Um Último Hurrah! Os Heróis Grisalhos Exploram um Futuro Vívido

Um Último Hurrah! Os Heróis Grisalhos Exploram um Futuro Vívido – Vol. 01 – Cap. 03 – A Bruxa da Aniquilação

 

— Deus, esse meu marido beberrão… Parece que o álcool finalmente fritou o cérebro dele. Quando perguntei ao discípulo, ele disse que o mestre estava bem, mas mesmo assim me trouxe o testamento do velho.

No fundo de uma loja abarrotada de livros antigos, Lara – uma velha de pele morena e cheia de rugas, cabelo curto branco como neve, um olho vermelho e outro azul – resmungava irritada. Contudo, sem perceber, os cantos da boca formavam um sorriso. Ela já havia lido incontáveis vezes o testamento de Sazaki, escrito com uma ferramenta mágica um tanto peculiar. Não era apenas sobre herança ou como lidar com a espada amaldiçoada que ele carregava na cintura, continha memórias do primeiro encontro dos dois, da grande guerra que travaram juntos, do dia do casamento, do momento em que derrubaram o Rei Demônio Supremo e do nascimento do filho. Por fim, terminava com palavras de amor.

— Hmph. Que coisa… — Lara riu com desdém, mas o sorriso permanecia.

Sabia que Sazaki guardava quase tudo dentro de si, mas ver aquilo escrito fazia surgir um sentimento indizível no peito.

— Aliás, também recebi carta do Ferd e da Elrica.

Guardou a carta do marido e lembrou-se da que chegou semanas antes, enviada por um familiar dos velhos amigos. Era estranho que as duas tivessem chegado quase ao mesmo tempo.

— Uma última viagem, hein?

Ao recordar o conteúdo, os dedos se moveram sozinhos e ela lançou um feitiço.

— Isso me traz lembranças…

Uma fotografia surgiu do nada, tão perfeita que parecia ter congelado o passado. No centro, um Ferd jovem sorria como um moleque, com Elrica agarrada a ele. Num canto, Sazaki bebia direto da garrafa; ao lado dele, Lara de braços cruzados. Os outros companheiros também estavam lá. Aquela era o lendário grupo do Herói, o mais forte da humanidade… e também um bando de malucos, excêntricos e esquisitões. Por exemplo: havia um homem musculoso gigantesco usando apenas um pano fino enrolado na virilha, exibindo orgulhoso os músculos. Sim, tinham um narcisista exibicionista no grupo.

— Tudo bem, já que estão aqui, vou buscá-los.

Lara se considerava alguém que sempre foi arrastada pelos caprichos daquele bando de doidos. Olhou mais uma vez a foto, guardou-a num espaço à parte e saiu da loja para resolver o assunto: encontrar o marido e os amigos.

— Este lugar continua exatamente o mesmo. Não sei se sinto nostalgia ou vontade de que mudasse um pouco — disse Ferd.

— Concordo, querido — respondeu Elrica.

Ao entrarem em Malgad, a Cidade da Magia, o casal se sentiu aliviado ao ver que a paisagem era a mesma de sempre. No entanto, havia grupos suspeitos de gente encapuzada por todos os lados, longe de ser uma visão comum.

A cena trouxe memórias da juventude de Ferd.

— Pensando bem… quase fui enganado quando vim aqui pela primeira vez. Um golpista tentou me vender uma espada com lâmina invisível. Na verdade, era só o cabo — contou ele.

— Bwa ha ha ha ha! Essa é boa! Você teria comprado se eu não tivesse te parado! — Sazaki tirou a garrafa da boca e gargalhou, enquanto Ferd franzia a testa.

— Sim, aconteceu mesmo — Elrica lembrou com um sorriso sem graça.

— Afinal, estávamos na Cidade da Magia. Fiquei impressionado de ver algo assim à venda, mas o cara era péssimo. Só estava brincando com o coração puro de um caipira do interior.

O jovem Ferd – obviamente um caipira – quase caíra no golpe de um dos muitos vigaristas de Malgad. Foi assim que aprendeu o quão dura era aquela cidade.

— Não sei se dá para chamar aquilo de “os bons velhos tempos” — Elrica concordou, sorrindo sem jeito.

— Bom, muita coisa era bagunçada durante a grande guerra mesmo — Sazaki completou, com o mesmo sorriso.

Na época da guerra, havia gente de moral duvidosa em cada esquina e perigo por toda parte. Hoje havia muito mais regras; crimes e riscos tinham diminuído bastante.

— Logo vão proibir beber em público. Ah, não, não, não!

— Faria bem para você.

— Não ouvi nada, la la la…

— Hmm.

— La-laaaaa…

Sazaki brincava com Ferd, terminando a frase de forma boba, quando uma voz fraca chegou aos seus ouvidos e travou sua língua.

— La la? Parece que você bebeu tanto que até esqueceu meu nome.

Uma senhora de postura ereta surgiu do outro lado da multidão. Lara sorriu ao ver o marido beberrão olhando para o céu.

— Ô, Lara! Quanto tempo!

— Faz mesmo um tempão.

— Vocês dois estão animados como sempre, Ferd, Elrica.

As rugas de Ferd e Elrica se aprofundaram em sorrisos sinceros; estavam felizes de rever a velha amiga após tantos anos. Atrás deles, porém, Sazaki ainda encarava o céu, tentando esvaziar uma garrafa já vazia.

— Oooooh, faz tempo mesmo, dona Lara! — gaguejou Sazaki, piscando sem parar, sem saber o que fazer.

— De fato, Sr. Sazaki.

Que tipo de carta aquele Sazaki tinha enviado? Ferd trocou olhares com Elrica ao ver o normalmente sarcástico e despreocupado amigo tão atrapalhado.

Se Carl, o último discípulo de Sazaki, estivesse ali, teria enfiado uma garrafa na boca do mestre para trazê-lo de volta à realidade. O filho de Sazaki e Lara, que morava longe, já vira cenas assim muitas vezes, talvez os homens vivam mesmo de forma diferente longe de casa.

