
A luz do sol da manhã invade o quarto da mansão Hope enquanto a Ordem dos Cavaleiros conduz sua investigação no local.
— Entendo, entendo. Então você está dizendo que o Conde Haushold Hedd, o Visconde Shinobi e o Marquês Jet conspiraram juntos para atacar a família Hope.
Gray, chefe do departamento de investigação criminal da Ordem dos Cavaleiros, está interrogando Christina e os outros.
— E então, esse palhaço ensanguentado, Jack, o Estripador, apareceu. Ele matou todos os agressores, mas saiu sem tocar um dedo em nenhum de vocês… Que conveniente. — Ele lança um olhar cético para Christina.
— Mas é a verdade — responde ela.
— Você entende que a dedução mais óbvia aqui é que Jack, o Estripador, é um assassino-barra-guarda-costas empregado pela família Hope.
— Não é! Se fosse, eu não tornaria isso tão óbvio.
— Talvez você tenha tornado óbvio de propósito para desviar as suspeitas.
— Por favor, fale sério. O importante aqui é que o Conde Haushold Hedd, o Visconde Shinobi e o Marquês Jet tentaram nos atacar. Não é trabalho da Ordem dos Cavaleiros investigar isso?
Gray sorri, estreitando os olhos.
— Bem, no fim das contas, isso não passa da versão da família Hope sobre a situação.
— …O que quer dizer?
— Que você atraiu os três até aqui para incriminá-los. É outra forma perfeitamente legítima de ver as coisas.
— Com licença?! Isso é absurdo! Eles vieram armados e usando máscaras!
— Eram homens astutos e cautelosos. Eles perceberam seu plano e fizeram seus guardas usarem máscaras e esperarem por perto. Foi uma decisão inteligente da parte deles… embora, infelizmente, não tenha valido a pena para eles.
— Mas o Conde Hedd estava usando uma máscara! E, além disso, que prova você tem de que a família Hope estava planejando algo do tipo?!
— Ainda estamos investigando isso. E, além do mais, apenas sugeri como uma possibilidade. Jack, o Estripador, é o assunto da capital agora. Quem ele é, quais são seus objetivos… E as pessoas suspeitam de vocês, os Hope, mais do que de qualquer um.
— Você vai nos tratar como culpados por causa de alguns boatos idiotas?
— Oh, Deus me livre. Estou apenas dizendo que os boatos existem, só isso. No entanto, também não posso ignorar completamente a opinião pública. Eles temem que Jack, o Estripador, volte sua violência contra eles em seguida. As noites na capital estão silenciosas ultimamente. As lojas apagam as luzes mais cedo e as ruas ficam vazias. Todos estão com muito medo de Jack, o Estripador, para sair. Se isso continuar e a agitação aumentar, teremos uma caça às bruxas em nossas mãos. É isso que estamos tentando evitar.
— Isso é horrível…
— Não estou pedindo para você ver as coisas do nosso jeito, mas também estamos numa posição delicada. Passei a noite inteira sendo questionado sobre por que não investiguei a família Hope antes e ouvindo gritos para simplesmente prender todos vocês. — Gray dá a ela um sorriso sofrido. — Agora, tenho que voltar ao trabalho. Kanade e Cid, certo? Talvez eu precise falar com vocês separadamente em algum momento para pegar seus depoimentos, então espero poder contar com a colaboração de vocês. A verdade sempre prevalece!
Depois de fazer a pose característica de Case Clawed, ele lança um sorriso para Kanade e Cid e se retira.
Christina encolhe os ombros, e Kanade se aproxima para consolá-la.
— Christina…
— Desse jeito, vão acabar tratando minha família como criminosa.
— Isso seria ruim — diz Cid Kagenou enquanto devora seu caro bolo de chá.
— As Lâminas da Noite com certeza vão tentar jogar a culpa em nós. Só espero que consigamos provar a inocência da família Hope…
— A propósito… Jack, o Estripador, deixou uma mensagem, não foi?
— Ah, você quer dizer isto?
Christina tira um bilhete do bolso. A Ordem dos Cavaleiros confiscou o cartão original como prova.
“BRAVAS E MALIGNAS LÂMINAS NOTURNAS. CHEIAS DE ORGULHO. ROLAM CABEÇAS. É HOMICÍDIO. ANIMAR-SE CONTANDO CANSA. É VERDADE. NÃO SE ESQUEÇAM DE DAR UMA PAUSA. SE DIVERTIR COM O PESSOAL. COMPANHEIROS PRECISAM DE DESCANSO. O EQUILÍBRIO É SEMPRE UM AVANÇO”
Ela teve o cuidado de copiar a mensagem e a lê em voz alta.
— Deve ter algum significado nisso — diz Cid. — Considerando que ele se deu ao trabalho de deixar para trás e tudo.
— A linha “BRAVAS E MALIGNAS LÂMINAS NOTURNAS. CHEIAS DE ORGULHO” significa que ele definitivamente está mirando nas Treze Lâminas — insiste Christina.
— E a parte “ROLAM CABEÇAS. É HOMICÍDIO” quer dizer que Jack vai matar todos eles — diz Kanade com orgulho.
Christina balança a cabeça.
— Mas não consigo entender as últimas três linhas.
— É — concorda Kanade. — Não entendo o que “ANIMAR-SE CONTANDO CANSA” significa. “NÃO SE ESQUEÇAM DE DAR UMA PAUSA”? O que ele está contando?
— Boa pergunta. Talvez corpos?
Quando Cid diz isso, Christina tem uma epifania.
— Jack, o Estripador, está usando os números das cartas de baralho para contar os Lâminas da Noite mortos!
— Nesse caso, ele está dizendo que geralmente conta os corpos com suas cartas, mas “SE DIVERTIR COM O PESSOAL. COMPANHEIROS PRECISAM DE DESCANSO”? Tipo, deixar essas mensagens é uma diversão para ele? — pergunta Kanade.
— Acho que você desvendou o mistério — diz Christina.
Kanade solta um suspiro de decepção.
— Ah, que sem graça. Pensei que haveria algum tipo de mensagem secreta superimportante.
— Mas é importante. Agora podemos ter certeza de que o objetivo de Jack, o Estripador, é matar todos os Lâminas da Noite.
— Cha-to.
Enquanto as duas conversam, Cid parece notar algo. Ele aponta para o bilhete.
— Uau, nossa. A mensagem também pode ser lida na vertical.
— O quê? Sério?!
— Deixa eu ver.
As outras duas se debruçam sobre a mensagem e chegam à mesma conclusão em uníssono.
— “BRANCO”? — diz Kanade.
— Será que ele está falando sobre o Conde Korrupt Branco? — pondera Christina.
— Quem é esse?
— O líder das Lâminas da Noite. É ele o dono da Mansão Branca, aquela enorme mansão nos arredores da capital.
— Uau, aquele lugar é tão chique.
— O ponto é que o próximo alvo de Jack, o Estripador, é o Conde Korrupt Branco. Este cartão é um cartão de visita. Fico impressionada que você tenha notado isso, Cid.
— Ah, sabe como é, todos nós temos nossos momentos.
— P-para que conste, eu já estava quase percebendo isso sozinha! — diz Kanade, soando estranhamente competitiva.
— Que bom para você — responde Cid. — Mas esse não é o único significado que Jack, o Estripador, deixou em sua mensagem.
— O quê?! Não é?!
— Jack escondeu outra pista no próprio cartão. Se não me engano, era o dez de espadas. Espadas podem simbolizar o inverno, e o número corresponde à semana. Em outras palavras, aquele cartão estava nos apontando para a décima semana do inverno. E hoje, por acaso, é o nono dia dessa décima semana.
— Isso faz de amanhã o décimo dia da décima semana de inverno — observa Christina. — São dois dez. Não pode ser apenas uma coincidência.
— Então, quer dizer que Jack vai agir amanhã? — pergunta Kanade.
— Resumindo tudo, Jack, o Estripador, vai atacar o Conde Branco na Mansão Branca no décimo dia da décima semana de inverno. Agora que sabemos disso, podemos fazer nossos próprios preparativos.
— Mas por que ele nos diria isso?
A pergunta de Kanade é perfeitamente razoável.
— É… estranho, sim — concorda Christina.
— Né? Fazer esse tipo de coisa é pedir para ser pego.
Quando as duas começam a refletir seriamente sobre o assunto, Cid pigarreia alto.
— A-ham. Acho que Jack, o Estripador, é mais sábio do que podemos sequer imaginar, e depois de considerar todas as opções e resultados possíveis de seu ponto de vista elevado, ele decidiu que esta seria a solução ideal. Duvido que pessoas normais como nós consigam entender seus verdadeiros objetivos, não importa o quanto pensemos a respeito — diz ele em alta velocidade.
