Aquela era a essência do mistério — de como Zeppos e o imperador haviam retornado como lacaios, quando deveriam estar mortos. Provavelmente havia — não, definitivamente — a mesma coisa dentro da cabeça do imperador que se relacionava a ele da mesma maneira, dando a seu corpo de argila uma personalidade e uma memória.
— Tie…se… — murmurou Ronie, até mesmo seus lábios começando a perder a capacidade de se mover.
“Corte a cabeça do imperador. É assim que você o derrota.”
Mas ela não conseguia pronunciar as palavras. Tiese a estava segurando com uma mão, com a espada cravada no chão, e remexendo em sua própria bolsa. Ela estava priorizando o antídoto de Ronie em vez de parar o imperador. Ronie não podia culpá-la — ela estaria fazendo o mesmo naquela situação.
No fundo de seu capuz rebaixado, o Imperador Cruiga sorriu, ou assim Ronie sentiu. Não havia um pingo de empatia pela segunda morte de Zeppos, o homem que o servira por tantos anos.
— Conectar Todos os Circuitos! Abrir Portal! — gritou o imperador com uma voz como um sino rachado, jogando as mãos ao mais alto que pôde e inclinando seu corpo alto e magro para trás.
Ela não tinha ideia do que aquelas palavras significavam. Mas, atingida por uma espécie de intuição, Ronie fez o seu melhor para erguer o pescoço através da dormência.
O teto alto do grande salão era pintado de preto. Várias lanternas decorativas de aparência cara pendiam dele, mas não estavam acesas. Mas o que chamou a atenção de Ronie foi algo no centro daquele teto — um buraco circular diretamente sobre onde os goblins estavam deitados.
Tinha cerca de trinta cens de diâmetro. O trabalho não era bem feito; era grosseiro, com pontas de madeira quebradas visíveis ao longo das bordas. Parecia que o chão do quarto de cima havia sido rompido com um machado.
“Por que eles fariam uma coisa dessas?”, pensou ela. Em segundos, essa curiosidade se transformou em horror.
Através do buraco, pulsava algo preto e brilhante. Algo viscoso, algo lamacento. Era muito semelhante ao material argiloso que compunha o corpo de Zeppos.
Para o choque de Ronie e Tiese, a substância argilosa preta desceu do buraco. Moveu-se como se estivesse sendo empurrada por alguma grande força ou estivesse escorrendo por vontade própria. O líquido se avolumou como um balão, pulsou, se contorceu — e então explodiu com um som horrível.
Caiu no chão como uma cachoeira preta como piche, envolvendo instantaneamente os três goblins da montanha e formando uma cobertura sobre eles diante dos olhos de Ronie e Tiese. Uma vez que a pilha de material tinha mais de dois mels de altura, parou de jorrar de cima, mas suas pulsações vitais não pararam. Começou a tremer e a se agitar com os goblins envoltos dentro.
— …!
Tiese gritou internamente e recuou apressadamente, ainda segurando Ronie.
O veneno se espalhara por todo o seu corpo; a única coisa que ela podia fazer agora era segurar firme o cabo de sua espada com os dedos dormentes. Se o veneno daquela faca fosse fatal, então seu corpo deveria estar perdendo vida rapidamente, mas as sensações estavam tão dormentes que ela não conseguia nem sentir dor.
Ela precisava da arte de cura imediatamente, mas Ronie não conseguia tirar os olhos da massa negra que se contorcia. A pilha amorfa tremeu e se separou em três partes. As extremidades estendidas do líquido engoliram o anel de velas, apagando as chamas uma a uma.
Agora, a única luz no grande salão era a pouca luz do sol que entrava pela janela quebrada — e a porta para o corredor que Ronie chutara. Ambas as fontes eram fracas e mal alcançavam o centro da sala.
Elas observaram com choque enquanto a substância, agora um trio de sombras, crescia ainda mais em formas humanoides. Suas metades superiores se avolumavam com músculos, grossos e cordados. Seus braços eram anormalmente longos. Pernas curvadas como as de cabras. Asas dobradas em suas costas e caudas que se arrastavam até o chão.
Pareciam muito com os lacaios que ela vira no Palácio de Obsidia, exceto por uma grande diferença: os lacaios verdadeiros tinham bocas circulares na ponta de cabeças longas e estendidas, como enguias do pântano, com um par de olhos de cada lado. Mas as cabeças desses monstros eram muito mais humanas, com narizes pontudos e orelhas pontudas e apenas os dois olhos, semicerrados.
— Aqueles rostos… São eles… goblins…? — murmurou Tiese. Os monstros de fato se pareciam muito com goblins da montanha, mas sem nenhum do charme roedor. Quando abriram a boca, dentes afiados e brilhantes emergiram. Dois chifres cresceram de suas cabeças sem pelos.
Agora ela se lembrava do que Zeppos dissera minutos antes.
Vocês serão parceiros de treinamento de combate perfeito para os goblins, mas eles não conseguem passar por aquela pequena passagem, é claro.
Se os três lacaios eram o resultado transformado dos três goblins sendo tomados pela arte sagrada do imperador e pela substância negra, então era verdade que eles não caberiam mais no espaço para poder descer de volta pelas escadas até o porão. Eles tinham dois mels e meio de altura agora, e se eles esticassem completamente suas pernas dobradas, suas cabeças poderiam alcançar o teto.
Muito provavelmente, Zeppos e o imperador, após morrerem na Rebelião dos Quatro Impérios, foram colocados dentro daquela substância negra também, e assim voltaram à vida como lacaios. Os três goblins estavam vivos quando foram absorvidos, transformando-se assim em lacaios gigantescos.
Tinha que haver um mal ainda maior por trás desses fenômenos. Alguém usara os restos do imperador para trazê-lo de volta e o ensinara a fabricar esses lacaios. E essa pessoa, quem quer que fosse, tinha que ser a chave entre a série de eventos no Reino Humano e quem quer que tenha realizado o sequestro em Obsidia.
Mas, neste exato momento, a principal prioridade era encontrar uma maneira de devolver os goblins às suas formas originais.
Se elas destruíssem esses lacaios da mesma forma que Zeppos, os goblins dentro certamente morreriam também. Elas precisavam quebrar a argila negra sem ferir os goblins. Isso seria possível jogando elementos de luz suficientes nela, mas dez ou vinte não seriam nem de longe o suficiente. E não poderia haver tanto poder sagrado sobrando neste salão.
— Ronie, beba isso — disse uma voz sussurrante. Uma pequena garrafa tocou seus lábios. Ela pensou que era um elixir para recuperar sua vida, mas o cheiro era diferente. Enquanto Ronie ponderava o que fazer, Tiese estava ocupada criando um antídoto com reagentes e artes sagradas.
O líquido que escorria para sua boca era poderosamente amargo, mas um gole já fez sua língua formigar com a sensação novamente. Como Tiese determinara com que tipo de veneno Ronie fora afligida, no entanto?
