Um Último Hurra! Os Heróis Grisalhos Exploram um Futuro Vívido

Um Último Hurra! Os Heróis Grisalhos Exploram um Futuro Vívido – Vol. 01 – Cap. 02 – O Mestre da Lâmina Veloz

 

Havia muitos que eram classificados como mestres das artes marciais. Aqueles que sobreviveram à grande guerra afiaram novamente suas habilidades marciais para poder sobreviver caso uma batalha semelhante acontecesse outra vez. Mas, naturalmente, até mesmo os mestres relutavam em se dedicar completamente a proteger os outros sem se importar com a própria vida ou ao abate implacável em busca da perfeição da arte.

Portanto, podia-se dizer que eram duas pessoas contrastantes: no modo de vida, no tipo de esgrima que almejavam e nos mestres que tiveram. Pelo menos se olhássemos apenas a superfície.

— Aí está você, Michael!

Pouco antes de Ferd e Elrica começarem a viagem, um tumulto acontecia num país vizinho. Dentro de uma floresta, no instante em que mais de dez cavaleiros avistaram um homem magro de uns quarenta anos, sacaram as espadas, gritaram seu nome e avançaram com olhares assassinos.

— Tsc.

O homem, Michael, estalou a língua diante do problema que se aproximava e puxou a própria espada. Agora que a lâmina estava à mostra, era cristalino que uma luta até a morte estava prestes a começar. Dez contra um, o resultado já parecia óbvio… ou deveria parecer.

— Morra!

Os olhos dos cavaleiros ardiam com intenção assassina. Michael não só fora pego em flagrante cometendo vários assassinatos, como matara alguns colegas daqueles cavaleiros; ninguém questionaria se sua pena de morte era merecida, e os cavaleiros não tinham escolha senão capturá-lo.

No entanto, o fato de não terem analisado a espada profana de Michael seria fatal.

— Seus Zé-ninguém…

Michael zombou.

Quando a espada completamente negra de Michael surgiu à vista, os cavaleiros ouviram um ruído irritante, como o zumbido de um inseto alado. Mesmo estando no meio do combate, começaram a vomitar suco gástrico e sentir um desconforto físico inimaginável.

— Agora morram.

Michael desceu sua espada negra sobre um deles, e uma névoa escura e sinistra começou a se espalhar a partir da lâmina.

O cavaleiro conseguiu erguer o escudo a tempo de bloquear o ataque, mas a luz se apagou de seus olhos ao presenciar a cena inacreditável. Ele mal conseguira preparar o escudo, e ainda assim Michael o cortou junto da armadura e corpo como se fossem papel.

— Urgh!

— Aaaaaah!

Os outros cavaleiros tentaram desesperadamente virar a situação, mas foi em vão.

Estavam ocupados demais sendo assolados por fadiga tremenda, náusea e calafrios para conseguirem usar toda a força. Era como se tivessem adoecido gravemente de repente. Um após o outro, caíram diante da espada de Michael.

— Hmph.

Michael bufou, após eliminar o último cavaleiro em questão de segundos. Era, sem dúvida, um homem poderoso, mas essa tragédia também fora possível graças ao poder de sua espada profana, que nem sequer possuía inscrição.

Intenção assassina e sede de sangue são sentimentos estressantes para criaturas vivas. Aquela espada aumentava o fio em reação à intenção assassina do inimigo, mas também possuía a habilidade oculta de amplificar essa intenção e devolvê-la à origem. Essa energia assassina amplificada era forte o suficiente para causar dano real, e os cavaleiros praticamente se autodestruíram por causa dela. Podia parecer um truque simples, mas como era impossível não direcionar sede de sangue à pessoa que queria matar, os cavaleiros nunca tiveram chance.

— Muito bem feito.

Um homem que se escondeu nas árvores e assistiu ao massacre parabenizou Michael. Tinha uns vinte e poucos anos – cerca de metade da idade dele – com cabelos dourados luminosos que balançavam.

— Seu elogio me honra.

Michael curvou-se profundamente para o jovem.

— Nós dois exageramos um pouco. Não era pra fazer tanto barulho a ponto de sermos perseguidos, mas… bem, o que está feito, está feito — murmurou o jovem.

— Exato… — respondeu Michael com uma expressão indizível.

Havia uma clara diferença de poder na conversa, o que era natural; o jovem aparentemente era o mestre de Michael e tinha mais de oitenta anos, mas usara a técnica proibida de Devoração de Alma para rejuvenescer. Isso significava que sua verdadeira força também era…

— Lá! Eu os encontrei!

— Eles não param de vir…

Mais uns dez cavaleiros notaram algo estranho e se aproximavam, mas não representavam ameaça para o jovem.

— Venham, deixem a morte encantá-los.

O jovem desembainhou e ergueu uma espada ainda mais negra que a de Michael.

Foi tudo o que precisou. Os cavaleiros voltaram a própria sede de sangue contra si mesmos e cravaram as espadas na própria garganta. Era uma técnica possível apenas porque o jovem dominava tanto a espada profana quanto a magia das trevas, e praticamente invencível.

— Agora, vamos para o reino de Rin?

— Sim, mestre.

Os dois usuários de magia das trevas avançaram para alcançar seu objetivo final, embora fosse uma meta tola e infantil. Seguiam para a casa daqueles que poderiam ser chamados de seus “opostos polares”.

Enquanto isso, na capital do reino de Rin, o país onde Ferd e os outros estavam…

Embora fosse uma nação poderosa, quase foi destruída durante a grande guerra. Por isso, o reino valorizava tanto as artes marciais quanto as literárias, e dava importância à capacidade independentemente de status social ou origem, utilizando todo tipo de talento, o que resultou numa recuperação milagrosa. Por isso seus cavaleiros treinavam dia e noite. Os cavaleiros da capital, em especial, eram a elite das elites, versados em esgrima, lança, montaria e combate corpo a corpo, mas também em magia e farmacologia.

Um desses cavaleiros segurava a espada acima da cabeça enquanto os colegas observavam atentamente. Desde a grande guerra, demônios com poder de combate superior ao humano – também chamados monstros – eram o maior inimigo potencial dos cavaleiros. Por isso muitos adotavam a postura de espada alta para enfatizar o poder de um único golpe.

O cavaleiro enfrentava um homem de sessenta e poucos anos. Embora os cabelos estivessem visivelmente brancos e o rosto enrugado, era musculoso e parecia um veterano. Esse homem era Clovis, mundialmente famoso como fundador da Escola Clovis, e portanto era a pessoa perfeita para ser convidada pelo poderoso reino de Rin como instrutor de esgrima.

Nenhuma brecha! O suor escorria da testa do cavaleiro. Para um observador comum, Clovis apenas apontava a lâmina para o chão sem assumir postura específica. Mas um olhar treinado perceberia a distância criada pelo veterano com aquele gesto aparentemente inofensivo. Um único passo à frente seria o fim.

O que é isso?! pensou um cavaleiro.

O que está acontecendo?! pensou outro.

A pressão dele sumiu?! pensou um terceiro.

Não só Clovis estava dentro do alcance da morte certa, como a pressão psicológica que exercia desapareceu de repente, deixando os cavaleiros perplexos.

Não sinto ameaça alguma! Por que um homem tão poderoso faz isso?! Que tipo de estratégia é essa?! O cavaleiro que enfrentava Clovis ficou especialmente confuso, a mente em completo caos.

Mas então Clovis exalou uma aura explosiva, fazendo o cavaleiro se colocar instintivamente em guarda. Foi apenas um reflexo ao sentir ameaça, criando um instante de descompasso entre corpo e mente, mas esse instante bastou para Clovis. Ele se moveu de forma relaxada, o oposto completo da aura ardente que emitia, deixando o cavaleiro novamente desconcertado, e se aproximou como se entrasse na brecha da consciência do oponente.

— Rah!

