Um Último Hurrah! Os Heróis Grisalhos Exploram um Futuro Vívido

Um Último Hurrah! Os Heróis Grisalhos Exploram um Futuro Vívido – Vol. 01 – Cap. 04 – Punho do Caminho Sem Rumo

 

— Hah!

Mais de cem monges socaram o ar em uníssono.

— Hah!

Chutaram as pernas em direção ao céu. Todos os corpos estavam treinados ao extremo, refletindo a luz do sol como se fossem forjados em aço.

— Hah!

Não, os corpos realmente brilhavam. Quando monges assim condensavam dentro de si a Onda Vital – a força da vida presente na natureza e em todos os seres vivos – e a transformavam em poder, o brilho era um efeito colateral.

De qualquer forma, monges eram criaturas misteriosas, ou talvez contraditórias. Suas crenças variavam de seita para seita, mas frequentemente os servos dos deuses eram proibidos de portar lâminas ou tirar vidas.

Contudo, em tempos de turbulência, cada um precisava proteger-se sozinho. Foi assim que surgiram os monges: indivíduos capazes de lutar sem lâminas ou qualquer arma. Mas aí estava a pequena contradição. Corpos temperados dos monges, somados à fé nos deuses e ao reforço da Onda Vital, tornavam ainda mais letais que bandidos armados. Com essas ferramentas, pulverizavam facilmente rochas… ou crânios humanos.

Claro, quem não seguia tais doutrinas simplesmente pegava a espada. Isso era outra história.

A cena atual desenrolava-se na Montanha Fervente, lar de santuários e templos dedicados aos deuses da guerra e do combate, onde monges de várias seitas se reuniam em rivalidade amigável. Segundo a lenda, o lugar chamava-se Montanha Fervente, porque o vapor e o calor dos corpos dos monges cobriam toda a montanha. Representantes de cada seita às vezes reuniam-se para uma conferência no templo construído no cume, mas hoje o clima estava estranho.

— Eu confesso. Tenho um arrependimento — murmurou um homem extraordinário, que parecia jovem mas tinha mais de trezentos anos, diante de mestres monges de cinquenta, sessenta, oitenta anos.

O homem não era de raça longeva como elfos. Era humano, mas apesar dos mais de trezentos anos, tinha ricos cabelos dourados, olhos azuis claros e pele firme e lisa, parou de envelhecer graças ao domínio perfeito da Onda Vital. Era ninguém menos que Albert, Sumo Sacerdote da Igreja da Terra Trovejante e conhecido como um dos primeiros monges. Albert e alguns poucos haviam sido os pioneiros desse caminho, por isso recebia respeito de todos os monges, independentemente da seita. Até hoje, os mestres atendiam ao seu chamado.

No entanto, apesar da juventude preservada do corpo, o cansaço na mente de Albert só piorava com o passar dos anos, e ele já pensava em finalmente permitir que sua vida chegasse ao fim. Mas, antes disso, revelou aos discípulos o único arrependimento que carregava.

— Ele não tinha fé em deus, então pensei que precisava selar seu punho. Mas relutei. Claro, nem tinha certeza se era possível selar o punho dele em primeiro lugar.

O único arrependimento de Albert era sobre um discípulo com quem cortou laços, o Punho Vil – era a única forma adequada de descrevê-lo. Era absolutamente inadmissível que um monge, servo de deus, não tivesse fé – alguém assim já não era monge. Por isso Albert precisava selar o Punho Vil, mas o problema era que, embora o aluno fosse inelegível como monge, já atingiu uma forma de perfeição. O discípulo desceu a montanha antes que Albert pudesse fazer algo, tornando-se rapidamente alguém com quem o mestre não podia interferir.

— Eu me arrependo — murmurou Albert mais uma vez.

E era natural. O Punho Vil, fracasso como monge, não foi excomungado nem expulso mesmo após deixar a montanha e ainda era membro da Igreja da Terra Trovejante. Até estava registrado no templo da Montanha Fervente. O fato de esse discípulo sem deus ainda poder voltar a qualquer momento só se explicava pelo apego remanescente de Albert e da Igreja. Contudo… talvez ainda tivesse sido melhor corrigir seu caminho, nem que à força; se era possível ou não, era outra questão.

Longe da Montanha Fervente, havia um lugar chamado Terra Divina. Como a Montanha Fervente, abrigava muitos santuários e templos dedicados aos deuses da guerra e da batalha, e artistas marciais do mundo inteiro vinham treinar. A Terra Divina também tinha um campo de treinamento para monges, embora com um fundador diferente. Atualmente, porém, a Terra Divina era o inferno na terra.

— Hah!

Um soco de monge brilhando com a Onda Vital – inútil.

Um chute – inútil.

Uma mão-faca – inútil.

Um chute alto – inútil.

Tudo era inútil.

O brilho negro diante deles devorava todos os golpes.

— Você mexeu com a Onda da Morte?! Seu idiota! — cuspiu um monge, apesar de suas crenças divinas.

A Onda Vital era a energia da vida; seu oposto era a Onda da Morte, energia da morte e da destruição, poder tabu para monges. Esse monge brilhante e sombrio, de aura demoníaca, que carregava a Onda da Morte dentro de si, esmagava os crânios dos fracos que se gabavam de que a Onda Vital era o caminho correto. Quem exigia respeito aos deuses tinha o coração perfurado por seu poder. Mas, no fim, seu caminho ainda era um caminho arruinado.

— Aaaaah! Poder! Pooodeeeer!

O homem conhecido como Punho Vil era uma massa disforme. O corpo era como um rochedo enorme, mas sob as roupas rasgadas que já não serviam. Metade direita tinha rosto e corpo de jovem; metade esquerda era enrugada e idosa, pele horrivelmente queimada.

— Pooodeeeer! Preciso de pooodeeer! Preciso ser fortee!

O Punho Vil, reduzido a essa forma grotesca, tinha um olhar desfocado e parecia ter perdido completamente a sanidade. Babava enquanto gritava sua fé cega no poder.

— Os fracos morrem!

— Do que você está falando?! — gritou de volta um monge, incapaz de compreender os berros do Punho Vil.

— A grande guerra! O Rei Demônio Supremo! O fooogo!

— O-o quê ele acabou de dizer?! — Essas palavras do Punho Vil deixaram tudo claro para os monges sobreviventes. A mente dele ainda estava presa no Rei Demônio Supremo e na grande guerra, quando fracos e fortes não tinham escolha senão morrer.

— Forçaaaa!

Os monges mais justos não haviam participado da grande guerra, por isso não concordavam com as visões do Punho Vil. Quem nasceu após a guerra e não tinha ligação com ela não entendia o fato óbvio de que os fracos simplesmente morriam nessas circunstâncias. Mas se alguém que viveu a grande guerra estivesse ali, talvez fosse um pouco diferente.