Sua parceira viu a pergunta em seus olhos e sussurrou:
— Acho que aquela faca é de aço envenenado de Ruberyl. É a primeira vez que a vejo pessoalmente, mas a cor é exatamente como Lady Linel descreveu.
Ronie piscou para dizer: “Então era isso”.
Os Cavaleiros da Integridade Linel Synthesis Vinte e Oito e Fizel Synthesis Vinte e Nove uma vez tentaram paralisar e matar Kirito e Eugeo com lâminas envenenadas. Agora elas eram cavaleiros seniores confiáveis e davam todos os tipos de conselhos interessantes que os outros cavaleiros não davam. Em algum momento, elas devem ter ensinado a Tiese sobre a adaga envenenada.
Enquanto a paralisia desaparecia de sua boca e mandíbula, Ronie conseguiu se esforçar para sussurrar.
— Tiese… Não mate… os lacaios. Temos que salvar… os goblins.
— …Eu sei — disse Tiese com determinação, olhando para a janela quebrada. — Mas não tenho a capacidade de derreter três lacaios com elementos de luz. Assim que você puder se mover novamente, vamos tirá-la daqui.
— …Mas…
Se elas escapassem, então o imperador e seus lacaios poderiam desaparecer. Eles poderiam não conseguir passar pela passagem subterrânea, mas os lacaios podiam voar. Seria impossível persegui-los sem dragões.
— Eu sei. Mas é a única coisa que podemos fazer — disse Tiese, com a expressão dolorida. Ela se inclinou perto do ouvido de Ronie. — Se as artes não funcionassem, e tivéssemos que usar nossas espadas neles… ainda não poderíamos cortar aqueles lacaios.
— …!!
Ronie ofegou com o pouco de força que lhe restava.
Era verdade. Os lacaios eram os goblins. Cortá-los significava matá-los, então mesmo que determinassem que não tinham outra escolha a não ser fazê-lo, seus corpos poderiam não obedecer à ordem da mente. Era o Selo do Olho Direito, afinal.
Mas isso não se aplicava apenas às garotas. Os outros Cavaleiros da Integridade e os soldados do Exército de Guardiões Humanos estavam sujeitos à mesma regra: “Não deveis ferir os demi-humanos, pelo bem da paz de ambos os reinos.” Então, qualquer um deles estaria preso na mesma situação.
E se não fossem apenas os três? E se dezenas — centenas — de demi-humanos transformados em lacaios atacassem Centoria de uma só vez? A Ordem dos Cavaleiros da Integridade seria incapaz de combatê-los.
Na verdade, algo ainda pior poderia acontecer.
A razão pela qual o Imperador Cruiga e Zeppos sequestraram os goblins e os transformaram em lacaios foi para iniciar uma nova guerra entre o Reino Humano e o Território das Trevas. Se esses lacaios atacassem Centoria e matassem várias pessoas, apenas para serem posteriormente identificados como goblins, o efeito seria muito pior do que o assassinato de Yazen. Fúria e ódio que eclipsariam completamente os da Guerra do Outromundo surgiriam, e os humanos buscariam invadir o Território das Trevas desta vez.
Para evitar essa ruptura permanente nas relações, alguns dos cavaleiros poderiam ser capazes de suprimir seus selos do olho direito e derrotar os lacaios.
Mas e se o imperador e quem quer que estivesse por trás dele não quisessem fazer os dois mundos lutarem, mas simplesmente desejassem destruir a paz atual — para pôr fim ao governo do Conselho de Unificação?
Eles não tentariam transformar seres humanos em lacaios em vez de não-humanos?
No máximo, havia duzentos ou trezentos visitantes do Território das Trevas presentes no reino. Mesmo que sequestrassem cada um deles, havia um limite para o número de lacaios que poderiam fazer. Mas a população dos impérios era de mais de oitenta mil. Contanto que tivessem o suficiente daquele material de argila, eles tinham todas as fontes humanas de que precisavam.
Contra humanos dos impérios transformados em lacaios, nenhum dos Cavaleiros da Integridade poderia fazer nada.
Após pacificar o Conselho com um exército de lacaios, eles poderiam liderar um exército para o Território das Trevas e exterminar o Exército das Trevas também. Seria o retorno do grande plano da Administradora de soldados-espada.
Em um piscar de olhos, Ronie teve sua ideia. Ela encarou a sombra do Imperador Cruiga entre os três lacaios imóveis.
Ele estava com um joelho no chão, aparentemente exausto de uma arte sagrada tão longa. Mas a aura invisível do mal que emanava de seu manto preto não estava diluída nem um pouco. Era malícia pura, igual ou até mesmo além da do sequestrador que tentou matar a pequena Leazetta no Palácio de Obsidia.
Elas não podiam deixar este homem escapar.
E em reação à sua determinação, o imperador se moveu. Ele se levantou cambaleante e passou pelos lacaios, que estavam em modo de espera, para ficar de frente para Ronie e Tiese.
— …Não conheço seu estilo, mas foi uma técnica impressionante, garota.
Ronie ficou tão surpresa com essas palavras que não teve resposta no momento. Mas o imperador não esperou por uma. De seu capuz, a voz rouca continuou.
— Posso ver como você conseguiu me matar e cortar o braço esquerdo de Hozaika.
Era arrepiante ouvi-lo dizer “você conseguiu me matar” tão naturalmente, mas ela não reconheceu o outro nome. Ou mais precisamente, parecia familiar, mas ela não conseguia situá-lo.
Mas enquanto Ronie lutava para se lembrar, Tiese ofegou. O braço que segurava Ronie se tencionou.
— Hozaika Eastavarieth…?
— Ninguém menos. Suponho que ele não se apresentou a você, então. — Finalmente, Ronie percebeu de quem era aquele nome.
O imperador de Eastavarieth, que pereceu na Rebelião dos Quatro Impérios.
Mas Cruiga estava sob alguma impressão equivocada. A batalha em que lutaram um ano atrás foi no palácio de Centoria do Norte. Elas nunca estiveram em Centoria Leste. Foram Nergius e Entokia que invadiram o palácio de Centoria Leste e derrubaram o Imperador Hozaika.
E, além disso, em toda a sua vida, Ronie só havia cortado três seres humanos com suas técnicas de espada, incluindo o recém-falecido Zeppos. O primeiro foi o Imperador Cruiga, e o segundo foi o sequestrador de manto no último andar do Palácio de Obsidia.
Assim como, minutos atrás, Ronie usara o Salto Sônico para avançar sobre o sequestrador e cortar seu braço esquerdo.
Braço esquerdo…
Graças ao antídoto, a pele de Ronie estava recuperando a sensibilidade, e agora ela sentiu os pelos se arrepiarem por todo o corpo, dos dedos dos pés à nuca. Ela podia ouvir a voz do sequestrador, fraca em seus ouvidos.
