Dark?

A Maneira Incorreta de usar Magia de Cura – Vol. 01 – Cap. 05.2 – Usato volta para a floresta!

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Depois de Inukami ter dormido um pouco, consegui acordá-la para seu turno. Dez minutos depois, de repente me fez uma pergunta.

— Você está acordado, Usato?

— O que houve?

Me virei para Inukami para encontrá-la sentada no chão com os braços em volta dos joelhos. Estava iluminada pela luz do fogo.

— Como você se sentiu quando foi convocado para este mundo?

Não sabia onde ela queria chegar. Talvez fosse apenas uma pergunta aleatória, ou talvez algo estivesse em sua mente. Poderia até ter se sentido culpada por eu ter sido acidentalmente arrastado para a convocação do herói.

— Como eu me senti? Bem Deixe-me ver … o treinamento da capitã é duro e todos os dias tenho que ver a cara feia dos estagiários. Mais importante, teremos que lutar contra o exército do Lorde Demônio. Ainda não parece real.

— Você quer ir para casa?

— Hmm, não tenho certeza.

Queria ir para casa, mas ao mesmo tempo não. Havia uma parte de mim que não queria abrir mão de minhas novas habilidades, da magia de cura, que eu havia adquirido. Mas o mais importante, não queria deixar nenhuma das pessoas que conheci neste mundo. Não estava aqui há muito tempo, mas minhas experiências foram maiores do que jamais havia imaginado. Mas isso não mudava o fato de que estava preocupado com minha família.

Ainda estava tentando me decidir quando Inukami respondeu.

— Quanto a mim… não quero ir para casa. — disse, parecendo nervosa.

Não sabia se havia um significado mais profundo em suas palavras.

— Você quer que eu pergunte por quê?

— Quero.

Com certeza era franca quando queria ser.

Suspirei.

— Acho que posso imaginar por que você não quer ir para casa. Você gosta mais deste mundo do que da Terra, pura e simplesmente. Isso está certo?

— Sim.

 

 

 

Inukami ficou mais feliz e com mais energia depois que veio a este mundo. Era uma pessoa completamente diferente daquela que eu imaginava que fosse em casa.

— Não me sinto apegada à Terra. Meus amigos e família… são apenas coisas transitórias que já abandonei. Pretendo ficar neste mundo. Estive esperando por uma chance como esta toda a minha vida… por uma chance de finalmente ser livre. — explicou ela.

A velha Inukami era perfeita, a garota que estava fora do alcance de todos. Mas aquela perfeição não passava de uma máscara que havia abandonado, ou pelo menos foi assim que entendi.

— Fiquei muito feliz quando vim aqui pela primeira vez, vocês dois estarem aqui foi um bônus. Nada neste mundo me amarra. Não troco essa liberdade por nada. — afirmou.

Sabia que estava feliz, mas não sabia que havia decidido nunca mais voltar.

— Se você não quer ir para casa, parece que ficar aqui é o melhor.

Ela parecia confusa.

— O quê?

— Por que você está olhando assim para mim? Você realmente achou que iria me decepcionar se ficasse aqui ou algo assim?

— Bem não… só não ficaria surpresa se você fosse.

— Sempre adorei mundos de fantasia. Só não tenho tanta bagagem quanto você. Sentei-me e olhei para Inukami, cujos olhos quase pareciam estar tremendo.

— Sempre quis mudar quem eu sou… para que os dias de monotonia sejam virados de cabeça para baixo. Sou como você.

— Usato… — ela murmurou. Parecia fraca, o que era muito diferente dela. A Suzune Inukami que conhecia era uma garota mais digna.

— É como eu disse no campo de treinamento. Não quero atrasar você e Kazuki.

— Certo…

— Naquela época, meu plano era apenas passar pelo meu treinamento. Mas agora sou membro da equipe de resgate. Jurei proteger você e Kazuki, e até o povo deste país. Você tem uma missão?

— Quero proteger este país como uma heroína… não, assim como eu mesma. Quero proteger o lugar ao qual pertenço.