O mundo ficou vermelho de sangue e do céu carmesim. Numa era cheia de misérias – chamas, morte, desespero, escuridão, derrota, ódio, medo, ruína – fraqueza era morte. Era pecado. Não havia amanhã, não havia futuro. Velhos morriam. Jovens morriam. Bebês morriam. Todos estavam destinados a morrer naquele mundo. Até monges não eram exceção. Durante a grande guerra, sua fortaleza, a Montanha Fervente, esteve à beira da queda. Por isso todos buscavam força: para evitar a morte, evitar a destruição, continuar vivendo. Isso persistiu mesmo após o fim da guerra. Contudo… no fim, talvez não tivesse sentido buscar força além do que se podia suportar.

— Pooodeeeeeer!

Um torrente de poder negro jorrou do corpo do Punho Vil enquanto ele gritava para o céu. Em termos de puro poder destrutivo, a Onda da Morte era claramente superior à Onda Vital. E ainda assim, quase não havia usuários da Onda da Morte, simplesmente porque era fácil alguém se encantar pelo poder e perder a sanidade – como estava acontecendo agora – levando eventualmente à morte.

— Morraaaaam!

As palavras e ações do Punho Vil já não eram coerentes. Se fosse fraco, morreria, então tornava-se forte para evitar a morte. Esse era seu raciocínio, mas ele cruzou uma linha que nunca deveria ser cruzada, tornando-se uma força destrutiva desprovida de razão. Estar à beira de perder o senso de si não era diferente da morte.

— Oooooh!

— Agh!

O Punho Vil continuou seu frenesi, transformando os monges restantes em montes de carne num instante.

— Oooooooh!

Só restou o Punho Vil, avançando em seu frenesi até que sua vida se esgotasse. Claro, os monges não ficariam quietos após saberem disso. Graças a alguns sobreviventes, a notícia se espalhou e monges do mundo inteiro começaram a preparar-se para a guerra.

 

https://tsundoku.com.br

 

— Muuu!

— Có có có!

Os mugidos de vacas e cacarejos de galinhas sumiam no céu azul. Era pacífico. Ou deveria ser pacífico na cidade de Lime. A cidade era cercada por vastos pastos, dos quais a indústria pecuária tirava proveito. Somado à população mercante saudável, a cidade florescia.

No entanto, os monges da Igreja da Terra Trovejante que residiam ali corriam de um lado para o outro em estranha pressa.

— Que situação alarmante. — No fundo de um templo fora de Lime, Lutz, um monge parecido com um rochedo com mais de oitenta anos, sentou-se no chão e murmurou em tom grave. — Um usuário da Onda da Morte capaz de derrubar sozinho o campo de treinamento de monges da Terra Divina não teria razão nem moral. Além disso, se tem oitenta ou noventa e poucos anos, duvido que tenha conservado qualquer racionalidade.

Havia um relatório sobre a destruição do campo de treinamento da Terra Divina, próximo a Lime, com detalhes de alguns sobreviventes.

O culpado parecia ter idade avançada, por volta de oitenta ou noventa anos. E ainda assim, o corpo era musculoso e o porte tão grande que as pessoas precisavam olhar para cima. Também era claramente usuário da Onda da Morte, coberto por aura negra. O problema era que quanto mais a usasse, mais perdia a sanidade e tudo saía do controle. Em outras palavras, com noventa e poucos anos, havia grande chance de o poder da Onda da Morte ter crescido dentro dele a um grau assustador.

— Tenho que matá-lo, mesmo que seja um ex-colega de estudos. Não, isso seria ainda mais motivo para matá-lo. — Seria mais que vergonhoso para esse ancião se sua seita tivesse produzido alguém manchado pelo caminho maligno que espalhava morte e destruição. Eliminar o Punho Vil era sua missão.

Voltemos à cidade de Lime, onde criavam gado premiado para alimentar nobres, com guardas vigiando atentos a qualquer malfeitor com más intenções para essas criaturas valiosas.

— Posso trocar uma palavra? — Edward, um dos guardas mais novos de Lime, chamou um homem claramente suspeito.

— Comigo? — Não adiantava o homem fazer-se de bobo. Tinha noventa e poucos anos, cabeça careca brilhando ao sol, pele bronzeada e enrugada, olhos cinzentos. Era alto o suficiente para Edward, de estatura média, precisar erguer um pouco a cabeça. Todo o corpo do velho era como um tronco de árvore seca e ele parecia suspeito em todos os sentidos da palavra.

Sim, Edward conseguia imaginar cada centímetro do corpo inteiro do velho, o que significava…

— O que aconteceu com suas roupas?

Esse homem suspeito – não, esse exibicionista – usava apenas um pano enrolado na cintura.

— Você é de alguma das tribos dos enormes selvagens do norte? — perguntou Edward novamente.

— Tribo dos músculos?

— Eu disse enormes… A primeira parte mal soa como músculos.

— Sim, faço parte da tribo dos músculos.

— Tá bom, mas nunca ouvi falar dessa tribo. — Oh, céus. Ele é tão velho que minhas palavras nem estão chegando até ele.

Edward pensou que o velho podia ser de uma das tribos do norte que se orgulhavam de sua imprudência e se chamavam selvagens. Homens eram chamados de bárbaros e mulheres de amazonas. Eram conhecidos por expor muito o corpo, usando apenas o mínimo de roupa ou peles e pintando desenhos tradicionais na pele. Era natural que Edward achasse que o velho era um deles. Porém, a resposta foi tão absurda que ele só conseguiu culpar a idade.

— Você não tem marca sagrada, então não pode ser monge da Igreja da Terra Trovejante…

A outra possibilidade era que fosse monge da Igreja da Terra Trovejante, que tinha templo perto de Lime. Monges jovens em treinamento sempre estavam quentes, então tendiam a ignorar roupas sem se importar com a opinião pública. Quando vinham à cidade comprar necessidades, muitos vestiam-se de forma leve. Mas se fosse o caso, o velho teria uma marca sagrada denotando-o como membro da Igreja e não era jovem o bastante para não se importar com o que pensavam dele.

— Não sou monge, mas tenho fé nos meus músculos, se tiver que escolher.

— C-certo… Estamos no meio da cidade, então poderia vestir uma roupa, por favor?

— Isso seria um pouco difícil… Não consigo por causa dos meus músculos.

— Desculpe, pode repetir?

— Não consigo vestir roupas por causa dos meus músculos.

— E-entendi…

Edward ficou completamente perdido. Só pediu que o velho vestisse roupa e parasse de se exibir, mas todas as respostas eram sobre músculos. Homens seminus não eram raridade dois séculos atrás, mas com a mudança de era e cultura, as pessoas já não mostravam mais a pele que o necessário em público. Mas simplesmente estar seminus não era crime, então Edward realmente não sabia o que fazer, não podia fazer mais que pedir que o velho se vestisse.

— O senhor parece bem idoso, pode pegar um resfriado ou algo mais forte e perder a vida.

— Agradeço a preocupação, mas me visto assim desde adolescente e nunca peguei resfriado.

— Certo…

Edward ainda tentou usar o bom senso para abrir alguma brecha, mas as respostas o faziam questionar o próprio bom senso. Se o que o velho dizia era verdade, ele estava consistentemente seminu desde muito antes de Edward nascer.