— Ah, então foi o Delegado Espadachim que cortou a corrente. Você é mais problemático do que as histórias dizem.
Agora ela percebeu que, se o sequestrador fosse do Território das Trevas, ele não teria ouvido falar do Delegado Espadachim. As duas visitas anteriores de Kirito a Obsidia foram em segredo; as pessoas na cidade nunca o viram.
— V-você quer dizer… — ofegou ela, forçando sua garganta seca, tentando decifrar as palavras do imperador. — Você quer dizer que o sequestrador em Obsidia era o Imperador de Eastavarieth, ressuscitado como um lacaio assim como você…?
O bigode pontudo de Cruiga se contraiu de alegria.
— Você nunca encontrou o corpo de Hozaika, não é? — disse ele. Antes que Ronie pudesse responder, ele acenou com a mão. — Não tema, ele está morto. Quando atingiu o chão, seu corpo se desfez em nada… assim como o de Zeppos.
Ele estava admitindo que o sequestrador era tanto o Imperador Hozaika quanto um lacaio. Mas isso a deixou com uma nova pergunta.
— …Por que você saberia disso? Você deveria estar aqui o tempo todo — perguntou Tiese, não Ronie.
O Imperador Cruiga respondeu a ela não com palavras, mas abrindo seu manto.
Pendurada em uma delicada corrente sobre seu peito estava uma joia vermelha brilhante, da cor de sangue mesmo na escuridão. Era exatamente a mesma que o sequestrador, o Imperador Hozaika, usava em volta do pescoço também.
— A trama de Hozaika falhou, e ele morreu novamente. Com seu receptáculo quebrado, ele não voltará. Mas eu recebi o que ele viu e ouviu, para servir de base para o próximo plano… Você entende agora? Esses lacaios do tipo fusão fazem parte disso… Em sua forma original, aprendemos, eles não parariam vocês, cavaleiros.
Ele estendeu a mão para acariciar o braço musculoso de um lacaio com grande satisfação.
Apesar da sucessão de choques, surpresas e horrores, Ronie tentou ao máximo pensar.
O “receptáculo” que ele mencionou era provavelmente a insígnia que saiu da cabeça de Zeppos. Ela não tinha ideia de como funcionava, mas era claramente um elemento vital do método de ressurreição do corpo-lacaio.
O Imperador Hozaika caíra da janela no último andar do Palácio de Obsidia depois que Sheyta e Ronie deceparam seus braços. Elas não encontraram seu corpo, não porque ele voou para escapar, mas porque a queda esmagou seu receptáculo e fez seu corpo de argila se dissolver.
Mas se ela tomasse a declaração de Cruiga como verdade, a joia vermelha em volta do pescoço de Hozaika sobreviveu à queda. E, por algum meio, ela viajou três mil quilômetros de Obsidia a Norlangarth, onde deu a Cruiga todas as memórias e conhecimentos de Hozaika.
Se toda essa conjectura estivesse correta, então aquela joia vermelha era o cerne da trama massiva que ameaçava engolir ambos os mundos.
Enquanto o veneno paralisante se dissipava e sua mão podia se mover novamente, Ronie apertou sua espada com força.
Elas não podiam fugir agora. E mesmo que derrotassem o Imperador Cruiga, se a joia desaparecesse em algum lugar, toda aquela malícia acumulada certamente reapareceria em outro lugar.
— Tiese… encontre uma maneira de atrair esses lacaios para longe por trinta segundos — sussurrou ela, tão baixo que até ela mal conseguia ouvir. — Se eu matar o imperador, pode devolver os goblins ao normal.
Era uma esperança tênue, mas se aquele que os controlava se fosse, poderia pelo menos comprar-lhes um pouco de tempo.
O problema era que, embora o veneno estivesse passando, a ferida no peito de seu pé não estava curada. Um passo forte e firme era uma parte crucial da luta de espadas, e ela teria apenas uma ou duas chances de atacar com sua força máxima. De uma forma ou de outra, ela tinha que fazê-lo.
— …Entendido — sussurrou Tiese por cima do ombro, no mesmo volume.
Ela mexeu todos os dedos das mãos e dos pés uma última vez, apenas para confirmar que podia senti-los novamente. As respostas longas e úteis do imperador lhe deram tempo suficiente para o antídoto se espalhar, mas também o ajudaram. O imperador se recuperara de sua exaustão mental — como quer que se definisse a “mente” que existia na cabeça de um lacaio feito de argila e lama compactada — e agora a pele dos lacaios do tipo fusão brilhava com uma textura que parecia muito mais dura do que quando recém-acabada.
Cruiga deu um tapinha no braço do lacaio novamente e assentiu com satisfação.
— Agora, meu plano era que Zeppos fosse seu parceiro de treinamento de combate, mas ele já pereceu. Vocês terão que assumir essa responsabilidade — disse ele, recuando.
O tipo original de lacaio que o Imperador Hozaika usara em Obsidia obedecia apenas a um número limitado de comandos muito simples nas línguas sagrada ou sombria. Seu intelecto estava no nível de uma besta selvagem, e eles não podiam igualar a complexidade da combinação de técnicas de espada e artes sagradas de um Cavaleiro da Integridade. Na Guerra do Outromundo, o estoque de oitocentos lacaios da Guilda dos Magos Sombrios não conseguiu reconhecer a armadilha de Controle Total da Arma de Bercouli, que os obliterara em um único instante.
Quaisquer melhorias que este lacaio do tipo fusão adquirisse ao absorver os goblins provavelmente se encontravam nesta categoria, então. Eles certamente seriam capazes de entender ordens mais avançadas e complexas. Mas levaria tempo para ele dar muitas ordens, é claro. Essa seria sua chance de derrubar o inimigo.
Atrás da linha de lacaios, o Imperador Cruiga ergueu o braço, como se estivesse dando ordens a soldados imperiais.
— Lacaios! Matem essas duas garotas! Ativar!!
Foi tudo o que ele disse. Uma ordem curta na língua comum e depois uma palavra sagrada para encerrar.
Houve um som vibratório, e os olhos dos lacaios brilharam em vermelho. Os dois à direita e à esquerda de repente entraram em ação, tão rápido que suas enormes formas não passavam de um borrão. O lacaio esquerdo saltou em direção à janela quebrada, e o outro assumiu uma posição diante das portas abertas.
Ronie e Tiese estavam presas dentro do grande salão. Para cumprir suas ordens de matar, os lacaios reconheceram que não podiam deixar seus alvos escaparem e bloquearam os dois locais que serviam como rotas de fuga.
Isso deixou claro para Ronie que suas expectativas estavam erradas: a inteligência dos lacaios fundidos ia muito além de apenas aceitar ordens complexas — eles podiam avaliar uma situação e agir por conta própria.