— Então você, eu e Kazuki… vamos salvar o povo do Reino Llinger juntos. Independentemente do que aconteceu na Terra, vamos salvar o reino para proteger o lugar ao qual pertencemos. — propus.

Inukami e Kazuki lutariam como heróis, e eu curaria soldados como membro da equipe de resgate. Para mim, isso era o ideal.

— Você ficou muito mais forte.

— E você se tornou mais aberta. — eu disse. — Eu absolutamente adorei você na Terra.

— Bem, isso é certamente honesto. Você pode me adorar mais se quiser. —brincou.

— Você era uma veterana perfeita na Terra. Você mudou depois que veio pra cá. Você mesmo disse isso.

Ela riu.

— Não posso negar isso. Mas você sabe, prefiro estar perto de você do que ser adorada de longe.

Parecia haver muita profundidade em suas palavras.

Ela sorriu calmamente para mim, mas isso me fez sentir um pouco tímido. Rapidamente me deitei para escapar de seu olhar.

— É hora de dormir. Boa noite.

— Hm? Fiz você se sentir tímido? — ela perguntou.

Rapidamente virei minhas costas para o fogo.

Se falasse mais, ficaria com vergonha de dormir.

Quando comecei a cochilar, ouvi Inukami rir enquanto murmurava uma última coisa.

— Estou muito feliz por termos conversado. Boa noite, Usato.

 

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Na manhã seguinte, Inukami e eu começamos a caminhar para tentar escapar da floresta. Me lembrava vagamente da direção que Rose e eu tomamos da última vez que estive aqui, então estava bastante confiante de que estávamos indo na direção certa.

— A propósito, Blurin pode nos rastrear pelos nossos cheiros? — Inukami perguntou.

— Pode…, mas depois caímos naquele rio, infelizmente…

Só espero que aquele glutão não esteja comendo os guardas.

Estávamos caminhando lentamente pelo caminho. Havia duas razões para isso.

A primeira razão era caminhar em silêncio. Queríamos evitar ser notados por monstros a todo custo. Kukuru não estava comigo desta vez, então não havia como saber se havia monstros por perto.

A segunda razão era lembrar para onde estávamos indo. Como a floresta estava cheia de árvores altas, correr à frente só nos deixaria totalmente perdidos. Para evitar isso, era vital tomar nota enquanto nos deslocávamos ao nosso redor. Aprendi isso com os livros que Rose me forçou a ler.

Várias horas se passaram desde que começamos a percorrer o caminho, mas ainda não havia saída à vista. De repente, Inukami avistou algo voando por entre as árvores acima de nós.

— Usato, lá em cima!

Poderia dizer que algo estava errado.

Quando olhei para cima, vi um grupo de pequenos monstros que pareciam macacos. Seu pelo era uma perigosa tonalidade de verde.

Eles devem ser …

— Macacos venenosos.

— Você já os viu antes? — Inukami perguntou em pânico.

— Só nos livros. Esta é a primeira vez que os vejo na vida real.

Como se poderia adivinhar pelo nome, os macacos venenosos eram venenosos. Embora geralmente fossem mansos, eles comiam os frutos de árvores venenosas para se defenderem de seus predadores naturais. Quando consumiam esta fruta, suas unhas e presas ficavam, cheias de um veneno potente que paralisava seus predadores. Esse veneno deixou seu pelo verde, o que também provou ser uma poderosa camuflagem.

Nesse momento, um jovem macaco venenoso se afastou do grupo e pulou na minha frente e na de Inukami. Decidi que era melhor ficar de guarda.

— Aquele macaco é venenoso, então você não deve tocá-lo.

— Venha aqui, garotão! Não tenha medo. — disse ela ao macaco.

— Ei! Você está me ouvindo?

Não há como ajudá-la, não é?

Gritei com ela bruscamente porque estava descuidadamente estendendo a mão para o macaquinho. Estava honestamente começando a me dar dor de cabeça. A primeira coisa que fiz foi agarrá-la pelos braços, para que parasse de agir como uma louca.

