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A Eminência nas Sombras – Vol. 06 – Cap. 02 – Assassinos na Festa do Pijama!

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A rua principal da capital está em alvoroço.

— V-vejam os corpos!

— O que aconteceu?

— Dizem que dois nobres foram assassinados!

— Afastem-se! Estamos conduzindo uma investigação!

Há dois corpos pendurados na fonte no meio da rua, e uma multidão se aglomera ao redor deles.

— Aquelas são cartas de baralho cravadas em suas cabeças?

— Ouvi dizer que um nobre foi assassinado ontem também.

— Ah, eu também ouvi isso. Aparentemente, foi o Conde Shoddi Goodz quem foi morto. Minha amiga Horako trabalhava para ele como empregada.

— S-sério?!

— Sério! E ela viu o assassino também! Disse que ele estava vestido com uma roupa de palhaço!

— Não sei, isso parece uma grande mentira…

— Dissemos para se afastarem! Vão, saiam daqui!

A Ordem dos Cavaleiros afasta a multidão que se aglomera.

É uma reunião estranhamente grande para a rua principal tão cedo pela manhã, e uma bela garota de cabelos vermelhos abre caminho por ela.

Essa garota é Christina.

— Por favor, abram caminho. Preciso passar! — Ela insiste.

— Eu te conheço…?

— Sou Christina Hope, filha do Duque Hope. Estou aqui para ver a cena do crime.

— Certo, você é da família Hope. Pode entrar.

Uma expressão de desdém cruza o rosto do cavaleiro enquanto ele empurra a multidão, mas mesmo assim deixa Christina passar.

— Mas o quê…?

Ao ver a fonte, Christina ofega.

Há um par de homens pendurados na coluna principal da fonte, e Christina reconhece aquelas figuras pálidas.

— Aquele é o Conde Azukay e o Barão Stergang…

Expressões de medo e choque estão estampadas nos rostos dos homens mortos.

— Heh.

A boca de Christina se curva em um sorriso de escárnio. Mais dois parasitas exterminados.

Então ela ouve uma voz atrás dela.

— Três das Treze Lâminas da Noite foram assassinados em rápida sucessão. Difícil imaginar que seja coincidência.

Christina esconde o sorriso com a mão e se vira. Lá, ela encontra Gray, chefe do departamento de investigação criminal da Ordem dos Cavaleiros.

— Chefe Gray… O que você quer dizer com isso?

— Estava apenas compartilhando meus pensamentos honestos, Senhorita Christina. — Gray sorri alegremente, mas tem o olhar fixo nela como um falcão. — Três nobres acabaram de ser assassinados em sequência, e o que é mais, todos pertenciam ao mesmo grupo. Acho difícil descartar isso como um acaso.

— Bem, não discordo disso.

— Até ouvi dizer que há uma casa nobre que estava arranjando briga com esse grupo.

— Você parece estar muito bem informado sobre o assunto.

— É meu trabalho estar.

— Uau, invejo a dedicação do chefe que a Ordem dos Cavaleiros tem. Tenho certeza de que você vai capturar esse assassino em pouco tempo.

— Pode apostar que sim. Agora, preciso voltar ao trabalho.

Gray se vira para ir, mas para no meio do caminho.

— Há mais alguma coisa? — pergunta Christina a ele.

Ao ouvir a pergunta, Gray volta seu olhar penetrante para Christina.

— Apenas mais uma coisa, Senhorita Christina. Recebeu alguma boa notícia recentemente?

— Hã?

— Oh, é que parecia que você estava sorrindo ali atrás.

— … Deve ter sido imaginação sua — responde Christina, baixando a mão da boca.

— Fui eu? Acho que devo ter sido.

Com isso, Gray se afasta de verdade.

Christina solta um suspiro nebuloso e depois olha para os dois corpos novamente.

— Olá, Christina.

Ela se vira ao ouvir seu nome e vê um rosto familiar.

— Princesa Alexia…

— Acabei de voltar da casa do Conde Azukay.

— Por que a casa dele?

— Não foi aqui que os assassinatos foram cometidos. O assassino entrou em um quarto escondido na propriedade Azukay, matou os dois homens e carregou seus corpos até aqui. Vê como a Ordem dos Cavaleiros está verificando aqueles rastros?

— Você tem razão…

Com certeza, os cavaleiros estão de quatro e seguindo o rastro de pegadas vermelhas que se afastam da fonte.

— A propriedade de Azukay está nas mesmas condições que a de Goodz — diz Alexia. — Todos os guardas estão mortos ou feridos demais para lutar, e todas as empregadas foram apenas nocauteadas e estão bem.

— Isso não deve ter sido fácil de fazer.

— Não foi. Estamos lidando com um especialista aqui. Eles continuam realizando um assassinato incrivelmente difícil após o outro. O Conde Azukay e o Barão Stergang não eram tolos. Eles foram cautelosos o suficiente para ficarem em uma câmara escondida, e isso não lhes adiantou de nada.

Christina dá mais uma olhada nos dois corpos na fonte. Um deles tem uma carta de baralho cravada na garganta; o outro, uma na nuca. Pelo que ela pode ver, esses são seus únicos ferimentos.

— Cada um deles morreu com um único golpe de uma carta de baralho. — Ela comenta. — É exatamente o mesmo da última vez.

— As empregadas do Conde dizem que viram um palhaço encharcado de sangue também — responde Alexia. — Tem que ser o mesmo assassino.

— O que eles esperam alcançar? As cartas de baralho, a fantasia de palhaço, trazer os corpos até esta fonte… Nada disso faz sentido.

— Não sei. Não há muitas pessoas que teriam as habilidades para realizar algo assim. Imagino que vão começar a investigar todas as pessoas mais poderosas da capital.

— Espero que isso seja suficiente para encontrar o culpado, mas eu não apostaria dinheiro nisso…

— De qualquer forma, deveríamos ir. Não queremos ser vistas demorando aqui.

— É um bom ponto. Ah, a propósito, eu tinha algo que queria te dizer…

Justo quando Christina tenta sair, ela é interrompida por uma voz apática:

— Oh, uau, caramba, isso é estranho.

O interlocutor é um garoto despretensioso com cabelos e olhos escuros – Cid Kagenou.

— O que você está fazendo aqui, Cid? — pergunta Christina. — Eu te disse para me esperar na vila!

É um tanto alarmante a rapidez com que Alexia responde.

— O que você quer dizer com “esperar por mim na vila”?

— Eu, hum… — Incerta da melhor forma de responder à pergunta, Christina se atrapalha com as palavras. Ela planejava contar a Alexia sobre a situação de Jack, o Estripador, em outra hora. — Houve alguns desenvolvimentos.

— Elabore.

— Olha, eu ia te contar tudo, só que mais tarde.

— Bem, é melhor que “mais tarde” chegue logo.

Christina assente, surpresa com a estranha tensão que se instalou de repente.

