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Mushoku Tensei: Reencarnação Redundante – Vol. 03 – Cap. 10 – Epílogo

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ARUS FECHOU O Livro de Rudeus. Aquele era o fim do vigésimo nono volume.

— Então, você nunca foi punido de verdade? — murmurou Henry depois de observar Arus por um tempo.

— Por mais vergonhoso que seja admitir, é verdade. Eu era imaturo demais para assumir a responsabilidade pelas minhas ações. — Arus deu de ombros. — Dito isso, embora eu tenha sido um tolo no começo, depois de tudo o que aconteceu, acabei me tornando um cara decente. Em vez de me acomodar e achar que tive sorte por ter me safado, coloquei toda a minha energia nos estudos e no treinamento.

— Foi assim que você se tornou um Mago do Vento de nível Santo e um Santo da Espada, hein? Acho que eu não deveria ficar surpreso por você ser incrível mesmo quando jovem, já que consegue vencer o próprio Deus do Norte se te deixarem usar magia.

Dizia-se que Arus Greyrat era um espadachim de nível Divino. Ele nunca obtivera oficialmente sua licença de Deus da Espada, mas o Deus Dragão Orsted, o Rei do Norte Kalman III Alexander Rybak e os outros grandes nomes da esgrima do Império do Deus Ogro o reconheciam como tal. Arus conquistara isso através de todo o trabalho duro que dedicara desde aquele dia fatídico.

— Felizmente para mim, tive o treinamento da Mamãe Vermelha. Foi assim que cheguei lá tão rápido. Sempre fui abençoado pelo ambiente em que cresci.

— Por Mamãe Vermelha, você quer dizer a Rei da Espada Berserker, Eris… Ela é a fundadora do Estilo do Deus da Espada Berserker, certo? Dizem que destruiu completamente o conceito do Estilo Rei da Espada. Ouvi dizer que ela era feroz e estava sempre numa espécie de frenesi?

— Frenesi? Sério…? — Arus estreitou os olhos com nostalgia. — Bem, acho que ela podia ser assim às vezes, mas foi uma mãe incrível. Fiquei mais motivado do que nunca depois do que aconteceu, e ela respondeu ao meu ímpeto à altura. Honestamente, ela foi mais pai do que meu próprio pai. Era sempre ela quem me dava um soco e me colocava de volta no caminho certo sempre que eu me desviava.

— O que aconteceu depois disso? — instigou Henry.

— Depois? Bem, me formei, fui buscar Aisha, nos casamos e comecei a trabalhar sob o comando do Senhor Orsted como um dos homens do meu pai e membro do Bando Mercenário. Olhando para trás, aquele foi o período mais difícil da minha vida. Eu era seduzido a torto e a direito. Por algum motivo, fiquei muito popular com as mulheres naquela época. E tantas delas tinham seios grandes… A capitã do Bando Mercenário na época era especialmente louca. Aisha era minha única, mas vou te contar, a capitã era tão atraente que eu não conseguia deixar de olhar…

Ele pigarreou.

— Uh, chega disso. De qualquer forma, me segurei e corri pelo mundo todo a trabalho. Eventualmente, acabei virando chefe de vocês.

— Resumiu bastante, hein? — zombou Henry.

— Ele sempre foi assim — disse Luicelia francamente em resposta.

Luicelia começara a trabalhar para Orsted bem tarde em comparação aos outros, mas passara bastante tempo com Arus como membro da família. Ela conhecia Leroy e até conhecia a filha dele, Ferris. Devido às diferenças entre como os humanos e os Superd amadureciam, houve um período em que os três andavam juntos como parentes que tinham mais ou menos a mesma idade. Houve até um tempo em que Luicelia sofreu com o fato de que eles acabaram deixando-a para trás e crescendo. Mas, ultimamente, ela aceitara que as coisas eram assim mesmo.

— Você tem que nos dar mais detalhes — insistiu ela. — Dizia no livro que você desafiou Eris Greyrat para um duelo a fim de ganhar o reconhecimento dela como homem.

— Vai examinar esses olhos — retrucou Arus. — Não diz nada sobre um duelo.

— Tá, mas ouvi dizer que você duelou com ela.

— E quem diabos espalhou esse boato?

— Minha mãe.

— Norn, é…? — Arus suspirou. — Bem, chamar de duelo é um exagero, mas nós treinamos, sim…

— Dê-nos os detalhes agora mesmo! Além disso, conte-nos sobre quando foi buscar a Tia Aisha! Como uma jovem donzela, preciso saber — disse Luicelia.

Arus caiu na gargalhada com a insistência dela. Dada a idade, Luicelia carecia de traquejo social. Era por isso que, apesar de seu longo histórico militar e alta patente, não tinha um esquadrão próprio e continuava a operar numa unidade de dois homens com Henry. Foram a própria Luicelia, Orsted e Arus que aprovaram isso. Henry possuía grandes habilidades sociais apesar de sua maldição, então a complementava bem.

— Claro, por que não? Não há muito o que contar, no entanto — disse Arus.

Assim, Arus começou a preencher as lacunas de O Livro de Rudeus – o episódio final deste conto.

Quantas vezes sonhei com o primeiro dia em que lutei com minha mãe? Mesmo agora, ainda sonho com isso nas noites em que estou cheio de ansiedade. É um pesadelo familiar demais a esta altura.

Nele, estou enfrentando a Mamãe Vermelha. Ambos temos nossas espadas em punho. Aproximamo-nos lentamente um do outro enquanto procuramos aberturas. O Pai está assistindo. Mamãe Branca e Mamãe Azul estão assistindo. Minhas duas irmãs mais velhas, meu irmãozinho, minhas irmãzinhas, Leo, Dillo, Byt – a família inteira está assistindo.

Sei que treinei mais do que o suficiente para este dia. Mesmo sabendo que treino não é tudo, acredito que tenho que superar este obstáculo, então continuo a brandir minha espada. Tudo para vencer a Mamãe Vermelha.

Com essa determinação no coração, olho para minha espada. Ela está mais curta do que o normal. Meus braços e pernas também estão menores. Não pertencem a um jovem homem; parecem os de um menino de apenas doze anos. Não consigo produzir minha força habitual. Pior ainda, não me lembro porque brandi minha espada para começo de conversa.

Então, de repente, a espada some completamente. Onde a esqueci? Preciso procurá-la rápido. Enquanto esses pensamentos correm pela minha mente, a Mamãe Vermelha brande sua espada. Minha mão sai voando…

E eu acordo.

Sempre que tenho esse pesadelo, olho para a mão que perdi nele. Suor frio pinica meu corpo todo na escuridão. Claro, minha mão, agora coberta de rugas e calos, ainda está lá. Então reflito sobre as partes posteriores da minha vida e me acalmo. Quando eu era mais jovem, Aisha acordava ao meu lado e me confortava.

Tenho muitos sonhos assim, onde esqueço algo importante ou arruíno um momento crucial da minha vida. Pai dizia que são manifestações das minhas ansiedades.

Aquele sonho em particular nasceu obviamente do último dia que Aisha e eu passamos juntos em fuga, quando perdi para a Mamãe Vermelha e perdi minha mão.

Depois que a Mamãe Branca me curou, a Mamãe Vermelha me tomou nos braços enquanto eu remoía o ocorrido. Ela não desperdiçou saliva dizendo nada, como que eu deveria ficar mais forte.

Mas eu sentia que me tornar mais forte era importante, independentemente de qualquer coisa. Eu tinha que ficar. Não, eu precisava.