O grito do cavaleiro veio cheio de força enquanto descia a espada de madeira para interceptar o ataque, mas uma espada só acerta de verdade quando mente, técnica e corpo são um só. Força pela metade não serve de nada, e sua espada de madeira cortou apenas o ar. Em vez disso, a espada de Clovis repousou bem na base do pescoço do cavaleiro.

— Eu… admito a derrota…

O suor escorria de todos os poros do cavaleiro; se fosse uma espada de verdade, sua carótida teria sido cortada.

— A demonstração acabou. Apenas emitir sua aura assim já pode se tornar uma arma poderosa. Não preciso dizer, mas é perigoso presumir que os fortes emitem aura forte e os fracos emitem aura fraca. Só será enganado se pensar assim. Mimetismo, engano e disfarce são comuns tanto na natureza quanto entre as pessoas; não se deixe iludir por aparências e intimidação.

Clovis, que brincou com o cavaleiro usando apenas a força da intimidação, ensinou aos cavaleiros uma lição simples sobre ser guerreiro.

Mesmo sendo uma técnica simples, Clovis emitia uma aura tão poderosa que fazia até os melhores cavaleiros recuarem, e eram poucos os que conseguiam bloqueá-la completamente, tornando a experiência desafiadora. E como esses cavaleiros eram elite, às vezes precisavam lidar com mestres que usavam técnicas intricadas, então ver Clovis demonstrar uma era extremamente valioso.

— As demonstrações de hoje terminaram. Em breve voltarei para a cidade de Lianard, mas continuem treinando — disse Clovis.

— M-muito obrigado, senhor!

Clovis continuou derrubando os cavaleiros por mais um tempo. Quando terminou o trabalho e os cavaleiros ofegantes se despediram, o capitão dos cavaleiros se aproximou.

— Magnífico, senhor Clovis.

— Por favor, ainda tenho um longo caminho pela frente comparado ao meu mestre ou aos que estudaram com ele antes de mim.

Ele está sendo modesto de novo…

Os cavaleiros tinham o maior respeito por Clovis como guerreiro, mas questionavam sua tendência a ser extremamente humilde. Os cavaleiros do palácio real do reino de Rin eram os melhores dos melhores; qualquer um deles poderia enfrentar cinco cavaleiros de outra nação sozinho. Se Clovis, que não dava a mínima para eles, dizia humildemente ser inferior aos discípulos mais antigos e ao seu mestre idoso, os cavaleiros perdiam o moral.

— Posso roubar um momento do instrutor?

Um homem de meia-idade se colocou na frente do capitão e chamou Clovis, os óculos brilhando ao empurrá-los com o dedo.

— Qual é o problema? — Clovis franziu o cenho. Embora conhecesse o homem, não planejava encontrá-lo hoje, e na capital reuniões não agendadas quase sempre traziam problemas.

Enquanto isso, na cidade de Lianard – antes da chegada de Ferd e Elrica – um certo velho inútil estava bêbado.

— Ueee…

— Aquele velho está bêbado de novo.

— É, parece que ele está assim desde antes do meu pai nascer.

Um grupo de homens estava reunido num beco, cochichando enquanto olhavam para um velho, Sazaki, estirado no chão com uma garrafa de vinho vazia na mão. Ele era uma figura fixa na cidade – o mendigo que podia ser encontrado deitado aqui ou ali com uma garrafa na mão – desde antes de muitos dos moradores terem nascido. Os habitantes de Lianard eram bons de copo e dificilmente se ficavam completamente assim, então era bem incomum ver alguém com um problema alcoólico tão grave que nem conseguia manter um teto.

— Mas de onde ele tira dinheiro pra comprar bebida o tempo todo?

— Sempre me perguntei isso.

Uma coisa permanecia um mistério há anos, sem solução até hoje:

Como Sazaki, o mendigo, pagava todo aquele álcool?

— Bom, tanto faz. Vamos.

— É.

Os homens que observavam Sazaki foram embora.

Dependendo do lugar, um mendigo bêbado poderia ser morto por um bandido, mas felizmente Sazaki, deitado com uma garrafa na mão, era uma visão cotidiana para os moradores, então quase ninguém prestava atenção. Ainda assim, havia exceções.

— Ugh, esse cara fede! — Um garoto de uns doze anos com uma espada de madeira na cintura e cabelo visivelmente vermelho – parecendo bem encrenqueiro – fitou Sazaki com uma careta explícita de nojo.

Hic. É o pequeno Carl que eu ouço? — respondeu Sazaki sonolento, abrindo os olhos com irritação, as pupilas negras refletindo a luz.

— Faz tempo que eu quero saber, mas qual é mais importante para você: álcool ou espada?

Hic. Bebida, óbvio.

— Você tem uma espada na cintura, então não é espadachim, velho?!

— Quando se chega no meu nível, até um pedaço de pau serve. Ueee…

Carl era um dos poucos que realmente conversava com Sazaki, mas um garoto cheio de bom senso e um velho mendigo que nunca largava a bebida formavam um par bem desequilibrado.

— Se até um pedaço de pau serve, sua vida não seria melhor se vendesse essa espada? Está cega ou o quê?

— Bwa ha ha ha ha! Ninguém compraria uma lâmina amaldiçoada que voaria direto pro pescoço de um dono que ela não gostasse!

— Então é uma espada profana!

Hic. Escute bem, moleque. Essa é uma arma oriental chamada katana. Então cai na categoria de espadas enfeitiçadas, não mágicas.

— Isso não muda o fato de ser perigosa!

— Você é bem esperto.

— Tá tirando sarro da minha cara agora?!

— Bwa ha ha ha ha!

Carl notou uma espada incomum – uma katana – na cintura de Sazaki e sugeria que o velho viveria um pouco melhor se a vendesse. Embora gritasse quando Sazaki falava dos perigos da katana, Carl não acreditava nem um pouco na história. O dono de uma espada amaldiçoada assim teria morte garantida por loucura, o que não combinava nem um pouco com a imagem de um mendigo deitado com uma garrafa de bebida na mão.

— Por que você tem isso, afinal?

— É meio que uma lembrança de um inimigo poderoso, mas também meio que de um amigo. Embora eu diga que bebida é importante, não consigo jogar isso fora também. Nah, no fim a bebida é mesmo o número um.

— Estava quase ficando bonito, mas você tinha que estragar falando de álcool de novo, seu velho bêbado!

— Só quero deixar claro que não é que eu me cansei da vida e me afundei na bebida pra fugir. Eu amo beber desde moleque.

— Não perguntei, mas isso também parece horrível!

O bondoso Carl ainda demonstrava interesse pela história de Sazaki, mas o fato de o velho não se afastar do álcool fazia a pressão do garoto subir.

— Chega de falar de bebida. Olha até onde chegaram minhas habilidades com a espada! Hmph! Hmph! — Carl percebeu que não estavam chegando a lugar algum e se concentrou na espada de madeira, balançando-a para cima e para baixo.

— Impressionante.

Sazaki deu uma resposta curta de uma palavra só.

— Olha direito, seu velho maldito! — A pressão de Carl subiu ainda mais.

A cena faria sentido para qualquer um que soubesse que Carl exigira que Sazaki lhe ensinasse o caminho da espada. O infame bêbado parecia ter tempo de sobra mesmo.

— Calma aí. Como soube que eu não estava olhando se você estava de costas e concentrado na ponta da espada?

— Hein? Bem… eu simplesmente senti?

— Nessa idade, conseguir balançar tão bem a espada e ainda perceber o entorno já é bem impressionante.

— É mesmo?

— Yup, yup.

Sazaki estava mais concentrado em tentar sugar as últimas gotas do fundo da garrafa, mas Carl de algum jeito se deixou enganar achando que estava sendo elogiado.

— Me diz de novo por que é que você quer brandir a espada com tanta determinação — disse Sazaki.

