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Bruxa Errante, a Jornada de Elaina – Vol. 09 – Cap. 05 – Cinderela

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Nascida em uma vasta propriedade, a garota não sabia quase nada do mundo exterior.

Ela fora cativa nos terrenos por toda a sua vida. Filha da única família de magos de todo o país.

— Escute, criança, você se tornará a herdeira desta casa — disse-lhe a avó da garota.

A garota passava seus dias aprendendo sobre magia. Aprendendo a comandar familiares.

Isso, especialmente, fazia parte das obrigações da garota como herdeira de uma casa distinta.

— Pronta? Dentro da caixa há um vegetal. Lance um feitiço de transformação e transforme-o em uma criatura viva.

A avó da garota era uma professora rigorosa e autoritária, e a garota passou a desprezar suas duras lições. Ela não queria se tornar uma bruxa em primeiro lugar e às vezes até se perguntava por que tinha que aprender magia.

— Dentro da caixa há um rato. Como teste, tente transformá-lo em um cachorro.

— Isso parece um cachorro para você? Quando você vai aprender a fazer magia de verdade?

— Se este é o melhor que você pode fazer, você nunca dominará seu próprio familiar! Você é um caso perdido!

Dia após dia, a garota continuou praticando. Mas seus esforços foram em vão.

Porque a garota odiava magia do fundo do seu coração.

Ela amava algo totalmente diferente.

— Oh! Você quer fazer pão de novo?

O único prazer da garota era aprender a fazer pão com sua mãe. Toda vez que sua mãe ia para a cozinha, a garota a seguia e implorava para que lhe mostrassem como era feito.

Mas a verdade é que fazer o pão era nada mais do que um bônus.

A garota realmente só queria passar tempo com sua mãe. Porque só sua mãe a entendia.

— É sempre difícil para você, não é? Mas você ficará bem. Tenho certeza de que um dia você comandará muitos familiares esplêndidos — sua mãe lhe dizia com frequência, como se estivesse tentando convencê-la. — Sua bisavó costumava ficar sempre brava comigo também. Mas sabe, por ela ter sido tão dura comigo, aprendi muitos feitiços e agora posso usar magia para administrar a casa. A vovó quer que você se torne esplêndida também, então ela está sendo rigorosa com você de propósito — a severidade é a outra face da expectativa. — A mãe da garota acariciou seu rosto com amor enquanto falava.

Ao seu lado, um lobo com uma pelagem fulva sentava-se abanando o rabo. O lobo, que era o familiar da mãe, provavelmente sentia o mesmo que sua mestra.

A primeira vez que a garota viu o mundo exterior foi quando tinha dez anos de idade.

Para comemorar seu aniversário, sua mãe a levou à cidade. O mundo cheio de pessoas parecia brilhar e reluzir aos olhos da garota que não conhecia nada além do interior da mansão de sua família.

Na cidade, as pessoas bajulavam a mãe da garota por causa de suas habilidades mágicas. A mãe e a avó da garota eram as únicas pessoas que podiam usar magia na área, então sempre que uma delas saía da propriedade, as pessoas faziam todo tipo de pedidos a elas.

Pediam-lhes que consertassem xícaras quebradas, ou encontrassem itens perdidos, ou atendessem a outros pedidos insignificantes que normalmente poderiam ser ignorados com uma risada.

Mas a mãe da garota sorria gentilmente para os habitantes da cidade, e respondia: “Sim, claro”, e ouvia cada um de seus pedidos.

A garota admirava profundamente sua mãe. Ela desejava que um dia pudesse ser exatamente como ela.

Então, um dia, enquanto a garota e sua mãe caminhavam pela cidade, algo aconteceu. Depois de verificar que não havia ninguém por perto, a mãe da garota sussurrou para ela:

— Para te dizer a verdade, quando eu tinha mais ou menos a sua idade, eu também odiava aprender feitiços. Assim como você. Há muito tempo, eu me perguntava por que tinha que sofrer e aprender magia.

— ……

— Mas sabe, eu percebi o porquê quando cresci. Todo o trabalho duro valeu a pena, e agora eu tenho o poder de ajudar outras pessoas necessitadas.

A mãe da garota disse a ela que teria que superar a dificuldade de aprender, para que pudesse se tornar forte e capaz de ajudar as pessoas também.

— ……

Mas a garota respondeu com silêncio. Não era que ela não entendesse. Era apenas que ela não acreditava. Ela não acreditava que jamais poderia se tornar uma mulher forte como sua mãe.

Ela olhou para sua mãe, que acariciou seu cabelo gentilmente.

— …Sinto muito, querida. Você só tem dez anos. Deve ser tão difícil para você.

Além disso, sua mãe lhe contou mais um segredo.

— Quando você estiver se sentindo para baixo, pode sair da propriedade sozinha. Se você aprender sobre o mundo exterior, acho que você também certamente passará a apreciar um pouco mais a magia.

— …Mas…

Sair da propriedade sozinha sempre fora estritamente proibido. A única vez que a garota viu o mundo exterior foi quando estava ao lado de sua mãe.

A única coisa que sempre foi permitida para a garota foi o treinamento mágico — tal era sua vida desagradável na propriedade.

— Tente passar por um certo arbusto a cerca de trinta passos à direita do portão da frente. Há um pequeno buraco na cerca ali. — A mãe da garota explicou-lhe furtivamente que ela poderia sair por ali. — Sabe, sua mãe era na verdade uma criança travessa antigamente!

Ela ensinou à filha um método para se tornar mais parecida com ela.

Depois disso, a garota começou a escapar para fora dos terrenos sempre que tinha tempo livre.

Mesmo sabendo que era errado, mesmo que só de pensar nas punições que a aguardavam se sua avó descobrisse fosse aterrorizante, mesmo assim, assim que a garota escapuliu uma vez, ela ficou insensível a esse medo e começou a fugir da mansão com mais frequência.

A cidade parecia bem diferente sozinha, em comparação a quando ela tinha sua mãe ao seu lado. Este novo mundo solitário parecia terrivelmente vasto e brilhando com promessas. Mas, ao mesmo tempo, ela também podia ver a escuridão. A garota logo percebeu que sua mãe se mantivera nas partes maiores, mais movimentadas e mais seguras da cidade.

Havia muitas pessoas na cidade. Havia muitos animais também. A garota aprendeu que não era, de forma alguma, a única infeliz.

Ela viu adultos que falharam em seus trabalhos e estavam sendo repreendidos duramente. Ela viu pessoas dormindo na beira da estrada, que não tinham onde morar. Ela viu cães vira-latas, revirando latas de lixo em busca de comida. Ela viu um rato que havia sido pego em uma armadilha e estava morrendo.

Em um beco, coberta de sangue e perto da morte, ela viu uma criatura minúscula.

— ……

Esse foi o primeiro encontro entre a garota e seu familiar.

Ela nascera em uma vasta propriedade, mas, com certeza, não sabia quase nada sobre o mundo exterior.

— …O mesmo sonho de novo.

A garota esfregou os olhos e olhou ao redor. O mundo parecia estar cheio de luz. Em cima da mesa, densos tomos de referência estavam empilhados como uma montanha. Perto dali, havia uma caneta e um documento inacabado.

Aparentemente, ela havia adormecido no meio da escrita.

A meio do texto, as letras se transformaram em linhas desajeitadas, umedecidas por lágrimas e suor. Eram completamente ilegíveis.

— ……

Cheia de frustração, a garota amassou o papel em uma bola e o jogou no chão. Não havia ninguém ali para repreendê-la por fazer isso. Este era seu quarto particular.

Além disso, não havia mais nenhum ser humano na mansão, exceto a garota.

Meio ano antes, todos os outros haviam desaparecido da propriedade. Eles a deixaram para trás e faleceram.

Não havia ninguém por perto para criticar a garota, não importava o quão sujo seu quarto ficasse, não importava o quão desarrumada ela fosse.

Quase como se estivesse possuída, ela murmurou para si mesma.

— Mais… Tenho que me esforçar mais…

Então a garota pegou sua caneta mais uma vez.

 

 

 

Separador Tsun

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— Vocês duas possuem algum familiar?

Uma oficial do governo nos abordou enquanto esperávamos para entrar em Ballad, a Cidade do Silêncio. Ela nos disse apenas que tinha algo importante a discutir, então nos convidou para uma sala separada perto do portão da cidade, trancou a porta e lançou essa pergunta.

Familiares?

— Eu não tenho nenhum. — A Srta. Fran balançou a cabeça.

— Eu também não. — Eu assenti.

Para começar, os usuários de magia conseguem lidar com a maioria das situações sozinhos, então não há muitas circunstâncias em que precisaríamos usar familiares. Hoje em dia, pode-se até dizer que cultivar familiares é mais como um hobby antiquado e tradicional, e é raro ver magos que mantêm um à mão.

— É mesmo…?

Mas a expressão da oficial do governo se anuviou com nossas respostas.

O que é isso agora?

— Por acaso, você está dizendo que não podemos entrar na cidade se não tivermos familiares? Não só não temos nenhum, como mal tenho conhecimento para usá-los em primeiro lugar…

Que saco.

Teremos problemas se não conseguirmos entrar na cidade… Teremos que acampar.

Mas minha preocupação não passava de uma preocupação infundada. A oficial balançou a cabeça.

— Não, vocês poderão entrar independentemente de terem ou não familiares. A razão pela qual as convoquei aqui não tem nada a ver com costumes.

— Bem, então, por quê? — A Srta. Fran fez a pergunta óbvia.

A expressão da oficial não mudou muito enquanto ela nos dizia: — A única família de magos da região emprega familiares há séculos. Geração após geração, até o atual chefe da família, eles herdaram a tradição. Temos um pedido para vocês duas em relação a esta família — não, em relação a um problema que está afligindo a cidade.

Ela estendeu um pedaço de papel na nossa frente.

Era um formulário de solicitação a ser submetido à Associação Unida de Magia. Na seção de remuneração, havia uma quantia em moedas de ouro baseada no custo total estimado de toda a alimentação e hospedagem durante o período de estadia em Ballad, a Cidade do Silêncio.

Era uma quantia considerável. O suficiente para me deixar sem fôlego.

— Gostaria de pedir que vocês assumam o trabalho, com as condições que estão listadas aqui.

Mas se eles estavam oferecendo uma remuneração substancial, isso só podia significar uma coisa.

O problema em si era igualmente substancial.

— …O que diabos aconteceu aqui? — A Srta. Fran segurou o papel. Olhei para o papel de lado e li apenas: Apreensão de Familiares.

— Um dos familiares empregados pela família entrou em fúria e assassinou quase todos eles, poupando apenas sua mestra, uma jovem. Agora o familiar selvagem está aparecendo pela cidade, ameaçando a vida diária das pessoas… Este é um problema local, então estamos terrivelmente envergonhados de pedir ajuda a viajantes, mas…

A família que usava os familiares foi completamente aniquilada, deixando apenas uma garota, a mestra do assassino.

O que significa…

— Havia apenas uma maga viva.