— Entrem na loja. Tenho álcool também.

— Oba! Agradeço de coração!

No instante em que Lara mencionou álcool, Sazaki voltou ao normal e se aproximou saltitante. Dançava exatamente conforme a música que ela tocava.

— Aceitamos o convite — disse Ferd.

— Com licença, Lara — completou Elrica.

— Entrem. Mas não tenho camas suficientes, então terão que ficar numa pousada. Eu, porém, fico com meu marido.

Enquanto Ferd, Elrica e Lara conversavam, os passos de Sazaki começaram a ficar tortos.

— Conforme a carta, nosso destino final é o continente vizinho — explicou Ferd.

— Precisamos ver a carinha do nosso bisneto, não é, querido? — acrescentou Elrica.

— Exato, meu amor.

Já dentro da loja, Ferd e Elrica resumiram os planos. Os dois sorriam de orelha a orelha, ansiosos para conhecer o bisneto.

— E eu vou junto. Hic. Essa bebida está boa — disse Sazaki.

— Entendi.

Ele sempre foi um companheiro estranho, mas leal. Lara ignorou o marido já animado com a bebida e deu de ombros; desde jovem, a amizade sempre foi o que mais motivava aquele homem.

— Nesse caso… sim, acho que vou com vocês também. Pelo menos ver os velhos companheiros uma última vez.

— Ooh! Que ótimo!

— Minha nossa…

Lara ficou nostálgica ao olhar a foto antiga e achou que seria bom rever os rostos de todos uma última vez. Ferd e Elrica a receberam com sorrisos diferentes dos que exibiam ao falar do bisneto.

— Certo, vamos escolher uma pousada e voltamos depois — disse Ferd.

— Tudo bem. A loja fica aberta — respondeu Lara.

Como a conversa seria longa – planos de viagem e tudo mais – Ferd e Elrica saíram para garantir um lugar onde dormir, deixando Sazaki para trás.

— Vou dizer só uma vez: seus ouvidos não estão estragados, né?

— N-não?

Depois que Ferd e Elrica saíram, Sazaki ficou petrificado, levando a garrafa à boca. As palavras de Lara o despertaram.

— Os meus também.

Nada do que ela murmurou fazia sentido. De repente, porém, Sazaki lembrou que os amigos tinham acabado de sair… e a última frase que escreveu naquela carta.

— A-ah… É… Sim.

Foi o máximo que conseguiu responder.

— Bom, vamos às compras. Precisamos de álcool para encher a carruagem.

Lara se levantou como se nada tivesse acontecido e saiu da loja.

— A-ah, sim…

Sazaki a seguiu, ainda gaguejando.

— Aí vem a Velha Bruxa!

— Heh heh heh, vou te ferver e comer!

— Aaaaah!

Assim que Lara pôs os pés na rua, uma criança gritou. Ela, que adorava entrar na brincadeira, fez uma cara assustadora e espantou o menino.

— Eu sou o velho bêbado deitado no chão. Você é a Velha Bruxa. Envelhecemos mesmo, hein — Sazaki já se recuperou e voltou a fazer piadas.

— Eu já fui chamada de Bruxa Bonita — retrucou Lara com um sorriso.

— E eu já fui o moleque bêbado.

Agora eram um casal de velhos enrugados, mas já tinham sido jovens. Os dois seguiram direto para a loja de bebidas.

— Ah, olá! Se não é a Velha Bruxa e o salvador da nossa loja! Faz tempo, hein? — cumprimentou o dono, um homem corpulento.

Lara assentiu.

— Hmm. Faz mesmo. Mas não sei se esse beberrão merece ser chamado de salvador.

— Do que você está falando, Lara? Bêbados são os deuses das lojas de bebida!

— Tanto faz. Parece que ultimamente esse “salvador” achou algo interessante em Lianard e não volta há um tempo — disse Lara.

— Pois é. A presença ou ausência dele afeta muito o nosso faturamento — respondeu o lojista.

— Eu ia dizer que não deveria fazer tanta diferença, já que ele só compra as baratas, mas…

— É diferente quando as baratas se empilham até virar uma montanha — completou o lojista.

— Bwa ha ha ha ha!

Sazaki não conseguiu responder à conversa boba da esposa com o lojista e apenas gargalhou ao lado deles.

— Por falar nisso, você não bebe? — perguntou o lojista a Lara, curioso, enquanto escolhia as bebidas de sempre.

— Só um pouco. Dá para imaginar o que acontece depois de setenta anos casada com esse aí, né?

Lara não era a única; todos os velhos companheiros mantinham distância do álcool por causa do vício constante de Sazaki.

— Verdade… Só de olhar para ele já parece que a gente bebeu o suficiente.

— Exatamente.

— Aqui está. O total dá… isso aqui. Voltem sempre.

— Na verdade, estamos de saída da cidade.

— Tão de repente? Qual é a ocasião?

— Nossa lua de mel — respondeu Lara com um sorriso digno da Bruxa, fazendo Sazaki engasgar ao lado dela. Depois saiu da loja. — Até mais.

— S-sim…

— Olha a Velha Bruxa e o velhote! Faz tempo que não vejo seu marido. Quer legumes?

Uma verdureira cumprimentou Lara enquanto ela caminhava pela cidade.

— Quero, sim.

Embora Lara quase nunca usasse magia na cidade, por causa dos olhos heterocromáticos misteriosos e do sorriso cínico constante era chamada de “Velha Bruxa” pelos moradores.

— Ouvi dizer que estão criando legumes resistentes a doenças. Isso também é trabalho de mago?

— Não faço ideia. Provavelmente envolve não só magos, mas alquimistas, boticários, excêntricos e todo tipo de gente.

— Entendi.

A verdureira conversava casualmente com Lara. Ela morava ali havia décadas e era surpreendentemente sociável; a maioria das pessoas não hesitava em puxar papo. Claro, poucos sabiam de seu verdadeiro poder.

Enquanto isso, Ferd e Elrica andavam pela cidade.

— Onde vamos passar a noite, querido?

— Boa pergunta, meu amor.

