A cada dia que se passava, o vento norte ficava mais ameno, agitando suavemente a superfície da água azul do lago. A luz de Solus refletia nas ondulações, transformando-se em cintilações complexas e minúsculas de cor.
Aninhado entre as colinas suaves fora de Centoria do Norte, o gelo do Lago Norkia havia derretido há apenas meio mês, mas já havia grama nova brotando ao longo da margem, e pequenas flores amarelas adicionavam uma cor escassa para acompanhá-la.
Esta região era a mais rica em fertilidade terrestre perto da capital e oferecia belas paisagens em cada uma das quatro estações, mas já fazia muito tempo — mais de cem anos, na verdade — que plebeus ou nobres inferiores sequer eram permitidos perto dela. Isso porque as margens do Lago Norkia sempre fizeram parte das maiores terras particulares pertencentes aos nobres: as propriedades particulares imperiais.
Após a Rebelião dos Quatro Impérios, todas as terras particulares foram abertas e agora eram consideradas terras livres que qualquer um poderia atravessar para desfrutar. Mas com a floração total da primavera ainda distante, não havia outras figuras na beira da água, exceto Ronie, Tiese e seus dois dragões.
Pelo calendário da Era Humana, era o ano 382, 24 de fevereiro.
As garotas concluíram seu treinamento durante a manhã e, com a permissão de seus professores, bem como de Deusolbert, da Comandante Fanatio e até mesmo do Delegado Espadachim, elas levaram Tsukigake e Shimosaki para fora dos terrenos da Catedral. Kirito ficou desapontado por não poder se juntar a elas, um sentimento que Ronie compartilhava, mas esta não era uma viagem por diversão. Elas iam testar o que o Mestre dos Estábulos Hainag havia sugerido no dia anterior.
Quando Solus atingiu seu zênite, os dois dragões juvenis que brincavam na grama pararam o que estavam fazendo e trotaram até Ronie e Tiese, que estavam sentadas nas rochas à beira do lago, e se revezaram para piar para elas. Depois de toda a correria, estavam com fome.
Para garantir, elas levaram um pouco de carne seca e frutas para o almoço dos dragões na pequena carruagem que Tiese se nomeou para dirigir até aqui, ainda que um pouco desajeitadamente. Mas Ronie não tirou a carne seca para eles.
— Tsukigake, Shimosaki, vocês vão pescar seu próprio almoço hoje.
— Kyuru…?
Não estava claro o quanto os dragões entendiam a fala humana. Eles esticaram o pescoço com curiosidade e ceticismo, o que fez Tiese rir e se levantar da rocha.
— Aqui, me sigam! — disse ela, atravessando a grama nova e curta até a beira da água. Tsukigake e Shimosaki a seguiram, com suas pequenas caudas abanando. Ronie se esgueirou silenciosamente atrás deles.
Tiese parou na beira do lago onde a rocha branca estava exposta e olhou para a água.
— Ooh, lá estão eles! — murmurou ela. Ronie se aproximou e viu muitas formas nadando rapidamente pela água clara. Era um cardume de peixes que passara o inverno sob o gelo. Os dragões se agacharam e esticaram seus longos pescoços entre as duas garotas.
— Olhe, Tsukigake, são peixes! Aposto que são deliciosos! — sussurrou ela para o dragão seletivo, que olhou para ela e piou ceticamente. Quando tentou recuar, Ronie estendeu a mão para firmar seu traseiro e acrescentou: — Se você não pegar um peixe hoje, não vai almoçar.
— Krruu… — Tsukigake gemeu, como se dissesse “Isso não é justo!”. Era tão cômico que Ronie quis rir, mas isso era importante demais. Ela franziu a testa, determinada a bancar a mestra severa.
Enquanto Ronie e seu dragão se encaravam, Shimosaki soltou um grito agudo, bateu as asas algumas vezes para dar um impulso e saltou sobre a água. Ele dobrou as asas no ar, endireitou o pescoço e mergulhou de cabeça no lago.
Os peixes nadando perto do fundo da água de setenta cens de profundidade se espalharam em todas as direções. Shimosaki perseguiu um deles ferozmente, torcendo e girando com uma agilidade subaquática impressionante.
Embora os corpos dos dragões fossem especializados para o voo, o ninho de dragão natural nos confins do império ocidental se encontrava em uma área montanhosa traiçoeira, cercada por um vasto lago dezenas de vezes maior que o Lago Norkia. Lá, os dragões selvagens nadavam livremente, pescando peixes. Tsukigake e Shimosaki, que nasceram na Catedral, só haviam nadado no raso lago dentro de seus muros, mas sabiam como fazê-lo por instinto.
Quase um minuto depois, Shimosaki emergiu da água, batendo suas pequenas asas furiosamente até pousar de volta na margem. Antes que Tiese e Ronie pudessem sair do caminho, ele se sacudiu vigorosamente, espalhando um tapete de água de sua penugem encharcada.