…que a própria pessoa que deixou o familiar realizar sua fúria é a única que restou.

E, presumivelmente, a garota não era uma usuária de magia capaz o suficiente para impedir o assassinato de sua família. Então foi por isso que esta oficial recorreu a mim e à Srta. Fran, mesmo sendo nós viajantes.

Da perspectiva da oficial, chegamos exatamente na hora certa.

— ……

A Srta. Fran ficou em silêncio enquanto olhava para o pedaço de papel. Então, ao lado dela, eu perguntei:

— Qual é o nome da garota?

A oficial do governo olhou para mim e respondeu com uma única palavra.

Karen.

 

 

 

Separador Tsun

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Esse era o nome da garota lamentável, a única que restou na propriedade.

Eu podia sentir o leve aroma de água salgada pairando por toda a cidade.

Enquanto olhávamos para a estrada suavemente inclinada, a luz ofuscante refletida na superfície do oceano era deslumbrante. A cidade se estendia até a beira da água.

Estávamos nos aproximando do fim da jornada da Srta. Fran. Ela tinha planos de voltar para a Royal Celestelia de barco.

— Apareceu logo depois do nascer do sol. Meu cachorro de estimação de repente começou a latir, então olhei pela janela para o jardim, me perguntando o que estava acontecendo, e lá estava ele. Parecia nojento.

A Srta. Fran aceitou imediatamente o pedido da oficial, e eu concordei em me juntar a ela na investigação.

Andamos por aí falando aleatoriamente com as pessoas que passavam na cidade, e descobrimos que, aparentemente, o familiar de Karen vinha causando muitos problemas para as pessoas da cidade.

Ouvimos inúmeros relatos de testemunhas oculares.

— As latas de lixo da minha loja foram arrombadas. De alguma forma, ele removeu as tampas e pegou qualquer coisa que ainda parecesse comestível das latas. Sei que não é um dano muito sério, mas…

Disseram que o familiar assumia a forma de um animal. Sua pelagem era preta. Seus olhos eram verdes. Suas presas eram afiadas e suas garras eram imundas. Aparentemente, sua forma se assemelhava a um lobo em alguns aspectos, mas, mais do que tudo, sua constituição era enorme, e era tão comprido quanto um homem adulto é alto.

— Parece que gosta de pão. Costumava vir à minha loja com frequência e olhar faminto para o pão. Consigo facilmente espantar as crianças de rua que sempre vejo por aí, mas aquela coisa, quero dizer, é enorme! E tenho uma filhinha em casa, então me assustou até a morte, pensando que poderia me machucar.

Ouvimos dizer que a fera raramente aparecia para os humanos, mas como aparentemente fora atraída por sua comida favorita — pão —, decidimos que não poderia ser especialmente inteligente.

Mas a questão era por que uma criatura como essa fora ignorada pelas pessoas da cidade por meio ano? Se era tão repulsiva, um monstro medonho que destruía plantações e revirava latas de lixo, então por que diabos ninguém lidou com isso ainda?

Um guarda em sua ronda foi gentil o suficiente para responder a esta pergunta extremamente natural para nós.

— Tentamos capturá-lo muitas vezes antes, mas não funcionou. Até recrutamos ajuda dos habitantes da cidade e perseguimos a fera com tudo o que podíamos, mas… aquele lobo é muito rápido. Não há absolutamente nenhuma maneira de pessoas comuns conseguirem pegá-lo, não sem magia — disse-nos o guarda com um suspiro. — Seria ótimo se pudéssemos recorrer à nossa própria maga para obter ajuda, mas…

Ele explicou.

Desde a morte de sua família, Karen, a mestra do familiar, isolou-se em sua propriedade. Ela parou de sair do local por completo.

Muitas pessoas na cidade sentiam que deviam à família de Karen por sua ajuda no passado, enquanto outras tinham pena da pobre garota e de suas terríveis circunstâncias. Algumas pessoas ocasionalmente iam visitá-la e deixavam comida para ela, mas nenhuma delas havia realmente visto Karen pessoalmente.

Neste ponto, ninguém sabia se ela estava viva ou morta atrás dos portões fechados.

— …Onde fica essa propriedade?

O guarda assentiu para mim e apontou para uma enorme mansão do outro lado da cidade.

Como conhecíamos as características do familiar rebelde e tínhamos uma estimativa aproximada de seu território, achamos que isso era suficiente.

Em seguida, planejamos revistar a propriedade dos magos, depois rastrear o paradeiro do familiar e, finalmente, ir encontrar Karen… na mansão onde a garota que nunca tínhamos visto estava escondida. Isso parecia ser a coisa certa a fazer se esperávamos resolver o caso de forma rápida e decisiva.

De qualquer forma…

— Hum, primeiro quero uma das saladas especiais do chef, uma xícara do seu café mais barato e, em seguida, todo o pão daqui até ali. Esse é o meu pedido completo.

Bati o cardápio prontamente.

A Srta. Fran e eu estávamos sentadas uma de frente para a outra em um dos cafés da cidade. Tínhamos mais ou menos terminado de entrevistar as testemunhas do dia. Um membro da equipe de garçons veio anotar nosso pedido, então fiz algo que sempre quis fazer e pedi todo o pão daqui até ali.

— Tudo bem pedir tanto? — A Srta. Fran inclinou a cabeça, inquisitiva, ao lado do garçom, que anotava apressadamente meu pedido em um bloco de notas.

Não havia motivo para preocupação. Afinal…

— A cidade está cobrindo todas as nossas despesas com alimentação, eeeei!

Contanto que outra pessoa esteja pagando, não há problema em pedir exatamente o que eu quero, certo?

A vantagem inesperada estava mexendo com minha cabeça e me levando a fazer algumas escolhas estranhas. A Srta. Fran, por outro lado, era tão reservada como sempre.

— Ah, para mim está bom uma xícara de chá — disse ela ao garçom.

Que modesta.

— Mas está tudo bem, Elaina? Um pedido como esse?

Depois que o garçom saiu, a Srta. Fran se inclinou para frente e sussurrou a pergunta para mim.

Ela provavelmente estava preocupada se eu conseguiria comer tudo sozinha.

— Não precisa se preocupar. Este é o tipo de café honesto que permite levar para viagem.

— Não, não é isso que quero dizer. — A Srta. Fran balançou a cabeça, exasperada. — O custo está tudo bem?

— É o dinheiro de outra pessoa, então eu realmente não me importo.

O governo está cobrindo o custo total de nossas refeições enquanto estivermos na cidade. Não importa quanto dinheiro gastemos enquanto estivermos aqui, contanto que peguemos os recibos, receberemos tudo de volta. Com o que você está preocupada?

— Mas se estragarmos o trabalho, não receberemos nenhum dinheiro, sabe.

— …!

— Quer dizer, isso é apenas bom senso.

— … Eu sabia disso!

— Estou te avisando com antecedência. Não vou pagar por você, ok?

— Srta. Fran, sob nenhuma circunstância podemos deixar de cumprir o pedido da cidade!

— Agora, isso é algo que eu gostaria de ter ouvido você dizer uma ou duas vezes antes…

Apenas depois que o risco de ter que pagar tudo do meu próprio bolso surgiu, e antes que eu tivesse tempo de cancelar meu pedido, o garçom trouxe tudo o que havíamos pedido, tudo junto.

Nesse ponto, era tarde demais para fazer qualquer coisa. De cabeça baixa, parei-o antes que ele pudesse sair.

— Hum, desculpe, mas… poderia me dar uma sacola para levar? Uma grande, se possível.

Com um rosto perplexo, o garçom me trouxe uma sacola.

Embalei todo o pão nela, soluçando o tempo todo.

A Srta. Fran me observou vagamente e tomou um gole de chá. Então, como se tivesse acabado de se lembrar, ela disse:

— Quando sairmos deste café, iremos para a casa de Karen, é claro.

— …… — Depois de arrumar minha sacola de pão, eu assenti. — Sim, claro.

Falando francamente, nem a Srta. Fran nem eu tínhamos muita experiência com familiares.

Se conseguíssemos parar o familiar rebelde com a ajuda de sua mestra, Karen, então faríamos isso, e se ela não pudesse sair de sua mansão por algum motivo, então precisaríamos determinar qual era esse motivo.

Não havia como fazer nenhuma das duas coisas sem encontrá-la.

Mas se fôssemos encontrar alguém…

— De agora em diante, seria melhor se você e eu seguíssemos caminhos diferentes, Srta. Fran.

— Certo — disse minha professora. — Não sabemos em que estado Karen pode estar, mas ela não sai de sua mansão há meio ano, então podemos ter certeza de que ela tem algum motivo para isso.

Como Karen havia perdido sua família e, além disso, o familiar que deveria pertencer a ela vinha causando tantos problemas na cidade, era difícil imaginar que ela estivesse apenas relaxando lá em cima com tempo de sobra, completamente despreocupada.

Talvez ela tenha fechado seu coração, assim como as portas de sua casa?

Se isso fosse verdade, ainda precisávamos encontrá-la e conversar com ela. Mas, embora estivéssemos viajando juntas, parecia-me que se nós duas aparecêssemos sem sermos convidadas à sua porta, poderíamos realmente esperar que ela abrisse seu coração para nós?

Provavelmente não.

— Eu irei sozinha à casa de Karen.

Segundo a oficial do governo, Karen era um pouco mais nova do que eu.

Imaginei que, se uma de nós fosse subir até sua mansão, eu seria mais adequada, por ser comparativamente mais próxima em idade.

— Deixo isso com você. — A Srta. Fran assentiu. — Enquanto isso, vou rastrear o paradeiro do familiar.

E então, não muito depois de pararmos para descansar, nos levantamos de nossas cadeiras.

Assim que saímos do café, a Srta. Fran propôs: — Tenho que ir fazer uma reserva em um hotel também. Vamos nos encontrar no final do dia e ambas relataremos nosso progresso.

Entendi, entendi.

— Por favor, escolha um lugar barato.

— Vamos ficar em um lugar caro.

— Srta….

— Podemos dividir o custo, tudo bem?

— Srta……

No final, depois de muita insistência e discussão, ficou decidido que ficaríamos em uma pousada razoavelmente cara.

Isso significa que temos que atender ao pedido da cidade, de qualquer maneira…

 

 

 

Separador Tsun

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— Com licença! Seu portão estava aberto, então eu entrei! Tem alguém aqui?!

Bem, agora.

Em uma propriedade em algum lugar, havia uma maga que, depois de usar um feitiço para abrir facilmente a fechadura de um portão que estava bem fechado, fez uma introdução descarada enquanto cometia invasão de propriedade casualmente.

Quem diabos poderia ser essa garota, que não hesitou em cometer um ato tão flagrantemente ilícito?

Isso mesmo, sou eu.

— …Hã, não há resposta.

O que será que isso significa? Eu tornei minha entrada bem óbvia.

Enquanto ponderava isso, caminhei em direção à enorme mansão que se erguia diante de mim.

