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Bruxa Errante, a Jornada de Elaina – Vol. 09 – Cap. 03.1 – O Lírio-da-Ressurreição que Floresce na Solidão

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Isso aconteceu quando eu ainda era uma aprendiz de bruxa. Antes de me tornar Saya, a Bruxa do Carvão, conheci uma certa garota.

Recrutas aceitos na Associação Unida de Magia precisam primeiro ter aulas com bruxas da Associação por vários meses para se tornarem membros qualificados.

Nesse período, estudamos como manusear magia, ouvimos explicações sobre os tipos de trabalho que a Associação nos comissionaria, vemos exemplos de como a Associação resolveu casos no passado e aprendemos habilidades básicas para lidar com situações até que sejam resolvidas.

De modo geral, esses meses são um período de aprendizado intenso em quase todas as áreas.

Foi no início desse período que troquei as primeiras palavras com aquela garota. Aconteceu por puro acaso, mas se eu não a tivesse encontrado ali, duvido que teria falado com ela ou me tornado sua amiga em toda a minha vida.

Lembro-me claramente do primeiro dia em que falei com ela.

Eu estudava para trabalhar na Associação e, ao mesmo tempo, treinava para me tornar uma bruxa, então, depois que as aulas do dia terminavam, eu ficava na filial para aprender magia com minha instrutora, Sheila.

Eu repetia a mesma rotina todos os dias desde que cheguei à cidade, estudando e treinando sem um momento de descanso. Consequentemente, quando chegava a hora de ir para casa, o sol estava sempre prestes a se pôr no horizonte. Estudar compunha a totalidade da minha existência diária.

Avistei a garota bem quando estava voltando para meu alojamento, exausta da minha rotina exigente.

Ela tinha o cabelo roxo preso em um rabo de cavalo de lado e, apesar da cor vibrante, havia uma sombra sobre ela. Dava a impressão de que tinha deixado a mente para trás em algum lugar. Parecia sempre estar procurando por algo, desapegada da realidade. Eu nunca a tinha visto conversando animadamente com ninguém, nem nas aulas, nem nos intervalos.

O nome dela era Monica.

Quando a encontrei, ela parecia estar em transe, como sempre, agachada em silêncio, olhando para uma flor que brotava na beira da estrada.

O caule crescia reto do chão. No topo, uma flor vermelha, mais brilhante que o sol poente, com as pétalas abertas em uma explosão de cor.

Monica apenas a encarava, fixamente. Olhando para o lírio-da-ressurreição.

— Você gosta dessas flores?

Embora nunca tivesse falado com ela, reconheci seu rosto, então parei de andar e me dirigi a ela.

— Gosto — respondeu ela secamente, sem sequer olhar na minha direção.

Foi a primeira vez que ouvi sua voz surpreendentemente clara e adorável.

— …O que está fazendo num lugar como este? — Eu tinha ficado até tarde por causa do meu treinamento especial, mas geralmente a maioria dos novos recrutas se dispersava por volta da hora do almoço. Ninguém ficaria na filial sem um bom motivo.

— Estava estudando. — Como antes, ela respondeu sem me olhar.

— Fazendo hora extra?

— …… — Monica assentiu bruscamente.

Deixa eu ver, será que ela é tão lenta a ponto de precisar ficar para aulas extras?

Eu duvidava. Eu a conhecia há apenas algumas semanas e era a nossa primeira vez nos encontrando de verdade — na verdade, nunca tínhamos trocado palavras antes —, mas eu sabia que ela sempre tirava notas altas em nossas provas semanais.

Com certeza não há necessidade de ela trabalhar até tarde, pensei. Mas, logo depois, percebi algo. Talvez a razão pela qual ela se sai tão bem nas provas seja porque trabalha até tarde o tempo todo? Nossa, que aluna dedicada.

— Não consigo me concentrar durante as aulas, então fico depois da aula para estudar.

Desta vez, ela finalmente se virou para me olhar. Seus olhos roxos, da mesma cor de seu cabelo, pareciam brilhar ao sol da tarde.

— …É tão barulhento assim durante as aulas?

As únicas pessoas que faziam os cursos eram as magas que entrariam na Associação como novas recrutas. Não éramos exatamente estudantes; era mais como se estivéssemos recebendo treinamento para os postos onde cada uma de nós trabalharia.

Claro, havia algumas garotas que não pensariam duas vezes antes de trocar algumas palavras em voz baixa com a pessoa sentada ao lado delas durante as aulas, mas esse tipo de conversa nunca ficava alta. Sinceramente, eu nunca tinha notado ou me incomodado com isso.

Então, eu não entendia bem o que ela queria dizer.

— ……

Mas ela não ofereceu mais nenhuma explicação enquanto eu estava ali, com a cabeça inclinada. Em sua mente, ela parecia ter decidido que a conversa comigo havia terminado. Seus olhos já haviam se desviado de mim de volta para a flor.

O lírio-da-ressurreição.

Na minha terra natal, era considerado uma flor sinistra e agourenta. Monica apenas continuava a encará-la.

— É tão bonita, mas há pessoas que a odeiam — ela murmurou.

— É a primeira vez que ouço alguém chamá-la de bonita.

— Oh? — Enquanto falava, ela estendeu a mão em direção ao lírio-da-ressurreição.

Nossa, uh-oh!

— Hã, você não deveria tocar nisso. É venenoso.

Ela não estaria em perigo real apenas por tocá-la, mas era verdade que a flor era tóxica. Eu a impedi, um tanto em pânico.

No bulbo, no caule, nas folhas e até na flor vibrante — o lírio-da-ressurreição tinha veneno em todas as suas partes. A coisa toda estava cheia de veneno. A razão pela qual era tão odiada provavelmente era por ser tóxica da raiz à ponta, apesar de ter uma aparência tão adorável.

— …Entendo.

Ela retirou a mão e se levantou.

— É tão bonita por fora, mas não faz nada além de causar dano. Assim como um ser humano.

Como antes, eu não entendi bem o significado de suas palavras. Provavelmente porque eu não achava a flor especialmente bonita, para começo de conversa.

Mesmo assim, lembro-me bem daquele dia, o dia em que falei pela primeira vez com Monica.

Isso porque seus olhos, os olhos da garota que havia chamado o lírio-da-ressurreição de bonito, estavam irremediavelmente mergulhados em tristeza.

 

Separador Tsun

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Eu sou uma viajante que, ao mesmo tempo, é filiada à Associação Unida de Magia, então o motivo pelo qual pulo de país em país geralmente tem algo a ver com meu trabalho.

Por causa da minha experiência viajando para tantos lugares, ou talvez por carregar o desajeitado nome de bruxa de Bruxa do Carvão, a Associação muitas vezes se aproveita de mim e me pressiona a aceitar trabalhos que as bruxas registradas locais não querem fazer.