Com as rotas de fuga bloqueadas, apenas um monstro ainda estava entre ela e o Imperador Cruiga. Ela não podia cortar o lacaio por causa do goblin inocente preso dentro dele, mas ela podia evitar seus ataques e mirar no imperador.
“Tiese!”, pensou ela, enviando um sinal mental para sua parceira. O braço que a apoiava empurrou Ronie para a frente. Com o pé ferido, ela saltou do chão. Sangue fresco jorrou de sua bota e joelho, e a dor entorpecida voltou rugindo como um atiçador quente, mas ela rangeu os dentes e suportou.
As duas cavaleiras avançaram juntas com velocidade elétrica, mas a reação do lacaio foi inacreditavelmente ágil. Seu longo braço direito, como um tronco de trinta cens de espessura, veio rugindo em sua direção em um golpe vicioso. Havia dedos em forma de foice na ponta que certamente cortariam seus corpos em pedaços se as atingissem.
Mas Ronie antecipou este ataque.
Não importava o quão avançados fossem esses lacaios de fusão, sua forma geral não era tão diferente dos lacaios originais. Isso significava que, como os originais, sua principal arma eram suas garras.
— Krrhh! — ela grunhiu através dos dentes cerrados, atraindo aqueles ganchos perversamente afiados para se lançarem o mais longe possível e puxando-se para trás na cintura pouco antes de onde eles se conectariam.
Ela deslizou pelo chão sobre as pernas, evitando o golpe. A garra do dedo mínimo roçou seu cabelo enquanto ele balançava frouxamente, cortando três cens da ponta, mas isso foi um preço pequeno a pagar.
Tendo errado com seu golpe de força total, o ímpeto do lacaio o girou para a esquerda, expondo suas costas para Ronie. Como a forma de um lacaio era humanoide, ele não podia atacar daquela posição. Ela se levantou novamente, agarrando o atrito do tapete com o pé esquerdo; Cruiga estava a apenas sete mels na frente dela.
Estava ao alcance do Salto Sônico. Um bom ataque poderia cortar sua cabeça para quebrar o receptáculo dentro dela, bem como a joia vermelha que pendia sobre seu peito, e tudo isso acabaria.
Ela empurrou com força o pé direito ensanguentado mais uma vez, ergueu sua Espada Raio de Luar para o ataque — e então algo preto, longo e fino saltou abruptamente do chão escurecido como um chicote. Foi direto para a garganta de Ronie com uma velocidade inacreditável.
Por pura reação, ela ergueu o braço esquerdo para proteger o pescoço. Em um centésimo de segundo, o chicote preto atingiu seu antebraço. É a cauda do lacaio.
Com o ímpeto de seu giro completo, o lacaio de fusão usou a única arma que tinha na parte traseira — sua cauda — para girar com uma velocidade ainda maior do que seu braço.
A percepção de Ronie veio no mesmo instante em que seu antebraço esquerdo se partiu. E a cauda, que poderia muito bem ter sido tecida em torno de uma haste de metal, continuou seu ímpeto em seu peito, lançando-a no ar e empurrando-a para trás com uma força tremenda.
Ela voou mais de dez mels pelo ar, bateu na parede com as costas e caiu no chão com o rebote.
Sua visão escureceu. Ela não conseguia respirar. Várias costelas foram quebradas além de seu braço, mas o choque em todo o seu corpo foi tão massivo que ela não conseguia nem sentir a dor.
Ela tinha que se levantar, mas seu corpo não obedecia. Apesar de sua armadura de metal, que era admitidamente do lado leve, o único golpe derrubara sua vida para um território perigosamente baixo.
— Ronieeee!!
Em algum lugar, Tiese gritava seu nome. Com toda a sua força, ela ergueu o rosto do chão, tentando ver através de olhos que se desvaneciam.
À esquerda, ela podia ver vagamente sua parceira correndo em sua direção. E à direita, uma sombra gigantesca avançando com grande velocidade.
— …Tiese… corra!
Mas não havia força em sua garganta. Apenas ar saiu.
Tiese notou o lacaio correndo atrás dela e parou para revidar. Mas no momento em que ela puxou sua Espada de Dotação Padrão, ela parou de forma antinatural.
Era o selo do olho direito entrando em efeito. O ferimento de Ronie a fizera se esquecer momentaneamente, mas quando ela tentara atacar o lacaio, lembrou-se de que havia um goblin preso dentro dele.
Até este ponto em sua vida, Ronie nunca ativara o selo. Mas ela ouvira que a dor que causava era como se sua alma estivesse sendo partida. Pelo que sabia, os únicos que já haviam superado o selo por vontade própria foram Eugeo; Alice; Lilpilin, chefe dos orcs; e o Comandante Iskahn, que arrancou seu próprio olho para removê-lo.
Enquanto Tiese estava imobilizada por aquela terrível agonia, o lacaio a atingiu com força total. Quatro rastros de sangue jorraram no ar, e Ronie esqueceu sua própria dor por um momento enquanto soltava um grito silencioso.
O corpo de Tiese se chocou contra o chão e quicou uma vez antes de rolar para perto de Ronie. Seus olhos estavam fechados; ela parecia estar inconsciente. Sangue escorria das feridas onde as garras do lacaio haviam rasgado sua carne.
— Tie…se…!!!
Havia sangue pingando da boca de Ronie também, enquanto ela se arrastava desesperadamente em direção à sua parceira, estendendo o braço quebrado para colocar a palma da mão na pele de sua amiga. Se ela não lançasse uma arte de cura de elemento de luz agora, Tiese iria morrer.
— Chama… Sis…ll… — disse ela, mas não havia volume suficiente por trás de sua voz, e o comando não foi ativado. Sua mão estava vermelha até o pulso onde ela pressionava contra a ferida de Tiese.
Os Cavaleiros da Integridade tinham níveis de autoridade de equipamento e magia muito mais altos do que os soldados do exército regular, bem como a força e a resistência avassaladoras que esses níveis de autoridade conferiam, mas seu valor de vida ainda não era muito diferente do de uma pessoa comum. Os Cavaleiros de Elite mais resistentes tinham um nível de cerca de cinco mil, e Ronie e Tiese, de dezessete anos, estavam apenas em três mil.
Ela não precisava ser capaz de falar para abrir a Janela de Stacia; isso exigia apenas o gesto sagrado. Mas Ronie não tinha coragem de ver o número de Tiese agora. Com os olhos marejados, ela manteve a pressão na ferida e tentou repetidamente invocar o comando da arte.
Houve um som tinindo no outro extremo da sala; era o lacaio que as derrubara para um estado de quase-morte, pegando a espada de Tiese do chão e a arremessando para longe.
Os outros dois permaneceram em seus postos de guarda sem se mover. Devem ter determinado que um deles seria mais do que suficiente para matar as duas garotas. Com passos seguros e cuidadosos, o lacaio livre se aproximou, pronto para terminar o trabalho.