— Oh, uau, caramba, isso é estranho. — Cid se repete, esperando impacientemente por uma reação.

— Por que você veio aqui, Cid? — pergunta Christina. — É perigoso. Por isso eu te disse para ficar para trás.

— Uhh, eu estava preocupado com você, então agora estou aqui — diz Cid, como se estivesse lendo um roteiro.

Alexia sorri docemente.

— Vocês dois parecem muito próximos. Quando isso aconteceu, eu me pergunto?

— O que é tão estranho, Cid? — pergunta Christina.

— As cartas de baralho.

— Quer dizer, você não está errado…

— Qualquer um com dois olhos poderia te dizer que as cartas de baralho são estranhas — resmunga Alexia, de lado. — Por que você é sempre assim, Fido?

— Se me lembro bem — continua Cid —, a primeira vítima foi morta com um ás de espadas.

— Isso mesmo, ele foi.

— Desta vez, foram um dois e um três de espadas.

— Então você está dizendo que os números estão aumentando?

— Qualquer um com olhos poderia ter te dito isso também — retruca Alexia.

— Não são apenas os números — diz Cid. — É que são todas de espadas. O assassino deve ter escolhido espadas por um motivo.

— Claro, são todas de espadas, mas que significado isso poderia ter?

— Cada naipe representa coisas diferentes. Copas simbolizam o amor, por exemplo, enquanto ouros simbolizam mercadores e paus simbolizam conhecimento.

— Eu não sabia disso. E quanto a espadas, então?

— Bem, a primeira coisa que simbolizam é o inverno.

— Oh, uau, o assassino está usando espadas porque é inverno agora — diz Alexia, exasperada. — Brilhante dedução, Fido.

— Mas não é a única coisa que espadas podem significar. Há outras também. Como noite, lâminas e morte.

— Noite e lâminas?! — exclama Christina.

— E isso, junto com a morte… Não pode ser! — Alexia ofega.

As duas garotas trocam um olhar.

— Um baralho tem treze espadas — diz Cid. — Isso é exatamente o suficiente para treze pessoas.

— Então o assassino está planejando derrubar todos os membros das Treze Lâminas da Noite?!

— Isso não pode ser verdade…

Se for esse o caso, então não é apenas uma provocação dirigida às Lâminas da Noite. É uma declaração de guerra aberta.

— O que esse cara está pensando? — Alexia se pergunta em voz alta. — Apenas um lunático completo sairia de seu caminho para avisar suas vítimas assim.

Os pensamentos de Christina correm.

— Mas o fato é que ele matou três de seus alvos como as cartas dizem. Um louco comum não seria capaz de fazer isso.

— Eu também não sei o que o assassino pode estar pensando, mas ele nos deixou mais uma pista enorme. — Cid sorri, sabendo.

— Que pista enorme é essa?

— Onde sequer está…?

Alexia e Christina inspecionam a área.

— Ali.

Olhar na direção que Cid está apontando causa um alvoroço entre os espectadores.

Ele está observando os dois corpos. A Ordem dos Cavaleiros os está baixando da fonte, deixando seu pilar central ensanguentado exposto.

— Vocês não acham que o sangue no pilar parece um pouco com letras? — diz Cid.

— O quê?!

— Não pode ser!

A ficha cai para Alexia e Christina em uníssono.

Um pouco mais tarde, os espectadores chegam à mesma conclusão.

— Ei, tem algo escrito ali no sangue!

— O que diz? Não consigo ver muito bem daqui. “Jack… alguma coisa”?

— Diz “Jack, o Estripador”.

As palavras de Cid têm um tom sinistro, e elas se espalham pela multidão em um piscar de olhos.

— Aparentemente, diz “Jack, o Estripador”!

— Esse é o nome do assassino?!

— Tem que ser! Jack, o Estripador, é o serial killer!

— Ele está matando aristocratas por toda a capital! Isso é ele os desafiando!

A multidão corre pelas ruas, gritando o tempo todo.

Alexia faz uma careta.

— Ao meio-dia, todos na capital saberão do que aconteceu.

— A iria vazar eventualmente — diz Cid com um suspiro.

— Jack, o Estripador… — murmura Christina em voz baixa.

— O que foi, Christina? — pergunta Alexia. — Você descobriu alguma coisa?

Christina franze a testa.

— Não, é que… tem algo que preciso te contar.

Alexia franze o cenho para as cópias dos documentos incriminadores.

— Então era isso que você queria dizer. Jack, o Estripador, já entrou em contato com você…

Há três pessoas na sala de aula vazia da academia: Alexia, Christina e Cid.

A expressão de Christina é igualmente grave.

— Usar essa evidência com cuidado poderia nos permitir encurralar de verdade os Despohts, mas não podemos nos dar ao luxo de agir precipitadamente, não quando não sabemos o que Jack, o Estripador, espera alcançar.

— Não temos ideia se ele é amigo ou inimigo — concorda Alexia. — Sabemos que ele quer que usemos a evidência, mas não há como saber o que ele tem a ganhar com isso.

— E também não podemos contar a ninguém de onde conseguimos a evidência. Isso limita as maneiras como podemos usá-la.

— Quanto a isso, na verdade, tenho uma ideia. Você se importaria de me deixar ficar com esses papéis por um tempo?

— São apenas cópias, mas pode ficar com elas. O que você está pensando?

— Vou pedir conselho ao meu pai.

— Ah, isso seria uma grande ajuda.

Alexia sorri tristemente enquanto guarda os documentos manchados de sangue em sua bolsa.

— Eu não teria tanta certeza disso…

— O que você quer dizer?

— Ah, nada. Agora, a verdadeira questão aqui… é por que você e essa coisa estavam juntos.

Alexia agarra Cid pelo colarinho e o empurra na frente de Christina.

— Hum, para a proteção dele? — diz Christina como se fosse óbvio. — Ele deu uma olhada nos documentos, e eu sabia que as coisas poderiam ficar feias se os Despohts descobrissem.

— Parecia que vocês estavam dormindo no mesmo quarto.

— Porque é mais eficiente ter que guardar apenas um local, sim.

— Quer dizer, acho que você não está errada…

— Na verdade, isso me lembra. Você não fingiu estar namorando o Cid uma vez, Princesa Alexia?

— O-o que tem isso?

— Ah, eu só estava preocupada que vocês dois pudessem estar namorando de verdade. Se estiverem, então peço desculpas pela minha falta de consideração.

— N-não estávamos. Definitivamente, absolutamente não estávamos.

— É, eu preferiria morrer a namorar a Alexia — intervém Cid.

— Você pode ficar quieto, Fido! — Alexia balança violentamente Cid pela gola.

— Entendo — diz Christina. — Então acho que vocês não estavam namorando, afinal.

— Claro que não. Se eu saísse com o Fido, seria uma mancha no nome da família Midgar.