Quando me tornei veterano na Universidade de Magia de Ranoa, acreditei nisso mais poderosamente do que nunca. Tinha notas excelentes lá. Trabalhava duro nos estudos. No entanto, nunca fui o número um.

Que eu não poderia superar Lucie nem precisava dizer, mas eu não conseguia nem superar Lara quando se tratava de magia, apesar da frequência com que ela matava aula.

Os outros alunos também eram muito talentosos. Os estudantes que frequentavam a Universidade de Magia de Ranoa não iam e voltavam de seus dormitórios e salas de aula com cara de bobos. Muitos vinham de ambientes privilegiados onde puderam treinar suas habilidades, mesmo que não fossem tão abençoados quanto a família Greyrat. A Cidade Mágica de Sharia também se tornara bastante próspera, graças ao meu pai e ao Senhor Orsted, e por isso pessoas talentosas e ambiciosas eram constantemente atraídas para lá, independentemente de sua origem.

Pessoas contra as quais eu não deveria ter perdido continuavam me superando. Achei que estava fazendo o meu melhor depois de ser separado de Aisha, mas havia apenas uma única matéria em que eu era o número um. Isso realmente me frustrava. Se ela estivesse na minha posição, provavelmente seria a número um em tudo.

Havia apenas uma área em que eu era o número um: esgrima, ou apenas combate em geral. Nunca fui o número um quando se tratava de magia de ataque, mas numa luta simulada usando magia de combate, eu era o número um.

Por isso pensei comigo mesmo: Essa é a minha praia. Sou bom nisso…

Entendo como podem pensar que eu estava sendo precipitado e fugindo das coisas em que era ruim. Mas quando fui falar com a Mamãe Vermelha sobre isso, ela não me disse para não fugir.

— Sério? Eu era do mesmo jeito! — disse ela, parecendo encantada.

Isso mesmo. Ela parecia encantada.

Quando lhe disse que não achava que poderia me destacar em mais nada, ela fez uma expressão complicada – irritada, mas também um pouco triste. Ainda assim, quando lhe disse que gostava de lutar e que era tão bom que era o melhor nisso, aquilo a deixou feliz.

Achei que ela devia ter sido igual a mim quando criança, mas descobri mais tarde que ela era ainda pior do que eu! A lacuna entre as coisas em que ela se destacava e as que não se destacava era bem grande. Suponho que tenho que agradecer ao sangue do meu pai por ser excepcional em muitas coisas.

De qualquer forma, quando a Mamãe Vermelha me disse aquilo, tomei minha decisão. Já que Aisha podia fazer quase tudo, eu não precisava fazer. Eu poderia ser apenas a espada dela. Estaria sempre em sua cintura, pronto para ser sacado quando necessário. Esse é o tipo de pessoa que eu queria ser para ela.

Eu tinha certeza de que isso ajudaria a apoiá-la, física e mentalmente. Se ela pudesse contar comigo, isso ajudaria a aliviar sua ansiedade. Assim como a Mamãe Vermelha ajudava o Pai.

Então, eu tinha que lutar contra a Mamãe Vermelha e vencer. Talvez não precisasse ser ela especificamente, mas ela era a espadachim mais forte e confiável que eu conhecia.

Eu conhecia outros, no entanto. Nos anos em que Aisha e eu estivemos separados, conheci todo tipo de gente: o Deus da Espada Gino; sua esposa, Nina; a Deusa da Água Reida; Lady Ghislaine, a Rei da Espada que trabalhava no palácio de Asura; Sir Sandor; e até Alec. Sei que hoje em dia o chamo de Idiotxander, mas naquela época, ele costumava me dar todo tipo de conselho e me tratar como um irmãozinho. Eu o respeitava como meu mestre.

Sempre que esses lutadores fortes falavam sobre a Mamãe Vermelha, a descreviam com a nuance de que ela não era alguém que pudessem vencer facilmente. Em termos de pura habilidade com a espada, ela poderia não ser tão habilidosa quanto os que mencionei há pouco. Mas em combate real, ela era alguém que podia encontrar os pontos fracos deles e ameaçar suas vidas. Não era que ela fosse “boa com a espada”. Ela era “forte”. Então, fiz dela meu objetivo. Se quisesse ser reconhecido como homem, teria que vencê-la.

Trabalhei duro para esse objetivo, aumentei minha força bruta, desenvolvi minhas próprias estratégias únicas e refinei minhas técnicas.

Meu pai disse algo depois que me formei na Universidade de Magia de Ranoa e estava prestes a começar a frequentar a Academia Real de Asura.

— Você é quase um homem. Por que não vai buscar a Aisha agora? — perguntou ele.

Pai me reconheceu naquele momento, mas eu não tinha me reconhecido. Ainda não.

Foi por isso que lhe disse:

— Não serei um homem até vencer a Mamãe Vermelha. Não posso ir até Aisha até lá.

A Mamãe Vermelha pareceu tão satisfeita quando disse isso, embora Lara estivesse claramente exasperada, assim como minhas irmãzinhas. Sieg tinha uma cara que gritava: Mas é claro! Ele fora fortemente influenciado por Alec antes de frequentar a academia real, então adorava esse tipo de coisa.

Meu pai parecia preocupado, mas depois que a Mamãe Branca e a Mamãe Azul falaram com ele, cedeu com um aceno de cabeça.

Alguns minutos depois, enfrentei a Mamãe Vermelha em nosso jardim. Ambos estávamos com nossas shinken em punho e prontos.

Pai disse que poderíamos ter usado espadas de madeira, mas não achei que conseguiria comunicar o quão sério eu estava para a Mamãe Vermelha daquele jeito. Da parte dela, trouxe sua shinken sem dizer nada. Ela entendeu; não precisei dizer.

Respirei fundo várias vezes enquanto me posicionava contra ela. Eu estava nervoso. Afinal, aquilo não era apenas um exame de graduação. Não havia garantia de que eu venceria. Não tinha um caminho certo para a vitória. A Mamãe Vermelha era uma oponente poderosa.

Lutei contra todo tipo de gente naqueles quatro anos, mas ela era a única pessoa que eu nunca tinha vencido. Como ela era tão forte? Por que os outros a temiam? A pergunta estava frequentemente em minha mente durante aquele tempo.

Cheguei a uma conclusão: a força da Mamãe Vermelha vinha de sua tenacidade. De sua persistência.

As pessoas tendiam a ter a ideia errada sobre ela por causa de sua alcunha de Rei da Espada Berserker e de sua aparência, mas ela nunca mergulhava de cabeça sem pensar. Era perspicaz e tinha um ótimo senso de quando e como atacar. Podia vir para cima de você com um ímpeto incrível, mas na verdade superava os outros praticantes do Estilo do Deus da Espada quando se tratava de defesa. Sabia a melhor maneira de mover o corpo e, mesmo quando se aproximava, nunca se deixava aberta de maneiras decisivas. Você nunca conseguia acertar um golpe fatal nela.

Assim como os praticantes do Estilo do Deus do Norte, ela tinha uma persistência que se prestava a combates longos. Às vezes, provocava o oponente para atacá-la e, então, assim como o Estilo do Deus da Água, aparava no último momento.

A maior diferença entre esses estilos e como a Mamãe Vermelha lutava era que ela atacava com ferocidade. Ela simplesmente continuava atacando.

