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A Eminência nas Sombras – Vol. 06 – Cap. 05 – Bem-vinda ao Jardim das Sombras!

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Akane Nishino desperta em um quarto completamente branco e olha ao redor.

— Que lugar é este…?

A boa notícia é que ela não está amarrada.

Quando ela sai da cama, o chão está frio contra seus pés descalços. Alguém a vestiu com algo que parece um fino roupão de hospital branco.

— Tudo parece tão familiar, mas não é.

O chão parece mármore, mas não é bem isso. O mesmo vale para o roupão. Embora seu design lhe dê uma sensação de déjà vu, ele é feito não de fibra sintética, mas de algo mais próximo da seda.

— Fui levada para o exterior? Nunca vi uma escrita como essa antes.

Akane olha para os pedaços de texto espalhados aqui e ali pelo quarto, mas eles não correspondem a nenhum idioma que ela já tenha ouvido falar.

Ela precisa descobrir o que está acontecendo, e rápido.

— Tenho que imaginar que isso é uma instalação de pesquisa de algum tipo. Isso provavelmente significa que fui sequestrada por algum grupo que quer usar meu poder para si… mas então, por que não me amarraram?

Se eles sabem o quão forte ela é, deveriam mantê-la amarrada, especialmente agora que ela recuperou suas memórias e o poder do Cavaleiro Original junto com elas.

Quem quer que sejam seus sequestradores, o plano deles parece, na melhor das hipóteses, mal feito.

— Parece que eles me subestimaram.

Akane caminha até a porta.

Ela pode sentir duas pessoas do lado de fora. Seus captores, pelo menos, têm o bom senso de colocar guardas do lado de fora de seu quarto. O poder recém-adquirido de Akane significa que ela poderia aniquilá-los de olhos fechados, mas não há garantia de que sejam realmente pessoas más. As chances são baixas, mas há uma chance de que este grupo a tenha resgatado por pura bondade.

— Hmm…

Enquanto está ali ponderando as coisas, ela sente as presenças se afastarem.

— Perfeito.

Akane toma uma decisão rápida. Ela soca a porta com toda a sua força, decidindo que pode lidar com as consequências mais tarde.

Um baque alto ecoa.

— A-aiii!

Akane cai de joelhos e segura a mão. A porta que ela acabou de socar parece não ter sofrido nenhum dano.

— M-mas como?! Eu coloquei magia naquele soco e tudo!

Parte de seu cabelo preto acabou de ficar dourado.

— Do que essa porta é feita?

Quando Akane levanta o olhar, ela nota algo.

Toda a escrita nas paredes e na porta está brilhando fracamente.

— Aquela luz… É… magia?

Agora que está prestando atenção, ela pode definitivamente sentir magia vindo dela.

— Eles seriamente conseguiram manter a magia utilizável depois que ela deixou o corpo humano? Mas Akira sempre disse que isso era impossível.

Pesquisadores de todo o mundo dedicaram inúmeras horas ao estudo das aplicações práticas da magia. A ideia de remover a mana de um corpo humano e usá-la como uma nova fonte de energia é óbvia, mas todos que já tentaram tiveram suas tentativas frustradas.

— Isso não pode ser real…

Se essas pessoas criaram uma maneira de conseguir isso, então o fato de não terem se preocupado em contê-la de repente faz muito mais sentido.

Com a tecnologia que este grupo possui, eles não precisavam.

— N-não vamos tirar conclusões precipitadas ainda, no entanto.

Talvez aquele soco fracassado tenha sido apenas um acidente bizarro.

Akane enche seu punho de magia novamente e se certifica de dar um golpe completo desta vez.

Então a porta se abre abruptamente.

— Oh, não.

Ela não consegue parar o punho a tempo. Ele voa direto em direção à garota de cabelos prateados do outro lado do batente.

Com um estalo nítido, sua mão para.

— Hã?

Akane pisca em choque.

Sem nem suar, a garota de cabelos prateados segurou o soco de força total de Akane com apenas uma mão. Akane não consegue acreditar no que vê.

— A porta não estava trancada. Teria aberto a qualquer momento se apenas pedisse.

Akane reconhece aquela garota falando em japonês quebrado.

— E-espere, você é a Natsume. O que está fazendo aqui?

Natsume é a irmã mais nova de Minoru. Ela deveria estar de volta no laboratório de Akira.

— Está tudo bem — diz Natsume.

Akane não tem certeza do que exatamente deveria estar bem, mas a garota de cabelos prateados declara que está.

— Uh…

— Você se senta agora.

Akane faz o que lhe foi instruído e se senta na cadeira do quarto. Agora que encontrou alguém que conhece, ela decide pelo menos ouvi-la.

— Eu não sabia que você podia falar, Natsume. Quem exatamente é você? Que lugar é este?

A garota de cabelos prateados inclina a cabeça e mergulha em pensamentos.

— Correto. Eu não sou Natsume. Beta, eu sou Beta.

Akane suspeita que não está conseguindo se fazer entender pela outra garota.

— Hum, então você está dizendo que seu nome não é realmente Natsume, é na verdade Beta?

— Eu estou cuidando de você. Não se preocupe.

— Entendo…

Akane se sente mais preocupada do que nunca.

— Eu sou Beta do Jardim das Sombras. Te trouxe de volta comigo.

— Deixe-me ver se entendi. Você é Beta, está com um grupo chamado Jardim das Sombras, e você me sequestrou.

— Está correto!

A criminosa admite seu crime com um grande sorriso no rosto.

— Suponho que você seja uma espiã que usou o nome falso “Natsume” para se infiltrar no Messiah, então.

— Não sou espiã, sou pesquisadora. Estava pesquisando formas de vida de outro mundo.

— Formas de vida de outro mundo?

Akane lança a Beta um olhar de total confusão.

— Formas de vida de outro mundo — diz Beta, apontando para Akane.

— Espere, você está dizendo que eu sou uma forma de vida de outro mundo?

— Está correto!

Akane não tem ideia do que Beta está falando.

— Eu vou te mostrar.

Com isso, Beta pega a mão de Akane e a conduz para longe.

— Q-que lugar é este?

Akane fica boquiaberta enquanto Beta a guia pela instalação.

Há um estranho desequilíbrio entre sua magitecnologia, que está a léguas de distância de qualquer coisa que o Japão tenha, e sua tecnologia científica, que é totalmente arcaica.

Depois, há a questão das mulheres ali. Todas elas estão falando em uma língua que Akane nunca ouviu antes, e a grande maioria delas tem orelhas surpreendentemente distintas. Segundo Beta, esses não são efeitos colaterais do despertar, mas sim traços inerentes de raças chamadas elfos e teriantropos.

O que mais surpreende Akane, no entanto, é o quão extravagantemente poderosas todas ali são. Enquanto Beta lhe dá o grande tour, Akane estremece com a força de todas elas.

