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Mushoku Tensei: Reencarnação Redundante – Vol. 03 – Cap. 08 – Aisha Greyrat

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AISHA ERA UM GÊNIO NATO. Desde que tomou consciência do que a cercava, conseguia entender palavras e imitar as coisas que sua mãe, Lilia, ensinava sem problemas. Muito cedo em sua vida, foi capaz de entender por que tinha que fazer as coisas. Limpeza, lavanderia, idioma, matemática, história, geografia e ciência – ela realmente podia fazer tudo.

Ela era uma super-humana invencível e perfeita.

E isso a distorceu. Criou uma fraqueza gigante nela. Ela simplesmente não conseguia entender os sentimentos daqueles que não eram tão capazes quanto ela. Aisha sempre julgava uma pessoa, incluindo se gostava ou não dela, com base em suas habilidades.

Ela não sabia como gostar de alguém a menos que fosse lógico. Não entendia o amor. No entanto, ela, de todas as pessoas, apaixonou-se por alguém completamente removido da lógica.

Claro que isso levou a problemas.

— Trecho de O Livro de Rudeus, Volume 29

Aisha estava deitada numa cama pequena, mas bem-feita. Os lençóis e o cobertor eram adornados com o tipo de estampa elegante favorita dela, havia bonecas e pequenos vasos de plantas no parapeito da janela. O sol que entrava pela janela e pelas frestas entre os objetos iluminava Aisha. Seu cabelo estava solto.

Olhei para Aisha e entendi por que de repente conseguimos encontrá-la junto com Arus. Todos diziam que, se ela realmente quisesse permanecer escondida, ninguém a encontraria. Diabos, depois de um ano de busca, não tínhamos encontrado seu paradeiro.

O que mudara? Era óbvio à primeira vista: sua barriga estava visivelmente grande. Ela estava grávida. Por causa da gravidez, não conseguia se mover tão levemente quanto antes. Essa fraqueza resultou numa brecha no manto que ela lançara sobre si mesma e Arus.

— Isso não se parece com você — murmurei.

Não era a cara dela – alguém que nunca mostrava aberturas – tropeçar assim. Ficar grávida significava que ela não poderia se mover como quisesse. Aisha deveria saber disso. Ela estivera com Sylphie e as outras durante suas gravidezes, então não havia como não saber. Mesmo que essa realidade nunca tivesse realmente a atingido porque ela mesma não a vivenciara, Aisha deveria ter previsto como isso acabaria.

— Eu… sinto o mesmo — disse ela suavemente. — Achei que Arus e eu poderíamos viver felizes para sempre. Achei que nem mesmo você me encontraria…

Não a interrompi.

— Mas acho que… as coisas simplesmente não saíram como planejado… — disse ela antes de baixar o olhar e acariciar a barriga. — Digo, eu amo o Arus. Mesmo sabendo que ficaria grávida, eu queria dormir com ele. Simplesmente me deixava tão feliz. Eu quero fazer amor com ele.

Havia olheiras em seu rosto. Ela deve ter sofrido muito com isso. Sabia o que precisava fazer, que tinha que se conter.

Mesmo sabendo disso, seu corpo queria o que queria, e as coisas saíram do controle. Ela não conseguiu se controlar.

— Ei, Rudeus? Por que me sinto assim?

— Não saberia dizer… mas quando Sylphie e eu nos casamos, éramos assim também.

— Sério? Então acho que isso é amor.

Amor, hein?

Eu não sabia realmente se esse era o caso. Mas sabia que amar alguém era inevitável. Fazia parte da nossa natureza.

— Por que você não tentou conversar com ninguém sobre isso? — perguntei.

Ela não respondeu.

— Achou que seriam contra?

Após uma pausa, ela falou.

— Achei. Digo, eu estou errada. Ninguém teria ficado do meu lado.

Será que era esse o caso?

Lilia era muito contra o relacionamento deles, mas, se fosse o caso, Sylphie era totalmente a favor. Roxy também, e Eris só era contra a atitude de Arus, não o relacionamento em si. Se Aisha tivesse preparado o terreno adequadamente com antecedência, eu poderia não ter sido tão teimoso. Isso também não parecia nada com ela…

Minhas razões para ser contra o relacionamento deles estavam relacionadas a algo que ela não tinha como saber. Se eu não tivesse meus próprios traumas, provavelmente teria celebrado o relacionamento deles sem objeções.

