
Skel e Po estão largados sobre suas carteiras.
— Acabou.
— Finalmente acabou…
Nós três tínhamos acabado de terminar as provas finais escritas da Academia Midgar.
— E aí, querem conferir o gabarito para ver como fomos? — perguntei.
Perder o Isaac foi um baque e tanto, mas consegui me virar colando da folha de respostas que a Nina me passou. Na verdade, estou bem orgulhoso do meu desempenho. Ajustei minhas notas em cada matéria para passar raspando em todas elas.
— Você está maluco? — respondeu Skel.
— Não dá para mudar a nota agora — concordou Po. — Além disso, as provas práticas são na semana que vem.
— É, justo — admiti.
Eu tinha quase certeza de que eles não se interessariam. Foi por isso mesmo que perguntei. Ainda bem que não quiseram, senão o tiro poderia ter saído pela culatra.
Já se passou cerca de um mês desde o ataque terrorista com a névoa branca, o que nos coloca mais ou menos na metade do segundo mês do ano. As coisas ficaram meio caóticas quando a Ordem dos Cavaleiros veio investigar, mas a academia voltou ao normal desde então.
Ainda assim, é incrível a quantidade de ataques terroristas que este mundo de fantasia tem. No meu mundo antigo, tudo o que eu fazia era, ocasionalmente, caçar uns delinquentes.
Ah, e a Claire está em coma desde então.
Sinceramente, não estou tão abalado com isso, e com certeza estou aproveitando minha recém-descoberta liberdade. Zeta disse que ela vai acordar uma hora ou outra, então tenho certeza de que provavelmente está bem. Isso pode afetar suas chances de conseguir um emprego, no entanto.
Na verdade, espere um minuto. Ela não fez as provas finais. Por favor, me digam que não vão reprová-la. Quanto antes ela se formar e sair do meu pé, melhor.
— Então, o que vocês querem fazer? — perguntei. — Poderíamos estudar para a prova prática…
— Você está maluco? — repetiu Skel.
— Agora que terminamos a prova escrita, estamos livres para vadiar o quanto quisermos até a prova prática — concordou Po.
— É, justo.
— E se você acha que pode simplesmente pegar nosso dinheiro e sumir, está muito enganado. Estamos com os bolsos cheios e vamos atrás de você.
— Temos o poder do Parcelamento Mitsugoshi do nosso lado!
Skel me deu um sorriso malicioso enquanto exibia um maço de notas, e Po começou a embaralhar um baralho de cartas.
— Agora, em frente ao nosso campo de batalha! — exclamou Skel.
— Suponho que você queira dizer o meu quarto, certo?
— É melhor você tomar um banho primeiro — disse Po. — Não vamos deixar você dormir um segundo esta noite.
— Eu tomo banho de manhã, como uma pessoa normal.
Eles me cercaram cuidadosamente, um de cada lado.
Então, ouvi a voz de Christina.
— Sinto muito, Kanade. A culpa é toda minha.
— Ah, não… O que eu vou fazer? — A garota parada em frente a ela parecia estranhamente familiar. — Não acredito que a Senhora Eliza vai sair impune…
Lágrimas escorriam pelo rosto da garota.
Ah, agora me lembro. É aquela que salvamos na névoa.
— Vamos lá, vamos fazer isso. — Skel me apressou.
— Não vá amarelar agora — disse Po.
— Tá bom, tá bom, estou indo.
Enquanto saía da sala de aula, só havia um pensamento em minha mente: ser um nobre importante deve ser ótimo. Eles podem se safar de qualquer coisa.
— Sempre há um vazio na vitória total — murmurei para mim mesmo, deitado sobre minha cama de dinheiro.
Skel e Po vazaram antes mesmo da meia-noite. No meio do jogo, comecei a limpá-los com uma eficiência mecânica, e meus ganhos foram se acumulando cada vez mais.
Quando a paixão se esvai, tudo o que resta é um vazio sem limites…
— Heh-heh-heh… Soei como um verdadeiro apostador agora.
Levanto-me da cama e começo a juntar as pilhas de notas que espalhei sobre ela para fazer cena. No total, são uns dois milhões de zeni. Valeu, Skel e Po. E valeu, Parcelamento Mitsugoshi.