Todos os praticantes do Estilo do Deus da Espada pensavam em derrotar o oponente antes de serem derrubados, mas ela ainda não era igual a eles também. Não tentava derrubar o oponente com um único golpe. Muitos praticantes do Estilo do Deus da Espada colocavam tudo em jogo com seu primeiro ataque – a Espada de Luz é poderosa assim. Ela fazia parecer que era igual, mas não era. Lutava levando em conta o que aconteceria se a Espada de Luz errasse.

Eu vi a Deusa da Água Reida e a Mamãe Vermelha treinarem antes. Reida acabava ganhando mais vitórias sobre ela no total, mas nunca houve um único caso em que ela fosse capaz de vencer a Mamãe Vermelha com um golpe.

A Mamãe Vermelha sempre foi muito inteligente em como usava sua Espada de Luz. Nunca simplesmente entrava e disparava. Já vencera assim antes, mas às vezes Reida levava a melhor depois de aparar e contra-atacar.

A Mamãe Vermelha recebia o contra-ataque, mas nunca era um golpe fatal. Havia momentos em que o golpe a levava a ser empurrada para trás e perder, mas nunca era o momento decisivo. Ela sempre permanecia de pé, mesmo depois de acabar recebendo a técnica secreta do Deus da Água.

Embora a Mamãe Vermelha estivesse sempre no ataque, isso não significava que tivesse defesa fraca. Ela sempre imaginava lutar contra alguém melhor que ela. Aos meus olhos, parecia que ela acreditava que meu pai cuidaria do resto, desde que ela aguentasse firme e continuasse lutando na linha de frente. Era um estilo semelhante ao da Bisavó Elinalise ou Ruijerd. Ela era uma espadachim, mas nunca esquecia que era uma guerreira. A Mamãe Vermelha tinha o poder de desferir um golpe decisivo, mas também era uma protetora que podia defender a linha de frente por muito tempo. Era essa quem a Rei da Espada Berserker Eris Greyrat era.

E era essa quem eu tinha que derrotar. Não era tarefa fácil.

Antes da nossa luta, pensei repetidas vezes sobre o que tinha que fazer para vencê-la. Como eu poderia acertar um golpe nela.

A primeira coisa que pensei foi um ataque surpresa. Eu superaria as expectativas dela com o primeiro movimento e a derrubaria ali mesmo. A Mamãe Vermelha era persistente, mas havia limites. Além disso, eu podia usar magia, e ela tinha vários pontos fracos.

Mas não fiz isso. Decidi enfrentá-la de frente. Tinha que fazer isso, para derrotá-la adequadamente. Tinha que superá-la no mesmo ringue.

Além disso, meu objetivo não era realmente vencer a Mamãe Vermelha; era provar a ela que eu era um homem. Não que fosse aceitável perder, mas eu precisava escolher como venceria. Ela deveria ficar satisfeita com o resultado. Caso contrário, pareceria que eu estava dizendo: Uhu! Ganhei. Agora sou um homem, certo? Mas isso não cabia a mim decidir. Queria que ela acreditasse que eu me tornei bom o suficiente para ficar de pé sozinho quando a vencesse, então tinha que enfrentá-la e arrancar a vitória de suas mãos.

Como eu poderia não estar nervoso?

Ainda me lembro claramente dos detalhes da luta. Fui o primeiro a atacar. A Mamãe Vermelha esperou para ver o que eu faria, então mergulhei. Tenho certeza de que ela queria ver como eu tinha crescido. No entanto, ela nunca foi particularmente boa em esperar. Se eu não tivesse atacado depois de alguns segundos – não, um único segundo sequer –, tenho certeza de que ela teria tomado a iniciativa.

Graças à sua demonstração de paciência, levei vantagem sobre ela. Misturando magia, fechei a distância, um movimento de cada vez.

Tenham em mente que eu não estava usando magia para atacar. Usava magia de vento para criar uma onda de choque e me mover em alta velocidade enquanto manipulava meu senso de gravidade para complementar meu trabalho de espada. Essa era minha técnica especial, uma que desenvolvi depois de estudar a Lucie. Transformei isso no meu próprio estilo de luta. Ao contrário de Lucie, eu raramente atacava com magia. Em vez disso, usava-a para me aproximar dos oponentes e desviar suavemente de seus ataques.

Claro, usar essa técnica em combate de curta distância também impactava meu oponente. Eu usava uma onda de choque para corrigir minha própria postura, mas não a usava exclusivamente em mim; meu oponente sentia também. Isso fazia com que perdessem a postura, o que criava uma abertura enorme para eu atacar. Quando percebi isso, tornei-me imbatível entre meus pares.

Por outro lado, eu estava lidando com a Mamãe Vermelha agora. Ela tinha um centro de gravidade muito forte, e a onda de choque que usei para corrigir minha própria postura não surtiu efeito nela. Na verdade, foi pior: ela usou a explosão a seu favor. Ela avançou em minha direção, usando a onda de choque para fortalecer seus movimentos.

Olhando para trás, foi um movimento divino. Acho que a única outra pessoa que poderia ter feito algo assim era o Senhor Orsted. Ela teve que prever se eu dispararia ou não uma onda de choque, depois chegar perto o suficiente para estar dentro do alcance dela. Se errasse, sua postura de luta entraria em colapso. Não é como se ela tivesse feito isso antes! Eu treinara com ela, sim, e até usara o mesmo movimento, mas essa foi a única vez que ela respondeu dessa maneira. Isso mesmo. A única vez. Numa tentativa, ela executou o movimento com tempo perfeito. De repente, ela estava na ofensiva, e eu na defensiva.

Mas não entrei em pânico. Nunca imaginei que seria capaz de vencer facilmente. Previ que, mesmo se sentisse que estava indo bem no início, ela poderia facilmente virar o jogo contra mim. Caindo numa postura defensiva, continuei a luta com cuidado.

Aparei seus ataques, desviei, ocasionalmente avancei e às vezes usei uma onda de choque para ajustar minha posição. Não conseguia ir totalmente para a ofensiva, mas ainda conseguia atacar de vez em quando.

A Mamãe Vermelha era o tipo de mulher que sempre ia até o fim num ataque, mas aprendi a me proteger do Estilo do Deus do Norte e do Estilo do Deus da Água. Não hesitei em usar todas essas técnicas para afastar a investida dela.

Um passo à frente, um passo atrás. Nenhum de nós conseguia acertar um ataque decisivo, o que significava que ambos estávamos tentando encontrar uma abertura.

A Mamãe Vermelha não tentaria forçar a entrada na marra com um oponente que não pudesse dominar. Talvez houvesse momentos em que ela fizesse esse tipo de coisa, mas eu estava confiante de que não tentaria comigo. Sabendo disso, previ que ela tentaria usar minha onda de choque contra mim novamente. Embora fosse um movimento desafiador da parte dela, se eu tentasse o mesmo truque duas vezes, ela repetiria suas ações e me esmagaria. Então, tomando cuidado para não alertá-la, esperei pacientemente para armar minha armadilha.

O momento chegou sem aviso, mas eu sabia que era aquele.

A Mamãe Vermelha mergulhou com um pouco mais de força do que antes. Desviei para o lado e cortei. Abaixei-me, fazendo parecer que estava saltando na chance perfeita de atingi-la. Ela corrigiu a postura como se fosse o movimento óbvio a fazer e desviou da minha espada.

Era isso.