— Ei, Rudeus? O Arus está bem?

— Sim, embora a Eris tenha dado uma surra nele.

— Imaginei. Arus é o filho precioso dela, afinal… Graças a Deus… — Aisha soltou um suspiro de alívio. — Mas Rudeus, o que vai acontecer comigo agora?

— Tenho que pensar sobre isso.

— Se nada mais, você nunca vai me perdoar, certo?

— Isso não é verdade — respondi rapidamente.

— Por quê? Eu sequestrei seu filho amado e concebi uma criança com ele.

— Você não é a única culpada aqui. Sou parcialmente responsável por empurrar vocês dois para fugirem. Até o Arus…

— O Arus não fez nada de errado — rebateu ela, me cortando. — Ele ainda é só uma criança. Enganei uma criancinha e o fiz fazer o que eu queria. Eu sou a vilã aqui. Certamente você entende isso, Rudeus.

Tirei um segundo para considerar o que ela estava dizendo.

— Aisha, o Arus não é mais uma criancinha.

Imaturo? Certamente. Mas não era uma criança incapaz de tomar decisões por conta própria. Ele fizera a escolha de estar aqui. Não achava que tinha sido enganado para nada, e eu não achava que Aisha acreditasse nisso também. Ela provavelmente estava tentando encobri-lo.

— Você nunca vai aceitar nosso filho, certo? — perguntou ela.

— Admito que é difícil, mas aceito. Tenho que aceitar. Você está grávida — respondi.

— Você vai abrir minha barriga, tirar o bebê e matá-lo?

— Claro que não…? Eu nunca poderia fazer isso.

— Claro que poderia. Em Millis, quando a nobreza tem um filho que não quer, usam remédios para fazer a mãe dormir, abrem-na, matam a criança e depois usam magia de cura para deixá-la normal de novo. Mas às vezes a mulher nunca mais pode conceber se a magia for malfeita.

— Que diabos? Isso é aterrorizante… embora eu suponha que já soubesse sobre abortos, é.

— Assim que isso for feito, você vai nos separar… Não, imagino que vai me matar, certo?

— Absolutamente não! Que diabos? Por que continua trazendo todas essas ideias horríveis? Pare com isso. Eu realmente pareço esse tipo de pessoa? Arus é precioso para mim, como você disse, mas você também é.

— Mas, e-eu… eu fui contra você! — explodiu Aisha. — Peguei alguém com quem você se importa, alguém por quem você estava disposto a lutar contra o Senhor Orsted para proteger, sem permissão! Tentei torná-lo meu, mesmo sabendo muito bem o quanto você ama sua família e que nunca perdoará quem lhes fizer mal! Eu vi o quão bravo você ficou um ano atrás! Percebi que, ao colocar minhas mãos em alguém com quem você se importa, fiz algo horrível! Fiz de você um inimigo… Estava tudo muito bem quando achei que poderia escapar, mas minha barriga continuou crescendo, e ficou tão difícil me mover. Eu não conseguia mais usar o Bando Mercenário do jeito que queria, não conseguia mais controlar o fluxo de informações… Fiquei com medo, parei de dormir e, mesmo sabendo que você viria eventualmente, não consegui fazer nada. Até hoje, congelei de medo…!

A voz de Aisha estava cheia de tristeza. A Aisha que eu conhecia não era pessimista assim. O que mudara no último ano?

Bem, era possível que fosse apenas melancolia da gravidez. Eu precisava acalmá-la um pouco.

— Aisha, isso foi apenas uma pequena briga entre irmãos. Sim, você levou longe demais, mas nem por um segundo te considero minha inimiga.

— Mas naquele dia, você parecia aterrorizante. Tinha a mesma expressão no rosto de quando lutou contra o Senhor Orsted. Quando aquele nobre chamou a Roxy de demônio sujo.

Instintivamente toquei meu rosto. Sério? Quando ouvi falarem mal de Roxy, eu realmente surtei. Eu estava fazendo a mesma expressão para Aisha?