O casal de velhinhos caminhava devagar, olhando em volta com expressão preocupada. Como todo mundo na cidade – jovem ou velho – usava capuz e robe, todas as pousadas pareciam locais de negócios suspeitos; era difícil escolher.

Foi então que um homem enorme veio na direção deles. Era tão alto que um homem comum precisaria erguer a cabeça, pele verde, barriga saliente e pele flácida, parecia obeso, mas na verdade era pura massa muscular densa. Traço comum da raça chamada orc.

Ferd fixou o olhar na testa do orc – grande tanto na horizontal quanto na vertical – e vasculhou as lembranças até chegar a uma conclusão.

— Um membro do clã Chama Vortex está aqui? — murmurou sem querer.

Se a memória não falhava, as três linhas verticais vermelhas na testa eram o símbolo do belicoso clã Chama Vortex. A sede ficava bem ao sul, então era raro ver um deles por ali. Claramente era um viajante que vivia longe do clã, sem irmãos por perto.

— Conhece meu clã, senhor? — o orc soltou um som grave e gutural. Não era ameaça; a maioria dos orcs simplesmente tinha voz potente por natureza.

— Sim. Durante a grande guerra, participei da Batalha do Lago Vermelho. Lá lutei ao lado da Aliança Orc e conheci o clã Chama Vortex. A bravura do chefe Gugan ainda está gravada em minha memória.

— Sério? Pela idade, imaginei que fosse veterano da grande guerra, mas participar do Lago Vermelho…

Os olhos do orc demonstraram respeito ao ouvir a explicação de Ferd.

Os orcs eram uma espécie bélica que valorizava a honra e buscava lutar de forma que não envergonhasse os espíritos dos antepassados, pais, filhos e clã. O Lago Vermelho – nome literal – era um local sagrado onde obtinham matéria-prima para a tinta de guerra que aumentava suas capacidades físicas e servia de base estratégica. Por isso o exército demoníaco o atacou durante a guerra. Formou-se então uma aliança entre orcs do mundo todo reunidos para proteger o local sagrado, raças lutando pela sobrevivência e o grupo do Herói, para travar uma batalha mortal contra os demônios.

Como curiosidade: orcs viam humanos como espécie completamente diferente, então não havia atração sexual. Por isso não havia problemas entre homens e mulheres quando orcs se misturavam a grupos humanos; quem já sofreu com desentendimentos em grupos confiava nos orcs por sua força e senso de honra.

Em resumo, orcs eram considerados pessoas extremamente confiáveis neste mundo.

— E a senhora? — perguntou o orc.

— Eu também participei daquela batalha — respondeu Elrica.

— Posso parecer indelicado, mas posso apertar suas mãos?

Ao saber que Elrica também lutou no Lago Vermelho, o orc estendeu a mão.

— Claro, se não se importar com alguém como eu — disse Ferd.

— É claro — completou Elrica.

O orc apertou delicadamente as mãos enrugadas dos dois. Ele não participou da grande guerra, mas para os orcs, que prezavam a honra, aquela batalha em defesa do local sagrado era ensinada às gerações futuras. Ele cresceu ouvindo essas histórias e queria apertar a mão de quem lutou lá.

— Com licença.

Após os cumprimentos, o orc partiu como o guerreiro digno que era.

Já se passavam quase setenta anos do fim da grande guerra. Embora fossem várias gerações, não era tempo suficiente para que os que se lançaram na batalha desaparecessem completamente da memória. A profundidade das cicatrizes deixadas pela guerra tornava ainda mais impressionantes as façanhas do grupo que a encerrou.

— Estava lembrando dos velhos tempos? — perguntou Elrica.

— Hmm? Sim. Ouvir aquele nome trouxe lembranças antigas.

Ferd voltou a si depois de ficar perdido em pensamentos.

— Comigo também. Faz séculos que não ouvia falar do Lago Vermelho.

Exatos setenta anos. Era uma época em que a pele ainda era lisa, sem rugas, quando só corriam adiante na juventude. A primavera das suas vidas, lutando sem parar até vencerem. Mas como tudo era sangrento, poucas memórias serviam para recordar; raramente falavam do passado.

— Imagino que restem poucos orcs daquela época — disse Ferd com um toque de tristeza.

Embora não fosse próximo dos orcs, saber que a maioria dos companheiros já se foi o deixava solitário.

— Sim. Parece que a expectativa de vida dos orcs não difere tanto da humana.

— Tudo bem, este lugar parece bom.

Ferd afastou a melancolia e escolheu uma pousada. Como todas as outras, parecia suspeita, cheia de figuras encapuzadas entrando e saindo.

— Para mim está ótimo — respondeu Elrica.

— Com licença — disseram os dois ao entrar.

— Bem-vindos — respondeu um funcionário.

Ainda bem. O atendente não usa capuz e não parece quartel-general de culto. O casal se aliviou ao ver que o homem na recepção vestia roupas normais e o interior era comum.

— É a primeira vez na cidade, queridos hóspedes? Claro que nenhum estalajadeiro usaria capuz — disse o homem, que era o próprio dono. Homem comum de meia-idade, acostumado a hóspedes desconfiados, abriu os braços com um sorriso.

Ferd e Elrica só conseguiram rir sem graça.

— Por favor, escrevam os nomes aqui.

— Aqui está.

— Muito obrigado.

Embora colocassem os nomes verdadeiros, o estalajadeiro não deu muita bola. Os nomes eram comuns e setenta anos após a guerra era impossível ligar um casal de velhinhos frágeis a figuras lendárias. O Herói imaginado pelo povo pós-guerra era um homem musculoso, cabelo de leão, olhos de águia mesmo na velhice. O verdadeiro Herói era um velhinho pequeno, rosto enrugado e cantos dos olhos sempre sorridentes. Havia um abismo entre a imaginação popular e a realidade.

Evitar comida dura para eles. O estalajadeiro até se preocupou com os dentes do casal. A velhice era cruel, ninguém se preocupava quando eram jovens, mas agora todos presumiam fragilidade.