— Ah, então não há problema.

— Hã?

— Se vocês dois não estão namorando, então não vejo problema em nós dois dormirmos no mesmo quarto.

— E-eu só estou preocupada com você, Christina. Ele pode tentar alguma coisa suspeita.

— Não vou — diz Cid.

— Preocupada? Comigo? Agradeço a preocupação, mas garanto que não há com o que se preocupar. Sou uma cavaleira das trevas muito mais forte que o Cid.

— Você tem razão, mas o Fido tem esses momentos raros em que seu manejo da espada se torna incrivelmente refinado. Sei que é improvável, mas nunca se é cuidadoso demais.

— Você é muito gentil, Princesa Alexia. Não fazia ideia de que estava tão preocupada comigo. Nesse caso, por que não se junta a nós?

— Hã? — Alexia pisca, perplexa.

— Se você viesse e ficasse conosco também, então certamente nada poderia dar errado — sugere Christina.

— Por favor, não — diz Cid. — Tenho calafrios só de pensar em ter que dormir no mesmo quarto que a Alexia.

— Cale a boca, você. — Alexia tampa a boca de Cid com a mão. — Pode não ser uma má ideia.

— O pai ficará emocionado.

— Mmrnf! — resmunga Cid.

— Vou mudar meus planos.

— Parece perfeito. Vou fazer os preparativos.

— Mmrf! Mrrrnf!

— Até mais, então.

Com isso, Alexia sai correndo.

— Ah, caramba, como as coisas acabaram com a Alexia ficando conosco? — geme Cid, com a expressão de um herói que sabe que vai morrer em batalha.

— Não é emocionante? — diz Christina.

— Vou voltar para o meu dormitório.

— Isso não é uma opção.

— Desculpe, mas não posso continuar com você. Tenho alguns assuntos que preciso…

— QUAL É EXATAMENTE O SIGNIFICADO DISSO?!

Antes que Cid possa terminar sua frase, ouve-se um grito feminino vindo do corredor.

— Conheço essa voz! — diz Christina.

— Hã?

— Foi Eliza agora mesmo. Algo deve ter acontecido.

Christina e Cid saem para ver o que está acontecendo.

No corredor, Eliza e seu lacaio estão causando um alvoroço.

— Como ela ousa. Ela acha que vou simplesmente aceitar isso?

Eliza lança um olhar fulminante para os espectadores, e eles se dispersam como moscas. Então seu olhar pousa em Christina.

— Meu Deus, Christina. Você tem muita coragem de andar por aqui depois do que fez.

— O que eu fiz? Do que você está falando, Eliza?

— Estou falando disto! Você é a única pessoa que me daria isto!

Eliza ergue um pedaço de papel com uma mensagem escrita em sangue:

“Treze porquinhos gordos. O primeiro porquinho morreu fugindo. O segundo morreu cheio de desprezo patético. O terceiro morreu com o orgulho de um tolo. Como morrerá o próximo? – Jack, o Estripador”

— Isso é… uma ameaça de morte? Onde você encontrou isso? — pergunta Christina.

— Estava enfiado na minha bolsa. Você se acha muito engraçada, não é? — Eliza a encara. — Suponho que os “treze porquinhos gordos”’ sejam minha família e nossos amigos?

— Oh, eu não poderia dizer.

— Fingindo-se de boba, é? Como se Jack, o Estripador, não fosse o assassino que você contratou.

— Ele realmente não é.

— E agora você faz essa palhaçada. Se acha que vou deixá-la se safar com isso, está muito enganada.

— Como eu disse, não fui eu.

Um estalo seco ecoa pelo corredor.

Eliza acabou de dar um tapa no rosto de Christina.

— Aproveite essa sua confiança enquanto dura. Você conseguiu enfurecer meu pai, e não tem ninguém a culpar pelo que está por vir, a não ser a si mesma.

Christina devolve o olhar gélido de Eliza.

Então, atrás dela, Cid voa pelos ares.

— PLAAAARGH!

Sangue jorra de seu nariz e boca enquanto ele sobe pelo ar.

— Cid?!

— Ah-ha-ha, que patético!

O lacaio de Eliza foi quem o socou.

— Como pôde?! — exclama Christina. — Ele não faz parte disso!

— Isso não é problema meu. É isso que acontece quando você tenta se opor a mim. Bom trabalho, Dunder Hedd.

Seu lacaio, Dunder Hedd, limpa o sangue do punho e sorri.

— Heh-heh-heh, tudo o que eu fiz foi dar um toquinho nele.

— Você é incrível, Dunder. Mesmo com apenas um leve toque, você o mandou voando até o final do corredor.

De alguma forma, aquele único soco que Dunder deu foi suficiente para arremessar Cid por uns bons 45 metros.

— Quer dizer, estou ficando mais forte — diz Dunder.

Eliza entrelaça seu braço no de Dunder e pressiona o peito contra ele.

— Sinto-me tão segura perto de você. Eu adoro um homem de verdade.

— Heh-heh, pode contar comigo.

— Tenha cuidado, no entanto. Você pode ser o próximo alvo.

— Ha. Se Jack, o Estripador, tentar alguma coisa, eu mato o desgraçado!

— Tee-hee. Se você fizer isso, farei questão de te dar uma recompensa especial.

Lançando um sorriso coquete, Eliza sai com seu lacaio a tiracolo.

 

Separador Tsun

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Na enfermaria da escola, uma médica sexy me presta os primeiros socorros.

— Pronto, tudo terminado. Tente não se meter em mais brigas, ok? — Ela diz, e depois volta para seu outro trabalho.

Christina me olha com preocupação.

— Você está bem, Cid?

Eu curvo minhas bochechas inchadas em um sorriso.

— Aquele cara deu um soco forte, mas consegui sobreviver por pouco girando e negando três por cento do dano.

— Você deveria descansar aqui pelo dia. Eu venho te buscar quando as aulas terminarem — diz Christina, e depois sai da sala.

Deito-me na cama e estico um pouco os braços.

— E aí.

Então, uma garotinha surge debaixo da cama. É a Nina.

— E aí — respondo. Eu sabia que ela estava bisbilhotando o tempo todo. — O que foi?

— Eu queria te dar uma atualização sobre a situação da Claire.

— Ah, claro.

— Por que não vamos para o quarto dela?

Nina é tão pequena como sempre. Ela me leva até o quarto de Claire.

O quarto mudou um pouco desde a última vez que estive aqui. Agora está cheio de equipamentos médicos e aparelhos mágicos de aparência estranha. Na cama, minha irmã está deitada completamente imóvel.

— Mana…

Bip. Bip. Bip. Biiiiiiip.

Um dos dispositivos mágicos zune. Eles tinham essas coisas nos hospitais do meu antigo mundo também.

