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Império Tearmoon – Vol. 03 – Cap. 35 – Dois Pares de Olhos Chorosos

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Ela rapidamente repassou as últimas coisas que dissera em sua cabeça, mas nenhuma parecia particularmente culpada. Não tinha a menor ideia do porquê de Mia estar zangada.

…Ou tenho?, perguntou uma voz que ela sabia ser a sua.

Ela se voltou para dentro, cavando fundo em suas memórias, onde descobriu um fragmento anteriormente não examinado. Desenterrá-lo revelou a cena de antes, quando ambas tinham acabado de entrar na piscina. Foi quando Mia, com a voz rígida e a expressão preocupada, dissera: “Mas devo dizer, Senhorita Rafina, você parece terrivelmente cansada. Deve ser tão difícil para você.”

Algo brilhou em um canto de sua mente.

Mia… Ela estava… preocupada comigo?

Ela o alcançou, abrindo caminho através da névoa de confusão até…

Ela… estava tentando aliviar meu fardo?

Ela finalmente o agarrou, e a compreensão a atravessou como um raio.

Ultimamente, Rafina de fato se sentira um pouco cansada. Sempre mantivera uma agenda exaustiva, e esta só se tornara exponencialmente mais exigente com o aparecimento das Serpentes do Caos. Ela realmente achava que alguém como Mia não estaria ciente de seu esgotamento? E se estivesse, o que faria como amiga?

Ela expressaria sua preocupação… através de suas ações…

Mia não podia tomar seu lugar como filha do Duque de Belluga; esse papel era só dela. Nem podia assumir o comando de sua nascente facção anti-Serpente; tinha que ser a Dama Sagrada de Belluga a liderar a ofensiva contra a sociedade secreta. O trabalho de presidente do conselho estudantil era diferente. Era o único papel que Mia podia tirar dela — a única carga que podia aliviar. E assim ela o fizera, oferecendo-se para aliviar Rafina desses deveres e arcar com parte de seu fardo.

O que é um amigo senão alguém que compartilha das aflições e prazeres do outro? Mia estava, por meio de suas próprias ações, demonstrando que se considerava amiga de Rafina — o tipo de amiga que ela sempre quisera, que a tratava não como alguém divino ou especial, mas como uma igual. Como alguém que estivera ao seu lado e compartilhara de sua alegria, Mia pretendia compartilhar seus fardos também.

Foi então que Rafina percebeu outra coisa; as promessas de campanha de Mia — promessas nascidas da mente da Grande Sábia do Império — eram pouco mais que uma reformulação das suas, defendendo políticas e ideais quase idênticos. Alguém possuidor de tal intelecto a ponto de parar uma revolução em Remno e implementar inúmeras reformas em seu país… se contentaria em produzir algo tão sem inspiração?

Será que ela… fez isso de propósito?

Quão difícil poderia ter sido para Mia propor algumas ideias radicais? E, no entanto, ela escolhera propositalmente políticas que estavam alinhadas com a atual abordagem de governança de Rafina. A razão era óbvia. Ela não estava tentando derrotar Rafina; estava tentando enviar uma mensagem — “passe-me parte do seu trabalho para que eu possa arcar com parte do seu fardo.” As semelhanças entre suas promessas eram para a tranquilidade de Rafina, para mostrar que ela estaria deixando seus deveres em boas mãos.

Todo esse tempo, ela estava pensando em mim… e o que eu disse a ela em troca?

Ela continuou a refazer mentalmente seus passos, preparando-se para onde sabia que eles a levariam, mas ainda assim fez uma careta quando sua própria voz de momentos antes começou a ecoar em sua mente, dizendo a Mia para retirar sua candidatura porque ela não ia vencer. Ela assistiu, impotente e horrorizada, enquanto sua querida amiga estendia uma mão amiga em sua direção, apenas para seu eu passado afastá-la e — em uma exibição de presunção tornada excruciantemente clara pela retrospectiva — oferecer o que ela pensava ser misericórdia em troca.

Será que, apesar de toda a minha fixação em nossa amizade… sou eu, na verdade, quem falhou em depositar minha total confiança nela?