No final, essa foi a principal razão pela qual vim a esta cidade em particular neste dia em particular. Um agente da filial da Associação Unida de Magia entrou em contato comigo com um pedido de ajuda de uma cidade próxima. Então, lá estava eu, batendo no portão.

Emadestrin, uma Cidade Onde as Pessoas Vivem.

No fundo da floresta sombria, a cidade parecia estar ali desde a antiguidade, tempo suficiente para que uma hera espessa subisse pela muralha externa.

Era uma cidade simples e discreta, um lugar que eu provavelmente nunca teria visitado se não tivesse algum negócio ali.

Assim que passei pelo portão, um oficial da cidade apareceu diante de mim.

— A senhora deve ser Lady Saya, a Bruxa do Carvão. Estávamos aguardando sua chegada. Muito obrigado por aceitar esta comissão de nossa cidade.

Como tenho uma estrutura muito pequena, as pessoas costumam ficar perplexas quando me conhecem. Muitos até duvidam de minhas habilidades como bruxa, apesar do meu histórico em lidar com vários assuntos urgentes. O oficial diante de mim, no entanto, não reagiu assim.

— Lady Saya, a senhora leu os documentos que enviamos sobre os incidentes?

Ou talvez ele simplesmente não tivesse interesse em mim pessoalmente. O oficial passou direto pelas formalidades e, ainda com um sorriso rígido, lançou-se imediatamente ao assunto do trabalho em questão.

— …Li no caminho, na maior parte. — Eu assenti.

A Associação me forneceu um dossiê.

— Bem, então, peço desculpas por ir direto ao ponto, mas… — O oficial virou-se e me instou a segui-lo. — Não sei se seu timing foi bom ou ruim, mas esta manhã tivemos outro incidente, então decidi que gostaria que uma bruxa desse uma olhada na cena. Por favor.

Eu assenti e segui o oficial.

A paisagem simples e modesta de uma cidade ladeada por casas antigas de tijolos se estendia diante dos meus olhos. Não parecia o tipo de cidade que abrigaria casos macabros ou incidentes sangrentos.

Mas, é claro, não era o caso, e era por isso que eu havia sido convocada.

— Aparentemente, foi avistado esta manhã por um funcionário de um restaurante que estava levando o lixo para fora.

Em um beco.

O oficial da cidade explicou-me a cena macabra de forma objetiva. A vítima era uma mulher solteira que morava nas proximidades. Pelo estado dos restos mortais, a conclusão foi que ela havia morrido em algum momento da noite anterior.

— Primeiramente, não há dúvida de que isso foi obra do assassino em série sanguinário que tem aterrorizado nossa cidade. Temos visto a mesma coisa por toda a cidade. O assassino não deixa feridas externas e coloca o corpo da vítima em um beco.

De acordo com o pedido que foi enviado à Associação Unida de Magia, o assassino havia aparecido cerca de meio ano antes.

No início, todos pensavam que as vítimas estavam apenas desmaiando na rua.

Então, em uma noite fria de inverno…

Alguém relatou um cheiro horrível do lado de fora de sua casa e, quando os oficiais correram para investigar, descobriram que um homem estava morto em um beco próximo. Ele era um morador de rua que estava perambulando pela área há um tempo, então ninguém prestou atenção quando o viram deitado no chão. Ninguém imaginou que ele estivesse morto, e isso atrasou a descoberta. Seu corpo não tinha feridas externas, suas roupas não estavam rasgadas ou amarrotadas, e havia uma garrafa de álcool roubada por perto. A partir dessas evidências, os oficiais da cidade concluíram que o homem simplesmente desmaiou e morreu.

Mas havia uma coisa peculiar na cena: a posição de seu cadáver.

Suas mãos estavam firmemente entrelaçadas, quase como se estivesse oferecendo orações a alguma divindade, e ele havia morrido olhando para cima, com o rosto para o céu.

O que diabos ele poderia estar rezando?

Então, vários dias depois, ficou claro que este infeliz morador de rua não havia, de fato, simplesmente caído morto por conta própria.

Outro cadáver apareceu em outro beco.

Desta vez, era um jovem na casa dos trinta. Ele era um lojista que acabara de abrir uma loja nas proximidades. Um homem que não parecia estar passando por nenhuma dificuldade na vida. E lá estava ele, morto.

Assim como o morador de rua, ele foi encontrado de costas, de frente para o céu, com as mãos entrelaçadas como se estivesse em oração.

A terceira vítima era uma adolescente. Ela era uma jovem exemplar que nunca havia causado problemas em casa ou na escola, e ela também foi descoberta em um beco, rezando para o céu.

Mais corpos foram descobertos depois disso.

Uma vítima era uma pessoa idosa. Outra, uma pessoa jovem. Outra, um homem. Uma mulher também.

Não havia conexão com o clima, ou as fases da lua, e nada parecia conectar as vítimas. A frequência dos assassinatos também era dispersa. Às vezes, dois corpos apareciam, um após o outro, e outras vezes, meio mês se passava sem um incidente. Mas, nos últimos seis meses, muitas pessoas foram descobertas jogadas em becos.

— A única coisa que posso supor é que o assassino está de alguma forma zombando dos costumes de nossa cidade — cuspiu o oficial friamente enquanto olhava para o cadáver de uma mulher rezando para o céu escuro, mas sem nuvens.

Aqui em Emadestrin, uma Cidade Onde as Pessoas Vivem, a morte de um ser humano era considerada a maior das tragédias. Seja por assassinato ou suicídio, o ato de tirar a vida de um ser humano por qualquer motivo era considerado a pior coisa que uma pessoa poderia fazer. Portanto, uma série de assassinatos como esta era talvez a coisa mais chocante imaginável.

Então, essa foi a sequência de eventos que levou a cidade a solicitar ajuda da Associação Unida de Magia.

No entanto…

— …Pensei que houvesse uma maga nesta cidade que fosse filiada à Associação Unida de Magia. O que aconteceu com ela?

Assim que recebi o pedido desta cidade, não tive dúvidas. Esta cidade — Emadestrin, uma Cidade Onde as Pessoas Vivem, era a cidade natal dela.

Monica.

A garota que sempre ficava até tarde estudando, que sempre tirava as melhores notas em seus exames e mantinha suas notas altas — ela deveria estar trabalhando aqui.

Aquela garota brilhante, muito mais capaz do que alguém como eu, deveria estar aqui.

— ……

O oficial ficou em silêncio por um tempo, depois assentiu lentamente.

— Sim… como você diz, há uma maga em nossa cidade que é filiada à Associação Unida de Magia. Espero que ela esteja a caminho para cá enquanto falamos. Acredito que você colaborará com ela nesta investigação.

