ORA, POR ONDE DEVO COMEÇAR? Ah, já sei. É importante falar sobre a relação entre mim e a Aisha.
Ela é minha tia. A mãe da Aisha era empregada da família Greyrat, sabem? Me contaram que o chefe da casa na época a tomou como amante, o que resultou no nascimento da Aisha. Dito isso, embora a mãe da Aisha tenha começado como amante, ela acabou se casando com o Paul – o chefe da casa naquela época – e se tornou uma de suas esposas oficiais. Ela nunca foi tratada como uma simples amante.
Quando nasci, Paul já havia falecido… Sua primeira esposa não estava mais em sã consciência, mas isso não significava que a mãe da Aisha tivesse assumido o poder na família nem nada do tipo.
Hmm, falando em voz alta assim, é bem complicado, né?
Resumindo: a Aisha estava numa posição complicada dentro de uma família complicada.
Houve um tempo em que eu não sabia bem como interagir com ela. Quando nasci, Aisha estava lá como empregada. Ela era minha tia, mas também a empregada da família. No entanto, meu pai nunca a tratou como tal. Ela era sua irmãzinha.
De qualquer forma, ela estava lá desde o dia em que nasci, cuidando de mim muito antes de eu entender o que acontecia ao meu redor. Por isso, ela era menos uma tia ou empregada e mais como uma irmã muito mais velha. Ou talvez como uma quarta mãe.
Isso mesmo: uma quarta mãe.
Vejam bem, nossa família tinha três mães. Nós as chamávamos de Mamãe Branca, Mamãe Azul e Mamãe Vermelha. Nomeadas pela cor de seus cabelos, é claro. Minhas mães me ensinaram todo tipo de coisa. A Mamãe Branca me ensinou conhecimentos gerais e como fazer amigos. A Mamãe Azul me ensinou sabedoria e como estudar. A Mamãe Vermelha me ensinou esgrima e como proteger alguém. Nossas três mães nos tratavam e nos amavam igualmente, e nunca questionamos o fato de termos três delas.
Mas não era assim que a nobreza de Asura costumava ter amantes, então, olhando para trás agora, era uma situação bastante única.
Assim como minhas mães, Aisha me ensinou todo tipo de coisa. Bem, não era exatamente “ensinar”, mas sim me ajudar a vivenciar em primeira mão as coisas que eu não entendia nos ensinamentos das minhas mães. Pensando bem, ela realmente agia mais como uma irmã mais velha, embora não fosse minha irmã de verdade.
Eu tenho duas dessas. Uma é a Lucie – Henry, é a sua avó. Ela sempre foi muito esperta. Seguia o que nossas mães ensinavam, levava a escola a sério e agia como uma irmã mais velha típica. Estava sempre me mandando estudar ou me exercitar. Minha outra irmã mais velha é a Lara. Talvez vocês nunca a tenham conhecido. Ela era preguiçosa naquela época, vou te contar. Quebrava as regras, matava aula e inventava todo tipo de travessura para fazermos juntos. Éramos bons amigos. Nem sei dizer quantas vezes levei bronca por participar dos esquemas dela.
Aisha não era nada parecida com elas. Ela não era como minhas mães nem como minhas irmãs. Era uma pessoa completamente única. Apenas ela mesma.
Se eu pedisse, ela faria qualquer coisa por mim. Não importava o quão egoísta eu fosse, ela fazia acontecer, sempre dizendo: “Nossa, você não tem jeito mesmo”. Ela podia ser bem rigorosa comigo, mas nunca me repreendia injustamente.
Sempre que eu estava triste, ela me segurava em seus braços e me dizia o que fazer. Não importava o quão mal eu me sentisse, sempre que ela me abraçava daquele jeito, meus sentimentos ruins voavam pela janela.
Quando eu era bem mais novo, houve uma época em que achei que ela era grudenta demais. Mas a Aisha sempre tinha razão. Praticamente toda vez que eu desobedecia e fazia algo diferente do que ela dizia, eu fracassava. Então ela aparecia e dizia: “Viu? Entendeu agora?”. E toda vez, eu franzia a testa e assentia.
Na infância, eu tinha a vaga sensação de que viveria minha vida inteira sendo protegido pela Aisha e fazendo o que ela mandasse. Parecia a coisa natural a se fazer. Olhando para trás, pode ter sido uma forma de lavagem cerebral. O estilo de ensino da Aisha roubava minha capacidade de pensar, fazendo parecer que tudo daria certo desde que eu fizesse o que ela dizia.
Não sei se isso era intencional da parte dela… Não, acho que não. Ela era apenas o tipo de pessoa que agia assim. Era uma de suas poucas falhas fatais.
Enfim, quando completei dez anos, minha família me deu vários presentes. Entre eles estava uma espada, uma shinken. A Mamãe Vermelha me disse para usá-la para proteger a pessoa querida para mim. Quando ouvi aquilo, foi o rosto da Aisha que me veio à mente.
Instintivamente, olhei para ela. Ela me devolveu o olhar como se fosse a coisa mais óbvia do mundo e, quando nossos olhos se encontraram, sorriu radiante. Lembro-me de ter ficado tímido e desviado o olhar.
Talvez aquele tenha sido o momento em que percebi que amava a Aisha, mas não disse isso em voz alta na época. Era vergonhoso demais.