Eu não estava particularmente preocupada com uma garota, especialmente porque nem tínhamos certeza se ela estava viva ou morta, então também destranquei as portas da mansão facilmente com outro feitiço.

— ……

Ao contrário do exterior imponente, o interior do lugar havia caído em ruínas.

Um lustre que um dia deve ter pendido do teto jazia lamentavelmente no tapete vermelho, com fragmentos brilhantes espalhados por todo o chão. As pinturas penduradas nas paredes estavam pretas de sujeira, e a escadaria estava cheia de buracos. O lugar parecia que uma tempestade havia passado por ali.

Sempre que eu dava um passo, os fragmentos do lustre rangiam e estalavam sob meus pés.

Karen deve estar em algum lugar nesta casa.

— Olá?

Eu não sabia bem para que lado ir para encontrá-la, então andei sem rumo, explorando a casa e gritando saudações no espaço vazio.

Depois de percorrer a mansão por um tempo, finalmente cheguei a uma área da casa onde não havia cacos de vidro sob os pés.

Em vez disso, o lugar estava cheio de bolas de papel amassado.

Quando peguei uma e alisei as rugas, o pedaço de papel revelou fileiras de escrita bagunçada.

Depois disso, peguei os papéis um por um enquanto caminhava.

Eventualmente, os pedaços de papel me levaram para o fundo da mansão — para uma porta que estava ligeiramente entreaberta.

— ……

Dentro havia um quarto espaçoso, em terrível desordem.

As bolas de lixo que se espalharam pelos corredores estavam espalhadas liberalmente pelo chão do quarto e em cima da cama, e aqui e ali pelas paredes, papéis sobrepostos eram presos por percevejos.

O som da porta rangendo ecoou pelo espaço silencioso, onde uma cortina aberta balançava à luz do sol, e a brisa suave que entrava virava as páginas de um livro que estava aberto sobre a escrivaninha.

A garota que estava de bruços em frente ao livro franziu a testa ligeiramente e se sentou. Seu cabelo dourado passava dos ombros, e seu manto era todo decorado e parecia incrivelmente caro. Ela certamente parecia ser filha de uma família nobre.

Em idade, ela provavelmente era uns dois ou três anos mais nova que eu. Ainda havia juventude em seus traços. Ela finalmente me notou parada ao lado da porta e virou a cabeça em minha direção.

Seus olhos pareciam opacos, e pude ver olheiras escuras e fracas sob eles.

— …Quem?

Ela fez uma expressão que parecia meio caminho entre suspeita enfurecida e sonolência insuportável e inclinou a cabeça para o lado.

Eu não tinha certeza de como responder a ela.

— Sou uma bruxa viajante.

Ofereci a mais breve das apresentações.

— Vim aqui para pôr um fim aos problemas que seu familiar está causando na cidade — acrescentei.

— ……

Não tinha certeza do que ela achou do que eu disse. Ela apenas me encarou em silêncio, sem mudança em sua expressão.

Certamente ela deve estar ciente das coisas estranhas que estão acontecendo pela cidade.

Talvez ela se sentisse responsável pelo que estava acontecendo. Talvez estivesse preocupada com isso. Tinha certeza de que ela devia estar em uma posição mais difícil do que qualquer um na cidade. Então fiquei ali esperando que ela dissesse algo.

— Invasão. — Foi só isso.

— ……

Ela estava inesperadamente calma.

 

 

 

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Depois que Elaina e eu nos separamos, ouvi todo tipo de histórias dos moradores da cidade, mas não parecia haver ninguém que tivesse alguma pista promissora.

Aparentemente, as pessoas que moravam na cidade tinham visto o familiar muitas vezes, mas não tinham absolutamente nenhuma maneira de adivinhar onde ou quando a criatura elusiva poderia aparecer em seguida.

Eu estava perdida.

Mas minha perambulação não foi um completo desperdício de tempo.

— …O que é isso?

Justo quando eu estava pensando que não havia como encontrar o familiar por acaso, me deparei com algo muito estranho nos becos da cidade. Não tinha como saber se tinha ou não algo a ver com o familiar.

Bem no meio de um beco sujo, colocado ordenadamente em cima de um pequeno prato, havia um único pedaço de pão abandonado.

— ……

O que é isso, achados e perdidos? Mas está em um prato por algum motivo. Sinto que foi claramente deixado aqui intencionalmente. Espere, espere, isso deve ser uma armadilha.

— Meu Deus…

Quando olhei para cima, vi outro pedaço de pão mais adiante no beco.

Foi aproximadamente quando até eu, tão distraída quanto sou, notei que os pratos com pão continuavam infinitamente pelo beco.

— Ora, que desperdício…!

Peguei-os um por um e os enfiei na minha bolsa.

Nunca vi nada tão absurdo. Certamente isso deve ser uma armadilha que foi montada para pegar o familiar. Nesse caso, a pessoa que teve a estratégia de desperdiçar todo esse pão provavelmente deveria estar de tocaia no final da trilha.

Acredito que conheço alguém que comprou uma quantidade tão grande de pão recentemente.

Na verdade, eu estava com ela.

— Elaina… inacreditável.

Se não me engano, ela deveria estar a caminho de Karen, mas… o que diabos ela está aprontando? Na verdade, é ultrajante pensar que ela inventaria uma estratégia como essa que desperdiça tanta comida!

E assim, caminhei coletando pedaços de pão, para que pudesse repreender a Elaina, que eu supunha estar de tocaia no final desta armadilha ridícula.

Depois de prosseguir por um tempo, cheguei ao último pedaço de pão.

O pão fora disposto de forma agradável em pratos por todo o caminho, mas o último pedaço estava em um lugar incomum.

Estava pendurado sob um poste de luz.

 

 

Além disso, havia sido polvilhado abundantemente com um misterioso pó branco.

Muito suspeito…

Não tinha certeza se comer o pão te deixaria inconsciente ou apenas paralisado, mas estava bem claro que havia algo de errado com ele. A armadilha era óbvia demais. Mas eu tinha certeza de que nenhum mal me aconteceria, contanto que eu não o comesse.

Então, puxei o último pedaço de pão em minha direção e o peguei na mão.

— Elaina, onde… aaah!

— …você está? Saia agora. Caramba. — Era o que eu estava prestes a dizer. Mas o resto das palavras não saiu da minha boca. Em vez disso, no meio do caminho, foram cortadas por um grito indecoroso.

— ……

A armadilha entrou em ação assim que puxei o último pedaço de pão. Antes que eu percebesse o que estava acontecendo, eu estava suspensa sob o poste de luz, assim como o último pedaço de pão estivera um momento antes.

Ambos os braços estavam presos perto dos meus quadris, e ambas as pernas estavam contidas junto com minhas saias. Eu estava completamente indefesa, apenas balançando lentamente para frente e para trás sob a lâmpada.

Nada poderia ser mais miserável. E então…

Assim que chamas de vergonha e humilhação estavam prestes a irromper do meu rosto, a pessoa responsável por me pegar na armadilha saiu de seu esconderijo.

É a Elaina? Deve ser a Elaina. Não pode ser mais ninguém — foi o que pensei, até ver seu rosto.

— Nunca pensei que você seria tão fácil de pegar. Você pode ser um familiar, mas no final, ainda é apenas um cachorro.

Parada ali estava uma bruxa… mas não era a Elaina.

Ela usava um manto branco e um chapéu triangular branco, e em seu peito ela usava com orgulho tanto um broche em forma de estrela quanto um broche em forma de lua. Seu cabelo era loiro dourado, e ela tinha mais ou menos a mesma idade que eu.

— …… — Ela estudou meu rosto, congelado no lugar, com o cachimbo pendurado na boca.

— …… — Da minha parte, eu já estava fisicamente imobilizada, desde que fui pendurada.

Agora, se eu tivesse parado para pensar, teria percebido que, como havia uma organização no mundo cujo propósito era lidar com distúrbios mágicos, era bem provável que o governo aqui já tivesse entrado em contato com esse grupo antes de pedir ajuda a um casal de andarilhos. E que também era bem provável que outra maga já tivesse sido despachada da Associação Unida de Magia.

E assim…

…o rosto diante de mim era muito familiar.

Eu estava olhando para minha ex-colega aprendiz, Sheila.

— …O que você está fazendo? — ela exigiu friamente antes de soprar fumaça em minha direção.

— …O que parece que estou fazendo?

— Algo estúpido.

— …… — Eu a encarei em silêncio.

— …… — Sheila me encarou de volta em silêncio.

— …… — Eventualmente, desviei o olhar. — Hum, primeiro de tudo, você poderia me descer?

Sheila assentiu solenemente.

— E depois, podemos ir comer algo juntas. Por minha conta.

— Pare com isso. Não fale comigo com superioridade — bufei.

— Se estiver com pouco dinheiro, venha falar comigo. Eu te ajudo se precisar.

— Sério, pare com isso — você entendeu tudo errado de qualquer maneira — isso é…

— Claro, claro. Claro que vou ficar quieta sobre isso para sua aluna. Até ela ficaria triste se soubesse que sua estimada professora estava comendo da rua.

— Oh, não há problema aí. A Elaina já se cansou de me ver fazer isso.

Fiquei triste em admitir.

Por que estou dizendo isso a ela?

— …… — Sheila fez uma expressão extremamente complicada, depois bateu com a mão no meu ombro. — Podemos ir comer algo juntas. Por minha conta.

— Pare com isso. Não fale comigo com superioridade.

 

 

 

Separador Tsun

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— Imaginei que alguém viria mais cedo ou mais tarde — disse a garota depois de olhar para o broche no meu peito. Talvez ela não tivesse força suficiente para me expulsar, a invasora. Ou talvez ela me permitiu entrar porque percebeu que eu era uma bruxa.

Com uma expressão como se já entendesse tudo, ela disse:

— Suponho que você veio me matar?

……

Não, você não entende nada, não é…?

A garota provavelmente não tinha ideia do que eu estava fazendo ali.

— Não, hum… de jeito nenhum?

Por que você de repente pularia para uma ideia tão perturbadora? Você está tão cansada que está pronta para morrer?

— Eu só vim conversar… — insisti.

— E você está planejando me matar depois que conversarmos? Você não deve. Por favor, devo pedir que espere um pouco mais antes de me matar.

Não, estou te dizendo, não vim aqui para te matar, Karen… E de qualquer forma…

— Mesmo supondo que eu tenha entrado em sua mansão com a intenção de matá-la, eu teria terminado o trabalho enquanto você tirava sua soneca da tarde.

— …!

— O que há de surpreendente nisso?

Karen parecia invulgarmente confusa. A fadiga devia estar minando sua inteligência. As olheiras sob seus olhos me diziam que ela não vinha dormindo muito ultimamente.

— Tudo bem, então se você não veio me matar, o que veio fazer aqui?

— Acho que já disse isso, mas… — Imaginei que me repetiria. — …Vim aqui para pôr um fim aos problemas que seu familiar está causando na cidade.