— Você vai se machucar! Essa coisa é venenosa!

— Se isso me afogar em veneno, devo estar fadada a morrer nas mãos venenosas dessa gracinha! —exclamou.

Estava tentando ser legal, mas saiu pela culatra.

— Quando você vai parar de dizer coisas tão ridículas?

Estava perdido. Ela ainda era uma menina, pelo menos por definição, então não seria certo agarrá-la com muita força. O macaquinho olhou intrigado para sua mão estendida, o que só fez Inukami sorrir presunçosamente com o que interpretou como uma reação amigável. Pelo menos até…

— HOO! — o macaco gritou. Afundou os dentes no dedo indicador de Inukami, mas ela não se preocupou. Em vez disso, sorriu rigidamente enquanto o macaco permanecia grudado em seu dedo.

— Venha cá, garotão. Não tenha medo. — disse, desta vez um pouco mais bruscamente.

O macaco gritou mais uma vez.

Depois disso, fugiu. Ou talvez seja mais correto dizer que voltou ao seu grupo. Fiquei atrás de Inukami, observando enquanto ela caía tristemente. Coloquei minha mão em seu ombro para curar o veneno que havia entrado em seu corpo.

Tentei avisá-la.

— Não há razão para ficar deprimida, Inukami.

Mas ela não respondeu. Terminei de curá-la e comecei a me afastar, mas Inukami ainda não levantava a cabeça. Parecia estar se recuperando do que acabara de acontecer.

Honestamente, isso é meio chato. Vou ignorá-la.

Inukami começou a ficar de mau humor. Não gostou de eu ter parado de falar com ela.

— Você não vai me confortar?

 — Já fiz.

Depois de um momento de silêncio, ela disse:

— Você é malvado, Usato.

Hum, como eu sou o malvado nesta situação?!

— Eu gostaria que você me ouvisse. O que você é, uma criança impulsiva ou alguma coisa assim?

— Sim, estou vivendo minha segunda vida neste mundo, então, de certa forma, sou uma criança.

Que tipo de lógica confusa é essa?

Suspirei em resposta, mas Inukami também não gostou.

— Por que você acabou de suspirar assim?

Decidi não responder.

— Me ignorando agora, não é? Muito bem. Dois podem jogar nesse jogo

Agora tudo o que tinha que fazer era continuar ignorando-a, pois sabia que acabaria falando. Enquanto caminhávamos pelo caminho, percebi que as árvores estavam diminuindo a cada passo. Parecia que finalmente estávamos deixando a floresta.

— Vamos sair daqui em breve. — disse enquanto me virava para Inukami, que ainda estava quieta.

— Tch. Claro, você falaria quando estivéssemos saindo. Você tem algum senso de tempo, eu vou te dar isso. — ela fez beicinho.

Mas a única coisa que estava provando era que não podia guardar rancor. Embora estivesse fazendo uma cena, consegui ignorá-la e manter os olhos fixos à frente. Alguns passos depois, finalmente chegamos a uma clareira que não era cercada por árvores.

— Senhor Usato! Madame Suzune! — alguém gritou à distância.

— Essa é a voz do guarda.

O guarda estava procurando por nós o tempo todo, e estava com Blurin!

— Isso foi exaustivo.

Mas Inukami se sentia diferente.

— Tem sido divertido. Gostei de estar com você, Usato.

Oh irmão.

Normalmente, pensaria que essas palavras significam algo mais profundo, mas era da Inukami que estávamos falando. Provavelmente era melhor ignorá-la.

— Nós os encontramos! Que alivio! — disse o porteiro.

Até Blurin rosnou alegremente quando me viu.

Comecei a acenar freneticamente para os dois quando Inukami de repente se virou para mim e estendeu a mão. Um sorriso alegre, tão brilhante quanto o sol, enfeitou seu rosto.

— Conseguimos! Vamos para casa, Usato!