Ou talvez fosse porque minha irmã Lara ainda era muito infantil, e a Lucie tinha acabado de começar a avançar em seu relacionamento com o amigo de infância, Clive. Eu achava que um romance desses estava num futuro muito distante para mim.
Mesmo na época, eu tinha a vaga sensação de que também era especial para ela. Teria sido impossível não sermos atraídos um pelo outro, não acham? Digo, talvez a Aisha tenha planejado que as coisas acontecessem assim… mas, mesmo se fosse verdade, eu estava apaixonado por ela. Ela foi meu primeiro amor, e aqueles eram meus sentimentos verdadeiros.
No fim das contas, o amor não é apenas uma série de jogos mentais? Assim que percebi o que sentia, agi rápido.
O que fiz em seguida?
Ah, eu lembro. Certo, certo. Isso foi um pouco depois do meu décimo aniversário. Naquela época, meu pai me disse algo, e… Bem, digamos que eu era ingênuo.
Eu tinha ganhado um livro do Lorde Orsted, e estava escrito numa língua que eu não sabia ler, então pedi para a Aisha ler para mim. Se bem me lembro, era mais ou menos assim…

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Há muito, muito tempo, existia um menino chamado Arus. Ele nasceu com uma vontade forte e possuía também grande força física. Quando teve idade suficiente para entender o que o cercava, seus pais já haviam partido deste mundo há muito tempo.
A aldeia onde Arus vivia ficava longe da cidade, e sua família, em particular, era bastante pobre comparada às outras, mas ele era feliz. Arus tinha um irmão mais velho sábio e confiável, e o resto dos aldeões os tratava bem. Arus era genuinamente grato por tudo isso e trabalhava com todo o seu empenho. Felizmente, Arus era um menino robusto, então havia muito trabalho que ele podia fazer.
Além disso, havia uma garota que ele amava. Ela era doente e vivia acamada, e na aldeia diziam que ela não duraria muito neste mundo.
Todos os dias, quando Arus terminava o trabalho, ia até a janela do quarto dela e conversava um pouco antes de ir para casa. Aquele pouquinho de tempo era precioso e insubstituível para Arus.
A garota não viveria por muito tempo, e não havia nada que ele pudesse fazer para ajudá-la. Talvez ela entendesse que não tinha muito tempo sobrando. Ela nunca pedia muito e parecia ansiar pelo tempo que passavam conversando. Arus pensava que passaria todos os dias assim até o dia em que a garota não estivesse mais lá.
Mas então, um dia, a garota olhou para o céu – o céu roxo e sinistro – e disse algo:
— Ei, Arus… Você sabia que antes do rei demônio aparecer, o céu tinha uma linda cor azul?
Arus sabia disso. O rei demônio estava vivo muito antes de Arus nascer. Um dia, o rei demônio construiu um exército e atacou a humanidade para tomar seu mundo. Assim que conseguiu conquistar metade dele, mudou a cor do céu apenas por diversão.
— Eu queria ver o lindo céu azul só mais uma vez antes de morrer — disse ela.
Aquele foi o primeiro ato de egoísmo que a garota expressou desde que os dois se conheceram.
Talvez descrever como “egoísmo” fosse forte demais. Ela poderia ter dito as palavras sabendo muito bem que seu sonho nunca se tornaria realidade.
Arus também sabia disso. Eles estavam apenas conversando como sempre faziam. Ela não estava pedindo nada a ele. Mas a expressão em seu rosto enquanto falava era tão vulnerável e frágil, como se ela já tivesse desistido há muito tempo de ver seu sonho se realizar.
Foi por isso que Arus tomou uma decisão: Ele mostraria a ela o céu azul.
No entanto, embora Arus possuísse força, ele ainda era apenas um aldeão comum. Faltavam-lhe conhecimento e sabedoria, e ele não sabia como devolver o azul ao céu.
Ele pediria conselhos ao irmão mais velho. Quando seus pais ainda eram vivos, enviaram o irmão muito mais velho para uma escola pequena, mas adequada. Sempre que Arus precisava de ajuda, sabia que devia procurá-lo.
— Irmão, eu quero tornar o céu azul de novo. O que devo fazer?
— Hmm… — O irmão de Arus ficou em silêncio, pensativo. Aquela era uma pergunta difícil até para ele. Depois de contemplar por um tempo, continuou: — Já que o rei demônio tornou o céu roxo, aposto que derrotá-lo faria voltar ao normal.
Quando Arus ouviu isso, decidiu ir até o castelo do rei demônio e rapidamente começou a se preparar para a jornada. Seu irmão mais velho viu o que Arus planejava e entrou em pânico.
— Irmãozinho, o rei demônio é um ser aterrorizante! Você será feito em pedaços só por chegar perto.
— Eu vou mesmo assim.
O irmão recuou diante da falta de hesitação do caçula. Ele sabia que, quando Arus ficava assim, não ouvia ninguém.
— Você não vai chegar ao rei demônio apenas vagando por aí. Primeiro, deve ir à maior cidade do país. Vou desenhar um mapa para você. Leve comida e um par de sapatos novos para a jornada.