— O pulso dela parou — digo quando percebo. — É até aqui que ela vai…

Junto minhas mãos e fecho os olhos. Eu não acreditava em vida após a morte ou algo do tipo, mas então eu literalmente reencarnei. Se Claire tiver sorte, ela provavelmente acabará reencarnando em algum lugar também.

Rezo para que ela não renasça como uma barata ou uma pulga.

— Pelo menos que ela volte como um rato ou algo assim.

Nina me lança um olhar de reprovação.

— Ela não está morta.

— Mas o aparelho parou.

— Esse é o som que ele faz quando termina de medir a mana de alguém.

A resposta não vem de Nina, mas da médica sexy. Ela entra no quarto, sua presença quase imperceptível.

— Ah, oi… você estava na enfermaria também — digo.

— Isso mesmo, eu estava. Nina me ajudou a ser contratada tanto como médica de Claire quanto como médica da escola. Meu nome é Mu.

Mu me faz uma reverência profunda.

Ela tem pele escura e lábios cheios e carnudos. Há orelhas pontudas saindo de seu cabelo prateado. Ela é uma elfa negra.

— Uau, você é muito educada. Sou Cid Kagenou. Sou o irmão da garota adormecida.

— Ah, sei exatamente quem você é. É uma honra conhecê-lo, e espero que o meu trabalho esteja à altura dos seus padrões.

— Não, não, o prazer é todo meu.

— Não, não, eu garanto, o prazer é todo meu.

Uma gentileza gera outra, e passamos um bom tempo balançando a cabeça um para o outro. Mu é médica, então me pergunto por que ela está agindo de forma tão deferente. É um pouco incomum, mas acho que ter uma elfa negra como médica é incomum por si só.

Assim que para de se curvar, Mu começa a mexer habilmente na máquina e a inspecionar a mana de Claire. Fico impressionado com a fluidez do controle de mana de Mu. O que alguém como ela está fazendo trabalhando como médica escolar? Suas habilidades são de verdade, e a maneira como escondeu sua presença mais cedo também foi fantástica. Cara, acho que os médicos hoje em dia fazem de tudo…

Não sei nada de medicina, então decido deixar tudo com ela.

— Não fazia ideia de que você era amiga de uma médica tão talentosa, Nina. Você tem contatos incríveis.

Nina ri, envergonhada.

— Nya-ha-ha.

— Então, como está minha irmã?

— Sua vida não corre perigo, e ela vai acordar eventualmente. Para detalhar as especificidades de sua condição, sua mana instável reagiu com o novo brasão em sua mão direita…

Quando Mu começa a explicar as coisas com seriedade, levanto a mão para interrompê-la.

— Ah, ok, legal. Contanto que ela não vá morrer, então está tudo bem.

— M-minhas mais sinceras desculpas pela minha impertinência.

— Como eu disse, está tudo bem. A questão então é: quando ela vai acordar?

Se possível, gostaria que ela descansasse por um loooongo tempo.

— Se esperarmos que ela acorde por conta própria, deve levar de algumas semanas a alguns meses. Tudo depende de como a mana dela se adapta.

— Entendi.

— Poderíamos induzi-la a despertar à força, é claro, mas isso poderia ter efeitos duradouros em seus circuitos mágicos…

— Ooh, espere aí, isso é ruim. Não podemos fazer isso, agora.

— Concordo. Danos aos circuitos mágicos não são algo para se levar na brincadeira. Se quisermos fazer o que é melhor para o corpo de Claire, precisamos…

Enquanto ignoro completamente o resto da explicação de Mu, dou uma olhada na minha irmã enquanto ela dorme pacificamente.

— Se ao menos pudéssemos deixá-la dormir para sempre — murmuro. Quer dizer, tudo o que ela faz é me importunar.

No momento em que as palavras saem da minha boca, o clima na sala fica gélido. Os olhos de Nina se arregalam e Mu inspira bruscamente.

— Se é isso que você realmente quer… — diz Nina, sua voz tão sombria que parece que está anunciando o fim do mundo.

Mu se ajoelha, seu olhar resoluto.

— Sua vontade é grande, e você vê mais longe do que nós jamais poderíamos. Não sei para onde este seu caminho leva, mas o seguirei até que meus pulmões não respirem mais.

— Uh… — A energia aqui ficou muito estranha, muito rapidamente. Oprimido pela estranha tensão no ar, apressadamente volto atrás. — E-eu estava só brincando…

Você realmente não pode levar as coisas que eu digo tão a sério.

— Ah, caramba, foi só uma piada…?

— Que travesso da sua parte. Pensei que meu coração poderia parar.

Assim, as duas voltam a sorrir. Devo dizer, é estranho o quão aliviada Nina parece.

— D-de qualquer forma, vejo que minha irmã está em boas mãos.

Com isso, fujo do quarto. O que houve com o clima lá atrás?

Tomo um breve momento para refletir. Ok, claro, talvez isso tenha sido um pouco insensível da minha parte. Em minha defesa, no entanto, Claire tem sido estranhamente tenaz desde que era criança. Ela tem essa bizarra capacidade de se recuperar das coisas – bizarra o suficiente para que eu consiga rir do fato de ela estar em coma.

 

Separador Tsun

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Depois do jantar, Christina, Kanade e eu jogamos um pouco de “Mico” no quarto.

— Ah, não, a Senhorita Eliza parece muito, muito brava! Eu vou morrer. Eu vou morrer com certeza — lamenta Kanade enquanto pega uma carta da minha mão.

Ooh, ela pegou o Mico.

— Não se preocupe. — Christina a tranquiliza. — A mansão está sob forte proteção, e se o pior acontecer, você tem a mim para te proteger.

— Mas… mas e aquele cara gigante que a Senhorita Eliza tinha com ela?

— Ah sim, aquele cara — comento.

Ela provavelmente está falando do homem que Eliza tinha trabalhando como seu guarda-costas na névoa branca. O mesmo que me socou.

— Você quer dizer Dunder Hedd? — pergunta Christina.

— Sim, sim, ele. Ouvi dizer que o pai dele tem ligações com o crime organizado, e que eles usam mercenários ilegais para matar pessoas discretamente. Aparentemente, eles vendem os órgãos das pessoas que matam, transformam a carne delas em carne moída e usam slimes para derreter os ossos para que não sobre corpo para identificar… Eu vou morreeeeer.

— Você está falando do Conde Haushold Hedd. Definitivamente, há alguns rumores desagradáveis sobre ele, mas duvido que ele teria a coragem de atacar a mansão.

— Saí — anuncio.

A carta que acabei de pegar de Christina me deu o último par que eu precisava.

— Cid, seu traidor! — grita Kanade. — Se formos atacados, vou te usar como escudo.

— Tudo bem.

— Oh — diz Christina —, eu também saí.

— O quêêê? Como eu continuo per-per-perdendo?

Porque cem por cento dos seus pensamentos ficam escritos no seu rosto.

Não que eu vá dizer isso a ela, é claro.

