
Christina saúda a manhã na vila da família Hope, em Midgar.
Ela costumava alternar entre dormir nos dormitórios e na vila, dependendo do seu humor. Ultimamente, no entanto, ela tem ficado exclusivamente na vila, e seu humor não tem nada a ver com isso. Para ela, era uma questão de autopreservação.
— Já amanheceu?
Ela levanta o olhar, surpresa, ao ver a luz do sol entrando pelas cortinas. Havia leves olheiras sob seus olhos. Ficava claro o quão obsessivamente ela esteve organizando documentos relacionados ao incidente.
Ela pousa a caneta sobre a mesa e se espreguiça. Em seguida, pega os documentos e suspira.
— Acusar alguém formalmente é mais difícil do que parece…
Seus documentos listavam todos os eventos que aconteceram e os depoimentos que os apoiavam, mas, do jeito que as coisas iam, parecia que as ações de Eliza seriam consideradas um acidente, em vez de um crime. A versão oficial era que tudo não passou de uma tragédia bizarra que ocorreu quando um grupo de estudantes adolescentes se viu no meio de um ataque terrorista e entrou em pânico com o estresse de ter suas vidas em perigo.
— O Conde Shoddi Goodz tem acobertado e fabricado evidências. Eu não fazia ideia de que a influência das Treze Lâminas da Noite era tão vasta.
Eles não só estavam perfeitamente satisfeitos em inventar histórias e suprimir a verdade, como também não hesitavam em matar se fosse necessário. A própria Christina sentia que estava sendo vigiada. Por isso, começou a dormir exclusivamente na vila.
— A corrupção deles está se espalhando. Não consigo vencê-los, não sozinha. E quanto à força da família Hope, bem…
Seu pai não tinha interesse em se envolver no caso. Para usar suas palavras: “Como exatamente nos beneficiamos ao salvar uma nobre qualquer?”
O poder das Treze Lâminas da Noite era a razão pela qual sua tirania permanecia incontestada. Todos simplesmente desviavam o olhar.
— Eu não… eu não tenho esse tipo de poder.
Poder político, militar, financeiro, institucional… Se você tem poder, pode se safar de qualquer coisa. Isso era apenas um fato da vida em Midgar.
— “Como nos beneficiamos ao salvar uma nobre qualquer?”, hein?
Não havia benefício algum. Fazer isso não mudaria o mundo nem um pouco.
Christina sabia que, da perspectiva de um nobre, seu pai estava certo. No entanto, isso não era suficiente para satisfazê-la. Havia pessoas praticando o mal, e o fato de não poder puni-las a fazia se sentir completamente impotente. Christina não tinha ideia de como conciliar essas emoções.
Talvez, se fosse mais forte, ela seria capaz de erradicar o mal.
Erradicá-lo… como Shadow faz.
Christina conseguia imaginar a cena em sua mente. Via a si mesma aniquilando as Lâminas da Noite, derrotando os perversos, salvando os fracos e defendendo sua nação.
Ela ri de si mesma.
— Ok, já chega disso.
Tudo o que estava fazendo era se sentir pior.
Ela solta um longo suspiro e esfrega os olhos cansados. Em seguida, pega os documentos sobre Eliza e as Lâminas da Noite e os guarda na gaveta para tirar a mente daquilo. Em vez disso, puxa outro conjunto de arquivos.
— Shadow… e o Jardim das Sombras…
Os novos arquivos continham a investigação que Christina vinha conduzindo sobre o Jardim das Sombras em seu tempo livre.
— Parece que eles começaram a operar há mais de um ano, mas não consigo encontrar nenhum detalhe. Suponho que Shadow os liderou durante todo esse tempo… mas, novamente, não consigo encontrar detalhes. Juro, é como se eu não conseguisse confirmação de nada.
Ela folheia os papéis. Estavam repletos de recortes de cartazes de “procurado” e artigos de jornal.
— A reportagem no lado norte do reino é péssima. Está confirmado que Shadow opera lá em cima às vezes, sabia? Como é que eles mal têm fotos dele, e a qualidade das que têm é tão terrível?
Apesar de seu resmungo, sua expressão se ilumina lentamente enquanto olha os papéis.
— Aquele homem tem um tremendo senso de dever. É por isso que ele trilha seu caminho manchado de sangue, e é por isso que ele não pode existir onde a luz brilha. Mas ele está lá fora, vencendo o mal. Diferente de mim…
Ela ri de si mesma novamente.
Então, ouve-se uma batida em sua porta.
— Pode entrar.
Um homem de meia-idade entra.
Christina usa toda a força de seus talentos de cavaleiro das trevas para enfiar os documentos na gaveta em tempo recorde.
— Bom dia, pai.
— Você não tem dormido, Christina?
— Não, não, eu estava apenas pensando um pouco. Precisa de mim para alguma coisa?
— Suponho que não preciso te dizer isso, mas não faça nada que irrite as Treze Lâminas da Noite. Nada de bom viria de ficar do lado ruim deles.
— …
Christina não diz uma palavra, e o aceno que lhe dá é breve. É a maior resistência que consegue demonstrar.
— As coisas estão prestes a ficar muito caóticas. Não se sabe o que poderia acontecer com a família Hope se fizermos algo precipitado.
— Caóticas como, pai?
— Ah, certo, esqueci de te contar. — Seu pai solta um suspiro. — Shoddi Goodz está morto.
— O quê?
— Toda a aristocracia está em alerta, e as Lâminas da Noite estão furiosas. A capital está em tumulto.
Christina observa seu pai sair, então se veste apressadamente e se dirige para a cena do crime.
Alexia caminha pelo corredor da propriedade dos Goodz.
— Tem pegadas de sangue aqui também…
As manchas vermelho-escuras continuam pelo tapete.
— Por favor, não toque em nada, Princesa Alexia. Ainda estamos coletando evidências.
Alexia encara o cavaleiro que a acompanha.
— Eu não sou idiota, sabe.