O irmão mais velho fez tudo ao seu alcance para ajudar Arus a se preparar para a viagem. Ele sabia o quão devoto e determinado seu irmãozinho podia ser; ele nunca desistiria. No entanto, o rei demônio era avassaladoramente poderoso. Aquela era uma jornada da qual Arus não voltaria vivo. Mesmo assim, o irmão mais velho queria fazer tudo o que pudesse para mantê-lo vivo, nem que fosse por um segundo a mais.
Arus partiu em sua missão. Com um mapa na mão, um par de sapatos novos nos pés e a espada curta que herdara do pai na cintura, deixou para trás a garota que amava na aldeia.
Depois de algum tempo, ele atravessou campos e montanhas para chegar à maior cidade do país. Era a primeira vez que via um castelo enorme, bem como a primeira vez que via tantas pessoas em um só lugar.
Com tanta gente assim, alguém com certeza saberá onde encontrar o rei demônio, pensou ele ao observar tudo aquilo.
— Você quer derrotar o rei demônio? Nesse caso, vá ao castelo. A essa altura, eles precisam de toda a ajuda que puderem conseguir — disse-lhe uma pessoa.
Arus seguiu as instruções e dirigiu-se ao castelo. Era uma construção gigantesca, diferente de tudo que ele já vira antes.
— Quero derrotar o rei demônio — disse ele na entrada.
Concederam-lhe uma audiência com o rei. O rei estava sentado num trono de cor sóbria. Ele cumprimentava cada pessoa que vinha, mas quando chegou a vez de Arus, ficou muito surpreso.
— Você é apenas uma criança.
— Sim, mas desejo derrotar o rei demônio. Por favor, diga-me onde encontrá-lo.
— O que uma criança como você poderia esperar realizar? Volte para sua casa — disse um dos cavaleiros ao lado.
— Lutar é trabalho de adulto. Estamos aqui para proteger crianças como você.
Os outros adultos no salão de audiências disseram coisas semelhantes.
— Você é uma criança. Não deveria estar lutando. Vá para casa.
Não importava o quão alto Arus gritasse que queria derrotar o rei demônio, ninguém o levava a sério.
Mas a vidente que estava presente disse algo.
— Vá ver os cinco sábios. Tenho certeza de que eles o ajudarão, mas você não deve tentar lutar contra o rei demônio sem vê-los primeiro.
Arus seguiu o conselho da vidente e embarcou em uma jornada para ver os cinco sábios. Foi uma longa, longa jornada. Ele não sabia onde os sábios poderiam ser encontrados, mas acreditava, do fundo do coração, que enquanto continuasse procurando, os encontraria.
Ele caminhou por toda a terra e, toda vez que via alguém, perguntava se era um sábio. Eventualmente, fez progresso. Depois de cruzar um campo e um grande rio e explorar a caverna além dele, Arus encontrou um sábio. Ele tinha olhos vazios e cabelos verde-prateados. Ao seu redor havia vários escudos que brilhavam da mesma cor que seu cabelo.
— Olá, sábio.
— Olá, filho do homem.
— Meu nome é Arus.
— Eu sou Szilard, o segundo sábio. Vivo de acordo com minhas convicções.
— Eu tenho que derrotar o rei demônio. Você me emprestaria sua ajuda?
— Sinto muito, mas estou muito ocupado. Muito, muito ocupado.
— O que você está fazendo?
— Estou fazendo um escudo para uma criança num futuro distante. Tenho certeza de que choverão brasas sobre essa criança. — O sábio olhou para Arus e então fez uma pergunta. — Deixe-me perguntar algo, filho do homem. Por que deseja derrotar o rei demônio?
— Para que eu possa mostrar o céu azul à garota que amo.
— Oh, então você tem suas próprias convicções? Nesse caso, lhe emprestarei um escudo. Tenho certeza de que o manterá seguro.
— Obrigado, sábio.
Arus recebeu o escudo de Szilard e continuou sua jornada, mas ainda não sabia onde procurar. Ele simplesmente acreditava do fundo do coração que, enquanto continuasse sua busca, os encontraria. Ele caminhou por toda a terra e, toda vez que via alguém, perguntava se era um sábio. Eventualmente, encontrou outro.
Este sábio estava localizado na extremidade norte do país. Ele tinha um olhar afiado e cabelos branco-prateados. Nas profundezas da floresta gelada e nevada, ele havia construído um grande navio.
— Olá, sábio.
— Olá, filho do homem.
— Meu nome é Arus.
— Eu sou Dola, o terceiro sábio. Simplesmente vivo de acordo com minha lealdade.
— Eu tenho que derrotar o rei demônio. Você me emprestaria sua ajuda?
— Sinto muito, mas estou muito ocupado. Muito, muito ocupado.
— O que você está fazendo?
— Estou fazendo um barco para uma criança num futuro distante. Tenho certeza de que essa criança terá que viajar para longe através do mundo — disse o sábio. Ele então olhou para Arus e fez uma pergunta. — Deixe-me perguntar algo, filho do homem. Por que deseja derrotar o rei demônio?
— Para que eu possa mostrar o céu azul à garota que amo.
— Oh, então você tem sua própria lealdade? Nesse caso, lhe emprestarei meu navio. O rei demônio está longe, afinal.
Arus recebeu o navio de Dola e continuou sua jornada, mas ainda não sabia onde procurar. Ele simplesmente acreditava do fundo do coração que, enquanto continuasse sua busca, os encontraria. Ele caminhou por toda a terra e, toda vez que via alguém, perguntava se era um sábio. Eventualmente, encontrou outro.