— Aaaah! — gritou Ronie, virando o rosto. Ela notou algo brilhando na boca de Shimosaki e olhou mais de perto. Era uma truta, prateada com pequenas manchas vermelhas. Embora o peixe parecesse pequeno no fundo da água, de perto ela podia ver que tinha quase vinte cens de comprimento.
Tsukigake se aproximou para cheirar a truta que se debatia e se contorcia na mandíbula de seu parceiro. Mas então o caçador bem-sucedido inclinou a cabeça para trás e engoliu o peixe inteiro.
— Kyurrrr! — piou o pequeno dragão satisfeito.
Tiese apenas balançou a cabeça.
— Você se deu ao trabalho de pegá-lo; por que não saborear um pouco mais?
Mas Shimosaki apenas abanou o rabo e pulou de volta na água, como se dissesse que isso era apenas para começar. Tsukigake olhou para a superfície da água, mas parou ali.
— Vamos, Tsuki, você consegue! — incentivou Ronie. O dragão balançou o corpo várias vezes, preso entre a fome e a hesitação. Finalmente, ela gritou “Krruu!” e saltou para a água.
A figura amarelo-pálida era um pouco mais desajeitada no lago do que Shimosaki, mas estava tentando o seu melhor. O cardume de trutas era rápido e escorregadio, no entanto, desviando para a esquerda e para a direita para escapar. Tsukigake era mais reservada e quieta que seu parceiro, e Ronie estava começando a se perguntar se mandá-la pescar logo de cara não era um obstáculo muito grande, quando Shimosaki de repente se virou para interceptar o cardume de trutas. Os peixes pararam em seu caminho e entraram em pânico, e foi quando Tsukigake atravessou o grupo.
O dragão juvenil saiu da água e retornou à margem, agora carregando uma majestosa truta de vinte e cinco cens em sua boca.
— Krrrrrr! — piou ela, mostrando orgulhosamente seu prêmio. Ronie gritou:
— Você conseguiu! Muito bem, Tsukigake!
Ela aplaudiu o dragão, mas esta era a parte fácil. Tsukigake estava deixando peixes para trás no estábulo, então ela realmente comeria a truta que pegou? O Mestre dos Estábulos Hainag afirmara que comer um peixe fresco corrigiria a seletividade, mas seria verdade?
Ronie observou seu dragão nervosamente. Tsukigake piscou algumas vezes, pensando, depois esticou o pescoço em direção à sua mestra e deixou cair a truta na grama.
— Krr!
O dragão não queria ser teimoso, mas Ronie não pôde deixar de suspirar. Ela gostava de pescar, mas ainda não gostava de comer peixes, então. Ronie ia repreendê-la, dizer que não almoçaria se não comesse — quando Tiese interrompeu.
— Você não acha que ela está te dando o peixe, Ronie?
— Huh…? — Ela piscou e perguntou ao pequeno dragão: — Esse peixe é para mim?
Tsukigake gritou “Krrrr!” como se estivesse satisfeita por finalmente ser entendida.
— Oh… obrigada, Tsuki — disse ela, estendendo a mão para acariciar sua cabeça, pontilhada de gotículas de água. Ela pegou o peixe que se debatia e pulava com a outra mão e sorriu. — Vou fazer deste o meu almoço. Mas você tem que comer o próximo.
— Krr! — piou ela, pulando de volta na água.
A partir daí, a melhora dos dragões foi inegável. Em vez de perseguir as trutas individualmente, eles colocavam um atrás do cardume, enquanto o outro vinha da outra direção. Quando os peixes entravam em pânico, presos entre dois predadores, cada dragão conseguia pegar sua própria presa.
Antes que os peixes finalmente nadassem para águas mais profundas para escapar, Tsukigake e Shimosaki haviam pescado cinco peixes cada. Eles comeram três de suas capturas e deram os outros dois para as garotas. As humanas grelharam a truta sobre uma pequena fogueira de galhos secos; era muito simples em comparação com o fantástico prato de peixe assado em papel da subdelegada no dia anterior, mas como o peixe era tão fresco, e os dragões os haviam pescado apenas para a refeição, parecia igualmente saboroso.
Como o mestre dos estábulos dissera, isso pareceu curar as tendências seletivas de Tsukigake, enquanto Shimosaki não parecia ter nenhum problema para começar. Quando terminaram de comer, os jovens dragões começaram a brincar ao redor da colina novamente. Os pátios da Catedral eram espaçosos, mas os dragões claramente gostavam mais de estar na abertura da natureza.
Ronie respirou o ar fresco, dizendo a si mesma que teria que trazer Tsukigake aqui com mais frequência.
Em uma colina próxima, os cavalos pastavam calmamente onde estavam amarrados às árvores. Cerca de dez aves aquáticas brancas formavam um pequeno bando mais adiante no lago, enquanto borboletas recém-emergidas esvoaçavam de flor em flor. Ainda assim, não havia outras pessoas além das duas aprendizes de cavaleiro.
— Depois que abrimos as terras particulares, seria de se pensar que mais pessoas da cidade viriam aqui para visitar — murmurou Ronie.