— Ha ha ha. Não sei como dizer, mas me sinto um pouco culpado por deixar as pessoas pensarem assim. Ainda estou muito saudável — disse Ferd com um sorriso sem graça ao entrar no quarto.

— Oho ho ho, eu também. — Elrica cobriu a boca e riu elegantemente.

Ferd percebeu não só a preocupação com os dentes, mas também a dos que os viam subir e descer da carruagem, perguntando-se se o casal idoso aguentaria.

— Quando jovem eu é que me preocupava com os outros, nem imaginava que um dia seriam os outros a se preocupar comigo — murmurou Elrica.

— Ha ha ha ha. Verdade, nunca imaginei essa realidade quando era jovem — Ferd concordou.

Normalmente, quando os filhos crescem, passam a se preocupar com os pais idosos, fazendo-os mais conscientes da saúde. Mas Ferd e Elrica não estavam debilitados, e o filho sabia que os pais eram sobre-humanos. Por isso não demonstrava preocupação desnecessária, ou levaria bronca.

— No entanto… — Elrica começou, mas parou.

— No entanto? — repetiu Ferd.

— Você continua o mesmo patife gentil de sempre, Ferd.

— E você continua a mesma moleca gentil, Elrica.

— Minha nossa, já estou velha demais para ser chamada de moleca.

— Então eu também me formei como patife.

— Oho ho ho ho ho.

— Ha ha ha ha ha.

Algumas coisas mudam com o tempo e a idade.

— Bom, vamos voltar para a casa da Lara?

— Vamos.

Mas outras nunca mudam.

— Chegamos — anunciaram ao voltar à livraria de Lara.

— Entrem.

Hmm?

Logo perceberam algo extremamente estranho.

Sazaki… pensou Ferd.

…não está com uma garrafa de bebida na mão, pensou Elrica, como se tivesse ouvido o marido.

Sazaki estava sentado lá no fundo, de mãos vazias, a coisa mais fora do comum que poderiam presenciar. Se os discípulos estivessem ali, ou se preparariam para o mestre partir deste mundo, ou enfiariam uma garrafa goela abaixo para trazê-lo de volta. Diziam que ele nunca largara a bebida nem uma vez durante a grande guerra, que nunca estava sóbrio, mas os membros do grupo do Herói sabiam que Sazaki largava a garrafa em certas condições.

A primeira: quando havia crianças pequenas em casa. Quando o filho era pequeno, Sazaki só bebia fora de casa, nunca dentro. A segunda: nas fases finais da guerra, quando lutava batalha atrás de batalha sem tempo para beber. A terceira… quando ficava envergonhado. Décadas atrás, logo após casar com Lara, Sazaki foi visto bebendo água em vez de álcool, o grupo esfregou os olhos para checar se não estavam sonhando.

Ou seja, só havia uma resposta possível.

— O que foi? — Sazaki notou os olhares carinhosos do casal enrugado e fez gesto para que parassem de olhar.

— Não falei nada. Né, querido? — respondeu Ferd.

— Exato, meu amor — completou Elrica.

— Encontramos um orc enquanto andávamos pela cidade. Ele disse ter uns trinta anos e ser do clã Chama Vortex — Ferd mudou de assunto para poupar o amigo envergonhado.

— Ah, ele. É raro ver um desses por aqui, então lembro. Veio à Cidade da Magia para ampliar os conhecimentos ou algo assim — respondeu Lara.

— Oh! Clã Chama Vortex! Depois da Batalha do Lago Vermelho, os orcs dividiram um licor local comigo. Era delicioso! — Sazaki voltou instantaneamente ao seu modo beberrão ao lembrar.

Elrica também pensava no passado, mas lembrava do chefe da época, não da bebida.

— Não perguntei porque achei indelicado no primeiro encontro, mas você sabe como o chefe Gugan morreu depois da guerra? — perguntou ela.

— A base do clã fica muito longe… Mas se o chefe tivesse sido assassinado, eu teria ouvido. Sabe de algo, Lara? — disse Sazaki.

— Só ouvi por alto, mas parece que morreu tranquilamente, cercado pela família — respondeu Lara.

— Sério? Se bem me lembro, ele dizia que sua morte ideal seria ser engolido por um dragão e ter o coração arrancado.

O chefe do clã Chama Vortex na época da guerra, que tivera pequena ligação com o grupo do Herói, já era bastante idoso e falecera havia tempos, infelizmente sem realizar o desejo.

— Acho que o chefe não era grande coisa com bebida — contou Sazaki a Ferd.

— O quê? Aquele grande guerreiro?

— Pois é. Uma vez o convidei para beber e ele ficou estranhamente nervoso.

— Bom, Elrica, nada de bom sai deixando os homens na cozinha. Venha me ajudar — disse Lara.

— Claro.

— Só cuidado com o açúcar e o sal.

— Deus, até você, Lara? Para de lembrar algo de setenta anos atrás.

Enquanto os homens conversavam animados, Lara e Elrica se levantaram e foram para a cozinha.

— Não, eu também ajudo, Lara — ofereceu-se Ferd.

Lara o impediu de levantar.

— Nossa cozinha é pequena demais pra três pessoas. Chamo se precisar de faca.

— Aí é serviço para o Sr. Sazaki, a lâmina culinária do grupo — brincou Sazaki, embora fosse verdade.

Sempre que o grupo do Herói precisava cozinhar em viagem, era Sazaki quem pegava a faca.

Curiosidade: como Ferd e Sazaki nasceram na pobreza, comiam quase qualquer coisa, desde que não estivesse completamente podre, estava bom. A única exceção era trocar açúcar por sal. Já Elrica e Lara, quando jovens, viam sabor como secundário ou terciário; só importava nutrição ou rapidez. Ou seja, a maioria do antigo grupo do Herói não era exigente com comida nem grande cozinha. (Havia, porém, um comilão obcecado por físico.)

Elrica e Lara foram para a cozinha; Ferd continuou a conversa com Sazaki.

— Parece que você ainda bebe qualquer coisa.