— …É mesmo? — Eu assenti.

Então o oficial acrescentou: — Mas escute, Lady Bruxa, por favor, não confie demais nela. Nós a convocamos porque não parecia que ela conseguiria resolver isso sozinha.

 

Separador Tsun

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Andando pela cidade, eu podia ouvir as pessoas lamentando. Não me surpreendi, considerando que outro incidente macabro havia ocorrido.

Baixei o olhar para a estrada de tijolos enquanto caminhava, e tudo o que chegava aos meus ouvidos eram vozes cheias de nojo pela pessoa que havia deixado o culpado escapar novamente.

— É a Monica.

— O que ela está fazendo num lugar como este?

— Mesmo sendo uma maga, ela não consegue resolver esses crimes.

— Que maga inútil ela é…

— Ela costumava ser muito melhor, brilhante até…

— De qualquer forma, não suponho que ela tenha conseguido encontrar alguma pista hoje também.

Disseram-me que uma bruxa da Associação Unida de Magia viria me ajudar hoje. Seja pela dificuldade do caso ou pela minha própria incompetência em encontrar qualquer pista, a cidade aparentemente decidiu recorrer à ajuda de outra pessoa.

Foi uma medida incomum para um lugar que não gostava de lidar com forasteiros, prova do desespero e do medo que tomavam conta da cidade após esses assassinatos em série.

— ……

Tenho certeza de que a cidade preferiria ter lidado com o problema por conta própria em vez de recrutar ajuda externa. No entanto, eu era aparentemente completamente incapaz de lidar com o assunto.

Quando comecei a trabalhar no escritório do governo, não havia caso que eu não conseguisse resolver. Mas este caso era diferente. Longe de resolvê-lo, eu não conseguia nem encontrar pistas. Então, todos achavam que eu era totalmente incompetente.

Apesar de ter me dado ao trabalho de ir para um país estrangeiro e me tornar uma maga filiada à Associação, se eu não conseguisse produzir alguns resultados neste caso, então de que adiantava o broche em forma de lua no meu peito? Essa pergunta me foi lançada muitas vezes ao longo desses seis meses.

Eu não tinha experiência com pessoas ficando com raiva de mim, então cada vez eu apenas respondia: “Vou acertar da próxima vez.”

Mas a cidade aparentemente finalmente desistiu de mim. O resultado foi um pedido de ajuda.

Eu estava quase certamente acabada aqui.

— Amanhã, uma bruxa da sede da Associação Unida de Magia virá nos ajudar. Você atuará como sua assistente.

Quando fui informada disso no dia anterior, finalmente entendi. Eu sabia que não haveria um próximo caso, não para mim, não se eu não conseguisse resolver este.

Fingindo não ouvir as críticas cortantes que as pessoas me lançavam livremente, virei uma esquina e me escondi em um beco.

Eu não queria encontrá-la.

Eu saberia o que ela pensava de mim assim que a visse, então eu realmente, realmente não queria.

Afinal, qualquer bruxa da Associação certamente me ridicularizaria, assim como as pessoas desta cidade.

Eu seria exposta como uma maga patética que não havia conquistado nada, apesar de me vestir com um manto — o uniforme formal.

Então eu realmente não queria encontrá-la.

— ……

Da escuridão do beco, a bruxa se virou para me olhar. Mas…

O que vi em seu rosto não foi nojo ou riso desdenhoso. Em vez disso, havia alegria e afeto.

— …Monica.

Ela chamou meu nome.

Vi um rosto muito familiar diante de mim.

— …Saya.

Minha única amiga estava ali.

 

Separador Tsun

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Lembro-me como se fosse ontem.

— Basicamente, a Associação Unida de Magia recebe pedidos para resolver casos e incidentes que têm algo a ver com magia, e às vezes somos chamadas quando ainda não está claro se a situação foi originalmente causada por uma maga ou não. Essa é a minha área de responsabilidade. Prazer em conhecê-las.

Minha professora, Sheila, também era palestrante para as novas recrutas. Sua área de responsabilidade específica eram os casos de assassinato.

Ela falava de forma objetiva, de pé no púlpito em frente às magas recém-recrutadas, que estavam sentadas em fileiras de cadeiras.

— Pode-se dizer que os casos de assassinato são os mais problemáticos entre todas as comissões que a Associação Unida de Magia recebe. Porque, no momento em que o pedido é feito, nem sabemos se o culpado é um mago ou não, entendem?

Mm-hmm, entendi. Assenti com um ar de quem sabe tudo.

— A propósito, o que vocês acham que é a primeira coisa que temos que fazer quando recebemos um pedido para trabalhar em um caso de assassinato? Saya.

— Hã? Por que está me chamando?

— Você estava assentindo.

— ……

Eu não deveria ter tido aquele ar de quem sabe tudo… Ela me surpreendeu com uma pergunta, e eu não sei a resposta… Esta é a primeira palestra…

Comecei a entrar em pânico sob o olhar fixo de Sheila. Mas ela continuou me encarando. O olhar em seus olhos era ameaçador — Apresse-se e responda, ei, se você não consegue responder, deve significar que não sabe — e ficava cada vez mais afiado. Continuei em pânico. Em pouco tempo, meus olhos se encheram de lágrimas. Eu estava acabada.

Eventualmente, uma caneta na minha mesa começou a chacoalhar. No início, pensei que meu próprio tremor estava balançando a mesa, mas quando a caneta flutuou no ar e começou a rabiscar letras, percebi que estava se movendo por causa da magia.

A caneta começou a escrever palavras no ar.

— …‘Aprender sobre a área’?

Li exatamente o que estava escrito, e Sheila assentiu.

— Isso mesmo. Quando ocorre um incidente, a coisa mais importante a fazer primeiro é aprender sobre a região onde o incidente ocorreu. Por exemplo, se uma série de assassinatos ocorreu em um país onde não há usuários de magia, na maioria das vezes, o culpado provavelmente não é um mago. Isso porque um mago se destacaria em um lugar sem outros magos. O oposto também é verdadeiro. Quando se trata de casos de assassinato — especialmente assassinatos em série — é raro que um visitante seja o assassino. É melhor pensar no culpado como alguém local.

Continuando a partir daí, Sheila iniciou sua palestra propriamente dita.

A caneta que havia escrito palavras por conta própria caiu com um baque no meu caderno. Alguém aparentemente me deu uma mãozinha.

Sentada na cadeira ao meu lado estava Monica.

— …… — Ela guardou sua varinha sorrateiramente para que eu não a visse. Mas a verdade era óbvia. Inclinei-me e sussurrei em seu ouvido baixo o suficiente para que ninguém mais pudesse ouvir.

— …Você se preparou para a aula?