— Olha, o “Mico” tem alguma graça com três jogadores? — pergunto.

— É uma explosão! — responde Kanade sem um momento de hesitação.

— Se você diz. — Acho que não há como discutir gostos. — Bem, vou tomar meu banho agora.

— O quêêê?!

— Concordamos que tomaríamos banho na ordem em que ganhamos, lembra?

— Mas eu estava prestes a começar minha virada…

Ignoro os resmungos de Kanade e vou para o banheiro.

— Kanade, quer jogar, só nós duas? — oferece Christina.

— Sim!

Não gosto nem um pouco do som disso. Christina vai tomar banho em seguida, e isso significa que vou ficar preso sozinho com Kanade.

Na verdade, talvez isso seja bom. Certamente, até ela vai perceber o quão estúpido é jogar “Mico” com duas pessoas.

Pouco depois, Kanade e eu acabamos jogando “Mico” de dois jogadores.

É madrugada, e um grupo de figuras mascaradas se esgueira pelos terrenos silenciosos da mansão Hope. Suas armas estão em punho, e eles esperam o momento de atacar.

— Já é hora, pai?

— Não se apresse, Dunder.

Entre eles, Dunder Hedd e Haushold Hedd trocam algumas palavras em voz baixa.

— Mas eles já apagaram todas as luzes.

— Colocamos o Visconde Shinobi encarregado da vigilância por um motivo. Esperamos pelo sinal dele.

— Se você insiste, pai — responde Dunder, sem parecer convencido.

— Não se preocupe, Dunder. Pretendo que você receba todo o crédito pelo ataque desta noite.

— Sério?!

— Já passei do meu auge, filho. Pouco depois de você se formar, planejo me aposentar e deixar você tomar meu lugar nas Lâminas da Noite.

— Heh, vou despedaçar aquela vadia da Christina. É o que ela merece por mexer comigo.

— Temos dois alvos esta noite: Christina e Kanade. O Duque Hope está nos esperando com aquela evidência.

Dunder solta uma risada zombeteira.

— Coitada, sendo traída pelo próprio pai.

— Foi a única escolha inteligente a ser feita. A família Hope se manteve firme por gerações. Ele não pode deixar que ela seja esmagada pelas ações de uma garota idiota. Lembre-se, prometemos que pouparíamos o Duque em troca daquela evidência. Não o mate por engano.

— Heh-heh. Eu sei, eu sei.

— E tenha cuidado. Há um garoto no mesmo quarto que os alvos. Se bem me lembro… o nome dele é Cid Kagenou.

— O pirralho que estava com a Christina, você quer dizer? O que eu faço com ele?

— Ele não importa, mas não queremos testemunhas. É melhor matá-lo enquanto estiver lá.

— Entendido.

— Não se esqueça do seu trabalho, filho. O Visconde Shinobi está encarregado da vigilância, nós, os Hedds, estamos encarregados do ataque, e o Marquês Jet está encarregado de manter a mansão cercada.

— Eles não têm para onde fugir, hein?

— Não. Se algo der errado, as equipes de vigilância e cerco se moverão para fornecer apoio. Nossa equipe de ataque tem até um assassino da Cidade Sem Lei, e a equipe de cerco tem tanto um cavaleiro das trevas que chegou às rodadas primárias do Festival Bushin quanto o Demônio da Espada, um mestre do estilo Tigre Branco que foi excomungado por seus atos perversos. Nem um milagre poderia salvá-los.

— Heh-heh. Nisso você é o melhor, pai. Se certifica de vencer a luta antes mesmo de ela começar. É como você sempre diz: o melhor tipo de batalhas são aquelas que você não pode perder.

A boca de Haushold Hedd se curva em um sorriso.

— Ha-ha, eu digo isso.

— Lá está o sinal da equipe de vigilância, pai.

— Finalmente. Vamos fazer isso.

Com isso, as figuras começam a invadir a mansão.

Christina encara o teto enquanto está deitada em sua cama. O quarto está preenchido pelo som do ronco de Kanade e pela respiração leve de Cid.

Ela não consegue dormir.

Não tem nada a ver com o ronco de Kanade e tudo a ver com o que aconteceu naquela manhã. Toda vez que pensa naqueles dois homens pendurados na fonte, sente uma pontada no coração. A dupla usou a violência para alcançar seus fins, e depois foi brutalmente morta ao enfrentar um poder ainda maior.

É tudo sobre poder.

O poder bruto transcende tudo. Leis, moralidade e influência são inúteis diante dele.

Ela estende o braço em direção ao teto e ri.

— Heh-heh…

Quando o faz, ouve o som suave de tecido se mexendo.

— Algum de vocês está acordado? — Ela pergunta aos seus dois companheiros de quarto.

Não há resposta.

— Kanade? Cid?

O ronco de Kanade e a respiração leve de Cid continuam como sempre.

Será que eu estava apenas imaginando coisas?

Então ela ouve o clique da porta se abrindo.

— … Quem está aí?

A porta para no meio do caminho. Ela consegue ouvir alguém respirando do outro lado.

— Precisa de algo? — pergunta Christina enquanto pega a espada ao lado de sua cama. Qualquer membro da equipe teria respondido imediatamente, e é estranho como os guardas na porta não reagiram.

Pelo próximo instante, o ronco de Kanade é o único barulho no quarto.

Então…

— Matem-nos.

Nesse sinal, um grupo de pessoas vestidas de preto invade o quarto.

— Acordem, vocês dois! — grita Christina, e então vira o colchão de Kanade e o arremessa contra os invasores.

SNRRRRRRK… Hã?! O-o que está acontecendo?! — gagueja Kanade.

Christina joga uma espada para ela.

— Estamos sob ataque!

Enquanto grita a resposta, ela bloqueia um golpe de um agressor musculoso.

Ela aperta um pouco o cabo para testar sua força.

Ele é forte. Esse cara sabe o que está fazendo.

Christina muda o ângulo de sua espada para se defender do ataque dele.

Ela sabe que pode vencê-lo.

A postura de seu atacante está comprometida, e ela crava a lâmina na ponta do ombro dele.

— Rrgh! Agora você está realmente pedindo por isso!

Sua voz é áspera e soa estranhamente familiar.

Christina tenta pressionar sua vantagem, mas outros cinco atacantes a interrompem.

— Eu disse para ter cuidado! Fique para trás!

— M-mas, pai…

— Nem mais uma palavra de você!

O pai do homem musculoso o empurra para o lado e assume uma postura em frente a Christina. Ele parece ser o líder do grupo.

Hwehhhhhhhh?! O quê?! Eu vou morrer?! Eu vou morrer aqui?! — Kanade lamenta enquanto mal consegue sobreviver a seus dois agressores.

E quanto a Cid Kagenou…

… ele está tentando sair de fininho pela janela.