— Então este é o baralho de edição limitada que a Mitsugoshi lançou, hein? Ouvi dizer que são caríssimos… mas também é meio sinistro.
O tema do design é “horror”. Provavelmente deveria apenas vendê-lo.
Ainda é muito cedo para dormir, então acho que vou treinar um pouco.
No exato momento em que começo a trabalhar minha magia, porém, vejo uma carta brilhante que caiu ao lado da minha cama.
— Hã, o que é isso?
A carta é dourada, brilhante e parece super chique. Na frente, lê-se “Cartão de Sócio do Royal Mitsugoshi Deluxe Bar” em letras elegantes, e no verso, “Sócio nº 001, Cid Kagenou”.
— Ah, é mesmo. A Mitsugoshi estava abrindo um bar chique só para sócios, e a Gamma me deu um cartão de membro.
Eu o ignorei completamente porque presumi que eles usariam o conhecimento que roubaram de mim para enganar todos que fossem lá.
— Um bar chique, hein…?
Dou uma olhada no meu gordo maço de dinheiro. Tenho uma queda por aquelas cenas que ocasionalmente aparecem em filmes de espionagem, onde as pessoas têm uma conversa secreta em um bar silencioso.
— E, ei, talvez eu consiga um desconto de amigo e família.
Na pior das hipóteses, posso sempre sair sem pagar.
Certo, vamos nessa.
Se você vai bancar o espião, tem que ser de terno. O que usei como John Smith está em frangalhos, então decido usar um da marca Mitsugoshi que ganhei da Alpha.
Depois de polir meus sapatos e repartir levemente o cabelo, saio para meu passeio noturno pela capital.
— Acho que é aqui…
Para minha surpresa, encontro o bar chique no subsolo, logo depois de um beco minúsculo. Sua porta é discreta e ostenta o logotipo da Mitsugoshi e uma gravação delicada. Acho que este lugar está apostando em uma vibe de “esconderijo secreto”.
Fico um pouco nervoso ao abrir a porta e entrar. O ambiente é silencioso. Todo o lugar é iluminado indiretamente, e a fileira de luzes fracas pendentes sobre o balcão do bar faz com que pareça um mar de estrelas brilhantes. O chão é feito de pedra de lobo-rei, e parece que cada mesa é feita de uma única prancha de madeira de Yggdrasil. Estamos falando de centenas de milhões de zeni em coisas, e isso só de relance. Um arrepio percorre minha espinha enquanto calculo o risco e o retorno de saquear o lugar.
— Boa noite, senhor.
— Ah, uh, oi. — Minha resposta sai mais boba do que eu pretendia, possivelmente porque eu estava pensando em algo inescrupuloso. — Tenho meu cartão de sócio aqui.
Enfio a mão no bolso para tirar o cartão dourado brilhante, mas a anfitriã balança a cabeça.
— Garanto que não será necessário, Sr. Cid Kagenou. Bem-vindo ao nosso humilde estabelecimento. Temos uma sala VIP nos fundos, se estiver interessado…
Ela vira seus olhos heterocromáticos para os assentos no canto.
— Não, vou ficar no balcão.
Levo um momento para me decidir, mas se você está bancando o espião, tem que sentar no balcão.
— Muito bem. Por favor, siga-me.
— Desculpe, mas… já nos encontramos em algum lugar?
Ela se virou para me levar ao meu lugar, mas quando faço a pergunta, ela me olha de volta, surpresa. É uma meio-elfa de cabelos escuros e olhos de cores diferentes: dourado e prateado.
— Nos encontramos na Mitsugoshi. — Ela me diz.
— Ah, certo, você estava lá com a Gamma.
— Sinto-me honrada por se lembrar de mim. Meu nome é Omega. Agora, seu lugar é por aqui.
Sigo Omega até o balcão e me sento. A bartender também me parece familiar. É uma elfa loira de cabelo curto, usando um uniforme masculino.
— Você também estava na Mitsugoshi, não estava? — pergunto a ela.
— Vossa senhoria me honra. Meu nome é Chi.
— Sou Cid Kagenou.
— Oh, estou bem ciente.
Chi me faz uma reverência serena, mas por algum motivo, seus dedos estão tremendo. Talvez ela não trabalhe como bartender há muito tempo.
É essa a pessoa que você tem trabalhando no seu bar chique?