Este sábio estava localizado nas profundezas de uma montanha. Ele tinha um olhar profundo e cabelos preto-prateados. Com seu enorme martelo, forjava aço em uma bigorna.
— Olá, sábio.
— Olá, filho do homem.
— Meu nome é Arus.
— Eu sou Chaos, o quarto sábio. Vivo de acordo com meu desejo de perseguir.
— Eu tenho que derrotar o rei demônio. Você me emprestaria sua ajuda?
— Sinto muito, mas estou muito ocupado. Muito, muito ocupado.
— O que você está fazendo?
— Estou fazendo uma espada para uma criança num futuro distante. Quero que essa criança sobreviva, sabe — disse o sábio. Ele então olhou para Arus e fez uma pergunta. — Deixe-me perguntar algo, filho do homem. Por que deseja derrotar o rei demônio?
— Para que eu possa mostrar o céu azul à garota que amo.
— Oh, então você tem suas próprias perseguições? Nesse caso, lhe emprestarei minha espada. Você será capaz de cortar o rei demônio com ela.
Arus recebeu a espada de Chaos e continuou sua jornada, mas ainda não sabia onde procurar. Ele simplesmente acreditava do fundo do coração que, enquanto continuasse sua busca, os encontraria. Ele caminhou por toda a terra e, toda vez que via alguém, perguntava se era um sábio. Eventualmente, encontrou outro.
Este sábio estava localizado em uma ilha no meio do oceano. Ele tinha um olhar poderoso e cabelos azul-prateados. Estava modificando um pedaço enorme de couro para fazer um bracelete.
— Olá, sábio.
— Olá, filho do homem.
— Meu nome é Arus.
— Eu sou Maxwell, o quinto sábio. Vivo de acordo com meu amor.
— Eu tenho que derrotar o rei demônio. Você me emprestaria sua ajuda?
— Sinto muito, mas estou muito ocupado. Muito, muito ocupado.
— O que você está fazendo?
— Estou fazendo um bracelete para repelir magia para uma criança num futuro distante. Sei que um ser maligno se aproximará dela — disse o sábio. Ele então olhou para Arus e fez uma pergunta. — Deixe-me perguntar algo, filho do homem. Por que deseja derrotar o rei demônio?
— Para que eu possa mostrar o céu azul à garota que amo.
— Oh, então você tem seu próprio amor? Nesse caso, lhe emprestarei meu bracelete brilhante. Ele repelirá o mal.
Arus recebeu o bracelete de Maxwell e continuou sua jornada. Mas o último sábio não estava em lugar algum. Ninguém sabia onde ele estava ou qual era seu nome.
Então, Arus começou a pensar. E se não houvesse um último sábio? O primeiro sábio que ele conheceu afirmou ser o segundo. Nesse caso, talvez ele nunca conseguisse encontrar o primeiro sábio?
Ainda assim, ele continuou sua busca. Procurou pelo sábio com tudo o que tinha, mas ainda não conseguiu encontrá-lo. Não importava o que fizesse, não conseguia encontrar o último sábio.
No entanto, Arus tinha uma espada, um escudo e um bracelete. Sob seus pés estava um navio que o levaria ao rei demônio. Arus olhou para tudo isso e pensou: Talvez eu consiga derrotar o rei demônio com tudo isso!
Ah, que grande infortúnio. O jovem Arus partiu para o rei demônio sem encontrar todos os cinco sábios. De fato, ele havia esquecido as palavras que a vidente lhe dissera.
O lugar onde o rei demônio habitava era um local terrível. Era cercado por um pântano venenoso e impossível de se aproximar por meios normais. Mesmo se você conseguisse de alguma forma atravessar o pântano, seria recebido por monstros gigantes e cruéis, bem como demônios que buscavam arrastá-lo para o caminho do mal.
Mas graças ao navio, Arus pôde cruzar o pântano facilmente, e podia afastar os monstros com sua espada e escudo. O escudo que ele tinha era muito resistente, bloqueando as garras e presas dos monstros. A espada era extremamente afiada, permitindo que Arus cortasse monstros ao meio com o mínimo de esforço. De vez em quando, demônios sussurravam em seu ouvido que ele poderia usar aqueles mesmos itens para se tornar o rei dos humanos, mas Arus não conseguia ouvi-los. O bracelete repelente de mal o protegia dessas palavras.
Eventualmente, Arus chegou diante do rei demônio.
O castelo negro em que ela vivia era várias ordens de magnitude maior do que os castelos onde os humanos viviam, e muito mais ameaçador também.
— Bwahaha! Você fez bem em chegar até aqui, criança humana! Que negócios tem comigo?!
O monstro aterrorizante conhecido como rei demônio tinha um corpo maciço, uma boca grande e cabelos roxos.
— Quero que você faça o céu voltar ao normal. Pela garota que eu amo.
— Não posso fazer isso! Acontece que eu adoro o céu roxo! Bwahaha!
O rei demônio recusou-se a ouvir o pedido do menino. Ela não entendia o significado das palavras “Pela garota que eu amo”.
— Nesse caso, vou fazê-lo voltar ao normal cortando você!
