Um Último Hurrah! Os Heróis Grisalhos Exploram um Futuro Vívido

Um Último Hurrah! Os Heróis Grisalhos Exploram um Futuro Vívido – Vol. 01 – Cap. 05 – O Fanfarrão da Cidade do Labirinto

 

— Como os guardas da porta nos disseram, o festival de subjugação do dragão está bem animado — comentou Elrica.

— Realmente — concordou Ferd.

Quando chegaram a Juliano, a Cidade do Labirinto, e começaram a dar uma volta, viram que os moradores estavam ocupados festejando a derrota de um dragão.

— Que dia glorioso!

— Não acredito que realmente mataram um dragão!

— Um brinde a isso!

— Três vivas aos aventureiros!

Os moradores cantavam louvores aos aventureiros pelo grande feito de matar um dragão, enquanto pétalas de flores voavam pelo ar como confete. As várias barraquinhas exibiam suas especialidades, e até parecia haver artistas de rua profissionais circulando. Embora os guardas tivessem contado a Ferd e companhia o motivo do festival, eles estavam ali pelo velho companheiro, não pelas masmorras. Contudo, esse companheiro também era um caso à parte.

— Bom, o que fazemos agora? — perguntou Ferd.

— Sim, o que fazemos? — repetiu Elrica.

Os dois pareciam preocupados enquanto olhavam a agitação da cidade. O motivo da aflição não era o alvoroço que Stein causou ao entrar seminu, nem o álcool de Sazaki ter sido suspeito de substância ilícita.

— Que nome ele está usando agora? Cinco anos atrás era Luca — perguntou Sazaki.

— Não faço ideia — respondeu Lara.

— Eu também não — acrescentou Stein.

O trio pensava da mesma forma, igualmente preocupado, e não era para menos: o homem que procuravam mudava de nome tão frequentemente que nem os companheiros conseguiam acompanhar.

— O que ele está fazendo agora? Acho que antes vendia alguma coisa.

— Não faço ideia.

— Eu também não.

A mesma troca se repetiu. Além disso, esse companheiro deles não parou num lugar só após a guerra e não tinha emprego fixo. Era quase milagre divino que a Igreja da Terra Trovejante soubesse sua localização; um sacerdote de alto escalão que o conhecia o viu por pura coincidência nesta cidade. Porém, como o sacerdote hesitou em falar com ele, Ferd e os outros não souberam o paradeiro exato. Em outras palavras, procuravam um velho de nome desconhecido, endereço incerto e ocupação incerta. Os guardas provavelmente fariam careta para uma pergunta tão vaga.

— Podíamos ir a uma livraria e perguntar por ele. Há fatos que sabemos com certeza — sugeriu Elrica.

— Parece um bom plano, querida — respondeu Ferd.

— Com licença, senhor. Por acaso conhece um idoso de noventa e poucos anos, frequentemente chamado de fanfarrão porque tenta vender agressivamente sua saga heroica autoescrita e fala coisas estranhamente dramáticas? — perguntou ela ao dono da livraria onde acabou de entrar.

— Está falando do fanfarrão da loja de utilidades? Se for conhecida dele, diga que uma história cujo protagonista muda de nome o tempo todo não vende.

Meus companheiros são fáceis demais de identificar, pensou Ferd. Parecia que, seguindo Sazaki e Stein, conseguiram identificar mais um companheiro instantaneamente. Ferd percebeu novamente que talvez os membros do grupo fossem distintos demais.

— É mesmo este lugar? Bem, parece bem provável — disse Ferd.

— Exato. Parece exatamente o tipo de loja que ele administraria — acrescentou Elrica.

Os dois olharam para o que aparentemente era uma pequena loja de utilidades, afastada da rua principal, e notaram que cheirava à personalidade do alvo.

— Hmm. Espadas, armaduras, remédios, livros, artigos diários, álcool e ferramentas mágicas. Placas demais. Ele sempre foi assim. Começa tentando cobrir tudo e só pensa depois que não dá certo — apontou Stein que as placas eram numerosas demais até para uma loja geral.

— Oh? Álcool, você diz? — Sazaki interessou-se como conhecedor.

— Parece que também tem tomos mágicos. Suponho que tenha licenças para todo tipo de coisa — Lara também se interessou como conhecedora.

— Vamos entrar, então. Olá — Ferd entrou na loja de utilidades para ver se o dono era o homem que procuravam.

Se fosse descrever o interior da loja em uma palavra, seria “eclético”. Todo tipo de item listado nas placas estava empilhado, embora em pequena quantidade, criando um espaço desorganizado sem unidade.

O dono era um sujeito bem arrumado. Cabelo até os ombros tingido de loiro, roupas mais chiques que as de um plebeu. Usava um anel com grande gema azul no indicador e brincos brilhando nas orelhas. Contudo, ainda era um velho enrugado de noventa anos, então não dava para negar que tentava demais imitar a moda jovem.

— Olá! Bem-vindo à minha… Aaaaah?! — O dono começou a cumprimentar os clientes com voz inesperadamente potente para a idade, mas no instante em que reconheceu Ferd e os outros, virou grito. — Gaaaaah! Por quê?! Não fiz nada errado!

— Que reação suspeita. O que você fez? — perguntou Ferd.

— Nada, eu disse!

— Então por que está tão em pânico?

— Com todos vocês reunidos aqui, é uma formação certeira contra mim!

— São poucos aqueles a quem essa formação não funcionaria.

— Bem… suponho que sim. É. Espera, não! Por que vocês estão aqui?!

Os olhos castanhos do velho se arregalaram ao máximo enquanto se escondia atrás do balcão, mostrando apenas o rosto. O tom era de jovem e inadequado para sua idade. Agia como se tivesse algo a se culpar, mas realmente não fez nada errado, apenas se assustou por cair numa situação sem escapatória.

— Queríamos ver nossos amigos e conhecidos novamente antes de morrer. Planejamos visitar o continente vizinho para encontrar nosso bisneto no fim da viagem. Também planejamos ver o senhor Albert na Montanha Fervente.

— A-ah, entendi. Certo. Agora entendo. Mas o senhor Albert também? Vocês se prepararam, Stein? — Após ouvir a explicação de Ferd, o dono soltou um suspiro de alívio.

— Mais ou menos.

— Mas bem, não… Hmm. Senhor Albert, hein? Seria muito rude da minha parte estar ausente quando todos vocês vão… Tem mais alguns… Mas depois de tanto tempo… Hmm… — O dono estava preocupado.

Mesmo achando socializar algo incômodo e passando a vida mudando de lugar e nome, o homem ainda tinha vários conhecidos importantes. Também sentia que seria errado ele ser o único ausente quando os velhos amigos vieram visitá-lo, logo ele.

E embora não dissesse em voz alta, não estava feliz por ser o único deixado de fora quando Ferd e os demais, que podiam ser chamados de seus únicos companheiros de vida, haviam se reunido novamente.

— Tudo bem. Então eu também vou! Ficaria preocupado deixando Lara sozinha! — disse o dono com braços cruzados e peito estufado.

— Ooh, feliz em tê-lo — disse Ferd.

— Eu também ficaria preocupada com você. — Lara, que se acreditava ser a única a emergir do abismo da magia com sanidade intacta, apontou que o dono também era um caso problemático.

— Então vou voltar ao meu nome antigo também. A partir de hoje, sou Max novamente. — O dono voltou ao nome que usava no grupo do Herói.

— Quantos nomes você tem? — exasperou-se Sazaki.

— Honestamente não sei. Tem alguns que usei só por um dia. — Max deu de ombros. — Beleza então, hora de liquidação para esvaziar o estoque. Obrigado pela ajuda!

— Ah?

— Sim?

— O quê?

— Hein?

— Hmm?

Parecia que o grupo de idosos de noventa e poucos anos não ouviu Max muito bem. Mas ouvindo ou não, já estava decidido que, por tempo limitado, esta loja seria administrada pelos heróis. E assim, algumas pessoas absurdas começaram a trabalhar na loja de utilidades “Verdadeiramente Incrível”. A loja de Max ficava longe da rua principal e tinha nome bobo, mas era surpreendentemente conveniente. O dono era mais animado que a idade sugeria e mantinha a loja aberta até tarde, estocando ampla variedade de produtos sem unidade, ideal para reabastecer itens esquecidos ou necessários de repente.

— Tudo bem, Ferd e Elrica vão arrumar as prateleiras. Sazaki fica com as armas. Lara cuida de remédios e coisas mágicas. O armazém é seu, Stein.

Após guardar as bagagens, os cinco funcionários foram imediatamente designados. Era certamente um negócio afortunado; em qualquer outra circunstância, só o custo de mão de obra seria tremendo. Embora impossível calcular exatamente, até realeza e nobreza hesitariam se tivessem que pagar salário a cada um desses indivíduos específicos.

— Bem-vindo!

— Bem-vindo.

