— Vendemos bastante, considerando que era uma liquidação de última hora. Eu nem tinha tanto estoque assim, mas fico feliz que deu tudo certo. — Max assentiu satisfeito ao olhar para as prateleiras que começavam a ficar visivelmente vazias.
Como ele abrira a loja geral por puro capricho, mesmo tendo uma grande variedade de produtos, nunca era em grande quantidade. Quando um monte de clientes correu para aproveitar os descontos, tudo se esgotou num piscar de olhos.
— Não sobrou quase nada, então acho que podemos reduzir um pouco a equipe. Ferd, Elrica, vocês vieram de longe das montanhas… que tal dar uma volta pela cidade? As barraquinhas do festival ainda estão abertas, tem muita coisa pra ver. — Max julgou que não precisava dos seis ali e sugeriu que Ferd e Elrica, que viviam reclusos nas montanhas, aproveitassem a cidade.
— Hmm. Então vamos aceitar a gentileza — disse Ferd.
— Exatamente — completou Elrica.
Desde que tinham saído das montanhas, os dois quase não haviam ficado sozinhos. Aceitaram a boa vontade do amigo e saíram para um pequeno passeio.
— Agora que pensei… acho que nunca participei de um festival de verdade — murmurou Ferd assim que puseram os pés na rua.
— Ah, é mesmo, agora que você falou… — Elrica concordou, recordando o passado.
Durante a grande guerra, festivais eram luxo impagável. Os poucos que houveram eram mais celebrações da vitória, com Ferd e os outros como protagonistas, não como participantes. Por isso, essa era a primeira vez que simplesmente aproveitavam um festival.
— Bwa ha ha ha ha!
— Aha ha ha ha!
O casal de velhinhos caminhava pela cidade onde o entusiasmo pela vitória dos Matadores de Dragão ainda estava no ar. Seus olhos acompanhavam artistas de rua vestidos de palhaços, que riam enquanto desfilavam pelas ruas.
— Mamãe! Compra aquele pra mim!
— Não. Comprei um ontem.
— Ei, não tem mais bebida!
— Então bebe diluída na água mesmo!
— Gwa ha ha ha ha!
— Que animado, querido — disse Elrica.
— Muito animado mesmo, querida. Oh? O que está acontecendo ali? — Ferd se perguntou.
— Sim, o que será?
Os dois observavam todo o movimento com sorrisos no rosto quando notaram um grupo de pais e crianças reunidos, completamente absortos em algo.
— Que fofura!
— Aeee!
Ao se aproximarem, viram crianças acariciando cinco bolinhas brancas de pelo, cada uma um pouco maior que o tamanho confortável para um adulto segurar nas mãos.
Seriam animais de trabalho de algum domador? Ferd viu que as bolinhas brancas tinham quatro perninhas, carinhas adoráveis de filhote e olhos redondos e felizes, então imaginou que poderiam ser criaturas de alguém com a habilidade especial de controlar animais.
— São animais chamados mimis. Vivem na parte sul do Reino Rin. O reino permite trazê-los para as cidades quando estão sob comando de um domador — explicou o homem de meia-idade responsável pelas criaturas.
— Uau!
— Então é um mimi!
As crianças ficaram ainda mais empolgadas.
— São adoráveis.
— São mesmo.
Atrás das crianças, Ferd e Elrica também sorriam para os animais fofos. Os dois nasceram numa era em que as pessoas não tinham tempo de se derreter por bichinhos bonitinhos; então tudo era novidade: tanto ver as crianças vibrando com os animaizinhos quanto os próprios animais parecendo felizes só de serem acariciados.
— Mii! — Um dos mimis virou seus olhinhos fofos para Ferd e Elrica, soltando miados adoráveis enquanto se aproximava cambaleando com as perninhas curtas. — Mii! Mii! — Depois, deitou de barriga para cima, como se pedisse carinho na barriga coberta de pelo fofinho.
— Ooh, que gracinha — disse Ferd.
— Meu Deus — acrescentou Elrica.
Os dois sorriram de orelha a orelha enquanto se agachavam e se revezavam fazendo carinho na barriguinha do mimi.
— Mii! Mii! — O mimi também estava adorando – ou talvez pedindo mais – contorcendo o corpinho como criança mimada.
Hmm? Meus mimis já mostraram a barriga para alguém assim?
Enquanto isso, o domador dos mimis ficou intrigado.
Esses pequenos animais raramente mostram a barriga, mas há algo desconhecido sobre sua ecologia. Eles têm o hábito de se aproximar de quem é ao mesmo tempo absurdamente forte e bondoso. Era uma estratégia de sobrevivência; o mimi sabia instintivamente que, se ficasse de boa com Ferd e Elrica, sua segurança estaria garantida.
— Ha ha ha.
— Oho ho ho.
Mas o casal de idosos não sabia disso e apenas sorria para o bichinho que disputava sua atenção.
— Vamos para outro lugar agora? — sugeriu Elrica.
— Sim, embora eu esteja com um pouco de pena de ir embora — concordou Ferd.
— Mii!
Os dois velhinhos não podiam ficar acariciando o mimi para sempre, já que era para as crianças aproveitarem. Apesar da relutância, Elrica e Ferd decidiram partir.
— Parece que tem algo acontecendo ali também — Elrica notou outra multidão.
— Mm-hmm. O que será?
Ao se aproximarem, presenciaram… um ritual proibido, de certa forma.
— Venha, Rei Demônio Supremo! Prove minha espada sagrada!
— Argh! É essa espada amaldiçoada concedida pelos deuses malditos?!
— Ops… Isso não vai dar certo…
— Ora, ora…
O homem bonito ergueu a espada, fazendo o monstro de manto preto puro tremer de medo, mas Ferd tremeu junto.
— Maldito seja, Heróóói!
Quando o monstro gritou, os olhos de Ferd correram para os lados. O Rei Demônio Supremo e o Herói estavam prestes a se enfrentar… numa peça de teatro. Naturalmente, uma peça sobre o Herói que salvou o mundo era clichê entre clichês, então era comum em festivais assim. Mas assistir era insuportável para o verdadeiro Herói.
— Por tudo que é bom! A justiça está do meu lado!
— Silêncio, criatura inferior! O mundo desaparecerá nas trevas!
A coisa real não era tão exagerada. Foi só um massacre entre uns jovens e um cara desesperado, pensou Ferd enquanto ouvia o Herói e o Rei Demônio Supremo trocarem provocações no palco.
“Vocês todos são criaturas defeituosas! Humanos, elfos, anões, orcs, goblins e o resto! Vocês se matam em guerras por honra, dinheiro, justiça ou alguma outra ‘grande causa’! Massacram até os jovens! Aqueles cães que matam para comer são bem melhores que vocês! Por quantos milhares de anos vêm se matando por motivos idiotas?! Estou enjoado! Tudo isso! Raças viventes? Ha! Vocês não se importam com a vida mais do que eu, mas têm a audácia de se chamar assim!”
Memórias dos gritos do Rei Demônio – que caíra em desespero enquanto espalhava desespero – ecoaram na mente de Ferd.
“Permitam-me fazer uma previsão! Vocês, criaturas defeituosas, se destruirão mesmo sem eu fazer nada! No pior caso, podem destruir este planeta! Seria bem melhor destruí-los agora! Aqui e agora, acabarei com este rancor compartilhado que durará até o fim dos tempos! O número de vidas que eliminarei agora será bem menor que o que vocês, raças viventes, tirarão daqui para frente!”
Ele não planejava remodelar o mundo nem nada. Era só a voz de um homem que assistiu à vida desde sua concepção e, tendo desistido, agora tentava controlar o futuro e todas as possibilidades. A batalha deles não foi da justiça contra o mal como a peça mostrava. A luta entre luz e trevas, um choque de egos, decidiu-se após um confronto mortal.
— Eu venci! A justiça prevalece!
— Vamos ver outra coisa também, querida? — sugeriu Ferd.
— Vamos sim, meu amor — concordou Elrica.
O casal idoso que garantiu a luz da vida saiu após assistir à peça.
Os dois já haviam descido do palco metafórico há muito tempo.
— Vamos sentar um pouco. — Ferd não estava fisicamente cansado, mas precisava de um descanso, então foi para um banco.
— Tudo bem.
— Papai, mamãe, anda logo!
— Não consigo parar de pensar em quão maravilhosos são os tempos em que vivemos — comentou Ferd.
— Verdadeiramente maravilhosos — concordou Elrica.
Os dois observavam um menino correndo alegre enquanto puxava as mãos dos pais; cenas assim eram comuns hoje em dia. Na juventude de Ferd e Elrica, as crianças ou ficavam trancadas em casa ou eram enviadas para o front de batalha fazer serviços. Ao lembrar daquela época, ver essas crianças sorrindo quase parecia um sonho.
Esse casal de velhinhos parece à beira da morte. Será que estão bem? Por outro lado, ver dois idosos perto dos noventa sentados num banco olhando para o horizonte enquanto relembravam fazia qualquer um pensar que poderiam partir a qualquer momento. As pessoas ao redor deles realmente achavam que estavam a um passo da morte.
— Hm… olá. — No fim, alguém até falou diretamente com eles para confirmar se estavam vivos.
— Olá.
— Olá. Tempo bonito, não é?
Ufa, ainda bem. Parecem bem. Theo, o jovem que se aproximou, se aliviou quando Ferd e Elrica responderam normalmente.