Naturalmente sorri de volta, e enquanto me sentia um pouco tímido, peguei a mão dela. Ela não era mais a Suzune Inukami que eu adorava na escola, nem a graciosa presidente do conselho escolar. Em vez disso, era apenas uma garota que gostava de seu novo lugar neste mundo de fantasia, mesmo que às vezes fosse impetuosa e um pouco hiperativa.

— Sim. Vamos para casa. De volta ao lugar ao qual pertencemos.

Inukami assentiu e sorriu, o que me trouxe grande paz.

Talvez ser mais aberto com Inukami não seja uma coisa tão ruim, afinal.

 

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Inukami e eu voltamos com segurança para o reino.

Acontece que o guarda se sentiu responsável por nos perdermos, então ele e Blurin passaram o dia inteiro procurando por nós sem parar para almoçar. O outro guarda, a maga, capturou o grupo de bandidos sozinha. Quando os escoltou de volta ao reino, relatou que havíamos desaparecido. Quando tivesse a chance, com certeza agradeceria a ambos por sua ajuda.

Agora que havíamos retornado ao reino, fomos ao castelo para dizer ao rei que voltamos inteiros. O guarda ruivo estava cuidando de Blurin; eles se tornaram amigos rapidamente, então sabia que se dariam bem. Ele não era nada como uma certa pessoa que ficava tentando tocar em Blurin depois que ele batia na mão dela.

Inukami e eu entramos no grande salão onde o rei estava esperando. Rose e Siglis também estavam lá, junto com um velho mal-humorado chamado Sergio, que estava ao lado do rei quando fomos convocados pela primeira vez.

O rei nos viu e imediatamente soltou um suspiro de alívio.

— Oh, Usato, Suzune, estou tão feliz que vocês estejam seguros. — disse afundando profundamente em seu trono. A julgar pelas bolsas sob os olhos, era seguro dizer que estava muito preocupado. Abri minha boca para me desculpar, mas Inukami me venceu.

— Lamentamos por preocupá-lo, Sua Majestade.

— Não precisa se desculpar. Devemos ser nós a pedir-lhe perdão. Lamentamos profundamente todas as dificuldades que você passou. Também gostaria de pedir desculpas a você, Usato. Se não tivesse falado para você acompanhar Suzune em seu treinamento, nada disso teria acontecido. — lamentou.

O rei era tão sensível a ponto de realmente cansá-lo. Fiquei um pouco surpreso com suas palavras. Sabia que deveria dizer algo em resposta.

— E-está tudo bem, sério. É meio que, bem… Já estou acostumado com esse tipo de coisa.

— Você está? — o rei perguntou em descrença.

Não sabia o que dizer. Se lhe contasse a verdade, com certeza só tornaria as coisas mais complicadas.

— Oh, uh, não é nada! Passei muito tempo na floresta no meu velho mundo, então estou acostumado com a paisagem! — menti.

— E-eu entendo. — respondeu ele.

Por que diabos acabei de cobrir Rose? Oh não, ela assumiu o controle de mim a ponto de poder controlar como me sinto?!

Olhei para Rose, que estava sorrindo, assim como pensei que estaria. Tinha sido totalmente derrotado. Nesse momento, o rei fez outra pergunta.

— A propósito, como está o seu treinamento com a equipe de resgate? Está indo bem?

Aí está! A pergunta mais difícil que poderia ter feito!

Tinha conseguido mudar de assunto um segundo atrás, mas então fui atingido por outra pergunta difícil! Rose estava na sala, então tinha que me preparar para o que aconteceria mais tarde se dissesse a coisa errada.

— Ó-ótimo. — gaguejei.

— Por você não dizer, eu estava preocupado com você, para ser honesto. Mas saber que está indo muito bem me deixa realmente aliviado. — disse calmamente.

Meu coração dói tanto que vai explodir!

Fiquei ali, torturado pela minha consciência culpada, enquanto Sergio se voltava para o rei.

— Sua Majestade. — disse, — está quase na hora.

— Sim, eu sei. — o rei respondeu, então ele se virou para nós.

— Quanto a vocês, Usato e Suzune, recomendo que descansem. Vocês devem estar cansados.

Depois disso, deixamos o grande salão exatamente como o rei disse.