— O quê, de novo?

— Vai, fala.

— Tá bom. Porque eu tenho um irmão e uma irmã mais novos, então quero ser um irmão mais velho confiável. Já está bom? Já contei um monte de vezes.

— Não esqueça esse objetivo.

— Claro que não. Por isso preciso começar a treinar na Escola Clovis!

— Então se esforce bastante.

Toda vez que Carl encontrava Sazaki, era forçado a contar o motivo de balançar a espada. Falou novamente hoje, imaginando o rosto do irmão e da irmã mais novos. Também estava ansioso para pedir para estudar na Escola Clovis, uma das mais famosas escolas de esgrima do mundo e influente naquela cidade.

— Aliás, parece que você não negligenciou a corrida nem o treino básico — disse Sazaki.

— Não vou ficar mais forte se ficar de preguiça.

— Hmm. Se todos os jovens do mundo fossem tão dedicados quanto você…

— Você está… me elogiando?

— Parece que estou para você?

— Seu velho idiota!

— Gwah ha ha!

Mesmo que Sazaki tivesse elogiado Carl por não descuidar da corrida, dos golpes de prática e do treino de postura que lhe designara, o garoto ainda tinha insultos para jogar.

— Bom, acho que hoje eu tenho um tempinho pra você.

— Sério?! Então me ensine um golpe mortal ou algo assim!

— Não seja bobo. Apenas descer a espada já é garantia de matar.

— E-entendi!

O beco ecoou por um bom tempo com a conversa barulhenta do estranho par mestre-aluno.

— Até mais, velho! Não morra ainda!

— Posso morrer se acabar a bebida.

— Tá bom, tanto faz!

Depois de um tempo, Carl se foi, ainda tão barulhento quanto sempre.

— Ora, ora. Você acabou de chamá-lo de impressionante? — Assim que Carl saiu, um velho de sessenta e poucos anos surgiu das sombras do beco. Apesar da idade, era musculoso, e junto com a espada na cintura, qualquer um via que era um veterano experiente.

— Ah, voltou? Quer dizer, comparado a como eu era quando criança, ele é só uma formiga.

— Ha ha. Julgá-lo pelos seus padrões seria injusto de vários jeitos.

O velho respeitável sorriu sem graça ao se aproximar de Sazaki, que terminara de beber.

— Ele teria um futuro brilhante com você. Deixe-o treinar com alguém adequado e, se o garoto mostrar promessa, leve-o para o seu dojo.

— E você, então?

— Talvez se eu tivesse mais uns vinte anos. Mas com só mais dez, não dá.

— Entendi. Seus colegas de treino provavelmente vão reclamar, mas…

— Eu disse que o seu lugar já é bom o suficiente, então está tudo certo. Ajuda que seus ensinamentos são baseados na Escola Sazaki.

— Entendi. Então vou aceitar seu último discípulo.

— Obrigado.

— Por falar nisso, parece que alguém roubou o estoque de droga de aprimoramento de um país vizinho. O autor pode estar vindo para cá também. Dizem que o nome é Michael e que luta com um estilo de assassinato único.

— Hein? Aquelas drogas depois de tanto tempo? Já se passaram, o quê, vinte anos?

— Eu diria que sim.

— Cara, que bagunça. Sei que você acha que as drogas estão escondidas em algum lugar, mas eu também não posso te garantir. Parece que os alquimistas da época apagaram todos os registros com cuidado, e a coisa de verdade não é vista desde então.

— Céus… Só tome cuidado, por via das dúvidas.

— Claro. Ah, tem alguma bebida boa?

— Na verdade, logo deve chegar uma da capital. Eu não bebo muito, então te dou assim que chegar.

— Oba! Valeu!

— Até a próxima, mestre.

— Certo.

Ninguém soube desse encontro estranho.

Alguns dias depois, um Carl agitado corria pela cidade.

— Ei, velho, escuta istoo!

— CAALA BOCA! — Sazaki, que estava deitado no beco como sempre, levantou-se de um salto com o grito de Carl.

— Ontem alguém da Escola Clovis me convidou para visitar o dojo deles!

— Que bom para você. Eu não tinha mais nada para te ensinar, então sinceramente é um alívio.

— Hein? Sério?

— Errei. Foi um alívio porque te ensinar era um saco — corrigiu-se Sazaki, fazendo as palavras soarem horríveis de propósito.

— Devolve o pouco de emoção que eu senti por você! — gritou Carl, o rosto vermelho.

— Ainda assim, fico feliz por você.

— É-é mesmo!

— Então, já foi visitar?

— Fui! Também me perguntaram se eu gostaria de entrar na escola, então amanhã vou de novo para isso!

— Então se esforce. Tem muita gente lá, não se perca no meio deles. Ah, e coopere com os outros — disse Sazaki, felicitando e incentivando o garoto.

— Tá!

Carl assentiu.

Porque a Escola Clovis era tão conhecida e de portas abertas, muita gente entrava. No entanto, apenas um punhado chegava ao topo, então esforço considerável era necessário.

— E, bem, você sabe… Durante meus golpes de prática no dojo, me elogiaram por ter bons músculos. Obrigado.

— Hmm. Bom, pelo menos posso dizer que você dominou completamente só o básico.

— Não sei se isso conta como domínio, mas valeu! Até mais!

— Tchau.

Após agradecer seu estranho mestre, Carl ficou sem graça e saiu com uma despedida, mas felizmente não era o tipo de garoto que ficaria vagando pela noite horas depois. À noite, Lianard era como qualquer outra cidade de bebida, cheia de bares em cada esquina, onde a animação nunca parava.

Mas havia rumores perigosos naquela cidade agitada. Diziam que a droga de aprimoramento usada por um tempo durante a grande guerra – mas que depois fora apagada da existência – ainda existia, e que uma versão melhorada estava escondida em algum lugar. No fim das contas era só boato, mas infelizmente esse tipo de rumor nunca desaparecia, e se alguém o negasse, por natureza as pessoas ficavam ainda mais desconfiadas. E aqueles que buscavam força às vezes se desviavam do caminho certo e perseguiam heresias.

Se a droga existir mesmo, será que está no castelo do lorde?

Michael, que se infiltrou na cidade sob o manto da escuridão, era uma dessas pessoas. Causou problemas num país vizinho procurando uma droga de aprimoramento semelhante, mas aquela não chegou nem perto de seus padrões, então veio para Lianard, que foi um grande centro de produção de remédios durante a grande guerra.

Preciso tomar cuidado com Clovis e seu pessoal.

Uma das razões pelas quais Michael acreditava que a droga estava em Lianard era porque havia um grande dojo da Escola Clovis lá. No entanto, ele estava invertendo as coisas. O fato é que era por causa de homens como Michael que a escola era tão popular.

Não acho que perderia nem pros melhores alunos da escola, mas quanto ao próprio Clovis… Michael conseguia se avaliar objetivamente. As pessoas no topo da Escola Clovis eram todas aberrações, e o próprio Clovis era famoso como um dos melhores do mundo das artes marciais. Os cadáveres de todos os monstros que cortara eram prova disso. Havia boa chance de Michael não estar no nível dele, por isso queria evitar contato com o homem, mas…

Talvez fosse uma pegadinha dos deuses, mas algo inacreditável aconteceu.

Por pura coincidência, Clovis caminhava completamente sozinho à noite num beco deserto para entregar um item, algo altamente improvável para alguém de sua posição. E então, por uma coincidência ainda mais louca, Michael e Clovis cruzaram exatamente naquele beco.

Não pode ser! Michael ficou pálido no instante em que viu o rosto de Clovis, idêntico ao esboço que circulava em certos círculos do submundo. Do ponto de vista de Michael, só podia presumir que Clovis não só previu suas ações, como veio matá-lo sozinho sem trazer peixes pequenos que atrapalhariam.