Ferd, o Herói, e sua esposa Elrica cumprimentavam os clientes.

— Sempre quis tentar administrar uma loja de bebidas. — Sazaki, o Mestre da Lâmina Veloz, rondava a seção de álcool.

— Duvido muito, mas não tem tomos mágicos da grande guerra, né? — Lara, a Bruxa da Aniquilação, verificava se havia itens perigosos por aí.

— Onde coloco esses? — Stein da Onda Nula trazia mercadorias do armazém.

— Minha nossa, quanta gente. São seus amigos, talvez?

— Sim, são! Meus velhos amigos estão ajudando um pouco! — E o dono, Max, conversava com um cliente habitual.

Todos os funcionários eram membros do grupo do Herói, tornando isso inegavelmente o maior desperdício de talento da história.

— Ha ha ha. É minha primeira vez recebendo clientes como balconista. — Mas o líder do grupo, Ferd, o Herói, aproveitava a situação e ria alegre ao lado de Elrica.

— Oho ho ho ho. O mesmo para mim.

Ferd nasceu numa vila agrícola e passou toda a juventude lutando, então não tinha experiência trabalhando numa loja. Poder ter experiência tão nova era prova do quão pacífico o mundo se tornou.

— Olá.

— Bem-vinda.

— Bem-vinda.

Ferd e Elrica cumprimentaram uma mulher que entrou com uma criança. Se a mulher soubesse que lidava com o ex-Herói, talvez caísse no chão e desmaiasse. Porém, havia gente ali que podia fazer algo se a alma dela saísse um pouco do corpo, então tudo deveria estar seguro. Provavelmente.

— Isso é um caavalo, vovô?

— Isso mesmo, é um cavalinho.

O Herói idoso era pequeno e sorria alegre, parecendo amigável, e até agora a criança falava com ele apontando para uma pequena escultura de madeira de cavalo.

— O Hewói também andava de caavalo?

— O Herói viajava de carruagem, então talvez tenha andado em um na época.

— Uau…

Sem saber que conversava com o próprio herói, a criança continuava perguntando a Ferd sobre seus dias de glória.

Fico feliz que meu aprendiz não esteja aqui. Aposto que teria ficado na fila antes da loja abrir. Lara, que olhava de relance o ex-Herói atendendo clientes, pensou que se seu aprendiz Aldrick estivesse ali, estaria rondando a loja. E isso inevitavelmente a levaria a mandá-lo sair porque atrapalhava e dar um chute na bunda dele.

— Com licença.

— Pois não?

Ferd não era o único que precisava trabalhar como atendente. Lara virou-se para a voz tímida que a chamava e respondeu ao homem de meia-idade.

— Qual a melhor pomada para picada de inseto?

— Depende da parte do corpo, do tipo de inseto e para quem. Alguns produtos não são recomendados para crianças.

— Ah, é para mim. Acho que fui picado por um inseto-dor aqui no braço.

— Só para confirmar, você já teve erupção após usar algum remédio?

— Não, nunca.

— Algum alimento já te fez mal?

— Não, também não.

— Hmm. Pomada de erva-do-fogo seria a solução comum. Tem cheiro forte, mas deve bastar para uma picada de inseto-dor. Pode ter ouvido de uma pomada sem cheiro, mas melhor esquecer. Quanto mais processada, mais forte o cheiro, então um com cheiro fraco também tem efeito fraco.

— Hein? É mesmo? Então aquele que não funcionou antes…

— Ou era para crianças ou feito por um novato. Bem, pode ser várias coisas.

— Muito obrigado. Vou comprar este.

— Aqui está.

Lara atendeu o cliente prontamente.

Bruxas também eram especialistas em vários remédios, não só magia. Especialmente Lara, a única Bruxa da Aniquilação, pouco havia que não soubesse. Porém, agora seu conhecimento não era usado contra veneno inédito para a humanidade, maldição de deus ou ritual que destruiria o mundo, mas apenas para pomada de picada de inseto.

Após o cliente sair, Sazaki aproximou-se de Lara.

— Você tem licença para vender remédios ou algo assim?

— Tenho a de nível mais alto desde antes de te conhecer.

— Sério? Eu ficaria bem legal se tivesse alguma qualificação também. Que tal ser presidente honorário do Clube dos Entusiastas de Álcool?

— Mesmo se esse clube existisse, não chamaria título honorário de qualificação — respondeu Lara com a verdade simples.

Embora Lara tivesse licença para lidar com remédios, nunca teve chance de demonstrar essa habilidade, então até o marido Sazaki precisava confirmar. Simplesmente, o grupo do Herói quase nunca precisou depender de remédios.

— Coisas estranhas sempre acabam acontecendo quando você está com Ferd — disse Sazaki com um sorriso.

— Se você diz, deve ser verdade. — Lara deu de ombros.

Podia-se dizer que Sazaki vira mais do caos que se desenrolava ao redor do melhor amigo Ferd que qualquer um, mas nem ele esperava trabalhar como balconista na sua idade. Contudo, havia um grande problema com Sazaki como funcionário, e não era beber o álcool da loja sem permissão.

— Bebida é bebida, então não sei diferenciar o que é popular do que não é.

— O presidente honorário do Clube dos Entusiastas de Álcool realmente está noutro nível.

Apesar de sempre falar de álcool, Sazaki não se importava nem um pouco com marcas ou características diferentes, então não conseguia dar explicações detalhadas sobre os produtos. Mesmo se um cliente perguntasse sobre o álcool, ele provavelmente só diria que tudo era delicioso e deixaria por isso mesmo. Sazaki só contribuiria à noite, quando os aventureiros começassem a circular pela cidade e a loja trouxesse espadas e armaduras para a frente.

— Hora do almoço!

Com um sorriso, Max fechou brevemente a loja para o almoço. Agia como se vissem um ao outro todo dia, embora quase nunca tivesse contato.

— Obrigado, meus amigos! Espero pela ajuda à tarde também!

Mesmo que este almoço comemorasse a reunião do grupo do Herói pela primeira vez em mais de cinquenta anos, era o mesmo de sempre: pão, salada, sopa, álcool e peito de frango.

— Os clientes são inesperadamente normais. Esperava um monte de bandidinhos. Hic. — Enquanto bebia, Sazaki lembrou dos clientes da manhã – um homem de meia-idade e uma dona de casa com criança – e comentou quão comuns eram para uma cidade cheia de aventureiros sanguinários.

— Né? Bem, isso é só de manhã. À noite, aventureiros começam a andar pela cidade, então a clientela muda num instante. — Mas Max, que morava ali, sabia que aventureiros mergulhavam em masmorras de manhã e ao meio-dia, então poucos estavam na superfície tão cedo.

— As pessoas comuns evitam aventureiros e saem de manhã e ao meio-dia?

— Com certeza até certo ponto. Quem põe a vida em risco tem um ar intenso demais para gente comum. Especialmente nesta cidade, onde é como se um campo de batalha estivesse a curta distância. E fica ainda mais intenso porque eles voltam direto para a cidade ainda envoltos nesse ar de campo de batalha. Mas tem muita gente que se acostumou também. — Como Max explicou, o fato de as masmorras serem tão próximas significava que quem acabava de lutar até a morte lá dentro voltava direto para a cidade. Isso podia ser estressante para pessoas comuns, então os fracos de coração tendiam a evitar aventureiros.

— Entendi.

— Minha nossa, eu também era assim quando voltava do campo de batalha? — Ferd perguntou a si mesmo se também parecia ameaçador na época.

— O jeito que você… — Max estava prestes a dizer que a atitude idosa de Ferd não combinava nada com ele.

— Estou cansado de ouvir que agir como velho não combina comigo, então não toque no assunto, Max — interrompeu Ferd, já cansado, pois Sazaki e Stein já haviam zoado ele por isso.

— Pfft, claro que diriam. Mas falando sério, na época as pessoas só olhavam quem voltava do campo de batalha com admiração e respeito. Afinal, a humanidade teria sido extinta sem os fortes. Não havia espaço para sentirem medo. — A opinião de Max era que as pessoas ao temerem os semelhantes, era prova de que o mundo agora estava em paz.

E ele certamente não estava errado. Quem voltava do campo de batalha durante a grande guerra era igualmente digno de respeito. Mesmo trazendo o ar do campo de batalha, já era tão comum que ninguém sentiria medo.

— Nunca achei Ferd assustador — disse Elrica.

— É mesmo? Ha ha ha — respondeu Ferd.

— Oho ho ho ho.

— Ei, Stein, vamos beber. — Dessa vez, foi Max quem se cansou de Elrica e Ferd ficarem melosos de repente.

— Vá beber com Sazaki.

— Não, não pode ser ele. Há chance de começar a falar do casamento feliz dele.

E Max estava certo, porque Sazaki fez uma confissão de amor ultrajante – ou talvez uma gafe – numa carta recente, então engoliu a bebida em silêncio.