Beta cruza os braços com orgulho.

— Você quer tentar?

Para grande choque de Akane, Beta parece ocupar uma posição de algum prestígio na instalação. Todos que encontram a tratam com cortesia e respeito.

— Você quer dizer, se eu quero tentar lutar com alguém?

Akane está apenas pedindo um esclarecimento, mas Beta interpreta isso como uma afirmação. Definitivamente, há algumas coisas se perdendo na tradução.

— Traga o mais fracote que tiver! — Beta grita com um grande sorriso.

Essa parece ser uma frase que ela aprendeu no Japão e que estava guardando para uma ocasião especial. O problema é que ninguém a entende. Afinal, ela está falando em japonês.

— Ela diz que quer desesperadamente lutar com alguém, então vamos colocá-la contra a pessoa mais fraca que temos. Não queremos que ela se machuque — diz Beta, soando um pouco envergonhada. No entanto, ela está falando uma língua de outro mundo, então Akane não tem ideia do que está dizendo.

Pouco tempo depois, uma elfa das trevas de um olho só aparece com uma jovem a reboque.

A garota tem cerca de treze anos. Ela é fofa, com cabelos brancos como a neve recém-caída. Há algo quase cativante em como ela está tentando fazer seus olhos grandes e adoráveis parecerem intimidadores.

— Você será a oponente dela, Número 711. Confio que você entende o que acontecerá se ousar desonrar o nome do Jardim das Sombras.

Quando a elfa das trevas fala com a garota, o rosto já nervoso da garota se enrijece ainda mais. Ela encara Akane.

— Hum, prazer em te conhecer.

Não lutar não parece ser uma opção, então Akane oferece à garota um aperto de mão como sinal de espírito esportivo.

— Não vou perder para gente como você. Não posso me dar ao luxo de falhar, não agora.

O olhar da garota se intensifica, e ela afasta a mão de Akane com um tapa.

— Oh, desculpe.

Aparentemente, apertar as mãos é uma gafe neste mundo. Akane guarda essa informação na cabeça.

As duas pegam uma espada de treino cada uma e se dirigem ao centro da área de treinamento.

Beta e Lambda se posicionam ao lado da área de treinamento e esperam o início da partida.

— Posso perguntar quem você acha que vai ganhar? — pergunta a elfa de pele escura, Lambda. Ela é a responsável pelo treinamento dos novos recrutas do Jardim das Sombras.

Beta estreita seus olhos azuis e oferece a Lambda uma risada ambígua.

— Receio não saber o suficiente sobre a Número 711 para dizer.

— Ela está aqui há meio mês. Ainda é nossa membra mais fraca, mas em termos de talento bruto, pode muito bem ser a melhor que temos.

— Isso é um elogio raro, vindo de você.

— A garota é um prodígio. Dito isso, ela tem um lado rebelde…

— Ela ainda é uma criança. Depois que você a treinar, tenho certeza de que isso não será um problema.

— Claro, senhora.

— Quem você acha que vai ganhar, Lambda?

— Meu conhecimento sobre a garota de cabelo preto é igualmente limitado, mas… há algo diferente em sua magia. Suponho que seja ela quem você trouxe de volta?

— Isso mesmo. O nome dela é Akane Nishino… embora eu tenha certeza de que Mestre Shadow a chamou de Akane Nishimura.

— Então, certamente, ela deve ser Akane Nishimura. Se nosso lorde diz, deve ser verdade.

— Você tem razão. O nome dela deve ser Akane Nishimura.

— Bem, a magia de Akane Nishimura é fascinante… mas acredito que a Número 711 será a vitoriosa.

Beta concorda imediatamente.

— Eu concordo.

No meio, Akane e a Número 711 estão se enfrentando com suas espadas prontas. No momento em que Lambda der o sinal, a batalha começará.

De repente, a porta da área de treinamento se abre para revelar uma pequena elfa vestindo um jaleco esfarrapado. Ela esfrega os olhos sonolentos enquanto se aproxima de Beta e Lambda.

— O que você quer, Eta? — pergunta Beta com uma ponta de cautela na voz.

A pequena elfa é Eta, a sétima membra das Sete Sombras. Seu trabalho principal é pesquisar a Sabedoria das Sombras.

— Eu vim… verificar a cobaia — diz Eta, sonolenta. Ela está com um terrível cabelo de quem acabou de acordar; seus longos cabelos escuros estão espetados em todas as direções.

— Você quer dizer Akane Nishimura? Você conseguiu a permissão de Alpha?

Eta desvia o olhar.

— …Claro.

— Vou confirmar isso com a Alpha assim que terminarmos aqui. Não quero que você toque um dedo nela até eu o fazer.

— Você não precisa fazer isso. Estaria apenas perdendo seu tempo.

— Nem um dedo, ouviu? — diz Beta, repetindo-se para enfatizar.

— Hmph. — Eta faz beicinho. — Precisamos pesquisar sua magia irregular o mais rápido possível.

— Posso começar a luta? — pergunta Lambda a elas. Beta e Eta assentem. — Então podem começar!

Ao sinal de Lambda, Akane e a Número 711 balançam suas espadas.

— Uau… Ela é boa.

Akane estremece ao bloquear o golpe inicial da Número 711. É um golpe muito mais duro e pontiagudo do que Akane jamais imaginaria, dada a constituição de sua oponente, e envia formigamentos por seu braço.

— Não vou perder. Cansei de perder!

Em vez de recuar, a Número 711 injeta mais magia e usa a força bruta para lançar Akane pelos ares.

— Ack!

Akane passou muito tempo no topo da hierarquia japonesa, então esta é uma nova experiência para ela. Em nenhum momento ela jamais se imaginou perdendo em uma disputa de pura magia.

Ela consegue aterrissar de pé por pouco e prepara sua espada novamente.

Ela estava subestimando completamente sua oponente. Quem diria que alguém tão jovem pudesse abrigar tanta força?

Desse jeito, ela realmente vai perder.

— Isso é mau…

O cabelo preto de Akane lentamente começa a ficar dourado.

Esta não é uma luta que ela precise vencer. Na verdade, pode nem ser uma luta que precisasse ter. No entanto, Akane sente que precisa demonstrar sua força aqui.

Ela precisa provar seu valor.

Akane suspeita que esta garotinha seja uma das pessoas mais fortes da organização. Ela provavelmente não é a mais forte, no entanto. As três pessoas observando a luta perto da parede parecem ter um posto mais alto que ela, e provavelmente têm outros pesos-pesados também. Isso significa que será incrivelmente difícil para Akane sair daqui apenas com a força.

Além disso, ela precisa ficar com eles para poder encontrar uma maneira de voltar para o Japão. Isso significa que sua melhor opção é usar esta oportunidade para provar seu valor e aumentar sua posição no grupo. Ela encontrará uma chance de escapar mais cedo ou mais tarde.