Vou matá-lo primeiro! Michael presumiu que Clovis preparou contingência caso ele tentasse fugir, então decidiu matá-lo primeiro para sair daquela situação desesperadora.

Será que é o Michael?! Clovis também ficou confuso. Como não havia esboço de Michael circulando, Clovis não podia ter certeza absoluta, mas, sendo um mestre, sentiu o cheiro de sangue do homem, então suspeitou que a pessoa à sua frente pudesse ser o Michael de que ouviu falar.

Em outras palavras, como Michael tinha certeza que enfrentava Clovis e decidiu matá-lo, tomar a iniciativa e tinha uma vantagem esmagadora. Desembainhou a espada com uma expiração curta e tentou apunhalá-lo, esperando derrubá-lo da forma mais rápida possível.

Clovis foi claramente mais lento, nem que fosse por um instante, mas… moveu pés, joelhos, tronco, cotovelos, braços e até a cabeça com tal ímpeto que parecia que todos os músculos do corpo seriam torcidos, desembainhando a espada. Mas em vez de estocar, ergueu-a e desceu antes que a espada de Michael pudesse reagir à intenção de matar e liberar seu poder, antes que pudesse perfurar seu corpo.

— Argh?!

Michael não acreditava. Mesmo tendo tomado a iniciativa e estocado em linha reta para matar o oponente, a lâmina mais lenta de Clovis o havia decepado na altura do ombro.

Clovis – cujos músculos agora saltavam por todo o corpo – e seus colegas discípulos de Sazaki tinham um credo: Se descer a espada, é garantido matar. No fim das contas, ambos – Michael e Clovis – haviam dominado o uso da esgrima para tirar vidas.

Ferramentas mágicas e espadas profanas, habilidades sobrenaturais e autoridades, e habilidades especiais que matavam com certeza no primeiro golpe… Num mundo transbordando dessas coisas, simplesmente prender alguém era uma indulgência que não podia ser permitida. Não era exagero, especialmente porque havia muitas pessoas ou ferramentas que ainda podiam matar o inimigo mesmo desmembradas ou inconscientes. Por isso Clovis e seus colegas discípulos haviam sido ensinados pelo mestre que, se descessem a espada numa luta até a morte, tinham que fazê-lo para matar o oponente. E para seguir fielmente esse ensinamento, era necessária velocidade esmagadora.

Clovis olhou em silêncio para o Michael caído.

Tsc. Gostaria de chamá-lo de aprendiz decepcionante, mas… Clovis é realmente impressionante, hein? O mestre de Michael, um jovem aparentemente, também observava a derrota do discípulo de um telhado distante. Nunca esperei que a esgrima dele fosse tão rápida. Não acho que perderia para ele, mas se o enfrentasse de frente, talvez ficasse atrás. Além do mais, não ganho nada lutando por uma droga que nem sei se existe mesmo. Acho que vou recuar aqui. Não, Michael nem era discípulo dele, apenas um peão sacrificável usado para medir a força de Clovis.

— Achei que tinha sentido alguém cheirando a sangue. Você tem o mesmo cheiro daquele que usa a tal arte secreta de Devoração de Alma. Vou avisar: sugiro que venha quieto.

O jovem não percebeu o homem que agora colocou a garrafa de bebida no telhado e começou a falar com ele. Assustado com a voz que veio de trás, ignorou o aviso e puxou a espada. Esse jovem de aparência enganosa, com técnicas de espada adquiridas por anos de treino diligente, habilidades ligadas à magia de Devoração de Alma e uma teimosia forjada por um passado cruel, certamente poderia ser considerado um mestre. Mas quem se importava com suas técnicas, habilidades ou história? Nada disso importava na cena de um assassinato. Não precisava saber o nome. Não precisava saber o passado. Não precisava ser brando.

A velocidade deixava tudo isso para trás.

— Você puxou a espada, hein?

O murmúrio de Sazaki foi o único som que se ouviu.

Ele sacou a espada.

Um clarão vermelho.

Ele embainhou a espada.

Levantou a garrafa de álcool até a boca.

Bebeu.

Silêncio.

Tudo aconteceu num piscar de olhos. Sazaki, o mendigo, outrora também fora conhecido como Sazaki, o Mestre da Lâmina Veloz. O brilho de sua espada ainda não se apagara.

A visita de Ferd e Elrica a Lianard aconteceu depois desses eventos turbulentos. E agora que o Mestre da Lâmina e o Herói se reencontravam após tanto tempo, sua conversa abalaria o mundo inteiro.

— V…

— Não.

Ou talvez não. Sazaki, o Mestre da Lâmina, estava prestes a dizer “Você trouxe bebida para mim, né?” quando Ferd o cortou imediatamente. Os dois se conheciam desde jovens e podiam ser chamados de melhores amigos, mas justamente por isso não se continham um com o outro.

— Eu…

— Não.

Sazaki, o mendigo, estava prestes a dizer “Tenho certeza que você trouxe uma bebida cara apesar de dizer isso, né?” quando Elrica também o cortou. Ela também aprendeu os comportamentos de um bêbado e como lidar com um durante a antiga jornada, então não se continha.

— Aliás, por que vocês dois desceram da montanha mesmo? — E como Ferd e Elrica sabiam, assim que Sazaki tirava o assunto bebida da frente, ia direto ao ponto.

— Porque nosso fim está próximo. Saímos em viagem para ver nosso filho, neto, bisneto e conhecidos. Viemos primeiro aqui porque você é o mais perto. — Talvez influenciado pelo amigo que não mudava nunca, o idoso Ferd explicou inconscientemente no mesmo tom dos tempos de juventude.

— Cara, que legal. Hmm? Se bem me lembro, seu filho e a família dele moram…

— No continente vizinho.

— Boa sorte na longa viagem, então. Sabe, eu também só tenho mais ou menos uma década.

— Estou surpreso que você ainda não tenha bebido até morrer. Né, Elrica?

— Concordo plenamente.

— Bwa ha ha ha ha! Como se eu pudesse morrer de beber demais!

Diferente do Sazaki que ria, Ferd e Elrica pareciam verdadeiramente irritados. Mesmo na dura jornada de antigamente, Sazaki já bebia sem parar. Consumiu quantidades tão absurdas de álcool que, pela lógica, seu corpo já deveria ter colapsado; ele não deveria estar vivo.

— Tá bom. Que tal eu ir junto nessa viagem de vocês? — disse Sazaki.

— O quê? Bem… O que acha, Elrica?

— Não me importo.

— Nesse caso, vamos viajar juntos. Faz muito tempo — disse Ferd.

— Decidido, então. Vamos acrescentar Elrica e reformar as Estrelas Brilhantes depois de oitenta longos anos — respondeu Sazaki.

A declaração repentina de Sazaki fez as rugas e bochechas de Ferd tremerem, e ele sentiu vontade de enfiar uma garrafa de bebida goela abaixo do amigo. Não era porque ele quisera acompanhá-los na viagem. Tanto Ferd quanto Elrica estavam felizes que a viagem para encontrar os amigos também seria com um antigo membro do grupo. No entanto, “Estrelas Brilhantes” era o nome do grupo que Ferd e Sazaki formaram quando começaram como guerreiros. Elrica perguntou ao marido com um olhar de dúvida daquele nome desconhecido, já que era uma fantasia juvenil que ele escondera dela.

— Então, quem vamos encontrar agora? — perguntou Sazaki.

— Lara — respondeu Ferd.

— Ah…

Sazaki estava cheio de sorrisos, mas no instante em que ouviu aquele nome, fez uma expressão estranha, derrotada, e coçou a nuca.

— Parece que minha viagem termina aqui. Boa sorte a vocês. — Sazaki balançou a cabeça e de repente voltou a uma expressão alegre.

— Do que você está falando? Nem deu ainda o primeiro passo — retrucou Elrica, lançando-lhe um olhar afiado.