Um olhar sério cruza o rosto de Christina.
— Acho que é possível… que Jack, o Estripador, esteja tentando me dizer algo.
— Que tipo de algo?
— Isso eu não sei. É só uma sensação estranha que ele está…
— A questão importante é: contamos à Ordem dos Cavaleiros e aos Lâminas da Noite sobre a mensagem secreta? — diz Cid. — Se a Ordem dos Cavaleiros contar aos Lâminas da Noite, eles poderão criar contramedidas. Tipo, podem reunir todas as suas forças para atacar Jack juntos ou algo assim. Se Jack, o Estripador, ainda assim aparecer, isso deve livrar a família Hope de qualquer suspeita.
— Mas se fizermos isso, o que acontecerá com ele?
— Ele vai ser morto, provavelmente.
— Mas será que ele é mesmo nosso inimigo? Ele pode muito bem ser outra vítima dos Lâminas da Noite.
A luz da convicção brilha intensamente nos olhos de Cid.
— Quaisquer que sejam suas razões, o que Jack, o Estripador, está fazendo é assassinato. Não podemos simplesmente ficar parados e tolerar isso!
— Mas… Não, você tem razão. Devemos contar a eles.
Com uma expressão desanimada, Christina vai contar a Gray, chefe do departamento de investigação criminal da Ordem dos Cavaleiros.

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Alexia saboreia seu café chique na sala de visitas da propriedade Hope.
— Então é por isso que a Ordem dos Cavaleiros estava em pânico…
Ela pega o bilhete com a mensagem de Jack, o Estripador, e o devolve a Christina.
— Suponho que eles vão participar do plano para capturar Jack?
Alexia balança a cabeça.
— Eles estão formando um perímetro ao redor da propriedade Branco.
— O quê? Eles não vão entrar?
— Os Lâminas da Noite têm sua reputação a zelar. Querem capturar Jack, o Estripador, eles mesmos. Na verdade, provavelmente não ficarão satisfeitos a menos que o matem. Estão se esforçando para reunir todas as forças que conseguem. Amanhã, a propriedade Branco estará cheia dos melhores cavaleiros das trevas, tanto da alta sociedade quanto do submundo.
— Isso ficou muito maior do que eu esperava… Você acha que Jack realmente vai até lá?
— Ninguém seria estúpido o suficiente para atacar o Conde Branco, não com as defesas que ele montou. É possível que a mensagem tenha sido um blefe, e o objetivo do Estripador esteja em outro lugar. É o movimento óbvio, e a Ordem dos Cavaleiros está ativamente levando essa possibilidade em consideração.
— Mas a força de Jack está em um nível totalmente diferente — diz Christina.
— Você me contou sobre como ele dominou completamente aquele mestre de artes marciais de Wakoku. Sem exceção, todo mestre marcial que viajou para cá era forte. Se Jack, o Estripador, foi poderoso o suficiente para derrotar um deles tão completamente, deve estar extremamente confiante em suas habilidades. Talvez ele vá mesmo.
— Oh…
Christina solta um pequeno suspiro.
— Você não parece feliz com isso.
— Eu sei que Jack é um assassino cruel, mas é realmente assim que queremos que as coisas aconteçam? Não posso deixar de me perguntar se ele tem algum passado trágico que o transformou no assassino que é… Acho que ele está tentando me dizer algo.
— Que tal isso, Christina? Amanhã vamos para a propriedade Branco. Eles não nos deixarão entrar, mas pelo menos poderemos observar as coisas do lado de fora com a Ordem dos Cavaleiros.
— Nós podemos mesmo?!
— Os Lâminas da Noite não ficarão felizes com isso, mas ser uma princesa tem suas vantagens às vezes. Assim, poderemos ver as coisas até o fim.
— Muito obrigada. — Christina sorri.
Alexia toma outro gole de café e suspira baixinho.
— Se me permite — começa Christina —, você também não parece muito feliz, Princesa Alexia.
— Talvez não. Tenho pensado muito ultimamente. E Claire ainda se recusa a acordar.
— Ela vai ficar bem?
— O médico dela diz que sua vida não corre perigo e que ela vai acordar por conta própria, mais cedo ou mais tarde. Mas tem algo suspeito naquela mulher, a Mu.
— Não sei. Cid disse que confia nela.
— Sim, e ele é um péssimo juiz de caráter.
— Acho que isso tem sido mais difícil para ele do que imaginamos. Ela é sua única irmã. Ele estava tão preocupado com que nem quis ficar na minha casa.
— Ele realmente se importa tanto com ela? Eu nunca percebi…
— Sim. Tenho inveja de quão próximos eles são.
— E eu que o considerava um insensível. Talvez eu devesse comprar uns doces finos da Mitsugoshi para ele.
— Tenho certeza de que ele ficaria encantado.
— Certamente espero que sim. Seria um presente meu, afinal de contas. — Enquanto a expressão de Alexia se suaviza, ela abruptamente volta ao assunto. — Eu falei com meu pai ontem.
— Com o Rei Midgar?
— Falei com ele sobre tudo o que está acontecendo, e sobre o que aconteceu antes… Gostaria de compartilhar isso com você. É um fardo pesado demais para eu carregar sozinha.
Alexia então conta a Christina sobre sua conversa do dia anterior.

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Flashback
— Como pode fazer isso, pai?!
Alexia invade o quarto do Rei Midgar.
— Fazer o quê, Alexia? — Seu pai responde calmamente.
— Como pode simplesmente deixar os Lâminas da Noite saírem impunes pelo que fazem?
O Rei Midgar suspira.
— Isso de novo?
— Não vou desistir até ter uma resposta, pai. E não é só sobre eles! É sobre o grupo que está manipulando tudo das sombras!
— Do que você está falando?
— Já é hora de parar de fazer-se de desentendido, pai. Eu sei de tudo. Sobre o Culto de Diablos, sobre tudo!
— Ah…
O Rei Midgar solta outro grande suspiro. Então ele fecha os olhos, pensativo, por um tempo.
— Pai…?
— Talvez seja a hora.
Ele abre os olhos novamente.
— Hora de quê?
— Eu sempre planejei te contar, eventualmente. Sobre o Culto de Diablos.
— Então você sabia sobre eles.
— O Culto de Diablos governa as trevas deste mundo. Enfrentá-los custaria caro à nossa nação.
A voz de Alexia agora tem um tom de aço.
— E isso significa que não há problema em ficar do lado deles?
— Significa que é importante gerenciar nosso relacionamento com eles com cuidado.
— Você mudou as palavras, mas disse exatamente a mesma coisa.
— É disso que se trata a governança. Se quisermos proteger nossa nação, há coisas mais importantes do que o certo e o errado.
— Que pensamento repugnante.
— A governança é mais do que simplesmente derrotar o mal. Se tivéssemos tentado isso, nossa nação teria caído há muito tempo.
— Isso não significa que você pode simplesmente se aliar ao Culto!
— Não estamos aliados a eles — diz o Rei Midgar com firmeza.
— O quê?
— Eu disse que não estamos aliados a eles, Alexia. O Reino de Midgar apenas gerenciou cuidadosamente seu relacionamento com o Culto, só isso.
— Não vejo a diferença.
— De forma alguma o Reino de Midgar aprova os atos do Culto. E nunca os ajudamos.
— Mas o Culto está cometendo atos malignos aqui em nossa terra! Eles têm informantes em nossa Ordem dos Cavaleiros!
— São indivíduos agindo por vontade própria.
— É a mesma coisa! Tudo o que você está fazendo é ignorar deliberadamente!
— O Reino de Midgar nunca ajudou o Culto de Diablos. No entanto, também não censuramos seus atos. É assim que nossa nação sobreviveu por tanto tempo.
— E então o Culto pode simplesmente fazer o que quiser?
— Eles se certificam de não aparecer em público. Precisam que continuemos servindo de fachada para eles, e costumavam saber como manter a discrição.
— Você não se lembra do que aconteceu na academia?! Ou de como me sequestraram?!! Você chama isso de manter a discrição?!!
— Eles costumavam saber. Até alguns anos atrás.
— O que aconteceu então?
— O Jardim das Sombras apareceu.
— E foi isso que provocou a mudança?
O Rei Midgar se levanta de sua cadeira e vai até a janela. Ele pousa a mão no vidro enquanto encara a escuridão da noite.
— O mundo se transformou muito em apenas alguns anos. Com a Mitsugoshi remodelando as coisas aos olhos do público e o Jardim das Sombras remodelando o submundo, a própria sociedade está passando por uma reviravolta. Aqueles incapazes de mudar com os tempos estão lutando contra a maré com todas as suas forças. Vivemos em um tempo de tumulto.