Tiese parou de beber chá de sua cantina para bufar.
— Ah, Ronie, você está muito acostumada a viver na Catedral agora. Não é dia de descanso hoje, então as pessoas não vão simplesmente se levantar e sair da cidade no meio do dia.
— Oh… c-certo.
As crianças estariam aprendendo na escola, e os adultos estariam ocupados com o trabalho ou as tarefas domésticas a esta hora. Como aprendizes, uma vez que terminavam o treinamento matinal, os cavaleiros tinham muito mais liberdade com sua programação diária. “Preciso me lembrar de não tomar isso como garantido”, disse a si mesma.
— Ah, mas pelo que ouvi — continuou Tiese abruptamente —, ninguém vem às propriedades do imperador, mesmo nos dias de descanso. Mesmo que as outras propriedades particulares sejam tão populares que há filas nos portões.
— Ohhh…! — murmurou Ronie. Ela olhou ao redor novamente.
Norlangarth se espalhava para fora de Centoria como um leque. Então, quanto mais perto se estava da Capital, mais estreita era a largura da terra. Este local ficava a apenas dez quilômetros da cidade, e as Muralhas Eternas, que dividiam os impérios, ainda eram claramente visíveis tanto a leste quanto a oeste.
As propriedades particulares do imperador se estendiam por toda a terra no lado oeste da estrada principal que saía de Centoria para o norte, enquanto as outras terras nobres estavam alinhadas ao longo do lado leste. Em outras palavras, as propriedades imperiais não eram necessariamente mais distantes, então isso não era um motivo para deter os visitantes.
Ronie olhou para sua amiga e viu que as narinas de Tiese estavam se contraindo ligeiramente — o olhar que ela fazia quando realmente queria dizer algo. Apesar de seu pressentimento, Ronie foi em frente e fez a pergunta que Tiese claramente esperava ouvir.
— …Por que as propriedades do imperador não são mais populares?
Tiese pigarreou teatralmente e apontou para a margem distante do Lago Norkia.
— Vê aquela mansão do outro lado?
— …Sim. — Ronie assentiu.
Havia uma pequena floresta ao longo da margem distante, com uma torre de edifício preto projetando-se no meio dela. Aquilo era menos uma mansão do que um castelo senhorial; era onde os imperadores de Norlangarth ficavam quando visitavam suas terras particulares. Antes da rebelião, sempre havia cerca de vinte soldados e servos em residência, mas agora o prédio estava totalmente interditado, e todo o lote estava acorrentado para impedir a entrada de visitantes.
— A mansão do imperador, certo? E o que tem ela? — perguntou ela, vendo que a expressão de Tiese se anuviara em algo mais sinistro.
— …Ouvi dizer que se veem coisas lá.
— Veem coisas? …Como o quê?
— Você sabe o que eu quero dizer — murmurou Tiese, inclinando-se para perto do ouvido de Ronie. — Fantasmas.
— …
Ronie não sabia bem como reagir a isso a princípio. Ela não disse nada por vários segundos antes de finalmente perguntar:
— De quem?
O rosto excessivamente sério de Tiese finalmente se desfez. Ela gritou:
— Ah, qual é, você não tem graça nenhuma! Você deveria ficar toda assustada!
— Deixa eu adivinhar: você estava se preparando para dizer isso o dia todo.
— Claro que estava! Não tenho muitas oportunidades de te assustar, Ronie — reclamou Tiese.
Ronie a cutucou perto do cotovelo e perguntou:
— Isso não é só uma história que você inventou, é? Onde você ouviu isso?
— No último dia de descanso… quando você e Kirito estavam nas terras sombrias, eu fui fazer compras no mercado no sexto distrito, e o homem da padaria me contou. Ele disse que as pessoas gostam de sair para visitar as antigas terras particulares agora, então seus pães duros para lanches embalados estão vendendo bem, mas as propriedades do imperador não são um destino popular, e é porque há fantasmas perto da mansão, aparentemente.
— Sério? Eles acreditam em fantasmas agora…? — ponderou Ronie, balançando a cabeça.
De acordo com as antigas histórias que ouvira na infância, havia fantasmas causando estragos nas várias cidades e vilas antes do início da Igreja Axiom. Mas todos foram exorcizados pelos bispos da Igreja e pelos Cavaleiros da Integridade, e agora a terra estava em paz, todas as histórias diziam. Em toda a sua vida, Ronie nunca vira nada como os fantasmas assustadores das histórias.
— Para começar, a luta real aconteceu no palácio no primeiro distrito, e as únicas pessoas que morreram foram o imperador, por não se render, os generais nobres e o grão-camareiro do palácio, certo? Por que haveria fantasmas ao redor da mansão nas propriedades fora da cidade? — disse ela, um pouco mais rápido do que o necessário. Isso surpreendeu Tiese, que se recuperou e deu um pequeno sorriso malicioso.
— Espere um minuto, Ronie. Você está ficando um pouco intimidada?