Assim, Arus engajou o rei demônio em batalha. Ele avançou confiantemente em direção ao monstro com sua espada, escudo e bracelete. Mas oh, como o rei demônio era ágil! Ele se movia como se pudesse ver o próprio futuro enquanto desviava da espada de Arus. Não importava o quanto ele brandisse sua arma, não conseguia atingir o rei demônio.
— Bwahaha! Você nunca vai me acertar, nunca vai me arranhar! É a minha vez agora!
O rei demônio riu enquanto lançava seu punho contra Arus. O menino ergueu seu escudo e bloqueou o punho maciço dele.
— Aaah!
Infelizmente, no momento seguinte, o rei demônio agarrou o escudo e o arremessou, junto com Arus, para o ar. Ele se chocou contra a parede, onde tremeu de medo. A espada e o escudo que recebera dos sábios não surtiram efeito no rei demônio.
— Vou esmagar você e comê-lo, começando pela cabeça. Bwahaha! Vou te despedaçar!
O enorme rei demônio se aproximou do menino. Arus correu com tudo o que tinha. Apesar de sua vontade forte, ao enfrentar o verdadeiro medo pela primeira vez na vida, não conseguiu mais ficar e lutar. Jogou sua espada e escudo para o lado, tirou o bracelete e fugiu do rei demônio sem nada consigo.
Depois disso, Arus vagou pelas terras do rei demônio. O miasma do pântano venenoso lentamente corroía seu corpo. Mas era um tipo diferente de veneno que corroía seu coração. Esse veneno chamava-se “resignação”.
— Eu fugi. Mesmo com a garota que amo esperando por mim.
Em sua dor, ele vagou pela terra, de cabeça baixa. Mesmo com a espada e o escudo, não conseguira derrotar o rei demônio. Lágrimas fluíam de seus olhos e deixavam manchas úmidas no chão.
Um demônio maligno que devorava a tristeza aproximou-se de Arus, que havia perdido seu bracelete protetor. Ele lambeu as lágrimas de Arus e sussurrou em seus ouvidos.
— Saudações, pequeno herói. Qual é o problema? Você está derramando lágrimas saborosas.
— Não consigo derrotar o rei demônio.
— Claro que não. Afinal, o rei demônio é muito, muito forte. Mesmo se não fosse, você é apenas uma criança pequena.
— Eu quero fazer o céu voltar ao normal.
— Claro que não pode. Afinal, você é apenas uma criança impotente.
— Então o que devo fazer?
— Não há nada que você possa fazer. Você não pode crescer, e não pode se tornar mais poderoso. Não há nada que você possa fazer.
Arus levou a sério os sussurros do demônio e perdeu-se em seu pessimismo. Caminhou em direção à borda do pântano venenoso.
Considerou se atirar lá dentro. Se o fizesse, seu corpo minúsculo certamente derreteria até sumir num instante. Ele não tinha mais nada a perder. Arus estava prestes a fechar os olhos e se deixar cair, mas logo antes que pudesse, notou uma construção estranha ao longe. Era uma casa esquisita que parecia um casco de tartaruga colocado sobre um buraco.
— O que é aquele lugar? Você sabe alguma coisa, demônio?
Mas o demônio havia desaparecido. Não importava para onde Arus olhasse, não conseguia encontrá-lo. Na verdade, em algum momento, toda a área fora inundada por energia sagrada. Parecia que a energia sagrada estava sendo projetada daquela casa. Certamente, alguém muito sagrado vivia lá. Com isso em mente, Arus entrou cautelosamente na casa.
— Olá, filho do homem. Qual é o problema? Este não é o tipo de lugar onde uma criança tão jovem como você deveria estar.
Dentro da casa havia uma pessoa com olhos gentis e cabelos vermelho-prateados.
— Meu nome é Arus. Eu queria tornar o céu azul de novo, mas perdi contra o rei demônio.
— Joguei fora meu nome. Não há lugar ao qual eu pertença. Sou o primeiro e último sábio. Vivo de acordo com minha missão.
Aquelas palavras agitaram uma memória dentro de Arus. Ele tinha que conhecer os cinco sábios. Não deveria ter lutado contra o rei demônio sem conhecer todos os cinco sábios primeiro. Ao lembrar disso, Arus sentiu uma misteriosa sensação de coragem borbulhando por dentro. As coisas não estavam perdidas. Ele apenas cometera um erro.
— Eu sou Arus. Primeiro e último sábio, você me emprestaria sua ajuda para que eu possa derrotar o rei demônio?
— Sinto muito, mas estou muito ocupado. Muito, muito ocupado.
— O que você está fazendo?
— Estou acumulando poder para uma criança num futuro distante. Há um inimigo que ela deve derrotar — disse o sábio, depois olhou para Arus e lhe fez uma pergunta. — Deixe-me perguntar algo, filho do homem. Por que deseja derrotar o rei demônio?
— Para que eu possa mostrar o céu azul à garota que amo.
— Oh, então você tem uma missão própria? Mas diga-me, você está realmente fazendo isso pela garota que ama?
— Claro. Ela quer ver o céu azul.
— Entendo. Nesse caso, lhe emprestarei um pouco do meu poder. Vá e derrote o rei demônio.