Rose estava agindo como sempre, mas por algum motivo Sergio e Siglis pareciam muito mal-humorados. Só de olhar para seus rostos, percebi que estavam aliviados por termos voltado, mas algo mais parecia incomodá-los.

— Deve ser minha imaginação. — murmurei.

Estava cansado e o rei tinha desistido. Inukami não parecia mais cansada do que de costume, mas no fundo devia estar exausta. Caminhamos lado a lado por alguns minutos, depois nos preparamos para seguir caminhos separados. Pouco antes de me virar para me despedir, ouvi pessoas gritando do nada.

— Usato! Inukami! — exclamou uma voz familiar.

— E-espere, senhor Kazuki! — exclamou outra.

Um Kazuki ofegante e Celia vieram correndo em nossa direção. Kazuki colocou as mãos nas pernas e respirou fundo.

— Q-quanto tempo sem se ver. — eu disse hesitante.

— Não demore muito para me ver! Acordei e você e a Inukami sumiram de repente! Atacado por monstros, eles disseram! E-eu estava tão preocupado. — disse Kazuki.

Oh cara, nós devemos ter realmente assustado Kazuki. Me sinto mal por fazê-lo se preocupar tanto.

— Sinto muito. — eu disse. E realmente quis dizer isso.

As duas garotas estavam conversando em particular quando a princesa de repente olhou para Kazuki e riu. Cada movimento que fazia simplesmente exalava graça.

— Quando Kazuki soube que a senhora Suzune estava desaparecida, estava tão pálido que pensei que fosse desmaiar! Na verdade, fugiu do castelo para procurá-la — afirmou a princesa.

— Ack! Eles não precisam saber disso. — Kazuki disse timidamente.

Inukami riu.

— Parece que você é tão imprudente quanto nós, Kazuki. — ela disparou.

— Você é a rainha da imprudência, Inukami. Você até tem um macaquinho para te odiar!

Inukami ficou confuso.

— Urk. Isso é… você é tão malvado!

— Que macaquinho, Usato? — perguntou Kazuki.

— Bem, você sabe… — Comecei a dizer, mas então ela cobriu minha boca com as mãos.

— Uhm, Inukami?! — Chorei por entre os dedos.

— Ignore-o! Não é nada! — ela gritou. Talvez não quisesse que os outros soubessem. Mas, nesse caso, poderia contar a Kazuki mais tarde, quando estivéssemos sozinhos.

Tanto Kazuki quanto a princesa observaram curiosamente enquanto Inukami empurrava freneticamente as mãos no meu rosto. A princesa olhou para mim, depois para Inukami, depois trocou olhares com Kazuki.

— Eles devem ser amigos muito próximos. — ela disse maliciosamente.

A princesa parecia ter chegado a um grave mal-entendido, mas Kazuki não sabia bem o que ela queria dizer. Em outras palavras, tive que me opor antes que Inukami tornasse a situação ainda pior. Se não limpasse o ar agora, a provocação só aumentaria com o tempo. Para piorar as coisas, Inukami cobriu minha boca com um sorriso curvo como uma lua crescente.

— De jeito nenhum. Nós somos apenas amigos. Isso nunca aconteceria. — afirmei. Inukami de repente se afastou como se estivesse em estado de choque.

Esperava que ela fosse menos dramática, mas acho que era pedir demais.

— Oh sério? Bem, é uma pena. — disse senhorita Celia, mas seu sorriso sugeria que não sentia pena alguma. Não importava que mundo era este, garotas em qualquer mundo sempre vão adorar histórias de amor. Não que fosse uma história de amor, claro!

— A propósito, Usato, Rose é realmente incrível! — Kazuki comentou.

— Hum, com licença?! — exclamei. Rose e Kazuki não estavam conectados em qualquer sentido da palavra, então ouvi-lo mencionar o nome dela me pegou totalmente desprevenido. Eu tremia de medo enquanto esperava que ele continuasse seu pensamento.

— Quando fui procurar por vocês, Rose me parou nos portões do castelo. Ela era a única coisa que se interpunha entre mim e a floresta.