Bem, naquele momento, eu estava agindo por emoção. Talvez eu tenha feito aquela cara. Claro que ela ficou assustada.

— E-e agora? — perguntei.

Ela olhou para mim.

— Você parece… como quando a Norn não saía do quarto.

— Então estamos bem, certo?

Sentei-me na beira da cama. As pernas de Aisha estavam descobertas, então esfreguei gentilmente uma delas. O corpo dela se contraiu, mas ela não rejeitou meu toque. Suas pernas eram finas, mas resistentes. Ela devia ter andado muito no último ano. Sua pele estava um pouco seca, e ela tremia.

— Aisha. Não acho que seja bom para irmãos se envolverem romanticamente.

— Certo…

— É porque… tive uma experiência parecida no meu passado. Mas no meu caso, foi muito mais sujo, unilateral e imperdoável. As pessoas ficaram furiosas comigo com razão, me atacaram e perderam a fé em mim. Por causa disso, esse tipo de coisa é totalmente proibido para mim — disse eu.

Como eu esperava, as palavras fluíram naturalmente para mim, muito mais do que as outras razões que inventei no último ano.

Em certo sentido, aquele evento foi a origem de como cheguei aqui. Acabei me saindo bem, mas isso não apagava o fato de que aquele evento horrível levou à minha morte. No fim das contas, nunca consegui pedir desculpas.

Como eu abordaria o tópico da minha vida anterior? Considerando o quão pesada era essa situação, será que ela realmente acreditaria em mim se eu dissesse de repente: “Na verdade, vim de outro mundo!”? Pareceria que eu estava tramando algo?

— Isso aconteceu no mundo onde você costumava viver? — perguntou Aisha de repente, e a mão que eu usava para acariciar a perna dela parou.

— Quando foi que te contei sobre isso?

— Conversei muito com Nanahoshi. Além disso, é só um palpite, baseado em como você e o Senhor Orsted agem.

— Ah… Pois bem. — Acho que ela, de todas as pessoas, descobriria. Estava sempre observando a todos.

— Você está mantendo segredo, certo?

— Tenho medo… de contar às pessoas. Especialmente para a Mamãe. Digo, ela ficaria enojada se soubesse que o filho que teve era um homem de meia-idade imundo, não ficaria? O que você achou?

— Não muita coisa, na verdade. O Senhor Orsted tem memórias de uma vida anterior. Pode ser incomum, mas ouvi dizer que há outras pessoas assim também. Não é como se você tivesse se transformado em outra pessoa no meio da vida. Você sempre foi meu irmão. Claro, é mais velho do que parece, mas isso não muda quem você é para mim.

Eu pausei.

— Entendo. Obrigado.

Era uma maneira de ver as coisas. É, incluindo Orsted, havia muitas pessoas neste mundo que tinham renascido. Eu era apenas mais um para adicionar à lista.

— Todo mundo meio que sente que é esse o caso, sabe? Tanto Sylphie quanto Roxy… Eris não entende muito bem, no entanto.

Eris ouviu sobre o que passei, então deveria saber. Dependia da memória dela, mas duvidava que tivesse realmente esquecido. Ela disse que manteria segredo, então suspeitava que estivesse apenas cumprindo sua promessa.

— Você acha? — perguntei, sentindo-me reflexivo.

— Você não vai contar para todo mundo, vai? Tenho certeza de que diriam algo como “Sim, e daí?”.

— Eu sou Rudeus Greyrat agora. Diabos, você ficaria enojada se descobrisse que a criança que carrega é um homem de meia-idade com memórias de sua vida anterior, certo?

— Digo, se ele se importasse comigo do mesmo jeito que você se importa, não.

— Oh…

Era assim que as coisas eram? Se fosse eu, não iria querer isso, mas… provavelmente porque eu odiava quem eu costumava ser. Não conseguia deixar de pensar que seria alguém parecido. Sentia nojo ao imaginá-los tentando viver neste mundo como se fosse um jogo, como eu fiz uma vez.

Aisha sentou-se, arrastou-se e recostou-se no colchão ao meu lado.

— Poderia me contar tudo o que aconteceu naquela época?

— Tudo bem.

Trouxe uma cadeira de perto e coloquei na frente de Aisha. Sentei-me e olhei para sua barriga redonda. Ela parecia estar perto do fim da gestação.