Por causa do alvoroço com a extermínio do dragão, Theo nem conseguia fazer compras direito, então estava disfarçado, com Mia junto. O fato de terem encontrado não só Max, mas também Ferd e Elrica só podia ser porque os dois jovens estavam no centro do destino como o Herói e a Santa em ascensão.
— Minha esposa e eu estávamos dizendo que o mundo ficou muito melhor comparado à época da grande guerra — explicou Ferd. Ultimamente ele era alvo constante da preocupação de jovens, então acreditava que este também se aproximou por bondade e fez questão de avisar que não ia morrer tão já.
— Então o senhor lutou na grande guerra? — Theo viu facilmente que Ferd tinha idade para isso.
— Lutei, sim. Estou surpreso de ter sobrevivido — Ferd realmente achava isso. Objetivamente, era um milagre estar vivo.
— Desculpe pela pergunta, mas… o senhor chegou a conhecer o Herói? Tenho uma amiga anã, e os pais dela contaram que o Herói era incrível, mas também… excêntrico… — Theo aproveitou para perguntar algo que o incomodava.
Freya, integrante da raça longeva dos anões e companheira de Theo, ouviu sobre o Herói dos pais que lutaram na guerra, mas a impressão deles era bem diferente da imagem que os humanos tinham. Diziam que o Herói era um grande homem, mas também um excêntrico.
— Ha ha ha ha ha ha ha.
— Oho ho ho ho ho ho.
Ferd e Elrica não conseguiram segurar a gargalhada.
— Ha ha ha ha ha ha ha. — Ferd não conseguia parar de rir.
— Sim, é verdade. Talvez tenha sido um tanto excêntrico. Na época, quase ninguém achava que ele não poderia vencer — falando pelo marido, Elrica ofereceu a simples verdade com um sorriso.
Fosse humano, elfo, anão ou qualquer outra raça, quase ninguém declarava seriamente que derrubaria o Rei Demônio Supremo.
Além disso, dizer que um garoto sem linhagem nobre e sem treinamento especial, que fugiu com vida de uma vila pobre, cresceria, pegaria uma espada, derrotaria o Rei Demônio Supremo e traria de volta o céu azul seria tomado como delírio de louco. Em outras palavras, anões e elfos que viveram naquela época hoje descreviam Ferd como “excêntrico”, sendo o mais vagos possível.
“Você vai trazer o céu azul de volta? Sonha, moleque.”
“Faça se for capaz, caipira.”
“Você é estupido?”
“Hmph.”
Ferd sabia disso, e, ao recordar as vozes dos adultos desesperados de tanto tempo atrás, só conseguia rir de quão leve era ser chamado de excêntrico agora, quando na época o chamavam de estúpido.
— Ha ha. É uma boa era para se viver, não é? — perguntou Ferd, contendo o riso.
— S-sim, acho que sim — respondeu Theo.
— É mesmo — assentiu Mia, que assistia tudo ao lado de Theo.
Claro, ainda havia injustiça e maldade no mundo, mas era infinitamente melhor que a era em que tudo vivo estava destinado a morrer de forma horrível.
— Fico feliz em ouvir isso. Então nossa luta teve sentido.
— Sim.
Após os jovens mostrarem que a luta deles deram frutos, Ferd e Elrica se levantaram do banco sorrindo.
— Vamos nos despedir agora.
— Com licença.
Os dois acharam que, se a conversa continuasse, suas identidades de Herói e Santa poderiam ser descobertas, então se curvaram para Theo e Mia e voltaram ao passeio.
— Tem… algo especial nesses dois, não tem?
— Acho… que sim.
Os dois jovens sentiram uma profundidade estranha ao ver o casal idoso se afastar, e se entreolharam confusos.
Foi um encontro casual entre as lendas antigas que estavam saindo de cena e as lendas que estavam nascendo. Como o casal idoso já cumpriu seu papel, não havia mais nada a fazer. Porém… nem sempre era assim quando havia quem quisesse encerrar esta era.
A propósito, por suas peculiaridades, a Cidade do Labirinto não pertencia a nenhum domínio nobre e era gerida diretamente pela família real do Reino Rin. Orlando, um homem de cinquenta e poucos anos com olhos afiados de falcão, era um indivíduo excepcional escolhido a dedo de todo o reino para ser o governador da cidade. Sem sua habilidade e lealdade, jamais teriam confiado a ele as masmorras, onde aventureiros armados andavam como se fossem donos e armas poderosas eram obtidas. Se o governador tramasse algo maligno, a Cidade do Labirinto – que trazia riqueza e fama – viraria num instante um peso morto para o reino. Por isso a cidade recebia certos visitantes com frequência.
— Obrigado por nos agraciar com sua presença hoje. — O governador Orlando, junto aos cavaleiros de elite sob comando direto da família real que protegiam a Cidade do Labirinto, estavam ajoelhados com a cabeça baixa. Pouquíssimas pessoas fariam essas duas partes mostrarem tanto respeito.
— Por favor, eu é que agradeço — disse um homem com voz digna. Esse homem fazia o veterano político Orlando suar frio, assim como os robustos cavaleiros que equiparavam-se aos Mergulhadores das Profundezas, os aventureiros mais realizados do reino. Se os olhos de Orlando eram de falcão, os deste homem eram de dragão. Não era força de expressão; seus olhos azuis eram ligeiramente fendidos verticalmente e brilhavam levemente. O corpo esguio estava vestido com as melhores roupas brancas e douradas feitas pelos melhores artesãos do reino, mas nada escondia a aura que emanava de sua pele enrugada. E o longo cabelo azul que descia pelas costas balançava mesmo sem vento, graças ao imenso poder que habitava seu corpo. Este homem de noventa anos, que sobreviveu à sua época, parecia assim porque era um humano anormal que carregava traços de um verdadeiro dragão.
— Sei que estou causando incômodo, mas por algum motivo achei que seria melhor vir pessoalmente. E esse pensamento ficou ainda mais forte quando soube que um dragão foi derrotado. Tenho como lema familiar matar dragões malignos à vista, então o dragão azul deve estar me pressionando para vir. — Seu rosto enrugado, severo como de um leão, torceu-se sarcasticamente, mas Orlando e os cavaleiros não perceberam porque ainda estavam com a cabeça baixa.
De certa forma, era natural que Stein tivesse detectado vários músculos altamente desenvolvidos na Cidade do Labirinto, e que cavaleiros sob comando direto da família real tivessem ido a uma simples loja como a de Max. Como mencionado antes, membros da família real Rin visitavam a Cidade do Labirinto com frequência por causa de suas peculiaridades. Mas quem estava aqui agora não era um quarto ou quinto príncipe qualquer. De certa forma, um homem de posição superior até ao rei chegou com seus guardas, deixando todos os envolvidos nervosos.
O nome do homem era Gale Rin. Como indicava o sobrenome, pertencia à família real do Reino Rin, mas não era um membro comum. Não só despertou o poder do dragão azul – guardião do Reino Rin e considerado ancestral da família real – como também foi rei duas gerações atrás, sobreviveu à grande guerra e reconstruiu o reino. Essa era a verdadeira identidade do visitante atual da Cidade do Labirinto.
Embora não fosse muito divulgado, esse grande homem também era um tanto astuto.
A maioria das pessoas que sabiam disso já havia morrido de velhice, mas este homem tomou o poder do pai – que estava melhor longe da política – para reconstruir o Reino Rin, que estava à beira do colapso graças à invasão do Rei Demônio Supremo. Depois, mobilizou todos os tesouros nacionais guardados inutilmente, mas vários não foram devolvidos após a guerra.
— Se eu fosse um pouco mais jovem, teria participado do extermínio pessoalmente — disse Gale em tom de brincadeira, mas também um pouco sério.
O dragão azul, guardião do Reino Rin, era incrivelmente hostil a todos os dragões que não estavam do lado das raças viventes. Foi o primeiro da lista de dragões que mataram seus irmãos que se aliaram ao Rei Demônio Supremo, mas sua hostilidade também se dirigia aos dragões de masmorra, que considerava imitações da aparência de sua espécie. Como resultado, Gale, o prodígio que manifestou os traços do dragão azul mais intensamente que qualquer membro da família real na história, também guardava rancor contra essas bestas inferiores.
— Enfim, como está a masmorra agora que o dragão foi derrotado? — perguntou Gale.
— Bem, conforme os regulamentos, anões estão fazendo uma investigação usando armaduras mágicas controladas remotamente. Já terminaram os andares superiores e relataram que está tudo normal — respondeu Orlando.
— Mm-hmm.
Em casos extremamente raros, quando um monstro tipo chefão era derrotado nas profundezas de uma masmorra, a própria masmorra tinha uma espécie de “super-reação”, dando nascimento a monstros poderosos. Por isso os anões que conseguiam criar armaduras mágicas especiais controladas remotamente eram muito valorizados. Como quem controlava ficava na superfície, tinha a enorme vantagem de poder transmitir todas as informações do interior da masmorra para cima. Esses dispositivos eram incrivelmente raros e caros, porém.
— Ainda falta força para chegar ao fundo, mas a investigação dos andares médios está prestes a terminar — explicou Orlando.
— Tudo parece normal nos andares médios também. Ainda não posso declarar oficialmente, mas acho que não houve super-reação até agora.
— Entendi.
