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Rei do Labirinto – Vol 02 – Cap. 13 – O Homem de Pedra

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1

Zara subia rapidamente por um caminho rochoso, segurando um martelo de guerra de cabo fino e cabeça relativamente pequena.

Ouviu um silvo e outra serpente de pedra saltou de trás de uma rocha para atacá-lo. O martelo cortou o ar com um zunido ao ser girado e acertou em cheio a cabeça da serpente, que fez um som de esmagamento ao ser atingida.

Qualquer um que visse aquilo ficaria boquiaberto: um aventureiro com força suficiente para explodir a cabeça da criatura ainda no ar. Também se maravilharia com sua técnica com o martelo, afinal, um martelo de guerra é difícil de dominar por causa do centro de gravidade na ponta do cabo longo.

Mas o próprio Zara não estava nada satisfeito.

Se o tio visse isso, provavelmente diria algo tipo “é esse o som que seu martelo faz, garoto?”

Ele guardava no Tesouro um martelo gigantesco que Logan lhe dera como presente de despedida. Era tão pesado que esgotava sua estamina em poucos golpes. O que usava agora era menor e já o acompanhava há mais tempo.

Serpentes de pedra avançaram da esquerda e da direita. Zara ajustou a postura e esmagou as duas cabeças num único balanço. Cuidou também de desviar do veneno que espirrou dos corpos.

No início, usara espada de uma mão, como sempre. Embora fossem monstros fracos, as serpentes de pedra atacavam em ondas e eram adversárias duras. Suas espadas quebravam rápido. Depois de guardar a terceira no Tesouro, decidira trocar pelo martelo.

Lorde Percival diria que uma espada não quebra se for manejada com habilidade suficiente.

Zara se perguntava como Percival lidaria com aquilo tudo. Queria muito chegar perto dele um dia.

Não… lorde Percival provavelmente atravessaria correndo, desviando de todos sem nem precisar sacar a espada.

Enquanto pensava nisso, um grupo de orcs do deserto surgiu à frente. Zara passou o martelo para a esquerda, desembainhou a espada com a direita, acelerou e investiu direto contra eles.

Pelo menos uma coisa é verdade: esta estrada está cheia de monstros.

Foi o que pensou enquanto enfrentava os orcs.

2

O Grande Desfiladeiro era uma ferida gigantesca na terra.

Diz a lenda que o deus gigante Boho rasgou o solo com as mãos nuas entre as Montanhas Gahra e o planalto só para provar sua força.

Em outra lenda, Chakrapokka, deus das águas, lavou a terra junto com os humanos gananciosos que nela viviam.

De um lado, as Montanhas Gahra; do outro, uma cadeia que seguia até o planalto, ambas quase intransponíveis. Já o interior do desfiladeiro tinha clima ameno, era fácil de andar – apesar das tempestades ocasionais – e ainda contava com um rio.

Por isso havia tantos povoados ali, e o lugar se tornou uma rota importante no sentido leste-oeste, cheia de mercadores.

Havia campinas e florestas, mas o caminho que Zara seguia agora era só penhasco e pedra.

Ele seguia para o leste depois de se separar de Shariezara. Dormiu ao relento por três noites e, na quarta, encontrou um vilarejo. Enquanto comia na estalagem, três aldeões se aproximaram.

Um deles se apresentou como o chefe da aldeia.

— Você é aventureiro?

— Sim.

— Aceitaria um pedido nosso?

— Uma missão? Sem passar pela guilda?

— Por aqui não tem guilda de aventureiros nem nada parecido. Imagino que só aceite se for oficial…

— Não é isso. Primeiro me contem, depois eu decido.

— Há dois meses, um gigante feito de pedra se instalou num vale na borda do vilarejo.

— Gigante… de pedra?

Zara nunca ouvira falar de algo assim. Provavelmente algum tipo de monstro.

— Isso mesmo. Tem três… não, cinco vezes a altura de um homem. De vez em quando solta um grito esquisito que chega até aqui. É assustador. Os moradores estão apavorados e não conseguem trabalhar direito.

A voz talvez tenha efeito de maldição, deixando as pessoas sem coragem.

— Se fosse só isso, a gente ignorava, mas nesses dois meses três aldeões sumiram. Fomos até o vale e encontramos roupas e pertences deles no lugar onde o monstro fica.

— Entendo. Algo tem que ser feito.