— Princesa Alexia!
Ao ouvir seu nome, Alexia se vira.
— Christina?
Lá, ela vê Christina, a garota que conheceu durante o grande incidente.
— Ouvi dizer que o Conde Shoddi Goodz estava morto. — Consegue dizer Christina, enquanto tenta recuperar o fôlego. — O que aconteceu?
— Alguém o assassinou. A Ordem dos Cavaleiros está investigando a cena do crime neste momento.
— Oh, nossa…
— Eles ainda não me deixaram entrar no quarto, então eu estava verificando o corredor.
— Por que o corredor?
— Dê uma olhada nessas pegadas. — Alexia aponta para os rastros de sangue pelo corredor. — Não lhe parecem estranhas?
— Elas parecem se destacar mais do que eu esperaria.
— Isso também é estranho, mas o que é mais estranho é a pouca pressa que o assassino tinha. Ele acabou de matar um monte de gente, mas não havia urgência em seu andar.
Alexia caminha ao lado das pegadas, combinando seus passos.
— Sequer parece que ele estava andando devagar — concorda Christina.
— Estranho, não é? A maioria das pessoas iria querer sair de lá o mais rápido possível. O assassino deve ter nervos de aço.
— É como se ele estivesse confiante de que não seria pego ou algo assim.
— Você pode estar mais certa sobre isso do que imagina.
— O que você quer dizer?
— Foram as Treze Lâminas da Noite que silenciaram o Conde Shoddi Goodz.
— Sério?
— Ele chamou muita atenção durante o caso. Não é surpresa que quisessem se livrar dele.
— Mas mesmo assim, por que fazer isso agora?
— Essa é a única parte que não consigo entender…
Justo quando se encontram sem saber o que pensar, o acompanhante de Alexia chama:
— Eles disseram que você pode entrar agora, Princesa Alexia.
Alexia se vira para Christina.
— Vamos?
— Estou logo atrás de você.
O acompanhante as leva até o membro da Ordem dos Cavaleiros encarregado da cena.
— Sou Gray, chefe do departamento de investigação criminal da Ordem dos Cavaleiros — diz o homem. — Por favor, certifiquem-se de não tocar no corpo ou mover nada no quarto.
— Entendido — responde Alexia.
— Vou voltar ao trabalho. Se precisarem de algo, me chamem.
— Pode deixar.
A primeira coisa que recebe Alexia ao entrar é o cheiro avassalador de sangue. Mas, é claro, a pilha de corpos em frente à porta foi deixada intacta, e além deles, o corpo do Conde Shoddi Goodz sangra pela cabeça enquanto encara o teto.
Alexia se agacha ao lado dele.
— Parece que a causa da morte foi um único golpe na testa. Mas isso não é uma arma comum…
Pelo quarto, membros da Ordem dos Cavaleiros correm de um lado para o outro. Christina, por outro lado, simplesmente fica parada perto da porta, atordoada.
— Qual o problema, Christina? — pergunta Alexia. — Eles disseram que podemos entrar.
— Hã? Ah, certo, já vou. — Depois de voltar a si, Christina apressadamente segue Alexia para dentro.
— Se não estiver se sentindo bem, talvez seja melhor simplesmente ir embora.
— Não, estou bem. Aquela coisa cravada na cabeça… — Christina encara curiosamente. — É uma carta de baralho? Que design estranho.
— É da linha de luxo da Mitsugoshi. Acho que é uma edição limitada.
— Então talvez possamos identificar quem a comprou.
— Eu não teria tanta certeza. Com uma empresa tão grande quanto a Mitsugoshi, até seus produtos de “edição limitada” têm tiragens de milhares.
— Isso levaria um tempo para verificar… — Christina olha para o Conde Goodz. — O ás de espadas, hein?
O conde morreu com os olhos arregalados e uma expressão de choque. Com certeza, a carta alojada em sua testa é o ás de espadas. É quase como se o cavaleiro esqueleto no design da carta estivesse simbolizando a morte do homem.
— Por que usar uma carta de baralho? — murmura Alexia. — As notas do Conde Goodz na academia de cavaleiros das trevas não eram de se desprezar. Este homem era um cavaleiro habilidoso, mas o assassino empalou sua testa com uma simples carta de papel. Isso teria exigido uma magia poderosa.
— Papel conduz magia a uma taxa de menos de dez por cento. Isso não é nada comparado a algo como mithril, e além disso, teria exigido um controle de mana incrivelmente preciso para superar a resistência natural do papel. Por que eles escolheram um método tão obtuso, eu me pergunto?
— Não tenho ideia, mas certamente ajuda a identificar nosso suspeito. Estamos procurando por um cavaleiro das trevas com enormes reservas de mana e um controle sobre ela altamente preciso.
— Em outras palavras, não estamos lidando com um assassino qualquer. Se fosse, ele nunca teria usado uma carta de baralho assim.
— Não, ele teria sido mais eficiente.
— Eles claramente estavam agindo com algum propósito. A carta, as pegadas, nada disso faz sentido. Talvez seja algum tipo de código que apenas os iniciados possam decifrar.
— Eles poderiam estar fazendo dele um exemplo, satisfazendo um rancor, ou enviando algum tipo de mensagem… Você pode ter razão.
As duas passam mais algum tempo em pé, pensando, diante do cadáver.
Eventualmente, uma voz masculina quebra o silêncio.
— Há testemunhas?! Você está falando sério?
É Gray, o homem encarregado das operações da Ordem dos Cavaleiros ali.
— Havia, senhor — responde um cavaleiro. — Aparentemente, os servos estavam apenas inconscientes. Vários deles acordaram e são capazes de descrever o culpado.
— E então? Como ele era?
Alexia e Christina aguçam os ouvidos.
— Segundo a equipe… era um palhaço encharcado de sangue.
— Desculpe, o quê?