— Claro. Se tem álcool, é bebida; todas são iguais. Ah, exceto aquelas que algum alquimista amador faz por capricho. Isso é sacrilégio contra todos os mestres cervejeiros.

Sazaki aceitava qualquer álcool, apreciador do barato e do caro. Para ele, cervejeiros estavam acima de reis e deuses.

— Olha só isso!

Falando em hierarquia, Elrica encontrou algo curioso a caminho da cozinha, várias marcas riscadas numa coluna, as mais novas mais altas.

— Hmm? Ah, é a altura do nosso filho — explicou Lara.

— Oho ho ho ho. Nós também temos uma dessas.

— Toda casa tem, né?

— Oho ho ho ho.

Marcas que registravam a altura do filho de Sazaki e Lara, havia similares na casa de Ferd e Elrica.

Conversa banal, impensável vinda de quem salvou o mundo. Mas nasceram numa era em que conversar com amigos já era precioso, e a paz atual só existia porque lutaram por ela.

Lara e Elrica continuaram conversando enquanto preparavam o jantar.

— Vocês vieram de carruagem-golem? Boa escolha. A pé demoraria sabe-se lá quanto tempo — disse Lara.

— Seus aprendizes que fizeram esses golens?

— Não, eles viajam o mundo inteiro, então parece que ajudaram indiretamente na distribuição e fabricação, mas não no projeto. Desde que se esforcem enquanto são jovens, não reclamo.

O assunto foi para as carruagens-golem fabricadas na Cidade da Magia. Elrica pensou que talvez os aprendizes de Lara fossem os criadores, mas assim que se tornavam independentes, eles saíam pelo mundo e se envolviam em vários projetos, sem tempo para ficar parados projetando algo.

— De qualquer forma, parece que você parou de usar magia para cozinhar.

— Fica sem graça ficar só pensando em eficiência como quando era jovem.

Ver Lara cozinhando com faca de verdade era novidade para Elrica. Setenta anos atrás, ela fazia utensílios flutuarem para ganhar tempo. Mas as sensibilidades mudam com a idade, até para uma maga do nível Hadal como Lara. Ela não explicava, mas começou a cozinhar manualmente porque achava distante demais usar apenas utensílios flutuantes para cozinhar para Sazaki e o filho.

— Aliás, quem dizia que comida era só para nutrir agora cozinha direitinho — retrucou Lara.

— Meu Deus, eu era apenas um pouco ignorante sobre o mundo.

Elrica, que apontou a mudança de Lara, também mudou. Embora fossem guerreiras sobre-humanas, ter filhos altera a sensibilidade.

Depois de pronto o jantar, Ferd, Elrica, Sazaki e Lara sentaram-se à mesa. Mesmo sendo ex-salvadores do mundo, nada de especial, peixe de água doce conservado por magia, pão comum, legumes e sopa. Nada de carnes nobres ou vinhos finos.

— Quanto tempo faz que nós quatro jantamos juntos? — perguntou Ferd.

— Acho que foi na primeira reunião depois da guerra, quando seu filho nasceu — respondeu Sazaki.

Ferd molhava pedaços de pão na sopa e comia devagar; Sazaki devorava o peixe com capricho.

— Parece que foi ontem que seu filho malandro partiu para o continente vizinho, mas já tem filho e até neto. Ou seja, Elrica e Ferd são bisavós — disse Lara.

— Oho ho ho ho ho. Virei bisavó sem nem perceber — completou Elrica.

Lara sorria comendo salada; Elrica ria elegantemente com o copo d’água na mão. Como Lara disse, o filho de Ferd e Elrica era um grande malandro. Jovem, declarou que ia numa aventura e partiu para o continente vizinho – quase sem contato – onde fez um nome.

— O fruto não cai longe da árvore — Sazaki sorriu lembrando do jovem tolo que jurou acabar com a era das trevas e do garoto parecido que nasceu depois e correu para a aventura.

— Olha quem fala — retrucou Ferd, afirmando que não era só seu filho que puxou aos pais.

— Bwa ha ha ha ha!

— Hmph. Só um novato — Lara riu com desdém.

O filho de Sazaki e Lara era um guerreiro proeminente, habilidoso tanto com espada quanto magia, talvez herança dos genes dos pais. Normalmente alguém dedica a vida inteira a uma das duas; ter ambas em alto nível era raro.

Parecia uma verdade inevitável do mundo que conversas de idosos sempre acabassem nos filhos. Até heróis que salvaram o mundo não escapavam, embora fosse insuportável para os filhos citados.

— Ah, lembrei. Mexi um pouco na carruagem-golem que meu aprendiz me mandou, vai facilitar bastante a viagem — Lara lembrou da carruagem melhorada e sugeriu usá-la.

— Ooh! Aceitamos agradecidos — Ferd se animou.

— Quando você diz que “mexeu um pouco”… não vai nos levar voando direto para o continente vizinho, né? — Sazaki, porém, ficou preocupado; conhecia bem a esposa.

— Só ajustei a suspensão e alguns detalhes porque estava entediada.

Lara percebeu o motivo da preocupação e explicou com naturalidade.

— Então, quem vamos ver agora? — perguntou ela a Ferd.

— Stein — respondeu.

— Ah… entendi.

Lara olhou para o teto com expressão indizível. Ficou claro que havia algo seriamente errado com esse tal de Stein. Todos do grupo do Herói eram problemáticos, mas a existência inteira de Stein parecia defeituosa.

— Bom, vamos nos despedir de todo mundo e nos preparar. Tomara que dê tudo certo. — Lara se recompôs, terminando com um comentário nada animador.

No dia seguinte, houve tumulto.

Aldrick, que deveria estar a caminho do Conselho de Magia, se viu num cânion rochoso, situação completamente anormal.

— Vamos.

Aldrick virou-se para os cinco subordinados com olhar afiado, expressão que nunca usava na cidade.

Os cinco eram peculiares: cabeças totalmente cobertas por capuzes, rostos escondidos atrás de máscaras geométricas ou de animais. Eram uma força-tarefa do Conselho de Magia, responsável por manter a ordem mágica mundial. Agora comandados pelo conselheiro Aldrick, que mudou repentinamente os planos para acompanhá-los. O grupo foi enviado às pressas após descobrirem a localização de hereges procurados. Exceto Aldrick, todos eram magos de elite do nível Progressivo.