— Eu era um pedaço de lixo na minha vida anterior. Era uma criança normal, mas por volta da época em que entrei no ensino fundamental…

E assim, contei a ela sobre quem eu fora um dia. Que tipo de pessoa eu era e como acabei aqui neste mundo. Que tipo de bagagem emocional eu carregava. O que eu achava imperdoável.

Não havia muito o que contar. Embora tivesse vivido trinta e quatro anos da minha vida no outro mundo, dificilmente foram repletos de eventos. Minha memória daquela época tinha ficado turva, e eu esqueci muitos dos detalhes.

Em troca das memórias desbotadas da minha antiga vida, contei a ela sobre minha vida aqui. Contei o quanto Paul me ajudou. Que sentimentos guardava perto do coração ao interagir com Norn. Como me sentia em relação a Zenith e Lilia. E como sempre senti que Aisha era minha irmãzinha. Família.

Ela ouviu em silêncio. Ocasionalmente, fazia uma observação ou intervinha brevemente, mas, na maior parte do tempo, simplesmente ouvia.

Para encerrar, disse:

— Acabei vivendo uma vida muito mais feliz aqui do que jamais poderia ter esperado, comparado à pessoa lixo que costumava ser. Quero valorizar esta vida que tenho.

— Você é realmente incrível, Rudeus.

— Será mesmo?

— Se você me matasse agora e eu reencarnasse, não acho que conseguiria me esforçar tanto quanto você.

— Bem, não vou te matar.

— Sei que não teria conseguido começar uma família como você fez.

— Sério?

— É. Eu amo Arus, mas se continuássemos vivendo assim, não acho que teríamos nos tornado uma família.

O que exatamente ela quis dizer com isso? Arus amava Aisha. Tentava desesperadamente protegê-la. Não era a mesma coisa para ela?

— Quando o Arus nasceu, fiquei tão animada, mas não acho que estava apaixonada por ele.

Por sua vez, Aisha começou a me contar tudo o que aconteceu com ela desde o nascimento do meu filho.

Aisha ajudara no parto de Lucie e Lara, minhas duas filhas. “Uau, incrível!” foi o máximo que ela disse na época, mas ficara comovida com o quão incrível era o nascimento de uma vida neste mundo.

No entanto, quando Arus nasceu, foi completamente diferente para ela. Quando o segurou nos braços, Aisha sentiu algo que não sentira quando segurou Lucie ou Lara. E, à medida que o recém-nascido Arus começou a chorar, aquele novo sentimento cresceu profundamente em seu peito. Era algo que ela não conseguia explicar com palavras – tanto comovente quanto irritante ao mesmo tempo. Continuou a persistir em seu peito mesmo depois que Eris foi dormir junto com Arus.

Aisha foi para a cama, mas ficou bem acordada. Enquanto estava de barriga para cima na cama, levantou as duas mãos no ar e relembrou a sensação de segurar Arus.

A sensação persistente em suas mãos assemelhava-se a como se sentia quando segurava Lucie e Lara, mas não era a mesma coisa. Seria porque ele era um menino? Ela não sabia, mas sentia-se confortável naquele momento. Queria que o dia seguinte chegasse logo para poder cuidar de Arus enquanto ele chorava e gritava. Para Aisha, ele parecia especial. Ela não sabia como ou por quê, mas…

De qualquer forma, ela mudou um pouco depois daquele dia. Pouco a pouco, começou a relaxar nas quatro coisas que compunham sua rotina diária: trabalhar como empregada, fazer as coisas que gostava, me ajudar e aconselhar o Bando Mercenário. Em vez disso, cuidava de Arus.

Poderia se argumentar que isso fazia parte de seus deveres como empregada, mas Aisha não via dessa forma. Era o equivalente a fazer o que gostava? Não exatamente. Ela só queria olhar para Arus. Se possível, queria conversar com ele. Tudo isso enquanto esperava que ele crescesse rápido.

Pela primeira vez na vida, Aisha passara a sentir que alguém era especial para ela, independentemente de suas habilidades. Depois disso, por quase dez anos, aproveitou sua vida junto com Arus.