— Eles dizem que um palhaço ensanguentado apareceu do nada e, um momento depois, tudo ficou escuro. A próxima coisa que souberam foi que já era de manhã. Todos estão relatando a mesma coisa, então devo imaginar que estão dizendo a verdade.
— E nenhum deles conseguiu ver o rosto do assassino?
— Não, senhor. Estava escondido sob uma máscara de palhaço. Dizem que o assassino parecia “alto”, mas isso pode ter sido apenas por causa da fantasia.
— Conseguiu mais alguma coisa?
— Não, senhor. Estamos investigando a área, mas até agora não encontramos nenhuma outra testemunha.
— Continue batendo nessa tecla. Se ele estava vestido como um palhaço, deve ter se destacado como um polegar dolorido. Estamos lidando com um maluco completo aqui. — Gray observa seu subordinado sair e depois suspira.
— Uma fantasia de palhaço, uma carta de baralho… Este é um caso estranho — diz Alexia.
Gray franze a testa.
— Ora, se não é a Princesa Alexia. Não sabe que é falta de educação bisbilhotar?
— Acho que o assassino estava tentando deixar algum tipo de mensagem específica. Você tem alguma ideia do que poderia ser, Chefe Gray?
— Você está pensando demais, Princesa. Este aqui é um caso simples e direto.
— Como assim?
— Nosso culpado é alguma pessoa rica que tinha um problema com o Conde Goodz. Eles usaram sua riqueza para contratar algum assassino de elite, e acabou que o assassino era um maníaco homicida. Simples assim. Amadores tendem a assumir que mistérios são assuntos complicados, mas os motivos das pessoas são sempre muito simples. Os únicos assassinos que deixam mensagens são os dos romances da Srta. Natsume. Você também é fã dos romances dela de Churlock Holmes, Princesa Alexia?
— Não, eu só…
— Não são fantásticos? Eu tenho todos os que ela lançou. Mas a questão é que são interessantes porque são ficção. A realidade é muito mais chata.
— Eu não sou fã de Churlock Holmes! Por que você pensaria que eu tenho um pingo de respeito por aquela mulher?!
— Ah, você quer dizer que prefere a série Caso Garra? Aquela em que uma droga transforma um detetive famoso em um gatinho?
— Não é nada disso! Só estou preocupada que possa haver mais no caso do que aparenta!
— Ah, entendo. Nesse caso, posso garantir que você não tem com o que se preocupar. Como eu disse, já reduzimos o perfil do culpado. Alguém rico com um rancor contra o Conde Goodz. — O Chefe Gray lança um sorriso cheio de confiança para as duas garotas. — Alguém como, por exemplo, a Senhorita Christina.
— O quê? Eu não tive nada a ver com isso!
— Por que tão nervosa? A propósito, não sou o único que suspeita de você.
— O que isso quer dizer?
— Digamos que você fez alguns inimigos em altas esferas.
— Você está falando das Lâminas da Noite…
— Agora, preciso voltar ao trabalho. Tenho que coletar evidências para que possamos pegar o culpado. — O Chefe Gray se vira para sair e solta uma frase de efeito. — Uma verdade prevalece… Os romances da Srta. Natsume são realmente fantásticos. Você deveria conferir.
Com isso, e com uma gargalhada calorosa, o Chefe Gray sai.
— Bem, ele não está errado quando diz que você tem mais motivos do que a maioria para estar feliz com a morte do Conde Goodz — comenta Alexia.
— Já disse, não fui eu! — exclama Christina.
— Bem, sim, obviamente. Mas não é assim que as pessoas vão ver. Eu tomaria cuidado se fosse você.
— Parece que as Lâminas da Noite estão vindo atrás de mim.
— Eu gostaria de poder te oferecer mais ajuda, mas… as pessoas tendem a ficar irritadas quando a realeza se mete em processos judiciais.
— Não, não, eu entendo completamente a sua posição. Aquele depoimento que você deu foi mais do que suficiente.
— Sinto muito mesmo.
— E também, eu estaria mentindo se dissesse que a morte do Conde Goodz não me ajudou. Preciso pensar nas coisas e descobrir como quero jogar com isso.
— Isso certamente pode ajudar o julgamento a virar a seu favor.
Christina assente.
— Há algo que você deveria ver, Princesa Alexia.
— O que é?
Christina a leva até a mesa do Conde Goodz.
— Há vestígios de um grande derramamento de café por toda a mesa.
— Claro, e pedaços de uma xícara quebrada por todo o lugar. Não é surpresa que o conteúdo tenha respingado aqui.
— Olhe para o formato da mancha, no entanto. É um retângulo perfeito.
— Você tem razão! Isso significa que havia algo aqui na mesa. Algo com o formato de um documento…
— Então o café derramou no documento, e alguém o levou. É por isso que a mancha de café tem aquele grande retângulo nela. É a única explicação lógica.
— Mas nada deveria ter sido removido da cena do crime.
Christina baixa a voz para um sussurro.
— Então foi o assassino que o levou, ou a Ordem dos Cavaleiros.
A expressão de Alexia endurece.
— Pode ser perigoso confiar na Ordem dos Cavaleiros mais do que o necessário. Precisaremos ficar de olho neles.
— Sim. Tome cuidado, Princesa Alexia.
As duas passam mais um tempo inspecionando o quarto e depois se separam.
Mais tarde naquele dia, depois da aula, Christina espera em sua sala de aula na Academia Midgar para conversar com Kanade sobre o ataque. Kanade é a garota que expôs os crimes de Eliza no incidente da névoa branca. Naturalmente, fazer isso lhe rendeu a inimizade das Lâminas da Noite.
— O-obrigada por esperar, Christina.
Kanade parece apavorada e está constantemente verificando os arredores. Ainda havia alguns alunos guardando suas coisas antes de irem para casa, mas não havia garantia alguma de que isso impediria os Despohts de tomar medidas extremas.
— Você soube do que aconteceu esta manhã, Kanade?
