. Ela sempre desconfiara das pessoas, e essa desconfiança só piorou depois que ele se foi. Ver pais que nem amavam o próprio filho tornou difícil para ela acreditar que qualquer outra pessoa que conhecesse fosse, por padrão, uma boa pessoa.
No entanto, ela havia contado a Alisuin sobre o amor que sentia pelo irmão, algo profundamente pessoal para ela. E isso apenas uma semana depois de conhecer sua nova colega de quarto.
Acho que simplesmente gosto de conversar com a Alice.
Alisuin deixava Shizuku dizer o que quisesse, era uma ouvinte surpreendentemente boa e compartilhava sua alegria quando ficava feliz com alguma coisa. O melhor de tudo era que não se metia em assuntos que ela não queria que se metessem. Ela só tinha irmãos mais velhos e, por isso, só podia especular, mas imaginava que, se tivesse uma irmã mais velha, seria alguém parecida com a Alisuin. Provavelmente era por isso que se sentia tão à vontade para contar a ela coisas que mantinha em segredo dos outros.
— Ei, Alice.
— Sim?
— É estranho estar apaixonada pelo seu irmão mais velho?
No momento em que disse isso, Shizuku se arrependeu de ter feito uma pergunta tão idiota. Claro que era estranho. Não precisava que lhe dissessem isso. Mas ela se deixou mimar por Alisuin e secretamente esperava que lhe desse uma resposta diferente.
— Se estamos falando sobre o que é socialmente aceitável, então sim, é estranho. A maioria das pessoas diria que é imoral. Mas tenho certeza de que já sabe disso, não é, Shizuku? Se você o ama apesar disso, então acredito que o seu amor é algo puro e bonito.
Como Shizuku esperava, Alisuin imediatamente percebeu o que ela realmente queria.
— Desculpe por fazer uma pergunta tão covarde, Alice.
— Oh, não se preocupe. Todos precisam de palavras de incentivo de vez em quando. Se consegui acalmar sua mente, isso já é mais do que suficiente. As palavras devem ser usadas para apoiar os outros, e não para insultá-los. Além disso, acredito sinceramente que seu amor é algo maravilhoso, do qual você não deve se envergonhar, Shizuku. A maioria das pessoas nunca seria capaz de ser tão dedicada a outra pessoa.
— Obrigada. Não é que eu tenha vergonha dos meus sentimentos, só estou preocupada que meu querido irmão não os aceite.
— Enquanto você perseverar, ele também perseverará. No momento, ele ainda pensa em você como sua irmã, e será bastante difícil fazê-lo vê-la como uma mulher. Nesse aspecto, a Princesa leva vantagem, já que não precisa superar um obstáculo tão grande.
— Ngh… — a análise objetiva de Alisuin atingiu a Shizuku com força.
Na verdade, Shizuku não era uma pessoa tão perturbada assim. Ela sabia muito bem que seria difícil fazer Ikki aceitar seus sentimentos. Mas era justamente por isso que sabia que teria que abandonar todas as noções de bom senso se quisesse conquistar o coração dele.
Por enquanto, seu plano era passar tanto tempo com ele que, eventualmente, conseguiria substituir a percepção que tinha dela como irmã por uma de namorada em potencial. Se não conseguisse fazer isso agora, quando a diferença de quatro anos desde o último encontro tornava mais difícil para ele avaliar como lidar com o relacionamento, então ela estaria perdida.
No entanto, a abordagem de força bruta só poderia funcionar se Ikki realmente a achasse atraente. Ela também estava preocupada que suas constantes investidas pudessem estar incomodando seu irmão. Se fosse esse o caso, era possível que ele deixasse de amá-la até mesmo como irmã se fosse longe demais. Shizuku era constantemente atormentada por essas preocupações, a ponto de ficar à beira das lágrimas todas as noites.
— Não fique tão triste. A princesa tem seus próprios obstáculos a superar, como sua posição social. Além disso, não há homem vivo que não goste de uma mulher assertiva. Especialmente uma tão bonita quanto você, Shizuku — disse Alisuin com voz tranquilizadora.
Não tenho tanta certeza…
Quando menina, Shizuku não entendia muito bem como os homens pensavam. Mas se Alisuin dizia que era assim que os homens eram, então acreditava. Pelo menos, Alisuin os entendia melhor do que ela.
— Obrigada, Alice. Eu me sinto melhor agora.
— De nada. Dito isso, acho que beijá-lo assim que o viu foi um pouco agressivo demais. Entendo que você precisava fazer isso para não perder a determinação, mas agora seu irmão ficou na defensiva.
— Eu me arrependo disso…
— É preciso ter paciência com os homens. Remova suas inibições uma a uma, lentamente. De qualquer forma, deixe a escolha da roupa para o encontro de amanhã comigo. Vou escolher as roupas mais bonitas que você já viu.
— Obrigada. Enquanto você estiver comigo, Alice, não há como eu perder para aquela mulher.