— Mais ou menos — disse ela com um aceno de cabeça.

— Obrigada por me ajudar.

— Tanto faz. — Ela imediatamente se virou.

Geralmente, era mais ou menos assim com ela. De alguma forma, ela e eu começamos a conversar depois disso e começamos a fazer coisas juntas também.

— Monica! Quer almoçar comigo?

— Tanto faz.

— Isso significa que podemos comer juntas, certo? Entendi! — Depois disso, começamos a almoçar juntas regularmente.

— Monica! É hora do intervalo; quer conversar?

— Tanto faz.

— Isso significa que sim, certo? Entendi! A propósito, o que você faz nos fins de semana?

— Nada.

Ela e eu também começamos a passar nossos intervalos juntas.

— Monica, de onde você é?

— Emadestrin, uma Cidade Onde as Pessoas Vivem.

— Quando nosso período de treinamento terminar, você vai voltar para sua cidade natal para conseguir um emprego?

— Não tenho planos de voltar.

— Oh, então você vai trabalhar em outro país ou algo assim?

— Não pensei sobre isso.

— ……

— ……

Coincidentemente, também começamos a ir para casa juntas com mais frequência.

……

Na verdade, é possível que eu estivesse apenas desenvolvendo uma conexão unilateral com ela.

Mas só porque ela não queria particularmente falar com ninguém, isso não significava que ela tinha que ficar sozinha. E só porque ela não estava inclinada a fazer amizade com ninguém, isso não significava que ela tinha que ficar apenas olhando pela janela.

Com o passar do tempo, sua atitude gradualmente se suavizou.

— Monica, o que você faz nos fins de semana?

— Eu me levanto, leio um livro, estudo e vou para a cama. Em suma, não faço nada — ela respondeu.

— É mesmo…? — Lutei para responder.

Cerca de um mês havia se passado desde que começamos a fazer cursos na Associação Unida de Magia, e eu havia acompanhado tanto minhas aulas quanto meu treinamento para me tornar uma bruxa, todos os dias sem pausa, fosse dia de semana ou fim de semana. Mas, de repente, eu tinha uma folga de verdade chegando, pela primeira vez em muito tempo.

Minha professora Sheila havia recebido um pedido de ajuda de um país próximo. Ela me disse, junto com um comentário sarcástico sobre ser “um verdadeiro pé no saco”, que faríamos uma pausa no treinamento naquele fim de semana. Em outras palavras, como meus planos de treinamento para o fim de semana foram agora cancelados, uma lacuna inesperada se abriu de repente em minha agenda normalmente lotada.

Então, como esta era uma ocorrência tão rara, pensei em tentar passear por algum lugar que não fosse o campus da filial da Associação de Magia, mas… ocorreu-me que Monica estava na mesma situação que eu, e só ia entre seus alojamentos e o campus da filial e voltava.

— …Normalmente não faço nada nos fins de semana, mas se por acaso tiver algum tempo livre, saio pela cidade e ando por aí. — Surpreendentemente, Monica pareceu ler minha mente e sugeriu: — …Se você quiser passear pela cidade, eu vou com você.

Fiquei encantada.

Tanto com a sugestão em si, quanto com o fato de Monica ter proposto algo assim, quando ela era sempre tão fria.

— Tudo bem, então, você poderia me mostrar um pouco os arredores? — Então aceitei sua oferta.

E dependi dela nos dias seguintes também.

Ela usava uma expressão mal-humorada, mas aceitou meu pedido.

Ela pode ser fria, mas é uma boa pessoa.

Depois que entregamos o cadáver no beco sob a custódia dos especialistas médicos da cidade, Monica e eu fomos para a prefeitura.

Não parecia haver uma filial da Associação Unida de Magia aqui e, em sua ausência, o governo aparentemente lidava com casos e incidentes relacionados à magia em um departamento na prefeitura.

Bem, eu digo “departamento”, mas…

— Basicamente, sou a única responsável por lidar com todos os casos e incidentes relacionados à magia. Como você pode ver.

A sala para a qual fui levada continha um sofá para receber visitantes e uma mesa cheia de papéis. Aparentemente, havia alguns usuários de magia na cidade, mas não parecia que nenhum deles estivesse interessado em trabalhar para o governo.

— A maioria dos magos trabalha no hospital… É raro um de nós aceitar este tipo de emprego.

Aparentemente, Monica vinha dormindo em seu escritório porque havia cobertores no sofá e uma pilha de roupas descartadas por perto. Para uma sala em um prédio do governo, tinha um ar bem vivido.

— …Você consegue dar conta do trabalho sozinha?

— Conseguia, pelo menos até os últimos seis meses.

Hã? Sééério?

Não pude deixar de estreitar os olhos intensamente, dado o estado da sala…

— Eles me disseram que eu podia usar o escritório como quisesse…

Monica desviou o olhar, parecendo um pouco envergonhada sob meu olhar.

— …Você está bem? Tem dormido?

— Não muito ultimamente.

Os incidentes provavelmente haviam reduzido seu tempo de sono.

— Espero que os incidentes acabem logo.

— Nem me fale. — Monica bocejou uma vez, depois se sentou no sofá. — Por favor. — Ela me convidou a sentar também. Sentei-me de frente para ela.

Então, olhando-me de novo, demorada e atentamente, ela disse: — Mas pensar que a bruxa que nos enviaram acabou sendo você. Que surpresa!

O fato de ela não parecer realmente tão surpresa provavelmente se devia ao fato de nunca ter sido muito expressiva. Ela não parecia ter mudado nada desde que éramos novas recrutas.

— Eu também fiquei surpresa. Ouvi dizer que um pedido de ajuda havia chegado de sua cidade natal, então…

Eu imaginei que a situação devia ser realmente grave se Monica não conseguia lidar com ela. Ela era uma maga excelente, muito mais talentosa do que alguém como eu.

Ela certamente era mais adequada para o trabalho do que a pequena e atarracada Saya, mesmo que eu carregasse o título de “bruxa”.

— …… — Após um silêncio muito solene, Monica disse: — …É um caso que eu simplesmente não consegui resolver. — Ela desviou o olhar.

— Já li os detalhes nos arquivos que eles enviaram. Parece um assassino em série bem problemático, hã?

— Se não fosse, eu não teria pedido reforços.

Eu sabia que havíamos aprendido algumas informações gerais sobre casos de assassinato e as estratégias para resolvê-los em nossos cursos de treinamento quando ela e eu éramos novas recrutas, mas, mesmo assim, este caso era assustador.

Falando com ousadia e honestidade, eu não estava entusiasmada em vir para esta cidade, tanto por ser a cidade natal de Monica quanto por ter tido um pressentimento de que este caso seria difícil de desvendar.