— Sim, claro. Nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer com o Conde…
— A situação mudou agora. Tanto para melhor quanto para pior.
— Para pior?
— Isso mesmo. Você tem um alvo nas costas. Tenho certeza disso.
O sangue some do rosto de Kanade.
— …?!
— A única razão pela qual os Despohts não te atacaram antes foi porque estavam confiantes de que não precisavam. Do jeito que viam, não havia necessidade de correr esse tipo de risco. Mas com o Conde Goodz morto, tudo isso foi por água abaixo.
— Como em… eles estão em desvantagem agora?
— Exatamente. Eles não têm mais o luxo de proteger sua imagem. Eles estão vindo atrás de mim também, é claro. Eu tenho uma sugestão que queria discutir com você…
Justo quando Christina está prestes a elaborar, elas são interrompidas.
— AHHHHH! O-o que é isso?!
Um grito patético ecoa pela sala de aula.
— O que há de errado? — Christina chama o estudante que gritou. Naquele momento, as únicas pessoas que ainda estavam lá eram Christina, Kanade e o rapaz que soltou o grito covarde.
O garoto de cabelos escuros se vira em pânico. Em sua mão, ele segura algo que parece um documento.
— Ch-Christina… — Ele gagueja.
Christina busca o nome dele nas profundezas de sua memória. Ele não era particularmente notável, mas inexplicavelmente acabava no centro das atenções com frequência o suficiente para que ela mal se lembrasse dele.
— Você é o irmão de Claire Kagenou, hum… Cid Kagenou, certo?
— S-sim, sou eu. Você pode dar uma olhada nisso? Estava simplesmente aqui.
— O que é isso?
Os documentos estão sujos e manchados.
As manchas vêm em duas cores, preto e vermelho. As manchas pretas têm um leve cheiro de café, e as vermelhas… bem, elas cheiram a sangue.
— Isso é…?
No momento em que Christina pega os documentos, ela congela. Esses papéis continham os detalhes dos eventos do incidente de Eliza Despoht, os custos associados ao acobertamento e uma lista de pessoas envolvidas, com notas insinuando seus motivos e interesses.
Estes eram os documentos que estavam faltando na cena do assassinato do Conde Goodz.
Christina verifica apressadamente para ter certeza de que não há mais ninguém por perto.
— Onde você encontrou isso, Cid? — Ela pergunta, tomando cuidado para manter a voz calma.
— Uh, eles estavam simplesmente saindo daquela carteira. Pensei que alguém os tivesse deixado aqui por acidente.
A carteira a que ele se refere é uma das da sala de aula. Cada aluno tem uma carteira designada, e a que Cid está apontando é a de Christina.
— Minha carteira?!
— Ah, essa é a sua carteira? Desculpe, eu deveria tê-los deixado aí.
— Não, fico feliz que você os tenha visto.
— Viu, foi o que eu pensei. Fico feliz que você não os tenha esquecido.
— Você viu o que os documentos diziam?
— Hã? Quer dizer, eu meio que dei uma olhada…
— Ah… — A voz de Christina escurece. — Então você os viu.
— Droga, tinha algo particular aí?
— Muito, muito particular, sim.
— Bem, eu só dei uma olhadinha, então é como se eu não tivesse olhado. Que tal deixarmos por isso mesmo, e eu te vejo amanhã?
— Espere aí!
Cid faz uma investida inesperadamente rápida para a porta, mas Christina o agarra pela parte de trás do colarinho.
— Desculpe, mas não posso deixar você ir.
— O quê? — diz Cid, soando como se não pudesse se importar menos. — Vamos lá, não há necessidade de violência.
— Estou dizendo isso para o seu próprio bem. Você não quer acordar com a cabeça cortada, quer?
— Espere, você vai cortar minha cabeça?
— Eu não vou cortar nada. O problema é que não sei se alguém te viu. Se descobrirem que você leu isso, eles virão atrás de você com certeza.
— Quem são “eles”? Não estou entendendo nada disso, mas sinto que a culpa é sua por deixar algo assim na sua carteira.
— Eu não deixei.
— Hã?
— Eu não coloquei os documentos lá.
— Mas então, quem colocou?
— Alguém que queria que eu os lesse.
O ar parece esfriar enquanto um mal-estar silencioso e difícil de descrever toma conta deles. Há alguém lá fora que roubou documentos importantes da cena de um assassinato e se deu ao trabalho de colocá-los na carteira de Christina, do outro lado da academia.
Na verdade, essa pessoa pode estar observando-os naquele exato momento.
Christina certamente se beneficia da situação, mas ainda é inquietante não saber o que a parte misteriosa espera alcançar.
Então, do nada, Cid fala.
— Oh, uau, caramba, tem algo escrito aí.
— Do que você está falando?
De onde Cid está, tudo o que ele deveria conseguir ver são as costas dos documentos.
— O verso dos papéis está manchado de vermelho. Não acha que parece com letras?
— Você tem razão!
Christina vira os papéis e, com certeza, há uma mensagem escrita em sangue. Está um pouco borrada, então a mensagem é difícil de ler, mas…
— “Jack, o Estripador.” É um nome?”
— Talvez seja a pessoa que deixou os papéis na sua carteira — oferece Cid.
— Mas quem poderia ser? E por que dar isso para mim…? — Christina inspira bruscamente enquanto mergulha em pensamentos.
— Não sei, mas eu tenho que ir.
— Espere aí.
Mais uma vez, Cid tenta fugir e, mais uma vez, Christina o pega.
— Uh, minha irmã está em coma, e eu estou tão preocupado que não consigo dormir à noite, então eu realmente preciso ir para poder cuidar dela…
— Eu sei sobre a situação da sua irmã, mas não posso deixar você ir. Você não está seguro.
— Estou bem. Posso me proteger.
— Pelo que me lembro, suas notas estão muito mais perto do fundo da classe do que do topo. Estou te dizendo isso para o seu próprio bem.
— Quer dizer, você não está errada sobre isso, mas ainda assim.