— Heh-heh-heh… heh-ha-ha-ha-ha-ha! — O Imperador Cruiga riu do centro da sala. — Esplêndido! Apenas um deles é tão poderoso, e a partir da fusão com um goblin reles. Acontece que quanto mais sangue e ossos você derrama no chão, mais forte um lacaio ele cria. Isso está além do que eu poderia ter imaginado. Devo oferecer louvor aos meus servos, eles se dedicam ao meu aprimoramento mesmo após a morte. Ha-ha-ha-ha-ha-ha!
Neste ponto, Ronie não conseguia nem processar o significado do que estava ouvindo. Sua visão escurecia a cada momento. A risada do imperador estava desaparecendo. A única sensação que ela ainda podia sentir era o sangue de Tiese em sua mão esquerda. Mesmo esse calor estava indo embora, momento a momento.
O lacaio estava diante delas agora. Ele ergueu ambos os braços. E nesse momento, ela sentiu um calor tênue em sua mão direita. A princípio, ela não sabia o que estava segurando. Era couro duro e fino, enrolado no… cabo da Espada Raio de Luar. Ba-bump, ba-bump! Seu calor pulsava, falando com ela. “Liberte-me!”, estava dizendo.
Mas ela não podia fazer isso. A Espada Raio de Luar era uma arma de alta prioridade muito fina, mas não era um Objeto Divino. Um Objeto Divino não era forjado de metal refinado por pessoas. Era feito de fontes lendárias, como Bestas Divinas, pássaros e árvores. Era por isso que cada um deles tinha suas próprias memórias únicas e podia forjar uma conexão pessoal com seu mestre. Mas um ferreiro humano forjara a Espada Raio de Luar, então ela não tinha memória de uma vida anterior. Ela poderia usá-la tanto que se tornaria uma extensão de sua própria mão e braço, mas nunca poderia produzir um fenômeno além disso.
“Não pode. Não pode…”
As palavras se repetiam em sua mente, repetidamente, enquanto o próprio tempo se achatava, tornando-se mais fino e longo diante da morte de Ronie e Tiese. Mas então ela achou que ouviu uma nova voz.
“Não são apenas espadas. Roupas, sapatos, talheres… mesmo um único elemento invocado por artes sagradas responderá ao seu chamado, se seu coração e mente estiverem conectados a ele. Até mesmo pessoas, eu aposto!”
Era algo que ela ouvira antes, em um passado distante, do falecido Eugeo.
“Conectando corações.”
Foi Ronie, a mestra, quem decidiu que a Espada Raio de Luar não poderia ter um coração. Mas, refletindo, quando a Subdelegada Espadachim Asuna lhe apresentou três espadas e lhe disse para escolher uma, Ronie não escolheu por si mesma, mas permitiu que as espadas a escolhessem. Foi esta espada, com o pomo de prata em forma de lua crescente, que se atraiu para a palma de sua mão.
E agora que a vida de sua mestra estava em perigo, a espada que ela nomeara Raio de Luar estava falando com ela, tentando salvá-la. Dizendo-lhe para confiar nela, conectar-se a ela e liberar sua memória.
O calor em sua mão direita vindo do cabo e o calor em sua mão esquerda vindo do sangue de Tiese viajaram para o centro de seu corpo, e Ronie usou toda essa escassa força para gritar:
— Aprimorar Armamento!
Ou, pelo menos, ela queria gritar. O que saiu foi tão fraco e baixo que nem ela mesma conseguiu ouvir.
Mas a espada — e as próprias leis do mundo — responderam ao seu chamado. Do pomo da espada surgiu uma luz prateada impossivelmente brilhante. O lacaio parou no processo de abaixar suas garras e soltou um grito agudo enquanto a luz avançava, saltando para longe. Os outros dois lacaios e até mesmo o Imperador gargalhando cobriram os olhos e se contorceram.
Ao mesmo tempo, Ronie pôde sentir a dor diminuindo em seu braço quebrado e pé ferido. O sangue que jorrava das feridas de Tiese estava parando rapidamente também.
— Controle Total da Arma.
A verdadeira e essencial técnica de Encarnação, o poder que apenas cavaleiros seniores com armas divinas podiam empunhar.
Muito provavelmente, a Espada Raio de Luar estava gastando sua própria vida na forma de luz fantasmagórica, uma espécie de versão aumentada das artes de cura de elemento de luz. Era um tipo muito simples de Controle Total da Arma, no que diz respeito a essas coisas, mas para Ronie, que fora uma aprendiz de cavaleiro por menos de um ano, ativá-lo sem um treinamento significativo era um verdadeiro milagre.
A arma brilhou por mais de dez segundos antes que a luz lentamente começasse a diminuir, piscasse e, eventualmente, se extinguisse. Os cortes profundos no tronco de Tiese pararam de sangrar, e seu rosto estava recuperando um toque de cor. Mas ela não estava acordando, e o braço e a perna de Ronie não estavam completamente curados também.
Os três lacaios, enquanto isso, estavam fumegando onde a luz tocara seus corpos, mas não haviam se dissolvido completamente. O dano era apenas superficial, e eles provavelmente se recuperariam a qualquer momento.
Ela queria impedir que o imperador escapasse, mas não ao custo da vida de Tiese. Elas tinham que sair do salão — não, da mansão — antes que os lacaios começassem a atacar novamente.
Reunindo toda a força de vontade que a espada lhe dera, Ronie se levantou, embalando Tiese com a mão esquerda. A porta dupla do salão era uma saída maior, mas ela não conseguiria escapar se os lacaios a seguissem. A única opção era passar pela janela quebrada para o jardim da frente.
— Aguente firme só mais um pouco, Tiese! — sussurrou ela para sua amiga em coma, começando a correr em direção à janela, a quinze mels de distância.
A cada passo, a dor explodia em seu braço e pé como faíscas. Logo ficou difícil respirar, e o ar sibilava por seus pulmões.
Dez mels para ir. Oito. Sete…
— Lacaios, bloqueiem a janela! — gritou o Imperador Cruiga, recuperado do dano da luz fantasmagórica.
— Shrohhhh!!
O lacaio enrolado perto da janela quebrada uivou, sua voz ao mesmo tempo reminiscente e completamente estranha ao som dos goblins da montanha. Ele se postou diante da rota de fuga, estendendo os braços e as asas. A rota de fuga estava agora totalmente bloqueada, assim como a luz do pôr do sol.
Atrás delas, os outros dois lacaios uivaram também. Para escapar, aquele diante da janela teria que ser eliminado. Mas Ronie não podia atacar as fusões. Mesmo que quisesse cortar uma perna para imobilizá-lo, o selo do olho direito seria ativado e a congelaria, como fizera com Tiese.
O único método que restava era usar o Controle Total da Arma novamente. Aquela luz curativa queimaria o corpo do lacaio, mas deixaria o goblin dentro ileso. Mas quanto da vida da Espada Raio de Luar restava? Não havia tempo para verificar sua Janela de Stacia.