Sazaki está quieto? Ele deve ter feito algo. Lara está… como sempre. Então deve ter dito algo também. A percepção magnífica de Max estava em ação. Achou estranho que Sazaki não tivesse negado imediatamente. Também parecia errado que Lara, que normalmente pularia na oportunidade de provocar o marido, apenas continuasse comendo como se não lhe dissesse respeito. Considerando que os dois não pareciam estar brigando, havia um número limitado de conclusões possíveis.

Vamos dizer que fico feliz que se deem tão bem. Max deu de ombros mentalmente. Era um homem que mudava repetidamente de nome e lugar porque achava a interação humana um saco. Como resultado, era solteiro e sem filhos. Pelo menos podia parabenizar os amigos pelos casamentos felizes.

— Aliás, Max. Você tem aí alguma coisa que daria um bom presente para o nosso bisneto? — perguntou Ferd.

— Que idade?

— Acredito que no máximo cinco anos. Né, querido? — cortou Elrica.

— Isso mesmo, querida.

Certo, Ferd e Elrica tiveram o filho tarde. Max pensou na idade do filho e do neto deles. Mesmo após o fim da grande guerra, por vários motivos, eles só tiveram o filho aos trinta e poucos.

E porque o filho deles correu pelo continente vizinho, o neto e bisneto de Ferd e Elrica também nasceram um pouco tarde.

— Que tal Uma Saga de Grande Aventura? — Lara sorriu ao lado de Max, que pensava na família de Ferd e Elrica e tentava bolar um presente para o bisneto.

— Oh, isso mesmo! Tenho Uma Saga de Grande Aventura! — Max bateu palmas, achando a sugestão ótima.

Ferd, por outro lado, fez careta.

— Pelo que lembro, o nome do protagonista muda umas dez vezes. Só confundiria meu bisneto lendo esse tipo de história.

— Bem… me arrependo disso. Só um pouco. Só dessa parte.

Pode-se pensar que o livro conhecido como Uma Saga de Grande Aventura que fez Ferd fazer careta era um relato autêntico escrito por Max, detalhando a jornada do grande grupo do Herói, mas não era.

— Eu também sempre quis ir à cidade subaquática onde tem conhecimento mágico. Onde era mesmo? — Lara começou a perguntar a Max sobre os lugares que ele supostamente viajou de forma meio forçada.

— É, sabe… lá. É. Era bem no fundo do mar, num lugar que você nunca ouviu falar, Lara.

— Ah, acho que lembro de uma história parecida sobre o fundo do Mar do Vórtice Negro.

— Provavelmente é lá. Sim, deve ser.

Uma Saga de Grande Aventura era uma história que se passava após a guerra com Max como protagonista, seguindo suas jornadas a cidades perdidas no céu ou ruínas subaquáticas. Era um conto de provas impostas pelos deuses, encontros e despedidas, e batalhas em torno de tesouros escondidos. Era escrito como se fosse uma história verdadeira, mas nada era autêntico. Além disso, o livro mostrava um realismo estranho onde o protagonista mudava de nome tão frequentemente quanto o próprio Max. O livro não vendeu nada porque era chamado de história verdadeira apesar de ser puramente fictício e por causa do nome do protagonista que mudava toda hora, então Max tinha um número considerável de cópias sobrando.

— Não podia ter escrito sobre suas batalhas reais? — perguntou Sazaki sobre por que Max não escreveu sobre sua jornada.

— Eu sempre lutava pela vida, mal lembro de alguma! — Max estava bem desesperado durante a guerra, então mesmo se quisesse escrever sobre as lutas em detalhes, seria difícil porque suas memórias da época eram ruins.

— Entendi.

— Ahem. Gostaria de me livrar do estoque de Uma Saga de Grande Aventura também, então conto com vocês! — Max recuperou a compostura, mas ninguém respondeu. — Beleza, vamos trabalhar à tarde também… — Após o almoço, Max fez show de lágrimas de crocodilo para os amigos sem coração.

No momento em que voltaram à loja, houve um pequeno tumulto.

— Com licença — disseram vários homens entrando na loja.

— Bem-vindos! Como posso ajudar? — Por quê?! Não fiz nada errado!

Max cumprimentou com uma reverência respeitosa, embora gritasse internamente.

A armadura imponente dos homens brilhava mesmo dentro da loja. Os emblemas de dragão azul – símbolo do Reino Rin – orgulhosamente exibidos no peito deixavam claro que esses homens não eram guardas comuns. Eram cavaleiros sob comando direto da família real, que aplicavam a lei rigorosamente na Cidade do Labirinto, onde vários produtos eram produzidos. Sua autoridade era tão grande que até a Guilda dos Aventureiros os considerava um espinho, pois não havia tortas em que esses cavaleiros não metessem a mão.

Havia poucos motivos para homens assim porem os pés numa loja de utilidades longe da rua principal.

— Ouvimos que você está fechando a loja de repente. Posso perguntar por quê?

Como Max anunciou tão de repente que fecharia a loja, claramente era suspeito de atividade fraudulenta ou de tentar fugir da cidade.

Cara, quase tive um infarto! Ao perceber o motivo bastante inofensivo de esses cavaleiros eminentes terem vindo à sua loja, Max sentiu tanto alívio que quase caiu de joelhos.

A Cidade do Labirinto, onde ouro, prata e tesouros escondidos haviam sido desenterrados, era naturalmente um foco de todo tipo de crime, e os poderosos estavam sempre de olho. Como resultado, a ordem pública era mantida bem, mas era seguro dizer que os cavaleiros eram nervosos. Mas de outro modo, esta cidade poderia tornar-se zona de perigo num instante por causa da proximidade com as masmorras, então não era à toa que os cavaleiros fossem tão vigilantes.

— Sabe, uns velhos amigos vieram me visitar e disseram que, antes de morrer, iriam ver alguém que nos ajudou no passado. Pensei em ir junto, mas parece que a viagem vai demorar, então decidi fechar a loja — explicou Max.

— Ele está falando de nós — cortou Ferd.

— Entendi. Podemos ver o fundo da loja, por via das dúvidas? — perguntou o cavaleiro.

— Fiquem à vontade!

Max não tinha nada a se culpar enquanto levava o cavaleiro mais para o fundo. Por suas conexões, obteve licenças legítimas para lidar com remédios e álcool, e não carregava nada ilegal. A loja estava cheia de idosos claramente em seus fins de vida, então sua alegação de que iam se despedir antes de morrer parecia extremamente plausível. Os cavaleiros já acreditavam nele quanto ao motivo do fechamento da loja, mas ainda houve vários casos de lojistas lidando com bens ilegais fechando repentinamente e fugindo no meio da noite, então os cavaleiros não cortariam caminho.

— Obrigado pela cooperação — disse o cavaleiro.

— Por favor, não agradeça. Obrigado pelo serviço — respondeu Max.

A loja de Max realmente não tinha nada suspeito, então os cavaleiros concluíram que estava tudo bem e partiram.

— O quê, não te levaram preso? — disse Sazaki com um sorriso.

— Isso não é brincadeira, Sazaki. Esses cavaleiros reportam direto ao palácio real. Eu realmente, seriamente suei frio. Meu coração ainda está batendo como tambor. — Max nem tinha força mental para xingar Sazaki. Era um andarilho sem muito tempo de vida, então lidar com autoridades sempre o deixava nervoso.

— Bem, não eram do tipo que às vezes se ouve falar — continuou Sazaki, ainda sorrindo de orelha a orelha.

— São a elite do reino. Há apenas algumas maçãs podres entre eles — explicou Max.

Sazaki referia-se aos guardas e cavaleiros que aceitavam subornos ou faziam exigências injustas. Max percebeu o que ele queria dizer e respondeu que apenas alguns entre os cavaleiros de alto escalão eram corruptos. Não os exonerou completamente, porém, porque sabia que justiça e bondade em pessoas e organizações nunca eram totais e absolutas.

— Max, onde coloco as espadas para a noite? — perguntou Stein.

— No espaço vazio no fundo, por favor. E crianças não entram nesse horário. — Max limpou o suor da testa e deixou o estoque noturno para Stein. Armas eram perigosas para ter por aí de dia quando crianças visitavam a loja, então saíam num horário especificado.

— Entendido.

— Para constar, Sazaki, são armas comuns produzidas em massa.

— Cara, não tem espadas lendárias que encontrou em suas aventuras fantásticas?

— Pedi para Ferd te mostrar a dele.

Max notou que a atenção de Sazaki virou para as espadas no instante em que ouviu falar delas, então garantiu que o amigo espadachim soubesse que os produtos da loja não eram nada demais.

— Sazaki — disse Stein em voz baixa, mas afiada.

— Sim. — Sazaki assentiu brevemente.

— Hein? O quê? O que foi? — Max era o único que não percebeu o que estava acontecendo.

— Alguém com músculos invertidos entrou na loja.

— Consciência invertida também. Você sabe o que isso significa.