— E-eu…? Não, claro que não!
— Ah, é mesmo? Bem, então… por que não vamos lá dar uma olhada?
— Huh? — Ela se afastou, pega de surpresa pela sugestão. — V-ver… a mansão?
— Claro — disse Tiese presunçosamente, arqueando as costas. — Olhe, se esses rumores assustadores continuarem a se espalhar, isso vai ter um efeito nos planos do Conselho de Unificação de reutilizar a terra particular, certo? Aprendizes ou não, somos Cavaleiras da Integridade, então se percebermos que algo precisa ser investigado, não deveríamos ser nós a fazê-lo?
Isso é muito suspeito, pensou Ronie, mas, na superfície, pelo menos, sua amiga estava correta. O Instrutor Deusolbert frequentemente lhes dizia que agora eram cavaleiras e não podiam simplesmente ficar paradas esperando por ordens o tempo todo. Toda a sua tarde estava programada para passar o tempo no lago para corrigir os hábitos alimentares de Tsukigake, e ainda era cedo.
Ela se impediu de suspirar e olhou de sua amiga para o céu do sul. Desse ângulo, Centoria estava escondida da vista por uma colina, mas mesmo a dez quilômetros de distância, o majestoso pilar da Catedral Central brilhava contra o céu azul. Kirito e Asuna provavelmente estavam lá naquele exato momento, esperando impacientemente pelo relatório do escritório da cidade de Centoria do Sul. O plano era receber os resultados daquela investigação, que provavelmente seria infrutífera, e então realizar uma busca massiva em toda Centoria do Sul. Mas se surgisse uma emergência antes que Ronie e Tiese retornassem, o cavaleiro de elite Renly deveria vir até aqui em sua montaria de dragão, Kazenui, e alertá-las.
— …Tudo bem — disse Ronie no tom mais plácido que conseguiu. Ela olhou para os dragões, que corriam energicamente por um campo próximo. — Mas e eles?
— Por que não os levamos conosco? Fantasmas devem ter medo de um animal sagrado como um dragão, certo? Supondo que realmente haja um lá.
Era difícil dizer o quão seriamente Tiese acreditava nisso, mas, vendo que ela não cederia, Ronie cedeu. Apenas os Cavaleiros da Integridade podiam entrar em uma mansão trancada por ordem da Igreja Axiom, e não haveria criaturas perigosas como ursos ou lobos aqui, muito menos fantasmas. Então seria seguro levar os juvenis.
— Suponho que você esteja certa.
— Então está resolvido! — gritou Tiese, levantando-se abruptamente da rocha que usava como cadeira.
Ronie se levantou também. Ela roçou o pomo da Espada Raio de Luar pendurada em seu lado esquerdo e disse:
— Se ia chegar a isso, você deveria ter escolhido uma nova espada para si mesma também.
Sua amiga olhou para a espada de dotação padrão do Exército de Guardiões Humanos que ela tinha e encolheu os ombros.
— Mmm, acho que sim, mas eu gosto desta espada… Estou tão familiarizada com ela agora!
Isso era compreensível. Ronie se sentia desconfortável em mudar para uma espada que parecia desconhecida, e era difícil se desfazer de uma antiga. Ela não podia forçar sua amiga a mudar.
Tiese lhe deu um pequeno sorriso e então se virou para os dragões.
— Shimosaki! Tsukigake! Venham aqui! Vamos fazer uma pequena viagem!
Os diminutos dragões, cheios de energia após se empanturrarem de peixe fresco, bateram suas pequenas asas e piaram em uníssono.
Para ir da margem leste do Lago Norkia para a oeste, onde ficava a mansão interditada, elas tinham que contornar o lago pelo norte ou pelo sul, o que representava um longo caminho.
O extremo sul do lago era um pântano, então elas escolheram ir pelo norte. O solo aqui era de pastagem seca, o que tornava a caminhada mais fácil. Ainda assim, isso significava quase três quilômetros para contornar o vasto lago. Elas estavam preocupadas com a resistência dos dragões, mas as criaturas com o maior valor de vida natural do reino estavam perfeitamente bem trotando durante a caminhada.
Após cerca de quinze minutos, chegaram à ponta norte do lago, onde havia um rio que o alimentava, atravessado por uma firme ponte de pedra. O rio era um afluente do Rio Rul, que nascia nas Montanhas do Fim, na borda norte de Norlangarth. A parte principal do rio seguia a estrada principal direto para Centoria, onde enchia o aqueduto da cidade com água cristalina.
Segundo Kirito e Eugeo durante seus dias de academia, a nascente do Rul ficava muito perto da Aldeia de Rulid, onde eles moravam. Quando Tiese sugeriu: “Por que vocês simplesmente não construíram um pequeno barco e desceram o rio até Centoria?”, os dois ficaram em silêncio por um longo tempo e depois admitiram: “Nunca pensamos nisso”.