Usando magia para se fortalecerem, atravessaram o cânion em velocidade incrível.

Tomara que não vire bagunça. Aldrick era um mago mestre acompanhado por cinco elites; poucas situações escapavam ao controle deles. Ainda assim, desejava que não virasse bagunça. Infelizmente, seu desejo não seria atendido.

Como diabos chegou a isso?!

Aldrick praguejou mentalmente ao avistar o que parecia um altar no fim do cânion.

O altar ensanguentado não era o problema. O problema eram as cinco criaturas ao redor, mistura de formiga e humano, rosto e corpo metade homem, metade inseto. Homens-formiga. Rostos deformados pertenciam sem dúvida aos hereges perseguidos; ou seja, eram humanos.

— Gyaaaaah!

Ao notarem Aldrick se aproximando rápido, os homens-formiga emitiram ruídos cacofônicos para intimidar. Depois, os dedos finos brilharam e chamas surgiram.

Ataque mágico?! Ainda mantêm as habilidades originais?!

Aldrick reconheceu que eram ex-humanos, mas não esperava que criaturas sem razão aparente fizessem os dedos brilharem e usassem magia ofensiva.

Contudo, apenas três dedos brilhavam. As chamas eram fortes o bastante para carbonizar uma pessoa comum, totalmente inadequadas contra o grande mago conhecido como Incinerador. Todos os dedos da mão direita de Aldrick brilharam, padrões complexos surgiram no ar; o apelido era literal.

— Chamas, venham!

Suas chamas incineraram homens-formiga, magia e tudo. Um pequeno sol vermelho explodiu no cânion deserto. Magos do nível Abissal estão no ápice realista da magia, exceto a exceção das exceções, o chamado Hadal. Poucos resistiam a magia de fogo com intenção letal de alguém como Aldrick. Pelo menos os homens-formiga não estavam entre eles.

Criaturas e magia ficaram presas dentro de esferas de fogo quase perfeitas – impossíveis na natureza – e foram completamente incineradas, sem tempo nem para um último grito. Sobrou nada.

Aldrick, o Incinerador, mestre do fogo, membro do Conselho de Magia e o mais próximo do nível Hadal. Embora mascarados, os subordinados o olhavam com respeito. Com ele ali, até elites como eles eram apenas seguranças e ajudantes.

— Tsk! — Ao ver um tomo preso por correntes vermelhas no altar, Aldrick franziu a testa e estalou a língua.

“Li sobre isso em documentos. É um tomo mágico feito durante a grande guerra com um demônio de classe estratégica selado dentro.”

Sua expressão era sombria; sabia exatamente o que era. Havia 50% de chance de resolverem tranquilamente.

— O que fazemos? Parece instável, mover pode ser perigoso — disse um subordinado.

— Um segundo…

Aldrick e os subordinados pensavam o mesmo. O tomo, usado em algum ritual, estava instável; mover sem cuidado podia ser fatal.

— Depois de reportar ao Conselho por magia, vou pedir ajuda à minha mestra que está perto.

Decidiu chamar quem poderia destruir o tomo de qualquer jeito; os subordinados ficaram tensos.

— Desculpe a ligação repentina, mestra. É Aldrick.

Usou um feitiço que só poucos magos mestres conseguiam, transmissão de mensagens a grandes distâncias. Esperou resposta.

— O que foi?

A voz direta era de Lara.

Talvez casais se pareçam, porque assim como Sazaki tinha vários discípulos, Lara também tinha muitos. Aldrick era um dos melhores.

— Você saiu para o Conselho de Magia, então se me liga logo depois é porque é algo ruim, certo?

Lara sabia que Aldrick participou recentemente de uma reunião mundial de altos magos. Ligação logo depois só podia ser problema.

— Sim. Encontramos um tomo mágico, acredito ser obra de Grace, a Funesta. Um demônio de classe estratégica provavelmente está selado dentro, mas hereges mexeram nele e está instável.

— Trabalho daquela idiota, hein?

Lara franziu a testa ao ouvir um nome que não escutava há tempos.

Grace, a Funesta, tinha a mesma idade de Lara. Famosa técnica mágica durante a guerra, mas com vícios terríveis, priorizava poder e destruição, ignorando controle e segurança. Suas criações eram úteis se usadas corretamente, mas erradas levavam à catástrofe. Este tomo era assim, um demônio tão forte quanto um mago Abissal foi selado para servir de arma estratégica, mas demônios desejam destruir a humanidade. Obviamente não era controlável, então foi selado. Aldrick estava muito preocupado com algo tão perigoso.

— Mas você disse que hereges mexeram?

— Sim. Grupo procurado pelo Conselho. Analisei a magia no altar, tentavam extrair poder do demônio selado. Falharam no controle, viraram monstros homem-formiga e eu os eliminei.

— Como sempre, adoradores de deuses malignos não pensam no futuro — Lara disse com sorriso sarcástico.

E estava certa. Quem cultuava deuses malignos era tão encantado pelo poder destrutivo que não pensava a longo prazo. Só viam o imediato, às vezes cometendo atos terrivelmente violentos.

— Tudo bem, não tem jeito. Se é presente de despedida da Grace, cabe a mim, ex-colega dela, resolver. Vou voar até aí, diga a localização. Ah, meus companheiros são pesados demais para eu carregar, então irei sozinha.

Embora parecesse um saco, Lara declarou que destruiria a relíquia ela mesma.

— Obrigado.

Após encerrar a conversa, Aldrick virou-se aos subordinados.

— Ela está vindo.

— Ooh…

Os cinco se agitaram.

Lara ocupava vários cargos públicos – algo raro para um membro do grupo do Herói – incluindo assento permanente no Conselho de Magia. Por isso a força-tarefa sabia que ela era mestra de Aldrick e se animaram com a chegada de uma lenda.

— Ela disse que vem voando, então chega antes dos reforços do Conselho.