— Vou querer…
Já escolhi meu pedido. Estou com vontade de reencenar o filme de espionagem favorito de todo mundo.
— …um vodka martini.
Então, baixo a voz para um grave profundo e ressonante.
— Batido, não mexido.
Em momentos como este, é importante se portar como um durão experiente. Não posso deixar que descubram que esta é minha primeira vez em um bar como este. Em vez disso, preciso impor uma pressão silenciosa, como se eu estivesse testando-os.
— Um vodka martini batido, saindo já.
A expressão de Chi está tensa, e ela respira fundo para firmar as mãos trêmulas.
Agora que penso nisso, talvez essa tremedeira seja parte do processo de fazer coquetéis. Quanto mais a encaro, mais intensa a tremedeira fica.
— Entendo… — murmuro.
Não entendo muito de coquetéis, então esta é uma informação valiosa que estou aprendendo. Aparentemente, o truque para ser um bom bartender é o quão forte seus dedos tremem.
Nesse ponto, uma pergunta me ocorre. Desde quando este mundo tem vodka?
— Que estranho… — digo.
Chi congela.
Tudo bem, não estava falando de você. Estava falando do fato de que vodka sequer existe neste mundo.
No momento em que começo a questionar, porém, percebo que a resposta é óbvia. As garotas fizeram isso.
— Nunca imaginei que você bebesse vodka martini. — Uma voz clara e bela vem de trás de mim.
Sei quem é sem nem precisar me virar.
— Olá, Alpha.
— Há quanto tempo.
— Verdade.
Ela parece um pouco mais madura do que da última vez que a vi. Tem lindos cabelos loiros e olhos azuis, e seu vestido discreto combina perfeitamente com o ambiente do bar.
— Pensei que você não gostasse de bebida alcoólica. — Ela observa.
— Eu disse isso?
— Não em voz alta. Apenas não consigo me lembrar de uma única vez que te vi apreciando uma bebida.

Caramba, ela é esperta. Em geral, não consigo distinguir uma bebida alcoólica da outra. Só estou bebendo porque parece legal.
— Não é que eu odeie ou algo assim.
Alpha ri baixinho.
— Você realmente odeia, não é?
— Obrigado por esperar. Aqui está seu vodka martini — anuncia Chi.
Suas mãos ainda tremem enquanto ela coloca o coquetel na minha frente.
Ela está ficando mais nervosa a cada momento. Deve ser mesmo uma profissional.
— Vou querer um Manhattan — diz Alpha.
— Saindo já.
O pedido de Alpha, o Manhattan, é um coquetel à base de uísque. O problema é que não há uma boa razão para o uísque sequer existir aqui.
— Então você terminou de recriar o uísque — digo, fingindo confiança para induzi-la a me dar informações.
— Certamente demorou bastante, mas sim. Ainda não começamos a vender, mas quando o fizermos, acreditamos que alcançará um preço considerável. O nobre de Velgaltan que o provou disse que o avaliaria em vinte milhões de zeni por garrafa.
— E-entendo…
Eu sabia. Nunca deveria ter me empolgado e me gabado para elas sobre o quanto eu sabia sobre destilados.
— Não teríamos conseguido sem o seu conhecimento — acrescenta Alpha.
— Aham…
Pode dizer isso de novo.
Estou tão frustrado que bebo meu vodka martini inteiro de um só gole.
— Como estava?
— Nada mal.
Sim, com certeza tinha gosto de álcool.
Alpha sorri.
— Heh-heh…
— O que é tão engraçado?
— Oh, nada. Estou apenas satisfeita.
— Com o quê?
— Aquele terno. Você finalmente está usando.
— Ah, certo.
— Encomendei especialmente. É feito de seda de verme negro.
— Uau…
Vermes-negros são como os bichos-da-seda do meu antigo mundo, só que são enormes, violentos e venenosos. É preciso um caçador mestre para colher sua seda, um fato que se reflete em seu preço.
— Sabe, eu te perdoo por quebrar sua promessa — diz ela enquanto me contempla com deleite em meu terno.
Vou ser sincero: não faço a menor ideia de que promessa ela está falando.
— Obrigado por esperar. Aqui está seu Manhattan.
— Muito agradecida.
Parece que a Alpha está de bom humor hoje. Ela toma um gole de seu Manhattan e assente.