Três figuras em armaduras de cavaleiro caminhavam cautelosamente pelo Inferno Sem Noite, a masmorra onde o dragão foi derrotado recentemente. Embora as armaduras fossem preto opaco com revestimento especial à prova de fogo, eram bem maiores que uma armadura comum, e as espadas, escudos e lanças que carregavam estavam imbuídas de mana. O mais peculiar era que estavam vazias, sendo controladas por anões na superfície, todos com mais de um século de idade. Era uma habilidade especializada; até Freya, anã e companheira de Theo, apesar de habilidosa, não conseguia sincronizar tato, visão, audição e olfato com a armadura e controlá-la à distância. Em troca, essas armaduras eram inferiores em combate aos próprios Mergulhadores das Profundezas, então não podiam investigar a área onde o dragão foi derrotado.
As armaduras, que podiam ser consideradas dispositivos de investigação remotas, terminaram de vasculhar os andares médios e estavam prestes a sair da masmorra. Porém…
— Um monge assassino está vindo!
As armaduras mudaram para modo combate quando uma coluna de lava subitamente subiu no fundo da sala que investigavam. Como a lava borbulhava, deduziram que era um monge assassino. Conclusão correta.
— Hã?
Mas também errada. Os três anões que controlavam as armaduras na superfície ficaram boquiabertos, mesmo estando longe da batalha. Se o monge assassino era uma massa de lava que se movia lentamente, então o que era aquela criatura esguia com membros definidos, que se erguia no chão vermelho brilhante sobre duas pernas? Não tinha outros traços; era apenas uma figura humanoide feita de lava.
— Eek!
— Isso não pode ser!
— Como?!
Os três anões na superfície empalideceram e gritaram de terror. Enquanto isso, a forma humanoide vermelha avançou e começou a correr na direção das armaduras vazias. Sua velocidade era magnífica e aterrorizante. Sua mobilidade rivalizava com monges de alto ranking usando a Onda Vital, e também seria páreo para um Mergulhador das Profundezas especializado em combate corpo a corpo.
— L-luz, venha!
Os anões controlaram as armaduras e usaram ataques mágicos padrão.
Esses anões em particular eram muito valorizados porque conseguiam usar ataques mágicos remotamente. Porém, foi inútil aqui. Apesar do corpo de lava, a criatura vermelho humanoide transformou o braço numa espada e, de alguma forma, cortou verticalmente a bola mágica de luz. Depois, continuou cortando as bolas de luz, aproximando-se da armadura sem diminuir a velocidade.
— Não pode seeeer!
Os anões gritando se lembraram de algo: o motivo de a Montanha Fervente quase ter caído. Esses anões também participaram da batalha decisiva contra as tropas de chamas, que facilmente passavam de dez mil e formavam a força principal do exército inimigo.
— Aaaaaah!
Um anão ainda lembrava do medo que sentiu na época enquanto cravava a lança.
Mesmo não estando lá, talvez pelo instinto desesperado de sobrevivência, a armadura colocou tanta força nas pernas que parecia que ia rachar o chão, tornando aquele ataque no nível de um Mergulhador das Profundezas. Porém, a lança, que deveria ter sido reforçada magicamente, não só falhou em perfurar o corpo do humanoide vermelho, como derreteu instantaneamente. Mas não foi tudo, o humanoide vermelho ergueu o braço acima da cabeça como um monge faria e desceu o punho no torso da armadura. A armadura derreteu e dissolveu. Deveria também ter sido reforçada contra calor, mas derreteu sem oferecer resistência, e o punho do humanoide atravessou.
— Raaaaah!
— Yaaaaah!
As armaduras restantes brandiram as espadas, revestindo-as com o máximo de poder da luz possível, mas o resultado foi o mesmo: derreteram e se dissolveram ao contato com a criatura. Como se a luz nada significasse, com um único balanço dos braços do humanoide vermelho, espadas e armaduras foram obliteradas. Realmente não eram páreo para aquele ser com resistência mágica e velocidade tremenda. Era absurdo, mas a luta se decidia com um único toque.
— T-temos que avisar imediatamente!
Os anões em pânico na superfície tinham uma ideia do que era aquela criatura; algo parecido já aparecera no passado. Havia registro de tal ser em masmorras antes. Mas o timing era péssimo.
Esses anões viveram a grande guerra, então o nome que veio imediatamente à mente foi passado aos superiores.
— Os anões que investigavam a masmorra relataram o aparecimento de um monstro conhecido como monge assassino verdadeiro, avistado uma única vez durante a grande guerra. — A má notícia foi entregue ao ex-rei Gale junto com o governador Orlando.
Verdadeiros monges assassinos eram arqui-inimigos dos monges, criaturas que frustraram muitos deles do alto escalão. Eram inimigos naturais de quem lutava com punhos e espadas. Se o aparecimento desta criatura fosse apenas uma super-reação aleatória pela morte do dragão, era menos grave. Se o Rei Demônio Supremo estivesse envolvido, porém, seria o pior cenário, verdadeiros monges assassinos nascendo novamente na era atual.
— Hmm. Vocês devem apurar os detalhes. Enquanto isso, vou me ausentar um pouco.
Com isso, Gale saiu para buscar conselho da pessoa perfeita para o serviço.
Convenientemente, recebeu uma mensagem dessa pessoa antes, o que era raro. Porém, esse conselheiro raramente gostava de obedecer planos ou mesmo ao destino, e preferia resolver problemas socando eles, para dizer de forma bem simples.
Alguns minutos depois, a entrada do Inferno Sem Noite deveria estar em bloqueio total, mas não havia ninguém graças aos arranjos de Gale.
— Difícil imaginar que aquele idiota gigante reviveu, então acho que este é só parecido com os monges assassinos do passado. Se ele tivesse mesmo voltado, viria direto atrás de mim em vez de ficar se escondendo. Não acha, querida? — perguntou Ferd.
— Tem razão, meu amor — respondeu Elrica.
— Vamos descobrir quando entrarmos. Hic — disse Sazaki.
— Exato — completou Lara.
— Se este monge assassino verdadeiro for uma criatura da época, é meu dever matá-lo — disse Stein.
— Acho que não preciso estar aqui. Posso ir para casa, né? Né? Por favor, diz que sim — disse Max.
O grupo do Herói se reuniu para resolver o problema… socando ele.
Porém, o entusiasmo variava muito de pessoa para pessoa.
Ugh… Max, o menos motivado, suspirou fundo mentalmente. Se aquele idiota tivesse voltado, ele viria direto atrás do Ferd? Será? Nunca o conheci pessoalmente, então não sei. E cala a boca já?!
Max chamava o velho inimigo, o Rei Demônio Supremo, de idiota. Do ponto de vista dele, a preocupação que Gale pediu conselho – ou seja, o renascimento do Rei Demônio Supremo – era só medo infundado.
Porém, como ex-rei, era natural que Gale quisesse saber se o monstro descoberto era um verdadeiro monge assassino verdadeiro forjado pelo próprio Rei Demônio Supremo ou apenas algo parecido.
— Vamos.
Enquanto isso, Stein estava altamente motivado, todos os músculos do corpo inchados. Também duvidava que o Rei Demônio Supremo tivesse revivido, mas monges assassinos tiraram a vida de muitos de seus irmãos, então não podia ficar parado ao ouvir que um existia um.
— Pwah! — Sazaki só veio junto para o passeio, e estava bebendo, como sempre.
— Hã? O transportador foi adulterado. Foi claramente de propósito — Lara observou a masmorra com cuidado e notou uma anomalia.
— Isso é um problema. Pelo menos significa que alguém descobriu como funciona este transportador antigo.
— Em outras palavras? — perguntou Max.
— Podemos presumir que, no mínimo, um mago do nível Hadal está envolvido — estimou Lara o poder da pessoa que poderia estar por trás da anomalia.
— Blegh — Max fez careta.
Alguém interferiu no transportador de origem desconhecida e perturbou seu funcionamento, e eventos incomuns também aconteciam dentro da masmorra.
Não havia dúvida de que um indivíduo realmente habilidoso estava envolvido.
— Então vamos correr enquanto rezamos para o idiota gigante não aparecer. — Enquanto Max chamava o Rei Demônio Supremo de idiota, Ferd foi além e chamou de idiota gigante.
— Sim, vamos — concordou Elrica enquanto os dois começavam a correr.
No fim, os seis imparáveis entraram no Inferno Sem Noite. Não tinham guia; se fossem cercados por monges assassinos verdadeiros, as consequências do combate seriam insuportáveis para qualquer um além dos membros do grupo do Herói, ainda mais se o Rei Demônio Supremo estivesse envolvido. Claro, com os olhos especiais de Lara que liam o fluxo de mana, nem precisavam de guia.
Logo depois, uma unidade que operava nas sombras do Reino Rin, liderada por um homem de meia-idade de óculos, selou a entrada da caverna.
— Que calor! Caramba, este lugar é quente pra diabo. — Max já estava farto da caverna escaldante.
Mas o primeiro andar ainda era suportável. Só tinha fogo queimando por aí, sem lava fluindo como nos andares mais profundos. Porém, masmorras eram lugares realmente estranhos; todos ainda conseguiam respirar apesar dos fogos queimando no espaço fechado.
— Me disseram que estava tudo normal nos andares superiores. O que acha, Lara? — perguntou Ferd enquanto caminhava sem se importar muito com o calor.
— Cobriram muito bem os rastros, mas há traços de magia por toda parte. Ainda assim, é magia humana, não daquele idiota — julgou Lara, especialista em magia, que não havia com o que se preocupar, chamando também o Rei Demônio Supremo de idiota.