— Se me permite uma pergunta, notei que os monges da Igreja da Terra Trovejante que vejo com frequência pela cidade estão estranhamente agitados hoje. O senhor saberia de algo? — perguntou o velho.

— Também me chamou atenção, mas meu cargo é baixo, não me informaram de nada em particular. Espera, está chovendo? — Não havia como Edward, tão baixo na hierarquia, saber algo sobre os monges. E como começou a chover de repente, sua atenção virou completamente para o céu. — Deixe eu levá-lo até sua casa antes que comece a cair de verdade.

— Me levar até em casa? — O velho afastou-se do tema músculos pela primeira vez ao ouvir a proposta de Edward.

— Sim. Vamos logo, antes que a chuva fique forte.

— Muito obrigado. — Instigado por Edward, o velho começou a andar em direção à estalagem onde estava hospedado. — Você virou guarda recentemente?

— Sim. Primeiro fui guarda na cidade vizinha, mas houve falta de mão de obra em Lime, então vim há pouco.

— Entendi. — O velho puxou conversa com Edward enquanto andavam juntos e soube um pouco da história dele. — Que tal virar aventureiro? — perguntou.

A profissão a que se referia era exótica. As áreas labirínticas chamadas masmorras eram ditas provas deixadas pelos deuses bons ou armadilhas dos deuses malignos, e continham muitas criaturas perigosas e tesouros. Quem desafiava essas masmorras eram aventureiros, que podiam trazer riquezas e tesouros e ganhar prestígio e glória. Era uma profissão que atraía muitos jovens.

— Quando criança queria ser aventureiro, mas depois comecei a pensar que gostaria de proteger a cidade. Sei que há mais coisas, mas era uma ideia infantil.

— Entendi, entendi.

— O que o senhor fazia quando jovem?

— Ha ha ha ha ha! Foi há oitenta anos, mas queria fazer algo um pouco diferente das outras pessoas.

— Algo diferente?

— Sim, diferente.

E assim continuou a conversa.

— Chegamos. É aqui que estou hospedado — disse o velho ao chegarem a uma pequena estalagem. — Olá, dona Ivy — cumprimentou uma velha de oitenta e poucos anos curvada varrendo do lado de fora.

— Ah, bem-vindo de volta.

— Aqui nos despedimos — disse Edward.

— Obrigado novamente pela bondade.

— Por favor, nem mencione. Adeus. — Após ver que a velha da estalagem conhecia o velho, Edward concluiu que era mesmo onde ele estava hospedado e partiu.

— Ele se preocupou com você? Que alma gentil.

— Talvez as coisas não tenham mudado do passado, de um jeito bom. Me lembra um amigo meu.

Ivy e o velho conversaram enquanto viam Edward se afastar.

— Bem… também pode haver gente que mudou para pior. Vou patrulhar um momento, acrescentou o velho.

Seu pressentimento estava correto. Encontrou algo durante a patrulha, ou melhor, alguém. A própria Morte emanava de um homem grande com músculos saltados apesar de ter mais de noventa anos, uma névoa tão densa que bloqueava até as nuvens de chuva. Durante a grande guerra setenta anos atrás, esse homem acreditou tolamente que o caminho da vida e da luz era o correto. Porém, não conseguiu dominar a Onda Vital e desesperou-se com a própria força gradualmente declinante. Então, em busca de poder, estendeu a mão para a Onda da Morte…

— Oooooh!

E esse era o resultado. Olhos nublados, baba escorrendo e rugidos sem sentido mostravam que o homem já não tinha nada parecido com razão. Apesar disso, as técnicas de monge gravadas no corpo não haviam desaparecido e ele se tornou extremamente perigoso, já tendo destruído um campo de treinamento de monges inteiro. Sem nenhum senso de razão, o Punho Vil continuava correndo por um caminho sem rumo.

— O Reeeeei Demônio Supremo! Destruiçããão! — Mas parecia que seu coração permanecia para sempre preso na grande guerra. — Não quero morrer! Quero viver e ser melhor que qualqueeer um!

Os sentimentos que escondeu por décadas saíram à tona. Queria ficar forte e sobreviver. Esse objetivo se distorceu em algum momento, tornando-se uma ilusão de ficar acima dos fracos e banhar-se em sensação de superioridade.

Mesmo com o fim da guerra, nem todos foram salvos, hein? O velho seminu, corpo como uma árvore seca, colocou-se no caminho dessa figura delirante. O velho percebeu que o Punho Vil era na verdade um monge que participou da grande guerra, mas permaneceu em silêncio. Mesmo a mil passos de distância já era distância letal, não precisava aproximar-se mais.

— Aaaaah?! — Por outro lado, o Punho Vil gritou um grito de espanto.

Ele se lembrava do velho seco da Montanha Fervente, do campo de batalha e do último encontro. O velho definitivamente esteve presente na batalha decisiva onde todas as raças mortais se reuniram para lutar como uma só. Era objeto da inveja e ciúme do Punho Vil. Isso era tolice; o caminho seguido pelo velho que tanto invejava também não era fácil. Assim como o Punho Vil, mesmo tendo se lançado na batalha para salvar o mundo, ele não conseguiu salvar a si mesmo.

— Morraaaa! — Mas nada disso importava para o Punho Vil. Sua Onda da Morte anormalmente densa tornou-se parcialmente tangível, fazendo seu corpo crescer a um tamanho anormalmente massivo. Se seu punho acertasse o chão, a terra seria pulverizada em pedacinhos; se acertasse o céu, talvez despedaçasse o próprio ar. Se enfrentasse alguém que dominasse a Onda Vital, pareceria um raio negro chocando-se contra um sol branco.

O Punho Vil diminuiu a distância num piscar de olhos e lançou seu punho enlarguecido – grande o suficiente para cobrir toda a metade superior do velho – disparando raios roxos. O Punho Vil parecia um cadáver. Ainda assim, o golpe destrutivo lançado de seu punho poderoso não tocou no velho árvore seca. Foi como um trovão, pulverizando tudo em seu caminho. Mas não adiantava se não fizesse contato. Quem ficaria parado para ser acertado por algo que sabia que vinha?

A onda da vida e da onda da morte, o caminho justo e o caminho maligno, o poder da luz e o poder das trevas, e acima de tudo, a fé em Deus. As grandes figuras que abriram o caminho do monge três séculos atrás se chamavam poder da luz para proteger a fé, a vida e suas seitas, enquanto quem derivava técnicas de matar dali se chamavam escuridão da morte.

Ainda assim, alguns poderiam argumentar que isso era uma forma estreita demais de definir as coisas.

Por que seguir esse caminho predeterminado de vida e morte quando se podia voar o quão alto quisesse? Com esse pensamento, esse velho concluiu que era estreito não dominar e compreender completamente o caminho tanto da vida quanto da morte. Por isso estudou tanto a Onda Vital quanto a Onda da Morte. Entendia o valor da vida. Entendia a lei da sobrevivência do mais apto. E também pôs os pés num caminho ainda não trilhado: o caminho do poder puro, sem bem nem mal. Esse poder incolor não brilhava intensamente nem disparava raios negros.