— O que fazemos agora? — Monica inclinou a cabeça, inquisitiva.

— Bem, estamos em uma situação sem pistas, mas… ainda assim, sabemos o que temos que fazer.

— …O que é?

Vamos relembrar o que aprendemos em nossas aulas. Quando nos deparamos com um caso de assassinato, como membros da Associação Unida de Magia, sabemos qual é a primeira coisa a fazer.

Ou seja, devemos aprender sobre a área.

Em outras palavras…

— Você poderia me mostrar um pouco a cidade?

 

Separador Tsun

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Considerando que eu estava bastante impopular na cidade, esperava evitar andar com Saya. Mas como ela pediu, imaginei que não tinha como evitar.

Levei-a a muitos lugares pela cidade.

Começamos pelo local onde ocorreu o primeiro incidente. Era um beco comum, espremido entre duas casas. Nossa próxima parada foi o beco perto do restaurante. Depois, um beco perto da padaria. Em seguida, outro beco entre casas. E mais um beco. Então fomos a um beco, e a outro beco depois desse.

— Qual é a desses becos todos?! — Depois de caminhar por mais de dez deles, Saya expressou sua frustração em mais um beco. — Caramba!

Eu balancei a cabeça e respondi simplesmente: — Os incidentes todos aconteceram em lugares como este.

— Não há lugares que possamos visitar além das cenas do crime?

Se fôssemos seguir o que aprendemos quando éramos novas recrutas, precisávamos percorrer a cidade para conhecer a área. Eu sabia que era por isso que ela me pediu para lhe mostrar a cidade.

No entanto…

— Este passeio foi focado em becos, mas você deve ter tido uma ideia clara da atmosfera da cidade — eu disse. — Nossa cidade não é um lugar especialmente perigoso, sabe. E há um bom número de magos, mas a maioria não usa magia.

— …… — Enquanto Saya ouvia o que eu dizia, ela encarava as pessoas indo e vindo pela via principal que era visível da escuridão do beco. — Mas a disparidade de riqueza é bem extrema, hã?

Andando ali, sob a luz do sol, estavam os cidadãos valorizados da cidade.

Saya provavelmente notou a disparidade enquanto caminhávamos pela cidade, e ela estava exatamente certa.

— Provavelmente é mais preciso dizer que é fácil para os magos ficarem ricos.

Cada um dos magos misturados na multidão parecia estar vestido de forma resplandecente. Seus chapéus triangulares eram decorados com ornamentos de ouro, e alguns usavam colares de joias no peito. Era óbvio que eles tinham mais dinheiro do que sabiam o que fazer.

Mas isso não me parecia fora do lugar. Era natural que os magos tivessem mais facilidade para ganhar dinheiro.

Porque há muitas coisas que os magos podem fazer melhor. E há algumas coisas que apenas os magos podem fazer.

Então era inevitável.

— …Então não há lugares que possamos visitar além das cenas do crime? — Saya ainda estava encarando a estrada.

Eu assenti. — Apenas um lugar.

O lugar onde a maioria dos magos que viviam na cidade trabalhava. O hospital.

O hospital era o único lugar que tratava ferimentos e doenças e desenvolvia novos medicamentos. Era também para onde os cadáveres eram levados para autópsia. De muitas maneiras, o hospital era o coração da cidade.

A maioria dos magos trabalhava lá, para ajudar os cidadãos de Emadestrin. Eles eram indispensáveis para a comunidade, e eu não tinha dúvidas de que as pessoas depositavam mais confiança neles do que em alguém como eu.

Ao mesmo tempo, eu sabia que os magos do hospital ficavam menos do que satisfeitos toda vez que eu chegava com o cadáver fresco de mais uma vítima de assassinato.

Então, se eu tivesse alguma forma de recusar, teria evitado levar Saya lá a todo custo.

— Leve-me lá, por favor. — Mas ela se virou e sorriu para mim. — Vamos terminar nosso trabalho do dia logo e depois ir comer algo bom juntas!

Senti meu peito apertar.

O maior e mais antigo prédio de Emadestrin, uma Cidade Onde as Pessoas Vivem, era o hospital. Nem precisei mostrar o caminho a Saya. Apenas disse: “Aquele é o hospital ali”, e comecei a andar, com ela me acompanhando. Nem conversamos no caminho, e não demorou muito para chegarmos.

Quando entramos, uma médica correu em nossa direção assim que me viu.

— Terminamos a autópsia — disse ela friamente.

Ela era a médica encarregada das autópsias, Frauze.

A médica nos levou ao necrotério.

— Embora eu duvide que você descubra algo vendo isso — sussurrou Frauze amargamente, para que Saya não ouvisse, e então nos mostrou o corpo de uma garota que havia desmaiado em um beco.

— Como podem ver, não há feridas externas. E nenhuma substância tóxica foi detectada. É provável que magia de cura tenha sido usada nela depois que foi morta. Não foram deixadas pistas neste cadáver.

— …… — Saya, que havia ficado cerca de três passos atrás de mim desde que chegamos ao hospital, franziu a testa e desviou o olhar do corpo. — Em outras palavras, encaixa-se no motivo do assassino em questão?

Por alguma razão, sua voz soava dolorida. Era óbvio que ela não estava acostumada a olhar para cadáveres, e sua respiração havia se tornado um pouco ofegante, como se tivesse esquecido como respirar.

— Isso mesmo. — Frauze assentiu. — Ela provavelmente foi morta enquanto dormia, e então seu corpo foi restaurado ao seu estado normal… É uma pequena misericórdia que ela tenha encontrado seu fim sem sofrer.

As vítimas do assassino eram abandonadas em becos, parecendo belas bonecas que nunca tiveram vida. Não importava o quão bem o culpado arrumasse os cadáveres, mesmo que costurasse todas as feridas, isso não mudava o fato de que as vítimas nunca mais voltariam à vida.

— Fico me perguntando por que o culpado deixa os corpos em becos. Se o objetivo é matar pessoas, então parece que se dar ao trabalho de consertá-los apenas para jogá-los do lado de fora seria um grande desperdício de esforço.

Frauze balançou a cabeça para a pergunta de Saya. — Meu trabalho é examinar os cadáveres. Eu realmente não tenho ideia.

— ……

— Cooperarei com você da melhor maneira possível, para que este caso seja resolvido o mais prontamente possível. — Enquanto falava, Frauze cobriu o corpo com um lençol. — No entanto, além do fato de que o perpetrador foi o mesmo assassino de antes, não há mais nada que eu possa aprender com este cadáver. Lamento muito não poder ser de mais ajuda…

Então ela se curvou uma vez educadamente e, em um tom distante e formal, disse rigidamente: — Novamente, vocês têm nossa total cooperação, para que possam resolver esses casos o mais rápido possível.