— Faz sentido. Na batalha final, ele disse que era hora de acertar as contas. Então mesmo se tivesse revivido, não teria motivo pra ficar fazendo bagunça assim. Se quisesse acertar as contas por eu ter rachado o crânio dele, viria direto atrás de mim — murmurou Ferd enquanto corria, olhando para o longe.
Eram o Herói e o Rei Demônio Supremo, luz e trevas, justiça e mal, e acima de tudo, vencedor e perdedor. Os dois eram como duas faces da mesma moeda, então Ferd entendia o Rei Demônio Supremo melhor que qualquer outro humano.
— É, acho que sim. — Pensando exatamente o mesmo, Max assentiu, sem uma gota de suor apesar das reclamações sobre o calor. — De qualquer forma, precisamos descobrir o que está acontecendo.
Mesmo conversando, todos corriam como o vento. O grupo se movia em velocidade incrível, difícil acreditar que estavam na casa dos noventa. Ferd na frente, movendo-se de forma que parecia que seu habitual andar cambaleante era só ilusão de ótica. Sazaki e Stein seguiam logo atrás, lado a lado, seguidos por Lara que flutuava, Elrica, e por fim Max correndo.
Cara, que saudade. Max sempre foi o último, e não conseguiu evitar lembrar enquanto olhava as costas dos companheiros. Não tenho o poder da luz como Ferd e Elrica. Não tenho velocidade como Sazaki. Não tenho magia como Lara. Não tenho… músculos como Stein. Apesar de ser do grupo do Herói, achava que ficava um ou dois degraus abaixo de todos em habilidade. E sabia que via as costas deles mais que qualquer um. Ainda assim, já que nos reunimos de novo, vou fazer o que puder. Esse homem já realizou sua maior ambição, queimou-se, e tudo que restava era morrer, então agora perseguia as costas dos amigos com seu habitual desleixo.
— Opa, temos companhia. — Sazaki deu um passo à frente de Ferd.
Vários calombos apareceram no chão, e cerca de dez monstros parecidos com lagartos saltaram, cada um do tamanho de um adolescente. Mas os lagartos não conseguiram perceber o brilho vermelho à frente, e todas as suas cabeças foram cortadas instantaneamente. Diante do Mestre da Lâmina Veloz, saltar de qualquer lugar era um ato suicida. Em termos extremos, para enfrentar Sazaki seria preciso um corpo que não pudesse ser cortado, massa que não pudesse ser manejada só com espada, ou velocidade comparável à dele. Sem nada disso, não tinha como lutar.
— Vamos continuar, tá? — Os monstros foram cortados um após o outro, sendo massacrados mais casualmente que as palavras casuais que saíam da boca de Sazaki.
Cara, que louco… Faz a gente achar que a teoria dele de que o mais rápido também é o mais forte está certa. Max sempre achou o companheiro tão habilidoso que parecia que nada poderia pará-lo. Isso tornava difícil discutir suas filosofias infantis.
Graças aos esforços de Sazaki, o grupo rapidamente atravessou os andares superiores e chegou ao local problemático.
— Hmm. Lá estão eles… — Stein tinha uma expressão estranha enquanto três figuras humanoides vermelhas que se acreditava serem monges assassinos verdadeiros saltavam do rio de lava. Sua reação era a de quem ouviu falar de um lobo demoníaco que destruiria o mundo e encontrou um monstro com forma de cachorro.
— Parece que os anões que os encontraram não sabiam, mas essas coisas nem estão em posição de luta — disse Max.
— Ia dizer o mesmo — acrescentou Sazaki.
Mesmo três dos monstros que derreteram as armaduras mágicas especiais dos anões tendo aparecido, Max e Sazaki perderam toda motivação ao ver.
— Estamos com pressa. Vou dar uma olhada rápida. — Stein, ainda meio coçando a cabeça, confuso, abriu ligeiramente os braços e assumiu uma postura de monge da Igreja da Terra Trovejante.
Os monges assassinos verdadeiros não reagiram, simplesmente avançando para cima de Stein para acertá-lo com seus corpos escaldantes, contra os quais as armaduras mágicas não resistiram. Seu comportamento deixou tudo claro: não usavam a postura marcial desenvolvida especificamente contra monges – nesse quesito, eram falsos. Logo após um dos falsos balançar os braços, Stein socou silenciosamente a criatura de lava sem sequer expirar. Meter o braço dentro de lava era algo incrivelmente idiota. Porém, o falso que enfrentou algo inacreditável – antes mesmo de ter tempo de se confundir, a lava do torso foi explodida enquanto socos choviam por todo o corpo. E então, incapaz de manter a forma, desapareceu. Os dois restantes não pareceram se importar com o destino do primeiro e atacaram Stein, sem aprender lição… e exatamente como o anterior, foram socados até sumir.
— Também não têm capacidade de aprendizado. São mesmo criaturas diferentes — disse Stein.
Stein não usou camada de ar ou músculos para contrariar o calor da lava; protegeu-se usando a Onda Nula. Porém, não foi com magia ou mana, mas pura força de vontade que desconsiderou até lava, o que francamente não era humano. Mas para Stein, que uma vez chegou a nadar em lava, um corpo feito do mesmo material atacando em alta velocidade não representava ameaça.
Mesmo Stein tendo a impressão de que monges assassinos verdadeiros eram inimigos perigosos, mas esses falsos não eram páreo.
— Não reagiram à sua postura. Não mudaram o comportamento quando um foi derrotado. Só se movem por instinto. Não são os monges assassinos que conhecemos — revisou Ferd os fatos.
— Exato — concordou Stein.
Mesmo os corpos de lava dos monstros, a velocidade incrível e os números – mais de dez mil – não bastavam para torná-los inimigos jurados dos monges. Mas o Rei Demônio Supremo equipou seus monges assassinos verdadeiros não só com corpo que causava morte com um toque, estamina e velocidade, mas também com técnicas marciais que superavam a média dos monges, com capacidade de aprendizado especializada contra eles. Não era à toa que a Montanha Fervente quase caiu quando os monges enfrentaram essa ameaça tão única.
Além disso, mesmo após o fim da batalha na Montanha Fervente, os monges assassinos continuaram causando estrago. Aqueles que sobreviveram e ganharam experiência nos anos finais da grande guerra possuíam corpos de lava, haviam absorvido técnicas marciais dos monges e afiaram suas próprias artes marciais únicas, tornando-se criaturas temíveis que podiam ser chamadas de mestres.
Ele é mesmo absurdamente forte. Max recordou os monges assassinos de nível mestre que lutaram no fim da guerra, o que só reforçou a capacidade incrível de Stein, que matou a maioria deles. Tá bom, entendi, já pode parar! Vou fazer! Max gritou silenciosamente para o anel com pedra azul no dedo, que não parava de incomodá-lo o tempo todo.
O grupo do Herói continuou avançando pela masmorra, sem pausar. Sazaki cortava qualquer monstro que aparecia no caminho, e Stein massacrava os falsos monges assassinos que apareciam de vez em quando, então nunca eram impedidos.
— Max, pode fazer algo com esse barulho agudo? — Lara, que flutuava levemente enquanto se movia, parecia insatisfeita, e franzia a testa enquanto encarava o anel de Max, que estava mais atrás.
— Eu que gostaria de saber. Se tiver alguma ideia, por favor me avise. — Os sentidos anormais de Lara detectaram pensamentos que emanavam do anel, soando como uma voz aguda. Para Max, dono do anel, era como se um sino tocasse constantemente dentro da cabeça.
— O que ele está dizendo? — perguntou Ferd com um toque de riso.
— Vou tentar dizer de forma elegante. “Se os aventureiros conseguiram matar aquela imitação imunda, você também consegue. Vamos matar logo. Vamos matar agora.” Algo assim.
— Igualzinho sempre.
— Nem me fale. É surpreendente, na verdade, que quem criou e colocou poder nele seja tão delicada. — Max franziu ainda mais a testa que Lara ao encarar o anel.
A maior parte do equipamento que Max usava na verdade não podia ser tirado; era como se estivesse amaldiçoado. O anel com pedra azul era um desses itens, atormentando constantemente o portador.
— Se isso é delicado, então eu sou uma Santa — disse Lara.
— Bwa ha ha! Bem, ela costuma ser uma mulher quieta! Só não se contém quando o assunto é outros dragões! — Sazaki entrou na conversa.
Aparentemente, Max, Sazaki e Lara tinham opiniões diferentes sobre a criadora daquele equipamento.
— Então deixamos o dragão com você — disse Stein.
— É, eu realmente não quero, mas devo conseguir lidar com um dragão de masmorra… mas, por favor, me ajudem se ficar perigoso.
— Você diz isso, mas setenta anos atrás aprendi que atrapalhar um especialista pode dar problema. Nunca esperei que houvesse um dragão quase impenetrável a ataques físicos… Nem meus músculos foram suficientes.
— Tch. Só de lembrar daquele dragão que refletia magia me dá raiva — disse Lara, estalando a língua.
Stein decidiu deixar o dragão para Max, cujo equipamento insistia em matar. Não era frieza; era regra deixar dragões para os especialistas. Em particular, durante a grande guerra, tanto dragões aliados quanto inimigos estavam no auge do poder, e alguns deram trabalho ao grupo do Herói, como mostrava a reação de Lara.