Christina ignora Cid e se vira.
— Ei, Kanade, você também não pode ir para casa.
— Espere, eu também? — pergunta Kanade, surpresa.
— Isso mesmo. Isso é na verdade o que eu estava tentando sugerir antes, mas a partir de hoje, vocês dois vão morar na vila da família Hope.
— Ugh — resmunga Cid.
— Oh, graças a Deus — diz Kanade. — Que alívio.
Duas respostas bem diferentes.
— Não temos escolha aqui, não se quisermos manter vocês dois seguros. A vila Hope é bem guardada.
— Ugh.
— Muito obrigada, Christina.
— Agora, vamos pegar nossas coisas para podermos ir para lá.
E assim, os três começaram a viver juntos.
***
Quando eu mato pessoas, tenho algumas regras que, de certa forma, tento vagamente obedecer.
Uma dessas regras é que geralmente tento evitar matar pessoas das quais sentiria pena.
Outra regra é que, se forem vilões, provavelmente está tudo bem em dar um fim neles.
Legal, sem problemas aqui.
Acabei de verificar e tenho seguido todas as minhas regras hoje.
Mas devo dizer, não esperava que as coisas se desenrolassem assim.
Como resultado, agora me encontro na sala de recepção de Christina.
— Quer um pouco, Cid? Talvez nunca mais tenhamos outra chance de beber café Mitsugoshi de alta qualidade, então temos que nos certificar de beber o suficiente para o resto de nossas vidas!
Kanade, a aristocrata falida, bebe alegremente seu café. Sua timidez de volta na sala de aula parece ter desaparecido sem deixar vestígios. Ela é uma garota bonita com olhos e cabelos escuros e curtos.
— Pode ficar com o meu — ofereço.
Gamma me manda mais do que eu jamais conseguiria terminar.
— Espera, sério?! Eu te amo, Cid!
Depois de receber uma declaração de amor terrivelmente casual, me inclino no sofá e suspiro. Nunca esperei ser arrastado para ficar na casa de Christina. Preocupo-me que isso possa não ser um comportamento apropriado para um personagem secundário… mas então percebo que Kanade está exalando a maior energia de personagem secundário de todos os tempos enquanto bebe um suprimento de café para a vida toda, então talvez isso seja realmente bom.
Legal, sem problemas aqui.
Parece que estou levando uma vida profundamente sem problemas hoje.
— Posso pegar seu chocolate também, Cid?
— Não, o chocolate é meu.
— Aff, que idiota. Eu te odeio, Cid.
Rapidamente resgato minha porção de chocolate da mão de Kanade. Estas são as caras trufas de matcha que a Mitsugoshi acabou de lançar. Gamma me enviou um pacote de amostra no mês passado. Estou surpreso que Christina tenha conseguido colocar as mãos em alguma, considerando que a lista de espera para pré-encomenda é de mais de um ano.
Então é disso que os grandes aristocratas são capazes, hein…? Mais uma vez, estou com muita inveja.
— O sofá é da marca de móveis de luxo da Mitsugoshi… E o lustre, o tapete e a louça são de suas linhas de alta qualidade também… — murmuro.
Cara, essas pessoas devem ser fãs fervorosos da Mitsugoshi. Dito isso, em quantas áreas a Mitsugoshi tem seus dedos?
Enquanto coloco as trufas de matcha na boca, ouço uma batida na porta da sala de recepção.
— Estou entrando.
É Christina.
Kanade muda de atitude com uma velocidade surpreendente e inclina a cabeça.
— Muito obrigada por nos receber!
— Você realmente não precisa ser tão formal. O quarto está todo arrumado, então deixe-me mostrar onde fica.
Nós dois seguimos Christina pelo corredor.
Entre o tapete deslumbrante, as decorações nas paredes e no teto, e as obras de arte que adornam o corredor, este lugar envergonha a empobrecida casa do Barão Kagenou.
— Dezessete milhões… Cinquenta e quatro milhões… Nove milhões… Duzentos milhões… — Kanade murmura baixinho enquanto caminha ao meu lado.
— O que você está fazendo? — pergunto.
— Aah! Você ouviu isso?
— Sim.
— Eu estava apenas estimando quanto custam todas essas obras de arte.
— Ah, entendi.
Dou uma boa olhada no vaso que Kanade acabou de avaliar em duzentos milhões de zeni e o gravo na memória.
— Esta é a sala de jantar. Vamos comer aqui esta noite. E bem ao lado…
Christina nos guia pela vila com passos práticos. Então, depois de subir uma escada em espiral, ela para diante de um conjunto de portas duplas. Há dois cavaleiros das trevas servindo como guardas bem em frente a elas.
— Aqui estamos.
Com isso, ela abre as portas para revelar o espaçoso quarto lá dentro.
— Oh, uau! É como o tipo de quarto que uma princesa teria! — Kanade exclama enquanto corre para a cama.
— Ok, uh…
— Cid, sua cama é a da esquerda. — Christina aponta para a cama em questão.
— Ok, eu tenho que perguntar…

— Posso ficar com esta, Christina? — pergunta Kanade.
— É toda sua — responde Christina. — Isso me coloca no meio, então.
— Tenho que perguntar — intervenho. — Por que há três camas?
A pergunta tem me matado desde que entramos no quarto.
— Porque somos três — diz Christina, apontando um após o outro para mim, depois para si mesma, depois para Kanade.
— Bem, certamente não posso discutir com essa matemática.
— É mais eficiente ter todas as pessoas que precisam ser guardadas em um só lugar.
— Ah.
Isso é realmente muito razoável.
— Vamos dormir no mesmo quarto, mas vou colocar uma estante entre a cama do Cid e a nossa — diz Christina. — Assim, não deve haver problemas.
— Além disso, as notas do Cid nos testes práticos são um lixo, e eu sou, tipo, cem vezes mais forte que ele — acrescenta Kanade. — Se ele tentar alguma gracinha, eu simplesmente o espanco. Fwoosh, fwoosh, fwoosh!