— Ela é estranha, certo. — eu comentei.

Afinal, trata a mim e a Blurin como um bebê.

— Estava sendo muito apressado. — Kazuki continuou. — Se Rose não tivesse me parado, teria causado mais problemas ao país.

Não podia negar. Se Inukami estivesse desaparecida e o único outro herói tivesse partido, o país teria entrado em pânico. A esse respeito, Rose certamente fez a coisa certa.

— Além do mais, Rose realmente acreditou em você, Usato.

— Ela acreditou?

— Ela disse que você não morreria facilmente porque é aluno dela. Nunca duvidou que você voltaria para casa em segurança. Foi incrível o quanto acreditou em você.

Tudo bem. Então, basicamente, não achou que eu iria morrer na hora.

Talvez devesse estar feliz por confiar em mim, mas me senti em conflito.

De qualquer forma, fiquei emocionado com o fato de Kazuki ser tão gentil e puro que levou as palavras de Rose a sério. Olhei para ele mal-humorado e coloquei minhas mãos em seus ombros. Parecia um pouco confuso, mas eu disse o que senti que precisava dizer.

— Nunca perca essa inocência, Kazuki. Não se contamine como eu e a Inukami.

— O-ok. Hum, realmente não entendo, mas com certeza. — assentiu, parecendo confuso. Sentindo-me incrivelmente seguro, tirei minhas mãos de seus ombros.

Deixei escapar um suspiro de alívio…, mas então notei que Inukami estava olhando para mim.

Não tinha certeza do porquê.

— Você acabou de insinuar que estou contaminada. — disse ela, parecendo incrivelmente sem graça.

Ela não está negando, então diria que sim. Sim ela está.

 

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Depois que Usato e Suzune deixaram o grande salão, Rose, Siglis e Sergio ficaram comigo na sala do trono.

— Você sabe alguma coisa sobre os Javalis do Outono que os atacaram, Sergio? — perguntei.

— Ainda não. Não sei o que deu neles. — respondeu ele, carrancudo.

Javalis do Outono viviam nas pastagens, mas o grupo de Usato havia sido atacado em outro lugar. Se isso fosse apenas uma coincidência, Rose e Siglis, a capitã da equipe de resgate e o comandante do exército, nunca teriam sido convocados.

— Interrogamos os bandidos que atacaram os heróis além das Pradarias. Disseram que havia menos monstros do que o normal, mas essas pessoas invadiram nossa terra de outros países. Estão longe de serem confiáveis. — afirmou Sergio.

Coloquei minha mão na cabeça em desânimo.

— Se os bandidos estão falando a verdade, os monstros devem ter fugido de seu habitat nas Pradarias. Algo pode tê-los perseguido em nosso país. — respondi.

O inimigo havia chegado. A guerra estava próxima. Era seguro presumir que não iriam nos subestimar como fizeram na última batalha. Em vez disso, lançariam um ataque total para tomar o Reino de Llinger.

Sergio quebrou o silêncio com um sussurro.

— Deve ser … o exército do Lorde Demônio.

— De fato. — eu disse. — Eles voltaram.

Eles eram invasores cujos demônios e monstros sinistros lideravam o ataque ao Reino Llinger. Queria evitar todas as batalhas, se possível, mas era praticamente inevitável após a invasão anterior.

— Siglis, diga aos comandantes para preparar seus exércitos. Prepare-se para atacar. — ordenei.

— Sim sua Majestade! Como desejar!

— Bom.

Com uma reverência, Siglis saiu do grande salão para preparar o exército. Em seguida, olhei para a mulher que estava cruzando os braços e encostada na parede.

— Rose.

— Eu sei, Vossa Majestade. Você quer que eu verifique como está indo a invasão do Exército Demoníaco, não é?

— Minhas desculpas.

— Não se preocupe com isso. — respondeu. — Sei que sou a pessoa mais rápida do país. Vou procurar nas Pradarias, perto da fronteira. Parece certo?