— ……

Karen ouviu minhas palavras e, em seguida, olhou rapidamente para trás e ao meu redor, depois inclinou a cabeça e perguntou:

— Srta. Bruxa, você não tem um familiar?

— Como pode ver, não tenho.

— Então seu conhecimento sobre familiares é…?

— Bastante pobre, infelizmente.

— Então você não sabe realmente o que tem que fazer para parar um familiar?

— Bem, suponho que, quando você coloca dessa forma…

É por isso que vim te ver. Se eu soubesse por que você abandonou seu familiar e se trancou aqui, e como parar um familiar para começar, não teria me dado ao trabalho de invadir.

— Entendi.

Karen assentiu secamente.

Ou ela era uma pessoa naturalmente estoica ou apenas entorpecida pelo esgotamento. Ela manteve o olhar fixo no chão e não fez contato visual enquanto começava a me informar pouco a pouco.

— A palavra familiar descreve um animal que foi imbuído de poder mágico. Quando um familiar se rebela, há duas maneiras de detê-lo. Uma é dissolver a conexão que ele tem com seu mestre. Se você fizer isso, o familiar voltará à sua forma original. É até possível impedir que meu familiar ameace a cidade dessa forma.

Bem, que tal fazer isso, então?

As palavras cruéis chegaram à minha garganta antes que eu as detivesse.

Karen ficou trancada em sua casa apesar de saber uma maneira de parar o familiar, o que deve significar que não é um método fácil.

Pelo que eu podia ver, de qualquer maneira, a garota diante de mim agora parecia estar deprimida e de coração partido.

— O que você pode fazer para dissolver essa conexão? — perguntei.

— O que você fará se eu te contar? — Karen me perguntou em troca.

— Ajudá-la a fazer.

— Não preciso da sua ajuda — insistiu Karen bruscamente. — Este é o meu problema. Não tem nada a ver com você. Além disso, mesmo que você me ajude, não posso compensá-la em troca.

Bem, se é uma questão de pagamento, há uma chance de eu conseguir bastante de outra pessoa, então você não precisa se preocupar com isso.

— Se você não se sentiria bem sem me pagar de alguma forma, pode me contar a sequência de eventos que levaram à fúria de seu familiar. Que tal?

— …Por que você insiste tanto em me ajudar?

— Porque você parecia estar se sentindo desconfortável por não poder me pagar.

— Eu realmente não me sinto desconfortável com isso. É simplesmente que é minha culpa que meu familiar esteja causando tantos problemas, então se eu não resolver a situação sozinha, não significará nada.

— Você quer dizer que quer aceitar toda a responsabilidade pelo desastre que causou?

— É exatamente isso.

Entendi, entendi.

Um suspiro escapou da minha boca.

— Bem, tenho que pedir que você guarde esse tipo de pensamento cansativo para mais tarde — eu disse. — Você pode assumir toda a responsabilidade que quiser por soltar seu familiar na cidade depois que resolvermos o problema. Temos que fazer isso, não importa o que aconteça.

— …… — Ela me encarou em silêncio por um tempo.

E então, finalmente, Karen inclinou a cabeça e perguntou:

— E eu deveria confiar em você, uma bruxa que acabei de conhecer?

— Tudo bem se você não quiser particularmente confiar em mim. Mas pelo menos me deixe ajudar, por favor. No mínimo, será muito mais eficaz do que continuar sentada em sua mesa sozinha — respondi.

— ……

Karen respondeu apenas com silêncio. Ela olhou uma vez pela janela, depois para uma moldura de foto que estava em sua mesa. Depois disso, ela falou com muita relutância e disse:

— …Entendido. Então, farei uso de você.

Mas antes de começar o longo trabalho de reverter o familiar à sua forma original, outro pensamento me ocorreu.

— Isso me lembra, qual era o outro método para parar um familiar?

Como diabos podemos detê-lo, além de dissolver o vínculo que ele tem com você?

Karen respondeu secamente, sem me olhar.

— A morte do mestre — disse ela.

Se o mestre morre, o familiar também…

Percebi por que não havia mais familiares na mansão.

 

 

 

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— Há quanto tempo você está aqui? — Estávamos no beco.

Fiz a pergunta a Sheila com uma expressão composta, como se nada de estranho tivesse ocorrido nos últimos momentos. Ela bateu um pouco de cinza de seu cachimbo no chão próximo e respondeu:

— Fui enviada para esta cidade há cerca de uma semana. E você?

— Acabei de chegar hoje. Acontece que estou de visita, junto com minha aluna, Elaina. Pediram-nos para ajudar a capturar um familiar.

— …… — No momento em que ouviu o nome de Elaina, uma expressão ligeiramente estranha surgiu no rosto de Sheila, e ela assentiu. — Entendi.

— …O quê?

— Não, nada.

Ah, pensando bem…

— Sua aluna Saya está bem?

— …Recentemente, ela está… não, isso não é algo para discutir agora.

— ……?

— Mais importante, pode-se dizer que meu objetivo e o seu são mais ou menos os mesmos, hã?

— Sim, embora eu ficaria grata por qualquer ajuda que você pudesse nos dar.

— Claro, contanto que você não interfira no meu próximo plano.

— Oh, eu te atrapalhei em algo? Oh-hoh-hoh!

Não me lembro disso.

— ……

Sheila contorceu o rosto em uma expressão muito, muito grosseira.

De qualquer forma, revelei a Sheila que basicamente vinha coletando informações desde minha chegada à cidade. Também revelei que Elaina estava, naquele exato momento, a caminho da propriedade da maga.

— Hmm. — Sheila assentiu levemente, como se não se importasse. — Então você deixou para ela fazer amizade com a mestra do familiar?

— Sim. A captura dele foi deixada para nós, no entanto.

O paradeiro do familiar ainda era desconhecido. Não sabíamos nada sobre onde ele estava ou mesmo o que estava fazendo.

— Você obteve algum resultado depois de estar aqui por uma semana? — perguntei.

— Por enquanto, sei que o familiar gosta de pão — respondeu Sheila.

— Ah, então você entrevistou testemunhas para sua investigação. — Elaina e eu também obtivemos essa informação. — E? Mais alguma coisa?

— Aparentemente, ele não come pão que caiu no chão.

— ……

— O que mais?

— Isso é tudo.

— Isso é tudo?

Mas eu já sabia disso, e estou aqui há menos de um dia…

— É assim que essa coisa é difícil de rastrear. Procurei por toda parte por uma semana e, no final, ainda não o vi nenhuma vez.

— ……

Então é por isso que você recorreu a medidas desesperadas como deixar pão no meio da estrada… Bem, a única coisa que você pegou fui eu, no entanto.

Sheila coçou a cabeça, irritada, e cuspiu:

— …Para algo que aparece em todos os lugares, não parece estar em lugar nenhum. É um cachorro bem problemático.

— Ora, ora. Se ele pode aparecer em qualquer lugar, então talvez se você esperar por ele, ele simplesmente aparecerá mais cedo ou mais tarde.

Vamos pensar positivamente sobre isso.

— Você acha que eu estaria com tantos problemas se fosse realmente tão fácil?

Enquanto Sheila falava, seus olhos se voltaram na direção do poste de luz onde eu havia sido pendurada alguns momentos antes.

Um momento depois, eu olhei também.

Parecia que algo estava se movendo ali.

— ……

Naquele exato momento, lembrei-me de algo.

Lembrei-me de que, mais cedo, eu havia coletado todo o pão que Sheila havia espalhado pelo beco, colocando cada pedaço um por um na minha bolsa. Mas quando estendi a mão para o último pedaço e fui pendurada no ar, deixei a bolsa cair descuidadamente no chão. Então Sheila apareceu, e eu havia me esquecido completamente da existência do pão.

Lembrei-me desse fato naquele exato momento.

No momento em que avistei um familiar segurando minha bolsa na boca.

— …… — Sheila enrijeceu.

— …… — Naturalmente, eu também enrijeci.

Fiquei surpresa que o familiar tivesse aparecido de repente do nada, mas mais do que tudo, fiquei surpresa com sua aparência.

Parecia que os rumores não haviam sido exagerados.

Sua pelagem era preta. Seus olhos eram verdes. Suas presas eram afiadas e suas garras eram imundas. Sua forma realmente se assemelhava a um lobo em alguns aspectos, mas, mais do que tudo, era enorme — tão comprido quanto um homem adulto era alto. Com certeza, era enorme, assim como diziam os rumores.

Mas uma coisa, uma única coisa, era completamente diferente dos rumores.

O familiar era todo pele e osso.

Eu podia perceber mesmo através de sua pelagem preta. Seus membros eram finos como galhos, sua cauda caída e suas patas tremiam no chão. Soube na hora que devia estar morrendo de fome. E, no entanto, não comeu o pão que estava diante de seus olhos. Segurando a bolsa na boca, sem nem mesmo olhar em nossa direção — provavelmente não tinha nem energia extra para nos olhar — o familiar pulou para o telhado de uma casa próxima e desapareceu, arrastando uma perna atrás de si.

Tudo o que podíamos fazer era ficar ali, duvidando de nossos olhos, diante da visão espantosamente súbita.

Fiquei me perguntando se uma criatura em um estado tão enfraquecido poderia realmente ter ameaçado as pessoas da cidade.

— …Ei. — Sheila finalmente olhou de volta para mim. — Não deveríamos persegui-lo?

— …Suponho que sim.

Eu assenti e peguei minha vassoura.

Finalmente tínhamos uma pista sobre o familiar rebelde. Não íamos deixá-lo escapar.

Aparentemente, teríamos que investigar onde a criatura esteve e o que esteve fazendo antes de agora, antes de ficar tão magra.

Enquanto seguíamos o familiar, pensei que ele parecia muito, muito frágil.

 

 

 

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Segundo Karen…

Quando um animal fazia um pacto para se tornar um familiar, ele era infundido com magia e assumia uma nova forma. Tornava-se um servo, feito para obedecer a qualquer ordem de seu mestre e realizar qualquer tarefa.

Uma vez que mestre e servo estavam ligados um ao outro, o familiar ganhava a habilidade de pegar emprestada a energia mágica do mago, e suas habilidades físicas melhoravam à medida que sua forma mudava. Além disso, ganhava o poder de lançar feitiços e se tornava mais inteligente, ganhando até a habilidade de falar. Esses eram geralmente os tipos de mudanças que apareciam, disse Karen.

Mas era importante lembrar que as mudanças se aplicavam apenas enquanto o pacto era válido.

Então, se o pacto falhasse, o que aconteceria? Karen respondeu à minha pergunta extremamente razoável enquanto lia alguns documentos.

— Geralmente, quando um pacto falha, acontece antes da transformação. E, na maioria dos casos, resulta em morte no momento da falha.

— ……

Sinto que essa é uma circunstância um pouco diferente da situação atual com o familiar rebelde. Porque, na verdade, agora mesmo, esse familiar está andando livremente pela cidade.

— Se um familiar enlouquece depois que um pacto foi formado, então a pior coisa possível acontece — disse Karen. — Foi o que aconteceu com meu familiar.