— Quer dizer que o Culto de Diablos está em pânico?
— Eles nunca teriam tomado medidas tão ousadas antes. Mas o Jardim das Sombras ameaça sua própria existência. Eles estão pressionados, e isso está começando a ter efeitos colaterais.
Alexia encara seu pai. Sua voz carrega uma ponta de raiva.
— Você chama o meu sequestro de efeito colateral?!
— Chamo — declara seu pai.
— E você está dizendo que eu deveria simplesmente aceitar isso?
— Como seu pai, eu te devo um pedido de desculpas. Você está absolutamente certa.
Com isso, o Rei Midgar faz uma reverência profunda.
— Pai…
— Mas como rei, não tenho nada pelo que me desculpar. E eu sou o rei desta nação antes de ser seu pai.
— Pai!
— Midgar não tem força para lutar contra o Culto de Diablos. Seus Cavaleiros da Távola viveram por mais de mil anos, e as Crianças que compõem suas forças de combate são todas aprimoradas com conhecimento antigo. Tenho certeza de que não preciso te dizer que as batalhas são vencidas e perdidas com base no número e na força dos cavaleiros das trevas envolvidos. Contra essas Crianças, nossos soldados de infantaria não servem nem como escudos humanos.
— Eu sei disso, mas…
Guerras giram em torno de cavaleiros das trevas lutando contra outros cavaleiros das trevas, mas isso não quer dizer que soldados comuns sejam completamente inúteis. Quando devidamente equipados com armaduras antimagia, dez soldados regulares geralmente são suficientes para conter um único cavaleiro das trevas e, se os soldados forem habilidosos o suficiente, podem até tentar esgotar as reservas de mana do cavaleiro. É uma tática padrão usada em campos de batalha por toda parte.
No entanto, isso só funciona quando eles enfrentam um cavaleiro das trevas de habilidade mediana. Cavaleiros das trevas mais poderosos são capazes de derrubar esses mesmos dez soldados com um único golpe. Anos de treinamento e pilhas de armaduras antimagia caras, reduzidos a nada em um piscar de olhos. Os cavaleiros das trevas do Culto são capazes de fazer isso com facilidade.
— Ninguém podia desafiar o Culto, não com o poder avassalador de seus cavaleiros das trevas. Mas agora, as coisas estão diferentes.
— Diferentes como?
— A chegada do Jardim das Sombras mudou tudo. Já houve organizações que enfrentaram o Culto antes e, naturalmente, temos nossa Ordem dos Cavaleiros. Mas nenhuma delas foi longe.
— Nem mesmo nossa Ordem dos Cavaleiros…
Alexia se lembra de um homem que conheceu uma vez – o bibliotecário-chefe, ex-membro da Ordem dos Cavaleiros, que carregava um facão em cada mão e um olhar de absoluta resignação nos olhos.
— Todos presumiram que não demoraria muito para o Jardim das Sombras ter o mesmo destino. E o Culto sentiu o mesmo. Mas não foi o que aconteceu. Eles não caíram. Pelo contrário, minaram a força do Culto. Nada parecido jamais havia acontecido. Contos do Jardim das Sombras se espalharam pelo submundo como fogo. Todos estão de olho neles com o coração cheio de esperança.
— Por que esperança?
— O Culto governa este mundo. Eles querem que o Jardim das Sombras acabe com esse status quo, e seu líder é poderoso o suficiente para fazê-los acreditar que é possível.
— Você quer dizer Shadow…
Até hoje, Alexia ainda se lembra da bela luz roxo-azulada que Shadow disparou na capital. Não é admiração que ela sente por aquela luz. Ela jurou a si mesma que um dia alcançaria as mesmas alturas.
— Não é apenas Shadow. Seus tenentes também são formidáveis. Como organização, eles certamente têm força para revidar. Podem realmente ter uma chance de derrotar o Culto. A perspectiva nos enche de esperança, mas, ao mesmo tempo, permanecemos cautelosos.
— Cautelosos com o quê?
— Com o Jardim das Sombras assumindo o controle do mundo assim que o Culto de Diablos for deposto. Uma vez que o Culto se for, não haverá mais ninguém para impedir o Jardim das Sombras.
— Oh…
Enquanto o bibliotecário agonizava, ele disse exatamente a mesma coisa.
— Se isso acontecer, voltaremos à estaca zero. É por isso que preciso ter certeza de que tipo de grupo o Shadow Garden é. É por isso que estou hesitando. Incapaz de escolher de que lado ficar…
— E o que você planeja fazer?
— O que, de fato. Talvez o melhor resultado de todos seria se o Culto de Diablos e o Jardim das Sombras simplesmente continuassem lutando um contra o outro para sempre.
— Pai!
— Estou brincando. Para ser bem honesto, não quero escolher. Mas em toda batalha que marca um ponto de virada na história, as potências que não escolhem um lado sempre acabam perecendo. Eventualmente, serei forçado a tomar uma decisão, que se danem meus sentimentos. Ficar do lado de qualquer um deles pode nos levar a perder tudo, mas a escolha tem que ser feita. É isso que torna os momentos importantes da história tão importantes.
— E você tem certeza de que esse ponto de virada está chegando?
— O Culto está em pânico. Os movimentos drásticos que eles estão fazendo ultimamente são um sinal disso, assim como sua maneira de nos pressionar. Eles querem desesperadamente que fiquemos do lado deles. Eu supunha que o Jardim das Sombras faria a mesma coisa, mas…
— Eles não entraram em contato?
— Ainda não. Tentamos entrar em contato com eles, mas não conseguimos nem descobrir onde estão. Agora, não há garantia de que realmente precisem de nós. Pode ser isso que está acontecendo aqui. E se for o caso, então nos resta apenas uma opção.
O rei dá a Alexia um sorriso cansado.
— E o Reino de Oriana? — pergunta Alexia. — Eles enfrentaram o Culto.
— E logo serão esmagados por isso. Ao se opor ao Culto, Rose Oriana foi marcada como herege pela Igreja. Eles agora têm pouco acesso ao comércio. Aquela pequena nação não tem nada além de sua arte, e não demorará muito para sucumbir.
— Era o que eu temia. Não há mesmo como salvá-los?
Quando Alexia ouviu que Rose havia assumido o trono, ficou genuinamente feliz. As duas haviam jurado lutar como aliadas uma vez. A vida as levou por caminhos diferentes, mas Alexia ficou feliz em saber que Rose ainda estava determinada a lutar contra o Culto.
Agora, porém, o caminho diante de Rose está pavimentado com espinhos.
— Isso depende do Jardim das Sombras — diz o rei.
— Imaginei que eles pudessem estar envolvidos.
Ele assente.
— Quem você acha que abrigou Rose Oriana depois que ela assassinou seu pai? Nosso reino, o Reino de Oriana e o Culto de Diablos vasculharam a terra, mas nenhum de nós conseguiu encontrar nem sinal dela.
— Você está dizendo que o Jardim das Sombras a acolheu?
— É a conclusão lógica. Eles provavelmente também organizaram os eventos que levaram à sua ascensão. Tudo isso foi obra deles… não, de Shadow. Sempre que Rose Oriana faz um movimento, parece que ele nunca está longe.
— É verdade. Ele estava lá no Festival Bushin também.
Não só isso: foi ele quem ajudou Rose a escapar.
— Não confirmamos, mas há relatos de que Shadow apareceu logo quando a Rosa Negra foi ativada.
— Então podemos presumir que ela… que Rose Oriana se uniu ao Jardim das Sombras.
— Exatamente. Apesar de estar sob um forte embargo, o Reino de Oriana ainda tem comida em abundância. Tudo faz sentido se presumirmos que é o Jardim das Sombras que está levando para eles.
— Ah, então o Reino de Oriana está seguro.
— Ainda não sabemos disso.
— Hã?
— O Culto está em movimento. Eles estão planejando incentivar a Igreja a iniciar uma cruzada. O Reino de Midgar já está sendo pressionado nos bastidores para enviar nosso exército.
— Isso é horrível!
— O Império Velgalta se juntará, sem dúvida. Eles têm uma longa e célebre história de invasão ao Reino de Oriana. No entanto, todas as vezes, eles sempre recuam pelos motivos mais frágeis.
— Por que isso?
— Porque o Culto intervém. Eles trabalharam duro para manter o equilíbrio entre o Reino de Oriana e o Império Velgalta. Desta vez, porém, eles estão do lado de Velgalta. Entre isso e a Igreja lhes dando uma desculpa, é tudo o que Velgalta poderia ter pedido.