— Tem mais: as roupas não eram só de gente daqui. Viajantes também estão desaparecendo.

— O monstro sai do vale?

— Nunca vimos. Alguns dizem que ele usa a voz amaldiçoada para atrair as vítimas.

— Voz amaldiçoada?

— Achando que o número de mortos só ia aumentar, juntamos um dinheiro e pedimos a um aventureiro de passagem. Quando ele viu o monstro, disse que a recompensa era pouca.

O chefe contou o valor. Realmente não era o tipo de quantia pela qual alguém arriscaria a vida.

— Depois pedimos ajuda à Narillia.

— Quem é Narillia?

— Um casal de boticários que se mudou pra cá há quatro anos. A esposa, Narillia, entende muito de várias coisas.

— Ah, entendi.

— Ela tentou vários venenos que tinha em estoque. Nenhum funcionou.

Veneno? Em um gigante de pedra?

Veneno não costuma fazer efeito em monstros de pedra… nem em gigantes, na verdade.

Um veneno capaz de matar um gigante de pedra teria que ser absurdamente forte. Difícil uma boticária de vilarejo ter algo assim.

— Perguntei se havia algum jeito, e ela disse que talvez tivesse um.

— Sério? Qual?

— Acho melhor ela mesma explicar. — O chefe virou-se para trás. — Jaka, vá chamar a Narillia.

Jaka assentiu e saiu. Quando voltou, uma mulher o seguia. Era, sem dúvida, Narillia, a boticária.

Cabelos negros ondulados e brilhantes, como se tivesse acabado de sair do banho. Olhos verde-jade, sobrancelhas grossas, nariz afilado, lábios vermelho-escuros e queixo levemente protuberante. Vestia-se como aldeã comum – blusa marrom-avermelhada e saia desbotada – mas tinha presença de nobre. Com roupa adequada, passaria fácil por uma.

— Nossa… não esperava alguém tão jovem.

— Esta é Narillia. Narillia, pode explicar ao Zara o método que você pensou para derrotar o monstro?

— Claro. Zara, né? Para matar o homem de pedra precisamos de um veneno especial. O ingrediente principal é o saco de veneno de um ketsarupa.

Ketsarupa?

— Tem uma caverna um pouco ao norte daqui onde dizem que vivem ketsarupas.

— Sempre houve — completou o chefe. — Todo mundo do vilarejo sabe.

— Veneno comum não funciona em monstros de pedra, mas o de ketsarupa funciona com certeza. A purificação é complicada, mas consigo transformar num veneno capaz de matar até golem de pedra.

A caverna era tão perto que dava pra ir e voltar a pé num dia só. Deram um mapa a Zara, mas era basicamente uma estrada só, difícil se perder. O problema eram os monstros no caminho, perigoso para quem não fosse aventureiro.

— Mas é pesado demais pra um aventureiro jovem como você. Não faça nada além das suas forças, Zara.

— Do que você tá falando, Narillia? Não foi aquele homem de pedra que matou seu marido? — cortou Jaka.

— Querido, eu não acredito que meu marido esteja morto. Afinal, não acharam os pertences dele. Certeza que está por aí caçando alguma erva medicinal rara — insistiu ela enquanto os três homens a olhavam com pena.

— Resumindo: a situação vai continuar até alguém chegar naquela caverna. Só preciso ir lá e pegar um saco de veneno de ketsarupa, certo?

Os três assentiram. Narillia pareceu nervosa.

— É-é isso, mas… Zara, você sabe o que é um ketsarupa?

— Sei. Sou aventureiro.

Nesse momento, uma voz ecoou ao longe.

Nnnnooooo……eeeee……raaaaaaaa…

— Ah, e-essa é a voz amaldiçoada do monstro!

— Entendi.

O chefe estava apavorado, mas para Zara a voz parecia mais triste que assustadora. Não soava “amaldiçoada”.

— Aceito o pedido.

— O QUÊ?! Você aceita mesmo?

— Ei! Não seja imprudente, Zara!

— Vou com cuidado.

3

Chegou à caverna. O caminho acabou sendo bem simples.

Zara abriu o Tesouro e tirou uma adaga. Tinha uma bainha no cinto e guardou a arma ali. Sem ela, provavelmente não teria aceitado a missão.