— O que acontece com eles quando enlouquecem?

— Eles entram em um frenesi temporário e muitas vezes ferem ou até matam qualquer um por perto.

— ……

Isso parecia ser o que Karen estava enfrentando agora, enquanto continuava sua pesquisa isolada.

— Você disse ‘temporário’, o que significa que a fúria deles deve terminar em algum momento, certo? — perguntei. — O que acontece com eles quando acaba?

— Eles não são mais obrigados a seguir as ordens de seu mestre. Eles agem apenas por suas próprias intenções.

Isso provavelmente descrevia o familiar de Karen no momento. Meio preso por um pacto, mas não mais sob o comando de sua mestra, o familiar vinha rondando a cidade.

Um de dois meios poderia ser usado para dissolver o pacto.

Ou Karen tinha que morrer, ou o pacto defeituoso tinha que ser quebrado.

Karen me disse que havia sofrido um revés quando começou a procurar um método para rescindir o pacto mestre-servo. Não importava o que tentasse, ela não conseguia fazer a poção mágica de que precisava para isso.

Embora tivesse herdado todo tipo de livros sobre magia junto com sua propriedade, a receita para uma poção que dissolvesse o pacto entre mago e familiar não estava registrada em nenhum deles.

A ideia de fazer isso provavelmente fora impensável para qualquer uma das pessoas que viveram na casa antes dela.

— Tenho pesquisado o problema por meio ano, mas não tem corrido bem.

Tudo o que ela fez foi cobrir o chão com pedaços de papel, sem nada para mostrar. Pouco tempo para dormir, ela achou incrivelmente difícil tentar encontrar seu caminho através dos tomos mágicos.

Ela estudou, inventou uma receita para uma poção, misturou-a, falhou, e então repetiu o processo quase todos os dias. Vez após vez, ela o fez de novo e de novo, apenas para falhar a cada vez, destruindo o interior da mansão no processo. O lustre caiu, as pinturas ficaram sujas, e ainda assim, ela repetiu seus experimentos muitas vezes.

— …… — Peguei os documentos que estavam em sua mesa. — Entendo as circunstâncias agora. Primeiro de tudo, por favor, me dê todas as receitas de poções que você ainda tem em mãos.

— Mas todas as que eu misturei foram falhas…

— Mas se eu as misturar, podemos obter resultados diferentes.

— …Entendido. — Karen assentiu com relutância.

Depois que peguei as receitas dela, comecei a comparar os documentos em minhas mãos.

Não sei nada quando se trata de familiares, mas todo o meu outro conhecimento e experiência devem valer alguma coisa.

Então me sentei ao lado dela, de frente para a mesa, assim como ela estava.

— ……

— ……

Nós duas permanecemos em silêncio absoluto enquanto eu passava a caneta sobre o papel em surtos e descartava pedaços de papel jogando-os para trás.

Esquecemos o tempo e ficamos ali o dia todo até o sol se por. As horas passaram silenciosamente.

— …Pensando bem, aquele familiar era originalmente um cachorro?

De repente, me ocorreu perguntar, enquanto eu lia os documentos.

— Por que você pergunta…? — Karen olhou por cima do ombro, desconfiada.

— Oh, só porque ouvi um boato de que sua aparência é como a de um lobo.

Embora não fosse como se eu já tivesse visto o familiar, então eu só tinha as fofocas que coletei para me basear. Meu palpite aproximado era que se um cachorro ficasse maior, ele pareceria mais ou menos um lobo. Era quase simples demais.

— Errado.

E, aparentemente, meu palpite aproximado errou o alvo.

— Completamente errado.

Aparentemente, foi um erro total. Karen balançou a cabeça com tanta força que seu cabelo balançou.

— Você pode transformar seu familiar em qualquer forma que quiser. Uma vez que o vínculo entre mestre e servo é formado, o familiar pode se tornar qualquer coisa.

Bem, pelo que Karen diz, parece que a magia de transformação é uma grande parte da criação de um familiar, então suponho que faça sentido que ele assuma uma nova forma durante o processo.

Karen se afastou da mesa e se virou.

— Minha linhagem familiar cria familiares lobos há gerações, então meu familiar também assumiu a forma de um lobo, é só isso.

Então, nesse caso…

— Tudo bem, então que tipo de animal era para começar? — Eu estava apenas perguntando por curiosidade.

Eu estava meio interessada, só isso.

— ……

Em resposta à minha pergunta completamente natural, Karen hesitou, pareceu perplexa e seus olhos começaram a vacilar.

Devo ter perguntado algo que não deveria. Cometi um erro. Senti-me desconfortável com a maneira estranha como ela estava agindo.

— Meu familiar é…

E então, após uma breve hesitação, ela respondeu.

 

 

 

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O familiar, ainda segurando a sacola de pão na boca, acabou nos levando às ruínas de uma pequena fábrica nos arredores da cidade. Não havia sinais de pessoas, e não era difícil entender como ninguém teria notado o familiar se escondendo em um lugar como aquele.

Além disso, o familiar se locomovia saltando pelos telhados.

— Não é de surpreender que as pessoas digam que ele aparece do nada, hã? — Sheila assentiu para si mesma, escondida nas sombras para não ser notada pelo familiar. — Ninguém presta atenção em seus telhados.

— …Sim, de fato. — Eu assenti também, observando o familiar à distância.

O lobo de pelo preto desceu de um telhado e foi direto para uma pequena cabana que ficava em um canto da fábrica em ruínas.

Não havia hesitação em seu andar. Ele também não parecia cansado, embora estivesse tão instável que mal conseguia ficar de pé há pouco tempo.

O familiar apenas caminhou lentamente em direção à cabana.

— O que devemos fazer? Capturá-lo?

Sheila pegou sua varinha e olhou para mim. Comparado a antes, quando a criatura estava se movendo, parecia que seria fácil de apreender com magia.

— ……

Eu não respondi. Observando as ações do familiar de longe, apenas fiquei em silêncio.

Havia uma grande quantidade de comida espalhada ao redor da cabana em frente ao familiar.

Havia frutas, vegetais e pão — muita comida ali. O familiar colocou a sacola de pão que carregava em cima da pilha e ficou imóvel.

Ele não comeu nada da comida.

Provavelmente tem trazido comida para cá assim por um longo tempo. Mesmo de longe, pude ver os restos da comida que haviam sido espalhados em frente à cabana, como se alguém, ou algo, estivesse lá dentro.

— …O que ele está fazendo?

— ……

Novamente, não respondi.

Mas uma coisa que eu poderia ter dito sem dúvida era que, mesmo que não capturássemos o familiar hoje, ou amanhã, ou no dia seguinte, se continuássemos esperando, o familiar certamente voltaria a este lugar.

Não havia necessidade de tentarmos capturá-lo imediatamente.

Em pouco tempo, o familiar se retirou daquele lugar. Assim como quando chegou, moveu-se lenta e fracamente em direção à cidade.

— ……

— ……

No final, não capturamos o familiar. Mas não importava. Sabíamos que teríamos muitas outras chances, mesmo que não nos forçássemos a agir naquela ocasião.

Acontece que nossa decisão foi a correta.

Imediatamente após a partida do familiar, pequenas figuras saíram rastejando de dentro da cabana.

Vestidas com trapos esfarrapados, três meninas saíram, verificando os arredores.

 

 

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Naquela noite, quando voltei para o hotel, a Srta. Fran e Sheila estavam me esperando.

Elas me contaram como a Srta. Fran havia encontrado Sheila na cidade, e como Sheila estava trabalhando para o mesmo objetivo que nós.

Além disso…

— Enquanto isso, temos uma noção geral dos movimentos do familiar. Podemos capturá-lo a qualquer momento — disse-me a Srta. Fran com esperança, sem hesitação.

Mas…

— ……

Eu não estava exatamente feliz com a notícia.

Mesmo que pudessem capturar o familiar, eu não queria que o fizessem. Pelo bem de Karen e pelo bem do familiar.

— Como foram as coisas para você? — A Srta. Fran inclinou a cabeça.

Respondi francamente: — Agora estou trabalhando com a Karen para fazer uma poção mágica. Assim que aperfeiçoarmos a poção dela, devemos ser capazes de devolver o familiar à sua forma original.

Às minhas palavras, Sheila assentiu.

— É mesmo? Então, que tipo de animal era aquele familiar originalmente? — ela perguntou, me encarando. — Não suponho que fosse uma fera comum.

— ……

Fiquei em silêncio enquanto as duas me contavam sobre o espetáculo que haviam testemunhado naquela tarde.

Elas descreveram a figura do familiar, que apareceu basicamente como diziam os rumores, mas completamente mudado para pior. Contaram-me sobre as crianças de rua que viviam na cabana em ruínas.

E elas relataram as ações misteriosas do familiar e como ele só mostrava misericórdia para com as crianças, partindo sem dar uma única mordida na comida para si mesmo.

Sheila e a Srta. Fran, que testemunharam tudo do início ao fim, disseram-me que, no final, perderam totalmente qualquer inclinação para capturar o familiar.

— Deveríamos caçar um familiar que estava destruindo plantações e causando pânico entre as pessoas. Não testemunhamos tal comportamento do familiar que vimos mais cedo. Não posso deixar de duvidar que o familiar que vimos seja realmente uma ameaça para as pessoas. Você sabe algo sobre isso, Elaina? — A Srta. Fran olhou para mim.

Eu sei.

Eu sei porque fiz a Karen me contar sobre a forma original de seu familiar.

Eu sei por que o familiar está juntando pão e deixando-o na cabana. Eu sei de tudo.

— ……

Hesitante, abri a boca.

— O nome do familiar de Karen é Scieszka.

Contei-lhes a história do familiar e de Karen. Contei-lhes um conto de duas garotas.

As duas se conheceram quando Karen estava andando por um beco sozinha.

Scieszka estava perto da morte.

Seu cabelo preto estava preso em um único rabo de cavalo na parte de trás da cabeça. Seus olhos eram verdes. Sua pele era um pouco mais escura que a de Karen, e ela tinha hematomas e cortes por toda parte. Suas roupas estavam esfarrapadas, e Karen na verdade não conseguia dizer se estavam apenas gastas, ou se haviam sido rasgadas pelo que quer que tenha causado seus ferimentos. Parecia que ela nem estava usando roupas e estava apenas enrolada em um pano simples.

Imediatamente, Karen percebeu que Scieszka não estava em condições de andar sozinha.

Mas Karen ainda era uma usuária de magia inexperiente.

Ela não conhecia nenhum feitiço para curar os ferimentos de Scieszka.

— …Espere aqui, vou chamar alguém! — Karen gritou para a garota cujo nome ela nem sabia.

Na época, isso era tudo o que ela podia fazer para ajudar.

— Não. — Scieszka agarrou sua mão e a impediu. — Não adianta.

Segundo Scieszka…

Ela havia sido espancada pelo dono de uma padaria. Ela havia roubado um pouco do pão alinhado em uma prateleira da loja, fora perseguida até o beco, pega e levado uma surra.