— Ah…

Quando ele encontra os olhares de Christina e Kanade, ele lhes lança um sorriso envergonhado…

— Bem, eu vou nessa!

…e rapidamente salta pela janela.

— T-TRAIDOOOOOOOOORRR!! — grita Kanade. — Maldito seja! Voltarei como um espírito vingativo e te assombrarei por issssssssssso!

— Não o deixem escapar! Atrás dele!

Sob as ordens do líder do grupo, três dos atacantes seguem Cid.

— Isso realmente ajuda — sussurra Christina.

Cid consegue atrair os atacantes. Agora restam apenas seis, e um deles tem o ombro gravemente ferido. A situação ainda não é boa, mas pelo menos é potencialmente administrável. Tudo o que Christina precisa fazer é aguentar um pouco, e seus guardas devem notar a comoção e vir ajudar.

— Você provavelmente acha que tem ajuda a caminho — diz o líder.

— É isso que estou pensando, agora?

— Não adianta tentar esconder. Sei tudo sobre como você gasta uma fortuna para reforçar suas defesas. Más notícias, mas esses guardas não vêm. Há outra equipe lidando com eles enquanto falamos.

— Nossa, agradeço por ser tão minucioso. As Lâminas da Noite devem estar realmente desesperadas para que isso funcione.

Ele provavelmente não está mentindo.

De repente, suas chances de sobreviver parecem muito piores. Christina não esperava que as Lâminas da Noite dedicassem tantos recursos a isso.

— Ria enquanto pode. As Lâminas da Noite são inabaláveis, mesmo agora. Isto aqui é apenas um pai cuidando de seu filho.

— Isso faria de você o Conde Haushold Hedd, então. Pensei ter reconhecido a voz do seu filho.

— Não tenho ideia de quem seja — mente Haushold Hedd, e então dá a ordem. — Matem-nos.

Os homens de preto avançam.

O da frente ataca Christina.

— Rgh…

Mas ela ainda não desistiu. Ela desvia do ataque do homem e tenta se reposicionar perto de Kanade antes de ser cercada.

No entanto, seu plano é interrompido antes mesmo de começar.

Com um shupp, o corpo de um dos homens de preto se desloca.

— Hã? O quê…? AHHHHHHH!

Ele solta um grito enquanto seu torso desliza para fora de suas pernas.

— Ahh… S-socorro…!

Com um gemido fraco, ele estende a mão. Ele já está além de qualquer salvação, no entanto.

— Como você fez isso?! — Haushold Hedd encara Christina. — Aquele homem era um dos mais fortes cavaleiros das trevas de sua cidade-estado!

Os homens de preto se afastam cautelosamente dela.

— Não, não, não fui eu.

A questão é que Christina não fez nada. Ela desviou do ataque dele, mas foi só isso. Ele foi cortado ao meio antes mesmo de eles se chocarem. Christina não é nem de longe poderosa o suficiente para cortar um talentoso cavaleiro das trevas em dois sem que ninguém perceba.

— Então quem mais poderia ter feito isso?! O que você está escondendo?

Os olhos de Haushold Hedd se arregalam enquanto ele se interrompe no meio da frase.

Os dois cavaleiros das trevas que atacavam Kanade acabaram de ser divididos exatamente da mesma maneira.

— Espere, hã? Eu estou despertando? Meu poder secreto verdadeiro está finalmente florescendo?!

Kanade parece um pouco animada com a perspectiva.

— Isso é impossível. Como você…? Espere um minuto. Sua espada. — Haushold Hedd percebe algo. Seu olhar recai sobre a arma de Kanade. — Por que não há sangue na sua espada?

— Hã, não há.

Com certeza, a espada de Kanade está completamente limpa. É óbvio para todos os presentes que não foi ela quem fez aquilo.

Então eles ouvem o farfalhar de tecido.

Os olhares de todos se voltam para a origem do ruído.

O som vem da cama de Cid Kagenou. No entanto, ele já fugiu há muito tempo.

Agora há alguém novo em sua cama.

A figura está deitada de costas para eles, iluminada apenas pelo luar.

— Um palhaço encharcado de sangue… — Alguém sussurra.

O palhaço se vira para encará-los. Sua máscara manchada de vermelho está sorrindo.

Dunder Hedd se encolhe.

— Eek…

Haushold Hedd, por outro lado, permanece calmo.

— Presumo que você seja Jack, o Estripador. — Ele diz, e então dá uma ordem a seus homens antes de se virar de volta para o palhaço ensanguentado. — A maneira como você apareceu, é como se fosse exatamente o que esperava. Sempre soube que você era um assassino trabalhando para os Hope.

— E-ele não é! — grita Christina. — Nós não usamos assassinos!

No entanto, Haushold não tem interesse em nada do que ela tem a dizer.

— Quanto estão te pagando? Seja qual for a sua taxa, eles definitivamente estão recebendo o valor do seu dinheiro. Você nos custou muitos homens. — Ele olha ao redor para os corpos dos cavaleiros das trevas brutalmente massacrados. — Cada um deles era um membro respeitado do submundo. Acho tudo isso um pouco difícil de acreditar, mas é assim que estamos…

Haushold Hedd solta um suspiro cansado.

Durante todo o tempo, o palhaço ensanguentado apenas continua deitado na cama com aquele mesmo sorriso estampado em sua máscara.

— Tenho que aceitar a realidade da situação. Do meu ponto de vista, enfrentar você dificilmente seria uma atitude sensata. Mesmo que lutássemos e o vencêssemos, ainda sofreríamos perdas tremendas. E você está no mesmo barco. Nem mesmo você pode enfrentar as Lâminas da Noite e sair ileso.

Os ombros do palhaço ensanguentado tremem levemente de riso.

— É do interesse de ambos fazermos um acordo aqui. Eu te pago o triplo. Você não precisa lutar conosco; tudo o que peço é que vá embora. Farei com que sua reputação não seja prejudicada com isso. O que me diz?

Os ombros do palhaço tremem mais forte.

Ele está rindo baixinho.

— … O que é tão engraçado?

O tremor para de repente.

Então o palhaço se senta gradualmente. Lenta mas seguramente, ele aponta o dedo para cada agressor, um por um. É quase como se estivesse fazendo algum tipo de escolha.

O dedo para em um agressor em particular.

O homem de preto encara o palhaço com um olhar intrigado.

— O que…?

O palhaço estala os dedos.

Um momento depois, a cabeça do agressor voa.

— Como ele fez isso?!

Sangue jorra como uma fonte enquanto o agressor decapitado cai inerte.

Dunder Hedd cai de joelhos e começa a rastejar para longe.

— Eeeeek! P-pai, quero ir para casa!

No entanto, o palhaço ensanguentado já começou a procurar seu próximo alvo. Seu dedo passa por Dunder e pousa no agressor ao lado dele.

— E-espere, não!