Ativei minha onda de choque com mais força do que o habitual. Era tão forte que quebraria minha postura em vez de apoiá-la. Você poderia mal e mal suportar a explosão se soubesse que estava vindo, mas se não soubesse? Seu equilíbrio já era. A maioria das pessoas seria enviada para o chão ou ficaria de joelhos. Até a Mamãe Vermelha não conseguiu plantar os pés completamente no chão. Ouvi seus pés se deslocarem enquanto ela reajustava a postura duas vezes para se manter de pé.

Ela estava aberta.

Minha Espada de Luz varreu direto em direção à nuca da Mamãe Vermelha. O fato de eu ter tido tempo para pensar Ferrou! falava do meu crescimento. Mudei a trajetória da minha espada por um triz. Enquanto eu fazia isso, a Mamãe Vermelha corrigiu a postura e brandiu sua Espada de Luz no meu pescoço.

Eu ia perder.

Então, a espada da Mamãe Vermelha vacilou. Sua lâmina começou a girar para o meu pulso em vez disso.

Meu cérebro não conseguia acompanhar meu corpo.

Minha espada decepou a mão da Mamãe Vermelha antes que a arma dela pudesse me alcançar. Foi a Lâmina do Reflexo. A mão dela girou pelo ar enquanto eu apontava minha espada para ela.

— Acabou!

Quem tinha dito aquilo? Mamãe Branca?

Vi meu pai correndo em nossa direção por trás da Mamãe Vermelha, com o rosto mortalmente pálido. Vi a Mamãe Branca pegando a mão da Mamãe Vermelha. E vi a Mamãe Azul com um olhar aliviado. Lara voltou para dentro de casa, e Sieg e minhas irmãzinhas aplaudiram.

Em retrospecto, eu tinha conseguido espremer uma vitória por muito pouco. Não era o tipo de estratégia que eu poderia repetir com ela. Em termos de força bruta, ela ainda estava várias léguas acima de mim. No entanto, ter me mantido firme contra ela quando contava foi mais do que bom o suficiente.

— Arus — disse ela.

Depois de nos olharmos por alguns segundos, nos abraçamos. Apesar da falta da mão, ela me segurou firme em seus braços. Ela era verdadeiramente forte. Apertou-me com tanta força que pensei que ia me estrangular, mas não me importei.

Ela sempre esteve comigo. Nunca me abandonou nem uma vez.

Ela não me disse nada naquele momento, nada como Muito bem. Mas pude senti-la me elogiando sem palavras.

Abracei-a de volta. Tenho certeza de que chorei. E assim, tornei-me um homem.

Tendo sido reconhecido como homem, a primeira coisa que precisei fazer foi, bem… me preparar. Obviamente. Eu ia buscar a Aisha.

Dito isso, teria sido feio ir para o Reino de Asura apenas com a roupa do corpo. Simplesmente não parecia apropriado. Eu ia buscar minha futura noiva. Precisava fazer direito, não? Mas eu não tinha a menor ideia do que isso implicava.

Depois que Aisha foi embora, não é como se eu tivesse ganhado alguma experiência nesse front.

Muitas garotas tentaram me tentar ou seduzir, mas nunca cedi. Não sabia o que acontecia depois da fase de cortejo. Era um território verdadeiramente desconhecido para mim.

Fui pedir conselhos ao meu pai. Ele tinha três esposas, afinal, então certamente saberia o que fazer.

— O que devo fazer para buscar a Aisha? Não interagi muito com garotas, então não faço ideia. Você sabe tudo sobre essas coisas, certo, Pai?

Meu pai olhou para mim com uma cara meio azeda.

— Uh, eu também não tenho muita experiência nesse front.

Aparentemente, ele não tinha muita experiência em perseguir mulheres da maneira usual. Gemeu enquanto me explicava como se reunira com minhas mães.

— Você deve fazer o que achar melhor. Estamos falando da Aisha. Tenho certeza de que ela ficará mais do que feliz com o que você fizer por ela — disse ele no final, espremendo as palavras.

Ele fez o melhor para pensar nas coisas para mim, mas não me deu nenhuma ideia específica. Uma das poucas coisas da história dele que eu poderia ter usado era salvar Aisha quando ela estivesse em perigo, mas isso dificilmente era realista. Eu não queria fazer malfeitores atacá-la só para poder salvá-la.

Acho que vou ter que inventar algo sozinho…

Justo quando eu quase desistia…

— Bem, tem um cara que saberia uma coisa ou duas sobre esse tipo de assunto — acrescentou o Pai. Ele me apresentaria a alguém.

Pai o descreveu assim: “Ele é o maior mulherengo que conheço, e está superacostumado a esse tipo de situação.”

A primeira pessoa que me veio à mente foi a Bisavó Elinalise, mas não era ela.

— É só que… Ele realmente é um grande mulherengo, então não sei se a Aisha vai ficar louca pelo que quer que ele invente. Sugiro usar as sugestões dele como inspiração… Nunca use para fazer nada ruim — enfatizou ele.

Fiquei animado na época, porque parecia que ele estava prestes a me apresentar a um mago de um conto de fadas ou algo assim.

Meu pai acabou me levando ao castelo no Reino de Asura. Embora ainda estivesse surpreso, entramos no prédio. Eventualmente, chegamos a um escritório todo enfeitado.

Eu já tinha ido ao castelo várias vezes no passado. Não ia lá desde que fugira com Aisha, mas antes disso, o Pai me levara a várias festas lá. Era um mundo estonteante e opulento. Se não estivéssemos em guerra com Asura agora, adoraria que vocês dois experimentassem como era a verdadeira vida de alta classe naquela época.

Mas já era noite, então o lugar não estava deslumbrante no momento.

— Tenho estado ocupado ultimamente, veja bem.

Havia um único homem na sala: o chefe dos Sete Cavaleiros de Asura, Luke Notos Greyrat. A Adaga Real da Rainha Ariel. Ele era um homem famoso. Embora não fosse particularmente habilidoso com a espada, era conhecido por sua inteligência política e pela maneira como conseguia conquistar os corações e mentes das pessoas. Em alguma festa a que compareci no passado, Sieg ficara muito animado em falar com ele.

Embora fosse bom em conquistar os outros, não era o tipo de pessoa a quem pedir conselhos sobre mulheres – ou assim pensei. Quando perguntei a outros mais tarde, disseram que ele era na verdade a pessoa perfeita para pedir ajuda. Não sei bem os detalhes, mas quando jovem, ele era um tremendo mulherengo.

— Então, ouvi dizer que precisa de ajuda com uma mulher. O que é? Alguma jovem que você engravidou na escola está vindo atrás de você? — disse Luke.

— Meu garoto nunca faria uma coisa dessas — respondeu meu pai.

— Ah, estou bem ciente. Sei tudo sobre as circunstâncias românticas do seu filho… Mas se ele vai frequentar a Academia Real de Asura, deve estar preparado para ser abordado por nobres.

— E por que isso?

— A Rainha Ariel quer casar a filha com um dos seus filhos. Ela provavelmente enviará algumas garotas menos atraentes para o caminho dele para fazer a princesa parecer mais atraente.

— Você pode, por favor, não tentar seduzir meu filho? Ele já tem alguém que ama.

— Estou brincando… é o que eu gostaria de dizer, mas é melhor se preparar para que Sua Majestade envie pelo menos uma garota para o caminho dele.

Pai e Luke pareciam próximos enquanto conversavam.

Luke dissera que estava brincando, mas quando comecei a frequentar a academia real, estaria mentindo se dissesse que não fui abordado por garotas. Havia algumas atraentes entre elas, incluindo algumas com seios grandes… Mas nunca cedi porque tinha Aisha! Juro.