Tendo tomado sua decisão, Akane libera sua magia.

Seu cabelo preto assume um belo tom de dourado.

— Desculpe, mas vou com tudo.

Akane segura sua espada pronta enquanto se aproxima pacientemente de sua inimiga.

— Hmph.

A Número 711 está em guarda e observa a situação com uma expressão sombria.

O espaço entre elas continua a diminuir.

No momento em que Akane entra no alcance, ela faz seu movimento, atacando com sua magia dourada a uma velocidade aterrorizante.

— Quê…?

Os olhos da Número 711 se arregalam com a intensidade do ataque. Por puro reflexo, ela levanta sua espada para bloquear. Sua espada range quando ela o faz, e seu braço fica dormente.

Percebendo que vai perder a troca de golpes, a Número 711 salta para trás para amortecer o golpe. No entanto, ela não consegue desviar a força inteiramente.

— Rgh…

Seu rosto se contorce enquanto a dor percorre seu braço direito. Isso deve ter doído muito.

Mas então a Número 711 rapidamente anula sua expressão e retoma sua postura. Seu olhar quieto está fixo em Akane.

Nesse ponto, ela finalmente recuperou a compostura. A pressão que Lambda e Beta estão exercendo sobre ela está longe de sua mente, e ela está dando a Akane sua total e indivisa atenção.

— Ufa…

Ela solta um pequeno suspiro para estabilizar sua magia, e sua aura se torna tão clara quanto água corrente. Ela estuda a lâmina há algum tempo, mas só aprendeu a usar magia há algumas semanas.

Isto aqui – esta é a verdadeira força da Número 711. É por isso que Lambda a chama de prodígio.

— Não vou perder — diz a Número 711, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa.

— Quem é ela? — pergunta Akane, tremendo.

Esta garotinha se porta como uma mestra experiente.

Aquele deveria ter sido o momento perfeito para Akane lançar um ataque de acompanhamento. A Número 711 se machucou na troca inicial, e Akane sabia disso. Se tivesse a perseguido imediatamente, isso poderia muito bem ter terminado a luta ali mesmo.

E, no entanto, Akane não conseguiu.

Os olhos da Número 711 parecem ver através de tudo. Pessoas com olhos assim são perigosas.

— Também não posso me dar ao luxo de perder.

Akane não consegue entender as palavras da Número 711, mas pode dizer que ela está carregando algum tipo de fardo em sua luta. No entanto, Akane está no mesmo barco. Ela está determinada a vê-lo novamente.

— Hrahhhhhhhhhh!

— Hyah!

Seus gritos de batalha se sobrepõem enquanto suas espadas se encontram.

Uma vez que elas se chocam, depois duas, depois três…

No início, a espada de Akane pressiona a espada da Número 711 para trás. Nesse ritmo, a batalha será decidida por quem tiver mais mana.

Elas se chocam pela sexta vez, depois pela sétima, depois pela oitava…

Com o desenrolar da luta, no entanto, os golpes da Número 711 se tornam mais nítidos. Não, não é bem isso – ela está habilmente desviando a magia de Akane.

A lâmina da Número 711 começa a roçar o corpo de Akane com mais e mais frequência.

— Kageno, me dê forças!

Quando o número de confrontos ultrapassa vinte, Akane avança perigosamente.

Ela sabe que, se as coisas continuarem assim, vai perder.

— Hah!

No entanto, é precisamente isso que a Número 711 está esperando.

Ela esteve atraindo Akane o tempo todo. Atraindo-a para dar aquele passo extra.

A questão é que a Número 711 é quem vai perder nesse ritmo.

A Número 711 escolhe o momento perfeito para balançar sua espada.

Assim que o faz, um estalo vem de seu braço direito. Seus ossos escolheram aquele segundo preciso para se quebrar.

— Ah…

A espada da Número 711 desacelera por uma margem mínima.

Seu golpe coincide com o de Akane.

— Kageno…

— Pai…

Com isso, a luta está decidida.

— Não posso acreditar que tivemos um nocaute duplo…

— Parece que estávamos ambas erradas.

Beta e Lambda olham para as duas lutadoras caídas no centro da área de treinamento.

— É como você disse — acrescenta Beta. — A Número 711 é um prodígio. Tenho que tirar pontos dela pela impaciência no início da luta, no entanto.

— Como sua professora, a falha é minha. Vou me certificar de treinar isso para fora dela.

— Em termos de força bruta, a Número 711 era a mais forte das duas. A magia de Akane Nishimura deve ser realmente incomum para permitir que ela leve a luta a um empate como esse. Não é apenas que ela tem muita. É quase como se fosse uma variante ou algo assim.

— Você acha que é porque vem de outro mundo? Ou há algo especial nela em particular?

— Não sei. De qualquer forma, tenho uma montanha de perguntas para ela assim que se instalar, e precisaremos investigar… Ei!

Beta para no meio da frase para agarrar Eta pelo colarinho.

— Magia irregular… Altamente intrigante.

Isso porque Eta está tentando se arrastar até Akane como uma baratinha.

— Droga, Eta! Você não pode chegar perto dela até ter a permissão de Alpha!

— Mas se eu tiver que esperar tanto, ela pode morrer.

— Eu te garanto, ela não vai!

— Tempo é dinheiro. Tenho a obrigação de evitar custos de oportunidade causados por decisões estúpidas.

— Não me importa o que você diga, não vou te dar permissão.

— Hmph… Acho que vou fazer de você minha próxima cobaia.

— Ack! Se você fizer isso, com certeza vou te denunciar para Alpha!

— Hmm… Meu orçamento seria cortado… Mas se eu ceder às ameaças, minha pesquisa sobre a Sabedoria das Sombras vai parar… — Eta murmura para si mesma enquanto mergulha em pensamentos.

Beta se vira para Lambda.

— Enquanto temos um momento, você poderia levar as duas para a enfermaria? Quando elas acordarem, explicarei meus planos para elas.

— E como devo proceder a partir de agora?

— Deixo Akane Nishimura em suas mãos até que ela se instale. Assim que o fizer, pretendo que ela se torne útil.

— Como desejar, senhora.

Lambda dá uma ordem a suas subordinadas, e Akane e a Número 711 são levadas para a enfermaria.

— Unh… Onde estou?

Quando Akane desperta, ela se encontra deitada em uma cama branca e fofa. Parece que está em algum tipo de enfermaria.

— Eu… perdi? Não, senti minha espada acertar…

Nos momentos finais de sua luta, a oponente de Akane leu seu ataque surpresa como um livro. Por todos os direitos, Akane deveria ter perdido. No entanto, algo amorteceu o golpe que se aproximava, e os dois ataques acertaram quase exatamente ao mesmo tempo. Essa é a última coisa que Akane se lembra.

Ela se senta e olha ao redor do quarto. Quando o faz, avista a garota de cabelos brancos dormindo na cama ao lado da sua.