— Hah!

Após o velho desviar do golpe do Punho Vil, seu braço, que parecia um galho seco mas era feito de músculo puro hipercomprimido, torceu-se num punho, desferindo um soco reto que perfurou o peito do Punho Vil. O golpe foi limpo e sem sangue; usou apenas a força necessária para acabar com o batimento da vida desse monstro.

— Eu me lembro de você da grande guerra. Creio que você era monge da Igreja das Nuvens Trovejantes — murmurou o velho, de pé sobre o cadáver disforme do Punho Vil.

Esse velho era a fonte do arrependimento de Albert, um dos fundadores da Igreja da Terra Trovejante e dos próprios monges. Continuou caminhando seu próprio caminho, sem fé nos deuses. Era membro do grupo do Herói, Stein da Onda Nula.

Alguns dias depois, o grupo do Herói chegou a Lime para encontrar Stein.

— Ooh. Tantas vacas. Que tranquilidade, querida — disse Ferd.

— Sim, realmente, meu amor — respondeu Elrica.

Os dois estavam sentados no banco do condutor da carruagem-golem e conversavam tranquilamente enquanto observavam o gado pastando nos prados ao redor de Lime. Entre as vacas comendo lentamente sob o céu azul e um casalzinho de velhos passando, parecia que o fluxo do tempo desacelerou nesse local específico.

— Espero que Stein tenha aprendido a língua humana para conseguirmos nos comunicar um pouco — disse Sazaki.

— Não tenho confiança de que conseguirei manter a sanidade perto dele — acrescentou Lara.

Diferente do casal pequeno e tranquilo, Sazaki e Lara – sentados no banco de trás, costas retas e alturas intactas – pensavam em Stein. Para Sazaki, Stein era, de certa forma, um oponente ruim em termos de técnicas de combate. E embora Lara habitasse o abismo da magia, acreditava que as palavras e comportamento de Stein podiam desgastar sua sanidade.

— Hmm? Tem cinco pessoas à frente. Mas não parecem bandidos — disse Ferd enquanto cruzavam uma pequena colina.

— Meus pêsames a qualquer bandido que tente mexer com esta carruagem — brincou Lara, dando de ombros. Embora os quatro já tivessem vivido além de sua era, ainda haviam salvado o mundo uma vez. Se simples bandidos atacassem esta carruagem, seriam enviados direto ao submundo.

— Isso mesmo. Afinal, temos Lara… — começou Sazaki.

— Temos Sazaki aqui — interrompeu Lara.

— Não, não, tentaria resolver pacificamente. Eu não seria a causa dos pêsames.

— Não me faça rir.

— Esses cinco musculosos… podem ser monges da Igreja da Terra Trovejante — refletiu Ferd.

— Acha que têm algo a ver com Stein? — perguntou Elrica.

— Não posso dizer. Não ouvi nada sobre ele ter consertado a relação com a igreja.

Ferd e Elrica ignoraram as brincadeiras de Sazaki e Lara, concluindo que o grupo de cinco homens, cujos corpos robustos eram óbvios mesmo de longe, provavelmente eram monges da Igreja da Terra Trovejante, que tinha templo próximo.

— Saudações, irmão. Aconteceu algo? — perguntou Ferd a um dos monges.

— Agradeço por este céu azul. Verificamos regularmente se algo incomum aconteceu na área. É apenas parte disso. Viram algo fora do comum, senhor? — perguntou um dos monges.

— Não, viemos achando tudo ótimo.

— Que bom ouvir isso. Bem-vindos à cidade de Lime.

— Obrigado por trabalharem tanto pela população. — Após confirmar a marca sagrada da Igreja da Terra Trovejante, Ferd terminou a conversa com o monge e voltou a pôr a carruagem em movimento.

— Agradeço pelo céu azul, hein? Ufa! Aposto que você ficou um pouco assustado — disse Sazaki com um sorriso.

— Só por um momento. Pensei que ele soubesse quem éramos — respondeu Ferd com a mão no peito.

O monge não quis dizer nada profundo ao agradecer pelo céu azul, mas esses quatro eram algumas das pessoas-chave que haviam devolvido o céu vermelho ao azul durante a grande guerra. E o quinto não estava longe.

— Tudo bem então. Encontrar Stein não deve ser difícil. Né, querida? — disse Ferd.

— Só precisamos perguntar por um velho seminu — respondeu Elrica.

Os dois olharam ao redor ao entrar em Lime, mas encontrar Stein não era tarefa particularmente difícil.

— Quando encontraram Sazaki, bastava perguntar pelo velho deitado no chão com uma garrafa de bebida na mão, afinal — disse Lara.

— Economiza o trabalho de procurar por mim, né? — acrescentou Sazaki.

— Isso mesmo. É conveniente porque não precisa dar explicação detalhada ao descrever um mendigo.

Diferente do casal cambaleante, Lara e Sazaki andavam firmes e conversavam alegres.

De fato, assim como foi possível encontrar Sazaki perguntando pelo “velho deitado com uma garrafa de álcool”, era possível encontrar Stein perguntando pelo “velho seminu que fica falando de músculos”.

— Com licença, senhor. Por acaso viu um homem seminu andando por aí, falando constantemente sobre músculos? — perguntou Ferd a um transeunte.

— Sim, vi ali. Acho que encontrará se continuar perguntando nessa direção — respondeu o homem.

Lara e Sazaki cobriram a boca em choque, embora devessem esperar por isso.

Algum tempo depois…

— Ooh! Meus amigos! Que dia maravilhoso!

Após perguntar a mais transeuntes, finalmente encontraram Stein.

— Hora de celebrar a reunião! — Stein parecia positivamente emocionado.

— Blegh! — Ferd, por outro lado, parecia uma galinha estrangulada. Era uma descrição muito apropriada, pois Stein o abraçava com força. Era uma cena única: um velho frágil de noventa e poucos sendo estrangulado até a morte por outro velho de noventa e poucos seminu.

— Oho ho ho ho. — Elrica apenas riu elegantemente.

— Sua vez, Sazaki. — Em seguida, Stein virou-se para Sazaki com os braços abertos em boas-vindas.

— Ele está chamando você. Vá lá — disse Lara, tentando empurrá-lo para o inferno.

— Não, definitivamente não. De jeito nenhum. Não! — Sazaki era categoricamente contra.

— Então, Elrica, Lara. — Após ser recusado por Sazaki, Stein virou-se para as mulheres do grupo com os braços ainda abertos.

— Oho ho ho ho. — Elrica simplesmente riu e ignorou.

— Em seus sonhos — recusou Lara acenando a mão, como quem diz para ele se contentar só com os homens.

— Vejo que todos têm músculos magníficos, como sempre — disse Stein.

— Onde exatamente Elrica e eu temos músculos? — respondeu Lara.

— Já disse. O corpo inteiro é músculo. Ou seja, o cérebro também é músculo, e a inteligência varia com a quantidade de músculos no cérebro — explicou Stein sua teoria aos companheiros em tom casual.