— Como a Aisha está? — perguntou meu pai. — Você não deu em cima dela, certo? Se tiver dado, destruo este castelo inteiro.

— Não estou tão desesperado por mulheres a ponto de colocar um dedo na sua família. Reconheço plenamente que Aisha é uma mulher muito atraente e, mais importante, extremamente talentosa. Seja como for, sei muito bem que nada de bom pode vir de dar em cima dela, então não o fiz.

— Mesmo se tentasse, minha Aisha nunca toparia — insistiu meu pai. — Não se ache só porque tem um rosto bonito.

— Eu sei! Juro, você nunca teve muito senso de humor… Enfim, vamos aos negócios.

Tendo se formado na academia real, Aisha estava trabalhando no castelo. Segundo ela, fazia um trabalho leve de escritório para a Rainha Ariel, mas todos ao redor diziam que ela fizera tanto que basicamente reformara o lugar.

Aparentemente, as regras que ela criou em seu tempo lá ainda estão vivas e bem no Reino de Asura. Dito isso, não sei os detalhes do que está acontecendo lá ultimamente. Cortamos relações diplomáticas, afinal. Depois que a Rainha Ariel faleceu, as coisas mudaram bastante.

— A posição dela aqui não é forte — começou Luke. — Temos a recebido como convidada do Bando Mercenário Ruato e como irmãzinha de Rudeus, mas ela basicamente não tem status dentro do Reino de Asura. No entanto, é talentosa e boa com as pessoas, então todos nos outros departamentos a conhecem. Há muitos aqui que dizem que, caso ela deixe o Bando Mercenário, teriam prazer em dar-lhe a recepção adequada… A Rainha Ariel está entre eles.

Luke pausou para olhar para mim.

— Diabos, ela daria as boas-vindas a você também.

Balancei a cabeça.

— Não, planejo trabalhar sob o Pa… Pai e o Senhor Orsted.

— Se planeja seguir os passos de Rudeus, não vamos forçar sua barra. Mas Aisha é amada pelas pessoas aqui. Não cairá bem com elas se você não a tratar como a mulher importante que ela é quando for buscá-la.

Fiquei confuso na época. Agora que era um homem, só queria me reunir com a mulher que amava. Por que tinha que me preocupar com lutas pelo poder? Nada daquilo importava para mim. A Rainha Ariel estava tecnicamente sob o guarda-chuva de Orsted, o que a tornava uma aliada, então eu entendia que precisava prestar minhas homenagens, por assim dizer, mas…

Pai foi quem me ofereceu uma mão amiga.

— Luke, você não disse que deveríamos ir aos negócios? Para que esse preâmbulo longo?

— Um preâmbulo é importante, não é? — disse Luke com um dar de ombros.

— Realmente não é. Você poderia ir direto ao assunto e dizer ao meu filho a melhor e mais legal maneira de conquistar uma mulher? Obrigado.

Pai curvou a cabeça enquanto Luke lhe lançava um olhar de desagrado.

— Uma carruagem — disse ele. — Uma carruagem fechada de dois cavalos para dois seria bom. Faça-a o mais ornamentada possível. Os cavalos devem ser brancos. Preto também serve, mas nada de cavalos acinzentados ou malhados. Estacione a carruagem num local onde ela e suas associadas passem a caminho de casa. Se possível, deve estacionar na entrada dos fundos do castelo. Certifique-se de marcar um horário, mas não conte tudo a ela. Apenas diga: “Vou buscá-la naquele dia.”

— O-o que mais? — perguntei.

— Quando ela vier, diga isto: “Vim buscá-la. Vamos.” É só isso. Não há necessidade de dizer mais nada.

— É só isso mesmo?

— Sim. Então leve-a para sua vila ou uma estalagem, e… você sabe o resto, certo?

Desta vez, foi a vez do Pai parecer descontente.

— Que tipo de príncipe você acha que ele é? — murmurou.

Mas eu tinha certeza de que a estratégia de Luke seria eficaz. Mesmo quando frequentava a Universidade de Magia de Ranoa, lembrava de ouvir garotas conversando sobre esse tipo de coisa. Um dia, seu príncipe viria em seu corcel branco buscá-las no portão da frente da universidade. Isso me levou a questionar a única coisa que ele mencionara que era diferente do que as garotas que ouvi diziam.

— Por que uma carruagem? Não seria melhor se montássemos num cavalo juntos?

— Estar ao ar livre levaria a boatos… ou você não se importa com esse tipo de coisa? Há muitas mulheres que não gostariam que boatos se espalhassem sobre elas. Ficariam mais felizes em manter o destino em segredo e depois tornar público. Ela provavelmente gostaria de saber que você a valoriza e leva o relacionamento a sério, certo?

— Você poderia, por favor, não ensinar ao meu filho suas técnicas assustadoras? — intrometeu-se meu pai.

— Ei, foi você quem veio me pedir ajuda.

Meu pai agia de forma um pouco estranha perto de Luke, mas isso não vem ao caso. Lembro-me de ficar intrigado na época, mas o Pai agia estranho com bastante frequência.

— O que estou tentando dizer — continuou Luke — é que é importante realizar os desejos dela. Não sei se Aisha ficaria satisfeita com cavalos brancos ou uma carruagem. Vocês dois saberiam o que ela quer muito melhor do que eu, mesmo que não a vejam há anos. Pense nisso dessa perspectiva.

— O que Aisha quer…

Não havia como prever a resposta exata, mas eu sabia com o que Aisha se importava. Tinha uma ideia decente de como ela gostaria de ser abordada.

— Tudo bem. Muito obrigado — disse eu.

— Você vai ficar bem mesmo? Realmente não deveria copiar o Luke — disse meu pai, um pouco em pânico.

No fim das contas, isso era igual a quando lutei com a Mamãe Vermelha. Eu precisava pensar por conta própria e abordar com tudo o que tinha.

Preparei uma carruagem.

Assim como Luke sugerira, escolhi uma carruagem fechada, mas muito maior do que a que ele recomendara. Era uma carruagem de quatro lugares puxada por quatro cavalos brancos.

Marquei um horário. Conhecendo Aisha, ela provavelmente queria ter tempo para se despedir de todas as pessoas com quem trabalhava.

Quando ela terminava o trabalho, costumava voltar a pé do castelo para seus alojamentos. Ia para casa com as empregadas de quem se aproximara. O castelo não ficava particularmente longe de onde ela morava, e o Distrito Nobre era seguro, mas eu não podia deixar de me preocupar quando soube que ela ia para casa a pé. Eu basicamente estaria esperando para surpreendê-la no caminho de casa, e se eu podia fazer isso tão facilmente, qualquer um poderia.

As únicas pessoas que podiam estacionar uma carruagem no castelo eram aquelas que tinham permissão, então eu queria acreditar que aquela área era segura. E eu não planejava bloquear a estrada nem nada. A carruagem era apenas um meio de ir para casa.

Uma carruagem não foi a única coisa que preparei para aquele dia. Eu tinha um buquê de flores. Voltei para casa e colhi algumas do canteiro no jardim – as mesmas flores que a própria Aisha cultivava e amava. Também peguei algumas flores de Byt, nosso bebê ent. Juntei tudo num buquê e cheirei. Cheiravam ao nosso jardim.