— Acho que nós duas nocauteamos uma à outra.

Ao ver que a garota não está visivelmente ferida, Akane respira aliviada.

Ela parece tão adorável, dormindo daquele jeito. Tão inocente.

No entanto, as habilidades daquela pequena garota estão muito além das de Akane. Agora que lutou com ela, Akane sabe dolorosamente bem que, se lutarem novamente, certamente perderá.

A garota de cabelos brancos franze o rosto.

— Pai… Mãe… — Ela murmura.

— Você está bem? Está tendo um pesadelo?

Akane vai até ela e afaga sua cabeça.

— Hn, hnn…

— Pronto, pronto. Está tudo bem.

A garota é tão jovem, mas não tem outra escolha a não ser lutar. Talvez este outro mundo seja um ambiente tão brutal quanto o Japão se tornou.

Enquanto Akane acaricia suavemente sua cabeça, a expressão da garota gradualmente se suaviza. Então ela abre lentamente os olhos e olha para Akane.

— Ei, você acordou. Você está bem?

— Mãe…?

Ainda meio adormecida, a garota de cabelos brancos dá a Akane um sorriso caloroso.

— Ei, mãe… Onde está o papai…?

Com um sorriso angelical, ela estende a mão para Akane antes de recobrar os sentidos.

— V-VOCÊ?!

Ela se levanta de um pulo e se afasta de Akane.

— C-calma!

— F-fique longe! Não posso acreditar!

— Você não deveria pular assim. É perigoso.

— Não posso acreditar que perdi… para alguém como você? Eu… eu perdi?

A garota olha ao redor enquanto a situação se torna clara para ela.

— Eu prometo que vai ficar tudo bem.

— Eu perdi… Mas não posso me dar ao luxo de perder…

Lágrimas começam a brotar em seus olhos.

— O que há de errado? Aconteceu algo triste com você?

Quando Akane lhe oferece a mão, a garota a afasta com um tapa.

Aparentemente, tudo relacionado a mãos é uma gafe neste mundo. Akane guarda essa informação na cabeça.

— N-não me toque… Snff… Eu prometi que não choraria mais…

A garota de cabelos brancos enxuga as lágrimas que escorrem por suas bochechas e pula da cama.

Snff… Snff

Ela então sai correndo, engolindo soluços o tempo todo.

— Ela vai ficar bem? — Akane se pergunta, olhando com preocupação.

Sem conseguir falar a língua da garota, no entanto, não há muito que Akane possa fazer por ela.

— Você está acordada agora.

Então, a elfa de cabelos prateados, Beta, entra.

— Hum, a outra garota acabou de sair correndo chorando… — diz Akane.

— Está tudo bem.

Akane não entende bem o que deveria estar bem, mas Beta a assegura que está. Akane rapidamente percebe que seguir essa linha de conversa provavelmente será infrutífero.

— Então, o que vai acontecer comigo? — Ela pergunta em vez disso. — Qual é o objetivo do seu grupo? Vou poder voltar para o Japão?

— Eu entendo. Eu entendo muito bem.

Beta aperta as mãos de Akane e lhe oferece o sorriso mais suspeito imaginável.

— Bem, isso é bom.

— Eu, do seu lado. Um dia, te levo de volta ao Japão.

— Posso ir para casa, então?

— Você provavelmente pode ir para casa. Mas se não nos ajudar, não vai para casa.

— Espere, você está me ameaçando?

— Não, não é isso. É um problema técnico incrivelmente difícil.

— Ah, entendi.

— Então, por favor, nos ajude.

— Bem, se estiver ao meu alcance, claro.

Akane não confia nessas pessoas nem um pouco, mas percebe que reclamar não a levará a lugar nenhum. Do jeito que as coisas estão, aprender mais sobre esta organização é seu único caminho para voltar ao Japão, e isso será mais fácil de fazer se eles a considerarem cooperativa em vez de desafiadora.

— Muito obrigado. Akane é uma boa pessoa. Eu estou do seu lado.

— Uh, obrigada.

— Por enquanto, você se torna um membro deste grupo. O grupo se chama Jardim das Sombras.

— Você está dizendo que vou me tornar um membro do Jardim das Sombras. Que tipo de grupo é?

— Nós nos esgueiramos na escuridão e caçamos as sombras.

— Bem, isso soa legal.

A descrição não diz a Akane nada sobre o que o grupo realmente faz, mas certamente soa fantástico.

Pensando bem, é exatamente o tipo de coisa legal que ele costumava amar. Um sorriso nostálgico se espalha por seu rosto.

— Agora, você se torna um número. É o Número 712 agora. Não mais Akane Nishimura.

— Ok, então vou começar a usar um número… Espere, hã? Akane Nishimura?

Ouvir esse nome interrompe completamente a linha de pensamento de Akane.

— Você é Akane Nishimura. Está errado?

— Akane Nishimura… Por que você me chamou assim?

Há apenas uma pessoa que já se referiu a Akane dessa maneira.

— Akane Nishimura está errado?

— Não, não, está certo. Eu só estava curiosa para saber por que você sabia meu nome, só isso.

— Ah, faz sentido. Eu perguntei a alguém.

— Oh, e eles te disseram?

Se for apenas uma coincidência, então tudo bem. Mas se não for…

Akane sente seu coração acelerar.

Ela precisa se acalmar. Não pode deixar que eles saibam que ela sabe.

— Está certo. E daí? — diz Beta.

— Oh, só estou surpresa que haja alguém aqui que me conheça. É alguém do Japão? — pergunta Akane, tomando muito cuidado para não despertar suspeitas, fazendo parecer que está apenas jogando conversa fora.

— Hee-hee, isso é segredo. Mas todos naquela base sabiam o nome de Akane. Não deveria ser surpreendente.

Beta está certa. Todos no Messiah sabiam o nome de Akane Nishino.

Mas apenas uma pessoa a chamava de Akane Nishimura.

Se ele está aqui, então ela precisa mudar drasticamente suas prioridades.

— Oh, claro — diz ela. — Isso faz todo o sentido.

Akane coça a bochecha, envergonhada, e Beta sorri antes de encará-la.

— De agora em diante, você é a Número 712. Viverá com o Jardim das Sombras.

— Número 712. Entendido.

— Vou te mostrar onde você fica, Número 712. Siga-me.

Com isso, Beta pega Akane pela mão e a conduz para fora da enfermaria.

O corredor do lado de fora é de pedra, com uma bela alvenaria, um teto alto e arqueado, e uma iluminação indireta suave. É exatamente o tipo de corredor que se esperaria ver em um mundo fantástico e estrangeiro, reflete Akane, mas, se for o caso, então o que era aquele quarto em que ela acordou pela primeira vez? Por alguma razão, lembrava-lhe o Japão moderno, como se a tecnologia japonesa tivesse sido recriada ali no mundo da fantasia.