Numa profunda demonstração de desrespeito, Kanade pula para cima e para baixo em sua cama e assume uma postura de combate.
— Eu não sou nenhum pervertido.
Levanto as mãos em sinal de rendição e sento-me na minha cama. A mala que trouxe do meu dormitório está me esperando aos pés dela.
Em ordem, temos eu mais perto da janela, depois Christina, depois Kanade.
— Em frente à porta e ao lado da janela, hein? Se alguém atacar, serei o primeiro a morrer. O lugar perfeito para o filho de um barão falido — murmuro.
— Você é o menos provável de ser atacado de todos nós, Cid — diz-me Christina.
— Ah, desculpe. Não quis dizer isso de forma sarcástica.
Pelo contrário, estou ansioso por isso.
— Temos dois guardas em frente à porta e outros três posicionados abaixo da janela. E todos são cavaleiros das trevas habilidosos que chegaram às rodadas primárias do Festival Bushin.
— Nossa.
— Não se preocupe. Você está muito mais seguro aqui do que estaria no seu dormitório.
— Se você diz. Acho que entendi a situação a caminho daqui, mas posso perguntar o que aconteceu esta manhã?
— Suponho que seja justo.
— Na verdade, desculpe — interrompe Kanade. — Preciso usar seu banheiro…
É isso que dá beber todo aquele café.
— Há um banheiro e uma banheira no quarto ao lado.
— Obrigada!
Depois de ver Kanade sair correndo, Christina começa a explicar.
— Alguém matou o Conde Shoddi Goodz. As pessoas provavelmente estarão falando sobre isso na escola amanhã.
— O quê?! Ele foi assassinado?! Isso é tão mórbido. Agora que você mencionou, o nome naqueles documentos parecia estar escrito em sangue…
— Suspeito que aqueles papéis foram retirados da cena do crime.
— Caramba… Que medo! Pensar que alguém faria algo tão perturbador como escrever uma mensagem em sangue.
— A maneira como o Conde Goodz foi morto também não foi normal. Este não é apenas um assassinato comum. O culpado está agindo com algum propósito.
— Não posso acreditar que um estudante comum e sem graça como eu esteja se envolvendo em um incidente tão macabro…
— Só consigo imaginar como isso está sendo difícil para você, mas precisa aguentar firme. Você também pode ser um alvo.
— Cara, vou tremer tanto que não conseguirei dormir esta noite. Afinal, alguém pode estar atrás da minha vida.
— Ah, Cid…
Christina esfrega minhas costas trêmulas.
O vento frio da noite entra pela janela entreaberta.
Depois que Kanade volta do banheiro, nós três compartilhamos um jantar tardio.
A refeição é um evento luxuoso, feito a partir de versões adaptadas de receitas do livro de culinária requintada da Mitsugoshi, e o que mais me surpreende é quando trazem o sushi feito de um peixe que se assemelha ao salmão. Eu não comia sushi desde antes de morrer.
— A comida era tão inovadora, e tudo estava delicioso! — diz Kanade, eufórica, depois que voltamos para o quarto.
— Os livros de receitas da Mitsugoshi não têm uma única receita ruim — responde Christina. — Você realmente deveria pensar em comprar um, Kanade.
— Hã?! M-minha família não pode pagar por ingredientes caros, no entanto…
— Alguns de seus livros de receitas focam em pratos acessíveis. Por exemplo, os hambúrgueres de atum usam as partes do peixe que costumávamos jogar fora.
E assim, a cultura alimentar de um mundo de fantasia é reescrita.
Nós três continuamos conversando de nossas camas por um tempo. É emocionante, como se estivéssemos em uma viagem escolar.
Algum tempo depois, no entanto, Christina se levanta em meio ao crepitar da lareira e começa a apagar as luzes do quarto.
— Deveríamos dormir um pouco. Estava me divertindo tanto que perdi a noção do tempo.
— Awww, mas eu quero continuar conversando!
Já passa da meia-noite. Kanade se enfia debaixo do cobertor, resmungando o tempo todo.
— Boa noite — digo enquanto me acomodo na cama.
— Boa noite, vocês dois.
Justo quando Christina está prestes a fazer o mesmo, há uma batida na porta, e uma empregada entra.
— Senhorita Christina, seu pai está lhe chamando — diz ela.
— … Vocês dois, vão dormir. Eu volto logo que terminar.
— Pode deixar — respondo.
— Zzzz.
Kanade já está dormindo profundamente.
— Diga, Cid… — Christina se vira na porta e me lança um olhar intenso.
— Hã? O que foi?
— Nós já nos encontramos em algum lugar antes?
— Na aula.
— Não é isso que eu quero dizer. Só tenho a sensação de que já conversamos antes.
— Hã. Acho que não.
— Talvez seja apenas sua energia. Sinto que você me lembra alguém… Desculpe por te incomodar.
Com um sorriso evasivo, Christina sai do quarto.
É madrugada, e Christina está no escritório de seu pai.
As mãos de seu pai tremem enquanto ele folheia os documentos.
— Isso é um assunto sério.
— Provas como essa podem mudar completamente o rumo do julgamento. Serei capaz de condenar Eliza Despoht.
— Você acha que eu não vejo isso?! — Seu pai ruge, batendo as mãos na mesa. — Estará virando todas as Lâminas da Noite contra você. Não estaríamos nesta posição, em primeiro lugar, se você não tivesse escolhido proteger aquela completa desconhecida!
— As Lâminas da Noite já estão de olho em nós, pai. Somos nós que mais nos beneficiamos com o assassinato do Conde Shoddi Goodz.
— E estou dizendo que a única razão para isso é porque você continua metendo o nariz onde não é chamada! — Então seu pai a encara. Toda a sua raiva se transformou em medo. — Não, não me diga. Você não foi quem matou…
— Claro que não! Eu não fiz nada. Foi Jack, o Estripador, quem matou o Conde Goodz.