— Entendi? — Lara parecia exausta. Ela entendia a teoria graças ao conhecimento, mas quando ele continuava falando de músculos, parecia que falava com ela do outro lado de um abismo.

— Agora vamos, se ainda não almoçaram, vamos comer. A estalagem onde estou também é restaurante. Esta manhã ouvi a boa notícia de que receberiam peito de frango fresco. Alegria é algo para compartilhar com amigos.

— Ha ha, vamos juntos, então. — Ferd, que quase foi estrangulado até a morte como as galinhas, sorriu sem graça ao aceitar o convite de um músculo-cérebro completamente inalterado. Havia gente que mudara completamente, mas o homem chamado Stein ainda era exatamente o mesmo das memórias de Ferd.

Stein estava hospedado num estabelecimento que funcionava tanto como estalagem quanto restaurante, voltado para plebeus e cujas refeições não eram nada de especial. Contudo, os membros do grupo do Herói vinham de origens humildes e os hábitos alimentares de Stein eram um pouco desequilibrados.

— Vejo que ainda vai de leite e peito de frango — disse Ferd, sorrindo sem graça diante da dieta inalterada de Stein.

— Claro. Pode-se dizer que é por isso que estou em Lime. — Stein era obcecado por leite e peito de frango, usando a teoria misteriosa de que bons músculos vêm de boa dieta. Era por isso que estava em Lime, uma cidade conhecida por sua próspera indústria pecuária.

— Ah, é mesmo — disse Sazaki como se tivesse lembrado algo bom.

— Não coloque álcool no meu leite, Sazaki. — Stein controlou o amigo, não querendo perder nem o menor movimento dele.

— Não disse nada.

— O fato de você não ter negado torna suas intenções óbvias. — Assim, uma briga começou entre o Mestre da Lâmina e o Mestre do Punho.

— Mas… entendo. Recebi a carta de Ferd e Elrica, mas parece que Sazaki e Lara também estão na viagem final — murmurou Stein com profunda emoção, encerrando a briga. O conflito entre ele e Sazaki era inútil em todos os sentidos, algo que não mudou em setenta anos.

— Tem gente que preciso cumprimentar antes de morrer e também preciso ver o rosto do meu bisneto. Ha ha ha! — disse Ferd.

— Ferd. Não sei se deveria tocar no assunto, mas essa sua atitude de velhinho está totalmente fora de lugar. Totalmente mesmo — disse Stein.

— Ah, cale-se. — Ferd, que era praticamente o retrato de um velhinho bondoso, franziu a testa à observação de Stein.

— Bwa ha ha ha ha! Aha ha ha ha! Você está dizendo a mesma coisa que eu! Realmente parece errado! — Sazaki explodiu em gargalhadas, ganhando um olhar de Ferd.

— Vai à Montanha Fervente? — perguntou Stein relutante, olhando para o teto com os braços cruzados.

— Sim, pretendemos. Lutamos ao lado de seus monges em muitas ocasiões — respondeu Elrica, cuidando para não mencionar certos tópicos, a Igreja da Terra Trovejante e Albert, um dos fundadores do caminho do monge.

O que devo fazer…? Stein pensou, ainda olhando para o teto. Embora tanto a Igreja da Terra Trovejante quanto Albert tivessem sido ótimos com ele, ele cortou laços para seguir seu próprio caminho. Como resultado, mesmo tendo realizado grandes feitos na luta para proteger o mundo, sua ingratidão para com os mestres ainda deixava uma inquietação no coração. O que devo fazer…? Stein repetiu as mesmas palavras na mente.

Como Stein dominou a Onda Vital, a própria energia da vida, sua expectativa de vida deveria ter sido estendida, mas não era o caso porque também dominou a Onda da Morte, seu completo oposto, então não tinha muito mais tempo de vida. Claro, poderia usar apenas a Onda Vital se quisesse, mas não tinha interesse em viver muito. Ou seja, não tinha muitas oportunidades restantes para reconciliação. Mesmo assim, Stein estava preocupado, pois sentia que teria muita cara de pau de aparecer agora depois de ter deixado a Montanha Fervente.

— Isso não se parece com você, cara. Quando nos conhecemos, você disse que deixou a montanha em busca de músculos, né? Então, o que seus músculos estão dizendo agora? — Surpreendentemente, esse jeito grosseiro de falar não veio de Sazaki, mas de Ferd, que beliscava legumes.

— Sim… você tem razão. Meus músculos anseiam por uma reunião. Se estão indo para a Montanha Fervente, gostaria de acompanhá-los — respondeu Stein.

— Vamos a vários lugares no caminho. Tudo bem?

— Ainda tenho cerca de uma década. Não será problema.

— Ha ha! Então seja bem-vindo, Stein.

— Ferd.

— Sim?

— Falar como na juventude com essa aparência está totalmente fora de lugar. Totalmente mesmo.

— Então o que você quer de mim, cara?!

— Bwa ha ha ha ha!

— Heh.

— Oho ho ho ho.

Como nos velhos tempos, Stein tomou sua decisão graças ao incentivo de Ferd. Não tinha intenção de reconciliar-se com seu mestre ou a igreja à qual pertenceu, mas ainda sentia que deveria mostrar a cara ao menos uma vez.

 

https://tsundoku.com.br

 

— Gah?!

Ao terminar de ler a carta nas mãos, Lutz levantou-se com um grito estrangulado. Era monge e o responsável do templo da Igreja da Terra Trovejante perto da cidade de Lime. Era um veterano que participou da grande guerra na juventude distante e, embora já passasse dos oitenta, ainda era duro como rocha; os monges jovens de hoje nunca o viram abalado. E ainda assim, seus olhos estavam agora arregalados e o queixo parecia prestes a cair no chão a qualquer momento.

Discípulo sênior?! Aqui?! Na Montanha Fervente?! Para ver nosso mestre?! A razão pela qual a mente de Lutz não conseguia completar uma frase era Stein, um ex-colega de estudos.

Lutz já havia interagido com Stein antes da partida dele da Montanha Fervente, e o idolatrava como seu sênior. No entanto, Stein nunca tinha colocado os pés no templo da Igreja da Terra Trovejante, mesmo tendo deixado para seu júnior a tarefa de limpar os restos do Punho Vil que ele havia derrotado. Mas segundo a carta de Stein, não só viria ver Lutz, como também planejava ir ver seu mestre Albert, embora levasse tempo.

Preciso varrer este lugar… Não, Stein não é do tipo que gosta que façam alarde por ele. Mais importante, preciso mandar carta ao mestre!

Lutz começou a se mexer às pressas, mas havia uma parte da carta que ele ignorou completamente: Stein disse que iria “com amigos”.

Vários dias após Lutz receber a carta surpreendente, Ferd, Elrica, Sazaki, Lara e Stein – um grupo com média de idade noventa e poucos – dirigiam-se ao templo da Igreja da Terra Trovejante, localizado numa montanha perto de Lime.

— Eia.

— Tudo bem, querido?

— Perfeitamente. Mas e você, querida?