Um dia, ele repentinamente confessou seu amor por ela. Na época, ela dispensou calmamente, mas não era o tipo de coisa que pudesse simplesmente ignorar. Seu coração disparou ruidosamente, e ela sentiu que estava à beira de perder a compostura.

Eventualmente, perdeu. A confissão dele levou aos dias em que ela não conseguia se controlar. Mesmo sabendo que era uma má ideia, continuou a dormir com ele. De repente, não conseguia se controlar de jeito nenhum. Seus desejos venceram rapidamente a lógica. Mesmo sentindo que não podia evitar, dormia com Arus. Não havia premeditação. Apenas lidava com as coisas conforme aconteciam.

E então eu a encontrei. Encontrei-os.

A princípio, ela planejou passar pelo encontro chamando aquilo de prática. Aquele sentimento dela era apenas prática. Nem ela nem Arus estavam falando sério. Aquilo era apenas um lapso momentâneo de julgamento. Essa era a melhor maneira de evitar que alguém se machucasse.

Mas Sylphie viu através dela, e os sentimentos de Aisha foram revelados a todos, levando-a a proclamar desajeitadamente seu amor por Arus.

Mesmo naquele ponto, Aisha foi ingênua sobre toda a situação. Sabia que eu ficaria bravo, mas assumiu que a perdoaria. Eu poderia até permitir que o relacionamento deles continuasse.

Sylphie criara a atmosfera perfeita para isso acontecer, mas o resultado não saiu como ela esperava. Eu não concordei. Em vez disso, tentei separá-los com um nível de teimosia que ela nunca vira em mim. Era uma versão inteira de mim que Aisha nunca vira. Completamente indisposto a ceder. Nem um pingo de razão. Disse-lhe não com voz e olhar severos, excluindo-a completamente.

Foi a primeira vez que ela me viu tão intransigente, mas já vira a expressão que eu tinha no rosto antes. Ela nunca poderia esquecer: antes de eu entrar em batalha com Orsted, enquanto construía minha armadura mágica, eu parecia exatamente assim. Mortalmente sério.

Aquele olhar aterrorizou Aisha. Ela sentiu que, naquele momento, poderia ter feito de mim um inimigo.

Certo, eu quebrei o que Rudeus passou tanto tempo construindo, pensou ela. Então, assentiu em resposta a mim, mesmo com um aperto no coração.

O apelo de Aisha foi rejeitado na reunião de família, e não lhe deram chance de defender seu caso. Ela estava pronta para ceder naquele ponto. Ainda assim, amava Arus e não conseguia parar seus sentimentos. Quando ele lhe mostrou bondade naquela noite, ela propôs fugir com ele.

Então, saíram de casa e começaram a morar juntos, e ela engravidou. Durante aqueles dias, repetidas vezes, sentiu que cometeu um erro. Não havia como serem verdadeiramente felizes assim; todos ficariam miseráveis. No entanto, vira o quão furioso eu estava e tinha certeza de que eu não a perdoaria, então não podia correr para casa. Mesmo sabendo que ainda estava errando, não podia mudar o passado. Não podia seguir em frente, nem podia voltar. Eventualmente, sentiu que estava prestes a ser esmagada sob uma montanha de ansiedade e inquietação.

O que nos trouxe ao presente.

A maior parte parecia uma história de amor superdoce que honestamente me dava vergonha alheia, mas o tom de Aisha era distante. Como se tivesse perdido a esperança.

Pausei para organizar meus pensamentos.

— Posso te fazer duas perguntas? — disse eu, eventualmente.

— Vá em frente.

— O Deus Homem alguma vez entrou em contato com você?

Enquanto a ouvia contar sua história, essa possibilidade me veio à mente: Aparentemente, o destino de uma mulher ficava mais fraco quando estava grávida, o que tornava mais fácil para o Deus Homem tentar interferir. Talvez ela tivesse fugido com Arus porque o Deus Homem lhe dissera algo… Como teria sido fácil para mim se fosse esse o caso. É tudo culpa dele! Vamos para casa! Eu poderia dizer algo assim.

— Não, não entrou. Fui eu mesma — respondeu ela, secamente.

— Entendo…

Eu imaginava. Passei sabe-se lá quantos anos dizendo a todos na minha família para não ouvirem o Deus Homem, embora, dado o estado de espírito dela quando fugiu, não achasse que ela poderia ter resistido a ele se a tivesse abordado.