— M-mas…
— Precisamos ajudar Kanade, pai. Quando usarmos esta evidência para prender Eliza Despoht, isso enfraquecerá as Lâminas da Noite e fará com que mais nobres se juntem ao nosso lado.
— Não, mas olhe por outro lado. Se devolvermos os documentos às Lâminas da Noite, estaremos nos colocando em suas boas graças.
— Não há como as Lâminas da Noite simplesmente nos deixarem ir. Sabemos demais.
— Rgh… Espere, um momento. Você convidou aquela garota para vir aqui, certo?
— Sim. Kanade está sob nossa proteção agora.
— Bom trabalho. Se a entregarmos para as Lâminas da Noite também, eles saberão que estamos agindo de boa fé!
— Não posso permitir que você faça isso. Eu impediria qualquer um que tentasse, até mesmo meu próprio pai.
— Você ousaria me desafiar, Christina? A mim, o chefe da família Hope?!
Christina encara seu pai enquanto ele se enfurece com ela.
Seu pai é o primeiro a desviar o olhar.
— Por enquanto, todas as decisões sobre isso precisam passar por mim. Não sabemos quem é esse “Jack, o Estripador”, e tudo isso pode ser uma armadilha. Precisamos descobrir de onde vêm essas evidências.
— Mas, pai…!
— As Treze Lâminas da Noite não vão ficar de braços cruzados, não com o Conde Goodz morto. Eles provavelmente colocarão o Conde Azukay e o Barão Stergang no comando da situação.
— Os dois membros de seu braço militante.
— E os membros mais jovens das Lâminas da Noite, sim. Não temos ideia do que eles estão planejando. Desculpe, mas sou muito jovem para morrer.
Com isso, o pai de Christina pega os documentos e sai da sala.
Christina olha para a lareira bruxuleante e solta um longo suspiro.
— A aristocracia desta nação está podre. Podre até o âmago.
Ela solta uma risada derrotada.
— Que piada nós somos… Meu pai, aterrorizado demais para fazer qualquer coisa além de bajular as Lâminas da Noite, e eu, impotente para fazer qualquer coisa…
A pergunta do momento é: por que Jack, o Estripador, deixou aqueles documentos na carteira de Christina? Ela acha que deduziu a resposta.
Ele está me dizendo para prosseguir com o julgamento. É por isso que me deu aquelas evidências sobre as irregularidades das Lâminas da Noite.
No entanto, não há nada que Christina possa fazer. Ela precisa de poder para fazer a evidência valer, e isso é algo que ela não tem. Os fracos são impotentes para fazer qualquer coisa além de serem pisoteados, independentemente de quão forte seja sua prova.
— Se eu fosse apenas mais forte…
Ela podia apenas imaginar o quão emocionante seria se livrar dos parasitas que infestam sua nação de uma só vez.
De repente, a imagem do rosto de Shoddi Goodz surge em sua mente – carta de baralho cravada em sua testa, olhos arregalados de perplexidade.
— Heh-heh…
Christina ri.
Quando o viu pela primeira vez, ela ficou tão impressionada com seu semblante morto que se esqueceu completamente de si mesma até que Alexia a chamou.
É madrugada, e a risada silenciosa de Christina ecoa pelo escritório.
***
O Conde Azukay e o Barão Stergang conversam em uma câmara secreta e escura.
— Então ainda não sabemos quem matou o Shoddi Goodz? — diz Azukay enquanto fuma seu charuto.
— Todas as testemunhas só balbuciaram sobre um palhaço — resmunga Stergang. — Idiotas, todos eles.
— Quem quer que tenha feito isso sabia o que estava fazendo. Não há relatos de testemunhas oculares fora da propriedade dos Goodz, e nossos melhores rastreadores de mana não conseguiram encontrar o rastro do cara.
— Estamos lidando com um profissional aqui.
— Sim. Goodz tinha uma lista de guardas impressionante, e o assassino os eliminou todos de uma só vez. Esse cara tem habilidades comparáveis às do Chefe Gray.
— Poderia ser alguém da Cidade Sem Lei. Eles têm aquela guilda de assassinos ZERO por lá, certo?
— ZERO faria sentido em termos de habilidade, mas não ouvi falar de nenhum palhaço trabalhando para eles.
— Poderia ser um novo recruta.
— Claro, talvez. De qualquer forma, não precisamos saber quem é o palhaço para descobrir quem o contratou. — Azukay espalha uma série de papéis pela mesa. — Há alguns candidatos possíveis, mas a família Hope está no topo da lista, com certeza. Ainda assim, não temos nenhuma prova.
— Ah, droga, sem provas? Que pena. — Um sorriso sinistro surge no rosto de Stergang. — Bem, acho que teremos que matá-los como sempre fazemos. Deixe-os provar um pouco de dor, e eles nos dirão o que quisermos.
— Não se precipite. E se eles não fizeram isso?
— Heh, então podemos simplesmente inventar algumas provas. Homens mortos não contam histórias, sabe?
— Sim, mas esta é a família Hope de que estamos falando. Pense em que dor de cabeça seria para limpar tudo.
— O quê? Já matamos muitos aristocratas importantes.
— No passado, claro. Mas você ouviu sobre como a Seita Fenrir foi derrotada.
— A Seita Fenrir? Ah, certo, aqueles cultistas que têm apoiado as Treze Lâminas da Noite.
— Exatamente. Agora que o Jardim das Sombras os eliminou, é muito mais difícil para o Culto nos apoiar. Estamos em negociações com outra de suas facções agora, mas até que tudo esteja resolvido, precisamos tomar cuidado.
— Ugh, que dor de cabeça. Não entendo qual é o problema. Eles são apenas um culto insignificante.
— Você não sabe de nada. Não tem ideia de quão poderoso o Culto é, ou quão aterrorizantes eles podem ser…
Stergang fica surpreso com a gravidade da voz de Azukay.