— E o que você vai fazer, pai? Ou melhor, o que o Reino de Midgar vai fazer?
Alexia faz sua pergunta como a princesa da nação.
— De fato…
O rei solta um suspiro prolongado e mergulha no silêncio.
Lá fora, a neve cai.
— Você não está pensando em apoiar o Culto, está? — pergunta Alexia.
—…A guerra começará quando a neve derreter.
— Você está realmente pensando em invadir?!
— O Culto está nos testando, Alexia. Eles querem saber se estamos do lado deles ou do Jardim das Sombras. A decisão que tomarmos aqui determinará o destino do reino.
— Juro, pai, se você invadir o Reino de Oriana, eu…
— Terei minha resposta antes que a neve derreta. Meu único objetivo é escolher a opção que garanta a sobrevivência de nossa nação. Alexia, você está livre para fazer o que quiser.
— …Estou?
— Iris está se aproximando do Culto.
— Eu sabia. Eu sabia que ela estava!
— E ela está fazendo isso de propósito.
— Isso não pode ser. Ela está sendo manipulada, só isso!
O rei balança a cabeça.
— Agora, se você conseguir construir um relacionamento com o Jardim das Sombras, então não importa como as coisas se desenrolem, a linhagem Midgar sobreviverá.
Alexia aperta os punhos.
— Então essa é a sua jogada. E o que te faz pensar que eu vou sequer tentar?
— Faça como quiser — responde o rei, de costas para ela.
Fim do Flashback

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Alexia revive a conversa de ontem em sua mente enquanto expõe tudo.
Quando ela termina, Christina toma um gole de seu café e respira fundo.
— É bastante coisa.
— Essa é a situação. É por isso que sei que meu pai não vai me impedir de me envolver no caso. Dito isso, ele também não vai me oferecer nenhuma ajuda.
— Mas ainda assim, você é livre para fazer o que quiser.
— Exato. Meu pai pode pensar o que quiser de mim, mas pretendo agir de acordo com minhas convicções.
— Acho isso admirável da sua parte.
— Agradeceria se nossa conversa não saísse desta sala, a propósito.
— Claro.
— E-e também, em uma nota completamente diferente… — De repente, Alexia começa a se mexer inquieta.
— O que foi?
— B-bem, nós, uh, vamos para a propriedade Branco amanhã, certo?
— Esse é o plano.
— Então, uh, temos muitos preparativos a fazer.
— Hã? Bem, suponho que sim.
Alexia estufa o peito.
— Certo? Então esta noite, eu vou ficar na sua casa!
— Como disse?
— C-como eu disse, temos muitas coisas para planejar, então vou passar a noite aqui!
Christina olha para o relógio de parede da Mitsugoshi.
— Ainda temos bastante tempo…
— Mas veja, o sol já começou a se pôr. Seria terrível se algo acontecesse comigo no caminho de casa!
— Fico feliz em preparar uma carruagem com guardas para você. Alternativamente, se você entrasse em contato com o castelo real, tenho certeza de que eles…
— Isso poderia ter sido suficiente em circunstâncias normais. Mas com Jack, o Estripador, à solta, é perigoso estar na rua à noite!
— Isso… na verdade, é um bom ponto. Vou preparar um quarto para você imediatamente, Princesa Alexia.
— Oh, não há necessidade disso. Sou eu quem está se impondo a você, afinal!
— Receio não…
— Sabe, acabei de lembrar que o Fido… quer dizer, Cid Kagenou e Kanade também estão hospedados, não é?
— Estão, mas não tenho certeza se entendi.
— Eu posso simplesmente dormir no mesmo quarto que eles. Sou eu quem está se impondo a você, afinal! — Alexia a lembra vigorosamente.
— O mesmo quarto? Eu nunca poderia ser tão descortês…
— Não, não, tudo bem! Sou eu quem está se impondo a você, afinal!
— M-mas…!
— Estou te dizendo, está tudo bem! Eu tenho a permissão do meu pai e tudo!
Christina tem quase certeza de que a permissão que o Rei Midgar deu foi para outra coisa, mas antes que ela possa pensar muito nisso, Alexia puxa seu braço e se levanta.
— Agora, vamos, me mostre o caminho! Quero ver o quarto!
No quarto, as primeiras palavras que saem da boca de alguém vêm de Cid Kagenou:
— Por que você está aqui?
— Essa é uma pergunta difícil de responder — responde Alexia. — Por que estou aqui? Uma questão filosófica, com certeza. Foi Natsume Kafka quem disse uma vez: “Penso, logo existo”. A mulher me irrita, mas isso não torna o que ela disse menos verdadeiro.
— Penso, logo existo…
Cid murmura a citação da romancista Natsume e faz uma careta com toda a sua força.
— O quê, as palavras dela te tocaram? A citação é de uma palestra que ela deu em um dos seminários mais importantes de Laugus. Todos os acadêmicos elogiaram seu discurso, e me disseram que, entre os estudantes de filosofia deles, é o tópico de tese mais popular do ano.
— Não me diga. — Cid esfrega a têmpora, resignado. — Bem, não estou te perguntando em um nível filosófico. Só estou dizendo que não consigo deixar de me perguntar por que alguém tão nobre e elevada como a grande Princesa Alexia se dignaria a visitar um lugar como este.
Atrás de Alexia, o rosto de Christina se contorce. Um lugar como este?
— Bem, vejam só. Finalmente aprendeu seu lugar — diz Alexia. — É verdade que para você, eu certamente sou um ser divino descido dos céus. Apenas pensei que seria bom ver o que estava acontecendo sob as nuvens por uma vez.
— Isso não é uma resposta — diz Cid a ela.
— Não há necessidade de você saber o que está acontecendo acima de você. Agora, saia do meu caminho. Vou pegar a sua cama.
— Hã? Você vai passar a noite?! Espere, então onde eu vou dormir?
— No chão, suponho — diz Alexia triunfante, então pega a bagagem de Cid de cima da cama e a joga no chão.
Christina silenciosamente entrega-lhe um cobertor.
— Sinto muito, Cid. Você terá que se contentar com isto.
Cid encara o cobertor sem expressão.
— Posso ir para casa?
— Você será atacado pelos Lâminas da Noite.
— Tenho a sensação de que, se isso acontecer, conseguirei sobreviver milagrosamente por um golpe de sorte estranho.
— Não — diz Alexia, sua voz severa. — Estou falando sério.
— Tudo bem. — Cid suspira e pega o cobertor.
Depois de se sentar na cama, Alexia examina o quarto.
— Dito isso, parece que as coisas foram difíceis por aqui. Pensar que vocês foram atacados ontem à noite neste mesmo quarto. Suponho que aquela mancha ali seja sangue?
Seu olhar é afiado enquanto procura por sinais do ataque.
— Na verdade, foi o quarto ao lado que foi atacado — responde Christina.
— E para que conste, a mancha é de quando Kanade se empolgou agora há pouco e derramou o café dela — acrescenta Cid.
— E-ei! — exclama Kanade, que estava escondida no canto, tentando se tornar o mais discreta possível desde que Alexia entrou.
As bochechas de Alexia ficam vermelhas.
— O-oh. Bem, não é de se espantar que vocês estejam nervosos, considerando o que aconteceu ontem à noite.
— É-é verdade — concorda Kanade. — Fiquei com tanto medo que não consegui pregar o olho…
— A Kanade estava roncando como um trator a noite toda, para sua informação — diz Cid. — Você ficaria surpreso com a resiliência dela. Não precisa se preocupar com isso.
— Quer calar a boca? Estou tentando ser atenciosa aqui — retruca Alexia.
— Se você não ficasse dizendo coisas que não são verdade, eu não teria que ficar te corrigindo.
Alexia e Cid se encaram com olhares cortantes.
— V-vamos todos nos acalmar, ok? — diz Christina, intervindo.
— De qualquer forma, precisamos dar outra olhada no ataque de ontem à noite e nos movimentos que Jack, o Estripador, tem feito. — Alexia encontra o olhar dos outros. — Pode haver algo que tenhamos esquecido!
— É uma boa ideia — concorda Christina.
— Bem, acho que não tenho objeções — diz Cid.
— Então, alguém notou alguma coisa? — pergunta Alexia. — Pode ser sobre o ataque ou sobre coisas de antes. Não há respostas erradas aqui.
— Depois de tudo isso, eu realmente não acredito que Jack seja nosso inimigo — oferece Christina. — Se ele fosse, teria sido muito fácil para simplesmente nos deixar morrer ontem à noite.
— O momento parece bastante conveniente — diz Alexia.