Graças aos sentidos incomuns, Stein e Sazaki notaram que algo estava estranho com o homem que acabou de entrar na loja. O que queriam dizer na troca era que tanto o corpo quanto a mente do homem estavam notavelmente voltados para fora. E ainda assim, ele entrou na loja parecendo todo despreocupado. Isso mostrava que estava constantemente procurando rota de fuga.

— Senhor, podemos conversar? — Max sorriu alegre, parando o homem que saía da loja de mãos vazias, aparentemente não tendo encontrado o que queria.

— Sim? — O homem, na casa dos quarenta, inclinou a cabeça confuso, como se achasse estranho Max ter chamado.

Max não tinha intenção de entrar em debate se o homem cometeu ou não um crime, e acima de tudo, tinha uma arma suprema do seu lado.

— O que você fez? — Uma velha enrugada, Elrica, cambaleou do fundo da loja.

— Hein? — No momento em que ouviu a pergunta dela, o corpo e a língua do homem saíram do controle. — B-bem, hum, já está em liquidação, então pensei que seria desperdício pagar e simplesmente roubei. — Ele tirou vários itens pequenos que não pagou da manga.

— Está passando fome ou vivendo na pobreza?

— N-não…

— Suas circunstâncias te forçaram?

— Não, eu não diria isso…

— É a primeira vez que faz isso?

— Fiz outras doze ou treze vezes.

— Faz parte da Guilda dos Ladrões ou organização ilegal?

— Não.

O homem falou a verdade pura, sem desculpas.

Embora fosse uma lenda esquecida há muito, dizia-se que um pecador não podia mentir diante de um sacerdote ou santo de escalão mais alto. A virtude, poder divino ou majestade de deus – chame como quiser – que estava atrás de tal pessoa santa era demais para um mero mortal resistir. Contudo, certos mestres que passaram por treinamento severo e tinham bênção do deus dos ladrões podiam escapar usando poderosa auto-sugestão.

— Eu cuido do resto, Elrica — disse Max.

— Muito bem. — Elrica assentiu e não fez mais nada, pois uso de força intensa era desnecessário.

Minha loja é mais um hobby, mas roubar casualmente das pessoas está fora de questão. Vou entregá-lo aos guardas… Espera, pensando bem, minha loja é bem insana agora. Enquanto pensava no que fazer com o ladrão, Max percebeu – embora um pouco tarde – quem exatamente administrava esta loja no momento, o que reafirmou o que significava ele e seus companheiros estarem todos reunidos num lugar só. O pobre ladrão nunca teve chance.

Felizmente, não houve incidentes depois disso, e os funcionários idosos fizeram o trabalho normalmente.

Isso me traz lembranças. Ao passar do meio-dia e o sol começar a se pôr no horizonte, Ferd foi tomado por nostalgia. Quando foi a última vez que senti o ar do campo de batalha? Era uma sensação que ele experimentava todo dia, uma tensão que o cercava constantemente. Mas isso é um pouco diferente. Há um ar de preguiça e ganância, embora de forma boa. Não há pavor de morte iminente.

Se uma coisa era diferente da grande guerra de setenta anos atrás, era que em vez da pura sede de sangue que vinha com lutar pela vida pairando ao redor, podia-se sentir uma vontade otimista, misturada com desejo por dinheiro, fama e poder.

— Estou nostálgica. — Elrica, que movia os produtos para a frente da prateleira, parecia sentir o mesmo e olhou para fora com olhar saudoso.

— Eu também — disse Ferd ao lado dela.

Coincidentemente, muitos aventureiros estavam voltando à superfície naquele momento, e a atmosfera da cidade começava a mudar radicalmente.

— Álcool pronto. Espadas prontas. Músculos prontos. — Stein verificava tudo enquanto estocava as prateleiras com itens do armazém que atenderiam a demanda de aventureiros.

— E-espera um minuto. Qual foi o último item que mencionou? Não estamos vendendo peito de frango. — Por um momento, Max ficou confuso sobre o que Stein queria dizer.

— Estava falando dos meus músculos noturnos.

— Ah, sim, sim… — Max desistiu. — Ahem. Só aventureiros novatos vêm à minha loja. Os veteranos conhecem as lojas grandes na rua principal, então não têm nada a ver com este lugar.

— Aposto que essas lojas grandes têm espadas lendárias.

— Pedi para Ferd te mostrar a dele, Sazaki. Ainda assim, sim, espadas santas ou profanas retiradas das profundezas dos labirintos aparentemente vão à venda de tempos em tempos. Ah sim, ouvi que uma loja chamada Lar da Masmorra vende espadas santas.

— Se aventureiros venderam essas espadas, provavelmente significa que nem valiam como armas reserva.

— Muito perspicaz. Pelo que ouvi, estão vendendo coisas como espadas santas que drenam forçosamente a vitalidade do portador para converter em poder da luz.

— Então isso as tornaria espadas profanas, não santas.

— Concordo.

Max e Sazaki deram de ombros. As masmorras não estavam cheias só de ouro e tesouros, mas armas especiais também. Mas armas poderosas eram indispensáveis para aventureiros, então era seguro assumir que as melhores nunca chegariam ao mercado. Em outras palavras, as espadas santas e profanas adquiridas em masmorras e vistas nas prateleiras das lojas grandes eram as que haviam sido vendidas por algum motivo.

— Mas entendo agora, têm coisas como espadas santas e tal. Ei, Lara, quer ir dar uma olhada depois? — Sazaki demonstrou raro interesse em algo além de álcool.

— Sim, claro — Lara concordou em ir junto sem relutância.

Eles se dão bem mesmo. Se alguém além de Sazaki convidasse Lara, ela diria para ir sozinho. Na verdade, não, se fosse Elrica, Lara iria com ela. Max observava a curta troca e lembrou-se da relação única que o par mantinha.

— Noite! — disse um homem ao entrar na loja.

— Olá e bem-vindo! — respondeu Max, mudando a atenção para um novo lote de clientes.

Quatro jovens, mal na casa dos vinte. Devem ser ou trainees da guilda ou novatos. Max olhou para os jovens, velhos demais para serem chamados de garotos, mas jovens demais para adultos completos, e concluiu que eram ou trainees da Guilda dos Aventureiros ou aventureiros novatos.

Não sinto o cheiro turvo de sangue humano, mas há um leve cheiro de sangue de monstro. Novatos, hein? pensou Sazaki.

Acabaram de começar o treinamento, mas são músculos bem decentes, avaliou Stein silenciosamente.

Quem desafiava as masmorras era, de certa forma, mão de obra valiosa da indústria, então perda de pessoal naturalmente levaria ao declínio dessa indústria. Por isso, quem vinha à Guilda dos Aventureiros sem histórico comprovado só podia mergulhar nas masmorras após um treinamento extremamente rigoroso. Seria um grande desperdício simplesmente jogar recursos humanos fora sem plano, então era muito afortunado que a guilda tivesse margem para ensinar novos aventureiros a sobreviver em masmorras. Caso contrário, um grande número deles seria engolido por esses locais mortais.

— Onde estão as roupas de segunda mão?

— Vou olhar remédios.

Como Max assumiu, aqueles quatro eram aventureiros novatos que acabaram de terminar um dia de treinamento e ouviram que a loja estava em liquidação de fechamento, então vieram comprar vários bens. Dois dos jovens pararam ao notar que as espadas embainhadas também estavam em promoção.

— Ah, as espadas também estão baratas.

— Verdade. O que faço? Talvez eu compre uma como reserva…

A produção de armas sempre floresceu neste mundo, pois as pessoas precisavam de meios para combater os monstros que apareciam em toda parte. Além disso, a Cidade do Labirinto estava cheia de armas encontradas em masmorras e espadas feitas especificamente para aventureiros, então espadas produzidas em massa podiam ser compradas barato. E estavam ainda mais baratas porque a loja de Max estava em promoção, então até aventureiros novatos como esses podiam comprar.

Sazaki aproximou-se dos novatos.

— Deixe eu dar um conselho amigável. Compre uma substituta para sua espada, não uma reserva. Não sei se bateu em algo duro ou só manejou mal, mas a espada inteira está enfraquecida. Vai quebrar mais cedo ou mais tarde — disse-lhes.

— Hm…

Quando Sazaki não estava deitado no chão com uma garrafa de álcool na mão, mas em pé ereto e alto, tinha um claro ar de veterano. O jovem aventureiro não se convenceu imediatamente ao de repente ser dito para comprar uma espada nova, mas foi dominado pela presença de Sazaki e não conseguiu retrucar.

— C-como você sabe disso? — perguntou o homem curioso a Sazaki.

— Quanto mais velho, melhor ideia do que se pode cortar. E essa espada ficou frágil, então seria bem fácil cortar. — A resposta de Sazaki, porém, era incompreensível.