Se ela tentasse o Controle Total da Arma novamente e gastasse toda a sua vida, a Espada Raio de Luar se estilhaçaria.
Mesmo assim… sua espada a perdoaria por tentar salvar Tiese. Ronie tentou levantar o braço enquanto corria, desesperada.
E então ela ouviu algo.
Algo como inúmeros instrumentos de sopro em harmonia. Como as estrelas que cobriam o céu, cintilando com música. Como centenas e centenas de anjos cantando.
— Laaaaaaaaaaa!
Uma luz arco-íris irrompeu pelo teto do grande salão, acompanhada pelo coro estrondoso.
Uma luz tão pura que não parecia vir desta terra brilhou — mas os lacaios não se sentiram doridos. Seus olhos vermelhos piscaram em confusão enquanto encaravam o teto.
Então uma fina treliça de luzes percorreu aquele teto. Ficou cada vez mais espessa. O próprio teto estava sendo quebrado em dezenas de tábuas, cada uma completamente separada das outras, mas elas não caíram. Flutuaram no ar e depois deslizaram para todas as direções.
Mas o teto não foi a única coisa a ser desmontada. As paredes do andar de cima, o telhado, até mesmo os móveis foram envoltos na luz cintilante, movendo-se silenciosamente para longe de seus locais originais. Era como se a casa fosse construída de blocos de madeira cuidadosamente montados que estavam se desmoronando para fora em vez de para dentro.
As ondas de destruição alcançaram as paredes do primeiro andar. Os edifícios de aparência robusta se desfizeram em pedaços de pedra cinza que deslizaram para fora, para o pátio. As janelas de vidro os seguiram, os painéis completamente separados de suas molduras.
Em menos de vinte segundos, o enorme edifício foi completamente desmontado, deixando apenas o chão. O som dos anjos desapareceu, assim como a luz arco-íris.
E então, com um estrondo monumental, a pletora de materiais flutuantes caiu no chão.
Quando a destruição mais ordenada do mundo foi concluída, Ronie não estava mais dentro da mansão. O tapete escuro ainda estava sob seus pés, mas a única coisa acima era o céu vermelho profundo da noite. O disco ardente de Solus estava parcialmente bloqueado na extremidade inferior pelas Montanhas do Fim, e o vento norte, ainda fresco com o inverno, roçava seus cabelos.
Os três lacaios e o Imperador Cruiga estavam congelados no lugar de choque. Se fossem lacaios originais sem mentes próprias, teriam ignorado a mudança de situação e continuado atacando, mas os lacaios do tipo fusão, mais inteligentes, estavam paradoxalmente paralisados pela confusão.
No entanto, Ronie estava igualmente perplexa. Ela passara de uma tentativa desesperada e condenada de escapar do grande salão, e agora ele — e toda a vila imperial, tão saturada de mal e terror — foram completamente demolidos em questão de segundos. Ela não conseguia entender.
— …Ronie — disse uma voz fraca em seu ouvido esquerdo. Isso foi o suficiente para impulsionar sua mente de volta à atividade. Igualmente rouca, ela respondeu: — Tiese!
Mas sua amiga, que estava consciente novamente, não estava olhando para Ronie. Seus olhos vermelho-bordô estavam fixos em um ponto no céu do sul. A cabeça de Ronie se virou para olhar na mesma direção.
Na fronteira onde o céu passava de amarelo dourado para vermelho, flutuava uma pequena sombra. Era uma — não, duas pessoas. Uma era uma mulher em um vestido perolado, com longos cabelos castanhos que flutuavam ao vento. Em sua mão direita, ela sacara um florete.
E a outra, apoiando-a com uma mão em volta de sua cintura, era um jovem de cabelos pretos vestindo uma simples camisa e calças pretas. A bainha de sua jaqueta se transformara em asas de dragão que batiam lentamente.
Quando Ronie olhou com mais atenção, notou o que estava agarrado no braço esquerdo da mulher: um animal com penas amarelo-pálidas. Um animal com pescoço e cauda longos e pequenas asas. Um dragão bebê.
— Tsukigake!
Sua voz estava trêmula, e quando inspirou, sua garganta tremeu com uma emoção quente. Ela também chamou os nomes das duas pessoas.
— Lady Asuna! Kirito!
A pequena Tsukigake correra com todas as suas forças até Centoria e os chamara. A luz cintilante que destruíra a mansão era nada menos que a habilidade de Manipulação Ilimitada da Paisagem pertencente a Asuna, a única pessoa em todo o Underworld com o poder de Stacia ao seu alcance.
Depois de Ronie e Tiese, o Imperador Cruiga notou a presença das pessoas que o encaravam de uma grande altura. Seus dedos pendentes se curvaram como garras, rangendo e estalando tão alto que até Ronie pôde ouvir.
— …Delegado Espadachim… do Conselho de Unificação Humana. O que você não fará para me confundir?
Sua voz era tão distorcida e rachada que sua própria emissão parecia uma maldição. O manto do imperador se agitou, sua manga balançando enquanto um braço tão fino quanto um galho morto se projetava em direção às pessoas no céu.
— Lacaios! Derrubem aqueles cretinos insolentes!
Os três fusões rapidamente olharam para o céu ao som de sua nova ordem, e suas mandíbulas pontudas se abriram. Além das fileiras de dentes afiados, miasma roxo se contorcia e se condensava.
Seria possível que as fusões tivessem a capacidade de lançar ataques de sopro como os raios de calor dos dragões?
— Eles estão mirando em vocês! — gritou Ronie, mas sua voz ainda era frágil e pequena. Eles não poderiam tê-la ouvido a cem mels de altura no ar.
Mas Kirito reagiu imediatamente após o grito de Ronie, erguendo a mão direita ociosa em direção ao céu. Em seu punho estava uma espada longa preta que brilhava dourada na luz do sol poente. Aquela era a Lâmina do Céu Noturno de Kirito.
O trio de lacaios abriu a boca o mais que pôde, preparando-se para liberar seu sopro de miasma. A vizinhança, de repente, ficou muito mais escura.
A princípio, Ronie pensou que o miasma vindo da boca dos lacaios estava bloqueando a luz do sol. Mas ela imediatamente percebeu que não era o caso. Não era apenas ao redor dos lacaios que estava escurecendo — toda a floresta ao redor da mansão estava mergulhada em uma sombra profunda. O pôr do sol vívido e carmesim se transformara abruptamente na noite roxa escura, completa com estrelas cintilantes.
Até mesmo Solus no horizonte ocidental perdeu toda a sua luz, como se Lunaria tivesse coberto completamente sua passagem.
Mas em meio a essa chegada súbita da noite, havia uma coisa que brilhava mais ferozmente do que antes. Era a Lâmina do Céu Noturno na mão de Kirito. A face da lâmina emitia uma luz dourada tão brilhante que quase não se podia olhar diretamente para ela.