— Voo mágico?!

Os subordinados tremeram.

Flutuar um pouco era uma coisa; voar pelo céu era extremamente difícil de controlar. Nem Aldrick conseguia voar até a cidade vizinha. Era uma magia que a imensa maioria dos humanos não dominava. Havia várias teorias, uns diziam que os deuses limitavam o voo para mortais não invadirem seu domínio; outros achavam que simplesmente consumia mana demais e era difícil de controlar.

— Também reportei ao Reino Rin. Como não podemos mover o tomo, só rezar para o selo aguentar até minha mestra ou os reforços chegarem.

A aliada mais confiável vinha voando.

Mas Aldrick e os outros temiam que o conteúdo do tomo – contido por vários selos mágicos – rompesse antes dela chegar.

Infelizmente, quando pode dar errado, geralmente dá.

— Parece que vai romper. Um mago Hadal ou minha mestra poderiam destruir o tomo de vez, mas…

Pouco depois, o conteúdo rompeu todos os selos diante dos olhos de Aldrick.

— Observamos por enquanto e agimos caso se dirija a áreas habitadas.

Aldrick se preparou para o pior, se afastou do tomo e esperou o momento.

O som de algo se quebrando ecoou. O tomo explodiu em pedaços.

— Gyaaaaah!

E então apareceu. Com um grito que rasgava os tímpanos, uma formiga negra do tamanho de uma montanha surgiu. Suas mandíbulas podiam rasgar a própria terra; uma simples investida com o corpo gigantesco podia aniquilar exércitos e derrubar fortalezas.

— Gyaaah!

— Não vai ficar parado. Estamos longe de áreas povoadas, mas será perigoso se continuar se movendo. Vou chamar a atenção.

Aldrick sentiu a crise iminente pelos movimentos irregulares da formiga gigante e decidiu contê-la.

— Sim, senhor!

— Chamas! Venham!

Aldrick colocou toda força nas palavras; todos os dedos da mão direita ficaram vermelho-incandescentes e ele invocou chamas do inferno. Suas chamas não eram grandes – cobriam apenas uma pessoa – mas ignoravam leis da física e derretiam até pedras sem irradiar calor ao redor.

— Gyah?!

Embora pouco inteligente, a formiga sentiu o perigo e endureceu ainda mais o exoesqueleto. As chamas a acertaram em cheio, mas sobreviveu com quase nenhum dano.

— Vai demorar…

— Gyaaaaah!

Aldrick observou calmamente a formiga gigante ainda cheia de vigor e gritando de raiva, mesmo após ataque mágico de um mago Abissal.

Resistente ao calor… ou o exoesqueleto é forte demais? Próximo ataque será com pura massa.

Moveu os dedos ainda brilhantes; quando a formiga se aproximou, juntou todos os rochedos ao redor numa massa gigante e criou mais com magia.

— Raaah!

Lançou a massa – do tamanho da cabeça da formiga-montanha – para testar resistência a impacto físico.

— Gyaaaaah!

Mesmo assim, só gritos de fúria, nenhum estertor.

Mesmo na era de campeões, aquele demônio seria classificado como arma estratégica. Sem habilidades especiais, era um monstro direto, corpo colossal e exoesqueleto anormalmente duro.

— Essa formiga é barulhenta.

— Mestra?!

Ou seja… era apenas uma formiguinha para Lara, que chegou em velocidade espantosa. Demônio de classe estratégica? As criaturas que Lara, Sazaki, Elrica e Ferd enfrentaram não eram tão insignificantes. Lutaram diretamente contra quem quase destruiu o mundo… e venceram.

— Desapareça.

Lara, a Bruxa, ativou sua magia.

Seus dedos brilharam, rank que deveria ser inatingível, um anel para nível Costeiro, dois para Superfície, três para Mediano, quatro para Progressivo, cinco para Abissal, e um sexto no dedo oposto, reservado às lendas vivas: nível Hadal.

Mas até isso era brincadeira de criança aqui. Diziam que Hadal era uma lenda alcançada por poucos na história. Seria isso suficiente contra a escuridão que quebrou a própria ordem natural? Então seriam necessários sete dedos brilhando? Oito? Não.

A formiga viu. Viu tudo, nas duas mãos de Lara, todos os dez dedos brilhavam. Não era Hadal nem além; era algo inclassificável. Se tivesse nome, seria mais fundo que o fundo do oceano: o Nível Abissal Profundo.

Lara, a maior maga da história, flexionou os dedos. Com esse simples movimento, dez anéis brilhantes se sobrepuseram acima da cabeça da formiga, formando um padrão complexo e misterioso no ar, com o centro apontado para o alvo. Por fim, um pilar de luz se ergueu.

Todo som desapareceu.

Toda vibração desapareceu.

A existência da formiga foi completamente apagada.

— Hmph.

Resultado de mergulhar continuamente no abismo da magia. Era o maior poder de fogo do grupo do Herói; o Rei Demônio Supremo, que quebrou a ordem natural e mergulhou o mundo nas trevas, simplesmente a chamou de “anomalia”. Essa era Lara, a Bruxa da Aniquilação.

Vários dias depois, Aldrick visitou a livraria de Lara – de capuz, claro – para devolver algo que a mestra lhe confiou.

Essa carruagem-golem não vai explodir, né, mestra?

Nervoso, afastou-se da carruagem que Lara lhe entregara. Parecia comum, nada perigoso à primeira vista. Mas quem alcançou o abismo da magia às vezes tinha senso comum questionável. Como discípulo, Aldrick sabia bem e reagia conforme.

Apesar da idade avançada, certas coisas nunca mudam.

— Obrigada — disse Lara ao sair da loja.

— Não há de quê — respondeu Aldrick com as costas retas.

Ele sempre era ele mesmo até diante de magos famosos ou do presidente do Conselho, mas aquela velha enrugada era exceção.

— Parece que desistiu de trazer papel chique para autógrafo.

— P-perdão?

— Heh heh. Posso dar o meu se quiser.

— Ha ha ha ha ha. Não faço ideia do que está falando.