Se Stella estava determinada a usar sua promessa com Ikki para conquistar seu coração, então Shizuku aproveitaria ao máximo sua posição como irmã mais nova dele. Não havia como entregá-lo. Ela era a única que podia entender sua dor. A única que sabia das injustiças que havia sofrido na casa da família. Não podia deixá-lo aos cuidados daquela mulher.
Na verdade, Shizuku não confiava em mais ninguém para amar Ikki da mesma forma que o amava. Estava convencida de que todas as outras pessoas no mundo só se preocupavam consigo mesmas. Mas ela nunca trairia o irmão. Nunca faria nada que o entristecesse. Ficaria ao lado dele, não importava o que acontecesse, e seus sentimentos por ele nunca diminuiriam. Foi isso que ela jurou a si mesma quando Ikki partiu, e era por isso que estava aqui agora.
Aquela mulher jamais iria tão longe por meu caro irmão.
Shizuku estava deprimida desde que Stella havia arruinado seus planos para o encontro, mas agora seus olhos brilhavam com determinação. As palavras de Alisuin lhe deram força, como sempre faziam.
— Eu consigo — disse ela com determinação.
— Esse é o espírito. Tudo bem, está pronto.
Alisuin desligou a secadora quando terminou de pentear. Shizuku balançou um pouco a cabeça, e seus cabelos prateados caíram ordenadamente ao seu redor. Alice era muito melhor no cuidado do cabelo do que ela jamais fora. Por isso, ela a deixava cuidar de seu cabelo com prazer, em vez de fazê-lo sozinha.
Espero poder fazer algo para retribuir à Alice algum dia. Mas será que há alguma coisa que eu possa fazer que ela não possa?
Shizuku inclinou a cabeça para o lado enquanto pensava. Depois de um tempo, finalmente teve uma ideia.
— Ah, sim. Ei, Alice. Quer ir comigo ao cinema amanhã?
— Tudo bem? Tem certeza de que quer que eu fique de vela no seu encontro?
— Tudo bem. No momento em que aquela mulher se envolveu, deixou de ser um encontro de verdade.
— Heheh. Justo. Então, acho que vou aceitar o convite. Estou ansiosa para conhecer esse seu irmão de quem você fala tão bem.
Ótimo. Ela está feliz por eu a ter chamado.
Agora, tudo o que Shizuku precisava fazer era enviar uma mensagem para Ikki e perguntar se estava tudo bem. Ele estava levando sua própria colega de quarto, então duvidava que tivesse algum problema com isso.
— Agora estou bastante ansioso pelo dia de amanhã. Se ele for realmente tão incrível quanto você diz, talvez eu mesma o devore.
— Hã? O que você acabou de dizer? Desculpe, mas devo ter ouvido mal, então você poderia repetir? Parecia que você estava desejando a morte.
— Desculpe, não achei que você levaria minha piada tão a sério. Por favor, guarde sua Yoishigure. Eu não vou fazer nada.
É melhor você estar brincando, Alice. Para o seu próprio bem.
Se não estivesse, Shizuku teria que eliminá-la, independentemente de quão úteis seus conselhos pudessem ter sido.

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Na manhã do tão esperado encontro para ir ao cinema, Ikki Kurogane e Stella Vermillion esperavam do lado de fora do portão principal da Academia Hagun por Shizuku e Alisuin. Nenhum dos dois estava usando o uniforme escolar naquele dia. Ikki estava vestido casualmente, com camiseta e jeans, e Stella usava uma blusa branca elegante e um cardigã de cores vivas.
— Elas estão atrasadas. Por que estão demorando tanto? — Stella perguntou.
— Se estivéssemos no mesmo dormitório, poderíamos ter saído todos juntos — respondeu Ikki.
Ikki e Stella estavam alojados no primeiro prédio do dormitório da academia, enquanto Shizuku e Alisuin estavam no segundo. Os dois dormitórios ficavam em lados opostos do campus e tinham o prédio principal da escola entre eles, e foi por isso que decidiram se encontrar no portão principal. No entanto, já havia passado da hora marcada para o encontro, e Shizuku ainda não havia aparecido.
— Tenho certeza de que elas virão em breve. Mas tenho que dizer, estou surpreso que você esteja tão animada para este filme, Stella.
Ikki lembrou-se de como Stella insistira fervorosamente que iria também quando Shizuku o convidou para ir ao cinema.
— Quer dizer, não posso deixar você e Shizuku sozinhos em um cinema escuro. É muito perigoso.
— O que há de tão perigoso nisso?
— O fato de você não perceber o perigo é o maior problema aqui! Já esqueceu o que aconteceu no primeiro dia de aula?!
— Ah, sim… — Ikki não conseguia esquecer isso, mesmo que quisesse. Afinal, tinha sido seu primeiro beijo. — No entanto, ela me pediu desculpas no dia seguinte. Ela disse: “Fiquei tão emocionada depois de te ver pela primeira vez em quatro anos que deixei a emoção subir à minha cabeça. Sinto muito.” Tenho certeza de que ela só pensa em mim como seu irmão e não fará algo assim novamente. Aquele primeiro dia foi uma exceção. Eu vou ficar bem.