— Você a encontrou por algum motivo, né? — perguntou Ferd.

— Bom, sim, mas… — Sazaki voltou a coçar a cabeça, encabulado. A mulher chamada Lara era a razão de toda aquela hesitação. — Eu deixei tudo preparado para que, quando eu morrer, a herança vá para Lara e nosso filho. E, sabe… eu quis bancar o fodão, então agora estou com vergonha. — Sazaki abaixou a cabeça, sem saber o que fazer.

— Ah, entendi. — Ferd fez uma expressão indizível.

Lara era a esposa de Sazaki e eles até tinham um filho juntos, mas o relacionamento mantinha uma distância razoável havia setenta anos. Sazaki parecia envergonhado porque arrumou para que seus poucos pertences fossem enviados a ela após a morte, então estava preocupado com como a encararia agora.

— Bem… eu estava pensando em ir ver a Lara em breve, então o timing é perfeito. Acho que vou me preparar pra viagem, então. Preciso avisar meus discípulos também. — Embora preocupado, no fim Sazaki escolheu acompanhá-los na viagem e se levantou preguiçosamente. O Mestre da Lâmina esteve sentado no chão com uma garrafa de bebida na mão o tempo todo.

— Hein?!

Carl, o espadachim novato que acabou de entrar na Escola Clovis, olhava para algo realmente inacreditável.

— Ah, aí está você, novato Carl. — Sazaki, o mendigo, estava de fato andando com as próprias pernas.

— O álcool finalmente quebrou sua cabeça?!

— Todo mundo sempre fala algo assim quando me vê andando normalmente.

Carl acabou de gritar algo incrivelmente rude, mas a maioria das pessoas que conhecia Sazaki teria a mesma reação. Sazaki já teve conversas assim muitas vezes, há anos. Quando absteve-se de álcool por um tempo durante a grande guerra, causou um tumulto, com as pessoas achando que a humanidade finalmente perdeu e que o fim do mundo chegou.

— Decidi sair em viagem por um tempo. Pronto, agora você foi informado.

— Espera aí! Já vou pegar uma bebida para você, então não morra antes disso! — Aparentemente, a declaração repentina de Sazaki fez Carl acreditar que o velho não estava agindo estranho por excesso de álcool, mas por falta dele.

— Escuta aqui, novato. Decidi ir ver meus amigos e conhecidos. Posso ir bem longe, então talvez não volte em uns três anos.

— O quê?!

Normalmente Sazaki apenas riria e mandaria Carl correr para comprar uma bebida, mas estranhamente dessa vez contou seus planos com expressão séria. Mas Carl não pôde deixar de se surpreender que esse velho mendigo dissera de repente que ia viajar, e que não voltaria em três anos, nada menos.

— Você vai morrer logo de cara!

— Idiota. Acha que alguém que passa o ano inteiro deitado pela cidade morreria só de viajar?

— Bem… tem razão. — Carl tentava trazer Sazaki de volta à razão, mas agora que o velho mencionara, lembrou que ele tinha uma saúde incrivelmente boa, exceto quando bêbado, pelo menos. — Mas por que tão de repente?

— Bem, eu não morro por viajar, mas agora que sou velho, tem muita gente que gostaria de ver uma última vez.

— Certo, acho que é verdade para os idosos… — Carl se convenceu ao ouvir o motivo da viagem de Sazaki, já que ele falava como um idoso de verdade, mas ficou sem palavras. Carl ainda era um garoto, então se sentiu sozinho com a partida repentina de Sazaki, que o ajudou de várias formas.

— Relaxa, decidi que vou morrer cercado pela bebida daqui, então eu volto.

— Não devia escolher estar com o neto ou algo assim?!

Sazaki era um bêbado tão perdido que afastou a solidão de Carl do jeito mais inesperado possível.

— Então, estou saindo da cidade. Não esqueça por que você está tentando ficar mais forte.

— Já entendi! Vou me tornar um irmão confiável para meus irmãos mais novos! Tá bom assim?!

— Tá, tá.

— Não morra na viagem, velhoteee!

— Quem você acha que está falando comigo, seu novato?

Após nada mais que informar unilateralmente Carl de seus planos, Sazaki virou-se nos calcanhares e partiu, sorrindo para o adeus debochado do garoto. O garoto barulhento e o velho bêbado inútil, melancolia não combinava com esse estranho par mestre-aluno, nem com sua despedida.

No entanto, Sazaki tinha mais um discípulo naquela cidade.

— Oooooh!

— Haaaaah!

Os gritos violentos de homens treinando com espadas de madeira ecoavam pelo dojo da Escola Clovis. O dojo cobria uma grande área, com o interior e o exterior do prédio de madeira sendo usados como campos de treino, sugerindo que a escola recebia tratamento preferencial do lorde da cidade.

Um grande homem sentava-se bem no fundo do prédio. Com músculos definidos apesar de ter mais de sessenta anos, esse homem era o mestre de todos os outros, que treinavam ali tão diligentemente. Era Clovis, um homem que continuou cortando e cortando. Aparentemente esteve ocupado nos últimos dias, muitas vezes deixando os melhores alunos no comando do dojo e visitando a mansão do lorde. Segundo boatos, capturou e matou alguns criminosos, ganhando elogios por suas grandes ações.

Ele é realmente incrível. Fica dizendo que é inferior ao mestre e aos colegas discípulos, mas deve estar sendo humilde. Um dos alunos, bem habilidoso para a idade, estremeceu diante da majestade feroz que Clovis exalava mesmo apenas sentado.

Havia muito mistério em torno de Clovis. Embora dissesse que havia outros mais habilidosos que ele, ninguém sabia nada sobre essas pessoas alegadas, então a maioria apenas presumia que ele era humilde. E ainda assim, suas palavras eram a verdade. Clovis era mais fraco que seu mestre e colegas discípulos, até alguns dos mais novos. No entanto, era o mais bem-sucedido de todos aos olhos do público.

— Concentrem-se.

— S-sim, senhor!

Repreendeu um jovem cuja mente parecia vagar durante o treino. Clovis tinha muitos alunos pelo mundo e conseguia identificar os que não estavam concentrados mesmo no meio de dezenas de pessoas praticando fervorosamente. Era graças à sua excelente liderança e capacidade de observação que conseguia transmitir suas técnicas corretamente. Considerando que alguns colegas discípulos deixaram o mestre e criaram escolas próprias mas tinham dificuldade de passar as técnicas aos sucessores, o talento de Clovis era difícil de encontrar. Muitos acreditavam que o mestre que o treinara devia ser uma pessoa respeitável, mas… ele era apenas um mendigo conhecido como o Mestre da Lâmina.

Clovis também esteve ocupado nos últimos dias cuidando de Carl, seu mais novo discípulo júnior, e lidando com as consequências do incidente com os usuários de espada profana. Era incomum seu mestre, Sazaki, visitar seu dojo numa noite agitada, mas o maior problema eram as pessoas que o acompanhavam.

A-ah, não, merda… Clovis, um grande homem de idade avançada, murmurou mentalmente com o mesmo tipo de linguagem que usava na juventude.

— Nos desculpem por invadir sem avisar.

— N-não precisam se desculpar! Fiquem à vontade! — A razão pela qual Clovis, que nem ficava nervoso ao trabalhar como instrutor de esgrima no palácio real, estar completamente paralisado era o casal de idosos à sua frente, curvando-se para ele em sincera desculpa.

Meu mestre tem um número muito limitado de amigos!

Sazaki visitou Clovis sem convite e pediu que entregasse vários itens que deixou com ele porque ia viajar com seus amigos.

Embora Sazaki parecesse nada mais que um mendigo à primeira vista, Clovis sabia que outrora fizera parte do grande grupo do Herói. Por isso, quando Sazaki apresentou esses dois como seus amigos, seu status brilhou na mente de Clovis.