— Algo chamou sua atenção, Número 712? — pergunta Beta enquanto caminha na frente.

— Não, estava pensando em como tudo é diferente aqui. Acho que é mesmo outro mundo.

— Bem, isso é bom. Aquele último quarto era a enfermaria. Caso se machuque, te levaremos lá. Este aqui é o banheiro.

— Você quer dizer banheiro?

— É o banheiro.

— Ok, claro, o banheiro.

Beta parece estranhamente encantada com a expressão.

Quando Akane espia lá dentro, encontra um quarto privativo com grandes azulejos no chão. Tem um espelho grande, uma pia e, surpreendentemente, um vaso sanitário com descarga.

— Vocês têm vasos sanitários com descarga aqui? — pergunta Akane.

— É a tecnologia mais recente — diz Beta com orgulho.

As suspeitas de Akane se aprofundam. Aquele vaso sanitário não pareceria nem um pouco deslocado em qualquer banheiro no Japão.

— Quem o construiu?

— Quem o construiu foi a Eta.

— Eta?

— A elfa de jaleco branco e baixa. Estava assistindo à luta comigo.

— Ah, ela.

Akane se lembra de ter visto uma elfa usando um jaleco de laboratório entrar logo antes do início da luta.

— Mas o conhecimento original não veio de Eta. É de outra pessoa.

— Quem?

Beta lhe dá um sorriso significativo.

— É segredo.

Aí está aquele “alguém” de novo.

Aquele alguém claramente trouxe a tecnologia japonesa para este mundo. No entanto, Akane ainda não pode ter certeza de que é a pessoa em quem está pensando.

— Este aqui é o refeitório.

Em seguida, Beta a leva a um átrio amplo e aberto. A hora da refeição acabou, e o espaço está deserto, mas é grande o suficiente para acomodar confortavelmente algumas centenas de pessoas de uma vez.

— Uau…

Akane se vê maravilhada com o enorme espaço e as decorações em suas paredes e teto.

— Está com fome?

— Um pouco, sim…

— Vou buscar algo.

Beta mostra a Akane um assento e depois vai buscar comida.

A mesa em que Akane está sentada e suas cadeiras são todas de altíssima qualidade. A mesa é uma única placa brilhante com mais de nove metros de comprimento, e as cadeiras são primorosamente gravadas e agradáveis de se sentar.

Espere, este design não é o mesmo daquele famoso designer de interiores…?

— As semelhanças são impressionantes.

As renomadas cadeiras com as quais Akane está familiarizada não têm essa gravação, mas a forma é uma combinação perfeita.

Armada com este novo conhecimento, ela lança um olhar cético para o resto do design da sala. Poderia haver algo na iluminação? Nos pratos? Para onde quer que olhe, ela procura por sua sombra.

— Tenho que parar.

Ela está absorvendo apenas as informações que se encaixam em sua hipótese. Ela se força a se acalmar. Há um número limitado de maneiras de construir móveis para seres com formato de pessoa, e há uma boa chance de que as semelhanças sejam apenas coincidência.

— O que você está olhando?

— Oh, é tudo tão novo, não pude evitar.

Quando Akane olha para trás, descobre que Beta voltou e está sentada na cadeira em frente a ela. Uma elfa e uma teriantropa que parecem ser suas subordinadas colocam comida na frente delas.

— Q-que está acontecendo? — gagueja Akane.

— Qual é o problema?

Tudo na refeição que acabou de receber é inconfundivelmente comida japonesa.

— Por que vocês têm comida japonesa aqui?

— Eu comia a mesma comida no Japão.

— O-oh, claro.

É verdade. Beta viveu no Japão sob o nome de Natsume por um tempo. Faz todo o sentido que ela tentasse recriar a culinária que encontrou lá. Mas, ao mesmo tempo…

— Tem missô… E até molho de soja…

Ela está insinuando que conseguiu reproduzir os temperos do Japão tão rapidamente? Akane supõe que há uma chance de Beta simplesmente os ter trazido do Japão com ela.

— Isso está saboroso.

A sopa de missô tem gosto de um dashi bonito e sofisticado.

— Fico feliz que você goste.

Beta maneja habilmente seus hashis enquanto come. Akane rapidamente limpa seu prato também para não levantar suspeitas.

— A refeição estava saborosa.

Enquanto terminam de comer e saboreiam um café pós-refeição, uma garota de aparência familiar aparece atrás de Beta.

— Eu consegui a permissão de Alpha.

Pelo que Akane se lembra, o nome da garota é Eta. Ela tem olhos sonolentos e um jaleco branco, e se aproxima de Beta e começa a falar na língua deste mundo.

— Conseguiu meeeesmo?

Beta lança a Eta um olhar duvidoso, e Eta lhe entrega um documento.

— Bem, esta é certamente uma carta de permissão de Alpha. Diz que você terá total autoridade sobre assuntos relacionados a Akane Nishimura.

As orelhas de Akane se aguçam quando ela ouve o nome Akane Nishimura.

— E aí está.

Eta mergulha sob a mesa e rapidamente se move para recuperar Akane.

— Espere aí! É certamente o que a carta diz, mas há duas coisas que acho suspeitas nela.

Beta agarra Eta pelo colarinho, e o olhar de Eta se desvia.

— C-como o quê?

— Mesmo que a Alpha tenha aprovado algo assim, não há como ela te dar autoridade unilateral. Tenho certeza absoluta de que ela designaria alguém para te supervisionar.

— Uh… Isso só mostra quanta confiança construí com ela através de minhas ações e feitos.

— E tem outra coisa. A caligrafia não tem fluidez. É quase como se alguém tivesse escrito isso copiando meticulosamente algo que a Alpha realmente escreveu.

— E-eu não tenho ideia do que você está falando…

Eta começa a suar frio.

— Eta, nós duas sabemos que você forjou isso.

Beta encara Eta, e Eta lhe dá um sorriso nervoso.

— Espero que esteja pronta para enfrentar as consequências. Vou direto para a Alpha, e…

— Oh, esqueça — diz Eta, cortando Beta friamente. — É hora de eu usar a força.

A próxima coisa que Akane sabe é que seu campo de visão faz um giro de cento e oitenta graus.

— Quê…? AHHHHHHHHHHHH?!

Há um lodo preto a prendendo e a pendurando de cabeça para baixo no ar. Ela luta com todas as suas forças, mas o lodo é resistente e não se move nem um pouco.

Akane tenta invocar sua magia, mas sente como se estivesse sendo sugada.

— O que você pensa que está fazendo, Eta?!

Beta e suas subordinadas estão presas da mesma maneira.

— Recorrendo à força. Tentar argumentar com leigos é perda de tempo — diz Eta sem rodeios enquanto começa a levar o corpo invertido de Akane.

— Volte aqui neste instante!!