Ferd e Elrica subiam as escadarias da montanha com pernas curtas, cada um preocupado com o outro, ou pelo menos brincando como se estivessem.

— Do que vocês estão falando? Nem estão ofegantes. Né, minha querida flutuante? — disse Sazaki, parecendo irritado com o jeito que o outro casal brincava quando não pareciam nem um pouco cansados.

— De fato, meu amor beberrão — respondeu Lara enquanto flutuava magicamente para evitar o trabalho de subir as escadarias íngremes.

— Isso não é nada bom, Lara. Parece que os músculos do seu cérebro não declinaram nem um pouco, mas é má ideia negligenciar o treino das pernas. A Igreja da Terra Trovejante tem pesos mágicos, vamos usá-los. Um adequado deve pesar tanto quanto uma vaca — tentou Stein impor suas boas intenções a Lara.

— Não preciso. Nunca entenderei vocês monges e sua obsessão por pesos — Lara, porém, recusou instantaneamente.

— Mgh… Hmm? Isso mesmo, Sazaki. Acabei de inventar um método de treino diário — Stein agora mirou Sazaki.

— Não vá deixar minha garrafa de álcool mais pesada do nada. — Mas Sazaki antecipou-se.

— Adivinhou, hein?

— Hmm? Parece que tem um sacerdote de alto escalão lá em cima… — Ignorando os amigos brincalhões, Ferd forçou os olhos para ver melhor o homem no topo das escadas. Era difícil ver claramente por causa da distância, mas havia razões limitadas para alguém que parecia ter oitenta e poucos anos estar ali. Se fosse jovem, seria fácil assumir que guardava os portões do templo, mas o fato de um sacerdote ancião de alto escalão estar ali só podia significar…

— Estive esperando por vocês. — O sacerdote que se curvava profundamente era o colega de Stein, Lutz. Certamente não era seu trabalho cumprimentar hóspedes nos portões, mas para Stein, seu sênior, ele achava apropriado.

— Não precisava vir me receber, Lutz.

— Respeitosamente discordo. Peço desculpas por só ter esperado na entrada.

Stein realmente acreditava que não era alguém que precisava ser expressamente recebido, enquanto Lutz na verdade quis ir até Lime recebê-lo. Porém, sabia bem que Stein odiaria isso, então se contentou com esperar nos portões.

— Seus companheiros são… — I-isso é estranho!

Lutz começou a dizer “Seus companheiros também são muito bem-vindos”, mas um raio passou por sua mente. Embora tivesse perdido a parte da carta de Stein que mencionava que viria acompanhado de amigos, seria natural assumir que houve algum gatilho para Stein de repente tentar contato com a Igreja da Terra Trovejante após quase romper completamente os laços. Então, qual foi o gatilho? As pessoas com quem Stein trabalhou no passado poderiam ser um desses catalisadores.

— Faz tempo, senhor Lutz. Sou Ferd. Nos encontramos várias vezes na Montanha Fervente e no campo de batalha. Estamos numa viagem para ver nossos velhos amigos e conhecidos uma última vez.

Durante a grande guerra, Lutz se perguntou que tipo de pessoas eram os companheiros de seu ex-colega, o que o levou a encontrá-los várias vezes no campo de batalha.

— Agradeço por este céu azul, queridos membros do grupo do Herói — disse Lutz aos maiores heróis conhecidos da história. Albert, um dos pais fundadores de todos os monges, uma vez comentou que não entendia como o homem em torno do qual esse grupo girava ainda mantinha a forma humana. — Permitam que eu os guie para dentro.

Instigados por Lutz, o grupo pisou nos terrenos do templo. Já tendo tomado sua decisão, Stein avançou sem hesitação, entrando na Igreja da Terra Trovejante pela primeira vez em setenta anos. Ao entrar nos terrenos do templo, foi imediatamente atingido por uma visão nostálgica.

— Hah!

— Isso me traz lembranças. — Stein olhou nostalgicamente para os monges jovens socando o ar no vasto campo de treinamento. Nos dias de juventude, também treinou incansavelmente ali ao lado de seus colegas aprendizes.

— Pode dar instruções a eles se quiser — sugeriu Lutz a Stein.

— Mestre Albert correria até aqui dizendo para eu não ensinar os jovens. — O jeito de pensar de Stein estava longe de qualquer monge comum para começar, mesmo antes de levar em conta seu domínio tanto da Onda Vital quanto da Onda da Morte e o caminho diferente que trilhou. Seus ensinamentos não eram adequados para a maioria. — Porém, são todos monges de verdade. Vocês devem estar instruindo bem.

— Muito obrigado. — Lutz não esperava um elogio de Stein, então foi difícil até erguer os olhos enquanto forçava a resposta.

Havia um forte laço entre Lutz e Stein. Lutz era órfão e tornou-se monge após encontrar o caminho para a Igreja da Terra Trovejante, que protegia órfãos. Foi descoberto por Albert e tornou-se seu discípulo, então desenvolveu uma relação com Stein, que já estudava na Igreja. Porém, os dias que vieram depois foram sombrios. Foi um tempo de puro caos, onde todo o céu ficou vermelho-sangue, tanto sangue fluindo na terra quanto no céu. Naturalmente, os servos do Deus da Igreja da Terra Trovejante lutaram ao lado das raças mortais para recuperar o céu azul e a paz… e muitos dos colegas de Lutz encontraram seu fim no processo.

Por mais exaustos que os monges estivessem, a Montanha Fervente permaneceu uma base poderosa para as raças mortais durante aquele tempo e um incômodo para o Rei Demônio Supremo. Ou seja, era inevitável que os monges, liderados por Albert, chocassem-se com o exército demoníaco no topo da Montanha Fervente. Stein decidiu que sua casa não seria libertada dessa crise até que a fonte, o Rei Demônio Supremo, fosse eliminada, então deixou a montanha.

— Realmente faz muito tempo, não é? — comentou Lutz.

— De fato — respondeu Ferd.

Ferd e os demais foram levados ao interior do templo pouco utilizado, onde trocaram cumprimentos com Lutz novamente e foram direto ao ponto.

— Como escrevi na carta, gostaria de encontrar o Mestre Albert novamente antes de partir. Ferd e os outros também lhe devem muito, então iremos todos juntos à Montanha Fervente. Porém, podemos fazer muitas paradas no caminho, então enviarei uma carta ao mestre assim que os detalhes estiverem decididos — contou Stein a Lutz sobre seus planos.

— Muito bem. Tenho certeza de que o Mestre Albert também ficará feliz.

— Veremos — respondeu Stein vagamente. Tenho certeza de que Ferd e os outros serão recebidos de braços abertos. Mas quanto a mim, bem, tenho quase certeza de que ele vai me bater. Embora Lutz não soubesse, Stein brigou feio com Albert antes de partir, então sua relação não era algo que pudesse ser facilmente consertado.

— O senhor Albert tem estado bem? — perguntou Elrica.

— Sim. Mas isso pode mudar quando souber quem vem visitá-lo — previu Lutz de forma meio brincalhona.