— Eu sempre roubo de lá, sabe, então acho que cheguei ao limite da paciência do padeiro. Enquanto me batia, ele disse que ia fazer com que eu nunca mais roubasse de lá. Estou pagando pelos meus próprios erros, sabe. — A garota sorriu tolamente, ainda esticada de lado.

Para alguém que estava quase morta, ela de alguma forma parecia ter força suficiente para sorrir.

— …… — Karen olhou para Scieszka. — Então, há algo que eu possa fazer? — ela perguntou.

Scieszka respondeu: — Acho que gostaria de comer um pouco de pão. — Esse foi seu único pedido.

— ……

Karen se perguntou o que sua mãe faria em uma situação como essa.

Ela provavelmente não hesitaria em ajudar.

Ela decidiu que, se sua mãe estivesse ali, teria respondido ao pedido com um sorriso.

— Entendido. Tudo bem, vou comprar um pouco de pão. — Então Karen atendeu aos desejos de Scieszka.

Essa foi a primeira vez que Karen comeu pão vendido em uma padaria da cidade.

Ela não achou particularmente saboroso. Era duro, frio e não muito especial. Ela sentiu que o pão que sua mãe fazia para ela era muito melhor.

Mas ela imaginou que devia ter um gosto bom para os habitantes da cidade, porque Scieszka devorou o pão com gosto, chorando enquanto comia.

Misteriosamente, Karen e Scieszka pareciam estar ligadas pelo destino. Depois daquele dia, toda vez que ia à cidade, Karen encontrava Scieszka.

Uma vez, Scieszka estava sendo perseguida por alguém. Outra vez, Scieszka estava andando comendo um pão que provavelmente havia roubado. E outra vez, ela estava olhando para a vitrine de uma padaria com um olhar de determinação nos olhos. Scieszka aparentemente vagava por aqui e ali pela cidade a qualquer hora do dia e da noite, e toda vez que Karen a via, falava com ela.

— Pensando bem, ainda não te agradeci, não é?

Um dia, Scieszka colocou um embrulho nas mãos de Karen. Era macio e um pouco quente.

Dentro havia um único pedaço de pão barato.

— Obrigada pelo que você fez antes. Você me salvou.

Aparentemente, Scieszka gostava muito de pão. E ela deve ter pensado que Karen também gostava do que ela gostava.

Mas…

— …Isso não é roubado, é?

— Isso é confidencial. — Scieszka levou um dedo aos lábios e sorriu.

— O que confidencial significa?

— Significa que te contarei quando formos mais amigas.

— Mas é óbvio, mesmo que você não tente esconder.

Scieszka fora espancada quase até a morte e, no entanto, Karen a vira roubando de padarias muitas vezes desde então. A essa altura, mesmo que Scieszka não admitisse, Karen sabia perfeitamente de onde viera o pão que lhe fora entregue.

Ela não ficou feliz em receber bens roubados. Menos ainda se Scieszka tivesse arriscado a vida para roubá-lo, como fizera antes.

— Por que você rouba coisas?

Karen não conseguia entender por quê. Ela se perguntava como diabos Scieszka podia causar tantos problemas para outras pessoas e depois ficar tão calma com isso.

— Por quê? Porque não tenho outra maneira de conseguir as coisas. Alguém como eu não consegue um emprego decente. Não consigo nem me alimentar amanhã. Então não tenho escolha a não ser revirar o lixo ou roubar para sobreviver.

Scieszka não parecia pessimista.

Ainda falando em um tom de voz muito alegre, ela disse: — Não tenho outros meios de me virar, sabe.

Então Scieszka acrescentou: — Mas não estou infeliz — e se virou para olhar para Karen. — Acho chato viver a vida sentindo pena de si mesmo.

Karen sentiu como se Scieszka estivesse zombando dela, de uma forma indireta, por levar uma vida chata. Embora soubesse que Scieszka não tinha como saber o tipo de tratamento que recebia em casa, ela ainda sentia um pouco de amargura por isso.

Sobre o fato de que ela estava levando uma vida chata, presa em uma propriedade limitada, e sobre a garota que sorria feliz apesar de viver como uma ladra sem família.

Depois disso…

Karen começou a levar seu treinamento mágico muito a sério. Sob a instrução de sua avó, ela continuou praticando seus feitiços.

Claro, ela também continuou se encontrando com Scieszka sempre que ia à cidade.

Scieszka ensinou a Karen todo tipo de coisas. Como quais restaurantes jogavam fora as comidas mais saborosas, e como roubar pão de uma padaria, e como bater carteira.

A maior parte desse conhecimento não era necessária para Karen, mas Scieszka falava sobre isso sem ser solicitada, em conversas unilaterais.

Um dia, Karen disse a Scieszka um tanto cinicamente: — Para alguém que se recusou a responder se aquele pão era roubado ou não, você fala bastante.

Com um rosto composto, como sempre, Scieszka respondeu simplesmente: — Eu não disse que te contaria quando fôssemos boas amigas?

Então ela acrescentou: — Embora eu acho que se pode dizer que eu desviei da pergunta porque queria me tornar mais amiga. Nada envolve mais as pessoas do que um segredo suculento — disse ela.

As duas garotas se tornaram amigas.

Primavera, verão, outono, inverno — em pouco tempo, Scieszka e Karen conversavam animadamente sempre que se viam.

Scieszka era uma garota misteriosa. Ela vivia uma vida muito difícil, afinal. Sem ninguém ao seu lado, ela vivia cada dia sem saber se seria o último.

Ela deveria estar ansiosa, insegura. E, no entanto, ela estava sempre sorrindo.

— Vou te apresentar. Esta é a minha casa.

Um dia, Scieszka levou Karen às ruínas de uma fábrica e mostrou-lhe uma pequena cabana que fora construída com restos de madeira aleatórios. Pedaços de pano estavam espalhados sobre o telhado para que a chuva não entrasse na cabana e, da mesma forma, um lençol pendia sobre a entrada.

Era bem menor que o quarto de Karen. Pequeno demais para alguém morar.

Era o que Scieszka chamava de lar.

— …Não parece uma casa.

— Você deveria dizer: ‘Uau, que casa ótima!’ Mesmo que não queira dizer, sabe. — Scieszka inflou as bochechas e abriu a cortina de pano. — Eu também tenho uma família.

Várias meninas estavam sentadas lá dentro. As meninas, que se pareciam muito com Scieszka, estavam reunidas em volta de um livro aberto sobre uma tábua de madeira, lendo.

Quando levantaram seus rostos magros, todas sorriram.

— Bem-vinda de volta, irmãzona!

— Bem-vinda de volta!

— Ainda não tem comida?

Assim que as viu, Karen entendeu.

Ela sabia que as meninas na cabana eram crianças sem família, assim como Scieszka.

Foi quando Karen percebeu pela primeira vez que havia muito mais crianças nas mesmas circunstâncias que Scieszka.

E que Scieszka vinha dando o pão roubado e outros alimentos para meninas mais novas que ela.

— Irmãzona, como se lê esta palavra? — uma das meninas perguntou, segurando o livro e apontando para ele. Scieszka cantarolou por um minuto, olhando para o livro, mas ela provavelmente nunca aprendeu a ler e escrever.

— Desculpe, sua irmãzona é uma burra. Não tenho ideia — ela respondeu com um sorriso.

— Inútil!

— Totalmente!

As irmãs de Scieszka a provocaram.

— Ora, vamos! — Ela sorriu, como sempre. — Eu tenho um sonho, sabem.

A segunda primavera havia chegado desde que as duas garotas se conheceram.

Mordiscando pão roubado, Scieszka arrancou um pedaço e o colocou nas mãos de Karen enquanto dizia: — Eu sonho em economizar muito dinheiro e deixar a cidade quando for adulta, para abrir uma padaria em alguma terra distante.

Karen, segurando o pão que lhe fora dado, perguntou: — Você já fez antes? Pão, quero dizer.

— Claro que não. Mas já decidi o nome da minha loja.

— …Qual será?

— A Padaria Negra.

— …Qual é a inspiração para o nome?

— Meu cabelo é preto.

— Isso é muito óbvio.

— …Ah, espere. Não isso… que tal A Padaria Preta e Dourada?

— …E suponho que eu estarei trabalhando lá?

— Não só você, Karen. Vou contratar as meninas que moram comigo também, e nós cinco de alguma forma conseguiremos administrar o lugar. E… — ela continuou —, depois que conseguirmos isso, quero que essas meninas tenham vidas decentes. Não quero que elas passem pelo que eu passei. Quero que elas vivam honestamente, sem roubar. Eu já sofri o suficiente, e não há necessidade de essas meninas sofrerem o mesmo. Então quero economizar dinheiro o mais rápido que puder e sair daqui — disse ela.

— ……

Karen se maravilhou com Scieszka.

Ela sempre se surpreendia com sua amiga.

— Por que você está me contando tudo isso?

Scieszka havia contado a Karen cada pequena coisa sobre si mesma, como vivia sua vida, e que tipo de família ela vivia, e sobre seus sonhos.

Karen se perguntou por que ela havia feito isso.

 

 

— Você tem os mesmos olhos que eu — respondeu Scieszka casualmente, como se fosse a coisa mais óbvia.

— Que tipo de olhos?

— Olhos que querem escapar deste lugar o mais rápido possível. — Os olhos de Scieszka estavam claros enquanto ela falava.

Karen desviou o olhar de Scieszka, como se para escapar, e mordeu seu pão.

— Isso é terrível.

— Você deveria dizer que está delicioso, mesmo que não queira dizer.

Em pouco tempo, Karen começou a visitar a casa de Scieszka com frequência. Ela tinha muitos livros em sua mansão, e sabia ler e escrever.

Ela começou a ajudar as meninas com seus estudos. Os dias passaram pacificamente.

Desde que Karen começou a sair sozinha pela cidade, sua magia melhorou dia a dia.

— Perfeito. Não tenho mais nada a lhe ensinar — disse-lhe sua avó um dia.

Naquele ano, foi oficialmente decidido que Karen receberia um familiar em seu décimo quarto aniversário.

Scieszka foi convidada para a propriedade no dia do décimo quarto aniversário de Karen.

— Sua magia melhorou, graças à sua amiga, certo? Nesse caso, precisamos agradecê-la, como uma família.

A mãe de Karen ficou encantada e sugeriu a ideia de trazer Scieszka para a casa.

Karen honestamente se sentiu um pouco relutante com a ideia de trazer Scieszka. A mansão de sua família era obviamente muito luxuosa, enquanto Scieszka vivia sua vida sem saber onde ou quando conseguiria sua próxima refeição.

Karen se perguntou o que faria se a visita de Scieszka a fizesse se sentir inferior — ou a fizesse odiar Karen.

Então ela hesitou.

Mas Scieszka estava sempre tão alegre na frente de Karen.

Depois de hesitar por um tempo, Karen finalmente convidou Scieszka para sua casa.

— …Não parece uma casa.

Scieszka, parecendo surrada como sempre, parou em frente ao portão, olhando para a mansão com a boca aberta.