Mas esse argumento ilógico foi bem recebido entre aventureiros. Muitos dos melhores aventureiros ou mestres haviam dito algo semelhante ou idêntico, e essa sabedoria era passada entre eles.

— Hm, quão bom você é…? — O jovem não tinha prova de que Sazaki era um mestre da lâmina, então estava curioso para saber exatamente quão habilidoso o velho realmente era.

— Não adianta perguntar a alguém acima de sessenta ou setenta quão bom é, então desista. Há uma boa chance de terem um monte de gente com rancor contra eles. Só dirão que não são nada especial, e não podem mostrar técnicas de matar em público mesmo. Na verdade, podem pensar que você está tentando descobrir a identidade deles, e no pior caso, você terá experiência em primeira mão de ser cortado.

— Eep!

O aviso de Sazaki era preciso. Havia uma grande chance de um guerreiro que viveu muito ter incorrido no ódio de muitos. Além disso, se conseguiu sobreviver em tais circunstâncias, era possível que ainda mantivesse a habilidade, e poderia até tentar eliminar alguém tentando descobrir mais sobre ele.

— V-vou comprar uma nova, então. — Após ser pressionado por Sazaki e ouvir seus avisos ensanguentados, o jovem decidiu comprar uma espada produzida em massa de qualidade parecida com a que já tinha.

— Bom. Faça isso agora. Sua espada é sua linha de vida, então verifique a condição dela todo dia.

— Ele é bem atencioso.

— Ha ha ha, sempre foi.

Max e Ferd olharam para o amigo, que sempre foi um homem bondoso apesar da brusquidão.

Após o jovem que comprou a espada por conselho de Sazaki sair, ainda mais aventureiros jovens continuaram vindo à loja de Max.

— Diga, Max. Esses aventureiros novatos são todos bem educados. — Ferd ficou impressionado com os modos que a juventude de hoje mostrava, dado que esses aventureiros novatos eram corteses até com um velho frágil como ele.

— Isso mesmo. A maioria foi humilhada pelo treinamento e teve a hierarquia martelada neles. Ouço frequentemente de caipiras que se gabavam de força tornando-se aventureiros, depois voltando diferentes quando visitam a família. Em outras palavras, não são nada como você na juventude — apontou Max.

— Calado. Como se você pudesse falar. — Aparentemente, Max também fazia bagunça na juventude, então não estava em posição de criticar os outros.

— E-entendi. Não deveria ter dito isso… Ugh, pensar no passado está me dando dor de cabeça…

— Oh, cala a boca. Me deixe em paz, Sazaki. — Ferd notou que Sazaki, que andava pela loja, de repente apareceu com um sorriso largo e acenou a mão como quem diz para Sazaki ir embora.

— Aw, que pena. — Heh heh heh. Vou falar da vez que formamos as Estrelas Brilhantes da próxima vez. A decisão de Ferd provavelmente foi correta. Mais um pouco e Sazaki revelaria uma história que só ele sabia sobre Ferd no auge da travessura.

Claro, era natural que Ferd não tivesse maneiras, pois foi apenas um garoto de vila agrícola, e coisas como etiqueta não eram muito valorizadas durante a grande guerra mesmo.

— A propósito, gostaria de pedir um conselho… O que acha que devo fazer com meu estoque de Uma Saga de Grande Aventura? — Sentindo-se preocupado com o passado, Max tentou se recompor perguntando a Ferd como lidar com a fonte de suas preocupações atuais: o estoque de livros.

— Acho que deve desistir de vender. Melhor doar — dispensou Ferd completamente.

— Ugh… Por que pensei que um protagonista que muda de nome repetidamente seria legal?

— Bem, entendo um protagonista agindo nas sombras sob pseudônimo, mas mudar de nome dez vezes é demais.

— É… — Max fungou.

Contudo, quando uma porta se fecha, outra se abre. Talvez algum milagre tenha ocorrido, porque pouco depois entrou um homem de meia-idade bem vestido e de óculos, dizendo:

— Boa noite. Ouvi de uma livraria na cidade que há livros incomuns aqui.

— Temos alguns tomos mágicos. — Lara assumiu que o homem procurava livros que ajudavam magos com magia.

Porém, o homem procurava algo completamente diferente.

— Não, procuro algo que ninguém tenha lido, ou que quase ninguém saiba que existe.

— Sim! Aqui! Temos bem aqui! — No momento em que Max percebeu a que o homem se referia, ergueu a mão, sorrindo de orelha a orelha.

Não existe muita gente que ficaria tão feliz em admitir que o próprio livro quase nunca foi lido… Ainda assim, que cliente curioso. Claro, vivemos num mundo com gente como Sazaki, Stein e Max, então suponho que pessoas assim possam existir também. Ferd pensou quão incomum era alguém procurando deliberadamente livros estranhos, mas seus companheiros incluíam um quase mendigo beberrão, um homem seminu obcecado por peito de frango e leite de vaca, e um homem que viajava de lugar em lugar usando vários pseudônimos. Comparado a isso, um cliente assim mal era uma excentricidade.

Até Sazaki e Stein prestavam atenção ao homem estranho.

— Aqui está! Uma Saga de Grande Aventura! É um livro que compila as aventuras da minha juventude, cruzando montanhas e vales, de castelos no fim do céu a cidades no fundo do mar!

Não compraria com essa sinopse… Ferd comunicou com os olhos.

Nem eu, respondeu Elrica com o olhar.

— Entendi. Deve ter sido escrito com base em experiências terrivelmente perigosas, certo? — perguntou o homem assentindo.

— E-exatamente! Vejamos… Certo, houve uma luta mortal contra um dragão maligno… e outras coisas! — Max gaguejou enquanto enfatizava o perigo do conteúdo do livro.

Sua escolha de palavras faz parecer completamente falso... Do ponto de vista de Ferd, a descrição parecia pouco natural e irreal demais.

Durante a grande guerra, houve uma espécie que agiu de uma maneira extremamente singular. Eram os grandes e poderosos predadores supremos que existiam desde a era dos mitos: os dragões. Pareciam mistura entre cobras e lagartos, com caudas longas e flexíveis, asas semelhantes a de pássaro ou morcego, formato exato variava de indivíduo para indivíduo. Possuíam as presas mais afiadas do mundo, capazes de esmagar até fortificações com facilidade. Além disso, os dragões ostentavam corpos colossais, do tamanho de castelos, e muitos possuíam inúmeras habilidades especiais; seu poder era praticamente divino. Suas escamas repeliam toda magia e armas lendárias, e seus sopros – contendo fogo, gelo, relâmpago, veneno e similares – podiam obliterar quase qualquer coisa.

Dragões eram em grande parte solitários e únicos. Um dragão azul era símbolo do Reino Rin desde tempos antigos, pois alguns apoiavam ativamente as raças mortais. Mas outros eram o completo oposto. Dragões malignos, como eram chamados, juntaram-se ao exército do Rei Demônio Supremo e lutaram de frente contra as forças da vida e da luz. Como resultado, num evento extremamente incomum, dragões dividiram-se em dois grupos, e uma luta implacável até a morte ocorreu. Em outras palavras, a suposição comum agora era que eram dragões que lutavam contra outros dragões, e mesmo que um humano alegasse ter enfrentado um dragão, não havia chance de ter realmente sobrevivido para contar a história. Seria apenas o tipo de bravata vazia que ninguém acreditaria.

— Muito bem. Vou comprar uma cópia.

— Hein?! M-muito obrigado! Por aqui, por favor!

Contudo, parecia que havia exceções à regra aqui. Não estava claro por que o homem queria comprar o livro, mas Max curvou-se profundamente e tentou rapidamente fechar a conta, com medo de que o homem mudasse de ideia. Era tal milagre que Sazaki e Stein continuaram observando a transação, curiosos para ver se o homem realmente pagaria pelo livro.

Há algumas pessoas estranhas por aí…

Certamente…

Enquanto isso, Ferd e Elrica não acreditavam nos ouvidos e apenas se entreolharam, perplexos.

O sol da noite acabou de se pôr no horizonte. O calor do dia ainda pairava pela cidade, e era a hora em que muitos aventureiros já começavam a beber nas tavernas.

— As únicas pessoas na rua agora estão indo beber, então não acho que teremos muitos clientes. Posso lidar com o resto sozinho. Obrigado pela ajuda hoje, pessoal. Nos vemos amanhã! — disse Max.

— Mm-hmm. Nos vemos amanhã então — respondeu Ferd.

A loja de Max não tinha muito movimento nesse horário. Os poucos clientes que apareciam faziam visitas rápidas para pegar itens pequenos antes de sair direto. Portanto, o dono agradeceu aos funcionários e despediu-se, e os assistentes idosos temporários voltaram à estalagem. Mas antes que isso pudesse acontecer…

— Lara e eu vamos dar uma olhada em espadas na cidade antes de voltar. Só vamos olhar, então devemos voltar antes do jantar. — Sazaki e Lara planejavam verificar as espadas santas e profanas nas lojas grandes antes de voltar à estalagem.