— Certo? Jack, o Estripador, deve ter estado rastreando os Lâminas da Noite todo esse tempo. Quando ele viu que eles estavam nos atacando, acho que veio ajudar.
— Eu não teria tanta certeza disso — diz Cid, rebatendo a teoria de Christina. — Talvez tenha sido apenas mais eficiente. Ele poderia ter pensado que, em vez de lutar contra os Lâminas da Noite sozinho, seria mais fácil se juntar a vocês.
— Não foi isso — responde Christina. — Você não saberia porque não o viu, mas as habilidades dele mal são humanas. Ele os aniquilou completamente sozinho. Foi como se nem estivéssemos lá.
Alexia não perde a chance de dar uma alfinetada.
— Bem, obviamente, Cid Kagenou não saberia disso. Não depois de ter fugido no meio da luta.
— É! — diz Kanade, concordando com toda a força. — Ele não saberia porque é um traidor que fugiu!
— V-vocês sabem, de certa forma, a única razão pela qual conseguimos resistir ao ataque é porque Cid atraiu alguns dos inimigos para longe… — acrescenta Christina, na tentativa de defender Cid.
— Garanto a você, isso foi a coisa mais distante da mente dele. Ele estava apenas tentando salvar a própria pele.
— Jamais esquecerei aquele momento. Olhei em seus olhos e tudo o que vi foi traição.
Cid lança a Alexia e Kanade um olhar cansado.
— Vocês duas realmente pegaram no meu pé, hein?
Então Christina fala como se tivesse acabado de se lembrar de algo.
— Sabem, houve uma coisa que me deixou perplexa no relatório que recebi agora há pouco.
— O que foi? — pergunta Alexia.
— Aparentemente, um vaso desapareceu da mansão. Estava aqui ontem à tarde, então deve ter sido roubado durante o ataque.
— Agora, isso é interessante. Que tipo de vaso era?
— Você conhece as obras do ceramista Da Vinche de trezentos anos atrás?
— O quê, aquele vaso de duzentos milhões de zeni do corredor?! — grita Kanade. — Foi esse que foi roubado?!
— Infelizmente, sim…
— Espere um pouco, esses vasos são tesouros nacionais! — diz Alexia, completamente exasperada. — Não são o tipo de coisa que você simplesmente deixa em um corredor!
— Oh, não, o vaso que foi roubado era uma réplica de um vaso Da Vinche.
— Hã? — diz Cid. — O vaso era uma réplica?
— Isso mesmo — responde Christina. — Não deixaríamos o original por aí assim. Mas é isso que o torna tão estranho. Por que o culpado roubaria um vaso falso?
— Isso é estranho — concorda Alexia. — Não entendo por que alguém faria isso.
— Era uma réplica bem-feita, então suspeito que ainda venderia por uns dez mil zeni, mas mesmo assim.
— Se eles estivessem apenas atrás de dinheiro, certamente havia outras coisas que poderiam ter roubado.
— Oh, com certeza. O salão estava cheio de obras de arte que valiam milhões. Não entendo por que o ladrão escolheu a réplica, o item menos valioso de lá.
— Considerando o momento, é provável que o culpado seja Jack, o Estripador, ou alguém associado aos Lâminas da Noite.
— Talvez eles simplesmente não perceberam que era uma réplica.
— Acho difícil de imaginar. Não importa quão boa fosse a cópia, qualquer um teria percebido de relance que não era real. Você teria que ser um completo e total camponês sem um pingo de refinamento no corpo para não perceber isso.
— É verdade.
Enquanto Christina e Alexia continuam sua discussão, Kanade e Cid trocam um olhar.
— Um completo e total camponês…
— Sem um pingo de refinamento no corpo…
Seus ombros caem.
— Não consigo entender nada disso — diz Alexia. — Talvez haja outra mensagem de Jack, o Estripador, em tudo isso.
— É certamente uma possibilidade — concorda Christina. — Pode valer a pena investigar.
— Eu realmente não acho.
— Cale a boca, Fido. Mostre o caminho, Christina! Temos uma pista, e isso é tudo o que precisamos para desvendar este mistério!
— Eu te disse, você está perdendo seu tempo.
— Venha, Fido.
O grupo continua investigando a cena do roubo até tarde da noite, mas no final, não encontram nada.

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— A Mansão Branca fica logo ali.
— Tááá. — respondem todos.
Eu sigo Christina pela área residencial de luxo da capital. Não há uma casa à vista que pareça valer menos de um bilhão de zeni. O lugar de Christina provavelmente era maior em termos de metragem quadrada, mas Kanade e eu nos pegamos boquiabertos com o puro prestígio que o bairro exala.
Atrás de nós, Alexia caminha com olheiras sob os olhos e resmunga sobre sua investigação infrutífera.
— Não faz sentido. O Estripador, deve ter nos deixado uma mensagem. Talvez eu devesse esperar a luz do sol atingir o espelho no corredor, e então decodificar a mensagem escondida nas sombras…
Kanade se vira e olha para mim.
— E-eu me sinto meio deslocada aqui.
— Você poderia ter esperado na mansão.
— Mas é mais seguro ficar com o grupo!
— É mesmo?
— Sim, porque posso usar a Princesa Alexia como escudo e sobreviver com certeza.
Kanade murmura essa última observação desrespeitosa em voz baixa, mas meus ouvidos captam tudo. Dito isso, eu mesmo levo uma vida bem desrespeitosa, então silenciosamente a incentivo.
— Sabe, Kanade — digo a ela —, você pode acabar com seu nome nos livros de história.
E não de um jeito bom.
Um sorriso inquietante se espalha pelo rosto de Kanade.
— Hã? Você acha mesmo? Ah, que isso.
— Hã?
Eu sempre tenho o hábito de escanear a área ao meu redor em busca de presenças, e naquele momento, sinto uma tremenda força mágica se aproximando em alta velocidade. Quem quer que seja, é encrenca.
Então percebo que é a Delta.
—…Ah, isso é ruim.
— Hã? O que foi? — me pergunta Kanade.
— Eu, uh…
Se aquela força da natureza aparecer enquanto estou com essa gente, tenho a sensação de que vou me destacar muito mais do que um personagem secundário deveria.
— Tenho que ir ao banheiro.
Mas no momento em que a desculpa esfarrapada sai da minha boca…
— CHEFÃÃÃÃÃOOO!!
…uma garota teriantropa vem saltando na minha direção a toda velocidade.
— Delta, espere!!
— Ahhh! Mas eu odeio esperar!
Delta desacelera por um breve momento, mas esse é o máximo que ela consegue se conter.
No entanto, aquele momento é tudo o que preciso. Com a maior velocidade que um personagem secundário consegue reunir, dou um passo para trás e recanto meu encantamento para a forma recém-acelerada de Delta.
— Espere!
— Ahhh!
Ela se contrai e desacelera por um momento.
Então ela imediatamente acelera de novo.
— Espere! Espere!
— Ahhh! Ahhhhh!
— Espere, espere, espere, espere, espere!!
A cada contração, ela desacelera um pouco mais até finalmente chegar bem na minha frente.
— Ahhhhhhhhh…
De um lado, temos Delta, que parece irritada por ter sido repetidamente mandada esperar. Do outro, temos Alexia, Christina e Kanade, que parecem perplexas com o súbito aparecimento de uma estranha teriantropa.
Eu seguro minha cabeça, sem saber como vou me livrar desta.
— Hum, Fido, você a conhece? A mana dela é um pouco preocupante — diz Alexia, recuando um pouco. Por causa das paradas e partidas repetidas, a mana de Delta está transbordando como se estivesse prestes a explodir.
— Uhh, acho que você poderia chamá-la de meu animal de estimação? Pronto, pronto.
Eu coço a cabeça de Delta para evitar que sua mana transborde. Se explodisse aqui, teríamos uma catástrofe enorme em nossas mãos.
— Ela parece um animal de estimação terrivelmente perigoso. — Alexia me lança um olhar acusador. — E também, tenho quase certeza de que eles tornaram ilegal a posse de escravos teriantropos.
— Oh, droga.
Quando percebo o que está prestes a acontecer, já é tarde demais. Delta já registrou aquele olhar de Alexia como hostilidade.
— Ei! Não fale com o chefão, fracote!
Eu coço a cabeça de Delta o mais forte que posso.
— Pronto, pronto. PRONTO, PRONTO!!
Lenta mas seguramente, sua expressão se suaviza.
— Você acabou de me chamar de fracote? Receio não poder deixar isso passar — diz Alexia, jogando lenha na fogueira.
— Ei, calma, deixa para lá!
Para que você está se fazendo de arrogante, Alexia? Um peteleco na testa de Delta e você viraria uma mancha na calçada.