Isso não me surpreendeu. Teria sido bom se o corpo mais recente tivesse fornecido alguma pista, mas eu sabia que era uma chance remota. Nossa investigação ficou imediatamente paralisada.

— Nenhuma pista de novo, hã…? Pensei que talvez aprendêssemos algo olhando para o corpo, mas…

Andando rapidamente na minha frente, Saya estava tentando sair do hospital rapidamente.

Se não havia pistas, então não tínhamos mais nada a fazer ali.

— Vamos voltar para a prefeitura. Não há nada para nós aqui.

— …Você está certa.

Eu não suportava o hospital. Nunca quis ir lá em primeiro lugar, em parte porque sabia que não haveria pistas para nós, mas essa não era a única razão pela qual eu estava tão relutante.

A verdadeira razão pela qual eu odiava o hospital era a terrível sensação de desespero que parecia envolver o lugar.

— …Esta é a enfermaria, não é? — Enquanto Saya caminhava pelo corredor, ela espiava nos quartos um por um.

Dentro havia fileiras de pacientes frágeis deitados em macas.

— Doença de Lycoris.

— …O quê?

— É uma doença que tem se espalhado por nossa cidade há algum tempo — expliquei por trás dela. — As pessoas são infectadas sem saber e, uma vez que a doença se instala, o primeiro sintoma a aparecer é uma febre alta. Quando a febre baixa, em seguida elas perdem a capacidade de se mover, depois gradualmente perdem todo o controle sobre seus corpos, perdem a consciência e, finalmente, entram em estado vegetativo.

— ……

— Mesmo quando conseguimos detectá-la precocemente, antes que os sintomas de febre comecem a aparecer, não conseguimos retardar a progressão da doença.

No momento em que a doença era detectada no corpo de um paciente, ele se deparava com uma escolha terrível. Poderia deixar a cidade e morrer em outro lugar, ou poderia morrer aqui depois de ser sobrecarregado com imensas despesas médicas. Mas para deixar a cidade, eles tinham que lidar com custos de partida igualmente imensos. No final, pessoas normais sem dinheiro tinham pouca escolha a não ser ficar.

No entanto, tirar uma vida de qualquer forma era um crime grave na cidade. Isso se aplicava também à eutanásia. Mesmo interromper a administração de medicamentos a alguém que estava crivado de doenças e possivelmente inconsciente era considerado nada diferente de assassinato premeditado.

Por essa razão, os magos que trabalhavam no hospital não podiam parar de tratar esses pacientes. E é por isso que o desespero corria solto pelo lugar.

— …Em outras palavras, assim que alguém contrai a doença, seu destino sombrio está selado?

— Certo. — Eu assenti. — Tudo o que podem fazer é ficar na cama e suportar o sofrimento até morrerem.

Era um pensamento miserável, mas não havia nada que alguém pudesse fazer. Então os magos continuavam seus tratamentos, prolongando a vida de pessoas que nunca iriam se recuperar.

Eu não suportava este lugar.

Porque as contradições desta cidade estavam em exibição a cada passo.

— Oh, a Monica passou por aqui, hã?

— Ela deve estar investigando outro caso.

— Que visão desagradável ela é.

— Ela não pode fazer nada.

Além disso, vozes criticando minha incompetência ecoavam livremente pelos corredores.

— Ela nunca estará à altura do legado de seu pai, eu acho — alguém murmurou.

Parei no meio do caminho e me virei, mas ninguém estava olhando na minha direção. Como se todos tivessem conspirado juntos, todos estavam de costas para mim e se afastando.

— …O que foi, Monica?

— …Não, não é nada.

Eu balancei a cabeça e segui Saya para fora.

Pelo menos eu podia considerar um ponto positivo que as vozes não pareciam ter chegado aos ouvidos de Saya.

Saya e eu ficamos juntas por um tempo, mesmo depois de eu ter terminado de lhe mostrar os arredores.

— Diga, Monica? Vamos entrevistar testemunhas para a investigação esta tarde!

— …Acho que não vamos encontrar nenhuma pista, no entanto.

— Vamos, não diga isso!

Saya me arrastou para fora, e começamos a entrevistar várias pessoas. Da tarde até a noite, vagamos pela cidade, mesmo sabendo perfeitamente bem que não daria em nada, não importava quanto tempo continuássemos, já que eu já havia investigado há muito tempo se havia ou não alguma testemunha ocular entre os cidadãos.

No entanto, Saya andou pela cidade no dia seguinte, e no dia seguinte, me puxando atrás dela.

Quase todos os dias, ela visitava vários lugares comigo, comprava alguns lanches, ia assistir a um show e fazia outras atividades de lazer semelhantes. Então, ela conduzia algumas entrevistas sobre os incidentes quase como um pensamento posterior.

— Tudo bem, Monica, para onde devemos ir a seguir? — Saya sorriu para mim enquanto caminhávamos por uma multidão. Ela carregava um braçado de pão que havia comprado em uma barraca de rua próxima.

— …Você só pode estar de brincadeira?

Para começar, o lugar que estávamos visitando agora era uma rua principal que não tinha nada a ver com os incidentes. Era um lugar totalmente inadequado para realizar entrevistas com testemunhas, e era óbvio que vir aqui era um esforço desperdiçado.

Não havia nenhum sentido nisso.

— Estou fazendo meu trabalho, mais ou menos — disse Saya para mim enquanto eu franzia a testa, desconfiada. — Vim a um lugar que não tem nada a ver com os incidentes e estou observando as reações dos habitantes da cidade.

— …Com que propósito? — Inclinei a cabeça.

Saya respondeu de forma objetiva: — Os humanos são criaturas egoístas, então não importa quantos outros estejam sofrendo, eles podem ignorar, contanto que esteja acontecendo em outro lugar. — Pressionando um pedaço de pão em minhas mãos, ela continuou: — E, pelo menos por aqui, não há tantas pessoas que estejam chateadas com você. Se é que, há muitas pessoas por perto para dizer quem poderia te odiar, certo, Monica? — disse Saya, como se fosse uma questão de rotina.

Eu pensei que tinha conseguido manter meus problemas escondidos dela, mas ela obviamente adivinhou o que estava acontecendo sem dificuldade.

— …… — Então fiquei surpresa. — Você notou?

Senti como se ela tivesse lido minha mente.

— Eu soube na hora. Você estava com uma expressão tão dolorida no rosto.

— …Pensei que estava com a mesma expressão de sempre, mas…

— Não foi o que me pareceu, de jeito nenhum.

— Oh?

— Não. Quando alguém está com dor, às vezes é tudo em que consegue pensar. Não tem energia para pensar em mais nada. — Saya deu outra mordida no pão, engoliu e continuou: — Você pode achar que está agindo normalmente, mas todo mundo pode ver que não é bem assim.