— Algo um pouco mais envelhecido teria combinado melhor, mas não está ruim. — Ela pousa o copo e me olha de volta. — Agora, você não suporta álcool, mas veio ao bar mesmo assim. Aconteceu alguma coisa?
— Hã? Não, nada de especial. Apenas encontrei o cartão de sócio no meu quarto.
— Ah, e você estava preocupado em ser vigiado. Neste bar, podemos falar livremente. Não há ninguém aqui no momento além dos iniciados.
De repente, ela fica mortalmente séria. Em outras palavras, ela decidiu entrar na minha encenação de espião.
— Bom saber. Como foi aquela missão?
— Ah, a missão — diz ela, com a expressão ainda tão séria quanto. — Detalhei o que aconteceu em Oriana no meu último relatório.
— Certo, o relatório. Eu o li nos três segundos entre completar uma missão e começar a outra.
O Jardim das Sombras me envia um número enorme de relatórios regularmente. Dito isso, estão todos escritos em alguma escrita antiga que não consigo ler, então sempre os incinero assim que os recebo.
— Três segundos? Você está acelerando a velocidade de processamento do seu cérebro ou algo assim?
— Heh… — levanto silenciosamente meu copo aos lábios.
— Ah, é uma técnica da qual você ainda não pode falar. Percebo que deve exigir um profundo grau de talento. Entre o fardo que isso deve colocar em seu cérebro e os riscos que acarretaria se as coisas dessem errado… Concordo, não estamos equipados para lidar com algo assim. Devo dizer, porém, que temos treinado diligentemente de acordo com suas instruções. Quando estivermos prontos, por favor, nos ensine.
— Estarei esperando grandes coisas de vocês.
— Não vou te decepcionar. Juro pela minha vida!
— E como está indo aquela missão?
— Tudo está ocorrendo sem problemas. Rose Oriana decidiu servir como rainha e lutar.
— Exatamente como planejado, então.
— Você deve ter previsto essa conclusão no momento em que a contatou pela primeira vez. Estava tão fixado nela que comecei a ficar com um pouco de ciúmes — brinca Alpha.
— Ela é uma peça necessária no plano.
— Agora eu entendo. Precisamos dela para trazê-los à luz.
— À luz?
— O que foi?
— Não, não é nada. Estava apenas analisando a situação de todos os ângulos e imaginando o pior resultado possível que o futuro próximo poderia trazer.
— Você realmente presta atenção a todas as possibilidades, não é? Só queria que prestasse um pouco mais de atenção ao resto de… Não, não é nada. — Ela começa a dizer algo, mas se interrompe. — Você nunca mudou. Todo esse tempo, você esteve perseguindo um sonho gigante. É um sonho grande demais para o resto de nós compreendermos mais do que um fragmento… mas os preparativos estão finalmente completos, não estão?
— Se você olhar para o horizonte, demos apenas o primeiro passo.
— Eu entendo isso. Com os fundos e a tecnologia do Jardim das Sombras, podemos remodelar o Reino de Oriana. Pode deixar essa parte conosco. Temos tudo correndo bem no momento.
— Entendo. Se as coisas estão correndo bem, então deixo em suas mãos.
— Ah, e mais uma coisa. Atualizamos a cifra da escrita antiga.
Alpha me entrega algumas folhas de papel. Não consigo evitar uma careta ao ver como estão absolutamente cobertas de uma escrita antiga que não consigo decifrar.
— Essa aí é a folha decodificadora, mas talvez a cifra fosse simples demais para você. — Ela me diz.
— Aham…
Isso é um desastre. Meus olhos doem só de olhar para essa coisa.
— Vou querer um suco de maçã — digo enquanto guardo os papéis no bolso.
Os olhos de Chi se arregalam de surpresa.
— Hã? Oh, claro. Um suco de maçã, saindo já.
— Continuando: temos o incidente na Academia Midgar. Recebi um relatório de missão de Zeta. Embora tenha demorado bastante para ela me entregar — diz Alpha com um suspiro. — Juro, aquela garota não saberia o que é um prazo se ele a atingisse na cara. Se importaria de ter uma palavrinha com ela?
— Ela tem seu próprio jeito de fazer as coisas.
— Você realmente precisa parar de mimá-la. Ainda assim, foi graças a ela que conseguimos acabar com a Seita Fenrir.