Ela poderia ter ficado brava comigo por pegá-las sem permissão, mas não é como se eu tivesse pegado todas as flores! Fiz minha parte ajudando a cuidar delas, então certamente esse punhado poderia ser perdoado. Se nada mais, parecia que Byt e a Vovó Zenith tinham me dado permissão. Quando lhe disse que queria levar algumas flores, Zenith na verdade me entregou algumas ela mesma.

Comprei minha roupa numa loja que nossa família frequentava em Ranoa. Pai era cliente regular lá e eu já tinha ido com ele antes, mas essa foi a primeira vez que expressei meus próprios desejos, escolhi uma roupa e comprei para mim. O funcionário da loja e meu pai disseram que eu estava bem, mas quando me vi no espelho, senti como se as roupas estivessem me vestindo.

Talvez fosse porque eu estava tão acostumado a olhar para a Mamãe Vermelha, mas achava que ficava melhor no meu traje do Estilo do Deus da Espada.

Estava quase na hora do encontro, então desci da carruagem para esperar pela Aisha.

A entrada dos fundos do castelo era tão grande que quase não parecia certo chamá-la assim, e havia muitas pessoas indo para casa de carruagem ou a cavalo. Claro, era o caso. A maioria dos que trabalhavam no castelo eram nobres ou pessoas de status semelhante. Até as empregadas eram mulheres nobres de baixo nível trabalhando como servas. Embora os soldados pudessem ser plebeus, tinham que ser pessoas com antecedentes claros. Todas aquelas pessoas olhavam para mim enquanto passavam, perguntando-se o que eu estava fazendo.

Havia um punhado de garotas da minha idade. Assim que me viram, pareciam ter percebido algo e saíram rapidamente. Até ouvi pessoas sussurrando. As garotas achavam que estavam sendo discretas, mas eu conseguia perceber que falavam em tons agudos.

Ninguém realmente se adiantou para me perguntar o que eu estava fazendo ali, mas suponho que o fato de eu estar todo arrumado e segurando um buquê tornasse óbvio.

Talvez eu tivesse errado.

Não tinha pensado muito nisso até então, mas e se a Aisha me rejeitasse?

Ninguém estava rindo às minhas custas, mas não pude deixar de sentir que tinha errado na escolha do traje. Os estilos de roupa e tendências diferiam entre o Reino de Asura e Ranoa, e senti que me destacava. Eu era o único vestido como se fosse para uma festa.

Aisha era pragmática e pé no chão. Em vez de toda essa pompa e circunstância, talvez ela tivesse preferido se eu a visitasse em seus alojamentos normalmente.

Ou talvez eu devesse ter sido mais grandioso. Talvez devesse ter dado uma festa de verdade? Não, não. Não havia como essa ser a resposta.

Esperei ansiosamente e, eventualmente, vi uma única mulher emergir do castelo. Ela estava com o cabelo na altura dos ombros preso, e o enfeite de cabelo que eu lhe dera muito tempo atrás balançava com seu movimento. Usava um vestido. Um carmesim. Não havia como ela ter trabalhado vestida daquele jeito. Estava indo para uma festa?

Eu não era tapado o suficiente para realmente pensar isso. Aisha tinha se arrumado para mim. Assim como eu me arrumara para ela, ela o fez para mim. Assim que percebi isso, meu coração começou a disparar. Não havia como ela me rejeitar. Tinha certeza de que ela estivera esperando por este momento, assim como eu, todo esse tempo. Esperando que eu me tornasse um homem e voltasse para ela.

Claro, não achava que tudo o que ela fizera fora esperar. Pelo que Sir Luke nos disse, Aisha era um pouco diferente de quem costumava ser.

Como antes, ela era incrivelmente talentosa e o tipo de pessoa que você gostaria de contratar num piscar de olhos. Mas agora era adorada por todos ao seu redor, não temida. Eu tinha que tratá-la com um nível de importância que satisfizesse as pessoas ao nosso redor.

Digo, mesmo que tivesse mudado, provavelmente ainda havia pessoas que a odiavam. Não é como se todos no mundo a amassem. Mas dado o que ouvi, ela devia ter feito um progresso incrível para ter conquistado uma reputação tão positiva.

Ela trabalhara duro para se tornar uma pessoa mais completa para poder estar comigo. Provavelmente.

Não, tenho certeza.

Aisha parou na minha frente.

— Oi. Você cresceu.

Realmente fazia muito tempo desde a última vez que a vi. Nos últimos anos, eu vira todo tipo de mulher. Eu não conseguia deixar de olhar para mulheres com seios grandes, afinal. Num nível instintivo, eu queria tocá-las ou até tomá-las em meus braços.

— Faz apenas alguns anos, mas mal te reconheci. Uau… Achei que tivesse continuado apaixonada por você esse tempo todo, mas acho que é assim que se sente ao se apaixonar novamente.

Enquanto olhava para Aisha, tive um pensamento.

— Hum? Eiii, Arus? Você está bem?

Ela era a única mulher que eu amava.

— Hum, hum, hum. Espera, você está aqui esperando por outra pessoa? — Aisha estava brincando, mas ouvi um pouco de tristeza em sua voz.

Foi quando finalmente abri a boca para falar. Ajoelhei-me, estendi o buquê em minhas mãos para ela e olhei em seus olhos.

— Eu te amo. Quer se casar comigo?

Por alguns segundos, a boca de Aisha abriu e fechou. Mas então ela respirou fundo, endireitou as costas e pegou as flores de mim.

— Seria um prazer.

Então, Aisha e eu nos casamos.

Havia uma coisa que eu queria fazer depois de me reunir com ela. Convidei-a para entrar na carruagem que estacionei ao lado do castelo.

— Ora, ora. Que carruagem luxuosa. Você se tornou um rapaz bastante cheio de recursos. Virou um galanteador no meu tempo fora? — provocou Aisha.

— Ah, pare com isso. Quando pedi alguns conselhos ao Sir Luke, ele me disse para preparar uma carruagem como esta. Só isso — disse eu.

 

 

 

— Uau, você foi pedir conselhos a um mulherengo? Poxa, imagino para onde vai me levar em seguida. Mas suponho que tudo bem. Sou sua esposa agora, afinal. Acompanharei você a qualquer lugar que desejar hoje. Duvido que precise perguntar, mas você conseguiu a permissão do meu irmão, certo?

Aisha riu alegremente, olhou para a carruagem e cumprimentou o cocheiro. Antigamente, Aisha nunca teria se dado ao trabalho de cumprimentar alguém assim. Se o costume fosse pagar adiantado, ela poderia ter oferecido uma pequena gorjeta ou algo assim, mas nunca um cumprimento.

— Chega de falar sobre a aparência da carruagem — disse eu. — Poderia entrar para mim, por favor?

— Ooo, preparou um presente deslumbrante para mim ou algo assim?

— É. Espero muito que goste.

Aisha levantou a barra do vestido, então abri lentamente a porta para ela. Peguei sua mão e a guiei para dentro da carruagem. E esperando por ela lá dentro estavam…

— Aisha.

— Ah!

Duas pessoas. Uma delas estava de vestido, e parecia tão bonita quanto Aisha. Era a Vovó Lilia.

— Mãe — disse Aisha suavemente.

E, claro…

— Leroy?

Sentado ali estava um menino de três anos que, apesar do tamanho pequeno, estava todo arrumado. Era uma criança bem-comportada. Na idade dele, eu nunca teria conseguido ficar quieto dentro de uma carruagem. Não que ele fosse sempre tão bem-comportado. Talvez soubesse quem ia encontrar naquele dia. Dificilmente tinha idade para estar verdadeiramente ciente de seus arredores, mas mesmo assim, poderia ter entendido que hoje era importante.