— Não me chamaria exatamente de especialista… Espera, já chegamos ao fim dos andares médios? Se bem me lembro, depois daqui tem muitos espíritos de fogo — Max estava quase suspirando, mas quando chegaram diante do grande portão que separava os andares médios dos profundos, mudou de ritmo e começou a pensar nos monstros além do portão.
Espíritos, também chamados elementais, eram seres que manipulavam energia natural à vontade. Podiam causar muito problema só correndo soltos e espalhando seu poder. Os espíritos de fogo na área que separava os andares médios dos profundos do Inferno Sem Noite estavam fora de controle, espalhando chamas. Mas como eram desprovidos de inteligência, seu comportamento era simples, então não eram tão difíceis de derrotar desde que tomassem as contramedidas corretas.
Porém, havia um problema.
— Quando há super-reação na masmorra, monstros das profundezas podem subir de andar, certo? — perguntou Ferd.
— Parece que sim. Mas algo incomum está acontecendo desta vez, então não consigo prever o que nos espera — respondeu Elrica.
Segundo a explicação que receberam antes, quando o fenômeno técnico chamado super-reação acontecia numa masmorra, não só os monstros eram fortalecidos, como também os chefões entre camadas ficavam mais fortes. Ou um chefão de andar inferior podia subir.
— Vamos. — Ferd atravessou o portão.
— Groaaaaar!
Um dragão vermelho brilhante, que deveria estar no fundo das profundezas, esperava-os na área entre os andares médios e profundos. Tinha força semelhante ao que as lendas em ascensão derrotaram recentemente, e definitivamente não deveria estar ali.
No momento seguinte, o anel azul de Max brilhou.
— Grargh?!
O rugido do dragão, acompanhado de ondas de choque, virou um grito de angústia. Uma flecha estava cravada em cada olho desumano.
Os olhos dos dragões eram relativamente fracos comparados às escamas. Porém, quase não havia barreiras defensivas convenientes o bastante para deixar passar ataques próprios, então para acertar um dragão com flecha era preciso manter o foco enquanto permanecia indefeso à beira da morte.
Max havia sido o responsável por aquele feito extraordinário, mas sua aparência era peculiar. Sumiu a imagem do velhote que tentava se vestir como um jovem, ignorando completamente a própria idade. No lugar disso, ele vestia um elmo com o desenho de um falcão branco e uma armadura completa de onde brotavam asas de falcão nas costas, com uma capa vermelha esvoaçando atrás dele. Na mão esquerda, empunhava uma espada negra marcada com o brasão de uma cabeça de leão rugindo; na direita, uma lança cinza adornada com o desenho de um lobo dançando. O arco que ele havia usado instantes antes estava preso às costas, com cipós trançados ao redor da corda. A adaga em sua cintura tinha lâmina serrilhada como um relâmpago. Seu equipamento não tinha qualquer senso de harmonia, parecia que um cavaleiro elegante havia simplesmente juntado tudo o que encontrou pela frente. Cada peça transbordava pretensão, exatamente como se esperaria de alguém como Max.
Max começou a correr. Sua velocidade estava muito aquém da espada de Sazaki ou da força total de Stein – mas era o bastante. Pelas frestas de sua armadura escapava uma pequena quantidade de mana azul, muito inferior à de Lara – mas era o bastante. Suas armas carregavam o poder da luz, muito mais fraco que o de Ferd e Elrica – mas era o bastante. Ele era inferior em todas as áreas de especialidade daqueles que haviam ultrapassado os limites da humanidade – mas ainda assim, era o bastante para matar um dragão.
— Gyaaagh!
O dragão, ainda com os olhos perfurados pelas flechas, rugiu em puro terror. Talvez por ter perdido a visão, seus outros sentidos conseguissem perceber com absoluta clareza que um dragão azul – incomparavelmente maior e mais poderoso – avançava sobre ele com olhos transbordando intenção assassina. Era um equívoco, mas também uma verdade.
— Graaaaah!
Desesperado, o dragão abriu as mandíbulas para disparar seu bafo escaldante. Em resposta, Max bateu as asas que cresciam nas costas de sua armadura e alçou voo, ganhando altura acima da criatura. Ele soltou apenas um breve suspiro de determinação, mas a lança que jogou atravessou o topo da cabeça do dragão com força esmagadora.
— Graaaow!
Mesmo sem perfurar o crânio, a dor fez o dragão urrar, esquecendo toda a energia que concentrava em seu sopro. Era amplamente conhecido, naquele mundo, que dragões possuíam um órgão no topo da cabeça, chamado de terceiro olho ou receptor de mana. Lagartos tinham fotossensores parecidos, mas no caso dos dragões, o órgão servia para perceber o fluxo da mana ao redor. Contudo, esse terceiro olho era ligado diretamente ao cérebro, e as escamas ao seu redor eram finas. Por isso, um golpe preciso capaz de bloquear esse ponto causava dor extrema e cortava quase toda a percepção externa do dragão.
— Gyaaagh!
Cada vez mais em pânico, o dragão não conseguiu perceber Max saltar em direção à sua garganta, o exato ponto onde reunia energia para soltar o bafo de fogo.
Max soltou mais um breve suspiro. Seus longos cabelos escaparam pela fenda do capacete, não tingidos de loiro, mas naturalmente azuis. Seus olhos, visíveis pelas aberturas do elmo, tinham pupilas fendidas como as de um dragão. A pele sob a armadura estava coberta por escamas azuladas. E então, o homem que emprestava – e ao mesmo tempo superava – o poder do dragão azul, guardião do Reino Rin, cravou sua espada na garganta do impostor.
— Grah?! Grogh?!
Quando o falso dragão notou a espada cravada na garganta, já era tarde demais. Esse poder de fratricídio que fluía para dentro dele reagiu com o poder que deveria cuspir fogo, detonando-o. O poder que então saltou de sua boca não causou dano ao dragão, mas as chamas que correram para dentro correram pelo corpo e se espalharam como fogo selvagem.
— Gaah…
Falsos dragões não conseguiam regular a temperatura, então não havia como este resistir ao calor e ao veneno fratricida. Suas funções vitais ultrapassaram o limite de tolerância instantaneamente, e desabou com um baque.
— Ufa… Que bom que não enferrujei — Max choramingou como bebê enquanto deixava os ombros caírem.
O homem conhecido como Max era envolto em mistério desde a grande guerra. A primeira vez que tornou-se conhecido foi quando seu comandante da época registrou em diário como um idiota que alegava ter matado um dragão sozinho. Por isso ninguém prestou atenção nele na época, não se importando com o fato de não haver registros de seu nome.
A origem de seu equipamento também era um mistério. Embora suas armas e armaduras tivessem sido transformadas por um poder especial, cada peça ainda possuía uma forma verdadeira por trás da aparência atual. Sua armadura não imitava um falcão branco, mas sim um dragão azul, incluindo as asas e uma capa azul. A espada em sua mão esquerda carregava o brasão de um dragão azul rugindo.
A lança em sua mão direita exibia o desenho de um dragão azul dançante. A corda do arco em suas costas imitava o corpo alongado de um dragão azul. A adaga em sua cintura era uma presa de dragão. Se alguém fosse capaz de enxergar a forma verdadeira desses itens, perceberia imediatamente que tudo o que Max carregava eram tesouros nacionais do Reino Rin, objetos que nunca haviam sido devolvidos após a guerra. Mas não era como se Max tivesse tentado ficar com eles, na verdade, era justamente o contrário. Ele tentou devolver cada um deles, mas o equipamento grudou nele como se estivesse amaldiçoado.
— Só estou fazendo isso porque foi o Gale que pediu; já cansei de dragões. Entenderam, equipamentos amaldiçoados? Ugh! Cala a boca! Não me importa o quanto protestem, são todos amaldiçoados! — Era como se os tesouros nacionais criados pelo poder do dragão azul tivessem se apegado ao homem mais capaz de manejá-los.
Max casualmente jogou o nome de Gale Rin, o ex-rei que o contatou sobre este problema. Não porque fossem amigos íntimos, mas porque eram parentes de sangue, irmãos, na verdade. Havia um motivo para Max, o homem de muitos nomes, ter ficado surpreso quando os cavaleiros sob comando direto da família real foram à sua loja. Sua verdadeira identidade era Gavin Rin, irmão gêmeo mais novo de Gale, o rei de duas gerações atrás. Era um homem que não existia oficialmente, então era natural que não houvesse registros sobre ele.
Nesta era, a família real acreditava que ter gêmeos complicaria a sucessão do trono, então o irmão mais novo estava destinado a desaparecer na escuridão da história, desconhecido de todos. Porém, para melhor ou pior, o pai dos gêmeos – o rei da época – teve pena de Gavin e permitiu que vivesse no castelo. Talvez o pai tivesse sido bondoso demais. Foi por isso que não conseguiu suportar a invasão do Rei Demônio Supremo, que reduziu drasticamente a população das raças mortais e corroía o Reino Rin, e caiu doente e letárgico, abandonando os deveres de governo. Gavin sair de casa e rejeitar o pai, e Gale aprisionar o pai e tomar o poder não foram separados, mas resultado dos gêmeos trabalhando juntos.
Esses gêmeos tinham talentos completamente diferentes. Gale tinha talento para unir a nação e era realmente adequado ao papel de rei. Embora Gavin não existisse oficialmente, era um guerreiro talentoso que podia usar o poder do dragão azul melhor que qualquer membro da família real na história. Por isso dividiram papéis: o irmão mais velho salvaria o reino como rei, e o mais novo como guerreiro. Ele escondeu isso até dos membros do grupo do Herói que entrou depois, mas eles acabaram descobrindo a verdade durante a guerra.