— Qual é a outra pergunta? — quis saber ela.

— Vocês não usaram proteção?

— Os canais de distribuição daquelas coisas que você inventou são muito limitados, então teria conseguido nos rastrear através deles.

— É, verdade.

Eu sempre tinha uma caixa em casa. Tê-los tão facilmente disponíveis me fez esquecer o quão difícil era colocar as mãos neles.

— Posso perguntar mais uma coisa? — acrescentei.

— Você não disse que tinha duas perguntas? — Ela pausou. — Desculpe, vá em frente.

— Você queria ser feliz? — perguntei.

Aisha baixou o olhar. Franziu os lábios e seu rosto ficou tenso, até que finalmente respondeu:

— Sim.

Então, ela queria. Queria ser feliz. Mas alguém como ela deveria ter percebido que aquilo não ia funcionar.

Não… Talvez fosse porque ela não sabia como ser feliz que fugiu daquele jeito.

— Você teria sido feliz se eu nunca te encontrasse?

Aisha balançou a cabeça fracamente.

— O Arus fez… Ele fez todo tipo de coisa por mim, mas nesse ritmo, ele provavelmente acabaria sendo minha marionete, e eu nunca mudaria. Isso… não vai funcionar.

— Entendo.

Bem, se ela não se sentisse assim, não teria desistido. Teria se escondido e fugido com Arus, mesmo grávida. Não teria deixado eu encontrá-la.

Pigarreei e olhei para Aisha.

— Está na hora de tratarmos dos negócios.

Aisha ergueu a cabeça. Havia olheiras escuras sob seus olhos, mas seu olhar estava cheio de força, completamente diferente de quão morto estava momentos atrás. Eram os olhos de alguém que firmara sua determinação.

— Tenho dois pedidos — disse ela. — Por favor, perdoe o Arus. E… por favor, permita-me dar à luz ao filho dele. — Bem no final da frase, ela acariciou gentilmente a barriga inchada. — Depois disso, por favor… por favor, descarte-me. Fico feliz que me considere da família, mas o que fiz não pode ser perdoado.

— Descartar, hein…?

Mudei minha postura de inclinado para a frente para recostado na cadeira em que estava sentado, depois olhei para o teto. Organizei minhas palavras um pouco. Não demorou muito. Tive um ano inteiro para me preparar.

— Dado o meu histórico na minha vida anterior, é honestamente difícil para mim aprovar seu relacionamento com o Arus — comecei.

— Eu sei.

— E mesmo removido de tudo isso, senti-me traído por causa de quanto confiava em você.

— Sim.

— Mas acho que estou pronto para aceitar o relacionamento de vocês.

Ela levou um segundo para registrar o que eu dissera.

— Você… O quê?

— Ainda sou bastante resistente à ideia, mas sei agora que é por causa do meu próprio trauma. Em outras palavras, é uma resposta emocional. Quero deixar isso de lado por enquanto.

— Mas não pode. Você não pode me perdoar, e não é puramente emocional, é? Se deixar isso passar, as pessoas vão minar a família Greyrat. Temos autoridade agora, e essa autoridade deriva de proteger todo tipo de coisa.

— Autoridade? Hum. Honestamente, não ligo muito para essa coisa toda.

— Não é só sobre você. Tenho certeza de que Lucie, Lara, Sieg, Lily e Chris serão afetados. Podem até se machucar. Você precisa se livrar de mim. Tenho certeza de que qualquer um a quem perguntasse diria o mesmo.

— Tudo bem, mas eu realmente não gosto dessa palavra. Vamos chamar de punição, certo? Deixa eu pensar em algo… É só que não acho que deva ser uma punição severa.

Inclinei-me para a frente novamente e olhei para Aisha. Ela me olhou de volta com os olhos arregalados.

— Aisha, você fez besteira dessa vez. Fugir com Arus foi a pior escolha que poderia ter feito, mas você disse agorinha, certo? Não sabia mais o que fazer. Pode ser a primeira vez para você, mas para pessoas normais como eu, cometemos esse tipo de erro o tempo todo. Mesmo que saiba o que é melhor na sua mente, seu corpo não faz o que você manda. Você sabe qual é a escolha certa, mas não consegue fazê-la por qualquer motivo, e acaba escolhendo a pior opção — expliquei, olhando no rosto de Aisha.