Realisticamente, haveria baixios e corredeiras e provavelmente algumas quedas ao longo do caminho, então não seria uma viagem fácil, mas Kirito e Eugeo haviam concordado que, sempre que voltassem para visitar Rulid, deveriam usar este método para retornar à Capital. Tiese e Ronie sonhavam animadamente em fazer essa viagem com eles, mas essa era uma aventura que nunca aconteceria.
Elas saltaram da colina gramada para o impressionante caminho de pedra e atravessaram a ponte. Esta rota as levaria diretamente à mansão. Depois de um tempo, um campo muito grande apareceu à direita. Havia fileiras e fileiras de arbustos cuidadosamente arranjados — provavelmente as videiras para fazer vinho.
O pai de Ronie, um nobre inferior, dissera que se os vinhedos das terras particulares do imperador e dos altos nobres fossem convertidos em trigo, eles poderiam suprir a demanda anual de trigo de toda a Centoria do Norte, sem precisar transportá-lo das terras produtoras de grãos do norte. Agora que podia ver seu tamanho por si mesma, Ronie percebeu que ele não estava exagerando.
E o vinho do imperador era escolhido apenas entre as melhores uvas cultivadas neste vasto número de videiras, sem que fosse produzido nenhum excedente que o povo comum pudesse provar. Segundo Hana, que fora a chef pessoal da Administradora, sua mestra não se fixava particularmente em comida fina, então ficava satisfeita com os vinhos vendidos nas lojas da Capital — que ainda eram muito finos, para ser justa. Mas o imperador de Norlangarth se orgulhava secretamente de que o vinho que bebia era mais fino que o da pontífice.
— …O que será que vai acontecer com esses vinhedos? — murmurou Tiese enquanto passavam por eles. Ronie considerou isso com uma inclinação de cabeça.
— O projeto para reutilizar as propriedades particulares ainda não decidiu se vai deixá-los como vinhedos ou convertê-los em campos de trigo. Pelo que ouvi, alguns dos servos que viviam na terra e cuidavam das árvores ainda querem voltar e continuar cultivando uvas.
— Mas com tanto espaço, você precisaria de muita gente para cuidar disso… Ouvi dizer que problemas semelhantes estão acontecendo nas propriedades particulares dos outros impérios também.
— Yazen vivia nas propriedades de Sothercrois. Qual teria sido a preferência dele? — Ronie questionou desta vez.
Tiese pensou um pouco e disse:
— De acordo com o que Lady Asuna viu na arte da vidência do passado, Yazen disse algo como ‘Não sou mais um servo’, então suponho que ele não quisesse voltar.
— Entendi… faz sentido. Ele acabara de encontrar uma nova vocação para si mesmo.
Elas ficaram em silêncio depois disso, caminhando sob a luz do sol quente e suave. A brisa que passava pelo vinhedo abandonado agitava as penas dos dragões juvenis, que caminhavam um pouco à frente das garotas. As videiras retorcidas haviam perdido todas as suas folhas, mas logo brotariam novos crescimentos verdes e brilhantes de todos os galhos possíveis. Para manter o vinhedo funcional, precisariam de pessoas para começar a podar as milhares de videiras quando chegasse a hora.
— Ouça, Tiese… se não houver gente suficiente para fazer o trabalho… — murmurou Ronie em um devaneio. Mas não terminou esse pensamento, e quando Tiese a pressionou com um olhar, ela apenas disse: — N-nada, esqueça.
Na verdade, ela ia sugerir: “E se mudássemos todos os goblins que estão sofrendo nos confins do Território das Trevas e lhes déssemos trabalho cuidando dessas plantas?”.
Mas isso significaria apenas substituir os servos que foram forçados a uma vida dolorosa neste lugar por goblins. Não seria servidão forçada desta vez, é claro, e haveria uma renda que correspondesse à quantidade de trabalho envolvido, mas no sentido de que seria através de trazê-los para cá para fazer trabalho pesado, era difícil não ver isso como uma espécie de escravidão.
Nesse caso, no entanto…
A grande maioria das pessoas no Reino Humano era forçada a começar uma vocação com apenas dez anos de idade — e começar a trabalhar. Crianças que podiam ir para uma escola superior, como Ronie e Tiese, eram a exceção, e mesmo para elas, se não tivessem se tornado aprendizes de Cavaleiro da Integridade, suas únicas opções seriam se juntar ao exército ou se casar com alguém que seus pais decidissem e se tornarem donas de casa.
Se não podiam escolher seu próprio futuro, como isso era fundamentalmente diferente dos ex-servos?
Ronie parou, tão confusa com essas novas perguntas que nunca considerara antes. Nesse momento, Tiese gritou:
— Oh, olhe! Vejo o portão!
Ela olhou para cima com um sobressalto e viu para onde Tiese estava apontando, mais adiante no caminho. Havia um majestoso portão de ferro que se erguia alto e escuro. Além dele, havia uma linha de árvores exuberantes e antigas que absorviam a luz de Solus, deixando o caminho sob elas escurecido.