— M-Mia… — disse ela, com a voz tão trêmula e fraca que mal a reconheceu como sua.

Com urgência desesperada, ela estendeu a mão na direção da forma de Mia que se afastava — para detê-la, suplicar-lhe, pedir-lhe para ouvir — mas sua mão estendida tocou apenas o abismo entre elas. Permaneceu no ar por um breve momento antes de cair debilmente ao seu lado. O que ela poderia dizer? O que havia para dizer? Ela tivera a chance de ter uma amiga de verdade… e a desperdiçara.

E agora, é tarde demais. Sua visão embaçou. É tudo tarde demais. O desespero começou a consumi-la. Como uma massa escura e disforme, invadiu sua mente, infiltrando-se em cada recesso de pensamento em seu caminho. Foi então que ouviu a voz de Mia.

— Senhorita Rafina.

Tudo — seus pensamentos, sua respiração, até mesmo a escuridão invasora — pareceu congelar, assim como a própria Mia.

— Sou da opinião… — disse a princesa, ainda de costas —, que não há amizade sem perdão.

— …Hã?

Perdão? Mia… está disposta a me perdoar? Mas…

Ela mal podia acreditar no que estava ouvindo. Com medo de ser um truque de seus ouvidos, ela forçou o ar a passar por seus lábios ressecados e perguntou em um sussurro rouco: — Você quer dizer… nós somos—

— Amigas. E o que são amigas senão aquelas dispostas a relevar, de vez em quando, os erros e afrontas que cometemos na presença uma da outra?

E com isso, ela finalmente se virou para revelar um sorriso caloroso e um tanto tímido.

— Você não concorda?

Amigas…? Isto é… o que é ser…

Naquele momento, tudo ficou claro. Ela soube, sem sombra de dúvida, que a garota diante dela, Mia Luna Tearmoon, era a amiga que procurara por toda a sua vida. Por tanto tempo, ela ansiara por um espírito afim — alguém em quem pudesse confiar e confidenciar — e finalmente… ela a encontrara.

— Eu…

Ela mordeu o lábio. De repente, o mundo se dissolveu em um caleidoscópio de cores, e houve o som suave de gotas de chuva caindo na água. Olhando para baixo, ficou surpresa ao encontrar um fluxo constante de lágrimas cristalinas caindo de suas bochechas.

L-Lágrimas? Elas são… minhas? Eu estou chorando? Por quê?

Rafina, que raramente se permitia chorar na presença de outra pessoa, ficou completamente desnorteada com sua própria reação. Uma onda tão incontrolável de emoções era estranha para ela.

Eu deveria estar feliz. Sei que estou, então por que… Oh, meu rosto deve estar uma bagunça. Não posso deixar a Mia me ver assim.

Ela apertou os olhos em uma tentativa de parar as lágrimas, mas foi como tentar conter a maré. Elas caíam e caíam em um fluxo interminável. Logo, seu nariz também começou a escorrer, e ela começou a fungar. Ela se virou apressadamente e caminhou até a fonte, permitindo que a água fria caísse sobre sua cabeça, lavando seu rosto das lágrimas. Então, para ter certeza dupla, ela esfregou os olhos e se virou para encarar Mia novamente.

Ela queria dizer obrigada. E desculpe. Mas engoliu as palavras, não confiando em sua voz para produzir nada mais do que um soluço trêmulo. Em vez disso, ela retribuiu o sorriso de Mia, a expressão surgindo em todo o seu rosto enquanto seus lábios se curvavam para encontrar os cantos brilhantes de seus belos olhos, agora avermelhados pela emoção chorosa.

Oh, como estou feliz por ter feito uma amiga como a Mia…

— M-Mia…

 

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No instante em que Mia ouviu a instabilidade na voz de Rafina, todo o calor e a raiva se esvaíram dela. Foram substituídos por um pavor frio, que lentamente rastejou por sua espinha, enviando arrepios por todo o seu corpo. Rafina, a personificação da compostura e da contenção, estava tendo problemas para controlar suas emoções. O que poderia estar a aborrecendo tanto? Após refletir rapidamente sobre a conversa delas, chegou a uma conclusão arrepiante — era ela.