Embora o cavaleiro das trevas solte um grito de pânico, ele é experiente o suficiente para tomar uma ação evasiva imediatamente. Tragicamente, porém, isso não é suficiente para impedir que a metade superior de sua cabeça exploda quando o palhaço estala os dedos. A boca ainda conectada ao seu tronco se abre em uma tentativa de dizer algo, mas tudo o que sai é uma espuma ensanguentada.

Em seguida, o palhaço ensanguentado aponta o dedo para Kanade.

— Hã, eu?! Mas por quê?! AHHHHHH!

No entanto, ele para nela por apenas um breve momento antes de deslizar o dedo para o agressor atrás dela. Então ele estala os dedos.

— Ah…

A cabeça perplexa do homem voa.

Tudo o que resta agora é o pai e o filho, Haushold e Dunder Hedd.

Dunder se agarra às pernas do pai.

— Eeeek… Pai, pai, precisamos sair daqui.

Haushold Hedd acabou de testemunhar quatro de seus cavaleiros das trevas serem massacrados em um piscar de olhos, e ele também não consegue esconder seu choque.

— Então… nenhum interesse em negociar, hein? — Ele diz. — Não, talvez o fato de você ter me deixado vivo intencionalmente signifique que você queria fazer uma demonstração de força para garantir uma melhor posição de barganha. Talvez ainda possamos conversar.

O palhaço ensanguentado não oferece reação.

— Em primeiro lugar, deixe-me pedir desculpas. Eu claramente subestimei seus talentos. Não tenho ideia de como você conseguiu atingir tal força, mas é verdadeiramente um espetáculo para se ver.

Uma gota de suor frio escorre pelo rosto de Haushold.

— Mas a questão é que eu cerquei esta mansão e acabei de enviar o sinal para meus homens. Em breve, a equipe que cerca esse lugar estará aqui para me apoiar. Esse grupo inclui não apenas os melhores homens do Visconde Shinobi e do Marquês Jet, mas também o Demônio da Espada, um mestre do estilo Tigre Branco. Você pode ser talentoso, mas nem mesmo você poderia enfrentar tal força e emergir…

O palhaço ensanguentado interrompe o discurso de Haushold inclinando-se e remexendo em seu cobertor. Quando o faz, fica claro que a cama está estranhamente irregular e manchada de um tom vermelho-escuro.

Eventualmente, o palhaço recupera um par de cabeças.

— O quê? — Haushold reconhece seus rostos. — Aquele é o Visconde Shinobi… e o Marquês Jet, também…

As duas cabeças foram empaladas com um quatro e um cinco de espadas, respectivamente.

— Você está me dizendo que eliminou toda a equipe de cerco?! Isso é impossível. Você é apenas um homem!

Isso é o suficiente para levar Haushold ao limite.

— O que diabos é você?! O que você está procurando?! O que você quer?!

Saliva voa de sua boca enquanto ele grita.

O palhaço ensanguentado, vagarosamente, tira uma única carta de baralho.

É o seis de espadas.

— Eek… EEEEEEEEEK!

Um único olhar é suficiente para Haushold Hedd perceber para quem aquela carta se destina. Ele se esconde atrás de seu filho acovardado e usa o jovem como escudo.

— V-você está falando sério, pai?! Me solte! Me solteeeee!!

— EEEEEEEEEEEEEEEK!

Enquanto Dunder Hedd tenta se livrar de seu pai, o palhaço recua o braço para atacar com o seis de espadas.

Então, o som de vidro se quebrando enche a sala enquanto um cavaleiro das trevas esguio salta pela janela.

— Heh-heh-heh… Aí está você, Jack, o Estripador — diz o recém-chegado. Sua voz é calma, e sua presença é intensa. Quando ele puxa sua naginata1Espécie de alabarda, com uma lâmina curva e afiada na ponta. da bainha, ela brilha ao luar.

— E-espere, você é… você é o Demônio da Espada! Você ainda está vivo?!

A vida retorna à voz de Haushold. Ele espia por trás de Dunder e sorri.

— Aqui estava eu, pensando que poderia desfrutar de uma luta de roer as unhas até a morte pela primeira vez em muito tempo, quando todos os fracotes ao meu redor caem mortos e esse cara foge. Que decepção.

Enquanto o Demônio da Espada fala, seu olhar não se desvia do palhaço ensanguentado por um instante. Afinal, ele entende. A força daquele palhaço está no mesmo nível da sua…

— Quem sequer é o Demônio da Espada?

Christina estremece com a elegância da magia do homem. Ele deve ser um dos melhores cavaleiros das trevas do mundo.

— Não é de se espantar que você não tenha ouvido falar dele — explica Haushold. — Ele é um mestre marcial da distante terra de Wakoku.

— Um mestre marcial?!

Christina está familiarizada com o termo.

Do outro lado do mar, há uma terra de carnificina chamada Wakoku, onde as pessoas aprimoram suas habilidades de combate. Lá, as pessoas que se destacam como o auge da força são chamadas de mestres marciais, em vez de cavaleiros das trevas. Wakoku é fechado para estrangeiros, então as informações sobre o país são escassas, mas de vez em quando, um mestre marcial vem a Midgar em uma jornada para se tornar mais forte, e eles são sempre uma força a ser reconhecida.

— Além disso, ele fez tanto nome em uma das quatro grandes escolas de Wakoku que estava cotado para se tornar o mais jovem instrutor assistente do estilo Tigre Branco na história. No entanto, ele matou nove discípulos em sua busca por poder e foi excomungado.

— Hmph… Isso tudo está no passado. As coisas têm sido um pouco chatas desde que cheguei a esta nação, mas pensar que eu teria a chance de enfrentar um mestre marcial tão estranho quanto você… — diz o Demônio da Espada enquanto prepara sua lâmina.

— Bwa-ha-ha-ha-ha, Jack, o Estripador! — ruge Haushold. — Aposto que você está tão aterrorizado com o Demônio da Espada que quer fugir! O que aconteceu com toda a sua confiança de antes?!

O Demônio da Espada baixa seu centro de gravidade.

— Aqui vou eu.

Kanade engole em seco, audivelmente.

O palhaço estala os dedos.

No momento em que o faz, o corpo do Demônio da Espada se desfoca enquanto ele desvia de algo. Um buraco explode na parede atrás dele.

— Estalando, hein…? — murmura o Demônio da Espada, deliciado. — Impressionante que você seja capaz de reunir tal força com tão pouco preparo. Contra qualquer outro, isso teria encerrado a luta ali mesmo.

Jack, o Estripador, parece um pouco surpreso. O Demônio da Espada fixa o olhar em seu oponente como se estivesse tentando medir sua força.

— Mas isso não vai funcionar comigo. Não preciso ver quando sua presença me diz tudo o que preciso saber…

Com isso, o Demônio da Espada fecha os olhos e prepara sua arma.