— Tudo bem. Então voltamos indo primeiro — respondeu Ferd antes de se separarem.

A primeira loja em que o casal parou estava decorada com várias armas deslumbrantes. Havia uma espada que brilhava branco e azul e parecia coberta por ar gelado, uma lança vermelho flamejante, uma maça que parecia brilhar fracamente, e mais; cada arma parecia emitir uma forte radiância de algum tipo. Mas isso era esperado. Armas encontradas em masmorras frequentemente eram imbuídas de mana, e tinham presença diferente de equipamento comum. Isso valia dobrado para espadas santas e profanas, classificadas como particularmente poderosas.

Como mencionado antes, armas poderosas eram indispensáveis para aventureiros, então muitas das armas em exibição obviamente haviam sido consideradas desnecessárias por aventureiros de alto escalão e vendidas. Portanto, mesmo que as lojas carregassem armas de primeira linha, quase nenhuma era boa o suficiente para ser trunfo de um guerreiro. Mas embora essas armas não fossem o topo do topo, nem qualquer loja comum podia lidar com armas mágicas de alto nível. Lar da Masmorra, uma loja grande especializada em armas de masmorra, era uma das mais proeminentes nessa cidade, e a loja de utilidades de Max parecia verdadeiramente insignificante em comparação.

— Bem-vindos. — Um funcionário cumprimentou um grupo de clientes com uma reverência profunda.

Porém, os ditos clientes não eram pessoas comuns. Um era um guerreiro particularmente musculoso, destacando-se até entre os aventureiros bem treinados, vestido com uma pele que exalava poder intenso. Outro era um sacerdote usando hábito branco com bênção divina e uma maça pendurada na cintura. Um terceiro era um lutador que dava clara impressão de não ser qualquer um, mesmo atualmente desarmado. Como aventureiros de alto escalão tinham que subir das camadas mais profundas das masmorras no retorno à superfície, frequentemente estavam ativos na cidade em horários posteriores à maioria. Em outras palavras, os aventureiros atualmente na loja eram alguns dos melhores, se não os melhores.

Aventureiros de grupos diferentes tendiam a não interagir dentro da loja e simplesmente ficavam em silêncio. Entrar em briga na melhor loja de armas da cidade e ser barrado de entrada seria o auge da tolice, e se não conseguissem gerenciar nem esse nível de risco, não estariam vivos agora. Dito isso, a loja tinha vários guardas poderosos que podiam mediar discussões simples, bem como subjugar imediatamente qualquer ladrãozinho.

— Obrigado pela compra. — Um funcionário curvou-se profundamente para clientes saindo da loja.

Para surpresa de muitos, o dono não era um anão – raça especializada em criar armas – mas um humano. E quando alguém se tornava chefe de loja tão grande na Cidade do Labirinto, tipicamente não vinha para a frente dela a menos que alguma grande negociação estivesse acontecendo ou algum aventureiro de alto escalão estivesse envolvido, e em vez disso ficava no escritório como supervisor.

Portanto, o proprietário do Lar da Masmorra, Beardy, era realmente um homem excêntrico. Mas podia ser precisamente por causa de sua excentricidade que conseguiu montar uma loja tão grande na Cidade do Labirinto. O homem de quarenta e poucos anos vestido como balconista comum e curvando-se para clientes era ninguém menos que o próprio Beardy. Claro, tinha vários motivos para fazer isso. Queria determinar se os aventureiros de alto escalão visitantes eram adequados para fazer negócios, garantir que seus funcionários faziam o trabalho corretamente, e verificar se algum cliente carregava armas raras. Se algo, o que o tornava mais excêntrico era que era o último motivo que importava mais para ele.

Contudo, os clientes visitando hoje eram os maiores excêntricos de todos. Aos olhos de um desses homens, guardas poderosos escolhidos a dedo, medidas de segurança mágicas avançadas no nível de fortaleza, qualquer arma brilhante, e até aventureiros de força inigualável que lutavam nas partes mais profundas das masmorras podiam ser cortados num instante.

— Só estou olhando, então não se importem comigo. — Para Sazaki, o Mestre da Lâmina Veloz – que acabou de entrar casualmente na loja – tudo era o mesmo que uma espada de aventureiro novato: incrivelmente fácil de cortar.

Quem são eles?

Os aventureiros e Beardy observaram Sazaki e Lara quando entraram na loja. Mesmo na velhice, magos frequentemente eram poderosos e não deviam ser subestimados, então a multidão não sentia desprezo, mas curiosidade genuína.

Esperava encontrar uma espada para passar ao pequeno Carl depois que eu morresse, mas… não parece que será tão fácil. Enquanto isso, o atencioso Sazaki simplesmente visitou a loja para ver se conseguia encontrar uma espada para Carl, o garoto que deixou aos cuidados de seu aluno, Clovis.

Sazaki treinou vários discípulos e podia entender um pouco que tipo de espadachim Carl se tornaria, então também previa que tipo de espada lhe cairia bem. Contudo, não seria tão fácil encontrar uma espada para um garoto que Sazaki considerava uma formiga comparado a si mesmo. Todas as espadas glamorosas nesta loja eram inadequadas para o papel.

— Para seu último aprendiz, suponho? — Lara notou que Sazaki parecia escolher uma espada para alguém e arriscou um palpite.

— Ele é só um garoto do bairro. Não é bem um aprendiz. Se eu tivesse mais uns vinte anos.

— Ora, ora. Então é o que você pensa? — Ela percebeu que Sazaki, que não conseguia se expressar honestamente, tinha um pouco de arrependimento na voz. Ficou impressionada que Carl era aparentemente habilidoso o suficiente para chamar a atenção de Sazaki.

— Hmm. Como parecem para você? — Sazaki estava convencido de que podia cortar qualquer coisa nesta loja, então perguntou a Lara como pareciam da perspectiva de uma maga.

— De primeira linha. — Ela avaliou como apenas isso, nem mais, nem menos.

— Tem armas lendárias?

— Não seja exigente.

— O quê? Todos os homens são assim. Não sou o único.

— Entendi. — Enquanto Sazaki continuava exigindo armas lendárias, Lara lembrou dos outros homens que conhecia, incluindo o próprio filho, e se convenceu.

— Então, onde está essa suposta espada santa? Não sinto esse tipo de poder em lugar nenhum, então já foi vendida?

— Pelo que Max disse, não parecia algo que venderia, mas certamente não está aqui.

— Procurando algo? — Beardy, que observava Sazaki o tempo todo, falou com o cliente que anunciou que só estava olhando. Na verdade não percebeu a verdadeira habilidade de Sazaki. Só estava interessado na katana que ele carregava, com bainha e empunhadura incomuns.

— Realmente só estava olhando… Bem, se tivesse que dizer, procurava uma arma para dar a um garoto que conheço. E também ouvi sobre uma espada que não sei se realmente conta como santa ou não.

— Minhas desculpas, mas essa espada santa já foi vendida. — Beardy deduziu que Sazaki era um professor excêntrico procurando uma espada para o discípulo, mas como a pseudo espada santa não estava mais disponível, curvou-se ao cliente em desculpas.

— Então vendeu? Pelo que ouvi, era uma espada bem estranha — perguntou Sazaki esfregando o queixo, a surpresa evidente na voz.

— Sim. Era uma espada santa que converte vitalidade em poder da luz.

— Bom trabalho conseguindo vender isso.

— Ha ha… — Beardy tinha expressão sem graça, mostrando que nem ele esperava que vendesse.

— Pode parecer estranho dizer isso agora que foi vendida, mas o que o dono estava pensando ao comprá-la?

— Não consigo dizer. Não perguntei… — respondeu Beardy vagamente.

Espadas santas eram tidas em alta consideração porque dizia-se que o lendário Herói uma vez empunhou uma.

— Gostaria de ver a espada do grande Herói, nem que fosse uma vez. Uma espada branca pura forjada pelos próprios deuses, brilhando com gemas primordiais, dizem. — Beardy parecia prestes a soltar um suspiro apaixonado.

— Sim, eu também adoraria ver. — Sazaki assentiu repetidamente. Lara deu um olhar de exasperação ao marido.

— Aliás, mudando de assunto, vocês acabam tendo katanas de países orientais, ou alguma aparece nas masmorras?

— Ouvi que às vezes estão à venda em outras lojas, mas nunca ouvi de katanas aparecendo nas masmorras daqui. É um pouco longe, mas aparentemente aparecem na Grande Masmorra. Segundo rumores, até encontraram umas que rivalizam com as Sete Katanas Arco-Íris.

— Uh-huh. Armas no nível das Sete Katanas Arco-Íris, hein?

— Sim. Mas provavelmente comparáveis à roxa, a mais fraca das sete. Uma como a verde ou amarela conta como arma lendária, afinal.