— Tenho certeza de que ela apenas recuou um pouco por causa do quão desconfortável você ficou…
— Hmm? O que você disse?
— Eu disse que você é uma pessoa sem esperanças, obcecado por sua irmã.
— N-Não, não sou! Quero dizer, eu amo minha irmã, mas apenas como família! É minha parente de sangue! Só porque não nos vemos há quatro anos não significa que de repente me sentirei atraído por ela!
— Sério? Você não vai mais ficar admirado com a beleza de Shizuku?
— Não vou.
Desejar sua própria irmã é errado.
Eu absolutamente não posso deixar isso acontecer de novo.
Era verdade que Ikki já havia cometido esse erro uma vez, mas ele ficava deprimido por Stella duvidar tanto dele. Ele suspirou ao perceber o quanto parecia não ser confiável. Nesse momento, Shizuku finalmente chegou.
— Desculpe o atraso, querido irmão.
— Ah, Shizu…
— O que você estava fazendo para demorar…
Ikki e Stella pararam no meio da frase, com a boca aberta de espanto.
— Levei mais tempo do que esperava para me preparar. — Shizuku inclinou a cabeça em sinal de desculpas. Ela estava dez vezes mais bonita do que o normal.
Ela estava vestida com uma roupa de lolita gótica, que acentuava sua pequena estatura e cabelos prateados, fazendo-a parecer uma boneca. A roupa combinava muito mais com ela do que o uniforme escolar. Enfatizava todos os seus encantos.
No entanto, Shizuku sempre gostou desse tipo de roupa, mesmo quando era criança, e Ikki estava acostumado a vê-la usando-as. Assim, normalmente, vê-la com roupas tão nostálgicas teria ajudado a reforçar a ideia de que ela era sua irmãzinha em sua mente, garantindo que não se sentiria acidentalmente atraído por ela novamente. Mas Shizuku fez um truque de mágica extra para garantir que isso não acontecesse.
E-Ela está linda…
Ela estava tão deslumbrante que tudo ao seu redor parecia sem cor em comparação. Ikki acabara de dizer que não ficaria impressionado com a beleza de Shizuku, mas mais uma vez ficou encantado. Como resultado, levou alguns segundos para perceber por que estava tão diferente hoje: ela havia se maquiado.
Havia sombra delineando suas pálpebras e ela estava usando batom. Também havia modelado os cílios, e o que quer que tivesse feito ao cabelo fazia com que cada fio prateado parecesse perfeito. Era isso que a fazia parecer literalmente deslumbrante.
O mais incrível sobre sua maquiagem era que ela realçava seus encantos naturais, em vez de os encobrir. Ikki foi forçado a vê-la não como sua irmã ou como uma criança, mas sim como uma mulher.
— I-Isso é trapaça! Não há como uma amadora como você conseguir fazer uma maquiagem assim! Você foi a um cabeleireiro?! — exclamou Stella.
— Não sou uma Princesa rica como você. Não tenho dinheiro para isso. Minha colega de quarto fez isso por mim.
— O quê?
— Essa colega é a mesma Alisuin que viria com você hoje? — Ikki perguntou, curioso.
Shizuku havia dito a Ikki o nome de sua colega de quarto quando perguntou se poderia trazê-la. Ele se lembrou dela descrevendo sua colega de quarto como “uma irmã mais velha confiável”.
— Sim. Ela deve chegar a qualquer momento. — Assim que Shizuku terminou de falar, sua colega de quarto chegou.
— Precisa ir mais devagar, Shizuku. E se você tropeçar e estragar sua maquiagem?
Ikki e Stella se viraram para olhar para a recém-chegada.
— Hã?
As expressões de ambos endureceram como pedra. A maquiadora profissional Alisuin, que Shizuku descrevera como uma “irmã mais velha”, parecia muito com um garoto.


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— Eheheh, prazer em conhecê-los. Muito obrigada por me convidar para sair hoje. Sou a colega de quarto da Shizuku, Nagi Alisuin. Não gosto muito do meu nome, então, por favor, me chame de Alice.
A roupa de Alisuin combinava com a de Shizuku em estilo — monocromática com uma estética visual kei —, o que combinava muito bem com sua estatura alta e esguia. Ela tirou o chapéu-coco e fez uma reverência antes de sorrir calorosamente para Stella e Ikki e estender a mão para um aperto de mão.
— Hum, p-prazer em te conhecer também.
— Prazer em conhecê-la…
Os dois apertaram a mão de Alisuin desajeitadamente, incapazes de esconder sua confusão.
— O-O que diabos está acontecendo aqui? — Stella sussurrou para Ikki.
— Não me pergunte — ele respondeu, também mantendo a voz baixa.
Ambos assumiram que Alisuin era uma garota, mas essa pessoa claramente parecia um homem. Um homem um pouco afeminado, talvez, mas sem dúvida um homem. Era mais alto que Ikki, provavelmente com mais de 180 centímetros de altura.