Ketsarupas eram bestas mágicas nível 60. Pareciam centopeias gigantes. Ataques individuais não eram tão fortes, mas viviam em bandos nas cavernas escuras, tinham veneno letal nas pinças e na cauda, e ainda soltavam névoa venenosa. Só entrar numa caverna dessas já era mortal. Missões de subjugação eram sempre para grupos rank S.

O saco de veneno ficava atrás do coração, só dava pra pegar matando um.

Zara segurou espada de uma mão na direita e escudo de papagaio na esquerda.

Talvez devesse trocar a espada por algo mais forte.

Não. Preciso aprender a enfrentar inimigos poderosos sem depender de armas abençoadas. Esse é um dos meus grandes objetivos. Até usar essa adaga já seria exagero.

Decidido, entrou na caverna. Ativou Visão Noturna e, após uns duzentos passos, o primeiro inimigo apareceu.

Um ketsarupa caiu do teto. Girou o corpo com agilidade no ar e atacou com as enormes pinças da cabeça.

Zara desviou, esperou o monstro pousar e, quando as pinças bateram uma na outra, cortou uma pela base. A dor fez o bicho recuar; cortou a outra pinça em seguida.

Outro saltou da esquerda. Zara inclinou o corpo para desviar das pinças; o monstro então desceu a cauda por cima da cabeça.

Bloqueou a ponta da cauda com o escudo e cortou uma pinça perto da base. Errou o ponto, não causou dano visível.

O primeiro voltou ao ataque tentando esmagá-lo. Zara desferiu um corte vertical na barriga macia; o ketsarupa cambaleou, caiu e começou a vazar fluidos. O segundo avançou da esquerda, mas após o desvio colidiu com o primeiro e perdeu equilíbrio. Zara cortou uma das pinças do segundo.

Nesse instante, Sentido avisou que um terceiro se aproximava.

Agora!

Girou nos calcanhares e correu para a entrada.

Os dois feridos o perseguiram; o terceiro não, ainda não o reconhecia como inimigo.

Correu até ver luz fraca na boca da caverna e virou-se para os perseguidores.

Quando ketsarupas corriam, esticavam o corpo quase em linha reta, alvo perfeito para quem tivesse velocidade e técnica.

Um saco de veneno já basta.

Zara saltou, deu um mortal por cima do líder e, quando a cabeça passou exatamente abaixo, cravou a espada de cima para baixo, cortando o corpo inteiro ao meio. Coração e saco de veneno foram partidos junto.

O outro passou voando e tentou acertar com a cauda. Zara girou no ar e evitou quase tudo, mas levou um leve arranhão na perna esquerda, logo abaixo do joelho.

Pousou e se recompôs.

O ímpeto levou o segundo ketsarupa longe. Ele virou e atacou de novo.

Zara saltou para trás para não tropeçar no cadáver que se contorcia no chão, veneno jorrando das costas abertas.

O que avançava era o sem pinças. Empurrou o corpo do companheiro morto e correu. Zara desviou fácil e abriu a carapaça numa junta no meio do corpo.

Depois disso foi tranquilo. Cortou a cauda que ainda se mexia, esperou parar quase completamente, extraiu o saco de veneno, guardou no recipiente que lhe haviam dado e colocou no Tesouro.

Verificou a perna: roupa intacta, só uma contusão leve.

Que decepção… não consegui sair sem tomar dano nenhum.

Refletiu sobre a luta enquanto o rosto furioso do instrutor Logan passava pela cabeça.

4

Bateu na porta.

— JÁ VAAAAI! Quem é? — respondeu uma voz lá dentro, e a porta se abriu.

Os lindos olhos verde-jade de Narillia se arregalaram.

— N-não pode ser… Você voltou?

— Voltei. E trouxe o saco de veneno de ketsarupa. Veja você mesma.

— Sério?! Ah, quer dizer… entra, entra!

Narillia o convidou para dentro e examinou o item.

— Não há dúvida. É um saco de veneno de ketsarupa. Você realmente conseguiu…

— Consegui.

— B-bom… já almoçou?

— Ainda não.

— Vou preparar alguma coisinha rapidinho, espera aí.

A refeição foi farta, com muita carne, impossível ter sido feita de improviso.

Nobre ou plebeu, a boa educação mandava usar a própria faca na casa alheia. Zara cortou a carne com sua adaga.

— Delicioso. Não sei como conseguiu esse sabor depois de envenenar tudo. Daria uma ótima cozinheira numa casa nobre.