— Bwuhhhgrrrrrr.
Delta ainda está exultante com os arranhões na cabeça, mesmo enquanto rosna para Alexia. Eu a agarro em uma gravata e a arrasto para longe.
— Super desculpe por toda a confusão que meu animal de estimação causou, pessoal.
— Ei! — protesta Alexia. — Esta conversa não terminou!
— Sim, sim, você pode me contar tudo sobre isso mais tarde.
Tenho que realmente me esforçar um pouco para manter Delta contida enquanto a separo do grupo.
— Grrr! Isso dói!
— Ah, certo, desculpe.
Assim que estamos seguros atrás de um muro na área residencial chique, eu a solto.
— Você é tão forte, chefão. E nem estava usando magia!
— Eu treino, sabe. Mas, mais importante, lembra como você deveria me deixar em paz quando estou com pessoas normais?
— Hã?
— Já passamos por isso. A regra é: você tem que me deixar em paz quando estou com pessoas normais.
— Hã?
Delta inclina a cabeça e me lança um olhar de absoluta perplexidade, momento em que eu desisto.
— Deixa para lá. Vejo que estou perdendo meu tempo aqui.
— Eu também odeio perder tempo!
— É, é um saco. A propósito, o que você está fazendo aqui?
— Eu queria te ver, chefão!
— E é por isso que você veio?
— Não! Ei, chefão, posso ir bater naquela garota? Ela precisa aprender o seu lugar!
— Sem bater nela. Ela pode não parecer grande coisa, mas é uma das princesas deste reino, então seria mais dor de cabeça do que vale a pena. Então, o que você está fazendo aqui?
— Está tudo bem! Vou bater nela e fazê-la rebolar para você!
— Não, sério, para que você está aqui? E de novo, você não pode bater na Alexia. De jeito nenhum, de forma alguma.
— Não posso?
— Não.
— Mas ela age toda convencida, mesmo sendo fraca.
— Eu sei que ela age, mas você ainda não pode bater nela.
— Ahhh… Tudo bem.
— Então, o que você está fazendo aqui?
— Eu, uh… — Delta inclina a cabeça e pisca como se estivesse tentando se lembrar. — É isso mesmo! Vim procurar por Felid!
— Felid… O quê, aconteceu alguma coisa com a Zeta?
— Alpha me mandou procurá-la! Ela disse algo sobre, uh, relatórios de status? E muitos espaços em branco? Eu não entendi muito bem o que ela estava dizendo, mas tudo o que tenho que fazer é dar uma surra na Felid e trazê-la de volta comigo!
— Ah, isso faz sentido.
Acho que usar o faro da Delta é a melhor opção se você está tentando rastrear alguém. Dito isso, acho difícil imaginar Zeta realmente seguindo qualquer uma das instruções de Delta, uma vez que Delta a encontre.
Seu nariz se contrai enquanto ela me examina minuciosamente.
— Sniff, sniff. Você tem um pouco do cheiro dela em você, chefão. Só um pouquinho, no entanto.
— Sim, não a encontro há um tempo. Não desde o incidente, eu acho.
— Este país também tem um pouco do cheiro dela. Mas só um pouco, não importa onde eu vá. Ela já deve ter partido.
Enquanto ela fareja, sua expressão gradualmente se torna mais dura. Esse é o rosto que ela faz quando caça.
Então sinto uma presença fraca e me viro.
— Senhorita Deltaaaaaa! Espere por mimmmmmm!
É uma garota teriantropa atraente que está completamente sem fôlego. Ela tem olhos azuis, orelhas pretas e brancas, e uma cauda que combina com suas orelhas. Ela meio que se parece com um husky siberiano.
— Espere, Senhorita Delta, ele é…?
Delta estufa o peito e me apresenta da maneira mais inútil possível.
— Ha-ha! O chefão é o chefão da Delta!
— Ei, prazer em te conhecer. Sou Cid Kagenou. Você é amiga da Delta?
Os olhos da garota husky siberiano se arregalam.
— O-o quêêêêê?! É sério mesmo?!
— Então quem é ela, Delta?
Delta me lança um sorriso presunçoso.
— Minha lacaia!
Delta agora tem lacaios? Estamos todos condenados.
— Sua lacaia, hein. Ela tem nome?
— É Pi!
— Pi, hein.
É uma letra grega, o que significa que ela deve trabalhar para a Mitsugoshi.
— E-eu sou Pi, oi! P-prazer em te conhecer também.
Com isso, ela se joga no chão com a barriga para cima.
— Uh, o quê…?
Delta acena com a cabeça em satisfação.
— Essa é a pose de submissão!

— Entendi.
Não consigo nem me dar ao trabalho de criar uma resposta espirituosa, então decido concordar também.
— Ohhh… Ele me despreza… Ele está me olhando como se eu fosse um inseto… — lamenta Pi.
— Na verdade, não estou.
Agora que penso nisso, parece que isso acontece muito com teriantropos. Acho que Yukime e Zeta são apenas as exceções.
— Por quêêê? Eu fiz algo de errado? Nunca vou sobreviver nesta matilha se o líder me odeiaaa…
— Você não acha que a Pi serve para a matilha, chefão? Sei que ela não é muito inteligente, mas prometo que é uma boa garota!
— Tenho certeza que ela está bem.
Eu literalmente acabei de conhecer a garota.
— Viva! O chefão aceitou a Pi!
— Você está falando sério, mesmo? Vou trabalhar duro por você, Mestre!
Pi se levanta de um salto e abana o rabo de um lado para o outro.
— Sniff, sniff.
Então ela corre até mim e começa a pegar meu cheiro.
— Agora conheço seu cheiro, Mestre!
— A Pi é incrível, chefão! Ela é meio burra, mas seu faro é ainda mais apurado que o meu!
— Uau, isso é incrível.
Incrível que a Delta conseguiu encontrar alguém mais burro que ela, isso sim.
— E também, ela é bem forte!
— Sim, eu sei.
A maneira como ela escondeu sua presença quando apareceu foi realmente impressionante.
— Tee-hee-hee.
Ela ri inocentemente, mas, inteligência à parte, ela parece ser uma força a ser reconhecida.
— Quando você vai dominar o mundo, Mestre? — me pergunta Pi.
— Eu não estava planejando dominá-lo de forma alguma.
— Então ainda não? Mas a Senhorita Delta e eu passamos todos os dias pensando em planos para construir a matilha mais forte de todas, para podermos governar o mundo.
Bem, isso é sinistro.
Em uma rara demonstração de alarme, Delta rapidamente a interrompe.
— O plano ainda não está pronto, Pi! Ainda não descobrimos o que vamos fazer depois que fizermos o chefão ter dez mil bebês!
As duas trocam olhares furtivos comigo enquanto compartilham uma conversa secreta.
— O quêêê? Dez mil não é suficiente para dominar o mundo?
— Alpha disse que não podíamos! Mas tudo bem. Podemos simplesmente fazer com que ele tenha mais e mais, tipo um milhão. Então Alpha com certeza vai concordar!
— O quêêê? Mas são tantos!
Delta gesticula descontroladamente enquanto se explica, e Pi gesticula descontroladamente de surpresa.
— É por isso que eu disse que deveríamos esperar para contar ao chefão sobre nosso plano perfeito para a conquista do mundo!
Sim, isso soa sinistro como o inferno. Tudo o que posso fazer é rezar para que este plano nunca seja posto em prática.
— Então é melhor nos apressarmos e terminarmos de revisá-lo, hein?!
— Não podemos! Estamos no meio de uma missão para pegar Felid!
— Ah é, verdade… Mas sou alérgica a gatos!
Então sinto Alexia se aproximando.
— Olá?! Quanto tempo exatamente você pretende nos fazer esperar?! — Ela exige.
— Ah, desculpe. Já vou.
Eu lanço um sinal para Delta e Pi com os olhos, e elas rapidamente se afastam. É uma pena como são burras, mas é bom como conseguem entender rapidamente o que estou dizendo. Acho que são seus traços de cachorro em ação.
Depois que me junto a Alexia e aos outros, peço desculpas e invento uma explicação falsa para tudo.

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— A Princesa Alexia chegou à porta da frente, Conde Branco.
Ao ouvir o mordomo da propriedade Branco se dirigir a ele, o Conde levanta o olhar.
— O que a Princesa Alexia está fazendo aqui?
— Ela insistiu em estar presente durante o ataque de Jack, o Estripador.
— Que incômodo… — O Conde Branco solta um suspiro. — Não a permita entrar na propriedade. Ela pode ficar, mas apenas se esperar do lado de fora do portão com a Ordem dos Cavaleiros, como uma boa menina.