— No entanto, ele parece e age como uma menina. Isso é uma piada japonesa específica? Eu deveria estar rindo?
— Não tenho ideia.
— Heheh. Olha, Shizuku. Os dois estão atordoados com a minha beleza.
— Que péssima maneira de interpretar nossa reação! — gritaram Stella e Ikki em uníssono.
— Hum, Srta. Alice? — Ikki então perguntou hesitante.
— Não precisa ser tão rígido.
— Alice, então. Hum… você é um travesti?
— Não. Sou simplesmente uma mulher presa no corpo de um homem.
— Q-Qual é a diferença entre os dois, Stella?! — Ikki sussurrou indignado, voltando-se para sua companheira.
— Por que está perguntando para mim?
— Vocês estão surpresos? — Shizuku perguntou, notando a confusão de Ikki e Stella.
Ikki coçou a cabeça desajeitadamente e respondeu: — A-Ahahaha. Sim, eu acho. Eu sabia que pessoas como Alice existiam, mas esta é a primeira vez que encontro uma, então não tenho certeza de como agir. Desculpe.
— Eheheh. Não precisa se desculpar. Estou acostumada. Shizuku não se incomodou nem um pouco, sabe.
— O gênero de uma pessoa não importa muito para mim — Shizuku disse calmamente, e Ikki ficou sinceramente comovido com a facilidade com que sua irmãzinha aceitava pessoas diferentes dela.
Ela ficou ainda mais madura do que eu no tempo que passamos separados.
Ele definitivamente queria se tornar mais parecido com ela e estar disposto a aceitar as pessoas como elas eram.
— Não me importo se é homem ou mulher. Odeio todos igualmente — acrescentou ela, e Ikki imediatamente sentiu vontade de retirar tudo o que acabara de pensar.
Alguém, por favor, cure o coração partido da minha pobre irmã.
— Claro, você não vê pessoas como Alice com frequência, mas ela quer que as pessoas a tratem como uma garota, então é isso que farei. Eu preferiria que pudessem fazer o mesmo, querido irmão, Stella.
— Farei o meu melhor… — disse Ikki.
— Heheh. Eu aprecio o sentimento, mas você não precisa forçá-lo. Não quero que as coisas fiquem estranhas entre nós.
Alisuin estava claramente acostumada a esse tratamento, pois gentilmente ofereceu uma solução para Ikki.
— Bem, de qualquer forma, estamos todos aqui agora, então vamos ao cinema — disse Ikki, deixando o assunto de lado por enquanto.
— Sim — concordou Stella. — Não adianta ficarmos parados sem fazer nada.
— Ainda temos algum tempo antes do filme começar, por isso podemos ir com calma, querido irmão — observou Shizuku, olhando para um relógio próximo. Ela então habilmente passou o braço ao redor do de Ikki. Fazia isso com frequência quando eram crianças, mas ele ainda estava surpreso.
— Whoa!
Ela estava muito mais bonita do que o normal hoje, o que tornava difícil para ele estar tão perto dela. Sua determinação anterior de não se sentir atraído já estava começando a desmoronar. Mas antes que pudesse pedir-lhe para soltá-lo, ela disse: — Eheheh. Faz tanto tempo desde a última vez que andamos de braços dados, querido irmão.
— Uh, sim… acho que sim.
Quando viu o sorriso nostálgico de Shizuku, Ikki não conseguiu se afastar. Ali estava ela, buscando contato físico com seu irmão como irmã, e ele estava prestes a pedir que o soltasse só porque estava tendo dificuldade em vê-la como irmã. É claro que ele não percebeu que era exatamente isso que Shizuku queria.
Stella, no entanto, não estava disposta a deixar isso passar.
— Ei! O que você acha que está fazendo?!
— Estou simplesmente passando um tempo com meu irmão. Costumávamos caminhar assim o tempo todo quando éramos crianças. Não é verdade, caro irmão?
— Oh, hum… Ahaha, acho que tecnicamente sim…
— N-Nesse caso, eu também vou…
— Imaginei que diria isso, então trouxe algo para você. Aqui está sua coleira. Aproveite para criar laços com seu mestre da maneira adequada.
— Nossa, que gentileza… Você achou mesmo que eu iria aceitar isso?!
— Mas uma simples criada não tem permissão para andar ao lado de seu mestre. Foi você quem se intrometeu, dizendo que, como criada dele, precisava colocá-lo no caminho certo. Certamente não negará ser criada dele agora que isso é inconveniente, não é? Ou é isso que as promessas da família real Vermillion valem?
— Ngh!
— Bem, se você realmente quiser, acho que poderia dar as mãos ao meu querido irmão, afinal, ele tem duas mãos. Mas não consigo imaginar nenhuma razão para você querer dar as mãos a um homem, a menos que tenha sentimentos especiais por ele. Stella, será que…
— C-Claro que não! Eu só me tornei sua criada porque perdi para ele em um duelo! Isso é tudo!
O orgulho de Stella não lhe permitia admitir que tinha se colocado numa situação difícil. Naturalmente, Shizuku estava aproveitando-se disso ao máximo.