Quando Sazaki mudou de assunto, Beardy mordeu a isca imediatamente. Foi justamente para falar sobre aquelas katanas raras que ele havia chamado Sazaki em primeiro lugar.

As Sete Katanas Arco-Íris representavam o pico da arte de katana dos países orientais e cada uma recebia uma cor do arco-íris. Até a de grau mais baixo, a roxa, ostentava nitidez inigualável, enquanto a verde, amarela e acima eram aclamadas como armas de lenda. Porém, ninguém sabia onde nenhuma delas estava, com a única exceção da roxa, que era consagrada no local mais sagrado dos países orientais. Em outras palavras, era tratada como tesouro e não como arma, então não importa quão aterrorizante fosse sua nitidez, não deveria ser levada para batalha.

— Desculpe por tomar seu tempo quando só estou olhando.

— Não precisa se desculpar. Você procurava uma espada para seu aprendiz, não era?

— Nah, ele não é tão importante.

Após saber o que queria, Sazaki saiu da loja com Lara.

— Ouviu? A espada do Herói aparentemente é algo incrível. Não é à toa que não pode ser cortada — disse Sazaki com um sorriso no instante em que saíram da loja.

— Sabia que você diria isso.

Em termos puramente físicos, sem considerar emoções, Sazaki podia cortar quase tudo e todos. Isso incluía seus discípulos, que eram espadachins realizados, e seu filho, um talentoso mago-espadachim. E embora seria incrivelmente problemático, ele também podia cortar Max, Elrica e Lara. O mesmo valia para Stein, embora fosse extraordinariamente problemático. Contudo, havia uma pessoa, apenas uma pessoa que Sazaki achava que provavelmente não conseguiria cortar. Não era seu velho inimigo, o Rei Demônio Supremo; obviamente, Sazaki só estava aqui porque já o derrotou. Não, era Ferd. Para repetir, em termos de se era fisicamente possível, todas as emoções de lado, Sazaki provavelmente não conseguiria cortar Ferd, era o que acreditava. Isso era verdade tanto no passado quanto no presente.

— Ha ha ha. Que cidade animada, querida — disse Ferd.

— Realmente, meu amor — respondeu Elrica.

Mesmo sendo um velho cambaleando lentamente pela estrada agora, o Herói ainda era o Herói. Ferd, Elrica e Stein andavam pela Cidade do Labirinto à noite para voltar à estalagem. Os aventureiros da cidade só começavam a beber agora, então ninguém se dava ao trabalho de mexer com um grupo de idosos, e não havia comoção real também. Contudo, parecia que os sentidos aguçados de Stein haviam notado algo.

— Mm-hmm. Como esperado, sinto músculos magníficos por toda a cidade — disse Stein.

— Estou me perguntando há um tempo, mas como você sente a presença de músculos? — perguntou Ferd.

— Escute com atenção seus músculos, então tanto você quanto Elrica poderão fazer também.

— Acho que você tem fé demais em mim.

Stein parecia ter despertado para um sentido que levaria uma pessoa comum à insanidade se entendesse, e insistia que Ferd e Elrica também podiam fazer o mesmo.

— Para constar, estou falando muito sério aqui. Se olhar para dentro do próprio corpo e mente, pode olhar para os dos outros também. Em outras palavras, desde que enfrente seus próprios músculos, é fácil sentir as ondas dos músculos dos outros. Isso não é ser um em corpo e alma, mas um em corpo e músculos — explicou Stein.

— Duvido que seja realmente uma coisa. Né, querida? — Ferd deu pouca atenção a Stein e trouxe o assunto com Elrica.

Contudo, sua esposa permaneceu em silêncio.

— H-hein? E-Elrica?

— Num sentido mais amplo… isso pode ser um jeito de pensar… Por exemplo, numa organização religiosa que consiste principalmente de monges… — Elrica parou, o rosto enrugado torcido numa expressão preocupada.

— Hein? — Ferd ficou pasmo. Talvez seu cérebro estivesse se recusando a reconhecer que sua esposa acabou de afirmar o ponto de vista do músculo-cérebro.

— Parece que Elrica entende.

— Não, só estou falando num sentido muito amplo…

— Mas pode negar completamente?

— Bem… isso é difícil dizer. Se for um pouquinho, só o menor que seja, então talvez seja possível… — Elrica não foi completamente convencida por Stein, que continuava assentindo, mas concordou com sua teoria, só um pouco.

— Ha ha ha. Que cidade animada, querida. — Ferd decidiu que perderia a cabeça se isso continuasse, então após uma pausa repetiu-se, agindo como se nada tivesse acontecido, e olhou para a cidade.

— Realmente, meu amor. — Elrica também partiu do tópico anterior para concordar com Ferd.

— A propósito, tem algo que gostaria de perguntar quando voltarmos à estalagem. — Stein também pareceu querer mudar de assunto.

— Hmm. Muito bem. — Ferd sentiu que a voz do amigo estava estranhamente animada.

— Entendi.

No fim das contas, ele sempre foi o mais sério de nós, pensou Ferd.

Setenta anos atrás, Sazaki era despreocupado, enquanto Lara era um pouco diferente, mais sagaz. Elrica era séria na juventude, ou mais como guiada por senso rígido de dever, então também era um pouco diferente. Embora Max possuísse senso de responsabilidade em algumas áreas estranhas, seu comportamento era caprichoso demais em tudo o mais, então no fim Stein era o mais sério entre eles. Essa opinião não era só de Ferd; todos no grupo exceto Stein concordavam com ele.

Tenho que perguntar novamente. Stein sentiu-se conflituoso, mas decidiu agir. Como companheiro, sentia que absolutamente precisava saber o que Ferd e Elrica estavam pensando no momento.

— Então, o que é? — perguntou Ferd a Stein assim que estavam de volta no quarto.

— Você se arrependeu? — A pergunta de Stein não faria sentido para ninguém mais. Mas Stein já lhe perguntou isso várias vezes antes, e a resposta de Ferd era concisa e inalterada.

— Não. — O Herói, à beira de tornar-se coisa do passado tanto em nome quanto em vida, declarou sem hesitação.

Após o fim da grande guerra, graças aos efeitos físicos posteriores de derrotar o Rei Demônio Supremo, Ferd, o Herói, foi forçado a viver a maioria da vida numa montanha remota. Ditos efeitos posteriores foram tão terríveis que até os envolvidos, como Sazaki ou Stein, só podiam visitar ocasionalmente. Em outras palavras, podia-se dizer que Ferd escolheu derrotar o Rei Demônio Supremo em troca da maior parte da própria vida. Era por isso que…

— Por que eu me arrependeria de lutar pelo amanhã, pelo depois de amanhã e pelo futuro? — respondeu uma vez. — Por que me arrependeria de lutar para todas as criaturas vivas sobreviverem? Por que me arrependeria de lutar para que pais, amigos, amantes e filhos das pessoas sobrevivessem? Por que me arrependeria de lutar para que o amanhã sempre viesse? Por que me arrependeria de trazer de volta o céu azul com que todos sonhavam? Em troca de tudo isso, minha vida é um preço insignificante.

Por todos esses motivos, Ferd não tinha arrependimentos. Mas ainda era humano.

— Contudo… ter Elrica e nosso filho ficando comigo… — Ferd sentia-se culpado pela esposa e filho ficarem presos pagando o preço por salvar o mundo junto com ele.

Elrica sorriu suavemente para o marido.

— Já disse muitas vezes antes, mas eu também não me arrependo de nada. Além disso, nosso garoto entende também.

— Entendi…

Assim como o humano perfeito não existia, o Herói perfeito também não. Elrica sabia disso, e ela estava longe de ser perfeita. Seu caminho como salvadores talvez tivesse terminado enquanto eram jovens, mas seu caminho como humanos, como casal, estava cheio de solavancos que continuavam até hoje.

— Entendi. — Stein tinha profundo respeito pelos sentimentos do casal idoso.

O Herói e a Santa não eram os únicos com suas convicções: Stein tinha as suas, e claro Max também.

— Você nunca sabe o que a vida traz… — Max murmurou, sentado numa cadeira na loja. Agora que seus amigos, companheiros de armas e funcionários – todos a mesma coisa – haviam saído, o lugar de repente ficou quieto. Com cabelo tingido brilhante e acessórios chamativos, Max parecia um homem tentando demais imitar o estilo de vida dos jovens, mas ainda tinha preocupações reais – além de apenas seu livro. Sua voz saiu fraca enquanto dizia para ninguém: 

— Devo visitar o túmulo do pai… mas, será que ainda tem sentido agora?

Era a família de Max que estava em sua mente. Pensava no falecido pai.