Ao ouvir isso, Narillia largou a máscara. O sorriso alegre sumiu; o rosto belo ficou frio e arrogante.

— Quando você percebeu?

— No instante em que nos vimos. Passei quase dois anos mergulhando num labirinto. Sei quando sinto um monstro.

— Por que você não morreu?

— Antídotos de labirinto não funcionam lá fora. Itens com bênção de resistência a veneno também costumam falhar. Mas alguns são exceção.

— Entendi. Como conseguiu pegar um saco de veneno de ketsarupa, seu nível deve ser alto, né?

— Sessenta e oito.

— Sessenta e oito?! O que um aventureiro desse nível está fazendo num fim de mundo desses?

De repente, expressão e voz voltaram ao normal de aldeã simpática. Talvez aquele fosse o verdadeiro eu dela, surpreendente.

— Tá bom. Nível sessenta e oito.

Narillia fechou os olhos, pensando. Abriu-os de repente, íris verticalmente fendidas.

— Então morra!

O corpo começou a se transformar, rasgando as roupas. Dobrou de altura. Da cintura pra cima continuou a bela mulher; da cintura pra baixo virou serpente gigante.

Uma lamia!

Lamias eram criaturas infernais de rosto lindo e corpo serpentino longo. Enganavam vítimas com heresias e as levavam à ruína. Eram demônios, espíritos femininos que detestavam humanos e as bênçãos divinas.

Assim que percebeu, Zara atirou a adaga. Atingiu o coração no exato segundo em que a transformação terminou.

— Aiiii… O que… é isso? O que é isso?

Agora era Zara quem ficava pasma.

Por quê? Como um demônio sobrevive à Adaga de Kaldan e ao elemento sagrado?

— Ah… que nostalgia… Isso… hmmm… me deixa tão calma… — murmurou a lamia, abraçando a adaga ainda cravada no peito.

Zara ficou sem palavras. Alguém bateu na porta.

5

— Narillia, está aí? Abre. Sou eu, Jaka.

Zara já sentiu alguém chegando. Pensou em revelar a verdadeira forma dela ao vilarejo, mas agora não parecia certo. Melhor entender tudo primeiro.

— Narillia, por favor, não diga que estou aqui.

Recuperou a adaga num movimento rápido e se escondeu no quarto sem fazer barulho.

— Hã? Hm? Eu… eu… hã?

Sozinha, a lamia olhou para o corpo exposto, roupas rasgadas no chão, comida na mesa e depois para a porta.

— Narillia, está tudo bem? Ouvi um grito.

— Ah, Jaka, o-olá! Eu… eu estava jantando. Mas estou sem roupa agora. Não entre, por favor!

— …Por que você estava comendo pelada?

— Eu estava comendo e… caiu sopa no cabelo! Aí comecei a lavar e… derramou na roupa e no corpo também. Estou me limpando. Estou pelada, não entre! Espere só um minutinho, tá?

— Tá bom. Que chato. Eu espero o tempo que precisar.

Narillia voltou à forma humana, molhou o cabelo, juntou as roupas rasgadas. Ia abrir a porta, lembrou que ainda estava nua, correu pro quarto, se vestiu e deixou Jaka entrar.

Quando seus olhos se cruzaram no quarto, ela lançou o olhar mais assassino que conseguiu e sibilou, avisando que ainda não tinham terminado.

— Fiz comida demais sem querer. Quer comer, Jaka?

— Nossa! Claro! Você acabou de salvar meu dia, Narillia!

Jaka ficou eufórico com a comida caseira. Como se precisasse de um empurrãozinho final para enganá-lo de vez, Narillia ofereceu bebida. Ele recusou por educação, mas logo aceitou e ficou bêbado rapidinho.

Começou a flertar.

— Narillia, você sabe dos meus sentimentos. Seu marido já bateu as botas. Não quer ficar comigo?

— Não. Meu marido vai voltar, eu sei.

— Ele nunca foi fiel coisa nenhuma. Deve ter te largado por outra.

— Meu marido pensa em mim todo dia. Até hoje. Eu sei.

— Uma mulher como você merece mais que um inútil que só te deu essa vida miserável. Se mudar de ideia, te dou roupas lindas.

— Nossa, virou homem importante, Jaka?

— Olha só isso. E isso. Tudo para você.