Beta arranca o lodo, então manifesta uma espada preta como azeviche e avança em direção a Eta.

— Hmph.

Eta estreita um pouco os olhos e manipula seu lodo na forma de um escudo maciço.

A espada de Beta e o escudo de Eta se chocam.

Um estalo baixo e surdo reverbera.

— Q-qual é a desse escudo?! — grita Beta.

A espada de Beta não conseguiu infligir nem um arranhão. Pelo contrário, o escudo está sugando a espada.

Beta arranca sua lâmina apressadamente e recua.

— É minha nova tecnologia. Reage à magia absorvendo-a — diz Eta.

— Por que esta é a primeira vez que ouço sobre isso?! Você deveria relatar todas as invenções úteis imediatamente!

Quando uma espada e um escudo são ambos fortalecidos com magia, a espada vence. É uma questão básica de área. Para uma espada, tudo o que você precisa fortalecer é o fio, enquanto com um escudo você tem que fortalecer toda a sua superfície. Fortalecer um escudo leva mais do que o dobro de mana do que fortalecer uma espada no mesmo grau. É por isso que existem tão poucos cavaleiros das trevas que sequer carregam escudos.

— Uh… Ainda não passei pelos testes de segurança, então pensei em escrever meu relatório depois.

— Você nunca planejou fazer esses testes, não é?!

Durante toda a conversa, Beta continua a desferir golpes surpreendentemente elegantes em Eta. Akane fica impressionada. Ela mal consegue acompanhar os movimentos de Beta.

— E-ela é incrível…

Agora Akane entende por que as pessoas nesta organização têm tanto respeito por alguém tão suspeito como Beta. Até os movimentos da Número 711 parecem totalmente infantis em comparação com os dela.

— Pare de atrapalhar meu caminho.

Sua oponente, Eta, possui um talento inimaginável também. Ela manipula seu lodo livremente, formando-o em escudos, espadas e lanças para interceptar os golpes de Beta. Seus movimentos não são exatamente os de uma artista marcial, mas são os de alguém que aprimorou sua técnica de uma maneira totalmente diferente. Seu controle fino sobre a magia e sua capacidade de manter múltiplos pensamentos em paralelo são de outro nível.

As duas combatentes parecem estar quase no mesmo nível… mas é difícil dizer, considerando que nenhuma delas está usando sua força total ainda. Elas estão no fio da navalha, tomando cuidado para não se machucarem.

Além disso, o instinto de Akane lhe diz que ambas têm cartas na manga que estão mantendo escondidas.

— Já chega!

— Hrgh…

O ataque de Beta manda Eta voando.

Enquanto Eta manobra seu escudo para se proteger, ela habilmente manipula seu lodo no ar para se segurar. No entanto, ela faz uma careta. As subordinadas de Beta acabaram de se mover com armas em punho para cercá-la.

— Sério, agora? — diz Eta.

— É hora de você encarar as consequências — anuncia Beta triunfante.

— Perdoe-nos por nossa impertinência, Eta, senhora, mas vamos detê-la agora.

Nu, Lambda, Chi, Omega e várias das Números estão todas reunidas ali.

Isso é suficiente para escurecer até mesmo a expressão de Eta.

— Hmph.

Beta se aproxima dela e a pressiona.

— Se você largar suas armas, se render e nos oferecer um pedido de desculpas sincero, estou preparada para aliviar sua punição.

— Ouvi uma grande comoção. O que está acontecendo aqui?

Então uma bela garota com cabelos da cor de um lago tranquilo aparece.

É Epsilon, a Fiel, quinta membra das Sete Sombras.

— Duas das Sete Sombras e um monte de reforços extras — murmura Eta. — Isso pode ser ruim.

Várias pessoas franzem a testa por terem sido chamadas de “reforços extras”, e é difícil culpá-las. Todas ali, sem exceção, são potências absolutas. Todas assumiram posturas de combate com suas armas prontas e sua mana preparada, então é fácil dizer o quão fortes são. Para grande choque de Akane, cada uma delas é muito mais forte do que ela. São pessoas com orgulho em suas habilidades e confiança em seu treinamento. Não é de se espantar que se ofendam por serem reduzidos a um mero pensamento posterior.

Apesar de seu descontentamento, porém, nenhuma delas protesta. Todas sabem que, no final das contas, é verdade.

— Ótimo momento, Epsilon. Venha nos ajudar a colocar essa idiota em seu lugar.

— Tudo bem. Mas você me deve uma, Beta.

As duas chegam rapidamente a um entendimento. Epsilon está bem ciente de que, seja o que for que esteja acontecendo, é quase certamente culpa de Eta.

Beta e Epsilon encurralam Eta pelos lados, e o reforço extra cobre seus flancos.

— Tudo bem, tudo bem. Eu entendi. — Eta levanta as mãos em sinal de derrota.

— Você está se rendendo? — pergunta Beta. Ninguém ali é estúpida o suficiente para baixar a guarda. Eta ainda não largou suas armas, e elas a conhecem bem demais para acreditar que ela realmente desistiria tão facilmente.

As próximas palavras de Eta são quase impensáveis, vindas de alguém que está completamente cercada e com as mãos para o alto.

— A todos os distintos que tentam me perseguir, dou um aviso. Recuem agora, ou se arrependerão.

— Você realmente acha que vou me render? — pergunta Epsilon a Eta, aproximando-se dela com extrema cautela.

— Sim. Ninguém vai recuar?

Eta olha ao redor para verificar. Todas estão em alerta máximo, mas nenhuma delas está desistindo.

— Entendo. Parece que as negociações falharam — diz Eta.

— As negociações falharam, com certeza — concorda Beta. — Todas as forças, capturem Eta por quaisquer meios necessários!

Todas entram em ação de uma vez.

Um momento depois, tudo derrete.

— O quê…?

A magia das garotas enlouquece, e suas roupas e armas começam a se dissolver.

— Mas que diabos está acontecendooooooo?!

Beta mal consegue manter seu equipamento intacto, mas os reforços extras ficam seminus e em condições precárias para continuar lutando.

— Este é o Campo que Perturba a Magia (Exceto a Minha) que eu fiz usando as ondas de interferência da Sabedoria das Sombras — explica Eta.

— Este é exatamente o tipo de coisa que você deveria relatar assim que inventa!! — berra Beta.

— As condições de configuração são rigorosas, então só pode ser usado em circunstâncias limitadas…

— Oh, esqueça!! Cabe a nós duas lidar com ela, Epsilon! — Beta grita para sua companheira de confiança.

No entanto, Epsilon não está em lugar nenhum. Tudo o que resta dela é uma nota rabiscada às pressas sobre a mesa.

“Lembrei que tenho uma missão importante, então preciso sair. — Epsilon”

— E-EPSILOOOOOOOOOOON!! — uiva Beta.

— Você está desprotegida.