Assim, Arus recebeu poder do primeiro e último sábio. Da perspectiva do sábio, era apenas uma pequena porção de seu poder, mas ainda assim era avassalador. Com aquele poder, Arus aprendeu a verdadeira maneira de usar sua espada e escudo. Aprendeu como aumentar o brilho de seu bracelete. Aprendeu como pilotar seu navio no céu.
Arus embarcou em seu navio e voou para o castelo do rei demônio. Pegou seu bracelete, que havia deixado cair em frente ao castelo, e ele explodiu em uma luz ofuscante. Como se convocados pela luz, sua espada e escudo retornaram para ele.
— Bwahaha! Então você voltou, criança?! Desta vez vou comê-lo inteiro! Eu adoro comida deliciosa, sabe!
Sua segunda batalha com o rei demônio começou, mas desta vez, Arus havia adquirido poder. Quando brandiu sua espada, cortou o rei demônio. Quando ergueu seu escudo, o mandou voando.
Com um poder tão avassalador ao dispor de Arus, o rei demônio não teve chance.
— Gah!
O rei demônio foi perfurado pela espada de Arus e ergueu a voz em agonia antes de morrer. Sete cores de luz irromperam de seu cadáver e, como se respondessem ao chamado da luz, a cor do céu voltou ao normal.
Arus ficou aliviado ao olhar para cima e ver um céu azul. Era o que ele e a garota que amava ansiavam por todo esse tempo.
Arus percebeu que precisava voltar para ela o mais rápido possível – mas não podia ainda. Tinha que devolver o que pegara emprestado.
Primeiro, visitou o primeiro e último sábio. Arus devolveu seu poder.
Depois, visitou o quinto sábio. Arus devolveu seu bracelete.
Depois, visitou o quarto sábio. Arus devolveu sua espada.
Depois, visitou o terceiro sábio. Arus devolveu seu navio.
Depois, visitou o segundo sábio. Arus devolveu seu escudo.
Após devolver tudo o que pegara emprestado, retornou à grande cidade, a cidade dos homens. Foi lá que uma enorme festa estava sendo realizada. Com o retorno do céu azul, as pessoas souberam que o rei demônio não existia mais. Quando Arus voltou ao castelo, o rei ergueu ambos os braços em celebração.
— Oh, Arus, o herói, muito bem! Você derrotou o rei demônio! Este país é seu. Você pode ficar com minha filha também! Por favor, gostaria de se tornar o próximo rei?
Arus recusou a oferta do rei. Disse-lhe que a garota que amava estava esperando por ele. Arus agradeceu à vidente, e então se preparou para voltar à sua aldeia.
Finalmente, Arus voltou para casa. Muito tempo havia se passado desde que partira em sua missão, mas ele havia recuperado o céu azul. Agora ia mostrá-lo à garota que amava. Ia vê-la sorrir.
Mas quando voltou à aldeia, a cabeça de seu irmão mais velho estava baixa, uma expressão triste no rosto.
— Irmão, por favor, levante a cabeça. O céu está azul. Eu derrotei o rei demônio.
A expressão de seu irmão não mudou.
— Vou mostrar para a garota que amo. Quando ela ver como o céu está azul, sei que ficará muito feliz.
Suas palavras só pareceram deixar o irmão mais triste. Foi então que Arus perguntou:
— Meu irmão, por que você parece tão triste?
— Oh, Arus… É… Ah… Mantenha a calma e me escute. Ela morreu.
— Quem morreu?
— A garota que você ama. Ela faleceu esta manhã.
Ao ouvir isso, Arus sorriu. Estava triste, sabia que ficaria solitário, mas sorriu mesmo assim.
— Se ela faleceu esta manhã, tudo bem. Isso significa que deve ter visto o céu azul. Ela sorriu quando partiu deste mundo, certo? Ela sorriu enquanto falava de como o céu estava lindo, não foi?
— Não. Ela chorou. Chorou por não poder ver você. Disse que, embora o céu estivesse num lindo azul, ela se importava mais em ver você de novo. Ela chorou o tempo todo.
Arus ficou horrorizado. Não tinha realizado o sonho dela?
Não, não tinha. O que ela realmente queria era estar com ele. Queria valorizar o breve tempo que lhe restava com ele. Era isso que ela verdadeiramente desejava.
— Aaah…
Arus caiu de joelhos diante do irmão. Toda a cor desapareceu de seus olhos enquanto uma única lágrima escorria por sua bochecha.
A partir de então, Arus continuou a chorar e chorar. Não havia esperança. Ele havia estragado a coisa mais importante de sua vida.
E ele chorou e chorou até o dia em que morreu…

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— Fim! — Aisha fechou o livro após terminar a história. — Hum, esse final foi meio sombrio, né? Acho que a moral da história é que a verdadeira felicidade está mais perto de você do que imagina. Mas prefiro finais felizes, para ser sincera.
Eu estava sentado no colo dela, encarando a capa do livro.
— Isso provavelmente é da época da Primeira Grande Guerra Humano-Demônio, então talvez seja uma versão da lenda do herói Arus? É um pouco diferente da que eu conheço. Nenhum dos aliados dele aparece nesta, e tem um sábio a mais do que deveria. Além disso, a moral da história está meio errada. Para quem é isto, afinal? Acho que é isso que acontece quando você faz sua própria versão das coisas.