— …………

— Quando você está passando por um momento difícil, a melhor coisa a fazer é deixar de lado tudo em sua cabeça e vagar distraidamente em um lugar desconhecido, sem pensar em nada. Então, agora que estamos em um lugar que não tem nada a ver com os incidentes, você vai vagar um pouco assim comigo?

Parecia que eu estava ainda mais exausta do que imaginava.

O pão que Saya me deu era inacreditavelmente delicioso. Ao passar pelos meus lábios e cair no meu estômago vazio, lembrei-me de que mal havia comido nos últimos dias.

— É bom, não é? Bem, afinal, é pão que eu comprei!

A mandona Saya estava ao meu lado, cuspindo uma lógica que eu mal entendia.

Eu sorri.

— É isso que eu gosto em você.

— Ah, estou corando.

Eu queria que este tempo de paz continuasse para sempre, assim mesmo.

Mas…

— Saya, não se esqueça que temos uma missão… Temos que resolver este caso o mais rápido possível.

— Não há problema aí — bufou a mandona Saya com orgulho. — Afinal, visitar um lugar que não tem conexão com os incidentes também é o que se faz quando uma investigação fica difícil.

Então ela apontou para a beira da rua.

Este era um lugar com muito tráfego de pedestres, então havia todo tipo de gente indo e vindo. Pessoas fazendo compras. A fragrância de comida com cheiro delicioso. Carroças carregando cargas pesadas. Adultos a caminho do trabalho. Magos comprando lanches. Pessoas passando pela rua em todos os tipos de negócios.

Também notamos um morador de rua na beira da rua larga, alguém que não tinha para onde ir. Saya estava apontando para o homem, que eu podia ver sentado em um caixote de madeira, pedindo dinheiro aos transeuntes.

— Se bem me lembro, a primeira vítima foi um morador de rua, certo? — Ela parecia animada enquanto olhava para o homem na beira da estrada. — E olhe, a pose em que ele está, não se assemelha à maneira como todas as vítimas estavam rezando?

Em outras palavras, ela parecia ter descoberto uma conexão entre os incidentes e este morador de rua, que estava pedindo dinheiro.

Soltei um suspiro.

— …Ele não está rezando.

— Hm? Então o que é essa pose?

Eu respondi: — Ele está implorando por salvação.

Até agora, eu nunca havia pedido ajuda a ninguém, nem esperado nada de ninguém.

Sempre acreditei que era inútil fazê-lo.

Minha mãe nos deixou antes que eu tivesse idade para entender, e meu pai, que era médico, trabalhava até tarde todas as noites, então eu sempre ficava em casa sozinha. Mesmo quando meu pai voltava para casa, tudo o que ele fazia era beber. Não tenho lembranças de brincar com meu pai quando era jovem.

Sempre fiz toda a cozinha e o trabalho doméstico sozinha. Outros adultos franziam a testa e diziam: “Coitadinha”, enquanto me observavam fazer as compras quando eu era criança, ainda não tinha dez anos. Mas eu sabia perfeitamente bem que meu pai me amava do fundo do coração. Muito mais do que os estranhos que apenas me olhavam com pena à distância.

Ele me amava profundamente.

Desde que eu era muito pequena, meu pai queria me tirar da cidade.

— Você é um gênio da magia — ele me disse. — Seria um desperdício você usar seus poderes em um lugar de mente fechada como este.

Ele me dizia essas coisas com frequência. Com o tempo, me vi querendo atender às expectativas de meu pai e sair da cidade.

Então eu me esforcei, mais do que qualquer outra pessoa. Todas as outras crianças que nasceram em famílias mágicas aspiravam a se tornar médicos locais, mas só eu comecei a estudar para me juntar à Associação Unida de Magia.

Todos me olhavam como se eu fosse uma aberração. Algumas pessoas achavam que eu era apenas excêntrica, e outras me desprezavam, me chamando de marionete de meu pai.

Apesar de tudo isso, continuei estudando, tentando corresponder às expectativas de meu pai.

Passei facilmente nos meus exames de maga (seja porque estudei muito, ou talvez apenas porque ninguém mais na minha cidade natal estava interessado em trabalhar para a Associação Unida de Magia) e estava pronta para deixar a cidade.

Meu pai pagou os custos de partida inacreditavelmente caros para mim, e eu parti. Ele estava muito ocupado com o trabalho para se despedir de mim pessoalmente. As últimas palavras que troquei com ele foram mais cedo no dia da minha partida, quando ele de repente me disse: “Nunca mais volte aqui.”

Essa foi a única coisa que ele me disse que se assemelhava a uma despedida.

Nos olhos dele, enquanto me olhava, pude ver seus sentimentos por minha mãe, cujo rosto eu nunca conheci.

Na verdade, eu sempre quis salvar vidas, assim como meu pai. Mas nunca admiti isso em voz alta.

Eu sabia de tudo desde jovem.

Eu sabia, melhor do que ninguém, que meu pai esperava que eu não vivesse minha vida como ele.

E, no entanto, no final, eu voltei para a cidade.

Uma vez que fui aceita na Associação Unida de Magia, eu deveria passar os primeiros meses frequentando aulas com todos os outros novos recrutas.

Pessoalmente, achei que seria uma perda de tempo.

Todos os meus colegas eram garotas confiantes e extrovertidas, e quando as aulas terminavam, elas ficavam no corredor da sala de aula perguntando umas às outras se queriam ir comer alguma coisa ou sair para outro lugar. Parecia que elas só estavam interessadas em se divertir.

Em vez de se preocuparem com suas futuras responsabilidades, tudo o que elas se preocupavam era em se divertir e vadiar quando deveriam estar estudando. Pelo que pude ver, havia apenas uma outra garota lá que estava tentando aprender alguma coisa com seriedade.

— Eu definitivamente me tornarei uma bruxa, eu definitivamente me tornarei uma bruxa, eu me tornarei uma bruxa, eu me tornarei uma bruxa, eu me tornarei uma bruxa, eu me tornarei uma bruxa, eu me tornarei uma bruxa, eu me tornarei uma bruxa…

Ela era a esquisita, murmurando seu mantra no assento ao meu lado.

— …………

Seu rosto estava rígido de nervosismo quando ela se apresentou e me disse que seu nome era Saya. Havia definitivamente algo estranho nela. Ela disse que queria trabalhar com a Associação enquanto viajava.

A maioria dos novos recrutas em nossa turma planejava voltar para suas cidades natais assim que o treinamento terminasse, para que pudessem trabalhar em seus escritórios locais. Alguém como Saya, que não planejava voltar para casa, realmente se destacava.

Ela e eu tínhamos isso em comum.