A relação deles foi bem tensa, embora a tensão fosse principalmente unilateral da parte de Max; seu pai realmente não se importava muito. Era uma história bem comum na época. Durante o auge do exército demoníaco, quando o espaço vital da humanidade continuava encolhendo, antes de Ferd assumir o manto de Herói, muitas pessoas simplesmente pararam de se importar com qualquer coisa, não se dando ao trabalho de lutar contra a extinção iminente. Mas tais atitudes eram inevitáveis numa era em que muitos campeões, sábios, cavaleiros e reis já haviam sido derrotados pelo inimigo. A humanidade estava em desespero coletivo profundo, e o pai de Max foi apenas um de muitos homens comuns. Mas o jovem Max não conseguiu suportar isso, então deixou a casa, abandonando o pai.

— Pai… Você deveria ao menos ter morrido depois que o céu voltou a ser azul. Embora eu não esteja em posição de julgar você… — Max murmurou enquanto olhava para um anel com grande gema azul no dedo.

Devido à apatia, o pai de Max faleceu antes da queda do Rei Demônio Supremo, então o dono da loja não pôde trocar palavras finais com ele. Max estava convencido de que deixar a casa foi uma das causas da morte do pai, então até hoje não conseguiu visitar o túmulo do homem. Claro, sua culpa só o fazia pensar demais na situação. Mesmo se Max tivesse ficado, seu pai provavelmente teria morrido tão cedo quanto. Sem mencionar que se Max não tivesse saído de casa, o Reino Rin nunca teria sobrevivido em primeiro lugar.

— Pensei que a vida seria mais fácil quando ficasse mais velho.

Max tirou os olhos do anel, que parecia o mesmo de tantos anos atrás, e suspirou enquanto olhava para o braço enrugado. Sua voz carregava um tom preocupado há um tempo, desde que recebeu carta de um parente dizendo que era hora de visitar o túmulo do pai. Após Ferd e os outros o convidarem para a viagem, Max simplesmente pretendeu dizer adeus finais a todas as pessoas que os ajudaram na época. Contudo, visitar o túmulo do pai não estava originalmente nessa lista, então ele estava completamente perdido.

— Ufa…

Sentindo como se a cabeça estivesse fervendo, Max levantou da cadeira, caminhou para fora da loja e olhou para o céu. Estrelas brilhantes e um preto perfeitamente claro – não vermelho – estendiam-se acima dele. Isso era apenas mais uma coisa que Max e seus companheiros haviam devolvido a este mundo.

— Acho que vou dar uma volta curta.

Embora fosse quase hora de fechar a loja, Max decidiu dar uma volta pelas ruas noturnas, algo que normalmente não faria. Na Cidade do Labirinto, porém, guardas e cavaleiros mantinham o olho atento até à noite para garantir que aventureiros bêbados não causassem confusão, e como atualmente havia um festival, a ordem pública na rua principal era ironicamente a mesma fosse de manhã ou de noite.

— Ha ha ha ha ha!

— Bwa ha!

Max arrastava-se pela lateral da rua principal, ouvindo o que provavelmente eram aventureiros rindo nas tavernas. Não parecia um campeão que lutou pela sobrevivência da humanidade, mas como um velho vestindo desajeitadamente roupas de jovem, ainda incapaz de se adaptar à era moderna agitada.

Ele à parte, porém, esta cidade era lar de tantos símbolos do presente quanto do passado.

— Uau. Vem aqui, Kevin. São os Mergulhadores das Profundezas.

— O quê? São mesmo eles! Ei!

— Parabéns, pessoal!

— Bom trabalho!

Um grupo de Mergulhadores das Profundezas, os aventureiros celebrados por matar o dragão, andava confiante pela cidade. Mas Max não tinha interesse neles; só deu um olhar rápido aos Mergulhadores das Profundezas da lateral da estrada, os aventureiros nem notaram ele. Esses indivíduos realizados viviam num mundo diferente da maioria, então era natural que tivessem que lidar com ampla gama de pessoas tentando se aproximar deles e que não seriam capazes de levar vidas adequadas se prestassem atenção a cada estranho aleatório.

— Esse é Caminho para a Glória, o grupo que liderou a subjugação do dragão, né? Mataram um dragão no fundo de uma masmorra. São basicamente sobre-humanos.

— Concordo. Ah, não é aquele pingente em forma de presa quebrada? Ouvi sobre esses. Só dão esses para Matadores de Dragões. Ouvi que são os primeiros nesta cidade.

Enquanto Max continuava arrastando-se, a conversa ociosa dos aventureiros chegou aos seus ouvidos, mas não o suficiente para ele parar. Deixou a área barulhenta, respirou o ar frio da noite e continuou andando.

— Hein? Qual é o problema, senhor?

Algum tempo depois, talvez incapaz de ficar indiferente a Max – ou para ser mais específico, a um velho andando sozinho fora à noite – um jovem chamado Theo, um dos famosos Matadores de Dragões, chamou-o. Theo não estava sozinho, era acompanhado por Mia, a sacerdotisa, Freya, sua companheira em armadura grande, Elise, a das armas ocultas, e Amalda, a sem expressão. Todos tinham um pingente em forma de presa quebrada pendurado no pescoço.

— Ah, não, nada de errado! Só pensei em dar uma voltinha! — Eles são aventureiros de alto escalão na idade deles? E ele até parece mais Herói que Ferd. Max notou que esses jovens usavam o pingente que significava a quebra das presas de um dragão e percebeu que eram altamente ranqueados apesar da idade. E acreditava que esse jovem era mais adequado para o papel de Herói que aquele moleque Ferd foi.

— Dando uma volta tão tarde? — Theo achou estranho um homem de noventa e poucos anos dando volta à noite.

— Tem muito em que pensar na minha idade. Então saí para uma volta para mudar de ares. Embora, como você diz, seja um pouco tarde para isso — explicou Max. — Aliás, esse pingente é a prova de que derrotaram um dragão numa masmorra? — perguntou, mudando de assunto.

— Sim. Mas os dragões lá embaixo aparentemente são como crianças comparados aos de verdade. E esses pingentes são mais ou menos obrigatórios para usarmos… — Theo parecia relutante em exibir sua conquista.

— Entendo.

Ah, juventude.

— Tenha orgulho de suas conquistas, Theo. É verdade que os dragões encontrados em masmorras são ditos inferiores aos reais, mas no negócio de aventura, você tem que exibir suas conquistas, exagero ou não — veio a voz abafada de Freya da armadura.

Theo assentiu relutante.

— Eu sei, Freya.

A que está na armadura é mulher também?

— Cara, já tive encontros mortais com dragões no passado também. Tipo lutando enquanto voava pelo céu. — A única forma de vencer aqui é fugir. Max de repente percebeu que estava numa situação bem espinhosa, dada a companhia atual, então concluiu que poderia se machucar se se envolvesse mais com eles. Então decidiu simplesmente fingir ser um velho louco e escapar, mas…

— Hein?! Sério?! — Os olhos de Theo brilharam, como se levasse a história de Max completamente a sério.

Ele está realmente interessado?! Alguém me ajude! Eu estava prestes a ir para casa! Max ficou surpreso com a reação inesperada de Theo e olhou significativamente para as companheiras femininas em busca de algum tipo de ajuda.

— Theo, não acho que devíamos mantê-lo fora por tanto tempo! — Mia encontrou os olhos de Max e pareceu perceber o que ele pedia, então conteve Theo.

— Então com licença. — Ótimo! Agora você pode voltar à estalagem e flertar! Max não deixou essa chance escapar e conseguiu fugir antes que Theo pudesse responder, soltando um comentário de despedida inútil e silencioso.

— Aw, ele foi embora. Como será que conseguiu lutar enquanto voava pelo céu. Era magia de voo? Mia, acha que ele poderia ter distraído um dragão com magia de voo avançada?

— Acho que é possível! Ouvi sobre uma unidade voadora projetada para lutar contra dragões durante a grande guerra! Porém, parece que a taxa de sobrevivência era relativamente baixa, então não posso dizer se é algo que ele realmente teria feito!

— Pensei que fosse possível, já que ele parecia um velho que experimentou a grande guerra, mas talvez estivesse mentindo?

— Quem sabe! Mas me ensinaram que se deve levar as sagas heroicas dos idosos com um grão de sal!

— Sim, ouço isso frequentemente. Lembro da minha avó dizendo que cometeu o erro de casar com meu avô porque acreditou nas sagas heroicas dele. Mas até isso era mentira, ou mais como tentativa dela de esconder o constrangimento.

Theo e Mia discutiram a saga heroica do idoso. Contudo, ambos assumiam que mesmo se a história dele fosse verdadeira, ele só atuou como distração para um dragão. O resto das companheiras pensava o mesmo.

— A possibilidade não é zero.

— Não é — disse Freya.

— Mm-hmm. — Amalda assentiu levemente em resposta.

Contudo, Theo e seus companheiros todos tinham a ideia errada.

— Ufa!

Enquanto voltava para casa, Max limpou um suor imaginário. Quem observasse esse homem, cuja vida foi nada além de imitação e engano, só o veria como um velho deixado para trás pela era moderna agitada.

 


 

Tradução: Rlc

Revisão: Pride

 

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