— Que lindo… Espera. Não é o anel que a Mina usava antes de sumir…?

— Hã? Ah, até parece mesmo…

— E esse bracelete eu dei para a filha do Zando. Você… Você matou todo mundo!

— Merda! Cala a boca, mulher! Vou te matar também!

— Chega.

Jaka ficou branco ao ver Zara surgir do quarto.

— Você… o garoto da caverna! Merda, me enganaram!

Tentou fugir; Zara o derrubou.

— Sua vadia! Desconfiou de mim desde o começo, né? Mandou o aventureiro se esconder e me seduziu para eu entregar o anel e o bracelete. O chefe do vilarejo também está metido nisso! Que joguinho sujo! Você é horrível! Um monstro! Um demônio! Vou te chamar de lamia para sempre!

— Hã… obrigada?

6

Arrastaram Jaka até a casa do chefe. Ele confessou tudo. Revistaram a casa dele e encontraram provas, muitas provas.

Com isso, matar o homem de pedra já não valia a mixaria oferecida, a missão foi cancelada. Zara não mencionou que já tinha o saco de veneno.

— Você perdeu a recompensa… Pelo menos leve o saco de veneno. Vai vender por muito mais do que a gente pagaria.

— A recompensa que eu mais quero é informação. Pode me contar sobre você?

— Justo. Volte na minha casa mais uma vez.

Os dois voltaram. Ela preparou um chá doce e perfumado.

— Por onde começar…? Ah, antes, posso ver sua adaga?

Zara entregou. Ela a abraçou contra o peito.

— Sabia… Essa aura é da Lady Kaldan — sussurrou com voz melosa.

— É um item abençoado chamado Adaga de Kaldan. Cura veneno e efeitos de status, entre outras coisas. Você conheceu o dragão maligno Kaldan?

— Ela não era maligna! Lady Kaldan era uma deusa boa, muito boa!

Surpreendentemente, Narillia disse ter mais de mil anos e que, quando humana, fora atendente da deusa Kaldan.

A deusa Olgoria, porém, tinha inveja da beleza e popularidade de Kaldan. Convenceu os reinos vizinhos da “maldade” dela e destruiu todas as nações abençoadas por Kaldan.

Narillia ficou ao lado da deusa até o fim. Olgoria pessoalmente a transformou em lamia. Kaldan não conseguiu desfazer a maldição, pediu desculpas chorando, disse para ela tentar ser feliz e partiu para o fim do mundo com os espíritos do marido e dos familiares.

Zara ficou chocado. Olgoria era deusa da sabedoria e harmonia, uma das seis grandes divindades adoradas em Baldemost. Qualquer um lá diria que Narillia estava louca.

Mas Zara resolveu ouvir até o fim, antes de partir, haviam lhe contado o outro lado de uma lenda muito acreditada em Baldemost.

7

No dia da partida, Zara foi se despedir de Julius.

As duas casas tinham o mesmo grau de nobreza, mas a Casa Goran só existia graças à Casa Mercurius. Deviam tudo a Julius por ter aceitado Panzel como vassalo.

E não era só isso: fora a Casa Mercurius que criara Zara. Sua lealdade seria eterna à família real e a eles.

Julius preparara um presente extraordinário: os cinco itens abençoados da Casa Mercurius.

Pulseira de Alestra – anulava magia à vontade do usuário.

Adaga de Kaldan – protegia de veneno e efeitos de status.

Anel de Raika – disparava magia ofensiva.

Escudo de Ende – refletia ataques físicos.

Amuleto de Bolton – absorvia mana e concedia invisibilidade.

Esses tesouros eram levados regularmente ao labirinto pelo antigo chefe, Percival. Dois deles – Pulseira de Alestra e Adaga de Kaldan – tinham estado com o minotauro. Acreditava-se que a criatura os tomou após matar Percival.

A pulseira foi dada pelo minotauro a Panzel ainda menino. Panzel a devolveu a Julius, o que o levou a servir a Casa Mercurius. Usou-a emprestada desde a Revolta de Pantram até a morte.

A adaga também veio do minotauro depois que Panzel, já cavaleiro, o derrotou. Graças a ela conseguiu voltar vivo do fundo do Labirinto Sazardon. Depois devolveu-a a Julius.

Panzel conseguia usar todos os cinco. Quando Zara fez 14 anos e foi desafiar o labirinto, Julius o fez testá-los. Zara ativou os cinco sem dificuldade.