Aisha olhou para os dois e, depois de hesitar, fixou os olhos na Vovó Lilia. A Vovó assentiu levemente, e Aisha estendeu a mão para o filho.

— Oi, Leroy! Você cresceu mesmo! — Ela colocou as mãos debaixo dos braços dele e o ergueu. — Sou sua mamãe. Você se lembra de mim?

Leroy balançou a cabeça silenciosamente. Não havia como ele se lembrar dela.

— Mamãe…

Disseram a Leroy repetidas vezes que as pessoas chamadas de Mamãe na casa não eram sua mãe. Leroy nunca perguntou quem era sua mãe. Tenho certeza de que parte disso era porque ele ainda era muito jovem, mas mesmo depois que aprendeu a falar direito, nunca fez essa pergunta. Ainda assim, deve ter se perguntado sobre isso.

Eu o amava o máximo que podia, assim como todos os outros na casa. Minhas mães nunca o maltrataram, mas nunca tentaram ser sua mãe. A linha ficava turva às vezes, mas elas nunca a cruzavam.

— Mamãe… — disse Leroy novamente. Ele abraçou Aisha e começou a chorar.

Mal conseguia falar, mas devia ter sentido algo.

— Oooh, pronto, pronto. Sinto muito por não ter estado aqui com você. Não fui embora porque te odiava nem nada. É porque fiz algo ruim. Me desculpa. Vamos ficar juntos de agora em diante, está bem? — disse Aisha chorando enquanto dava tapinhas nas costas de Leroy. Ela então olhou para mim por cima do ombro dele. — Arus… Você realmente se tornou um homem.

Havia uma coisa que eu queria fazer depois de me reunir com Aisha. Digo, queria muito fazer, veja bem. Mas sabia que não poderia priorizar isso naquele momento.

— Não assuma responsabilidade demais. Você não precisa se segurar. Estou com você agora — disse Aisha, como se pudesse ler minha mente.

Suponho que na época, eu pudesse estar colocando pressão demais sobre mim mesmo. Continuava dizendo a mim mesmo que era um homem, um adulto, um pai, e que ia me tornar o próximo chefe da família Greyrat. Estava tentando me animar, mas talvez estivesse exagerando.

Aisha se virou de mim para encarar a Vovó Lilia, e então disse:

— Mãe, finalmente voltei.

— Bem-vinda de volta — respondeu a Vovó Lilia.

— Sinto muito por não ter podido ser a pessoa que a senhora queria que eu fosse.

A Vovó Lilia pareceu surpresa.

— Não. Eu tentei demais moldá-la na pessoa que eu queria que fosse, e sinto muito.

Aquelas foram as palavras que ela não conseguiu dizer depois que voltamos para casa. As palavras que vieram à mente dela naquele dia fatídico. As palavras que ela queria dizer.

Conversei com a Vovó Lilia várias vezes desde então. Como a causa do desentendimento delas, senti que era o único que poderia reparar o relacionamento.

Na preparação para este dia, a Vovó Lilia me perguntou repetidas vezes se estava realmente tudo bem ela ir junto. Se não seria melhor se fosse apenas o Leroy. Disse a ela que ficaria tudo bem, porque eu sabia que a Vovó Lilia não tratara Aisha como uma de suas posses na verdade. Ela era apenas um pouco rígida em seus modos.

Tenho certeza de que provavelmente se reuniram e tiveram uma conversa mais íntima nos dias seguintes, mas na época, foi só isso que disseram uma à outra. Foi o suficiente.

— Tudo bem. Vamos jantar — propus.

Aisha sorriu radiante.

— Demais. Não almocei hoje, então estou morrendo de fome. Aonde vai nos levar?

— Tem um restaurante legal no Distrito Nobre com uma ótima vista à noite. Estava pensando em ir lá.

— Ah, nossa. Esse é o lugar que o Luke sempre usa quando está tentando conquistar uma garota. Mãe, o Arus virou um menino levado no tempo em que estive fora! O que vou fazer?

— Aisha, o Mestre Arus só está pensando em agradar…

— Eu sei. Só estou brincando! Acho que estou um pouco animada. Faz tanto tempo, e quando penso em como podemos ficar juntos de novo, eu só… Obrigada, Arus. A senhora também, Mãe — disse Aisha com um sorriso irônico.

Eu podia notar que ela estava borbulhando de energia, mas ainda era a Aisha de quem eu me lembrava. A garota de antes de fugirmos não desapareceu.

Bem, estávamos falando da Aisha. Era possível que ela estivesse fingindo sua alegria, mas a Vovó Lilia e eu ficamos aliviados que a mesma velha Aisha estivesse interagindo conosco novamente.

Se alguma coisa, eu provavelmente era o nervoso.

— Estou em casa.

Ela estava. Finalmente estava em casa.

— Depois disso, passei muitos anos com Aisha. Fui para a Academia Real de Asura, me formei e comecei oficialmente a trabalhar para o Senhor Orsted e meu pai, além de ajudar Aisha em seu papel de conselheira do Bando Mercenário. Aprendi como administrá-lo com ela. Também viajei pelo mundo com o Pai e a Mamãe Vermelha todos os dias. No fim, tornei-me o chefe do Bando Mercenário e, bem… vocês sabem o resto — explicou Arus, encerrando tudo.

Em algum momento, seus dois subordinados tinham se acomodado no chão. Ouviam o conto dele com olhares vagos. Quando ele terminou de falar, assentiram em satisfação.

— Foi uma história muito boa — disse Luicelia. — Henry, você devia usar isso como inspiração. Quando vier me buscar, certifique-se de ter uma carruagem.

— Certo, espera aí. Claramente, você é quem deveria vir me buscar — respondeu Henry.

Os subordinados de Arus continuaram seu vai e vem enquanto se levantavam. Então, os dois olharam para o livro.

— Realmente era apenas um diário. Uau. Todo mundo falava do volume 29 como se fosse algum tipo de objeto mítico, então imaginei que teria algo mais incrível escrito nele — disse Henry.

— Ah, foi mais do que incrível o suficiente para mim — disse Arus. — Eu nunca teria conseguido ler como meu pai se sentiu sobre toda aquela situação de outra forma. Obrigado por encontrarem isso.

— Hah, não é nada demais. Pessoalmente, não tenho desejo de saber o que meu velho está pensando.

— Acho que meu único arrependimento é que gostaria que vocês tivessem encontrado isso antes de Aisha falecer. — Arus suspirou.

— Isso é pedir demais… Não é como se estivéssemos procurando ativamente por isso — objetou Henry. — Mas, sabe, a Aisha ali é bem diferente da que conhecíamos.

A Aisha com quem Henry estava familiarizado era uma mulher rigorosa, mas gentil. Uma indivídua de mente aberta. Podia dizer pacientemente, gentilmente e cuidadosamente a pessoas teimosas como Henry e Luicelia o que deveriam fazer e com o que deveriam ter cuidado. Parecia o tipo de pessoa que nunca desprezaria pessoas menos habilidosas ou talentosas do que ela.

— Vocês eram família, então ela provavelmente era mais branda com vocês no geral, mas… É, ela realmente mudou depois que tentamos fugir.

Aisha falecera cerca de meio ano atrás. Morreu de velhice. Segundo Orsted, ela deveria viver um pouco mais, mas os últimos anos tinham sido turbulentos. Aisha usou sua mente incrível para levar o Império do Deus Ogro à vitória repetidas vezes. Ela foi a razão pela qual o Império pôde expandir suas fronteiras tão efetivamente em tão pouco tempo. Era um trabalho intenso, dia após dia. Ela devia estar exausta.