Talvez fosse por isso que a notei. Todos os dias, ela aparecia na aula parecendo estar à beira da morte, e durante os intervalos ela apenas estudava. Ela não falava com ninguém. Assim que as aulas do dia terminavam, ela corria para algum lugar. Houve vezes em que outras garotas tentaram convidá-la para sair, mas no final, ela mal parecia notá-las. Com o tempo, todos começaram a pensar nela como uma excêntrica, mas ela não parecia nem perceber.

Os outros magos da minha cidade natal me olhavam da mesma maneira. Talvez isso explicasse a estranha afinidade que eu sentia por ela.

Decidi em algum momento que gostaria de tentar conversar com ela. Mas, embora estivesse interessada, eu também não havia falado com ninguém, e duvidava muito que algum dia tivesse a chance.

Mesmo agora, lembro-me muito bem da nossa primeira conversa. Nos encontramos a caminho de casa depois de estudar.

A partir daquele dia — na verdade, a partir do dia seguinte — ela fazia questão de vir falar comigo em todos os intervalos e depois de todas as aulas.

Provavelmente porque eu havia chamado sua atenção durante a aula.

Quando ela o fazia, eu lhe dava apenas respostas frias e curtas. O que era o oposto do que eu realmente sentia.

Quando outras garotas se aproximavam de mim, elas nem tentavam esconder suas intenções. Elas só estavam interessadas porque eu era uma boa aluna. Então, demorei muito tempo para baixar a guarda.

Mesmo assim, Saya continuou falando comigo. Fiquei tão feliz.

Com o tempo, ela e eu nos tornamos amigas.

— E então, veja, a bruxa que me ajudou naquela época, o nome dela é Elaina, ela é geralmente uma pessoa muito boa, e…

Saya frequentemente falava sobre a bruxa que a resgatou. Realmente, com muita frequência.

O suficiente para que eu estivesse completamente farta de ouvir sobre ela.

— …Já ouvi essa história dez vezes.

— Ótimo, vou te contar mais cem vezes!

— ……

Segundo Saya, essa tal de Elaina era a bruxa que a inspirou a se tornar uma bruxa.

Mesmo que eu fizesse caras terrivelmente entediadas para Saya sempre que ela repetia as mesmas histórias, eu realmente sentia inveja por ela conhecer uma bruxa que teve uma influência tão grande sobre ela.

Pensei em como seria bom significar tanto para alguém.

Saya e eu conversamos muito durante aquele tempo juntas, mas nada disso era digno de nota. Nosso tempo juntas como estudantes não foi particularmente emocionante.

No entanto, eu amava o tempo que passava com Saya. Mesmo que eu sempre usasse uma expressão mal-humorada, eu amava ouvi-la me contar sobre si mesma, e amava cada minuto que ela passava comigo.

Começamos a voltar para casa juntas depois das aulas todos os dias.

— Ela é tão impiedosa como sempre…

A Srta. Sheila, professora de Saya, devia ser muito rigorosa, porque Saya estava sempre completamente exausta. Eu não sabia por que ela aguentava, talvez por causa do quanto ela queria se tornar uma bruxa, ou porque queria alcançar Elaina ou quem quer que fosse. Seja qual for o caso, Saya estava completamente absorta em seu treinamento. Ela certamente não se esquivava do trabalho duro. Comparada às outras garotas, que estavam apenas cumprindo as formalidades das aulas, Saya parecia muito mais engajada.

— …Sinto muito por isso. Se quiser, podemos ir comer alguma coisa.

— Sim, por favor!

Saya era o tipo de garota cujas intenções estavam sempre escritas claramente em seu rosto. Assim que eu olhava para ela, podia dizer o que ela estava pensando. Ela não parecia ter um único osso desonesto em seu corpo. Se estava feliz, sorria abertamente; se estava triste, franzia a testa; e se sentia fome, dava para ler em seu rosto.

Ela sempre dizia o que realmente estava em sua mente, e eu sentia que podia confiar nela mais do que em qualquer outra pessoa. Era por isso que podíamos passar tempo juntas.

— Você é uma pessoa muito honesta, não é?

— Bem, não há motivo para mentir, não é? Estou com fome! — Saya respondeu friamente. Ela acrescentou: — Na verdade, menti uma vez há muito tempo, mas fui descoberta.

— Pela Elaina, certo? Eu sei.

— Já te contei sobre isso?

— Apenas umas dez vezes.

— Bem, então terei que te contar cem vezes!

— Por favor, não. Meus ouvidos vão cair.

Saya estava sempre repetindo as histórias que me contava sobre si mesma.

Um dia, durante um intervalo, enquanto ela me contava animadamente algum conto trivial, perguntei-lhe pela primeira e única vez:

— …Por que você me conta essas histórias sobre si mesma?

Saya me olhou com uma expressão curiosa e, como esperado, respondeu-me com sinceridade:

— Hm? Não é normal querer que seus amigos saibam mais sobre você?

— …………

Fiquei me perguntando o quão normal isso era.

Eu nunca tinha feito um amigo antes, nunca quis que ninguém soubesse sobre mim e nunca conheci ninguém que eu me importasse em conhecer.

No meu caso…

Eu também nunca consegui confiar em mais ninguém.

— …E é normal aceitar seus amigos como eles são?

Até eu tive que me perguntar o que estava perguntando. Eu teria ficado totalmente perplexa se alguém de repente me perguntasse tal coisa.

Saya inclinou a cabeça, curiosa. Pude perceber que ela estava se perguntando o que eu queria dizer. Mas então ela riu com facilidade e disse: — Bem, não tenho certeza, mas acho que seria uma coisa normal de se fazer, certo?

Claro, essas palavras também não continham mentiras, apenas seus verdadeiros sentimentos.

— ……

Foi quando um pensamento tolo me ocorreu. Pensei que talvez, se alguém pudesse me entender, seria Saya. Que essa garota na minha frente poderia de alguma forma escolher ficar comigo mesmo depois de saber sobre meu passado.

E então…

— A questão é que eu… — comecei a contar a ela.

Para contar a ela minha verdade. A verdade sobre mim.

Mas…

— O intervalo acabou. A aula vai começar, então sentem-se.

…Eu tive um péssimo timing. Assim que abri a boca para falar, a Srta. Sheila entrou casualmente pela porta da sala de aula.

— Ah! Desculpe! Conversamos depois! — Saya voltou apressadamente para seu próprio assento. Ela parecia particularmente intimidada por sua professora.

No final, não tive a chance de lhe contar meu segredo.

Guardei aquele segredo, que nunca havia contado a ninguém, nem mesmo a meu pai, escondido em meu coração, enquanto a aula começava.

 


 

Tradução: Gabriella

Revisão: Axios

 

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