— Tem certeza, senhor? Estamos falando da Princesa Alexia.
— O título dela não tem poder real por trás. Assim que terminarmos com Jack, o Estripador, vou convidá-la para o jantar para agradá-la.
— Como desejar, senhor.
O mordomo se curva e se retira.
— Juro, é uma coisa atrás da outra ultimamente — resmunga o Conde, e então vai e se senta à mesa redonda.
Contando com ele, já há seis Lâminas da Noite presentes.
— Peço desculpas pela espera e agradeço a todos por me emprestarem sua ajuda hoje — diz ele, oferecendo aos outros uma pequena reverência.
— Não se preocupe com isso. Este é um assunto que afeta todos nós, os treze.
— O canalha eliminou o Conde Haushold Hedd, o Visconde Shinobi e o Marquês Jet também. Não resta mais ninguém dos Lâminas da Noite além de nós seis e do Marquês Despoht.
— Isso vai pesar em nossa força. Provavelmente levará uns bons cinco… não, dez anos para treinar seus sucessores.
— Isso é um problema para outro dia. Nossa principal prioridade agora é colocar esse tal de Jack, o Estripador, no chão.
— Não imagino que isso seja um grande problema. Não só temos a elite dos Lâminas da Noite reunida aqui, como também não poupamos despesas para montar uma força de combate de elite. Aquele palhaço idiota não saberá o que o atingiu.
Assim que o resto das lâminas de alto escalão se manifesta, o Conde Branco pergunta sobre seu colega ausente.
— Alguém sabe onde está o estimado Marquês Despoht?
— Ainda negociando com a organização, ao que parece. Não faz sentido contar com a Seita Fenrir por mais tempo, mas ele acha que pode concluir suas discussões com os poderosos da Seita Loki.
— Se as negociações correrem bem, acredito que eles enviarão um aliado poderoso para nos ajudar.
— Estamos enfrentando um único homem. Certamente, isso deve ser um exagero.
— Esta é a maior crise que os Lâminas da Noite já enfrentaram. Um pouco de exagero é exatamente o que precisamos. Afinal, ainda nem sabemos quem é Jack, o Estripador, por baixo daquela máscara.
— Ele é um palhaço assassino idiota. Sério que ainda não temos nenhuma pista?
Com isso, o tópico da conversa muda para Jack, o Estripador.
O Conde Branco cruza os braços e franze a testa.
— Eu presumi que ele era um assassino contratado pela família Hope, mas as chances disso parecem baixas. Eles não têm influência para conseguir um assassino do calibre dele.
— Hmm, então talvez ele seja de alguma organização rival. O Jardim das Sombras, talvez?
— Eles nunca usariam métodos tão indiretos. Não são o tipo de grupo que se vestiria de palhaço, usaria cartas de baralho como armas ou deixaria mensagens enigmáticas.
— Jack, o Estripador, mata por esporte. Ele pode não fazer parte de um grupo, mas apenas trabalhar sozinho. Seja por pura sede de assassinato ou porque guarda algum tipo de rancor.
— Um lobo solitário? Ele não deve pensar muito dos Treze Lâminas da Noite, se está nos enfrentando sozinho.
— Precisamos mostrar a este pirralho. Mostrar a ele o que acontece quando nos subestima.
Os Lâminas se levantam de seus assentos.
— Nossos cavaleiros das trevas estão prontos — diz o Conde Branco. — Agora, sigam-me. Esta noite, esta arena subterrânea será o túmulo de Jack, o Estripador.
Com isso, o mordomo acende a lareira do quarto. O fogo brilha em azul, enrolando-se em runas antigas e transformando a lareira em uma escada que desce.
— Não importa quantas vezes eu veja, nunca deixa de me impressionar. Isso é um artefato da antiga terra dos elfos?
— Você tem um olho aguçado. Artefatos élficos, livros élficos, armas élficas, escravos élficos. Elfos são um negócio lucrativo.
O Conde Branco assume a liderança e desce as escadas. Elas são largas e adornadas em ambos os lados com itens de exibição perturbadores.
— Ah, reconheço essa espada. Pertencia ao espadachim teriantropo coelho, aquele que perdeu há alguns dias.
— Aquela luta foi brilhante. É incrível como os teriantropos podem ficar ferozes quando você faz suas famílias de reféns.
— Dizem que, mesmo entre os teriantropos, os coelhos prezam especialmente por suas famílias. Devo dizer, vê-lo lutar para resgatar seus entes queridos me emocionou.
Os Lâminas da Noite apontam para a espada quebrada e manchada de sangue e para o conjunto de armadura surrada que a acompanha enquanto conversam.
— Estou mandando empalhar o corpo dele. Quando terminar, pretendo pendurá-lo ao lado da espada.
— Ooh, você terá que me convidar novamente quando estiver pronto. Por curiosidade, o que aconteceu com a família dele?
— Estou mandando empalhá-los para pendurar ao lado dele, é claro. Quem sou eu para separá-los?
— Agora seremos lembrados daquele combate glorioso toda vez que passarmos por aqui. Adorei.
Eles continuam conversando enquanto descem por mais e mais conjuntos de armas ensanguentadas e corpos empalhados, e finalmente, chegam à porta que leva à arena.
O espaço além da porta tem a forma de uma cúpula. É escuro lá dentro, e o perímetro da arena circular está alinhado com tochas, manchas horríveis e as cicatrizes da batalha. Isso não é um Festival Bushin, e não há glória a ser encontrada aqui. Apenas uma morte feia e rançosa.
— Por aqui. — O mordomo se curva e conduz o Conde Branco e os outros para os assentos de espectadores especialmente instalados. — Esta seção é protegida por uma poderosa barreira de artefato. Mesmo que Jack, o Estripador, venha, ele não conseguirá tocar um dedo em vocês.
Os Lâminas da Noite começam a se acomodar em seus assentos e a olhar para a arena.
— Agora, os habilidosos cavaleiros das trevas que vocês reuniram de toda a terra estão esperando nos fundos da arena. Tenho a lista completa aqui — diz o mordomo, começando a entregar os dossiês sobre os cavaleiros a todos eles.
— Excelente. — O Conde Branco folheia a lista e arfa. — Meu Deus… Fico surpreso que conseguimos reunir tantos.
— Ha-ha-ha. É isso que acontece quando nós, os Lâminas da Noite, damos o nosso máximo.
— Uma mestra espadachim de Velgalta, um demônio das cidades-estado, uma lenda viva da Cidade Sem Lei… Não é de admirar que estivéssemos chamando isso de exagero.
— Jack, o Estripador, é apenas um cara. Se enviarmos todas as nossas forças de uma vez, eles vão vaporizar o pobre coitado.
— Bem, é aí que entra o Conde Branco. Confio que ele fará questão de nos proporcionar um bom espetáculo.
Quando os Lâminas da Noite olham a lista recheada de estrelas, a confiança retorna aos seus rostos.
— Mas é claro. Tenho um sistema para exatamente essa razão. — O Conde gesticula para a entrada da arena. — Essa é a única maneira de entrar na arena. Selecionei todas as outras, então se Jack, o Estripador, quiser nos pegar, não terá outra escolha a não ser passar por ali. Quando ele o fizer, ativarei a barreira.
Ele acena com a mão, e uma cúpula cintilante se materializa sobre a arena.
— Como podem ver, se Jack quiser escapar, terá que derrotar cada cavaleiro das trevas que enviarmos contra ele.
— Mas não há como ele conseguir fazer isso.
— Precisamente, então podemos avaliar sua resistência e escolher oponentes apropriados para ele. Começaremos enviando nossas forças uma de cada vez e, conforme as coisas progridem, podemos aumentar gradualmente o calor. Será um espetáculo como nenhum outro — gaba-se o Conde Branco.
— Nós escolhemos contra quem ele luta? Agora, isso parece divertido.
— Ah, então, apesar de estarmos na plateia, ainda podemos participar. Ouvi dizer que a Mitsugoshi tem popularizado isso ultimamente.
— Malditos sejam esses bastardos da Mitsugoshi, se metendo em nossas concessões…
— Há muito que poderíamos aprender com a maneira como eles fazem negócios. Deveríamos estar procurando trabalhar com eles, não contra eles. Quem devemos enviar primeiro? A lenda da Cidade Sem Lei, talvez?
— Não, ele é muito forte. Imagine como seria anticlimático se Jack, o Estripador, caísse no primeiro combate.
Os Lâminas da Noite, encantados, começam a escolher seus lutadores.
Assim que eles têm uma lista preliminar, o Conde Branco oferece algumas palavras em voz baixa.