— Não seja tão sinistro. Para constar, Elrica, Lutz não está realmente brincando. — Era um assunto sério para Stein e sua expressão aqui desafiava a descrição.

— Oho ho ho ho — Elrica riu mesmo assim.

— De qualquer forma, parece que agora o senhor está responsável por um templo bem grande, senhor Lutz. — Ferd ficou feliz pelo sucesso de Lutz, embora fossem apenas conhecidos casuais.

— Ele era o melhor de sua geração, afinal. Suas habilidades atraem atenção desde muito tempo — disse Stein, que achava isso natural, assentindo.

— Já basta… — Lutz ficou ansioso porque seu passado podia ser desenterrado a esse ritmo. Não importava a era, era preciso determinação para ouvir um idoso falar dos seus dias de juventude.

— De qualquer forma, descobriu algo sobre o monge da Onda da Morte? — perguntou Stein se havia progresso na investigação sobre o Punho Vil, que ele pediu a Lutz e aos outros monges envolvidos.

— Infelizmente, não sabemos detalhes. Mas segundo os poucos monges que sobreviveram ao ataque, ele parecia horrorizado com o Rei Demônio Supremo e a grande guerra, e gritava que seria morto se não fosse forte. — A única coisa que Lutz sabia com certeza era sobre o que o próprio Punho Vil disse e fez.

— Hmm. Ele também gritava que não queria morrer e que queria ficar acima de qualquer um…

— Queria mais poder, mas não conhecia seus limites e os excedeu. Acontece frequentemente. E talvez um pouco de ganância também estivesse envolvida — Sazaki deu de ombros; ele só havia ouvido a história sobre o monge da Onda da Morte de segunda mão.

— Exato — concordou Stein.

Durante a grande guerra, era comum as pessoas julgarem mal suas habilidades, excederem limites e acabarem se destruindo. Isso era prova de quanto desespero o Rei Demônio Supremo trouxe às raças mortais. Mesmo setenta anos após o fim da guerra, ainda havia gente obcecada por sobrevivência.

Bem, eu sou um pouco esquisito. Sazaki entendia que havia quem lutasse com unhas e dentes para agarrar-se à vida, mas como ele voluntariamente se juntou à luta para derrotar o Rei Demônio Supremo – um empreitada que certamente levaria à morte – basicamente só para acompanhar os amigos, podia-se dizer que era o completo oposto. Considerando que todos, exceto ele, no grupo do Herói lutaram pela continuação da própria vida, ele realmente era uma exceção entre exceções.

— Ah, isso mesmo. Lutz, tem mais uma coisa que gostaria de perguntar — decidiu Stein ao dar uma folga ao júnior de tanta conversa nostálgica e passou ao assunto principal.

— Diga.

— Suponho que não temos ideia de onde encontrá-lo, né? Espero que a Igreja da Terra Trovejante tenha… — sussurrou Sazaki a Lara.

— Ele é difícil de localizar.

Os dois tinham uma pessoa específica em mente: o último membro vivo do grupo do Herói, que não tinha endereço fixo.

Algum tempo depois…

— Obrigado por todo o trabalho que teve por mim, Lutz.

— Por favor, não precisa agradecer.

Após terminarem de discutir o assunto principal, Lutz acabou sendo convencido a falar dos velhos tempos. Ele e Stein trocaram despedidas na frente dos portões do templo. A última vez que fizeram isso, mais de setenta anos atrás, a partida de Stein foi abrupta, mas agora ele enfrentava seu discípulo júnior corretamente.

— Aliás, vejo que melhorou. São músculos maravilhosos.

— Uh… M-muito obrigado… — Lutz curvou-se ao elogio de Stein. Era impossível para outros entenderem como ele se sentia ao ouvir isso.

— Até a próxima. — Deixando para trás as palavras que nunca disse na despedida anterior, Stein virou-se para descer a montanha.

— Até.

— Fico realmente feliz que o senhor Lutz tivesse a informação que precisávamos — disse Ferd.

— Eu também, querido — respondeu Elrica.

Enquanto isso, esses dois simplesmente estavam felizes por esse golpe de sorte inesperado lhes ter dado um destino específico. Embora não fosse certo, Lutz lhes deu informação sobre alguém que provavelmente era seu último companheiro. O próximo destino seria Juliano, a Cidade do Labirinto. Era uma cidade estranha onde aventureiros se reuniam, construída para a exploração das várias masmorras da área. Mas enquanto isso, o comportamento de Stein estava cobrando um preço mental de Ferd e dos demais.

— Bem… eu tinha a sensação de que isso ia acontecer — murmurou Elrica.

— Eu também, querida.

— Concordo.

— Yup.

Ferd, Sazaki e Lara concordaram em sequência. Stein era o único que faltava na conversa, mas o comportamento do monge seminu era excessivo como sempre e os outros sentiam algo entre nostalgia e irritação.

— A carruagem andaria três vezes mais rápido se eu a puxasse, mas os cavalos-golem estão ocupando a posição ideal de tração. — Demonstrando seu jeito músculo-cérebro de pensar, Stein corria ao lado da carruagem enquanto perguntava se havia algo que pudesse ser feito sobre os cavalos-golem, que só podiam andar em velocidade fixa.

— Pense logicamente. Se tivéssemos um homem não de noventa e poucos anos mas também seminu puxando nossa carruagem, seríamos parados tanto por guardas quanto por soldados em patrulha — falou Ferd ao ouvir a voz de Stein do lado de fora e explicou algo muito normal.

— Os cavalos estão completamente nus e não são parados, então eu também ficaria bem.

— Não é esse o ponto, seu músculo-cérebro idiota! — A resposta de Stein foi tão inesperada que Ferd acabou falando como na juventude sem querer.

— Bwa ha ha ha ha! — Sazaki gargalhou como se fosse a coisa mais engraçada do mundo.

— Parece que os homens permanecem os mesmos até o dia de sua morte — espantou-se Lara que os homens não tinham crescido nada em setenta anos.

— Oho ho ho. Parece que sim — Elrica riu com nostalgia.

Muita gente pensava que o grupo do Herói era um grupo de campeões dignos e taciturnos, mas na verdade eram um bando de palhaços.

— Mas cara, Juliano, hein? Algum de vocês entrou numa masmorra desde o fim da grande guerra? Ahem. Algum de vocês? Nem Elrica nem eu entramos — disse Ferd, recompondo-se e voltando ao tom habitual no meio da frase.

— Esse padrão de fala de velhinho é só atuação? — ironizou Sazaki.

— Calado, Sazaki. — Porque os velhos companheiros de Ferd não tinham mudado nem um pouco, ele recentemente se via frequentemente voltando aos padrões antigos de fala.

— Eu não. E você, Lara? — perguntou Sazaki.

— Não.

— Ei, Stein — Sazaki perguntou em seguida.

— Eu também não.

— Então significa que nenhum de nós entrou.

Embora pudesse surpreender muitos, durante a grande guerra o grupo do Herói na verdade nunca entrou em nenhuma masmorra – ditas provas dos deuses bons ou armadilhas dos deuses malignos – onde tesouros aguardavam e monstros vagavam.