Não apenas ela havia tido o que equivalia a um ataque passivo-agressivo, como também ignorara as tentativas de Rafina de falar com ela, optando por ficar de mau humor sozinha. Como resultado, a voz de Rafina agora estava tremendo… de raiva! Ela estava furiosa! Tão furiosa que a única coisa que conseguia fazer era proferir o nome de Mia!

Eeeeeeek! I-Isso é ruim! Isso é muito, muito ruim!

Ao se concentrar na eleição, Mia perdera de vista algo importante. Não importava o quão mal sua campanha estivesse indo, descontar suas frustrações em Rafina ainda era uma péssima ideia. Afinal, o mundo não ia acabar no instante em que ela perdesse a eleição, o que significava que haveria muito tempo depois para ela sofrer as consequências.

M-Misericordiosas luas! O que eu faço?! Ahh, isso foi tão estúpido da minha parte!

Ela freneticamente colocou sua mente para trabalhar, tentando pensar em uma desculpa para suas ações anteriores. Pensou e pensou… até que uma ideia finalmente lhe ocorreu, e ela se agarrou a ela com o desespero de uma criança se afogando que encontrara um tronco flutuante.

— Senhorita Rafina, sou da opinião… — disse ela, ainda de costas porque estava com muito medo de fazer contato visual. — Que não há amizade sem perdão.

O plano era lembrar Rafina de sua amizade, enquanto sutilmente incorporava o perdão em sua definição — o equivalente verbal a um passe de mágica.

— Hã? Você quer dizer… Nós somos—

— Amigas — declarou ela com um tom de finalidade, antes de passar rapidamente pelo resto de sua lógica. — E o que são amigas senão aquelas dispostas a relevar, de vez em quando, os erros e afrontas que cometemos na presença uma da outra?

Amigas perdoam umas às outras. Elas eram amigas. Portanto, Rafina deveria perdoá-la. Q.E.D.

Quando se tratava de salvar a própria pele, Mia estava totalmente disposta a jogar sujo. Ela sabia que Rafina, por ser quem fizera a proposição inicial de que fossem amigas, não voltaria atrás em sua palavra, então se aproveitou desse fato para forçar sua mão. Era uma tática profundamente desonesta que poderia ser resumida com: “Você disse que éramos amigas, então você tem que me perdoar.”

Então, só para garantir, ela se virou e abriu seu melhor sorriso de “Você sabe que eu estava só brincando, certo?” Rafina apenas a encarou, com uma expressão indecifrável. Então ela baixou o olhar. Seus ombros começaram a tremer. O movimento logo se espalhou para seus membros e tronco, fazendo-a morder o próprio lábio.

Eeeeeeek! Tudo o que isso fez foi deixá-la ainda mais brava comigo!

Mia se arrependeu instantaneamente de sua ofensiva de charme mal elaborada, desejando ter apenas se desculpado adequadamente. Antes que pudesse continuar, no entanto, Rafina se virou e marchou para a fonte, onde prontamente mergulhou a cabeça em seu fluxo.

Santas luas! Ela está com tanta raiva que precisa jogar água fria na cabeça para se controlar?!

Ela observou, em total horror, enquanto Rafina afastava a cabeça da fonte, se virava e contorcia seu rosto ainda pingando no que poderia ter passado por um sorriso… se suas bochechas não estivessem tremendo e seus olhos não estivessem injetados.

Eeeeeeek! Isso é aterrorizante! Olhe para aqueles olhos! Ela está absolutamente lívida! Mas ainda está tentando sorrir, então deve estar dizendo a si mesma que deve me perdoar porque somos amigas… Nesse caso, talvez eu realmente saia dessa inteira…

Vendo o sorriso forçado de Rafina como um esforço para reprimir sua raiva através da adesão aos — ligeiramente adulterados — princípios da amizade, Mia se permitiu soltar um suspiro de alívio.

Oh, como estou feliz por ter feito amizade com ela antes…, pensou ela, as lágrimas de terror em seus olhos substituídas por lágrimas de alívio.

 


 

Tradução: Gabriella

Revisão: Matface

 

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