— Me disseram que o sol já se pôs lá em cima. A questão agora é: Jack, o Estripador, realmente aparecerá?
— Ele teria que ser um tolo monumental para entrar aqui com todos os cavaleiros das trevas que temos à espera… mas acho que se ele não vier, teremos uma noite bem chata.
— Ei, se ele não vier, significa que fugiu com medo. Assim que terminarmos de espalhar os boatos sobre o que aconteceu, nossa reputação estará segura.
— E a dele estará na lama. Quero dizer, fugir depois de enviar um cartão de visita? Ele será o motivo de piada da capital.
— Não importa como as coisas se desenrolem, não temos nada a perder.
— Exceto pelos polpudos pagamentos daqueles cavaleiros das trevas, é claro.
Suas risadas grosseiras ecoam pela arena subterrânea.

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— Tem certeza disso, Princesa Alexia?
Alexia, Christina e Kanade descem por um corredor subterrâneo escuro.
— Absoluta. Conheço as passagens subterrâneas da capital como a palma da minha mão — declara Alexia com confiança enquanto caminha na liderança do grupo.
— Mas, com certeza, a história sobre a propriedade Branco ter uma seção subterrânea secreta é apenas um boato — diz Christina.
— Oh, eu não teria tanta certeza disso.
— Não teria?
— Sim, as casas dos vilões sempre têm covis subterrâneos.
— …Ah.
Soando completamente descrente, Christina se vira para olhar preocupada para Kanade, que está na retaguarda.
Kanade murmura algo enquanto treme.
— Está tudo bem. Só preciso ficar perto da Princesa Alexia… Se o pior acontecer, posso usá-la como escudo…
— Cid vai ficar bem? — pergunta Christina. — Sei que o deixamos com a Ordem dos Cavaleiros, mas mesmo assim.
— Juro, Fido sempre faz isso. Ele amarelou bem quando as coisas estavam ficando boas. Dito isso, sua esgrima é medíocre, então que escolha tínhamos? Não parece que os Lâminas da Noite estão atrás dele, então tenho certeza de que ele ficará bem.
— É verdade. Tudo o que importa para eles agora é Jack, o Estripador. Até pararam de vigiar a Kanade.
Os olhos de Kanade brilham.
— O quê, eles pararam?!
— Sim. É o tamanho da ameaça que eles consideram Jack, o Estripador. Imagino que queiram concentrar toda a sua força nele até que o caso termine.
Um sorriso malicioso se espalha pelo rosto de Kanade.
— Então, vamos torcer para que isso dure para sempre.
— Não se preocupe — diz Alexia com confiança. — Assim que executarmos este plano que bolei – aquele em que nos infiltramos na propriedade Branco enquanto os Lâminas da Noite estão ocupados lidando com o ataque de Jack, o Estripador, para coletarmos muitas provas de todas as suas maldades, tudo se resolverá.
— Mas você não bolou isso na hora, quando Cid por acaso encontrou aquela entrada de esgoto? — pergunta Christina.
— Planejar é sobre ser flexível o suficiente para lidar com a situação conforme ela se apresenta.
— Apenas… — Christina faz uma pausa por um momento. — Quem realmente é Cid?
— O que você quer dizer? Ele é o Fido.
— Foi ele quem encontrou o túnel que leva ao subsolo, e foi ele quem de fato decifrou a maior parte das mensagens que Jack deixou. Você pensaria que ele estaria com muito medo para fazer qualquer uma dessas coisas.
Alexia não pode deixar de concordar.
— V-você, uh… tem razão, na verdade. O Fido pode ser estranhamente perspicaz.
— A habilidade dele de chegar à verdade a partir das pistas mais simples é realmente digna de menção.
— E-eu já estava quase decifrando também, para que conste — murmura Kanade.
— E, além disso, tenho a estranha sensação de que já o conheci antes — continua Christina. — Considerando a aura misteriosa que ele exala, talvez ele seja secretamente…
— V-você está dizendo que o Fido está escondendo algo? — diz Alexia preocupada.
— Acho que ele pode ser secretamente um detetive brilhante.
— Desculpe, um o quê?
— E um veterano habilidoso, ainda por cima. Talvez uma organização maligna o tenha forçado a tomar uma droga que o fez rejuvenescer, como nos romances Case Clawed de Natsume Kafka. Agora ele está se disfarçando de estudante para se infiltrar em nossa academia.
— Tudo bem, essa é uma teoria fofa e tudo mais, mas Fido não é um detetive. Ele é o mais comum que existe. Agora, olhe aqui. É o brasão da família Branco. Tudo está indo exatamente de acordo com o plano.
Com certeza, o local na parede do túnel para o qual Alexia está apontando tem o brasão Branco estampado nele.
— Não pode ser — diz Christina. — Mais uma das deduções do Cid se tornou realidade…
— Bem, bem, bem. — Alexia começa a examinar a parede com orgulho. — Eu disse que tudo daria certo, não disse?
— Então, o que você pretende fazer aqui?
— Bem, lugares como este geralmente têm portas secretas escondidas em algum lugar.
— Talvez, mas não imagino que será fácil de encontrar…
— Encontrei!
— Sério?!
Quando Alexia cutuca o brasão, um baque pesado se segue, e a parede se abre.
— As portas escondidas no castelo são construídas da mesma maneira. Os ricos e poderosos basicamente pensam todos da mesma forma.
Com um ar bastante presunçoso, Alexia segue pelo corredor escuro e estreito.
— Eca, está cheio de teias de aranha. Este lugar provavelmente não é usado há uma eternidade — diz Kanade.
— Tenha cuidado, Princesa Alexia. Pode ser perigoso — adverte Christina.
— Estou sendo cuidadosa. Pelo menos, em comparação com a Claire.
— Não acho que essa seja uma referência saudável.
Christina e Kanade a seguem.
Depois de continuar pelo corredor por um tempo, Alexia para.
— …É um beco sem saída — diz ela, sentindo a parede. — A parede parece grossa, mas posso sentir pessoas do outro lado.
— Oh, ei, tem uma luz brilhando pela fresta na parte de baixo — diz Kanade. Ela está certa; um brilho fraco é visível ao longo do chão.
— O material ali também é diferente. Se nós apenas…
Elas empurram e puxam a parede e descobrem que podem levantá-la apenas o suficiente para uma pessoa passar por baixo.
— Tudo bem, vamos fazer isso — diz Alexia enquanto imediatamente começa a rastejar pela abertura.
— Por favor, tenha cuidado, Princesa Alexia.
— O mais seguro aqui é ir em segundo… — murmura Kanade. — A terceira pessoa pode ser esmagada se a parede cair sobre ela, ou uma besta mágica pode vir comer suas pernas…
— É perigoso, Kanade, então você deve ficar atrás de mim.
— Hã?!
Enquanto Christina rasteja para a frente, Kanade a olha horrorizada antes de lançar um olhar frenético por cima do ombro.
— E-eu acho que não sinto nenhuma besta mágica, e não acho que ninguém esteja nos seguindo…
Depois de verificar novamente para ter certeza de que a parede está segura, ela rasteja atrás de Christina.
— Eek! Você pode, por favor, não me empurrar, Kanade?! Essa é a minha saia!
— Não, não, não, não.
— Que diabos, Christina?! Sei que meu bumbum é atraente, mas isso não significa que você pode apertá-lo.
— E-eu prometo que não estou tentando. É que a Kanade está me empurrando…
— Mais rápido, mais rápido, mais rápido, mais rápido.
Depois de serem empurradas por Kanade o tempo todo, as três finalmente emergem do outro lado da parede.
— Finalmente… Que lugar é este?
Quando o fazem, encontram-se em um espaço escuro em forma de cúpula.
— Princesa Alexia, olhe ali!
Christina aponta para onde os Lâminas da Noite estão reunidos. Eles estão a uma curta distância e, por causa da luz fraca, eles ainda não os notaram.
— Seis Lâminas da Noite? O que está acontecendo aqui?
Kanade engole em seco audivelmente.
As garotas escondem suas presenças e se agacham para se proteger. Depois de olharem ao redor novamente, elas percebem que estão em algum tipo de estádio.
— Isto é uma arena? — diz Alexia. — Eu poderia jurar que estávamos sob a propriedade Branco.
— Existem alguns rumores desagradáveis circulando sobre o Conde — responde Christina. — Histórias sobre como ele força escravos a lutar para que possa apostar nas partidas. Será que isso pode ser verdade?
Kanade engole em seco mais uma vez.
Enquanto as três tentam entender a situação, um brilho fraco toma conta da arena.
— Algo está acontecendo…
Com isso, elas voltam seus olhares para o centro da luz.
Tradução: Gabriella
Revisão: Pride
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