Até mesmo Cruiga ficou surpreso com a chegada de outro fenômeno sobrenatural, este superando em muito o desmantelamento da mansão. Mas ele se recuperou, jogando o braço esquerdo no ar e gritando corajosamente:
— Não se importem com isso! Atirem neles!!
Os lacaios jogaram a cabeça para trás no céu e liberaram o miasma roxo, que brilhava com um brilho muito opaco. Diferente das hastes de calor escaldantes dos dragões, eram esferas que deixavam um rastro para trás. Elas subiram para o céu com um som sinistro como o grito de uma besta selvagem. Kirito desceu a Lâmina do Céu Noturno sobre elas.
A visão de Ronie se encheu de branco. Era tão brilhante que ela não conseguia manter os olhos totalmente abertos, mas forçou o rosto a permanecer no lugar para poder ver por si mesma. A luz vinha de um vasto número de partículas no ar. Os pontos de luz branca pura não tinham calor, mas enchiam o ar por toda parte.
O sopro de miasma continuou subindo, devorando os grãos de luz ao longo do caminho, mas, como um pedaço de gelo jogado em água quente, eles encolheram rapidamente e finalmente se apagaram.
— …São todos… elementos de luz…? — sussurrou Tiese. Ronie assentiu silenciosamente.
A aparência, cor e movimento dos pontos de luz eram exatamente os dos elementos de luz familiares. Mas gerar qualquer elemento, não apenas elementos de luz, era limitado pelo número de dedos do conjurador: dez de cada vez.
E havia milhares… até dezenas de milhares de elementos de luz enchendo o ar neste momento.
Ela podia imaginar como foram gerados. A Lâmina do Céu Noturno de Kirito tinha uma arte de Controle Total da Arma, tecnicamente, era a versão superior disso, Liberação da Memória — que absorvia o poder sagrado diretamente do espaço ao seu redor. Ele usou esse poder para sugar a luz de Solus e transformar aquele vasto poder sagrado em elementos de luz.
Mas os elementos liberados do controle mental de seu conjurador ou desapareciam ou explodiam. Quando se aprende, começa-se mantendo um único elemento em um dedo. Uma vez que se consegue controlar cinco em uma mão, esse um artífice adequado, e um mestre da arte pode controlar todos os dez dedos de uma vez. Ronie e Tiese só conseguiam gerenciar cinco de cada vez agora.
Como ele poderia controlar dez mil desses elementos caprichosos de uma só vez? Ronie simplesmente olhou para as luzes flutuantes maravilhada; pareciam flocos de neve brilhantes por toda parte.
Os lacaios, enquanto isso, abriram a boca novamente para outra rodada de sopro de miasma.
Foi quando as luzes flutuantes começaram a se mover. Como se possuíssem uma única mente, os dez mil pontos fluíram e giraram, envolvendo os três lacaios. Como quando foram expostos à luz fantasmagórica da Espada Raio de Luar, sua pele fumegou e sibilou, exalando fumaça de cheiro fétido. Mas isso não durou muito.
Os corpos cinza-escuros foram permeados pelos elementos de luz até que o brilho vinha de dentro deles — e sem sequer um grito, os monstros horríveis simplesmente se desintegraram em forma líquida.
Enquanto a substância espirrava e voava, ela evaporou no ar, expondo prontamente os goblins da montanha que caíram no chão. Eles estavam inconscientes e sem suas roupas e apetrechos, mas estavam ilesos.
Alguns dos elementos de luz giraram em torno de Ronie e Tiese também, curando suas feridas. Um calor e conforto difíceis de descrever ameaçaram relaxar todo o seu corpo, mas ela se concentrou e permaneceu de pé.
Assim que as fusões desapareceram e as feridas das garotas foram curadas, o céu recuperou sua cor de pôr do sol.
A maioria dos elementos de luz havia expirado, tendo cumprido seu papel, mas as últimas centenas ou mais se organizaram em dez anéis que flutuavam não muito longe do chão. Eles foram colocados em um padrão paralelo subindo verticalmente, formando uma alta gaiola que não prendia ninguém menos que o Imperador Cruiga Norlangarth. Os anéis eram largos o suficiente para não tocar as bordas de seu manto. Se ele se movesse um pouco, os elementos de luz infundiriam seu corpo de argila e o fariam se dissolver também.
À luz do sol poente, um pouco mais vermelho e escuro do que antes, o homem era agora uma sombra completa, seu rosto escondido sob o capuz. Claro, o imperador altivo e orgulhoso nunca se tornaria um prisioneiro manso por escolha.
— Você está de pé, Tiese? — murmurou Ronie.
Sua parceira assentiu energicamente.
— Sim, estou bem agora. Obrigada, Ronie.
— Eu deveria dizer o mesmo. Obrigada, Tiese.
Elas se abraçaram por um momento. Após um rápido exame de seus ferimentos, Ronie viu que restava apenas uma leve cicatriz em seu pé direito e acima do joelho, e seu braço esquerdo e costelas estavam novamente intactos, embora não perfeitamente. Tiese fora ferida ainda pior, mas conseguia se mover novamente sem problemas.
A espada de Tiese estava no lado oposto do chão do grande salão, onde o lacaio a jogara. Ela começou a caminhar para recuperá-la, mas Ronie estendeu a mão para detê-la.
— Você pode pegá-la mais tarde. Não tire os olhos do imperador.
Tiese assentiu, com a expressão tensa. Elas também estavam preocupadas com os goblins da montanha, mas ele poderia tentar lançar alguma arte sobre eles novamente. Ronie se aproximou dos anéis de luz com cuidado, com a espada em punho.
Kirito e Asuna estavam descendo em um arco gracioso do céu acima. O trabalho de Ronie e Tiese era garantir que o imperador não pudesse tentar nenhuma bobagem antes que eles pousassem.
Quando as garotas pararam a três mels de distância da gaiola, a figura de manto preto tremeu.
— Heh-heh, heh-heh-heh-heh!
Era uma risada horrível que se insinuava no ouvido. Ela apontou a espada para ele, mas o imperador não parou de rir.
— Cruiga Norlangarth… seu plano chegou ao fim. Renda-se pacificamente desta vez — disse ela o mais ameaçadoramente possível. Ele parou de rir, mas isso não mudou em nada sua atitude arrogante.
— Esta é uma repetição de um ano atrás, garota. Eu escolhi uma morte de glória então. Você achou que eu me submeteria à indignidade desta vez?
— Você não tem outra escolha.
— Escolha…? Você não entende. Nenhum de vocês entende nada — murmurou o imperador. Seu capuz se inclinou um pouco para cima. Ronie olhou para cima também; Kirito e Asuna estavam logo acima da mansão agora. Apenas dez segundos, talvez, até que pousassem.