Quando Karen a mostrou por dentro, os criados, junto com os pais e a avó de Karen, saíram para cumprimentar as duas garotas.

Todos que saíram da casa para cumprimentá-las encararam Scieszka, horrorizados. Provavelmente porque ela era uma garotinha tão surrada. Eles provavelmente não conseguiam acreditar que uma criança tão suja era amiga de Karen.

Então Karen estufou o peito.

— Esta garota é minha amiga, Scieszka — disse ela claramente. — O fato de eu ter aprendido a usar magia é tudo graças a ela.

A avó de Karen soltou um suspiro, e os criados ficaram obviamente confusos. Não era de surpreender que todos estivessem tão perplexos, já que as duas amigas eram tão diferentes em status social.

Apenas uma pessoa sorriu ternamente para as duas garotas.

— Entendi — então você é amiga de Karen?

Era a mãe de Karen.

— É você quem tem cuidado da minha filha, não é? Obrigada. Espero que aproveite seu tempo aqui hoje.

A mãe de Karen acolheu Scieszka como uma convidada de honra.

Scieszka parecia faminta, então ela lhe deu uma refeição deliciosa. Scieszka estava suja, então ela a deixou tomar um banho. Scieszka estava usando roupas esfarrapadas, então ela a vestiu com a melhor roupa que tinham. Naquela tarde, Scieszka se encaixou perfeitamente na propriedade. Ela estava vestida com roupas bonitas e decorada com belos acessórios. Ela parecia ter vivido ali o tempo todo.

— Incrível… pareço outra pessoa.

O reflexo de Scieszka no espelho parecia o de outra pessoa.

— Você pode ficar com essas roupas — disse a mãe de Karen, colocando uma mão no ombro de Scieszka. — Cuide bem delas.

— Roupas tão bonitas, está mesmo tudo bem… eu ficar com elas?

— Sim. Não há problema. São extras de qualquer maneira, e além disso… — continuou a mãe de Karen —, …você é amiga de Karen, o que a torna da família.

Na família de Karen, as crianças eram tratadas como adultas a partir do dia em que recebiam seu próprio familiar.

No dia do décimo quarto aniversário de Karen, ao pôr do sol, toda a sua família se reuniu em um cômodo da mansão, incluindo os criados e os familiares.

Scieszka foi instruída a ficar ao lado da mãe e da avó de Karen.

— ……

Mas o estranho era que uma parte essencial estava faltando — o animal que se tornaria o familiar de Karen.

Karen presumiu que usaria um rato ou algo assim, como fazia durante os treinos. Ela tinha a impressão de que empregaria algum animal ou outro como seu familiar.

Mas não havia nenhum animal no altar.

— Mãe? — Karen nunca aprendera a produzir um familiar do nada. — E o animal…?

Ela olhou para a mãe com os olhos cheios de ansiedade. Sua mãe sorriu para ela com ternura, como sempre.

— Está bem aqui.

Karen não entendeu.

Não há nenhum animal em lugar nenhum. Os únicos familiares aqui já estão ligados por pactos mestre-servo; fora isso, são apenas pessoas.

— Bem aqui — disse sua mãe.

Parada ao seu lado, a amiga de Karen, Scieszka, apenas observava as duas, alheia ao que estava acontecendo.

— Esta garota se tornará seu familiar. — Então houve um jato de vermelho.

Caiu do pescoço de Scieszka, no chão. A mãe de Karen segurava uma faca curta. Quando Scieszka soltou um grito mudo e desabou, a mãe passou por cima da garota caída e se aproximou de Karen.

Então ela sussurrou em seu ouvido: — Tudo bem, Karen. Tente lançar o feitiço, assim como a vovó te ensinou.

Karen ficou espantada. Ela lutou para entender o que havia acontecido. Era como se o interior de sua mente estivesse em branco.

Sua mãe falou com ela com a mesma gentileza de sempre.

— Ficamos surpresos quando você a trouxe aqui, mas não vou te negar. Está tudo bem. Se esta garota é importante para você, tenho certeza de que você terá sucesso.

— Mãe…?

— Vamos agora. Rápido. Se você não fizer isso rapidamente, ela morrerá. Se você a transformar em seu familiar, a ferida cicatrizará. Se você não quer que ela morra, apresse-se e a transforme em seu familiar.

Karen olhou para baixo e viu Scieszka.

Ela viu Scieszka, sofrendo no chão frio, cuspindo sangue.

— Scieszka…

Ela chamou o nome de sua amiga.

— Vamos, rápido. — A mãe de Karen pegou sua mão e apontou sua varinha em direção a Scieszka. — Lance o feitiço rapidamente. Está tudo bem. Você consegue, assim como eu consegui uma vez. Sei que você fará um ótimo trabalho.

As roupas bonitas de Scieszka estavam sujas agora. Estavam cobertas de sangue, lágrimas e saliva.

Karen nunca havia questionado os costumes de sua família. Ela nunca se preocupou de onde eles haviam conseguido gerações de familiares, ou que formas eles tinham antes do ritual.

Finalmente, ela percebeu o quão tola havia sido.

— Ah…

Ela percebeu sua própria tolice depois que era tarde demais para voltar atrás, não importava o quanto se arrependesse.

Com a mão trêmula, Karen preparou sua varinha. Com um fluxo interminável de lágrimas, através de uma visão embaçada, soluçando inconsolavelmente, ela mirou.

— Aaah…! Aaaaaaaaah!

Amaldiçoando-se por sua própria ignorância, ela lançou o feitiço.

Naquele dia, Karen se tornou uma maga plenamente realizada de sua família.

Na poça de sangue no chão estava seu familiar, que havia assumido a forma de um lobo preto.

— Ótimo trabalho, Karen! Foi um sucesso! Dê uma olhada! É um ótimo familiar, não é?

— ……

A mãe de Karen acariciou sua cabeça feliz.

Karen deitou-se no chão e pediu desculpas repetidamente.

Por trazer Scieszka a um lugar como este. Por roubar qualquer chance de seu sonho se tornar realidade. Pelo fato de que ela não seria mais capaz de ajudar as meninas a se tornarem adultas esplêndidas.

Ela continuou pedindo desculpas ao lobo.

O ressentimento contra sua família corria em suas veias.

Ela os odiava — sua avó, que acreditava que empregar familiares era a única maneira correta de viver, e sua mãe, que na verdade nunca tivera a menor bondade. Do fundo do coração, Karen desejava escapar daquele lugar o mais rápido possível.

Do fundo do seu coração, ela desejava que tudo e todos desaparecessem.

Nesse momento…

O lobo preto mordeu o pescoço de sua mãe.

— O qu…!

Suas poderosas mandíbulas se apertaram em volta de sua garganta, cravando-se em sua carne de modo que ela não conseguia nem gritar. Continuou mordendo, até que sua expressão se contorceu de medo.

— Sua besta…!

Enquanto todos os outros estavam atônitos demais para se mover, a avó de Karen preparou sua varinha.

— Ei, Karen! — Ela olhou para a garota. — Pare esse anima… — Mas antes que pudesse terminar, o lobo mordeu seu braço.

— Aaaaaah! Aaah! O que você fez!

O que aconteceu em seguida foi como uma cena do inferno.

A mãe de Karen se levantou, sangrando, e disparou um feitiço — uma lâmina de força cortou a perna de Scieszka. Um lobo marrom mordeu a garganta de Scieszka, mas Scieszka fez o mesmo e rasgou a garganta do familiar da mãe de Karen. Cobertos de sangue, os dois rolaram no meio da sala. A avó de Karen tentou contê-los à distância, mas Scieszka deve tê-la visto e a mordeu na perna. O rosto da velha se contorceu de dor intensa, e ela atacou Scieszka, mas toda vez que acertava um golpe, Scieszka cravava suas presas cada vez mais fundo, rasgando a carne.

A primeira a morrer foi a mãe de Karen. Em seguida, sua avó, depois todos os criados que corriam tentando escapar. Ninguém saiu vivo.

— Ah… ahh…

No meio da sala, cercada por gritos e pelo jato de sangue, estava Karen, de cabeça baixa e soluçando.

Eventualmente, assim que todo o barulho cessou, ela ousou olhar para cima. Seus arredores estavam encharcados de sangue.

Gradualmente, ela percebeu que seu feitiço havia tido sucesso. O pacto com seu familiar havia definitivamente se firmado. Mas suas emoções intensas haviam levado seu familiar a um frenesi.

A cena macabra diante de seus olhos era o resultado.

— ……

Ela se perguntou o que Scieszka estava pensando, agora que a fúria havia passado e ela havia voltado a si, olhando para o mar de sangue que se espalhava diante dela. Scieszka examinou seus arredores com seus lindos olhos verdes e soltou um grito fraco, depois saltou para a saída da mansão, arrastando a perna atrás de si.

— Espere. Scieszka. Por favor, espere!

Karen caiu no chão, atordoada, e chamou seu nome.

Mas ela não sabia o que dizer para fazer Scieszka voltar. Ela havia transformado sua amiga em um monstro, e a fez matar pessoas, e não sabia o que poderia dizer depois disso.

No final, ela não disse nada.

O familiar de Karen desapareceu na escuridão da noite sem olhar para trás.

 

 

 

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Após o trágico incidente, meio ano se passou, mas não havia nada que Karen pudesse fazer sozinha. Ela apenas baixou a cabeça, impotente, e não realizou nada.

Ela sabia que tinha que transformar Scieszka de volta em humana o mais rápido possível.

Mas sua angústia confundiu sua mente e, como resultado, todas as suas poções foram um fracasso, e tudo o que ela fez foi destruir sua casa, sem nada para mostrar.

Mas isso foi porque ela estava enfrentando o problema sozinha.

— Primeiro de tudo, ficarei aqui na mansão vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, a partir de hoje. Então, vamos nos apressar e fazer essa poção.

Era o dia depois de eu ter relatado a situação à Srta. Fran e a Sheila.

Fui para a propriedade ao nascer do sol e comecei a pesquisar poções imediatamente. Karen parecia não ter dormido, e me encarou com uma expressão tão vazia que não consegui dizer se ela estava acordada ou dormindo.

— …Obrigada — ela murmurou. Foi uma reação automática.

Há quanto tempo essa garota não dorme?

— Você deveria ir descansar um pouco — sugeri.

— Não. — Para alguém que mal estava consciente, ela conseguiu responder com muita clareza quando me recusou. — Prefiro pesquisar a dormir.

— Hum, na sua condição, seria melhor você dormir do que conduzir pesquisas.

— Não. Prefiro pesquisar a dormir.

— ……

— Prefiro pesquisar a dormir.

Quando ela falou as mesmas palavras como um disco quebrado, desisti e soltei um suspiro.

Nós duas levamos nosso trabalho muito a sério. Karen escrevia a receita para uma poção, e então eu a misturava. O trabalho estava perfeitamente dividido. Embora eu também fizesse minha própria pesquisa sobre familiares enquanto Karen quebrava a cabeça com suas receitas.