Coloquei as cartas na mesa para ela:

— Se você tivesse pegado o filho de outra pessoa, ou se Arus acabasse em frangalhos, não sei o que teria feito com você. Mas ele estava indo bem e, mesmo que tenha se desviado um pouco do caminho certo, ele cresceu. E ele é meu filho, e você é minha irmãzinha. Claro, num nível biológico, não gosto de vocês dois juntos, mas ambos são parte da minha família. Tudo isso é um assunto de família.

Disse que ia deixar minhas emoções de lado, mas, no fim, voltava a isso.

— Basicamente, minha família fez besteira. É só isso — disse eu, concluindo minha explicação.

Aisha mordeu o lábio silenciosamente. Pude ver as lágrimas se formando em seus olhos, mas ela as enxugou rapidamente.

— O que… eu fiz de errado…?

— Vejamos…

Aisha devia saber, mas aquela era a maneira dela de verificar as respostas.

Deixa eu pensar nisso racionalmente.

Hoje, eu ia manter a calma e conversar. Para Norn, fazia sentido sentar ao lado dela em silêncio, mas para Aisha, eu precisava falar. Ela ouviria.

— Primeiro, sobre Arus. Acho que ele ainda é imaturo demais para você. Ele não tinha a capacidade de pensar por conta própria e fazer boas escolhas. Obviamente, ele está muito melhor agora. Você disse que ele não mudaria, mas isso não é verdade. No último ano, ele definitivamente cresceu. Ainda é bastante imaturo, mas isso vale para todo mundo. Não há ninguém no mundo que não seja de alguma forma. Diabos, tudo isso mostrou o quão imatura você também é, certo? As pessoas cometem erros e aprendem com eles. É assim que funciona.

Se nada mais, Arus não era capaz de proteger Aisha de verdade ainda. Sua força real não alcançara seu ímpeto ardente. Ele ficará mais forte e encontrará sua determinação, mas a depressão de Aisha falava do fato de que Arus não era capaz de proteger o bem-estar mental dela.

Dito isso, era questionável se eu estava fazendo isso pelas minhas esposas…

Mas estou divagando. No fim das contas, Arus ainda deixava a desejar de várias maneiras.

— É menos que você fez algo errado e mais que errou no timing. Foi cedo demais para isso. Deveria ter esperado para se casar com ele quando ele se formasse na escola, atingisse a maioridade, encontrasse trabalho, acumulasse experiência e se tornasse capaz de tomar decisões por conta própria, mesmo que nunca chegasse exatamente ao seu nível. Dada a idade dele, é impossível evitar que ele acabe dependendo de você demais.

— Casamento…? Arus é seu filho mais velho. Ele não vai se tornar o próximo chefe da família?

— Nossa família não tem costumes assim. Eris está sempre falando sobre esse tipo de coisa, mas ela não se importa tanto assim na verdade. Lucie poderia ser a próxima chefe, por mim tanto faz. Honestamente, mesmo que Arus se torne o próximo chefe, não tenho problema com você sendo a esposa dele.

— Mas eu sou uma empregada!

— Se isso for um problema, eu simplesmente te demito. Você se aposentou por causa do seu casamento. Bum, resolvido.

— Haha, que diabos? — disse Aisha com uma risada.

Ela finalmente estava rindo um pouco. Fiquei aliviado ao ouvir a risada dela pela primeira vez em tanto tempo.

— Em seguida, temos que falar sobre você.

Ela pausou.

— Certo.

— Primeiro, você deveria ter conversado sobre isso com alguém. Antes de colocar um dedo no Arus, antes de fugir, deveria ter preparado o terreno. Se tivesse feito isso, poderia ter tido apoio quando eu resisti durante a reunião. E eu teria sido capaz de me preparar mental e emocionalmente.

— Você tem razão. Por que não fiz isso…? Talvez nunca tenha me ocorrido que você diria não.

Embora suspeitasse que eu tivesse memórias de uma vida anterior, ela não sabia em que consistiam essas memórias. Considerando isso, não era tão estranho que não se preocupasse.