— Ah, sim. A Seita Fenrir. Claro.
— Ela localizou seus esconderijos e rotas de fuga com antecedência. Assim que você derrotou Fenrir, ela levou menos de meio dia para aniquilá-los. Foi quase eficaz demais.
— Entendo.
Acho que ela está falando daqueles terroristas.
— Por causa da situação em Oriana, tínhamos pouquíssimo pessoal disponível — continua Alpha. — Acho difícil de acreditar que conseguiram eliminar toda a Seita em meio dia com apenas Zeta, Victoria e um punhado de Números. Ainda assim, estamos falando de Zeta, então imagino que há muitos detalhes que não entraram em seu relatório. — Ela solta outro grande suspiro. — Pode, por favor, falar com ela? E dizer para levar seus relatórios a sério? E também, para evitar correr riscos desnecessários.
— Sim.
— Certifique-se de fazer isso, ok?
— Sim…
— Obrigado por esperar — diz Chi. — Aqui está seu suco de maçã.
— Sim!
Isso realmente veio a calhar. Usaram maçãs boas nesse negócio.
— Zeta também cuidou da limpeza — explica Alpha. — Ela fez um bom trabalho cobrindo nossos rastros, e o Culto de Diablos fez o mesmo com seus infiltrados na Ordem dos Cavaleiros. É por isso que, oficialmente, tudo está sendo tratado como um ataque terrorista.
— Usando a mesma história de sempre, entendo.
— Então há a questão do coma de Claire. O relatório de Zeta não foi particularmente informativo. Talvez queiramos examiná-la novamente…
— Não, está tudo bem. Deixe-a dormir.
A esta altura, é praticamente certo que ela terá que repetir o ano, então não há motivo para acordá-la um segundo antes do necessário.
— Mas…
— Eu consigo lidar com a situação da minha irmã.
Alpha me dá um pequeno sorriso.
— Muito bem. Percebo que você também está preocupado com ela.
— Ah, certo, falando do ataque terrorista… — Lembro-me do que ouvi Christina falando na sala de aula mais cedo. — Nossa vice-presidente do conselho estudantil, Eliza, aproveitou o caos para atacar outros estudantes.
— Eliza… Ah, daquela grande família aristocrática.
— Sim, essa mesma. A Ordem dos Cavaleiros estava investigando seus crimes, mas parece que ela será considerada inocente.
— Você quer que ela seja considerada culpada? Tenho certeza de que poderíamos…
— Não, não é isso que estou pedindo. O veredito em si não importa. É que havia muitas evidências e testemunhos, então o fato de ela simplesmente se safar me deixa um pouco…
…com inveja, sinceramente.
— É justo. Você tem razão: a corrupção em Midgar é profunda. A nação é maior que Oriana, mas isso só significa que a corrupção está ainda mais enraizada. E o pai de Eliza Despoht, o Marquês Brad Despoht, é o líder de uma facção que simboliza essa podridão.
— Hmm.
— A facção é chamada as Treze Lâminas da Noite. Como o nome sugere, é uma sociedade secreta de treze dos homens mais influentes do Reino de Midgar. As pessoas os chamam de governantes das sombras de Midgar, e eles têm fortes laços com o Culto de Diablos e outras organizações criminosas. Brad Despoht deve ter sido quem deu a ordem para que Eliza fosse inocentada de todas as acusações.
— Governantes das sombras, você diz…
Alpha tira uma folha de papel com um retrato e uma biografia.
— Muito provavelmente, este é o homem que cuidou de todos os detalhes, Conde Shoddi Goodz. Ele é o membro de mais baixo escalão das Lâminas da Noite, um confidente próximo de Brad e um promotor formidável. Ele é o homem encarregado de lidar com casos movidos contra a nobreza. Ele vai evitar processar e alegar que as provas não eram fortes o suficiente.
Então este é Shoddi Goodz, hein? Ele parece o mal em pessoa.
Já que estamos aqui, peço a Alpha para me deixar olhar as outras doze biografias também.
— Mesmo com todos os relatos de testemunhas e provas? — pergunto.
— Isso acontece com bastante frequência. Assim que ele se envolve, tudo é varrido para debaixo do tapete.
— Não diga.