— Então acho que você não precisa segurar a mão dele — disse ela, enxotando Stella.
— Grr…
— Venha, querido irmão. Vamos embora.
— C-Certo…
— O que houve com aquela história de não ficar impressionado com a beleza dela, seu obcecado por irmãs?! Pervertido! — Stella xingou enquanto Ikki e Shizuku caminhavam de braços dados.
Serei capaz de sobreviver um dia junto com as duas? Ikki pensou preocupado.

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Havia um grande shopping center relativamente perto da Academia Hagun. O cinema ao qual Ikki e os outros estavam indo, o Cinemaland, ficava no quarto andar — o último andar — desse shopping. No entanto, o grupo não foi direto para lá. Como Shizuku havia dito anteriormente, ainda havia um bom tempo antes do filme começar.
As únicas coisas no quarto andar eram o cinema e uma loja de presentes. Por recomendação de Alisuin, os quatro decidiram primeiro matar o tempo na praça de alimentação.
— Mmm! Este crepe está delicioso! — exclamou Stella, dando uma mordida na sobremesa. Alisuin havia recomendado este café em particular, e provou ser um grande sucesso.
— Eu sempre evitei crepes porque pareciam desnecessariamente caros, mas este é muito bom — disse Shizuku, enquanto comia seu próprio crepe.
— Viu? O café aqui não economiza no creme, por isso os crepes são deliciosos. Mas não recomendo o sorvete deles. Se quiser um sorvete bom, o Raskin-Bobbins no terceiro andar é melhor — sugeriu Alisuin.
— Você realmente sabe muito sobre esse lugar — comentou Ikki.
— Eu pesquisei as opções gastronômicas daqui com antecedência. Nós, meninas, adoramos doces, então eu queria escolher os melhores lugares.
— Se você quer doces saborosos ou roupas da moda, Alice é a melhor pessoa para perguntar. Se há algo em particular que esteja procurando, Stella, ela saberá.
— Bem, não sei se conheço alguma loja que venda roupas que a realeza usaria, mas posso indicar todos os melhores lugares para comer sobremesas. Na verdade, podemos visitar todos eles hoje, se quiserem.
— Sério?! Parece ótimo! Que outras lojas são boas?!
— Há outro café neste shopping que faz um tiramisu divino…
Ikki observava à distância enquanto as meninas discutiam animadamente sobre os vários doces que queriam experimentar. Ele não se sentia muito à vontade em participar de uma conversa feminina como essa. O fato de não ser um grande fã de doces também não ajudava.
Alice parece estar realmente se adaptando bem, no entanto.
Mesmo Stella, que inicialmente ficou surpresa, não parecia mais se importar muito com o gênero de Alisuin. Ela já era mais próxima dela do que de qualquer outro rapaz da turma.
Talvez seja mais fácil para as meninas aceitarem pessoas como a Alice? Mas acho que ela também é bem bonita, então seria popular entre as meninas de qualquer maneira.
Enquanto tomava um gole de café gelado, Ikki notou que havia um pouco de chantilly na bochecha de Shizuku.
Uh-oh. Seria um problema se isso arruinasse sua maquiagem.
Ele ficou surpreso com o quanto a maquiagem a deixava mais bonita, mas vê-la lambuzar o rosto com creme o lembrou de que ela ainda era sua irmãzinha, e seu nervosismo desapareceu. De certa forma, ele estava grato por ela ainda ser tão desajeitada.
Seria um desperdício deixá-la ficar assim depois que fez todo o esforço de se arrumar para hoje.
— Shizuku, deixe-me ver seu rosto bem rápido.
— Hmm? O que foi, querido irmão?
Quando Shizuku se virou, Ikki estendeu a mão e limpou o creme do rosto dela com o dedo.
— Tinha um pouco de chantilly na sua bochecha. Você deveria comer com mais cuidado. Não quer estragar sua maquiagem, certo?
Ikki enfiou o dedo coberto de creme na boca sem pensar duas vezes.
— Hrrrngh!
Shizuku corou intensamente e se escondeu atrás de Alisuin. Ela sempre teve o hábito de se esconder atrás das pessoas quando ficava envergonhada, e Ikki ficou feliz por pelo menos essa parte dela não ter mudado.
— Nossa. Eu não sabia que você só ficava confiante quando tomava a iniciativa e cedia quando a situação se inverte, Shizuku.
— C-C-C-Cala a boca, Alice! E-Eu acabei de ser pega de surpresa, s-s-s-s-só isso!
Ikki sorriu gentilmente para Shizuku. — Você só tinha um pouco de chantilly no rosto. Não há nada para ficar envergonhada.
— Não acho que seja isso que a faz corar. Você é mais perigoso do que parece.
— O que você quer dizer com isso?
— Eheheh. Não cabe a mim dizer.
Ikki lançou um olhar perplexo a Alisuin, mas antes que pudesse perguntar mais, Stella começou a tossir ao seu lado.