— Venha para cima de mim, Jack, o Estripador. Nenhum de seus golpes encontrará seu alvo…

Antes que ele possa terminar a frase, um estalo anticlimático soa.

— O quê…?

A cabeça do Demônio da Espada voa.

Agora sem cabeça, seu tronco desaba lentamente no chão, e sangue jorra do buraco em seu pescoço. Enquanto isso, sua cabeça rola pelo chão e pisca para Jack, o Estripador, em confusão.

— Hah…

Com um pequeno suspiro, o palhaço prepara o seis de espadas.

— I-isso é impossível…

Haushold Hedd recua, arrastando-se.

— Eeeeek! Pare, pare, pare! E-eu quero que saiba que estamos sendo apoiados por uma força poderosa. O poderoso Culto de Diab—

O seis de espadas o interrompe, afundando em sua testa.

— Mas… por quê…?

Finalmente, Haushold Hedd dá seu último suspiro.

Depois de se certificar de que seu alvo está morto, o palhaço ensanguentado vira o olhar para Christina e Kanade.

Uma estranha tensão permeia o silêncio.

Kanade treme como um filhote de cervo recém-nascido.

— Esta é a parte em que ele nos mata… Onde ele se livra de todas as testemunhas…

Contrariando suas previsões, no entanto, o palhaço ensanguentado simplesmente se afasta. Seus passos ecoam enquanto ele vai.

— Espere!

Christina o chama.

Seu poder é transcendente, quase divino, e ela anseia por ele.

— O-o que você está tentando alcançar?! Foi você quem deixou os documentos de Shoddi Goodz para mim, não foi?!

O palhaço ensanguentado para no meio do caminho.

— Por que eu? O que você quer que eu faça?

Ele não lhe oferece resposta, mas vira o sorriso sempre presente de sua máscara em sua direção.

— Hee-hee-hee…

Uma pequena risada escapa de sua boca.

Então ele lança uma carta.

Christina instintivamente levanta a espada para bloqueá-la, mas a carta simplesmente roça sua bochecha a caminho de empalar Kanade na lateral da cabeça.

— HYEEEEEK!

— Kanade?!

Kanade desaba, sangue escorrendo de seu ferimento.

— Hee-hee-hee!

O palhaço salta pela janela. No entanto, Christina não pode persegui-lo.

— Você está bem, Kanade?! Fale comigo!

Não quando a vida de Kanade está em perigo.

Kanade é uma amiga com quem ela pode falar abertamente, sem se preocupar com a política familiar. Christina nunca teve uma dessas antes.

— Kanade! Kanade!

Kanade tem pulso. Ela ainda está respirando.

Só preciso estancar o sangramento…!

— Oh… Christina…

— Aguente firme, Kanade!

Kanade pousa sua mão trêmula sobre a de Christina.

— Está tudo bem… Eu já… estou muito longe…

— Não, você não está!

— Conheço meu próprio corpo melhor do que ninguém…

— Não, você não sabe de nada. Aguente firme. Você vai ficar bem!

— Por favor… tenho uma mensagem de despedida que preciso que você ouça…

— Não vai chegar a esse ponto!

— Por favor, Christina.

Kanade olha para Christina, seu olhar totalmente sério.

— Ok — diz Christina. — Não vai chegar a esse ponto, mas se isso te fizer sentir melhor, eu te escuto. Se o pior acontecer, farei questão de transmitir sua mensagem aos seus pais em sua cidade natal.

— Obrigada, Christina. Mas não tenho nada a dizer a eles.

— Hã?

— Minha mensagem de despedida é esta! — Os olhos de Kanade se arregalam. — É para aquele traidor do Cid Kagenou! Você está morto, amigo! Prepare-se, porque vou lançar uma maldição mortal em você!

Com isso, ela fecha suavemente os olhos.

— Kanade! Kanade! Você tem que acordar!

Kanade não se mexe nem um pouco.

— Preciso limpar os corpos aqui, então você não pode simplesmente ir dormir!

Christina agarra a carta de baralho presa na cabeça de Kanade e a arranca.

— Ai! — grita Kanade.

— Este sangue não é seu.

— Hã…? Estou viva? — Kanade levanta a mão e toca a lateral da cabeça, atordoada.

— Está tudo bem. Não há um arranhão em você, Kanade.

— O quê? Mas… mas a carta estava cravada bem na minha cabeça…

— Estava presa com sangue.

Kanade salta, com o rosto vermelho vivo.

— M-maldito seja, Jack, o Estripador!

— Espere, um momento. Há algo escrito na carta.

— Hã? Deixa eu ver, deixa eu ver!

A carta que Christina segura tem um poema escrito em sangue.

“BEM, OLÁ, ORGULHOSAS LÂMINAS DA NOITE, AQUI ESTÁ PARA MATAR TODOS OS MENINOS E MENINAS MALVADOS. EU CONTO E CONTO E CONTO, É SÓ O QUE FAÇO, MAS DE VEZ EM QUANDO GOSTO DE JOGAR MEUS JOGUINHOS.”

— O que será que isso significa? — diz Christina.

— Ele se deu ao trabalho de deixar isso para nós, então deve haver algum tipo de significado…

Então, a porta do quarto se abre lentamente.

— Ei, pessoal! Fico feliz que tenham sobrevivido!

Quem entra é um garoto de cabelos escuros e despretensioso, com um sorriso estranhamente falso – Cid Kagenou.

Christina respira aliviada.

— Graças a Deus você está bem.

Kanade, por outro lado, começa a ameaçá-lo como um bandido de rua comum.

— Ei, ei, ei, Ciddy! Você tem muita coragem de entrar aqui depois daquela traição hedionda que você cometeu!

— Ei, para constar, eu quase morri.

— Ah, é mesmo? Nós quase batemos as botas por causa da sua covardia de ter dado no pé! Teríamos morrido se nosso bom amigo Jack, o Estripador, não tivesse aparecido.

— Oh, uau, Jack, o Estripador, esteve aqui?

De repente, Kanade volta a soar como ela mesma.

— Sim! Ele apareceu heroicamente, tipo zip, zing, zoom! Foi mega incrível!

— Bem, isso é bom.

— Foi totalmente! Ah, e então ele derrotou um mestre marcial de Wakoku em um único… Droga, esse não é o ponto! Estamos falando de você, seu otário, Cid Kagenou.

— Ah, certo.

— Todos os traidores podem comer merda! Como ousa fugir e me abandonar para morrer!

— Desculpe por isso.

— Você acha que um pedido de desculpas vai te livrar dessa, imbecil?! Hora de você levar… o castigo da surraaaaa!

Com isso, Kanade derruba Cid pelas pernas, monta nele e começa a socá-lo por todo o corpo.

— Gostou dessa, hein?!

— Oh nãooooo. Por favor, pareeeee.

O castigo da surra continua por algum tempo.

 


 

Tradução: Gabriella

Revisão: Pride

 

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