— Tudo bem, vamos até o fim — disse casualmente o homem que empunhava poder de dragão e matava dragões com ele.
Esse homem detinha o recorde não oficial de maior número de dragões malignos abatidos durante a Grande Guerra. Max, conhecido como o Cavaleiro Matador de Dragões – ou simplesmente Cavaleiro Dragão – havia se consumido por completo após salvar seu país e desapareceu, para não complicar a sucessão ao trono.
Mas o grupo ainda não terminou. O verdadeiro problema estava no fundo das profundezas.
— Entendi mais ou menos, então vou contar agora. Aquela idiota confusa deve estar por trás disso tudo. — Lara descobriu a causa de tudo.
— São todos falsos? — Stein, agora ciente da causa enquanto avançava para as profundezas e derrotava todos os monges assassinos falsos que apareciam, disse.
— Se algum monge assassino tivesse sobrevivido à grande guerra e estivesse escondido, quão poderoso seria? — Esse pensamento pareceu surgir de repente na mente de Ferd.
— Não diga coisas tão assustadoras. Se estivessem treinando para matar monges por setenta anos inteiros após a guerra, provavelmente seriam inimaginavelmente poderosos. — Stein estava visivelmente franzindo a testa.
Embora fossem poucos, alguns dos monges assassinos da fase final da guerra eram monstros absolutos capazes de enfrentar Stein. Seria aterrorizante se estivessem vivos hoje.
— Se chegar a hora, só vamos deixar o Ferd se esforçar, né, Sazaki? — sugeriu Max, como se dissesse que só o Herói poderia lidar com inimigos tão problemáticos.
— Não, sabe, minha coluna… — Porém o Herói batia lastimosamente nas costas.
— Bwa ha ha! Tá bom! — Sazaki riu de Ferd.
— Não mudaram nada mesmo. — Lara sentia mistura de nostalgia e desânimo, algo comum para ela ultimamente, enquanto olhava os homens fazendo bagunça, mas ainda totalmente alertas.
— Oho ho ho ho. É verdade. — Elrica olhava com carinho enquanto ria.
Embora Elrica tenha mudado muito. Lara deu uma olhada em sua amiga enquanto pensava no passado.
Se perguntassem quem entre os companheiros que mais mudou, todos provavelmente diriam Elrica. Ela era praticamente outra pessoa comparada ao primeiro encontro, então era natural. Essa senhora refinada guardava um segredo, algo que fez todos os clérigos de alto escalão da grande guerra se arrependerem.
— Tá bom, chegamos na parte mais funda. O dragão chefe já apareceu lá em cima, então… vamos para casa? — sugeriu Max.
— Por quê? — perguntou Sazaki.
— Bem, definitivamente vai ser um saco. Vai aparecer um monstro pior que dragão.
— Pior que o Rei Demônio Supremo?
— Impossível ser tão ruim.
Para resolver o problema, o grupo continuou limpando as profundezas sem diminuir a velocidade um segundo sequer, até chegar ao ponto mais fundo do Inferno Sem Noite num piscar de olhos. Se os Mergulhadores das Profundezas soubessem, provavelmente ficariam de queixo caído em choque. E ainda assim, Max, um dos que realizaram tal façanha monumental, só achava o lugar chato, e ele e Sazaki só estavam brincando.
— Me pergunto o que nos espera aqui. — Ferd ignorou a conversa dos companheiros e passou pelo portão final.
— Hmm? Este lugar é diferente do que descreveram — disse, inclinando a cabeça.
— De fato. Disseram que era uma área ampla para lutar contra o dragão, mas esta vastidão é de outro nível — concordou Stein.
A agência de inteligência do Reino Rin já informou o grupo sobre a sala onde ocorreu a batalha com o dragão, mas o espaço diante deles não tinha nada a ver com a descrição. A área era vasta como uma planície, difícil acreditar que estavam ainda debaixo da terra.
— Tenho um pressentimento muito ruim, ou melhor, meio nostálgico — disse Max.
— Eu também — concordou Ferd.
Os dois não sentiam nostalgia pelo plano vazio diante deles, mas por quando o Rei Demônio Supremo liberou violência esmagadora tentando matá-los.
No momento seguinte, não só o chão, mas também as paredes e teto começaram a inchar, e monstros começaram a surgir de todo o vasto espaço, facilmente mais de cem ou duzentos. Este espaço era conhecido como sala de abate, onde um número absurdo de monstros aparecia. Salas assim podiam ser encontradas em partes de masmorras maiores, mas normalmente não deveriam existir no Inferno Sem Noite.
— Hmm. — Sazaki abaixou a cintura e inclinou ligeiramente para frente, girando o corpo enquanto colocava a mão no cabo da espada. Se seus discípulos estivessem ali, ficariam pálidos e cairiam no chão agarrando a cabeça.
— Deixe comigo — interrompeu Elrica, Sazaki já tornou a viagem bem confortável para ela. Ela segurou o cajado com as duas mãos e cravou no chão. Usaria barreira sagrada para proteger os aliados? Talvez reforçasse todos com magia de cura e proteção? Não.
Elrica, uma das membros do grupo do Herói, era geralmente vista como pessoa compassiva e misericordiosa, que usava a proteção do Grande Senhor para proteger os companheiros. Mas essa opinião comum divergia da realidade, e por um motivo triste. Durante as fases iniciais da grande guerra, as forças da igreja estavam encurraladas e decidiram que o lado das raças viventes não resistiria à invasão do Rei Demônio Supremo. Então usaram o poder de todos os deuses para criar um ser com o único propósito de derrotar o Rei Demônio Supremo.
A humana de aparência golem, Elrica, havia sido criada com um único propósito: matar o Rei Demônio Supremo, nada além disso. Ela era uma Santa apenas no nome.
Embora Elrica já tivesse sido exaltada como a beleza mais pura do mundo, na verdade ela não passava de alguém sem emoções, incapaz de sentir. Da primeira vez que viu um cavalo, por exemplo, a primeira coisa que perguntou foi qual era o sabor. Era tão ignorante sobre o mundo que nem conseguia distinguir sal de açúcar. Ela era a definição perfeita de uma garota extremamente protegida, criada em segredo absoluto. Elrica, a Santa, havia sido concebida para ser uma arma: uma espada, uma bomba, um trunfo, talvez até uma assassina criada especialmente para tirar a vida do Rei Demônio Supremo. Mas, durante o processo de cumprir sua missão, ela acabou aprendendo o que era amizade, tristeza, alegria e amor. E assim, quando a guerra finalmente terminou, Elrica escolheu viver isolada ao lado de Ferd e até teve um filho com ele.
Mas voltemos ao assunto principal. Como o público acreditava, Elrica também podia dar proteção divina. Mas considerando o propósito para o qual foi criada, seu poder era… o poder de matar.
— Desapareçam na luz.
Após a declaração de Elrica, símbolos e palavras relacionadas a todos os deuses da luz começaram a surgir no espaço ao redor do cajado. Todo clérigo vivo hoje provavelmente ficaria pálido ao ver. Para criar até um único desses símbolos, seria preciso uma multidão de sacerdotes reunidos em santuário arriscando a vida. Em outras palavras, o corpo de Elrica podia ser considerado um grande templo ou santuário. Luz foi emitida de seu corpo, engolindo os monstros relacionados a fogo que apareceram enchendo toda a planície; então, desapareceram. Não sobrou traço das criaturas. Tinham desaparecido completamente dentro da luz. As especialidades de Elrica eram ataques de aniquilação de luz que infalivelmente erradicavam inimigos sem resistência a ela – algo que normalmente não deveria ser possível para o poder da luz – e técnicas de assassinato que envergonhariam qualquer assassino.
— Faz tempo que não uso isso. — Essa era Elrica a Santa, a arma anti-demônio de aniquilação criada pelo poder da igreja.
— Um grande está vindo — avisou Lara, embora sua expressão mal mudasse.
Como a masmorra foi conquistada duas vezes em tão pouco tempo, agora reunia todas as forças para contra-atacar. Talvez tentasse dar um desafio digno a esses desafiantes poderosos, ou talvez apenas tentasse matar ratos que invadiram suas paredes. Os métodos da masmorra eram incrivelmente diretos: jogar tudo de uma vez. Mas isso era mais ou menos a melhor solução. A massa e densidade desse ataque concentrado, junto com as resistências que ganhava por ser uma criatura viva, davam defesa contra a espada de Sazaki, os punhos de Stein, os poderes de dragão de Max e a luz de Elrica. Embora ainda fosse impotente contra o poder de fogo extremo de Lara.
— HRAAAAAAAH!
O resultado foi uma criatura um pouco maior que uma pessoa, que se contorcia no chão. Parecia uma mistura de criança, habitante do subsolo, monge assassino falso, cão de chamas, lagarto, espírito de fogo, e até dragão, todos esses elementos juntos dando nascimento a uma medonha massa vermelha queimando com traços de rostos esmagados e membros saindo por toda parte. Mas não importa quão feio parecesse, ainda era uma agregação do próprio Inferno Sem Noite, com perigo condizente. As chamas que emanavam da amálgama podiam queimar qualquer coisa, sem deixar nem cinzas…
Porém, o ar logo se encheu de luz. O poder que uma vez esmagou as Trevas que assombravam a terra foi liberado.