— Sim, acredito que é onde eles devem estar… embora preferisse que não estivessem lá. — lamentei.

Havia uma estrada nas Pradarias que separava três países diferentes. O primeiro país era o Reino Llinger, o segundo era um país vizinho e o terceiro era o Território do Lorde Demônio, uma terra repleta de monstros. Um grande rio atravessava o país.

— Certo. Partirei ao anoitecer — disse ela.

— A-anoitecer?! Isso é perigoso, Madame Rose! — Sergio alertou, tentando detê-la. Se o exército do Lorde Demônio estava realmente a caminho, então hordas de monstros estavam a caminho de nosso país. No entanto, Rose iria expulsá-los. Ela costumava comandar uma divisão de infantaria para o reino. Poderia fazer qualquer monstro dar meia-volta.

Apesar do aviso de Sergio, Rose começou a se afastar.

Eu deixei escapar:

— Rose, você não vai liderar tropas para a batalha por nós novamente? — Sabia que ela iria recusar, mas não pude deixar de fazer um apelo.

— Não pretendo voltar, Majestade. Não sou tão boa quanto você pensa.

— Você foi a primeira curandeira a ser designada para liderar a divisão de infantaria, então por que você se critica tão duramente? Mesmo depois de deixar seu cargo, você salvou muitas vidas como capitã da equipe de resgate, não é?

— Não estou sendo crítica. Apenas falando a verdade.

Ela possuía magia de cura que lhe dava incríveis habilidades físicas, o que lhe permitia destruir qualquer monstro poderoso em seu caminho. Seu serviço militar foi tão impressionante que os cavaleiros ainda compartilhavam histórias de suas realizações, e foi até responsável por melhorar a reputação dos curandeiros. Por mais que eu desejasse que ela subisse ao trono como tenente-coronel…

— Isso ainda está incomodando você, não é?

— É isso. Não consigo esquecer. Aceito as mortes de meus estagiários. Sei que não posso trazer meus garotos de volta à vida, mas essa cicatriz no meu olho direito não me deixa esquecer isso.

Quando Rose subiu ao posto de tenente-coronel, ela treinou sete de nossas tropas de elite. Eles eram indivíduos espirituosos que não eram fáceis de treinar, mas todos a respeitavam como sua comandante. Quando sua equipe partiu para a batalha, sempre garantiram uma vitória esmagadora, não importava o quão forte o monstro ou o quão maligno o demônio. Com inúmeras conquistas em seu currículo, ninguém imaginava que sua unidade sofreria sua derrota malfadada.

— Não foi sua culpa.

— Sim, foi. Meu sentimento de orgulho levou todos à morte. Foi quando aprendi que não importa o quanto você treine, não importa o quão incrivelmente talentoso e confiável você seja, uma vez que você morre, acabou. Esta cicatriz é o castigo pelos meus pecados. Não vai me deixar esquecer o que fiz.

Sua cicatriz significava mais para ela do que eu sabia. Isso a lembrou da morte dos sete subordinados que lhe haviam sido confiados.

— Vossa Majestade, não jogue uma garota que não consegue se livrar dos mortos em um campo de batalha. Sou um bom exemplo de por que você não deveria. — ela raciocinou.

Ela parecia ver a cicatriz em seu olho direito como um símbolo de prova por se recusar a voltar ao exército. Mas não foi apenas uma desculpa. O que aconteceu deve tê-la traumatizado.

— Foi por isso que entrei para a equipe de resgate. Nós não lutamos; somos apenas um grupo que tenta salvar a vida das pessoas.

Ela fez parte da equipe de resgate antes da ressurreição do Lorde Demônio. Muitos levantaram preocupações sobre esta organização incrivelmente estranha, mas a opinião pública mudou rapidamente durante a invasão que ocorreu há dois anos, depois que o Lorde Demônio ressuscitou. Rose e suas tropas de elite salvaram muitos cavaleiros naquela época, o que acabou levando à nossa vitória.

— Há mais uma razão pela qual entrei para a equipe de resgate.

— O que é seria?