— Ei, você está tratando eles bem diferente de como me trata. — Sazaki provocou o nervoso Clovis.

— Pense objetivamente. Você acha que precisa ser modesto ao lidar com um bêbado deitado num beco com uma garrafa de bebida na mão? — retrucou Ferd imediatamente.

— Bem, essa pessoa entende os princípios do álcool, então deve ser respeitada.

— Talvez os princípios de um idiota bêbado.

Ah, cara, ah, cara, ah, cara. Ele chamou meu mestre de idiota bêbado! Não que esteja errado. Clovis estremeceu com o comportamento de Ferd e achou que ele estava sendo reservado demais.

— De qualquer forma, roupas orientais, hein? Faz tempo que não vejo essas. — Ferd cortou o papo furado e olhou com carinho e nostalgia para o traje de Sazaki.

— Né? Eu também não visto isso há séculos.

Sazaki usava um traje um tanto único. Consistia de um capote de chuva, manoplas, calças justas, perneiras, tabi e sandálias de palha. Embora essas roupas fossem muito incomuns na região, havia mais interação com os países orientais agora do que quando Sazaki e os outros eram jovens, então o que outrora era considerado excêntrico agora era visto apenas como roupa estrangeira que se encontrava de vez em quando.

Sazaki deixou todos esses itens aos cuidados de Clovis, mas eram todos feitos sob medida e tinha a maior defesa tanto contra ataques físicos quanto mágicos. Junto com a espada enfeitiçada na cintura, provavelmente valiam o suficiente para construir um castelo inteiro.

— Já que estamos num dojo mesmo… que tal fazermos um sparring, só por nostalgia? — Sazaki abriu um sorriso e balançou a espada enquanto encarava Ferd.

E-eu vou poder veeeer?! O quê?! Está tudo bem eu ser o único vendo isso?! Se meus colegas discípulos soubessem, me matavam! Clovis instintivamente cobriu a boca com as mãos para conter um gritinho infantil.

Um duelo entre o lendário Mestre da Lâmina e outra figura lendária – se a suposição de Clovis estivesse correta – era um evento tão grandioso que guerreiros poderosos do mundo inteiro matariam para presenciar. No entanto, havia um problema.

— Tudo ao nosso redor seria reduzido a pedaços — respondeu Ferd com exasperação.

— Verdade, né.

— Ah, bem… — Clovis certamente não queria seu dojo destruído e rapidamente recuperou a compostura. Ele conhecia o alcance absurdo da espada de Sazaki, então sabia muito bem que o que Ferd disse era bem possível.

— Beleza então. Obrigado por tudo, Clovis. Se souber de algo mais sobre aquele usuário de espada profana misterioso, me avise pela Lara — disse Sazaki.

— Entendido. Embora eu já tenha informado o reino de Rin.

— Isso provavelmente vai demorar um pouco.

— Do que é essa história de usuário de espada profana? — perguntou Ferd confuso sobre o que Sazaki mencionou ao se despedir.

— Dois usuários de espada profana atacaram Clovis e a mim. Clovis cuidou de um cara conhecido chamado Michael ou algo assim, mas não temos ideia de quem foi o que eu matei. Ainda assim, isso é comum no caminho da espada. Você pode matar ou ser morto por um habilidoso que não sabe de nada.

— Hmm. — Ferd não sugeriu nada idiota como prender e interrogar o homem. Como magia e habilidades especiais existiam, esse não era um mundo onde se podia simplesmente desarmar, capturar e interrogar alguém, não importando quão inferior fosse. Como aquele homem misterioso possuía várias habilidades desconhecidas que podiam matar facilmente, um duelo com ele só podia terminar com a morte de uma das partes.

— Beleza, então vou passar a noite na mesma estalagem que eles, nos vemos daqui a alguns anos. Cuide bem do novato Carl por mim — disse Sazaki.

— Sim, mestre.

Sazaki pegou tudo que deixou com Clovis e confiou Carl – o garoto que cuidou nos últimos anos – a Clovis, um homem com habilidades supremas de liderança. Se possível, Sazaki gostaria de continuar instruindo Carl até o fim, mas levando em conta o tempo que lhe restava, com certeza pararia no meio, então não tinha escolha senão confiar o garoto a um discípulo de confiança.

— Que o clima seja favorável em sua viagem.

— Você realmente entende, hein? — Sazaki sorriu com o jeito de Clovis não desejar uma viagem segura, mas bom tempo. Seria uma viagem com o velho Herói, a Santa e o Mestre da Lâmina juntos. Estaria longe de ser pacífica, mas também não havia ninguém que pudesse ameaçar sua segurança. No entanto, a relação de Ferd e Sazaki não precisava de títulos formais; eram apenas dois parceiros inseparáveis no crime.

— Ei, Ferd, quanto tempo faz que não andamos de carruagem juntos? Nem consigo lembrar.

— Não faço a menor ideia.

— Eu lembro de ter ficado impressionado da primeira vez que andamos numa…

— Eu fiquei tão animado de ver os cavalos de perto.

— Bwa ha ha! Mas antes de ficarmos animados, tivemos que superar o choque com aquelas criaturas estranhas de quatro patas!

— Ha ha. De fato. Quando soube quanto custavam e o trabalho envolvido, achei que só nobres podiam ter.

Ao deixarem a cidade, Sazaki olhou para algum lugar distante, e Ferd assentia relembrando. Os dois nasceram numa área rural, então nunca tinham visto cavalos, que eram animais de luxo. Assim, a primeira vez que viram um, tremeram, imaginando que tipo de criatura era. E quando souberam quanto custava comprar e manter um, ficaram ainda mais abismados.

— E quando a Elrica…

— Por favor pare, querido.

— Ha ha ha.

As doces lembranças estimularam o cérebro de Ferd, mas quando ele estava prestes a mencionar o que aconteceu na primeira vez que Elrica viu um cavalo, ela o interrompeu, as bochechas levemente vermelhas.

Afinal, suas primeiras palavras foram “É gostoso?”

Não era à toa que ela não queria que contassem essa história. Ferd lembrou da jovem Elrica observando um cavalo de perto pela primeira vez e perguntando sobre o sabor. Naturalmente, agora que envelheceu, ela achava sua reação de então um pouco extrema, por isso interrompeu Ferd.

Acho que também não vou falar da vez que Elrica confundiu açúcar com sal.

Vamos chamar de misericórdia de guerreiro. Enquanto olhava para o casal brincalhão, Sazaki decidiu guardar para si o deslize de Elrica. Devido às circunstâncias dela, outrora foi tão protegida que confundiu açúcar com sal. Se Sazaki não tivesse percebido a tempo, o jantar daquela noite teria sido um pesadelo absoluto. Mas isso era coisa do passado longínquo. Agora, ela era uma velha que criou um filho com sucesso.

Cara, isso traz lembranças. Sazaki olhou para o passado com carinho. Como havia outros clientes na carruagem, pela primeira vez ele não estava bebendo. Durante a Guerra do Demônio Supremo, Sazaki e seus amigos viajavam de lugar em lugar para lutar, então a carruagem era como uma segunda casa.

Aquele cavalo também fez um trabalho fantástico. Sazaki na verdade não bebia, mas ergueu a garrafa de bebida para o ótimo cavalo que outrora puxou sua carruagem, e que foi elogiado como o melhor cavalo de sua época. Mas até o melhor cavalo do mundo não podia lutar contra a passagem do tempo, e aquele animal que ele e os outros chamavam de camarada de armas não estava mais neste mundo. E não era só o cavalo. Nos setenta anos que se passaram desde o fim da guerra, muitas pessoas morreram, e com exceção de raças de vida longa como elfos, a maioria da geração envolvida na grande guerra já partiu. Sazaki e os outros, que eram jovens na época, e os que nasceram um pouco depois, seriam as últimas gerações que se lembravam da guerra. Quando morressem, a grande guerra que dividiu o mundo inteiro seria deixada nas páginas da história.