— Você está bem, Stella? Você não pegou um resfriado ou algo assim, né… — Quando se virou, Ikki viu que Stella tinha chantilly suficiente no rosto para parecer uma barba de Papai Noel.
— O que há de errado, Ikki? Você parece surpreso. Tem algo no meu rosto
— A única coisa surpreendente é que você não percebeu!
— Se tiver alguma coisa grudada nele, poderia limpar para mim, como fez com a Shizuku?
— É muita coisa para eu tirar com o dedo. Um segundo, vou buscar uma toalha.
— Ah, espera!
Antes que Stella pudesse detê-lo, Ikki correu e pediu uma toalha a uma garçonete.
— Er, Stella? Você é uma idiota? — Shizuku perguntou, parecendo espantada.
— Ora, acho fofo o quanto ela é desajeitada. Agora estou quase torcendo por ela também — disse Alisuin com um sorriso.
— C-C-C-C-Cale a boca! Eu não fiz isso de propósito para o Ikki limpar meu rosto ou algo assim! Minha mão escorregou! Sério!

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Depois que todos terminaram seus crepes, conversaram um pouco mais e, rapidamente, era hora do filme.
— Devemos começar a subir para o quarto andar — disse Shizuku, e todos se levantaram.
Foi só nesse momento que Stella finalmente perguntou: — A propósito, Ikki, que tipo de filme vamos assistir?
— Na verdade, não sei.
Ele finalmente se encontrou com a irmã depois de quatro anos, então aceitou o convite dela para ir ao cinema sem se preocupar em saber qual filme iriam assistir.
— O que você veio fazer aqui, então? — Stella perguntou.
— Não acho que tenha o direito de me perguntar isso.
— Estou aqui para ficar de olho em vocês dois, só isso. Então, Shizuku, que filme vamos ver?
— Um filme de romance antigo e normal.
— Eu sabia. Graças a Deus eu vim. — Stella esperava isso, e ela soltou um pequeno suspiro. — E como se chama?
— “Como Me Apaixonei Por Minha Irmã.” Classificação 15 Anos.
— Não há nada de normal nisso!
— É uma história de amor perfeitamente doce e pura. Desde que você ignore que o casal é formado por irmãos.
— Não acredito que você está chamando uma premissa tão imoral de história de amor puro! Como pode ser tão descarada a ponto de convidar seu irmão de sangue para assistir a isso com você?! Eu sabia que era louca, mas não imaginava que fosse tanto assim!
— Não quero ser chamada de descarada por alguém que grita para toda a turma ouvir que é criada de outra pessoa.
Shizuku tinha razão, mas Ikki ainda não queria ver esse filme com sua irmã.
— S-Shizuku, vamos escolher um filme diferente.
— Aww. Mas por quê? O que há de errado com este?
— Tudo.
Como é possível não perceber o problema de assistir a um filme sobre se apaixonar pelo seu irmão quando se está indo ao cinema com ele?
— De qualquer forma, não vamos assistir a este, e ponto final!
— Mrr. Se insiste, querido irmão, suponho que veremos um diferente.
Qual parece bom?
Shizuku abriu a página inicial do Cinemaland no seu tablet escolar e mostrou a todos o que estava em exibição.
— Oh, este parece bom! — disse Stella. — “Karuna, Princesa do Deserto”. É um filme animado sobre uma princesa que é sequestrada por um grupo de bandidos, mas acaba se apaixonando pelo líder deles. Parece muito romântico e…
— Rejeitado — disse Shizuku, interrompendo-a.
— Por quê?!
— Não quero assistir a um filme sobre uma vagabunda que abre as pernas para qualquer canalha aleatório que encontrar.
— É melhor do que um filme nojento em que a garota dorme com o próprio irmão! Especialmente se tiver uma classificação para maiores de 15 anos!
— Meu Deus. A este ritmo, nunca vamos conseguir decidir qual filme vamos ver — disse Alisuin, balançando a cabeça. — Que tal chegarmos a um acordo e assistirmos ao “Paraíso Perdido dos Homens”? A propósito, também tem classificação para maiores de 15 anos.
— Que tipo de acordo é esse?! — Stella e Shizuku gritaram em uníssono. Apesar de todas as suas discussões, elas se davam surpreendentemente bem.
— Vocês são mesmo exigentes. Acho que só resta um filme de ação.
— Este lugar não parece ter muitos filmes em exibição — disse Ikki, juntando-se à discussão.
— Isso porque é um cinema pequeno — explicou Alisuin.
— Mas acho que todo mundo gosta de filmes de ação, então por que não, né? O que vocês duas acham? — perguntou Ikki, voltando-se para Stella e Shizuku.
— Mrr. É uma pena, mas se é isso que você quer assistir, querido irmão, então suponho que sim.
— Tudo bem. Também gosto de filmes de ação, então acho que dá certo.
— Tudo bem, então está decidido. Felizmente, a próxima exibição é em apenas alguns minutos. — disse Alisuin.
— A propósito, Alice, qual é o nome desse filme de ação?
— “Gandhi: Liberação da Fúria.”