— AAAAAAAH?!
Diante da criatura feia e confusa estava um homem com uma luz deslumbrante emanando do cabelo branco puro, pele enrugada, olhos, até dos poros. Era o homem que salvou o mundo e desafiou o destino. Era o poder da luz que empunhava, que excedia toda medida. Era a encarnação das orações e esperanças de todo ser vivo e o oposto exato do Rei Demônio Supremo, a escuridão que deu nascimento ao mundo. O valente.
— Tudo bem, faz setenta anos, mas acho que é hora de eu fazer alguma coisa. — Ferd, o Herói, apareceu.
— AAAAAAH!
A massa ardente ficou intimidada apesar de não ter ego, e liberou chamas escaldantes tremendas que cobriram toda a planície.
— Hmph!
Ferd ergueu o escudo que segurava na mão esquerda e concentrou seu poder. Cristais de luz começaram a se materializar, como estilhaços de vidro, derramando-se para fora dele. Era um grande equívoco acreditar que as armas do Herói fossem uma espada e um escudo sagrados, forjados pelos próprios deuses e enfeitados com gemas primordiais. Na verdade, eram apenas uma espada e um escudo comuns, do tipo que se encontraria em qualquer loja de armas usadas. Mas quando aquele poder intenso e anômalo os transformava em luz semimaterial, qualquer um poderia se deixar enganar.
— AAAAAAH?!
A criatura não conseguia entender. Cada minúsculo caco de vidro agarrado ao escudo de Ferd superava facilmente a barreira dos Mergulhadores das Profundezas, que resistiu até aos ataques do dragão, e bloqueou completamente as chamas escaldantes.
— Raaaaah!
Com o escudo ainda erguido, Ferd simplesmente avançou como touro; correu. Bloqueou cada pedaço do dilúvio de chamas. Na mão direita, segurava firme a espada de luz que até o Rei Demônio Supremo, a encarnação das trevas, temia.
— Hup!
Ferd balançou a espada para baixo. Apesar de ser uma amálgama de todos os monstros do Inferno Sem Noite, essa massa medonha foi comprimida até uma forma um pouco maior que humana, ganhando densidade que nenhuma espada comum funcionaria.
Mas o mesmo valia para Ferd. Até Albert, um dos pais fundadores do caminho dos monges, que estava no ápice quando se tratava de manipular energia vital, disse que não entendia como Ferd conseguia manter forma humana e não simplesmente se dispersar de volta em luz. O poder puro da luz – uma magnitude que ia além da medida – foi concentrado em sua espada.
— AAAH?!
A massa não conseguiu resistir a uma lâmina assim. Quando a espada de Ferd cortou suavemente a massa feia, luz jorrou dos muitos rostos monstruosos que saíam de sua forma… e então a criatura desapareceu. O poder era esmagador. Mas o Herói empunhava uma espada revestida do poder da luz e erguia o escudo para resistir. Forçar passagem era tudo que podia fazer. Francamente, já era milagre que um garoto do nada manipulasse o poder da luz, então seria descabido pedir mais que isso. Foi graças a esse poder que, durante a grande guerra, Ferd, o Herói, chegou mais longe que qualquer um, ficou na linha de frente mais que qualquer um, e suportou mais ataques que qualquer um, até contra o Rei Demônio Supremo.
Mas esse poder tinha um preço. Assim como excesso de remédio pode ser veneno, excesso de luz e energia vital podia impactar negativamente as pessoas ao redor. Isso era ainda mais verdade para o poder que Ferd, que se tornou o receptáculo de todos os seres vivos e se transformou em luz durante a batalha decisiva contra o Rei Demônio Supremo, empunhava. Como resultado, após a guerra, Ferd sofreu sequelas que faziam seu poder afetar negativamente o entorno, então decidiu se isolar numa área remota. Seus únicos visitantes eram seus companheiros poderosos, que resistiam à força de seu poder, e os discípulos que traziam quando ocasionalmente conseguia suprimi-lo. Em troca de salvar o mundo, teve que cortar laços com ele.
Porém, nas décadas após a guerra, o conceito do Herói como receptáculo sumiu da mente das pessoas, e o poder da luz reunido em Ferd enfraqueceu. Agora, finalmente voltou ao mundo, só depois de seu próprio fim estar próximo.
Em outras palavras, era assim depois de seu poder ter enfraquecido.
— Ufa, isso resolve. Lara, deixo a investigação de quem fez isso com você. — Esse era Ferd, o Herói, o homem que uma vez salvou o mundo.
— Ainda falta um nível. Olha ali. — Lara apontou para um ponto no chão onde o cabo de uma espada sobressaía levemente. Bem ao lado, havia uma entrada para área subterrânea que estava sendo ocultada magicamente. — Os portadores das espadas profanas procurando o remédio de reforço, os hereges tentando extrair poder do demônio do tomo mágico, e o monge da Onda da Morte enlouquecendo podem estar conectados — disse ela estoicamente enquanto desfazia o ocultamento mágico.
— Acho que você estava tentando determinar se seria mais fácil usar energia da morte, ou extrair poder de um demônio mais forte que você — continuou ela, falando para ninguém em particular. — Os magos cultistas perderam completamente a sanidade, mas o que tinha corpo de monge ainda tinha senso de si o bastante para falar do próprio trauma. Porém, ainda era perigoso demais. No fim, decidiu que o poder da vida e da luz é o mais fácil de empunhar, e também mais poderoso. Há precedente também. Durante a grande guerra, as trevas perderam para a luz, mesmo sendo duas faces da mesma moeda.
O medo era a fonte das ações do culpado. Não importa como se olhasse, o mundo dos homens deveria ter terminado naquela época, inconfundível, certamente, absolutamente, sem dúvida. Mas o destino foi invertido. Isso fez alguém perceber que, embora o Rei Demônio Supremo quase destruísse toda vida com seu poder, o grupo do Herói era mais poderoso que ele, e então o mundo dos homens continuou existindo.
— Mas você não tinha confiança na capacidade do seu corpo de absorver e armazenar luz. Então, sendo especialista em armas, mas amador em remédios de reforço, decidiu procurar aquela coisa. Sua velha senil. Foi só porque sua vida estava chegando ao fim? Ou ficou ansiosa porque nós cuidamos de todos os outros envolvidos?
Então, parecia que o poder da luz era necessário para evitar a morte.
— Estou certa, não é, Grace? É um mau hábito seu. Sempre deixa bagunça. Nunca pensa no depois.
Após desfazer o ocultamento e selo, Ferd e os outros desceram ao nível abaixo, de onde luz brilhava.
— Aha ha ha ha ha ha! Chegaram tarde demais, seus velhos seniiis! Já está feito!
A mulher que agora se chamava Ginny manipulou os obcecados por poder e até explorou aventureiros, tudo para fazer a própria energia vital desta masmorra – relíquia dos deuses, diriam alguns – enlouquecer e começar a criar monstros novamente. Ginny já foi chamada de “Grace, a Atroz” e usou a espada sagrada que convertia energia vital em luz, contendo essa energia dentro do corpo, transformando-se em um gigante luminoso sem traço de sua antiga forma humana.
— Mesmo que a destruição venha! Mesmo que a morte venha! Mesmo que o Rei Demônio Supremo seja revivido! — Grace gritava, em uma forma brilhante. De certa forma, podia-se dizer que tinha uma admiração equivocada pelo grupo do Herói, embora não fosse pelas convicções deles, mas simplesmente por seu status de “os mais fortes”. — Agora saiam da frente, seus velhos!
— Não tem como deixar você subir à superfície assim. Nem acredito que conseguiu empilhar magia negra em cima de tudo isso. Qualquer humano sem resistência viraria luz e seria absorvido por você — Lara quebrou completamente as ambições daquela forma luminosa gigante.
Grace, em sua busca infinita por poder, até empilhou magia negra sobre si que transformaria as pessoas ao redor em luz e as absorveria. Se fosse solta na superfície, todos os fracos acabariam sendo absorvidos. Mas para Grace, isso era só o curso natural.
— Qual o problema de transformar os fracos em comida?! Se você pudesse ficar mais forte explorando os desnecessários, todo mundo faria! Mesmo que o mundo dos homens seja destruído, tudo bem desde que eu sobreviva! — Grace já perdeu o juízo. Embora tivesse sido chamada de gênio artesã, nenhuma de suas criações trouxe vitória decisiva contra as forças do Rei Demônio Supremo, e não conseguiu inverter sozinha a destruição do mundo. Agora, senil, só fazia o possível pela própria autopreservação.
— Você está sendo idiota. Não está tentando eliminar os fracos, mas destruir vidas e potencial. Qual o benefício de limitar as perspectivas das futuras gerações? — Ferd, o Herói, o homem que lutou pelo futuro, não toleraria isso de forma alguma.
— Quem se importa com isso?! — Naturalmente, Grace também não toleraria quem ficava no seu caminho. Era um confronto entre um corpo de luz distorcido obcecado por ideais falhos e uma luz mais velha, desbotada. — Seus velhos seniiiis!
Felizmente, alguns ficaram no caminho.
— Vamos nessa — disse o Herói, com espada e escudo prontos.
— Luz, venha — disse a Santa, com cajado em mãos.
— Sim — disse o Mestre da Lâmina, com a mão no cabo da espada.
— Que chatice — disse a Bruxa, com dedos brilhando.