— S-se aquele idiota do Goodz não tivesse se matado, nem estaríamos nessa bagunça. — Ele dispara para esconder o quão abalado está.
— Não perca a calma. Até recebermos novas ordens, nosso trabalho é apenas manter os Hope sob vigilância.
— Sabe, chefe, aquela garota Christina é uma verdadeira gata. Se acabarmos matando a família Hope, você se importa se eu ficar com ela?
— Ela é toda sua. Apenas certifique-se de não relaxar na limpeza.
— Você é o melhor, chefe!
Um sorriso perverso se espalha pelo rosto de Stergang.
— Hee-hee-hee-hee-hee-hee.
— Cale a boca, Stergang.
— Desculpe, chefe.
— Hee-hee-hee-hee-hee-hee. — Uma risada inquietante ecoa pela câmara escura.
Stergang não está mais sorrindo, e Azukay, sombrio, pousa seu charuto.
— Que diabos…? Quem está aí? — rosna Azukay.
Azukay e Stergang são os únicos na sala. Apenas um punhado de pessoas sabe de sua existência.
— Hee-hee-hee-hee-hee-hee.
No entanto, a risada vem claramente de dentro da sala.
Os dois homens, cautelosos, sacam suas espadas.
— Você acha que pode rir de nós?! Apareça, desgraçado! — ruge Azukay.
— Hee-hee-hee-hee-hee-hee.
A risada permanece inalterada.
Azukay e Stergang aguçam os ouvidos para descobrir de onde ela vem. Não é da esquerda nem da direita. Nem da frente nem de trás deles.
Então, os dois começam a olhar para cima.
— Hee-hee!
É quando algo cai. É um líquido escuro, que escorre sobre a mesa e a mancha de vermelho. O cheiro de sangue assalta seus narizes.
Eles encaram o teto.
Há um palhaço encharcado de sangue agarrado a ele.
— Hee-hee-hee-hee-hee-hee.
O palhaço ri enquanto os observa.
— É ele!
— Isso é um palhaço?!
Azukay e Stergang rapidamente brandem suas espadas para o alto. As pessoas os chamam de braço militante das Lâminas da Noite, e seus movimentos são bem treinados. Suas espadas cortam o palhaço, fazendo sangue espirrar para todo lado.
Splurch.
O palhaço ensanguentado desaba sobre a mesa.
— Peguem-no!
Os dois homens sorriem enquanto descem suas espadas.
Cada vez que as lâminas encontram o palhaço, mais e mais sangue voa. O palhaço se contorce, e a risada finalmente cessa.
— … Acabamos com o trabalho? — pergunta Azukay enquanto olha para o bobo da corte mutilado.
Com um movimento prático do pulso, Stergang sacode o sangue de sua espada.
— Este é o cara que matou o Goodz? Que fracote. Ou, ei, talvez eu seja forte demais.
Azukay sorri também. Ele sente como se finalmente tivesse recuperado sua antiga forma.
— Há uma razão pela qual eu fiz meu nome no Festival Bushin antigamente. Os guardas insignificantes de Goodz não têm nada contra nós. O palhaço escolheu os caras errados para mexer.
— Tudo bem, palhacinho. Vamos ver que tipo de cara você tem aí embaixo…
Stergang ri e estende a mão para tirar a máscara do palhaço.
— O que…? Stergang!
Stergang olha para trás, irritado com a interrupção.
— Qual é o problema, chefe?
— S-sua cabeça…
— O que tem minha cabeça?
— Tem uma carta de baralho cravada na parte de trás…
— Hã?
Stergang apressadamente apalpa a parte de trás da cabeça. Com certeza, há uma carta de baralho cravada profundamente nela. Ele limpa o sangue que escorre pelo pescoço, perplexo.
— Ch-chefe… Mi-minha… minha cabeça…
Com isso, ele desaba no chão.
A carta cravada em sua cabeça é o dois de espadas.
Então uma figura olha para o corpo convulsionando de Stergang e lentamente se levanta.
É o palhaço ensanguentado.
— C-como…? Como você ainda está vivo?
Azukay estremece e recua. O palhaço está coberto de ferimentos que deveriam ter sido fatais, mas ele está ali, parecendo não ter sofrido nada.
O palhaço avança. Splurch.
— Espere. O que você quer?
O palhaço avança. Splurch, splurch.
— É dinheiro? Quem é seu cliente? Quanto eles te pagaram?
Splurch, splurch, splurch.
— V-vamos conversar sobre isso! Eu dobro a oferta deles! Eu te dou dinheiro, mulheres, o que você quiser!
Azukay sente um baque suave em suas costas. Ele alcançou a parede.
Antes que percebesse, ele foi encurralado até a beira da sala.
— Fique longe! Posso não parecer, mas sou um mestre do estilo Bushin!
Splurch, splurch, splurch, splurch.
— Você não vai gostar do que vai acontecer se entrar no meu alcance!
Azukay dá um poderoso golpe com sua espada. Este é o alcance em que ele luta melhor, e ele pode visualizar cada momento até a cabeça do palhaço voar de seus ombros.
No entanto, seu ataque erra o alvo.
— O quê…? Você desviou disso de tão perto?
Tudo o que o palhaço fez foi dar meio passo para trás, mas foi um movimento que desafia tudo o que Azukay sabe sobre as capacidades humanas. Ninguém deveria ser capaz de reagir tão rapidamente.
— O que diabos é você?
Outro splurch.
— Hur… gurk…
Há uma carta de baralho alojada na garganta de Azukay. É o três de espadas.
Engasgando com sangue, Azukay golpeia com sua espada. Sua lâmina roça a ponta do nariz do palhaço antes de bater no chão.
— Você é… um monstro…
Então Azukay se inclina para a frente, tosse mais sangue e fica imóvel.
O palhaço encharcado de sangue pega os dois corpos e desaparece na noite.
Tradução: Gabriella
Revisão: Pride
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