— Que tipo de filme é esse?! — Shizuku, Stella e Ikki exclamaram ao mesmo tempo.
Todos olharam para o cartaz do filme, que mostrava um monge extremamente musculoso carregando uma metralhadora com prédios em chamas ao fundo. O slogan dizia: “Um tolo disse uma vez que o perdão é força. Agora sei que ele estava errado.” Era certamente um cartaz chamativo.
Apesar de quão estranho o filme parecia, era o que o grupo havia decidido, então todos começaram a subir na escada rolante até o quarto andar.
Quando chegaram ao terceiro andar, Ikki disse de repente: — Desculpem, pessoal. Preciso ir ao banheiro rapidinho. Podem pegar meu ingresso para mim?
— Acho que vou com você — disse Alisuin, seguindo Ikki.
— Tudo bem, vamos comprar os dois ingressos. Vocês podem nos pagar depois — respondeu Shizuku.
— Certifiquem-se de voltar antes do filme começar. Não nos resta muito tempo — acrescentou Stella.
— Sim, vamos nos apressar.
— Ei, Shizuku! Guarde um lugar para mim ao lado do Ikki! — disse Alisuin, sorrindo alegremente.
— Vou comprar ingressos para apenas nós três, querido irmão.
— Desculpa! Eu estava brincando! Foi só uma piada!
Stella e Shizuku continuaram subindo a escada rolante enquanto Ikki e Alisuin se dirigiam para o banheiro masculino.
— Que bom. Finalmente estamos sozinhos — disse Alisuin com um sorriso.
— Hum, eu deveria estar feliz com isso?
— Espere, você não disse que ia ao banheiro porque queria passar um tempo a sós comigo?
— Não!
— Heheh. Eu sei. Só estou brincando. É engraçado ver suas reações.
— Desculpe… Ainda não sei bem como devo agir perto de você. Nunca conheci ninguém como você antes, Alice.
— Apenas pense em mim como uma garota normal.
Não, isso não vai acontecer.
— Não se preocupe — acrescentou, — não curto heterosexuais.
— H-Heterossexuais?
— Basicamente, não me sinto sexualmente atraída por você.
— A-Ah, entendi. Isso é reconfortante.
— Mas é verdade que eu queria falar com você a sós. Shizuku me falou muito sobre você, e eu quero te conhecer melhor.
— Eu também. Ouvi muito sobre você da Shizuku, então também fiquei curioso.
— Oh? Nossa, isso é inesperado. Nesse caso, que tal aprofundarmos nossos laços assistindo ao “Paraíso Perdido dos Garotos” juntos?
— Não é esse tipo de interesse! De qualquer forma, você provavelmente já percebeu, mas Shizuku é super tímida. Ela não se abre facilmente com as pessoas, especialmente com os homens. Isso me fez pensar em que tipo de pessoa você era.
— Mas eu sou uma garota.
Ikki olhou para Alisuin.
— Não me olhe assim. Você está querendo brigar?
— Na verdade, não…
Ele está falando sério? Sinceramente, não sei dizer.
Ikki estava tendo dificuldade em entender a pessoa conhecida como Alisuin. Ele decidiu que era melhor não se intrometer demais em coisas que não entendia, e mudou de assunto.
— Então, o que a Shizuku disse sobre mim?
— Esse é o nosso segredinho. — Alisuin pressionou seu dedo magro contra os lábios. Nesse momento, Ikki decidiu que não valia a pena comentar sobre o gênero dela. — Dito isso, ela só elogiou você. A imagem que ela retratou de Kurogane Ikki era a de uma pessoa verdadeiramente maravilhosa. Depois de conhecê-lo hoje, estou inclinada a concordar com a opinião dela sobre você. Mas é justamente porque é exatamente como imaginei que há algo que me deixa curiosa. Tudo bem se eu perguntar algo pessoal?
— Claro. O que você quer saber?
— Você não pôde participar de nenhuma batalha no ano passado porque sua família interferiu, certo?
— S-Sim. Fui proibido pela escola de lutar. Isso incluía aulas e batalhas simuladas.
Ikki ficou surpreso que Shizuku tivesse contado isso a Alisuin. Um assunto familiar como esse não era algo que ela falaria com qualquer pessoa. No mínimo, enquanto ainda vivesse sob a proteção da família Kurogane, ela não contaria a ninguém em quem não confiasse consideravelmente.
— No entanto, a diretora alterou a política da escola este ano, então agora poderei fazê-lo — acrescentou.
— Mas foi apenas um pouco de sorte que o salvou. E se a escola não tivesse substituído a diretora? Ou se a nova diretora não tivesse sido compreensiva com a sua causa?
— Para mim, não teria feito diferença. Eu continuaria fazendo o que pudesse. Quando soube que teria que repetir o ano, não sabia que uma nova diretora estava chegando.
— Você não achou que era uma perda de tempo permanecer?