Julius emprestou Pulseira de Alestra e Adaga de Kaldan a Zara. Foi graças a eles – e à Espada de Bora herdada do pai – que ele se tornou rank S tão rápido.

— Quero que leve os cinco itens abençoados na viagem.

Chamou um servo especialista em runas. Gravaram a marca de propriedade de Zara no Anel de Raika, Escudo de Ende e Amuleto de Bolton. Pulseira e Adaga já tinham. Assim os cinco tesouros da Casa Mercurius foram parar no Tesouro de Zara.

Julius dispensou o servo e falou baixo:

— É segredo da família, mas quero que você saiba.

Contava-se que a Pulseira de Alestra fora dada pela deusa Pharah ao rei fundador, que a entregou ao primeiro chefe Mercurius. Mas a história interna da casa dizia que todos os cinco itens foram presenteados pelo deus-dragão Kaldan ao primeiro chefe após ele a derrotar, como recompensa por coragem e lealdade. Só podiam ser usados por quem o chefe reconhecesse como digno.

O Reino de Baldemost fora fundado sob proteção de Pharah após derrotarem o dragão maligno Kaldan. Revelar isso abalaria a origem do reino, poderia ser o fim da Casa Mercurius.

Zara ficou emocionado com a confiança.

— Arza… não, Zara. Eu admirava meu falecido pai. Admirava também Panzel, herói de que o país se orgulha. Queria derrotar aquele monstro eu mesmo, mas minha batalha não é no labirinto. Estou me preparando para a mais importante da minha vida.

Julius tinha 42 anos e era Ministro Azul, terceiro cargo mais alto. Em breve seria Ministro Vermelho, começaria uma guerra política com o Duque de Riga.

— Zara, te empresto esses cinco itens até você derrotar aquele monstro. Leve na viagem, aprenda a usar e fique tão forte que não precise depender das bênçãos por instinto.

8

— Que tipo de pessoa é seu marido?

— Meu marido? Nos conhecemos nas terras fronteiriças a oeste. Ele ainda era criança.

Narillia contou que viveu dez anos com uma família até ladrões os matarem. Sobrou só um menino. Viajaram juntos dizendo que eram mãe e filho. Como ela não envelhecia, a história parou de fazer sentido; passaram a dizer que eram casados.

Vivia discretamente como boticária, ajudando com o conhecimento que aprendera com Kaldan.

— Ele ainda está vivo?

— Como eu já disse, está vivo. Você ouve a voz dele todo dia.

— Quer dizer que o homem de pedra é seu marido?

— Isso. Ele foi… amaldiçoado.

— Por que você amaldiçoou seu marido?

— Eu não amaldiçoei! Ele queria tanto…

— Queria o quê?

— …Queria tanto ser meu marido de verdade. Eu avisei que seria amaldiçoado se nos deitássemos, porque sou lamia… — começou a chorar.

— …Quer um tempinho?

— Não, tudo bem… O corpo do meu amor ficou coberto de escamas de cobra e até hoje sofre com veneno rastejante.

— Escamas de cobra? Não bate com a descrição que ouvi.

— Para acelerar a cura, cobri ele de terra, ajuda a remover maldição e veneno, e aumenta a recuperação de estamina. Ele não aguentaria o veneno no tamanho normal, então o fiz crescer muito. Usei um encanto para endurecer a pele e a terra não cair. Tem rio no vale, frutas e capim comestível. Pedi para ficar quietinho, mas ele faz um barulho danado.

A verdadeira identidade do homem de pedra era um humano em recuperação. Segundo Narillia, em duas ou três semanas ele voltaria ao normal.

9

Zara ficou mais uma noite na estalagem e partiu cedo. Por algum motivo, seu nível subiu para 71.

Narillia veio se despedir e deu um monte de remédios que dissera ter feito ela mesma, alguns de efeito bem duvidoso.

Zara agradeceu. Quando estava de saída, ouviu a voz novamente.

Naaaaa……uiiiiii……laaaaa…

— Seu marido de novo?

— S-sim.

— O que ele está dizendo?

— Você já devia saber, ouviu um monte de vezes!

— Desculpe, não entendo.

Narillia desviou o olhar e falou baixinho:

— Ele está chamando meu nome… Está dizendo “Narillia”.

 


 

Tradução: Rlc

Revisão: Pride

 

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