Esse era o grande mago e sábio Aldrick. Mesmo quando Lara tocou no assunto do papel de autógrafo, não demonstrou reação. Pelo menos na superfície.

Ela descobriu que eu estava sofrendo com isso…

Aldrick, o grande sábio, também era fã do Herói. Na verdade, passou a noite inteira angustiado se deveria levar papel para autógrafos, mas desistiu chorando.

— Só por curiosidade… sim, pura curiosidade… alguém mais tem seu autógrafo?

— Quem sabe? Você pode ser o primeiro.

Não, o desejo de correr pegar papel talvez estivesse mais forte agora. Os pés de Aldrick até se moviam para trás.

— E os hereges? — Lara voltou ao assunto sério.

— O objetivo era claro, superar limites humanos, mas não identificamos como conseguiram o tomo. Também investigamos uma possível ligação com o portador da espada profana que o mestre Sazaki derrotou — respondeu Aldrick com expressão séria.

Ao analisar o tomo agora destruído, confirmaram que cinco pessoas tentaram extrair poder do demônio. A origem do livro ainda era desconhecida, mas Lara tinha uma hipótese.

— Duvido muito, mas talvez aquela grande idiota da Grace, que eu achava que estava morta, ainda esteja viva…

— Isso seria impossível…

— Bom, tudo se resolverá. É o destino de todos, inclusive o meu.

— Entendo…

Aldrick não negou as palavras leves de Lara. Quem conhecesse o grupo do Herói concordaria que eram o núcleo do destino. Mesmo sem fazer nada, eles se metiam em confusão e resolviam tudo antes que você percebesse, era quase o destino. Mais ainda quando envolvia o Herói, que não era apenas próximo do destino, mas seu próprio princípio.

— Olha, é a carruagem-golem que a Lara mencionou. Parece igual às outras. Igual mesmo…

— É mesmo, querido.

Ao reconhecer as vozes atrás de si, Aldrick endireitou o corpo e deixou os braços rígidos ao lado do corpo; Lara sorriu olhando o discípulo.

— Você é o aprendiz que a Lara mencionou que cuidou das coisas dela uma vez… uns sessenta ou cinquenta anos atrás? Já esteve na nossa casa?

— S-sim. Nos encontramos uma vez, quando a mestra me levou junto…

— Oho, minha nossa. Então me permita apresentar novamente. Eu sou Ferd.

— E eu sou Elrica.

— M-meu nome é Aldrick.

Ferd lembrou do aprendiz de Lara – um garoto que o olhou com olhos brilhantes – e, percebendo que conhecia o velho à sua frente, apresentou-se de novo. Enquanto isso, se houvesse um medidor das emoções de Aldrick, já teria explodido o limite.

— Além do Al, também ouvi Ferd e Elrica. Ei, Al, quanto tempo. Desculpa o trabalho.

— Faz tempo mesmo. Asseguro que não foi trabalho algum.

Aah, cara, minha nossa!

Quando Sazaki saiu por último da livraria, as emoções de Aldrick explodiram. Mesmo assim respondeu corretamente, habilidade necessária para um mago que desafiava os abismos da sanidade.

— Bom, digo de novo: não sei quando volto, mas se acontecer algo que não consiga resolver, posso ao menos aconselhar. Me contate por magia — disse Lara a Aldrick.

— Entendido. Desejo bom tempo em sua viagem.

— Hmph, até que você entende.

Dizem que casais se parecem, mas talvez discípulos também. Aldrick desejou boa viagem à mestra com palavras parecidas às que o discípulo de Sazaki, Clovis, usou.

— Então é hora. Não explode, podem subir.

— Aceitamos a gentil oferta.

Lara apressou; os velhos membros do grupo do Herói subiram na carruagem.

Era exatamente a mesma cena dos velhos tempos.

— Cuide-se.

A cidade tinha ruas largas por causa do transporte de remédios e ferramentas mágicas; a carruagem avançava confortavelmente.

Boo-hoo… devia ter criado coragem e trazido o papel para autógrafo…

Aldrick não teve coragem de pedir autógrafo aos grandes guerreiros; apenas se despediu dos veteranos, pensamentos infantis apesar dos setenta e tantos anos.

Enquanto isso, os veteranos estavam bem leves.

— A carruagem balança bem menos — comentou Ferd.

— Claro. Estava cansada de doer a bunda, então consertei — respondeu Lara.

— Entendi. A mulher que flutuava dentro da carruagem realmente resolve as coisas de forma extrema.

Ele lembrou quando Lara reclamava que a bunda doía e simplesmente flutuava em vez de sentar.

— Bwa ha ha ha ha!

— Quase achei que flutuar dentro da carruagem era o normal — confessou Elrica, quase achando que era senso comum na época.

— Do que você está rindo se ficava chorando quando uma garrafa rolava e quebrava com o balanço?

— Essa é uma melhoria maravilhosa. Sem dúvida. Acredito que entrará para a história.

Lara ganhou o respeito do marido risonho após lembrá-lo da dureza das viagens antigas. Viajar de carruagem também era um teste para o grupo do Herói.

— Enfim, o que o Stein deve estar fazendo? Bem, provavelmente o mesmo de sempre.

— Concordo.

Ferd e Elrica ignoraram o casal brincando e pensaram no companheiro que iam buscar: um músculo-cérebro chamado Stein que uma vez jurou que, se ele e o cavalo puxassem a carruagem juntos, ela iria três vezes mais rápido.

◆◆◆

Aldrick, o Incinerador.

As chamas dançam, dançam e dançam novamente. Até dragões as temem e tremem.

A Batalha do Lago Vermelho.

O Rei Demônio Supremo menosprezou os orcs. Quando orcs de clãs pouco conectados se uniram para proteger o local sagrado, causaram destruição além de qualquer expectativa.

Lara, a Bruxa da Aniquilação.

Por permanecer sã mesmo após alcançar a inimaginável Nível Abissal Profundo, Lara provou que humanos apenas acreditam que estão sãos.

 


 

Tradução: Rlc

Revisão: Pride

 

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