“Não vou deixá-lo fazer nada”, disse a si mesma.
Ela não esperava o método que o imperador usou para escapar de sua vigilância.
— Este é um adeus por enquanto, garota. Que nos encontremos novamente! — disse ele, inclinando-se para a frente.
— Ah—!
Tiese ofegou e estendeu a mão, mas não havia nada que pudesse fazer. Os anéis de luz, que não tinham mais de um milice de espessura, cortaram diretamente o manto e o corpo de Cruiga enquanto ele se inclinava através deles. A forma de argila foi fatiada em camadas que caíram ruidosamente no chão em uma pilha, começando de cima.
Onze pedaços pretos derreteram prontamente em uma substância líquida que se espalhou e começou a evaporar. Quando Kirito e Asuna pousaram atrás delas, as únicas coisas no tapete eram alguns restos de pano preto e dois acessórios.
Um era um anel de ouro esculpido com o brasão da família. O outro era uma joia vermelha sinistra e brilhante, cravada em uma corrente enegrecida.
Ronie estava parada em choque quando Kirito se aproximou e colocou a mão em seu ombro.
— Desculpe a demora! Você está bem?!
Instantaneamente, seus nervos se afrouxaram, e ela quase caiu no chão, mas reteve força suficiente para permanecer de pé e se virou para o delegado.
— S-sim, estou bem — disse ela. — Mas o imperador…
— I-imperador?! — repetiu Kirito, parecendo totalmente chocado. Mas ela não podia lhe dar uma explicação detalhada. Enquanto Asuna estendia a mão para confortar Tiese, uma pequena massa amarela saltou livre e se jogou no rosto de Ronie.
— Kyurrrrrrrr!
Aquele som, finalmente, trouxe lágrimas aos olhos de Ronie.
— Tsukigake!
Ela entregou sua espada a Kirito para poder abraçar seu dragão com os dois braços. De perto, era claro que as penas de Tsukigake estavam manchadas de lama e sangue em alguns lugares, e suas belas penas da cauda estavam em um estado terrível.
Centoria ficava a uma longa distância, mas apenas correr por campos e prados não causaria danos como aquele. Tsukigake deve ter passado por uma provação terrível para trazer Kirito e Asuna até aqui.
Ela acariciou o dragão bebê que cantava, e logo veio outro grito agudo da floresta a leste. Uma bola de penugem azul-clara saiu do mato e rolou para o campo aberto. Passou pelos restos empilhados da mansão no pátio e saltou para o chão acarpetado no meio, e então pulou alto no ar em direção a Tiese.
— Shimosaki!! — gritou ela, abraçando seu dragão. Asuna ficou por perto, observando com um sorriso radiante.
— Se não tivéssemos ouvido o choro de Shimosaki e visto os elementos de luz brilhando pelas janelas, não teríamos notado este lugar. Vocês lutaram tão bem! — disse ela.
— …Obrigada… — disse Tiese, com a voz embargada. Shimosaki cantou “Krrrr!” em seu peito, Tsukigake acrescentou um “Kyurrr!” próprio, e então houve um terceiro grito que fez “Kyu-kyuu!”
— ?!
Para o choque de Tiese, a voz extra vinha de uma criatura no casaco de Kirito que era muito menor que os dragões juvenis. Ela subiu por seu corpo e se empoleirou em sua cabeça. O animal marrom parecia um cruzamento entre um rato e um coelho, com orelhas muito longas. Ele olhou para todo o grupo e guinchou “Kyuu!” com grande insistência.
— K… Kirito, o que é isso? — perguntou ela.
Ele revirou os olhos para cima, em direção ao rato em sua cabeça, e disse:
— Bem, uh… estávamos voando sobre os campos na borda sul da propriedade particular quando vimos Tsukigake lutando contra algum tipo de texugo.
— Não acho que fossem texugos, mais para quatis — apontou Asuna.
— O que é um…? — murmurou ele. — Esquece. Enfim, afugentamos os… quatis e curamos as feridas de Tsukigake. Então, quando estávamos prestes a começar a voar em direção ao lago, Tsukigake correu para um balde de madeira… e este cara saiu de dentro.
— Do balde…?
— Sim. Com base nas circunstâncias, parece que Tsukigake o ajudou a se esconder dentro do balde antes de lutar contra os quatis. Pensei que poderia ser algum tipo de bandeira de missão… er, algo importante para manter por perto, mas nada realmente aconteceu — explicou o Delegado Espadachim.
Tsukigake olhou para trás e para frente entre Ronie e Kirito, e então cantou:
— Krrrr…!
O rato entrou na conversa com um “Kyu-kyu-kyu!”
Ronie não sabia exatamente o que o pio de Tsukigake significava — e certamente não o do rato. Mas ela podia ter uma vaga noção das implicações e tentou colocá-las em palavras humanas.
— Ummm… parece-me que Tsukigake fez algum tipo de acordo com aquele rato.
— Um acordo? — disseram Kirito, Asuna e Tiese juntos. O rato saltou para cima e para baixo infeliz na cabeça do delegado. Foi uma visão tão engraçada que Ronie caiu na gargalhada.
Mas nesse exato momento, no chão não muito longe deles, houve um clarão vermelho-sangue.
— Kii! — guinchou o rato, e mergulhou no bolso de Kirito. Tsukigake e Shimosaki rosnaram um aviso.
Ronie ergueu a mão para bloquear a luz que feria os olhos e avistou sua fonte.
Era a joia que repousava no chão. O colar que tanto o Imperador Cruiga quanto o Imperador Hozaika usavam em volta do pescoço.
— Kirito! Essa é a raiz de todo este mal! — gritou Ronie. Kirito deu um passo em direção à luz vermelha.
Então a joia disparou para o céu com uma velocidade aterrorizante. A luz vermelha subiu mais rápido do que até mesmo a arte que disparava flechas de fogo. Kirito estendeu a mão. A luz diminuiu imediatamente e parou no ar a cerca de trinta mels de altura.
Ele a havia agarrado com as Armas Encarnadas.
Sua Encarnação podia fazer um dragoncraft de metal inteiro voar; claro, a joia não conseguiria se livrar, Ronie tinha certeza. Mas a joia não desceu. Ela ficou pendurada naquele ponto no ar, a corrente tremendo e esticada sob ela.
O impasse durou apenas três segundos.
Com um estalo alto e abrupto, a corrente que Kirito estava puxando com a Encarnação se partiu em pedaços e caiu.
Mas a joia, como se libertada de grilhões, disparou para cima e simplesmente se dissolveu no vermelho do pôr do sol. Houve um último vislumbre dela, quase nas nuvens, onde deixou brevemente um pequeno rastro vermelho para trás. A direção do movimento da luz era para onde Solus estava se pondo… em direção ao império de Wesdarath.
Tradução: Gabriella
Revisão: Fábio_Reis
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