Aisha girou o livro nas mãos enquanto compartilhava suas observações. Era um texto antigo, mais antigo que qualquer outro que a família Greyrat possuía. A capa era feita de couro branco. Nem mesmo Aisha sabia que tipo específico era, mas era um tom familiar.
Por mais antiga que fosse a capa, não havia uma única rachadura nela, embora o papel em si estivesse em frangalhos. Dito isso, se o livro foi escrito imediatamente após o fim da Primeira Grande Guerra Humano-Demônio, poderia-se argumentar que o papel era, na verdade, incrivelmente durável.
O livro chamava-se A História de Arus – um nome desprovido de qualquer ostentação.
— Li isto para você porque pediu, mas onde conseguiu? Está escrito na Língua do Deus da Luta.
— Peguei no escritório do Senhor Orsted.
— Hã? Não me diga que pegou sem pedir. Você não deve fazer esse tipo de coisa.
— E-eu não peguei! Quando fui com o papai lá para passar o tempo, vi na estante e só meio que folheei. O Senhor Orsted disse que eu podia levar para casa…
Eu devia parecer bem decepcionado com a história na época. Não lembro bem o que passava pela minha cabeça, mas recordo de ter ficado bem chocado com o final – foi terrivelmente trágico. Como eu tinha o mesmo nome do protagonista, Aisha se dedicou ao máximo para ler para mim.
Talvez isso tenha contribuído para que eu sentisse uma empatia exagerada pelo protagonista.

— Ei, não esquenta essa sua cabecinha. Você vai conseguir encontrar a felicidade direitinho, Arus.
Aisha me abraçou e bagunçou meu cabelo. Isso costumava me animar quando eu estava de mau humor, mas só quando eu era pequeno. Depois que completei dez anos, ficou mais difícil me distrair dos meus sentimentos.
— Ei, Aisha?
— O que foi?
— O que o Arus poderia ter feito diferente para encontrar a felicidade?
— Hã? Bem, hum, se ele tivesse ficado com a garota, ela ainda teria morrido. Talvez ele pudesse ter deixado o rei demônio como estava e pedido aos sábios para salvá-la em vez disso. Então, eles poderiam ter se casado e vivido felizes para sempre. Quer dizer, se Arus, o herói, não derrotasse o rei demônio — neste caso, a Lady Kirishika, eu acho —, então o mundo nunca estaria em paz, mas duvido que a humanidade tivesse sido exterminada durante o tempo de vida deles, pelo menos — respondeu Aisha enquanto matutava sobre a questão.
Ela deve ter achado que era uma resposta perfeita, mas, na época, eu não fiquei satisfeito. Franzi a testa e fiz uma careta.
— Aisha? — perguntei.
— O que foi?
— O que é casamento?
— É quando duas pessoas que se amam ficam juntas.
— Eu sei disso. Quero dizer, o que exatamente se faz?
— Vocês moram juntos na mesma casa, claro. Comem a mesma comida, têm filhos, criam eles…
— Como se têm filhos?
— Uh, tenho que começar por aí? Não tenho certeza se, hum, sou eu quem deveria te ensinar sobre isso. Acho que você devia perguntar para a Mamãe Branca ou a Mamãe Azul — respondeu Aisha, com o rosto levemente vermelho.
Talvez ela tenha pensado que eu estava perto da idade em que me interessaria por esse tipo de coisa.
— Então ser feliz significa se casar e ter filhos? — insisti.
— Acho que sim, é.
— É mesmo? Essa é realmente a verdadeira felicidade?
— Hum, não sei. Meu irmão é feliz, com certeza, mas eu não sou casada, então…
— Por que não?
— Não tem ninguém que eu ame desse jeito. Digo, eu amava meu irmão – seu pai –, mas isso era um pouco diferente do amor que se precisa para casar com alguém. Na verdade, muito diferente. Talvez porque somos irmãos de sangue.
Não fiquei particularmente satisfeito com essa revelação. Afinal, estava ouvindo que meu primeiro amor tinha amado meu próprio pai. Ela disse que era um tipo diferente de amor, mas eu não tinha como saber o que isso significava, e havia uma outra preocupação que eu tinha.
— Papai disse que recebi uma proposta de casamento — falei.
— Hã?
— Ela é da realeza de Asura e tem mais ou menos a mesma idade do Sieg. Ele disse que se eu gostar dela, poderíamos ficar noivos.
Aparentemente, era a primeira vez que Aisha ouvia isso. Descobri mais tarde que ela ficou bem chocada com a notícia. O menininho na frente dela estava potencialmente ficando noivo. Se isso acontecesse, nos casaríamos depois de atingir a maioridade. Aquele menininho, de quem ela cuidava desde que nasceu… noivo?
— Ah.
Mas Aisha era tão inteligente quanto realista. Se eu me casasse com a família real de Asura, seria parente da Ariel. Ariel estava tentando manter um relacionamento forte com meu pai, e um casamento era uma ótima maneira de garantir isso. Se minha futura noiva fosse mais nova que eu, então era até possível que fosse filha da Ariel. Essa linha de raciocínio foi suficiente para fazer Aisha aceitar a notícia rapidamente.
— Bem, você é o filho mais velho, então acho que essas coisas acontecem — disse ela.
— Vou ser obrigado a casar com ela?