Realmente está pacífico. Tudo que Sazaki via ao redor era tranquilo. Um jovem bocejando. Uma mulher olhando a paisagem. Um casal de idosos que parecia estar a caminho de encontrar parentes, assim como Ferd e Elrica. Essa era a paz que ele e seus amigos conquistaram.

O céu apodreceu e colapsou sobre si mesmo. A terra queimou.

As pessoas estavam morrendo. A ordem natural se desfez. E as trevas desceram. Aqueles dias foram governados pelo medo e desespero. Era um apocalipse que ninguém poderia esquecer.

Mas e daí?!”

Tudo até Ferd – o pequeno e frágil velho com um sorriso colado no rosto enrugado, sentado bem na frente de Sazaki – se erguer.

Eu sei que ele é meu amigo, mas é um maluco. Quem mais teria tanta confiança de que poderia fazer algo para consertar a situação? A maioria diria que eram delírios de louco.

Sazaki era apenas uma criança na época, mas ainda lembrava vividamente. O espaço vital da humanidade encolheu num instante, e o céu ficou vermelho. Era um tempo de caos absoluto, quando campeões, sábios, estrategistas militares, cavaleiros e até reis nada podiam fazer. Naqueles tempos incertos, um único garoto ergueu a espada para o céu e declarou que faria algo a respeito. Sem dúvida eram as palavras sem sentido de uma criança ingênua. Então, o garoto cresceu e virou jovem, e exatamente como disse, fez algo a respeito. O céu voltou a ser azul. A terra em chamas se acalmou. Libertou as pessoas da morte certa, restaurou a ordem natural e rasgou as trevas.

Ah, cara. Eu me meti com um maluco de verdade. Cego para suas próprias limitações, Sazaki sempre via Ferd como um excêntrico. Todos os membros do grupo eram excêntricos e malucos, mas num certo sentido, Sazaki era especialmente bizarro. Sem causa nem ambição, acompanhou os amigos ao reino das trevas só porque deu na telha, e até participou da batalha final. Foi direto para a terra da morte por simples amizade, o que chamar isso se não bizarro?

Lara e os outros tinham um propósito claro ao lutar… Ah, caaara, eu realmente não faço ideia de como encarar ela… Sazaki pensou nos aliados que, diferente dele, lutaram na grande guerra com um objetivo claro.

De repente, ficou completamente perdido sobre como lidar com a esposa que estava a caminho de visitar, depois de já ter enviado a ela sua vergonhosa última vontade. Embora Sazaki fosse uma pessoa despreocupada que passava todos os dias bêbado no chão, tinha preocupações surpreendentemente normais. Por isso, exatamente como Ferd e Elrica imaginaram, estava envergonhado que sua vontade, que continha todo tipo de lembranças e palavras de amor, tivesse sido lida por alguém enquanto ainda estava vivo.

T-tanto faz. Vai dar tudo certo! Sazaki estava praticamente desesperado enquanto pensava na esposa, Lara, mas como o destino não era tão longe, não tinha tanto tempo assim para se preparar mentalmente.

— Já dá para ver Malgad, Sazaki — disse Ferd.

— Ótimo, agora posso beber.

— Acho que sim.

Após alguns dias chacoalhando dentro da carruagem, Ferd olhou para a cidade à frente, ignorando Sazaki, que balançava a garrafa de bebida para lá e para cá. O lugar parecia sobrenatural, com várias torres grandes saindo das muralhas gigantescas do castelo e fumaça estranha vermelha e azul subindo por toda parte, fazendo algumas pessoas hesitarem em entrar. Essa era Malgad, a Cidade da Magia. Como o nome indicava, era uma cidade onde magos se reuniam para pesquisar dia e noite. Foi onde as carruagens-golem foram inventadas.

— Parece que Malgad não mudou nada. — A fumaça bizarra trouxe lembranças para Elrica, e ela presumiu que a cidade não mudou.

— Não mudou. Continua cheia de malucos, como sempre — confirmou Sazaki.

Mesmo durante a grande guerra, Malgad foi uma base para magos, um lugar sombrio onde pessoas sombrias faziam pesquisas sombrias sem parar. Em outras palavras, tanto no passado quanto no presente, o público em geral acreditava que tudo naquela cidade era suspeito, e que provavelmente explodiria em chamas algum dia.

— Chegamos! — anunciou o condutor.

— Finalmente! — Sazaki saltou da carruagem, abriu a garrafa de bebida, levou direto à boca e entornou o álcool garganta abaixo. — Cara! Bebida continua boa como sempre!

— Vamos entrar, querido? — sugeriu Elrica.

— Sim, querida — respondeu Ferd.

Os dois ignoraram Sazaki – que não era viciado em álcool, apenas um apreciador – e caminharam em direção ao portão da cidade.

— Está bem cheio. São mercadores? — perguntou Ferd.

— Devem estar vendendo ferramentas mágicas — respondeu Elrica.

Enquanto o casal seguia andando devagar, avistaram um grupo reunido na frente do portão. Embora parecessem plebeus, eram bem constituídos e bem vestidos, então o casal de velhos presumiu que provavelmente eram mercadores que vieram vender produtos mágicos.

— Tomara que não explodam na volta — murmurou Sazaki após saciar-se da bebida.

— Não é como se ainda estivéssemos em guerra, então duvido… espera, não estamos, né? — Embora Ferd negasse a ideia no começo, de repente ficou ansioso ao pensar no passado.

— Bem, provavelmente vai dar tudo certo. Provavelmente.

Durante a grande guerra, os moradores daquela cidade desenvolveram ferramentas mágicas poderosas, mas também houveram incidentes frequentes que demonstravam sua falta de entendimento dos conceitos de segurança e confiabilidade.

— Acha que eles podem estar revistando as pessoas que saem, procurando itens perigosos? — perguntou Ferd. — Dado o quão excêntrica era aquela cidade, parecia bem possível, então Ferd esticou a cabeça para fora da fila para verificar.

— Sai da frente, vovô! — gritou um homem de uns trinta anos para Ferd por trás.

— Ops, desculpe. — Embora Ferd se desculpasse, ficou intrigado se realmente foi tão incômodo, já que estava bem longe do homem.

— Eu sou Progressivo. Me deixem passar. — O homem ignorou a fila e continuou andando até o portão, onde deu arrogantemente apenas algumas palavras de explicação, como se dissesse “Não preciso dizer mais, né?”.

Magos eram divididos em seis camadas por habilidade: Costeiro, Superfície, Mediano, Progressivo, Abissal e Hadal. O nível Costeiro incluía todos os aprendizes; o nível Superfície indicava magos formados; e o nível Mediano era composto pelos veteranos. O fato de alguém já ser considerado veterano ao atingir apenas o nível Mediano mostrava o quão íngreme era o caminho da magia. O nível Progressivo era praticamente sinônimo da elite mais absoluta entre os magos; o nível Abissal continha apenas alguns poucos gênios capazes de representar toda uma era; e o nível Hadal raríssimas pessoas na história haviam conseguido alcançá-lo.

Levando tudo isso em consideração, o nível Abissal era visto como o auge absoluto, com raríssimas exceções e logo abaixo dele vinha o nível Progressivo. Talvez fosse natural que um homem na casa dos trinta, que já havia alcançado um nível tão alto, exigisse tratamento especial. Na verdade, em países pequenos, magos Progressivos eram considerados um poderoso trunfo militar e tratados com respeito onde quer que fossem. No entanto, essa era a Cidade da Magia. Embora magos Progressivos não fossem exatamente comuns ali, não eram raros o suficiente para estar no topo como estariam em nações pequenas.

— É a primeira vez nesta cidade? Regras são regras, então a menos que seja emergência, por favor vá para o fim da fila. — O guarda sabia que fazer exceções sem motivo faria as coisas saírem do controle, então mandou o homem esperar sua vez como todos os outros.