— Hmph! — bufou o Monge da Onda Nula.
— Droga, que saco! — xingou o Cavaleiro Matador de Dragões, com a aura tingida de azul.
O grupo do Herói se reuniu. Nem todos os membros estavam presentes, claro, só os que ainda estavam vivos. Além disso, eram todos velhos senis com apenas uma década ou pouco mais de vida. Porém, se o Rei Demônio Supremo estivesse presente, provavelmente repreenderia a luz distorcida que era Grace, dizendo algo como: “Você realmente acha que pode me derrotar, as trevas do mundo, com uma luz tão fraca?”
O corpo de Sazaki rangeu e se torceu. Moveu-se em sua lendária velocidade da luz, cortando até o som. A luz vermelha que seguia seu corpo – que se movia tão rápido que até as trevas que quase destruíram o mundo não conseguiam seguir – virou um corte voador além da percepção de qualquer um, exceto Stein, e decapitou a ambição distorcida.
— Seu maldito bêbado imundo! Como ousa?! — Porém, a esfera de luz que deveria ter sido cortada limpa xingou Sazaki.
— Tch. Por isso odeio gente que é quase imortal ou seja lá o que for.
A bola de luz que se soltou voltou a se prender ao corpo principal, antes que todo o conjunto disparasse milhares de flechas de luz. Cada flecha podia perfurar facilmente armadura reforçada magicamente, e se chovesse sobre uma cidade, as ruas ficariam instantaneamente cheias de cadáveres.
— Desapareçam na luz!
— Nessas coisinhas ocas? — perguntou Lara.
Segundo um ditado oriental, um feixe de gravetos é mais forte que um único. Aos olhos de Lara, a Bruxa da Aniquilação, as flechas de luz que Grace disparava – apesar do corpo ter sido cortado por Sazaki – eram apenas vazios, inferiores.
— Implantando fórmula de destruição conceitual — disse Lara.
— S-sua monstra maldita! — gritou Grace.
Um enorme círculo mágico negro surgiu diante de Lara. Os padrões e palavras nele eram produtos do abismo, que nem Grace, que sobreviveu à grande guerra e era chamada de gênio, conseguia compreender minimamente. Quando um fino raio negro de luz emergiu do círculo, a massa distorcida de ambição conhecida como Grace, que deveria ser impenetrável às leis da natureza, concentrou todas as suas habilidades na defesa, tentando de alguma forma resistir.
— Aaargh!
E seu plano funcionou até certo ponto. Embora o raio estreito estivesse corroendo o corpo luminoso de Grace, ainda não alcançou o núcleo.
Porém, Lara não estava sozinha.
— Meu caminho é nulo. Meu punho é nulo.
— Poder azul, venha!
O cabeça de músculo e o fanfarrão?!
À esquerda e direita do ataque de Lara, Stein e Max colocaram toda a força nas pernas, correndo a toda velocidade.
— Raaaaah! — Max transformou-se numa lança azul. Não havia mais humano dentro da armadura; escamas azuis cobriam todo o corpo, e a cabeça era como de dragão. Parecia quase completamente um homem dragão.
— Que porra é essa?! — Grace não conseguia ver o milagre que acontecia sob a armadura de Max, a transformação de um humano em algo próximo a um dragão, então só podia se chocar com o poder que percorria todo o corpo de Stein. Aquele poder que existia entre a vida e a morte só havia sido usado pelo Rei Demônio Supremo e por seus subordinados mais próximos; Grace jamais seria capaz de compreender seus detalhes.
— Haah! — Stein saltou, o punho raspando grande pedaço do corpo luminoso.
— A Onda Nula?! Impossível! — gritou Grace.
O ataque atravessou suas defesas puramente conceituais. Seu corpo luminoso não se regenerou nem reconstruiu. Grace ficou aterrorizada enquanto seu corpo permanecia danificado, nada acontecendo para consertar. Mas deveria ter percebido antes. Se tivesse pensado um momento, teria entendido o que era o poder contraditório que existia entre vida e morte: um nada que apagava tudo.
— Vá! — gritou Max.
— Graah?! — gritou Grace.
Do lado oposto do corpo luminoso, uma lança azul que foi reforçada ao limite máximo perfurou, emergindo do espaço que Stein abriu.
— Eek?! — O verdadeiro corpo de Grace – formado de luz pura e que controlava o corpo luminoso de outra dimensão superior – gritou de medo quando uma mão alcançou sua alma.
— Você é uma boneca?! I-isso é tabu!
Era natural que Grace gritasse assim. Elrica, que encarava fixamente o corpo luminoso, acabou de usar uma técnica que permitia tomar posse forçada de uma alma. As únicas pessoas que historicamente dominaram essa técnica eram famosas por terem aperfeiçoado a arte do assassinato. Uma Santa comum não deveria ter aprendido algo assim. Porém, como uma Santa feita para ser arma de aniquilação contra as trevas, era natural que tivesse dominado essa técnica divina.
— Drogaaaa! — Enquanto sua alma indefesa quase era tomada, Grace refugiou-se no corpo luminoso no plano da realidade. Porém, Stein e Max estavam cortando esse corpo pedaço por pedaço, com o ataque mágico de Lara ainda sem parar.
— Luz, venhaaaa! — Para resistir, Grace – agora dentro do corpo luminoso – construiu uma parede de luz distorcida que repeliria tudo. A luz era tão poderosa que explicava a arrogância inicial. Nenhum humano da atualidade poderia romper, e tudo ao redor simplesmente se dissolveria em luz.
— Ora, ora, agora ficou bem mais fácil de entender. — Mas para Sazaki, era como se Grace tivesse descido graciosamente até onde sua vida estava ao alcance. O Mestre da Lâmina sacou sua katana carmesim da bainha – a arma que significava morte certa para todos que a vissem, exceto seus companheiros.
— N-não pode ser… — murmurou Grace.
O flash vermelho de Sazaki que agora desafiava toda percepção misturou-se com o negro de destruição de Lara, e a parede suprema de luz
— Luz, apareçaaaaaaaa! — Dominada pelo medo, Grace começou a brilhar, tentando transformar tudo em luz. Mas ela estava enfrentando outra luz.
— Luz, apareça. — Ferd também começou a emitir luz, porém a dele era incomparavelmente superior.
— Aaargh!
Incapaz de encarar diretamente o brilho ofuscante que ele emanava, Grace fechou os olhos. Mas talvez fosse uma sorte não poder ver. Diferente dela, cujo corpo era feito de luz com um contorno vago, Ferd era praticamente um ser humano moldado em luz sólida. Mesmo que já não fosse a luz absoluta que um dia varreu as trevas, o mestre ainda inigualado ergueu sua espada luminosa e a abateu num único golpe, sua energia comprimida ao extremo. Não havia espaço para resistência, nem para um último grito. A espada que outrora expulsou a escuridão atravessou a luz distorcida de Grace e a apagou por completo deste mundo.
Mesmo velho, mesmo perto do fim, o Herói continuava sendo o Herói – e seu grupo, o grupo do Herói. De outra forma, jamais teriam derrotado as forças sombrias que quase destruíram o mundo, ou o Rei Demônio Supremo – que quase rompeu as próprias leis da natureza. Eram o grupo do Herói porque eram os mais fortes de todos.
— Certo, vou entrar em contato com o Gale. — Após confirmar que Grace havia sido eliminada, Max usou um de seus equipamentos amaldiçoados para falar com o irmão mais velho.
— Está me ouvindo?
— Sim. Como foi? — veio a voz distante de Gale.
— O Rei Demônio Supremo não está envolvido, e os monges assassinos eram falsos. A responsável era a Grace, a Atroz, acabamos lutando contra ela.
— O quê? A Grace? Depois de todo esse tempo?
— A Lara explica os detalhes. E parece que ela quer chamar alguns aprendizes para investigar, só por precaução.
— Entendi. Vou providenciar tudo agora. Obrigado mais uma vez.
— Sem problema. Quanto à visita ao túmulo do pai, vou passar por lá depois de resolver umas coisas. Não faço ideia de quando exatamente.
— Muito bem. Me avise quando acontecer.
— Certo. Até mais.
Apesar de se darem bem, Max e Gale tinham uma relação política complicada. Assim, depois de tratarem do essencial, encerraram a conversa. O resto ficaria nas mãos dos especialistas.
— Bom, preciso cuidar do estoque da minha loja enquanto isso. — Ao deixar o Inferno Sem Noite, Max pensou em sua mercadoria restante e organizou mentalmente seus próximos destinos.
— Ah, você sabe onde vende peito de frango e leite de vaca? — perguntou Stein, logo atrás.
— Céus… Limpar toda essa bagunça vai ser trabalhoso. — comentou Lara.
— Bom trabalho, pessoal. — disse Sazaki ao sair da caverna.
— Fazia tempo que eu não suava assim — observou Ferd.
— Nem me fale — concordou Elrica.
— Ahh, que clima agradável hoje.
— De fato.
Os últimos dois saíram da caverna e foram recebidos pelo sol da manhã e um céu azul imenso.
◆◆◆
— Ha ha ha ha ha ha ha! Bwa ha ha ha ha ha! Seu idiota!
Essa foi a resposta do Cavaleiro Matador de Dragões quando o Rei Demônio Supremo perguntou por que ele lutava por seu reino, mesmo sabendo que jamais se tornaria rei e que seria forçado a viver como um pária.
Tradução: Rlc
Revisão: Pride
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