— Não se preocupe. Se disser ao seu pai que não quer, tenho certeza de que ele vai entender. Mas você realmente não quer se casar?
— Quer dizer, como posso me casar com alguém que nunca nem vi?
— Com que tipo de pessoa você quer se casar, então?
Da perspectiva da Aisha, não havia nada mais profundo por trás dessa pergunta. Ela provavelmente esperava que eu dissesse algo como Uma garota com peitões! Quer dizer, eu gosto de uma boa comissão de frente – quem pode me culpar? Sempre que vejo uma garota assim na beira da estrada, não consigo evitar de acompanhá-la com os olhos. Sou assim desde pequeno. Diabos, todo mundo sempre sussurrou sobre como eu ia virar um mulherengo quando crescesse.
Mas não foi isso que eu disse. Mandei a real para ela.
— Quero me casar com você, Aisha.
— Hã?! Comigo? — Aisha me encarou com os olhos arregalados.
Eu estava incrivelmente sério. Talvez o mais sério que já estive na vida até aquele momento.
— Hum, err… — Ela pausou. — Você devia desistir disso. Digo, sou uma velha comparada a você. Vai se arrepender se casar comigo. Vai desejar ter casado com alguém mais jovem para sempre.
— Não me importo com a sua idade. Quer dizer, a Norn e o Ruijerd têm uma diferença ainda maior, não têm?
— O Ruijerd é um demônio, então ele não parece velho.
— Então isso não significa que ele se casou com alguém que vai envelhecer mais rápido que ele?
— Bem, acho que sim, é.
— Nesse caso, a idade não importa. Eu te amo, Aisha.
Não quis dizer aquilo como um elogio ou de brincadeira. Eu estava verdadeira e genuinamente sério. Tenho certeza de que Aisha já tinha recebido declarações pelo menos algumas vezes. Ela teve a chance de conhecer muitos homens enquanto trabalhava no Bando de Mercenários, mas eu estava tão sério quanto eles em relação a ela – não, muito mais sério.
— Hum — murmurou ela.
Aisha e eu nos olhamos por um tempo. Não faço ideia do que ela estava pensando enquanto me olhava naquela época.
Bem, ela podia estar pensando que eu era exatamente igual ao meu pai. Para ela, meu pai era alguém que ela respeitava, alguém que era engraçado e até charmoso.
Continuei a olhar para o rosto dela. Eventualmente, pouco a pouco, ela começou a ficar vermelha. A expressão dela mudou um pouco também, vejam só. Ela não estava com aquele sorriso felino de sempre. Seus olhos estavam bem abertos, os lábios franzidos, e eu podia notar que o coração dela estava acelerado. Se tivesse acontecido agora, tenho certeza de que teríamos nos beijado. No entanto, Aisha conseguiu se conter.
— Heehee. Obrigada, mas não — disse ela finalmente.
— Por quê? Você me odeia?
— Não, não é nada disso. Somos basicamente como irmãos. Não tem como seu pai, suas mães ou minha mãe permitirem isso — disse ela, mesmo enquanto me segurava nos braços.
Ela estava me segurando como sempre fazia, como se nada tivesse acontecido entre nós, mas as batidas do seu coração estavam mais altas que o normal. Seus braços me apertaram com força extra.
— Quero que saiba que eu também te amo muitão, então ouvir você dizer isso me deixou muito feliz — disse Aisha enquanto afagava minha cabeça.
Fiquei em silêncio e deixei que ela fizesse o que quisesse. Aisha me dava abraços por qualquer coisa, e eu gostava de ser abraçado. Estávamos iguais a sempre. Nada tinha acontecido. As coisas estavam normais. Era isso que o abraço dela dizia.
— Não se preocupe. Você vai encontrar alguém muito melhor do que eu quando crescer — disse ela.
— Tá bom…
Mas havia algo diferente no abraço dela. Não consigo explicar direito qual era a diferença, mas sei que senti. Enquanto envolto no cheiro da Aisha, pude sentir intuitivamente que algo havia mudado entre nós dois.
Na realidade, nosso relacionamento sofreu grandes mudanças depois daquele dia.

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Foi assim que acabei pedindo a Aisha em casamento pela primeira vez. Cara, falar sobre isso com certeza é constrangedor, né? Eu era jovem na época – a mesma idade em que as filhas dizem que querem casar com os pais.
Ainda assim, foi o momento em que tive certeza do meu amor por ela, e eu estava falando sério. É por isso que, daquele dia em diante, parti para o ataque.
Quanto à Aisha, aparentemente ela não era totalmente contra a ideia, mas tinha ressalvas sobre ficar com uma criança – o filho de seu irmão, nada menos. No entanto, essas ressalvas desapareceram com o tempo. Ela começou a aceitar meus sentimentos eventualmente.
Quer dizer, é comum entre a nobreza de Asura que parentes de sangue se casem, sabem? Ela provavelmente sentiu que, desde que meus sentimentos por ela não mudassem, nosso relacionamento não seria ruim. Embora a mãe dela, a Vovó Lilia, fosse objetar, imagino que ela pensou que não seria um problema fora isso.
É só que, bem, eu posso explicar as coisas enquanto leio O Livro de Rudeus, suponho. Afinal, estou bastante curioso sobre como meu pai se sentiu na época.
Tradução: Gabriella
Revisão: Pride
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