— De forma alguma. Imagino que já saiba disso, Alice, mas todos os professores de uma escola de cavaleiros são Cavaleiros Mágicos profissionais por mérito próprio. Mesmo que não tivesse permissão para lutar, tenho certeza de que alguns deles seriam capazes de perceber o quão forte eu sou. Além disso, toda escola de cavaleiros deseja nada mais do que formar um aluno que se torne o Soberano das Sete Estrelas. Tudo o que precisaria fazer era garantir que os professores percebessem que eu tinha potencial para isso. Contanto que me tornasse forte o suficiente para que me quisessem lá mais do que temessem minha família, eu teria vencido. É por isso que estava disposto a continuar, não importava quantos anos levasse.
Ikki estava ciente de que, naquele momento, o relacionamento da escola com a família Kurogane valia mais para eles do que ele próprio. A única maneira de mudar as coisas seria tornar-se tão valioso que a escola o escolhesse em vez de sua família. Essa era a lógica que o mantinha firme, apesar dos obstáculos quase intransponíveis que sua família colocava em seu caminho.
— Ainda assim, sou muito grato à diretora — continuou ele. — Afinal, se existe um caminho mais fácil para mim, não há motivo para impor mais dificuldades.
— Eu entendo perfeitamente. — Por um breve instante, uma expressão estranha passou pelo rosto de Alisuin. Ikki apenas a vislumbrou, mas reconheceu-a como pena. — Ikki… você se acostumou demais com a dor.
— Alice?
— Só posso falar da minha experiência, então não sei se o que vi se aplica a você, mas, na minha opinião, força tem tudo a ver com resistência. Quanto mais dificuldades conseguir suportar, mais forte se tornará. É isso. Mas, à medida que acumula essas dificuldades, seu coração fica mais pesado. A menos que consiga liberar todo esse estresse reprimido em algum lugar, eventualmente, o fardo ficará grande demais e você sucumbirá sob ele. É por isso que quando começa a ficar insuportável, o coração grita. Raiva, tristeza, frustração – tudo isso vem do desejo de desabafar sua dor para os outros e fazer com que entendam o que está passando. Às vezes, esses sentimentos se manifestam de maneira pacífica, enquanto outras vezes, surgem em uma explosão violenta de emoção. Você, no entanto, teve que carregar tantos fardos que não consegue mais ouvir os gritos do seu coração.
Um silêncio pesado caiu entre os dois enquanto Ikki refletia sobre as palavras de Alisuin. Honestamente, ele não conseguia entender o que ela queria dizer.
— Não acho que isso seja verdade para mim — ele finalmente disse.
No mínimo, ele tinha certeza de que ainda sentia tristeza, frustração e coisas do gênero. Ele não era alheio às suas próprias emoções. No entanto, Alisuin balançou a cabeça.
— Não, você definitivamente não consegue ouvi-las. Não conseguiria ficar tão calmo se conseguisse. Não conseguiria dar aos outros sorrisos tão gentis.
Acho que é verdade que minha vida não tem sido nada fácil até agora. Mas acho que Alice está pensando demais nas coisas.
Apesar da expressão séria de Alisuin, Ikki só conseguiu sorrir sem jeito para ela e encolher os ombros.
Acho que é impossível que minhas palavras o alcancem agora, pensou Alisuin com um pequeno suspiro. Afinal, eles tinham se conhecido naquele mesmo dia. Precisariam se conhecer melhor antes que suas palavras tivessem algum peso.
Mesmo assim, Alisuin sentiu que precisava dizer isso agora. No mínimo, queria fazer com que Ikki tivesse um pouco de autoconsciência. Tanto porque ele era alguém de quem Shizuku gostava muito, quanto porque, apesar de conhecê-lo há pouco tempo, ela mesma gostava desse cara.
Dando um sorriso encorajador para Ikki, ela disse: — Um dia, espero que encontre alguém que ouça os apelos do seu coração que você não consegue mais ouvir. Como sua amiga, estou realmente torcendo pela sua felicidade. — Em seguida, ela beijou o rosário de prata pendurado em seu pescoço.
Ikki não sabia bem como reagir ao fato de alguém estar rezando pela sua felicidade. Eu deveria agradecer? Claro, isso não era importante agora, mas era tudo em que ele conseguia pensar.
Para surpresa do próprio Ikki, no entanto, as palavras de Alisuin ressoaram em algum lugar dentro dele. E embora não houvesse nenhuma mudança aparente, ele sentiu como se tivesse chegado a uma compreensão mais profunda sobre si mesmo.
— Ah!
Naquele momento, a expressão de Alisuin ficou séria e ela começou a olhar em volta, preocupada.
— Alice?
— Ikki, venha comigo.
Alisuin agarrou Ikki pelo braço e começou a correr.
— Hã?! O-O que está acontecendo?!
— Explico mais tarde! Apenas corra!
Ela o arrastou para o banheiro em que já estavam indo.
Talvez ele não consiga mais aguentar? Mas, no momento em que Ikki pensou isso, o som de vidros se quebrando ecoou em seus ouvidos.
— Ngh?!
Um segundo depois, houve tiros, seguidos imediatamente por gritos.
Tradução: Ouroboros
Revisão: Matface
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