— …O que você acha do composto nesta receita?

— Vou tentar misturar. — Dei uma olhada rápida na receita que Karen me entregou e então misturei um lote. — Terminado… e é uma poção de encolhimento.

— Hmm — pensou Karen. — …Não vai devolver um familiar ao normal, mas talvez possamos usá-la.

Não, não.

— Além disso, como efeito colateral, qualquer um que beber isso terá sua vida útil encurtada em cerca de cem anos.

— Isso não significaria morte instantânea?

— Esta foi um fracasso.

Mas ela não se desanimou e, em pouco tempo, Karen me trouxe outra receita.

— Que tal esta?

— Entendi, vamos tentar. — Misturei essa também. — Pronto. Esta é uma poção que pode criar um suprimento inesgotável de ouro.

— Entendi. Inútil.

Karen jogou o líquido de lado.

— Ah… hum, claro que é… sim.

Todos os dias, eu continuava misturando e misturando, e continuava balançando a cabeça não, não.

— Esta é perfeita, hã? — Segurei um pedaço de papel que continha uma receita de culinária comum.

— Olhe para isto. Eu fiz uma receita. — Karen orgulhosamente me trouxe uma folha de papel em branco.

Coisas tão ultrajantes aconteciam às vezes, talvez porque estivéssemos exaustas, mas, mesmo assim, continuamos o trabalho.

Por um, dois, três, quatro dias continuamos o trabalho, sem parar.

Manhã, tarde e noite, continuamos misturando poções mágicas que todas se revelaram fracassos.

E então, finalmente…

Depois de sofrer fracasso após fracasso, vagando pelos dias como um sonho, ou talvez um pesadelo acordado…

…Finalmente vimos a luz.

Aconteceu no quinto dia de nosso trabalho juntas na casa de Karen.

— Olhe para isto.

Entendi imediatamente que tipo de efeito a poção teria.

Comecei a misturar a poção imediatamente. Segui a receita, juntei os ingredientes, joguei-os em um caldeirão, infundi-os com magia e mexi enquanto a mistura fervia.

Karen adormeceu enquanto eu trabalhava, então fiz cada parte do trabalho sozinha. Mas não havia o que fazer. Afinal, eu estava provando apenas um pouquinho do sofrimento que ela passou muito antes de eu chegar.

É bom para ela ter um tempo para dormir profundamente.

— Descanse bem, Karen.

Coloquei um cobertor sobre seus ombros e a deixei dormir, de bruços em sua mesa.

Espalhadas ao seu redor estavam poções prontas.

 

 

 

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Dia um.

Olhando de cima, reconheci claramente o comportamento usual de Scieszka. Todos os dias, ela descia dos telhados para a cidade e revirava o lixo ou roubava alguma comida. Ela vivia da mesma maneira que sempre viveu.

Sua aparência havia mudado, mas suas ações eram as mesmas.

Ela roubava coisas e fornecia comida para as meninas que esperavam na cabana, mas raramente comia alguma coisa e apenas vagava de um lugar para outro.

Era assim que ela passava os dias.

Ela não sabia quem era, e ninguém a conhecia. Ela era apenas um monstro, e viveu assim por meio ano.

Sozinha.

Nunca encontrando ninguém cara a cara.

— ……

Mas esses dias acabaram.

Scieszka estava andando pela cidade quando se deparou com um pedaço de pão em um prato. A garota que fora transformada em um lobo preto cheirou o pão gentilmente, depois o pegou na boca e começou a andar. Depois de andar um pouco mais, havia outro pedaço de pão em um prato. Havia também uma sacola ao lado.

Claramente, isso era muito suspeito. Era uma armadilha óbvia.

Mesmo assim, Scieszka pegou o pão e avançou com as pernas frágeis, colocando ambos os pedaços na sacola. Ela devia estar pensando em fornecer pão para as meninas novamente.

Enquanto eu observava do alto, Scieszka vagou e vagou, pegando os pedaços de pão que estavam dispostos como marcos na estrada e os embalando na sacola.

E então ela avançou. Para o último pedaço de pão.

Ela parou sob um poste de luz.

— ……

Scieszka olhou para cima. Havia uma garota ali.

— Scieszka.

Seu cabelo dourado passava dos ombros, e seu manto era elaboradamente decorado por toda parte, e parecia muito, muito caro. Ela parecia filha de uma família nobre. Ela provavelmente tinha cerca de catorze anos, e ainda havia juventude em seus traços.

Quando ela se ajoelhou diante dos olhos do lobo preto, ela finalmente desabou.

— Sinto muito por ter te machucado… — disse ela, chorosa. Karen, a mestra do familiar, estava chorando.

O lobo preto não respondeu. Apenas semicerrou os olhos para Karen.

Finalmente, Karen abraçou Scieszka. Enquanto acariciava a pelagem preta, rígida e fofa, ela chorou, sorriu e se dirigiu à sua amiga.

— Deixe-me assumir a responsabilidade. Pelo resto de nossas vidas, por um longo, longo tempo, deixe-me reparar sua solidão… — disse Karen.

Em sua mão, ela segurava um pequeno frasco — a poção mágica que acabara de ser aperfeiçoada no dia anterior.

E então…

Enquanto Sheila e eu, junto com Elaina, observávamos do céu, Karen administrou a poção a Scieszka.

Dia um.

O primeiro dia após a conclusão da poção.

Seus longos, longos dias de solidão chegaram ao fim.

 

 

 

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Foi muito difícil para nós resumirmos tudo o que havia acontecido, mas conseguimos transmitir tudo à oficial do governo, sem esconder nada.

Explicamos que o familiar de Karen era uma garota — que era Scieszka. E que Scieszka certamente não estava causando tumulto pela cidade. Também explicamos que Karen não havia se isolado apenas por luto.

Dissemos à oficial do governo que o familiar nunca mais aterrorizaria a cidade.

Expusemos tudo em detalhes claros.

— …Entendo. É difícil de acreditar, ouvindo tudo isso tão de repente, mas…

Mas é a verdade.

Como três bruxas estão lhe dando o mesmo testemunho, seria problemático se você não acreditasse em nós.

Depois que ela terminou de nos entrevistar, a oficial nos disse que ia falar com Karen. Provavelmente para confirmar os fatos.

O resto seria decidido pelo povo da cidade. No final, éramos forasteiras e não teríamos mais nada a ver com o assunto.

Além disso, não era difícil imaginar como as coisas iriam para as duas garotas, mesmo sem nosso envolvimento.

Se eu tivesse uma preocupação, era que basicamente não havia nada de valor na casa saqueada de Karen. Parecia que seria muito difícil para ela levar uma vida normal assim.

— A propósito, tenho mais um pedido… — Inclinei a cabeça enquanto embolsava apenas algumas das moedas de ouro que a oficial me oferecera em pagamento.

— …O que é? — A oficial também inclinou a cabeça e franziu a testa, parecendo perplexa.

— Quero que você dê o resto para a Karen.

— ……

A oficial não disse nada por um tempo.

Talvez ela estivesse tendo dificuldade em entender o que eu estava fazendo. Ou talvez estivesse atordoada porque as duas pessoas ao meu lado também haviam feito a mesma coisa.

Mas, eventualmente, a oficial assentiu.

— …Entendido. Se é o que as senhoras desejam.

Então ela recolheu as três pilhas de moedas que estavam sobre a mesa.

Depois de divulgarmos tudo à oficial do governo, deixamos a cidade imediatamente.

Não havia necessidade de ficarmos mais tempo, e a Srta. Fran estava no meio de sua própria viagem de volta.

Se é que, eu já me sentia mal por termos ficado em uma única cidade por quase uma semana. O fato de ter levado tanto tempo para misturar a poção era o culpado.

— Vocês duas estão indo para o porto agora? — Sheila inclinou a cabeça.

Estávamos em frente aos portões da cidade. Sheila segurava seu cachimbo na boca como sempre, mas o vento soprava e a fumaça subia em espiral para o céu, então o cheiro não me incomodou tanto.

A Srta. Fran assentiu para ela.

— Isso mesmo. Esse é o meu plano. O que você está fazendo? — ela perguntou.

Sheila fez uma expressão ligeiramente amarga.

— Tenho outro trabalho para fazer. Acho que é aqui que nos separamos.

— Oh, que pena — disse a Srta. Fran prontamente, apesar das palavras. — Percebo que você é entusiasmada com seu trabalho, mas não se esforce demais, ok?

— Parece que estou?

— Eu estava apenas sendo educada.

— …… — Sheila encolheu os ombros. — Tenho inveja de vocês duas. Se eu pudesse, gostaria de voar para o porto também, mas… trabalho é trabalho. Infelizmente, não posso ir com vocês. — Ela já parecia bastante exausta. — Vocês não precisam se despedir de mim. Não é como se este fosse nosso último adeus, nem nada.

— Nos encontraremos novamente algum dia, então não sinta que tem que vir conosco. — A Srta. Fran sorriu.

Sheila inspirou fundo, expirou e soltou fumaça como um suspiro.

— É tão chato como suas responsabilidades aumentam à medida que você envelhece. Você não pode nem mais fazer o que quer. Eu gostaria de ir com vocês, mas não posso.

Sheila trabalhava na Associação Unida de Magia há muito tempo e provavelmente tinha muita responsabilidade lá.

Ela tinha o dever de ir de um lugar para outro e resolver incidentes como uma bruxa filiada à Associação.

Ela tinha o dever de dar aulas como professora.

Ela tinha o dever de ser a professora de Saya.

— …… — A Srta. Fran ficou um pouco perplexa. — Hum, não tenho certeza de como responder, agora que você disse algo assim tão de repente…

— …… — Sheila riu ao ver Fran daquele jeito. — Bem, aproveitem sua jornada a dois o máximo possível. O terceiro elemento está saindo agora.

 

 

E então, sem mais palavras de despedida, Sheila virou-se e foi embora.

Embora ela mantivesse as costas para nós, podíamos ver fitas de fumaça saindo de sua silhueta, e um odor que me fez contorcer o rosto de nojo foi trazido em nossa direção pela brisa.

Nós também viramos as costas para Sheila.

Nenhuma de nós sugeriu pegar nossas vassouras. Apenas começamos a andar lentamente.

Virei-me para olhar para a Srta. Fran.

— Fico me perguntando que tipo de lugar nos espera a seguir?

Ela olhou para mim e deu uma resposta vaga.

— Aposto que será um lugar bem perto da praia, onde o cheiro do oceano enche o ar.

Mas logo depois, ela acrescentou com um sorriso:

— Espero que seja um lugar maravilhoso.

Eu apenas disse: “Eu também”, e assenti, e continuei andando ao lado de minha professora como sempre.

Em pouco tempo, o cheiro de fumaça que me fez contorcer o rosto havia se dissipado. Sem nos virarmos, a Srta. Fran e eu pegamos nossas vassouras e partimos.

Em direção ao fim de nossa jornada juntas.


 

Tradução: Gabriella

Revisão: Axios

 

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