Elas cruzaram os últimos cem mels rapidamente e pararam diante do portão. No centro da fina filigrana de metal havia um enorme brasão de Norlangarth: um símbolo de um lírio e um falcão. Abaixo dele, havia uma placa de madeira esculpida com o símbolo da Igreja Axiom. Tinha uma mensagem simples: “Entrada Proibida sem Permissão do Conselho de Unificação Humana”.
Além disso, os portões duplos estavam trancados com correntes de aparência muito resistente que se estendiam para a esquerda e para a direita, aparentemente ao redor de todo o lote da floresta. Você poderia simplesmente pular sobre as correntes em qualquer lugar além do portão, é claro, mas ninguém em todo este reino tentaria fazer isso depois de ver a placa.
A seus pés, Tsukigake e Shimosaki olharam para as correntes ostensivas e bufaram. Suas mestras se entreolharam por um tempo, até que Tiese finalmente disse:
— Nós somos membros do Conselho, certo? Tecnicamente falando?
— …Vamos às reuniões todos os dias. Acho que isso conta? — respondeu Ronie, mas era mais como se elas observassem as reuniões do que participassem delas. Ainda assim, havia momentos em que lhes era dado o direito de falar, então elas claramente não eram totalmente estranhas ao processo.
Tiese balançou a cabeça. Então, ela fez uma cara séria, ergueu o punho direito ao peito e colocou a mão esquerda no cabo da espada.
— Aprendiz de Cavaleiro da Integridade Ronie Arabel! Em nome do Conselho de Unificação Humana, eu lhe permito passar por este portão!
Ronie ficou surpresa a princípio, mas se recuperou para retribuir a saudação do cavaleiro em reconhecimento. Quando Tiese abaixou as mãos, ela disse: “Ok, minha vez”, então Ronie repetiu o processo formal.
Elas deram permissão aos dragões também, por precaução, e então caminharam cerca de dez mels para a direita, onde a corrente era apenas sustentada por suportes de metal, e elas puderam passar por baixo.
Instantaneamente, o ar pareceu mais frio, fazendo Ronie encolher o pescoço. Ela disse a si mesma que era porque haviam entrado na sombra, mas havia uma opressão pesada no ar aqui que ia além dessa simples explicação.
Elas caminharam sob as árvores cobertas de musgo de volta para o caminho de pedra, onde Ronie confirmou o ponto de sua missão improvisada com sua parceira.
— Hum, Tiese, estamos aqui para investigar os rumores de fantasmas. Certo?
— Isso mesmo.
— E isso significa que temos que entrar?
— Isso mesmo — repetiu Tiese. Ela sorriu maliciosamente. — Uh-oh, Ronie. Você está com medo de fantasmas?
Bem, agora ela certamente não podia admitir. Apesar das histórias assustadoras que ouviu quando criança ameaçarem voltar à sua mente, ela disse com desenvoltura:
— Claro que não! E além disso, não haverá fantasmas nos dias de hoje.
Por alguma razão, o sorriso malicioso de Tiese desapareceu, mas ela se recuperou e deu um tapinha nas costas de Ronie.
— Então entrar na mansão não deve ser um problema para você! Vamos, vamos nos mexer!
— T-tudo bem, tudo bem!
Ela sabia que estava se deixando ser empurrada, mas Ronie seguiu em frente mesmo assim.
Mais de meio ano se passara desde que toda essa floresta fora acorrentada, mas o chão sob as árvores estava surpreendentemente bem cuidado. Talvez porque as altas árvores acima estivessem pegando todas as bênçãos de Solus e Terraria, as ervas daninhas não conseguiam crescer por baixo. Isso explicaria por que o ar parecia tão fresco e vivo do outro lado do lago, mas tão sombrio e sufocante aqui.
Tsukigake e Shimosaki estavam muito felizes em prosseguir à frente das garotas fora dos portões, mas agora estavam ficando para trás. Ronie olhou por cima do ombro e viu que os dragões estavam cheirando ceticamente as laterais da estrada, abanando suas caudas levantadas para frente e para trás.
— O que há de errado, Tsuki? — chamou ela. O dragão cantou baixinho de volta para ela. Parecia hesitante em continuar, mas também não estava parando.
Dizia-se que dragões conectados a seus cavaleiros por um laço poderoso sacrificavam suas vidas para proteger seus mestres quando a situação exigia. Na verdade, no final da Guerra do Outromundo, Ronie vira Kazenui mergulhar para bloquear as longas lanças empunhadas pelos cavaleiros vermelhos do Mundo Real a fim de salvar seu mestre, Renly.
A guerra acabara, então, mesmo quando totalmente crescidos, esses dragões não deveriam encontrar essa situação. Mesmo assim, Ronie ficou brevemente paralisada por esse pensamento terrível.
Esta viagem era para o benefício dos dragões, então, se os dragões estavam desconfortáveis com isso, não havia necessidade de se preocupar com a mansão. Assim ela pensou, mas Tiese não estava parando. Ronie virou-se para a frente novamente e correu para acompanhar sua parceira.