A explosão de Beta a deixa vulnerável, e quando Eta aproveita essa oportunidade para atacar, Beta desmaia e cai abruptamente.

Com isso, Eta leva Akane embora.

— Hnng… Onde estou?

Quando Akane abre os olhos, encontra-se em um porão sombrio. Há uma massa de lodo preto prendendo-a a uma cama, e ela está cercada por ferramentas para conduzir experimentos e outros lixos não identificáveis.

Akane solta um pequeno suspiro. Parece que ela tem sido sequestrada com frequência ultimamente.

Ela se contorce para tentar se libertar, mas suas amarras se mantêm firmes. É incrível como essa coisa de lodo preto é resistente.

— Tem alguém aí? — Ela pergunta.

Ela não consegue ver muito entre a iluminação fraca e as montanhas de quinquilharias, mas pode sentir a presença de alguém se movendo.

— …Hmm?

A presença se vira para ela, e um rosto surge da montanha de lixo. É Eta, a garota de jaleco.

— Seu nome é Eta, certo? O que planeja fazer comigo?

— Você está acordada. Sua tolerância é surpreendentemente impressionante. Talvez eu devesse ter usado um sedativo mais forte — diz Eta na língua daquele outro mundo.

Akane não consegue entender uma palavra do que ela está dizendo, mas um olhar nos olhos de Eta envia um arrepio por sua espinha. Aqueles não são os olhos de alguém olhando para um ser senciente. São os olhos frios e desumanos de alguém olhando para uma cobaia. Não, de alguém olhando para meros dados.

Aquela garota não percebe Akane como humana.

Eta caminha até a cama e olha para Akane. Seu olhar é tão sem emoção como sempre.

— Respiração estável, frequência cardíaca ligeiramente elevada, em um estado de tensão menor — diz ela enquanto cutuca e sonda Akane para verificar seus sinais vitais. — Tudo funcionando normalmente. Nenhuma alteração no plano necessária.

Seu tom é desapegado, como se tudo o que estivesse fazendo fosse rotineiro.

— O que você está dizendo? O que vai acontecer comigo?

Apesar das tentativas de Akane de falar com ela, tudo o que Eta faz é roboticamente devolver seu olhar.

— A presença ou ausência de consciência não tem impacto no plano. No entanto, suas cordas vocais podem se provar um impedimento. São uma distração. Devo considerar removê-las cirurgicamente? Não, talvez eu deva apenas aplicar sedativo… Mas vou dissecá-la de qualquer maneira, então suponho que faria sentido remover as cordas vocais para um estudo mais aprofundado. Não, a confirmação da capacidade de manter uma conversa de outro mundo precisa vir primeiro.

Ela parece estar apenas falando consigo mesma para organizar seus pensamentos. Parece que está falando com Akane, mas Eta não está lhe dando a menor atenção.

— De novo, o que você está dizendo?

Quando Akane faz a pergunta, Eta a olha apropriadamente pela primeira vez.

— A, A, A, B C D E F G — diz ela calmamente. — Minha pronúncia está boa?

— V-você pode falar?

— Todas as línguas faladas por seres inteligentes seguem certas regras. Ele mesmo disse, e vejam só, é verdade.

Akane fica maravilhada com a fluência do japonês de Eta. Sua pronúncia e domínio da língua são muito melhores que os de Beta.

— O que você está tentando alcançar? O que você planeja fazer comigo?

— Experimentos. Para satisfazer minha curiosidade intelectual.

— Q-que tipo de experimentos?

— Primeiro, conversa. Aprenderei os padrões de seus pensamentos e a lógica por trás de como você se comunica. Então, farei testes em seu corpo, em sua magia, e extrairei conhecimento de seu cérebro.

— O que exatamente você quer dizer com “extrair”?

— Informações do seu mundo são valiosas. Mas se eu tentar extraí-las através de conversas, haverá mentiras e bobagens misturadas. É uma perda de tempo. Mas se eu usar isso, é apenas um bip, bip, bip de distância.

Eta aponta para um pedaço gigantesco de lixo. É um dispositivo que se assemelha a um caixão todo enrolado em canos e cabos. De vez em quando, ele treme e solta uma grande lufada de vapor. É óbvio, só de olhar, o quão suspeito ele é.

— Q-que coisa é essa?

— O Extrator de Cérebros Mk. 23. É minha obra-prima, capaz de extrair cada pedacinho de conhecimento do cérebro de alguém. Depois de uma longa série de falhas, finalmente o aperfeiçoei… eu acho.

— Você acha?

— Eu me baseei em “A Relação Entre a Magia e o Cérebro: As Propriedades Destrutivas e Potencialmente Curativas que a Interferência Mágica Pode Ter na Mente e as Aplicações Práticas Disso”, um artigo escrito pela Professora Sherry Barnett da cidade universitária de Laugus. A culpa é dela se não funcionar, mas tenho certeza de que vai dar tudo certo. Sempre pensei que em Laugus só havia velhos obstinados, mas há um pequeno número de acadêmicos fazendo um bom trabalho por lá. Ela é uma deles. Na verdade, ela vai dar uma palestra em Laugus na próxima semana. Será que consigo ir…?

As coisas que saem da boca de Eta são irresponsáveis, egoístas e inspiram zero confiança.

— Do que você está falando? O que eu sou para você?

— Uma cobaia relativamente valiosa. A mais valiosa depois daquele depois daquele depois daquele depois daquele depois dele.

— Desculpe, sou o quê? E também, quem é “ele”?

— Ele é ele. Uma forma de vida muito mais valiosa do que você. Foi graças a ele que consegui aprender os fundamentos da sua língua.

— Alguém que te ajudou a aprender japonês… Não pode ser!

Uma sensação desagradável surge no estômago de Akane.

E se a pessoa que ensinou japonês a Eta for quem Akane está pensando? E se ele foi capturado por este monstro insensível e indiferente?

— Ele despertou seu interesse? Ele me ajudou a testar o Extrator de Cérebros Mk. 19 e sobreviveu, então o Mk. 23 provavelmente também está bem.

— O quê…? Você usou essa máquina enlouquecida nele?! Ele consentiu com isso?!

— Consentimento? Isso não foi necessário. Eu apenas o enganei um pouco e o empurrei para dentro. Está tudo bem; ele é resistente.

— Então você o forçou? Você o forçou a ser sua cobaia de laboratório?!

Akane sabe que precisa se acalmar. Não há garantia de que este cara seja a pessoa que ela está imaginando.

Ela respira fundo para reprimir sua raiva.

— Eu não o chamaria de cobaia. Apenas testei meu veneno matador de dragões nele e tentei dissecar seu tecido cerebral e remover seus circuitos mágicos. Não foi nada sério — responde Eta friamente.

Akane range os molares.

— Diga-me — diz ela, com a voz tremendo de raiva. — Quem exatamente é essa pessoa?