— E não é só Shoddi Goodz. As outras Lâminas da Noite também corrompem Midgar abusando de sua autoridade. Devido a seus laços com o Culto, ninguém pode tocá-los, e eles só se tornaram mais arrogantes com o tempo.
— Essas Treze Lâminas da Noite parecem um bando de sortudos… quer dizer, um bando de caras maus.
— Planejamos lidar com eles eventualmente, mas estamos ocupados reconstruindo Oriana no momento. Por enquanto, vamos deixá-los em paz.
— Entendo…
Então é disso que os nobres importantes deste mundo de fantasia são capazes, hein? São governantes das sombras que podem se safar de qualquer coisa.
Bebo meu suco de maçã de um só gole e me levanto.
— Acabo de ter uma ideia fantástica. Obrigado, Alpha.
— Você parece animado. O que está pensando?
— Você descobrirá em breve.
— Certo. Bem, se precisar de ajuda, sabe onde me encontrar — responde Alpha, e então ela se desfaz em névoa e desaparece.
Droga, garota. Que jeito estiloso de sair.
— Pode colocar as bebidas na minha conta — digo a Chi.
Com isso, oculto minha presença e desapareço na escuridão da noite também.
***
O Conde Shoddi Goodz levanta a cabeça subitamente e olha pela janela.
Lá fora, ele vê a paisagem noturna de Midgar, iluminada pelos postes da cidade. Ele acha que sente alguém o observando, mas…
— Devo estar imaginando coisas. — Ele murmura enquanto volta para sua papelada.
O fogo em sua lareira crepita, e sua caneta-tinteiro desliza pelo papel. A noite está silenciosa.
Goodz pousa a caneta-tinteiro e toma um gole de seu café frio.
— Está requintado, mesmo frio. Os grãos de primeira da Mitsugoshi são realmente algo.
Ele acena com a cabeça várias vezes em satisfação e então volta seu olhar para os documentos em sua mesa. Neles, estão os detalhes dos eventos do incidente de Eliza Despoht, os custos associados ao encobrimento e uma lista de pessoas que precisam ser compradas ou silenciadas.
Parece que ele conseguirá livrá-la, mas não foi nada fácil. Havia muitas testemunhas, e o fato de uma realeza – Alexia Midgar – e uma grande aristocrata – Christina Hope – estarem entre elas é especialmente problemático. Ele teve que fazer muitas promessas a muitas pessoas para conseguir que seus testemunhos fossem descartados.
Goodz se levanta e encara a janela. Seu reflexo no vidro é o de um homem de meia-idade cansado, com um rosto que lembra um sapo.
— Espero minha devida compensação por isso, Sr. Despoht.
O trabalho que ele tem feito tem sido exaustivo, e ainda há algumas pessoas que precisam ser eliminadas. Aquela testemunha nobre menor, Kanade, pode se tornar um problema se não for cuidada. No entanto, a especialidade de Goodz reside na papelada e em subornos. As coisas correrão mais suavemente se ele deixar o trabalho sujo para uma das outras Lâminas da Noite.
— Isso será bom, porém. Estar no fundo da hierarquia das Lâminas da Noite está começando a ficar velho. Isso deve me dar a vantagem que preciso para obter uma posição mais respeitável.
Apesar de sua aparência, Goodz ainda está na casa dos trinta. Ele se juntou às Treze Lâminas da Noite no lugar de seu falecido pai, mas devido à sua relativa juventude, os outros sempre lhe forçam o trabalho que não querem.
Há muitos mistérios em torno da morte de seu pai. Foi considerado um acidente, mas Goodz não se esqueceu da facada que havia nas costas dele.
— A verdade se perde na escuridão. Como de costume.
No fim das contas, o incidente com Eliza e o incidente com seu pai são a mesma coisa. Goodz sabe muito bem o que acontece com aqueles que tentam desvendar os segredos da escuridão.
Ele se afasta da janela e toca o sino em sua mesa para chamar um servo. Tudo o que precisa fazer agora é selar os documentos e enviá-los ao Marquês Despoht…
— …Hmm?
De repente, ele sente o olhar de alguém e levanta a cabeça.
Seu estúdio parece o mesmo de sempre. Não há razão para ninguém estar ali além dele.
E, no entanto, ele está acompanhado por um palhaço.