Olhando para trás, a atitude de Tiese parecia não estar totalmente de acordo com seu caráter usual. Sua ideia de investigar a mansão foi entregue de forma brincalhona, mas de uma maneira estranhamente insistente, e surgiu do nada também. Quase como se ela estivesse planejando esta excursão assim que a viagem ao lago foi decidida,
— Ei…! — disse ela à sua amiga, bem no momento em que o som dos sinos das duas horas ecoou do sul distante.
A cabeça de Tiese girou.
— Devemos nos apressar, antes que escureça. Vamos correr!
— T-tudo bem — concordou Ronie, sem muita escolha, trotando atrás de Tiese. Os pequenos dragões bateram as asas e saltaram para acompanhar. Mesmo para dragões, os juvenis logo se cansariam e começariam a perder vida, então teriam que escolher um momento para parar e alimentá-los com algumas das frutas secas que trouxeram da carruagem.
A floresta ao redor da mansão não parecia tão densa à distância, mas o caminho se torcia e virava, então eles nunca pareciam atravessá-la. Após quase dez minutos de caminhada desde o toque das duas horas, o caminho à frente começou a clarear, para grande alívio de Ronie.
Havia uma clareira de cerca de cem mels de diâmetro, bem no meio da floresta, com a mansão em questão no centro dela.
A construção de pedra era cinza-escura, e o telhado de ângulo acentuado era preto. Era um prédio de três andares, pelo que parecia, e o baixo número de janelas o fazia parecer mais uma fortaleza do que uma mansão. Havia alguns canteiros de flores no gramado da frente apenas para efeito, mas agora estavam cheios de gramas secas e mortas, o que apenas aumentava a sensação de frio.
— É esta mesmo… a vila do imperador? — Ronie se perguntou.
Tiese ponderou a questão.
— Bem… admito, as mansões nas propriedades particulares dos nobres parecem maiores que esta… Ah, mas olhe — disse ela, apontando para as grandes portas na frente do prédio. — Tem o brasão de um lírio e um falcão. Apenas a família imperial pode usar esse símbolo.
— Verdade!
O portão na entrada da floresta tinha o mesmo brasão de Norlangarth, então esta era, sem dúvida, a mansão do imperador.
— …Vamos lá — Tiese murmurou baixinho, começando a caminhar em direção a ela. Shimosaki a seguiu, com a cabeça baixa.
Ronie olhou para Tsukigake e perguntou:
— Você está bem? Não está cansada?
O pequeno dragão abriu as asas e piou como se dissesse: “Claro que não!”.
Eles passaram pelo caminho de grama morta, através dos canteiros de flores, e chegaram às portas da frente. Atrás deles, a superfície azul do Lago Norkia estava completamente escondida pelas árvores. Qual era o sentido de construir uma casa perto do lago se não se podia ver a água?
Houve um barulho de metal atrás dela, e Ronie viu que Tiese havia agarrado as maçanetas das portas e tentado empurrá-las para abrir.
— …Elas não abrem? — perguntou ela.
O cabelo ruivo de sua parceira balançou.
— Não. Acho que estão trancadas.
— Bem, faz sentido. Então… suponho que isso signifique que não há ninguém lá dentro, certo? — perguntou ela, presumindo que Tiese concordaria. Mas sua parceira não soltou as maçanetas.
— Ainda assim, um fantasma não é parado por uma porta trancada, é?
— O quê…?
Ela não esperava essa refutação. É verdade, os fantasmas das histórias antigas geralmente não tinham corpos sólidos, e ela achava que se lembrava de descrições deles passando por paredes e portas…
— Mas isso não significa que nós possamos fazer isso! — murmurou ela.
Tiese fechou os olhos, ainda segurando as maçanetas, e começou a gemer.
— Mm… mrrmng…
— O-o que você está fazendo?
— Mrrrmmngng!
— Hum, Tiese? Tiese! — Ela se moveu para agarrar o braço de sua amiga antes de perceber abruptamente o que estava acontecendo:
Tiese estava claramente tentando imitar o truque de Abertura de Fechadura com Encarnação que Kirito exibira na estalagem em Centoria do Sul mais cedo.
— Qual é?! Não conseguimos nem usar as Armas Encarnadas ainda; não há como usarmos isso para abrir uma fechadura! — Ronie apontou com exasperação. Mas o rosto de Tiese estava resoluto, talvez até desesperado, fazendo sua amiga ofegar.
Ela parou, hesitou e finalmente guinchou:
— Tiese… por que você está fazendo isso…? Investigar alguns fantasmas é tão importante para você…?
Tiese exalou lentamente e finalmente retirou as mãos das portas. Seu rosto permaneceu baixo até que ela finalmente perguntou:
— Ronie… você acha que fantasmas são reais?
— Huh…?
Era como uma pergunta de uma criança pequena. Ronie quase riu e perguntou o que havia dado nela, mas se conteve. Os olhos de Tiese eram investigativos e sérios enquanto ela encarava o chão. Ela não estava brincando nem um pouco. Qualquer que fosse o motivo, sua melhor amiga estava lhe perguntando com toda a seriedade, e ela deveria responder da mesma forma.