Se eu não fosse contra o relacionamento deles, só restaria Lilia para convencer.

— Você realmente deveria ter começado a soltar indiretas para Lilia.

— É, mas se você não fosse contra nosso relacionamento, ela provavelmente teria aceitado numa boa.

Ela poderia estar certa. No entanto, Lilia era a mãe de Aisha, então ela deveria ter contado como se sentia em relação a Arus e conseguido o apoio dela. Se Lilia estivesse do lado de Aisha na reunião de família, eu poderia não ter objetado tão fortemente. Apesar das aparências, eu era bem fraco quando se tratava da Lilia. Ela cuidara da minha mãe por todo esse tempo.

— Sabe, você causou muitos problemas para muita gente — disse eu a Aisha.

Ela considerou isso.

— Todo mundo ficou bravo?

— Ficaram preocupados.

— O que você acha que devo fazer sobre isso?

— Reflita sobre suas ações primeiro, depois peça desculpas. Especialmente para Lilia. Você precisa sentar e realmente pedir desculpas a ela.

— Certo — concordou ela após um momento.

Lilia… As ações de Aisha tinham ferido profundamente a vovó trabalhadora da casa. Independentemente do que Aisha fosse dizer à mãe, a conversa precisava acontecer. Se eu me envolvesse um pouco, ela entenderia.

— O que mais…? — imaginei. — Bem, devo dizer que eu estava errado também.

— O quê? Você não fez nada de errado — disse ela.

— Não é verdade. Disse para você viver sua vida como achasse melhor, mas na hora H, fui eu quem bateu o pé. Não deveria ter feito isso. Deveria ter entendido meus próprios sentimentos antes de chegar a uma conclusão.

— Considerando a situação, foi simplesmente assim que aconteceu. E eu fui uma covarde.

Ela podia ter dito isso, mas aquilo era algo a que eu prestaria mais atenção daqui para frente. Precisava refletir sobre meus próprios erros.

— Por enquanto, isso resume tudo, eu acho? Mais alguma coisa? — perguntei.

Ela pensou por um segundo.

— Rudeus, você precisa conversar mais com seus filhos.

— Hã? Bem… É, você tem razão. Não sei sobre o que conversar com eles, mas vou arranjar mais tempo para isso.

Se nada mais, eu claramente deveria ter conversado mais com Arus. Se ele tivesse confiado mais em mim, talvez nada disso tivesse acontecido. Isso não se limitava a ele. Eu ia conversar mais com todos os meus filhos. Precisava realmente conhecê-los.

— O que mais?

Ela não respondeu.

— Se é só isso, você se importaria em voltar para casa por enquanto?

Novamente, ela não respondeu.

— Quero discutir o que fazer com você e com Arus com todo mundo.

Aisha parecia um pouco preocupada. Ainda havia algo em sua mente?

Se havia, ela não disse. Em vez disso, assentiu lentamente.

— Tudo bem. Eu entendo.

— Ok, vou chamar o resto do pessoal.

Levantei-me. Tudo o que restava era ir para casa e convencer a Lilia.

Então tudo voltaria ao normal… só que não. As coisas nunca voltariam a ser como eram antes. Tudo mudou demais para isso. Para começar, estávamos ganhando um novo membro na família. Isso por si só era algo a celebrar.

Não havia muito que se pudesse fazer sobre a mudança. Você apenas tinha que aceitar e seguir em frente.

— Rudeus? — chamou Aisha, enquanto eu pensava em tudo aquilo.

— Hum? — Virei-me para encontrá-la soluçando, com um olhar devastado no rosto.

— Sinto muito mesmo.

— Ei, eu sei.

— Me desculpa… Fui tão idiota… Sinto muito.

Voltei para o lado de Aisha e afaguei seu cabelo enquanto ela chorava. Ela continuou a chorar, mesmo enquanto todos espiavam preocupados para dentro da casa.

Eu nunca tinha notado porque ela era tão talentosa, mas talvez minha irmã mais nova fosse na verdade muito mais criança do que minha outra irmã.

Foi assim que a fuga de Aisha e Arus chegou ao fim.


 

Tradução: Gabriella

Revisão: Pride

 

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