Ela me encarou com o único olho que lhe restava. Quase estremeci quando me vi me perdendo em seu olho verde jade, mas rapidamente reajustei meu olhar para vê-la como uma das líderes de nossa nação. A equipe de resgate havia contribuído para nossa vitória anterior. Originalmente, permiti que ela o criasse, mas nunca me disse seu propósito. Tinha a sensação de que salvar a vida dos soldados não era a maior razão para ela ter feito isso.

— Eu… — ela parou.

Cobriu o olho direito com a mão direita. Seus ombros de repente começaram a tremer e sua boca se curvou em um sorriso. Era uma cara que normalmente nunca fazia, e com ela vieram palavras que nunca pensei que a ouviria dizer.

— Quero um estagiário que não morra comigo. — ela disse. Um estagiário que nunca morrerá. Esse era o desejo dela.

 

 

 

Embora reconhecesse que não era realista, a imagem de um certo menino flutuou em minha mente. Era o garoto azarado que foi acidentalmente arrastado para a convocação do herói. À primeira vista, o menino não passava de um rapaz mediano, de bom coração e talvez pouco confiável. Mas agora este menino tinha o dever de salvar os cavaleiros deste país.

Nem o herói nem o cavaleiro podiam dominar a magia ofensiva excepcionalmente poderosa que Rose procurava, e o menino não era diferente. Considerando o passado de Rose, pude ver por que ela via tantas promessas nele. Mas esperar que ele não morresse era pedir demais.

— Você não pode esperar que as pessoas vivam para sempre.

— É por isso que treinamos. Busco magia de cura, exercícios que nos permitam fazer o impossível, e uma vontade de ferro que não se curve aos nossos inimigos. Há tanto tempo que procuro alguém que tenha todas essas coisas e parece que finalmente o encontrei.

Aquele que tinha tudo o que ela precisava era…

— Usato, correto?

— Ele não poderia ser mais ideal. Ele é apenas uma criança cujo único talento é a magia de cura, mas é perfeito para o curandeiro de que preciso. Além disso, se acostumou com a vida no quartel muito mais rápido do que esperava. Você sabe o que isso significa?

— Diga. — disse curiosamente.

— Ele tem instinto de sobrevivência, adapta-se ao ambiente e tem vontade de viver. Se estou sendo legal sobre isso, isso basicamente significa que ele odeia perder mais do que qualquer coisa. A desvantagem é que seu ambiente basicamente molda quem ele é. — explicou ela.

— O que quer dizer?

— Quando o treino é tão duro que vomita sangue, reclama, mas não para. Posso repreendê-lo o dia todo, mas ele nunca desiste. Sinceramente, parece que foi feito para este mundo, para ser um membro da equipe de resgate. Sua personalidade combina com a de todos os outros. Completou o treinamento exaustivo da equipe de resgate e sobreviveu por dez dias na escuridão de Llinger, e tudo porque fez tudo o que pôde para se adaptar ao ambiente.

A vontade de viver devia estar em seu sangue.

— Ele é tudo que preciso em um curandeiro. E você sabe, ele luta comigo mesmo que eu o coloque no inferno. Nunca se curva à minha vontade. É quase como se ele… — ela parou.

Ela interrompeu a frase, sacudiu qualquer pensamento que estava tendo e franziu a testa mais uma vez. Alguns momentos depois, olhou para mim com um sorriso autodepreciativo. Enquanto ficávamos em silêncio, Rose começou a formar uma frase desconexa.

— Sim. Ele é exatamente como um membro da minha falecida equipe. Aquele maldito pirralho atrevido. É por isso que farei dele o melhor curandeiro que já existiu.  — disse ela. Logo depois, seus saltos estalaram no chão enquanto caminhava em direção à saída. Fui deixado sozinho, congelado no lugar.

Foi a primeira vez que a vi parecer tão fraca e desamparada. Enquanto permanecia silenciosamente no grande salão, ouvia o eco suave de seus passos enquanto eles sumiam ao longe.

 


 

Tradução: Nagark

Revisão: Bravo

 

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