O palhaço está sentado em seu sofá, encarando-o. A luz da lareira revela que o intruso está encharcado de sangue.
— Q-quem diabos é você? Há quanto tempo está aí?!
Goodz toca imediatamente o sino novamente.
— Alguém, venha aqui!! Livre-se deste intruso!!
O toque agudo do sino reverbera pela noite silenciosa.
— Não há ninguém aqui?!
O rugido de Goodz e o som do sino ecoam inutilmente.
O palhaço ensanguentado não se move. Apenas fica ali sentado, observando o pânico de Goodz.
— Por que ninguém está vindo, droga?!
Não faz sentido. Já passou tempo suficiente desde que ele tocou o sino pela primeira vez. Seus guardas já deveriam estar aqui.
No entanto, a noite está silenciosa.
Não… está silenciosa demais.
— Você não…
O sino escorrega da mão de Goodz e cai no chão.
O palhaço se levanta lentamente. O sangue que escorre de suas mãos é fresco, e seus passos soam estranhamente pegajosos. Há pegadas ensanguentadas manchando o caro tapete de Goodz.
— O que você fez com minha equipe…?
O palhaço ensanguentado não responde. Apenas continua a encarar Goodz por baixo de sua máscara com um sorriso crescente.
— Eek…!
Goodz solta um pequeno grito e recua.
O palhaço se aproxima dele. Squelch. Squelch.
— Q-quem é você? Por que está atrás de mim? Realmente acha que vai se safar depois de me atacar?!
Nenhuma resposta do palhaço. Ele apenas avança lentamente, seus passos pegajosos servindo para zombar de Goodz por sua falsa confiança.
De repente, Goodz se lembra do olhar no rosto morto de seu pai.
— Não… Não pode ser… Você está aqui para me eliminar?! D-depois de tudo que fiz pelas Lâminas da Noite, eles vão simplesmente me descartar?!
Squelch.
Os passos param.
O palhaço ensanguentado sorri sob sua máscara.
— Então é isso que está acontecendo… Você vai me matar, assim como matou meu pai…
Com outro conjunto de squelches, os passos recomeçam. Estão ficando mais rápidos. Rápidos o suficiente para o palhaço entrar no alcance de agarrar…
— Eek… Fique longe, FIQUE LOOOOOOOOOOOONGE!!
Goodz arremessa sua xícara de café no palhaço. Ela se estilhaça contra a máscara dele, salpicando-o com líquido escuro.
Então Goodz se vira e corre.
Ele pode não parecer, mas suas notas na Academia para Cavaleiros das Trevas eram excelentes. Havia ganhado algum peso e se descuidou um pouco, mas ainda era muito mais rápido que uma pessoa média. Ele alcança a porta do quarto em um piscar de olhos e a abre. Agora tudo o que precisa fazer é fugir para a Ordem dos Cavaleiros.
Por um momento, ele sente esperança. Ele vai conseguir.
— Quê? AHHHHHHHHH!
No entanto, alguém do outro lado da porta o derruba.
— O-o que você está fazendo?! Saia da frente!
Ele se arrasta desesperadamente pelo chão.
Então, quando percebe que está se cobrindo de sangue, ele entende o que o fez tropeçar.
— Espere, vocês são… minha equipe de segurança…
Eram os corpos mortos de seus guardas.
Eles não eram os homens mais agradáveis, mas ele pagou uma fortuna para encher suas fileiras com cavaleiros das trevas excepcionalmente talentosos. Agora, todos esses cavaleiros foram brutalmente massacrados.
— Eek… AHHHHHHHHHHHHHHH!
Goodz chuta os corpos para o lado enquanto se arrasta para a frente.
O som pegajoso se aproxima de seus ouvidos.
— Não…
Ele levanta a cabeça e encontra o palhaço mascarado o encarando.
— Não, não…
Em sua mão, o palhaço segura uma única carta de baralho.
— Não, você não pode…
Com um baque, a carta de baralho se crava em sua testa.
Os olhos de Goodz se arregalam em total incredulidade enquanto ele leva a mão à carta cravada em sua testa.
— Não…
Então ele lentamente tomba para trás.
O palhaço olha para a poça de sangue no chão.
— Um a menos…
Sua voz ecoa pela noite silenciosa.
Tradução: Gabriella
Revisão: Pride
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