— Como é que é?! — O homem ficou tão irritado com a resposta do guarda que seu rosto ficou vermelho. — Você é inútil! Quero falar com seu superior! – Pessoas do tipo dele adoravam recorrer a esse golpe especial. No entanto, vale repetir que era Malgad, a Cidade da Magia. Ao usar esse golpe especial, ele bem que poderia estar cavando a própria sepultura – não, um mausoléu inteiro.

— Calma, calma. A ideologia de Malgad diz que essas classificações de níveis são apenas superficiais no mundo da magia. Mantenha a calma, por favor. — Incapaz de ficar indiferente à cena, um velho de uns setenta anos que por acaso saía da cidade puxou o capuz para trás e tentou mediar.

— Sai daqui, vovô! — Apesar de ser usuário de magia, o homem não demonstrou razão nem inteligência e apenas gritou, o rosto ainda vermelho como sempre.

No entanto, os guardas ficaram pálidos.

— Meu nome é Aldrick, e estou envolvido na administração de Malgad. O senhor pediu uma autoridade ainda agora. Acredito que me qualifico para o cargo.

— E daí… O-o quê? O quê? O quê? — O homem começou a gritar novamente para o velho que se apresentou como Aldrick, mas quando seu cérebro reconheceu o nome, seu rosto ficou mais pálido que o de qualquer um, e ele lutou para dizer algo coerente. — I-isso é mentira.

— Não, não exatamente.

O velho que estava diante do jovem arrogante – que esperava que tudo fosse mentira – era Aldrick, o Incinerador. Era um grande mago que alcançou o nível Abissal, o auge realista da magia, excluindo a exceção do nível Hadal. E não era um Abissal comum. Era poderoso o suficiente para ser considerado a beira do Hadal. Como seu título sugeria, especializava-se em magia de fogo única, e corria o boato de que era forte o suficiente para enfrentar até o sopro de um dragão ancestral, algo que podia derreter facilmente muralhas de castelo.

— T-tem alguma prova?

— Isso serve?

O homem continuou sua birra feia e vã, mas ficou sem palavras quando anéis de luz com padrões intricados apareceram em todos os cinco dedos da mão direita de Aldrick. O número de anéis de luz que apareciam na mão dominante de um mago estava diretamente ligado ao seu nível: um anel para Costeiro, dois para Superfície, três para Mediano, quatro para Progressivo e cinco para Abissal. Mesmo que Progressivo e Abissal fossem apenas um anel de luz de diferença, era óbvio que não deveria subestimar a diferença entre elas. Cada anel exigia tremendo esforço e talento para superar, e quanto mais fundo se ia no caminho da magia, maior essa diferença se tornava. Portanto, embora o homem mais novo estivesse no nível Progressivo, havia um abismo intransponível entre ele e o nível Abissal de Aldrick.

— E-eu, hum, s-se me dão licença. — Agora que lhe apresentaram a prova de que quem falava com ele estava claramente acima, e nada menos que uma figura semilendária, murmurou algumas palavras e rapidamente saiu da fila.

Gostaria que fizessem uma entrada e saída exclusiva para pessoas como ele. Isso me deixa nervoso… Um dos guardas do portão estava inquieto por ver Aldrick na fila comum, mesmo sendo alguém que claramente merecia tratamento especial. No fundo, ele desejava que seu superior agisse de acordo com o status daquele mago. Mas, infelizmente, o que Aldrick disse era verdade, em Malgad, o nível de um mago era tratado como um título meramente decorativo. E, por causa dessa ideologia que perdurava havia séculos, até mesmo alguém como ele tinha de seguir as regras como qualquer outro.

Aldrick observou o homem mais novo ir embora, então notou um casal de idosos parado como plantas, fazendo-o duvidar se ainda estavam vivos, junto com outro velho inútil bebendo álcool tranquilamente no fim da fila…

— Dei… — Ele conseguiu se conter de gritar para os guardas deixarem esses idosos passarem imediatamente, mas o suor começou a escorrer por todo seu corpo.

P-por que o Mestre Sazaki está aqui?! Aldrick ficou completamente atônito. E não é só ele! Aqueles dois… devem ser o grande Herói e sua esposa! Aldrick na verdade conhecia não só Sazaki, mas Ferd e Elrica também. Mas diferente de Sazaki, que visitava a cidade de vez em quando, Aldrick só encontrou Ferd e Elrica uma vez quando novo. No entanto, seu mentor lhe disse que o velho Herói estava em viagem, e as pessoas ao lado de Sazaki pareciam vagamente familiares, então ele tinha certeza de que eram o Herói e a esposa.

Meu mentor me disse para deixá-los em paz se eu os visse, mas não posso exatamente…

Não, seria errado da minha parte me intrometer nos assuntos privados deles… Aldrick entendia que havia diferença de status entre as pessoas que literalmente salvaram o mundo e ele mesmo, e alguém que se destacou numa era relativamente pacífica, então considerava o casal cambaleante bem acima dele.

P-preciso de um autógrafo… Não! No que eu estou pensando?! Aldrick estava atordoado.

Pessoas atualmente na casa dos setenta nasceram na época da batalha final entre mortais e o Rei Demônio Supremo, ou depois que o grupo do Herói efetivamente se dissolveu, então sua geração não participou da grande guerra. No entanto, como cresceram ouvindo a saga heroica do grupo do Herói, havia um grande número de fãs dos heróis entre sua geração.

Aldrick era um desses fãs, e quando criança brincava de ser o Herói com uma espada e escudo de madeira na mão. Então agora, um homem de setenta e poucos anos estava encarando o frágil casal de quase noventa anos com estrelas nos olhos, criando uma cena um tanto bizarra. Vale mencionar que o nível Abissal de Aldrick era o nível mais alto de mago na era atual, com certas exceções, então ele tinha tratamento excelente garantido não importava que reino visitasse. Além disso, era uma figura prestigiosa que até qualificava-se para participar do Conselho de Magia, uma honra concedida apenas a magos de alto escalão selecionados do mundo inteiro.

Se não fosse pelo meu trabalho! No entanto, Aldrick foi chamado para o dito Conselho, então não tinha tempo sobrando. Além disso, os heróis pareciam estar tentando evitar atenção, então hesitava em chamá-los. Assim, acabou indo trabalhar, sem conseguir fazer nada sobre a situação.

Mas deixemos Aldrick de lado por um momento. Enquanto isso…

— Ferd, Elrica e aquele meu marido idiota chegaram, hein?

Numa pequena loja de grimórios, um lugar que apenas poucos conseguiam perceber, uma senhora de pele morena, que um dia fora absolutamente deslumbrante, estreitou seus olhos heterocrômicos vermelho-e-azul e murmurou para si mesma com divertimento. Dentro de sua mesa havia uma carta enviada pelos amigos, informando que passariam para vê-la, além do que era, na prática, uma carta de amor de seu marido, rotulada como sua última vontade e testamento. Ela era Lara, a Bruxa que um dia fizera parte do grupo do Herói.

◆◆◆

Clovis, o espadachim.

Indivíduo perfeito ou mero condutor de técnicas herdadas? As opiniões de qual está correto variam de guerreiro para guerreiro. Pelo menos, nenhum dos colegas discípulos de Clovis o menospreza.

Carl, aquele com potencial.

Futuro. Potencial. Ah, que palavras maravilhosas. Mas também tão terríveis.

Sazaki, o Mestre da Lâmina Veloz.

Enquanto balançava uma garrafa de bebida vazia, o jovem Sazaki chegou a uma hipótese verdadeiramente infantil. Se conseguisse balançar a espada mais rápido que qualquer um, isso não o tornaria um dos mais fortes? No fim das contas, ele estava certo.

 


 

Tradução: Rlc

Revisão: Pride

 

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