— Estávamos bem ocupados, afinal.

A razão podia ser resumida na frase única de Ferd. Durante a grande guerra, onde campos de batalha mortais estavam espalhados pela terra, o grupo do Herói esteve envolvido em lutas em muitas fronts, então não tiveram tempo algum para desafiar as masmorras. Em outras palavras, Ferd e os outros não eram aventureiros, mas uma unidade de combate formada para destruir o Rei Demônio Supremo; não participaram de atividades frívolas. Muitos assumiam que o grupo do Herói lutou por todas as masmorras existentes, mas isso era simplesmente um equívoco.

— Diga, Lara. As masmorras são realmente enviadas pelos deuses bons ou pelos deuses malignos? — perguntou Sazaki.

— Ninguém sabe a resposta. Né, Elrica?

— Sim. Parece certo que foram criadas por deuses mais antigos que os que existem agora, mas não sabemos nada além disso. — Nem ela nem Lara tinham uma resposta definitiva.

Não havia dúvida de que aventureiros que enfrentavam masmorras melhoravam suas habilidades e ganhavam fama e tesouro. Alguns diziam que era o jeito dos deuses bons darem aos humanos oportunidade de treinar e obter glória.

Porém, incontáveis pessoas também haviam morrido em medo e desespero dentro delas. Alguns diziam que esses lugares eram armadilhas criadas pelos deuses malignos para tentar levar os humanos à morte com o esplendor deslumbrante que havia dentro.

— A Igreja da Terra Trovejante também não tem opinião fixa sobre o assunto. Bem, certamente há muitos monges que pertencem a grupos de aventureiros e treinam nas masmorras — Stein juntou-se à conversa agora, aparentemente tendo desistido de tentar tomar o lugar dos cavalos-golem.

— Você não tinha interesse em tentar? — perguntou Ferd.

— Bons músculos precisam de sol. Não quero ficar o tempo todo debaixo da terra. — Parecia que Stein não tinha muito interesse em masmorras, seu raciocínio muito típico dele.

— Entendo.

— Porém, teria sido bom desafiar uma ao menos uma vez. Se tentasse entrar numa na minha idade, duvido que a Guilda dos Aventureiros permitiria. Se eu fosse recepcionista, definitivamente recusaria minha própria entrada. — Parecia que Stein tinha alguns arrependimentos sobre o assunto, mas julgava, bastante razoavelmente, que isso estaria fora de questão para ele agora.

Se seu bom senso…

…chega tão longe…

…então por que…

…você está sempre seminu?

Seus quatro companheiros chegaram silenciosamente a um único pensamento compartilhado em uníssono.

Para entrar em masmorras, as pessoas primeiro precisavam registrar-se numa organização chamada Guilda dos Aventureiros. Originalmente era apenas uma pequena organização de ajuda mútua formada por aventureiros como proteção contra os crimes que frequentemente aconteciam dentro das masmorras, mas ao longo de um ou dois séculos cresceu muito, impulsionada pelo interesse crescente nas masmorras. Hoje, qualquer um que desafiasse as masmorras estava subordinado a ela.

Como resultado, quem não estivesse registrado na Guilda dos Aventureiros não podia entrar, e alguém de noventa e poucos anos não obteria permissão de jeito nenhum, mesmo que Stein revelasse que fazia parte do grupo do Herói. Na verdade, se um membro do grupo do Herói recebesse permissão para entrar numa masmorra e por acaso morresse lá, problemas de responsabilidade certamente surgiriam. A Guilda dos Aventureiros provavelmente o recusaria ainda mais veementemente do que se ele fosse simplesmente velho.

— Eu sempre quis tentar ao menos uma vez — disse Ferd, sempre encantado com a ideia de aventura.

— Eu iria se tivesse álcool — acrescentou Sazaki, fiel aos seus padrões habituais.

— Leite, no meu caso — seguiu Stein em veia semelhante.

— Vocês realmente não mudaram nada — deu de ombros Lara.

— Oho ho ho ho. — Elrica riu com a mão na boca.

As pessoas mudam, mas mesmo se não mudarem, não é necessariamente algo ruim.

Algum tempo depois, Albert – mestre de Stein e Lutz – recebeu suas cartas.

— Ora, ora — disse simplesmente e olhou para o céu azul.

◆◆◆

Stein da Onda Nula

Um homem que existe entre vida e morte, bom senso e absurdo, mas nem uma única pessoa duvida da convicção que habita dentro dele.

 


 

Tradução: Rlc

Revisão: Pride

 

💖 Agradecimentos 💖

Agradecemos a todos que leram diretamente aqui no site da Tsun e em especial nossos apoiadores:

 

  • decio
  • Ulquiorra
  • Merovíngio
  • S_Eaker
  • Foxxdie
  • AbemiltonFH
  • breno_8
  • Chaveco
  • comodoro snow
  • Dix
  • Dryon
  • GGGG
  • Guivi
  • InuYasha
  • Jaime
  • Karaboz Nolm
  • Leo Correia
  • Lighizin
  • MackTron
  • MaltataxD
  • Marcelo Melo
  • Mickail
  • Ogami Rei
  • Osted
  • pablosilva7952
  • sopa
  • Tio Sonado
  • Wheyy
  • WilliamRocha
  • juanblnk
  • kasuma4915
  • mattjorgeto
  • MegaHex
  • Nathan
  • Ruiz
  • Tiago Tropico

 

📃 Outras Informações 📃

Apoie a scan para que ela continue lançando conteúdo, comente, divulgue, acesse e leia as obras diretamente em nosso site.

Acessem nosso Discord, receberemos vocês de braços abertos.

Que tal conhecer um pouco mais da staff da Tsun? Clique aqui e tenha acesso às informações da equipe!

 

 

Rlc

Recent Posts

Liberte Aquela Bruxa – Vol. 04 – Cap. 687 – O Segredo da Relíquia

  A Relíquia era um pedaço transparente de cristal carmesim. Similar aos núcleos mágicos das…

2 horas ago

O Caçador Imortal de Classe SSS – Vol. 13 – Cap. 302 – A Aranha Cinzenta (1)

  A Aranha Cinzenta não sentia como se alguma vez tivesse sentido uma brisa fresca…

1 dia ago

O Caçador Imortal de Classe SSS – Vol. 13 – Cap. 301 – A Grande Campanha (3)

  — Não sabemos quem você é. Fique feliz por isso! Caso contrário, já teríamos…

1 dia ago

Lorde dos Mistérios – Cap. 309 – Escolhendo um de Duas Opções

  O sentimento ilusório passou, e Klein viu que a vela bizarra estava em sua…

1 dia ago

Império Tearmoon – Vol. 03 – Cap. 32 – A Melancolia de uma Santa (Falsa)

  No meio do período eleitoral, Mia estava sentada com sua equipe na sala de…

1 dia ago

Império Tearmoon – Vol. 03 – Cap. 31 – A Melancolia de uma Santa (Real)

  — Oh, céus… parece que falei um pouco demais. Rafina fez uma careta para…

1 dia ago