Ela morreu enquanto o país estava em guerra, então não puderam realizar um funeral enorme para ela, mas muitas pessoas compareceram mesmo assim. Todos choraram por ela. Todos lamentaram sua passagem, completamente alheios aos seus próprios interesses.

As estratégias de Aisha salvaram inúmeras vidas, mas ela fez mais do que isso. Sua própria presença, sua bondade, sua consideração – todas essas qualidades salvaram inúmeras vidas. Era por isso que as pessoas a adoravam. Aisha aceitava isso, não por seu próprio ego, mas de coração.

Se o Rudeus da era deste livro a tivesse visto, certamente teria sorrido, satisfeito com a visão do desenvolvimento de sua irmãzinha.

— Sinto culpa pelo que fiz naquela época, mas… fico feliz por termos fugido — sussurrou Arus.

Aisha mudara depois daquele evento, mas nunca lhe dissera em quem estava tentando se tornar ou como. Seria porque não era o tipo de coisa que se pudesse colocar em palavras, ou ela simplesmente escolhera não dizer?

Qualquer que fosse a resposta, ele tinha certeza de que ela chegara ao destino que estabelecera para si mesma.

— Fico tão feliz — sussurrou Arus. O único arrependimento que tivera por todos esses anos finalmente desaparecera.

— Vamos visitar o túmulo da Aisha de novo em breve — sugeriu Henry.

— Sim, assim que a próxima missão terminar — concordou Arus.

A próxima missão era a peça-chave da invasão do Reino de Asura, e era uma missão que a própria Aisha planejara. Foi somente após completar o plano que ela entrou em seu sono eterno. Arus recebera a explicação do que isso implicava dela antes de ela falecer, mas era bastante complexo. Ele não entendia completamente a lógica por trás do plano, mas ele e os outros o executariam mesmo assim. Era a última missão de Aisha. Eles tinham que fazer.

— Dito isso, vou ficar segurando as pontas aqui no forte — disse Arus.

Ele era um homem mais velho. Ainda conseguia se mover bem, mas seus longos anos de serviço militar cobraram seu preço. Fora ordenado a proteger a fortaleza. A segurança dela era vital.

— Ah, por favor. Este é o local mais importante — disse Henry.

— Nenhum inimigo virá aqui. Vou ficar bebendo chá o tempo todo — disse Arus.

— Considerando o quão importante é, não tem como o inimigo não vir.

— Eles não virão. Confio que vocês garantirão isso.

— Oho, esse é o seu ângulo, hein? O que você acha, Luicelia?

— Só vou fazer a missão que me foi dada — respondeu ela. — Foi ele quem me deu a missão, então se ele diz que o inimigo não virá, não virá.

Parte da missão de Henry e Luicelia era garantir que ninguém descobrisse a existência daquela fortaleza. Eles haviam descoberto e assassinado qualquer um que tivesse posto as mãos em informações sobre sua posição estratégica. Arus acreditava que tinham cumprido sua missão perfeitamente, mas sempre havia a chance remota de o inimigo obter essas informações e atacar. Se conseguissem derrubar a fortaleza, o Império do Deus Ogro poderia perder metade de seu território. Era assim que aquele lugar era importante – tão importante que Orsted não hesitara em postar seu homem mais confiável ali.

Arus entendia isso, e foi por isso que pôde dizer com um sorriso: Não se preocupem em olhar para trás. Apenas foquem no que está à frente.

— Estou mais preocupado com vocês do que comigo mesmo. Não morram lá fora.

Como Arus não estaria na linha de frente, isso significava que outros teriam que estar em seu lugar. Henry e Luicelia não eram exceção; eles caminhariam pelo campo de batalha.

As linhas de batalha de Asura seriam uma arena onde qualquer um poderia morrer. Arus tinha sentimentos mistos sobre enviar pessoas tão jovens para um lugar assim.

 

 

 

— Sim, senhor. Faremos o nosso melhoooor! — cantou Henry.

— Não se preocupe. Não vou morrer — disse Luicelia.

Apesar das preocupações pesadas de Arus, as respostas deles foram tudo menos pesadas. Estavam tratando a morte com leviandade ou estavam confiantes demais?

— Olhem, vocês dois…

Arus ia repreendê-los, mas se interrompeu e sorriu ironicamente. Tinham acabado de discutir a própria juventude dele, então estava estranhamente envergonhado. Antes um jovem tolo, agora estava na posição de fornecer orientação e ficar exausto com a juventude e sua idiotice.

Dizia-se que o tempo tornava as pessoas mais fortes, mas a maioria permanecia alheia ao seu próprio crescimento. Arus era uma dessas pessoas. Passara a vida acreditando que ainda era imaturo, mas aqui estava ele agora, um velho. Luicelia e Henry sem dúvida passariam pela vida tomando decisões estúpidas, estragando tudo e aprendendo com suas experiências até se tornarem adultos. Um dia, seriam idosos também.

— Bem, acho que é bom que estejam tão entusiasmados — disse Arus. — Certo, vão andando. Vou reportar ao Senhor Orsted, então descansem um pouco.

Não era trabalho de Arus importuná-los. Em vez disso, ele esperaria nos bastidores, calmo e composto, para que pudessem se sentir à vontade. Quando cometessem um erro, ele limparia a bagunça depois. Era tudo o que precisava fazer. Assim como fora para ele, enquanto permanecessem vivos, a vida continuaria mesmo depois que cometessem erros.

Talvez fosse assim que o Pai se sentia, pensou Arus enquanto via o par sair da sala.

Rudeus não fora um pai muito paternal. Se alguma coisa, a Mamãe Vermelha foi mais uma figura paterna para Arus. De fato, quando Arus se tornou pai, sentiu que modelou seu comportamento no da Mamãe Vermelha. Mas talvez seu pai – talvez Rudeus – tivesse a mesma mentalidade que Arus tinha agora.

— É assim que se interage com netos, não com os próprios filhos, Pai… — sussurrou Arus, olhando para O Livro de Rudeus.

Rudeus Greyrat continuou a ser falado muito tempo após sua morte, mas não fora um pai particularmente bom. Depois de ler seu diário, no entanto, Arus percebeu que seu pai tentara o seu melhor – por mais desajeitado que tenha sido – para criar Arus e seus irmãos.

Arus fez o mesmo com o próprio filho. Sentia que fizera um trabalho melhor que o pai, mas não podia dizer que fora perfeito. Houve muitas vezes em que as coisas não saíram conforme o planejado. Da mesma forma, Leroy lutava com a própria filha.

Heh… Suponho que há certas coisas que você só entende verdadeiramente quando chega à minha idade.

Arus não conseguia entender Rudeus quando era mais jovem. Mesmo depois de ter netos, talvez ainda não entendesse. Mas tinha a sensação de que estava chegando perto. Um sorriso formou-se em seu rosto.

Fazia algum tempo desde que Arus pensara no pai. Agora via semelhanças entre Rudeus e Leroy, bem como nele mesmo. Isso o deixou feliz. Acariciou gentilmente a capa de O Livro de Rudeus.

Tomando cuidado para não danificar o livro em suas mãos, Arus levantou-se. Saiu da sala com um passo leve, com a intenção de entregar o livro a Orsted.

 


 

Tradução: Gabriela

Revisão: Pride

 

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