— Ele é quem é. Hmm, descrever pessoas é difícil. Oh, ele é a pessoa que escreveu isto.

Eta mostra um bilhete escrito em japonês para Akane.

O bilhete em si não é nada de especial, mas Akane reconhece a caligrafia.

— Não pode ser. Mas essa caligrafia… Oh, Kageno…

Lágrimas escorrem de seus olhos.

Aquela caligrafia é de Minoru Kageno. Ela tem certeza disso.

Naquele momento, tudo finalmente se encaixa para ela.

Minoru Kageno está aqui neste mundo. O acidente de caminhão o levou para outra dimensão, e essa garota, Eta, o tem usado como cobaia e roubado seu conhecimento sobre o Japão. Isso significa que o corpo na cena do acidente era falso. Na verdade, há uma chance de que todo o acidente tenha sido uma farsa realizada com tecnologia do mundo da fantasia.

Quando Akane pensa na maneira como ele foi arrancado de sua casa, de sua família e de seus amigos, arrastado para um mundo desconhecido e forçada a suportar este ambiente exaustivo, seu corpo treme de raiva.

— Como pôde? Como ousa! Ele está bem?!

— Ele está bem… por enquanto.

— O que isso significa? O que você planeja fazer com ele?

— Experimentos e dissecações.

— Isso é horrível! Onde ele está?!

— Quem pode dizer? Agora, isso deve encerrar a conversa. Tenho os dados que preciso.

Eta parece desinteressada em responder a mais perguntas de Akane. Ela vira as costas para Akane e começa a montar algum tipo de dispositivo.

— Responda-me! Onde… onde ele está?!

Akane luta freneticamente contra suas amarras, mas o lodo não cede. Tudo o que faz é apertar ainda mais os ossos de Akane.

— Preparativos completos.

Eta está segurando um colar. Por alguma razão, ele fede e está pingando um líquido viscoso.

— O-o que é isso?!

— O Extrator de Cordas Vocais Mk. 1. Estava pegando poeira em um depósito por causa de seus casos de uso limitados, mas tenho certeza de que ainda está bom.

— T-tire isso de perto de mim!

Eta prende o estranho colar no pescoço de Akane.

— Não se preocupe, isso não vai doer. Agora, três, dois, um…

Ela se vira para acionar o interruptor do colar.

— Ah, não vai, não.

Um gongo surdo ecoa, e a cabeça de Eta balança.

— M-meu crânio… — Ela geme, agachando-se e agarrando o crânio.

— Chega dessa bobagem. Hoje é o dia em que ponho um fim nisso.

Há uma bela elfa loira parada diante dela. Na mão da elfa, ela segura um martelo feito de lodo.

Aquele martelo é o que acabou de atingir Eta.

Eta lança um olhar mortal para a recém-chegada.

— C-como pôde…? Quando as células cerebrais são danificadas, elas nunca se curam. Meu precioso intelecto…

— Não me olhe assim.

— Qualquer um que fizer uma palhaçada como essa está frito. Até mesmo você, Alpha.

— Oh?

— Sinta o poder do meu Campo que Perturba a Magia (Exceto a Minha)!

Nada acontece.

— O quê? Mas como?

— Me disseram que seu Campo que Perturba a Magia usa ondas de interferência.

— Não pode ser…

— Odeio te desapontar, mas eu as cortei.

Alpha tira suas roupas para revelar o traje de lodo prateado e brilhante por baixo.

— P-papel alumínio…

— Como tenho certeza que você sabe, há uma lenda da Sabedoria das Sombras que diz que papel alumínio tem o poder de bloquear ondas de rádio.

— Quer dizer que a lenda é realmente verdadeira?

— Veja por si mesma.

Alpha balança o martelo na cabeça de Eta novamente. Eta está tão chocada com a revelação anterior que nem consegue se esquivar.

— Hyeek!

Com um grito baixo, Eta cai inconsciente.

— Levem-na. Ela ganhou uma suspensão de suas funções e uma grande redução nos fundos de pesquisa até que termine de refletir sobre seu comportamento. Mesmo assim, ela fará a pesquisa que eu designar e nada mais no futuro próximo.

— I-imediatamente, senhora.

Um grupo de garotas sai de trás de Alpha e retira o corpo inconsciente de Eta.

Alpha se vira para Akane e desfaz suas amarras.

— Sinto muito por tudo isso.

Akane está tão impressionada com a elfa que não consegue fazer nada além de gaguejar:

— Q-quem é você?

— Não falo sua língua. Beta pode cuidar do resto.

Com isso, ela sai.

Ela é ridiculamente forte. Isso, e bonita. Akane sente em seus ossos que acabou de encontrar a peça mais importante da organização.

— Você está bem?

Logo depois, a garota de cabelos prateados aparece e resgata Akane.

— Este será seu quarto, Número 712.

Beta a leva a uma porta sem adornos.

— Este aqui?

— Isso mesmo. Tive que explicar muitas coisas. Você entendeu tudo?

— A maior parte, eu acho.

— Então aqui está o livro de idiomas. Certifique-se de aprender rapidamente.

O livro que Beta lhe entrega é intitulado A Língua Deste Mundo para Idiotas de Outro Mundo.

— Hum, eu tenho um professor ou algo assim?

— A imersão é a única maneira. Sou uma pessoa mais ocupada do que pareço. Agora, adeus.

Beta se vira e se afasta rapidamente.

— …Bem, acho que está tudo bem.

As coisas definitivamente não estão bem, mas Akane teve um dia longo e está exausta.

Ela solta um suspiro e abre a porta.

— É mais bonito do que eu esperava…

Há três camas no quarto, uma das quais já tem uma garota dormindo nela.

A garota sente a presença de Akane e se senta. É a pequena garota de cabelos brancos com quem Akane lutou mais cedo.

— É-é você!

— É-é você!

Akane e a garota gritam quase em uníssono.

— V-você quer dizer que você é a nova recruta de quem me falaram?

— P-parece que vamos ser colegas de quarto, hein?

Akane rapidamente se recompõe e oferece um sorriso à garota.

— Rgh… C-como se eu fosse ficar no mesmo quarto que você! Vou dormir lá fora!

A garota salta da cama, lança um olhar furioso para Akane e sai correndo.

— Oh…

Akane não sabe o que a garota acabou de dizer, mas obviamente não foi nada amigável. Ela solta outro suspiro enquanto observa a garota partir.

Ela tem mais problemas do que pode contar. Está presa em um mundo estrangeiro, não conhece a língua local, todos nesta organização são assustadoramente fortes, sua colega de quarto a odeia e ela não tem um único aliado de verdade.

No entanto, ela tem um raio de esperança.

— Desta vez, eu vou te salvar, Kageno!

A determinação brota em seu coração, e ela cerra os punhos com força.

 


 

Tradução: Gabriella

Revisão: Pride

 

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