Ronie nunca vira um fantasma — pelo menos, definido como as almas de pessoas que morreram guardando grande ódio ou tristeza, fadadas a vagar pela terra em vez de alcançar o Reino Celestial. E o mesmo provavelmente era verdade para sua mãe e avó, que foram quem lhe contaram as histórias antigas para começar.
Então, havia fantasmas centenas de anos atrás, no cenário daquelas histórias? Ela não achava. Para começar, o Reino Celestial para onde as almas dos mortos viajavam muito provavelmente não existia. Fora do Underworld estava o Mundo Real, de onde Kirito e Asuna vieram. Não havia deuses lá também, apenas mais seres humanos que lutavam há milhares de anos.
Se não havia Reino Celestial, então, pela lógica das histórias, o mundo deveria estar transbordando com as almas fantasmagóricas dos mortos sem ter para onde ir. Como isso não era verdade, provavelmente significava que, independentemente de qualquer ódio ou tristeza que uma alma humana pudesse se agarrar, ela ainda desaparecia no momento da morte, e nenhum fantasma jamais resultava.
Ronie respirou fundo para se preparar para sua resposta. Mas antes que falasse, uma imagem vívida inundou sua mente, e seus olhos se arregalaram.
Ela nunca vira um fantasma assustador antes.
Mas ela vira o brilho da alma de uma pessoa morta.
Foi no final da Guerra do Outromundo, quando o homem de manto preto que liderava os cavaleiros vermelhos do Mundo Real entrou em um violento confronto com Kirito, que acabara de despertar de seu longo torpor.
A enorme lâmina que o homem de manto empunhava estava pressionando a espada de Kirito, até que pareceu que poderia cortar seu ombro — quando Tiese juntou as mãos e orou: “Por favor, Eugeo. Ajude Kirito!”.
E, como se em resposta àquela chamada, um braço dourado translúcido apareceu e apoiou a Lâmina do Céu Noturno. Com a ajuda do braço, Kirito empurrou a enorme faca para trás e venceu sua batalha desesperada contra o homem de manto preto. Não havia dúvida de que era a mão de uma pessoa que não vivia mais: o amigo de Kirito e mentor de Tiese, o Discípulo de Elite Eugeo.
— Tiese… você está…?
Todos os pensamentos sobre a lógica dos fantasmas desapareceram de sua mente. Finalmente, ela sentiu que entendia por que Tiese estava fixada nos rumores de fantasmas no prédio abandonado na floresta.
Ela estendeu a mão para tocar as costas de sua amiga desanimada — quando um som tênue, mas inegável, a fez recuar. O rosto de Tiese se ergueu rapidamente em reação.
Não era um som natural, mas um desagradável raspar de metal contra metal.
E vinha, sem dúvida, do outro lado das portas trancadas.
Ronie levou um dedo aos lábios em um gesto de silêncio para Tiese, e então pressionou cuidadosamente o ouvido contra a porta.
Ela esperou vários segundos. Não vinha nada. Mas o som anterior não fora uma ilusão.
Ronie se afastou da porta para encarar Tiese, cujo rosto estava pálido.
Sua amiga sussurrou:
— Temos que entrar lá…
Mesmo que o fantasma fosse real, era impossível acreditar que, por acaso, seria o de Eugeo, o garoto por quem Tiese se apaixonara. Eugeo perecera no último andar da Catedral Central; ele não apareceria como um fantasma na vila nas terras particulares do imperador.
E se o som tivesse sido causado por um humano de carne e osso, em vez de um fantasma, era bem possível que essa pessoa não fosse apenas um civil inocente. A única pessoa que poderia entrar e sair de um prédio selado por ordem do Conselho de Unificação e da Igreja Axiom era alguém que pudesse resistir ao Índice de Tabus, que era o porrete legal da Igreja.
Ronie achou melhor voltar para a Catedral imediatamente para relatar a Kirito ou Fanatio, mas Tiese entrou em ação antes que ela pudesse sugerir. Ela começou a correr para o sul ao longo do exterior da mansão, procurando dar a volta por trás. Shimosaki a seguiu, saltando e pulando.
— Krrrr! — Tsukigake insistiu aos pés de Ronie. Ela não teve escolha a não ser seguir.
A porta dos fundos estaria trancada do mesmo jeito, no entanto. O que quer que Tiese pensasse que ia fazer, Ronie tinha que impedi-la de se colocar em perigo. E, no entanto, a distância de dez mels entre ela e sua parceira não estava diminuindo.
Depois de contornar duas esquinas, elas estavam no quintal, onde de repente estava muito mais escuro. Havia canteiros de flores aqui também, mas quase nenhuma luz do sol chegava a este local, então eles foram tomados por musgos azulados e trepadeiras cinzentas. O caminho estava cheio de rodas de carroça quebradas e barris podres.
Agora certamente não parecia a residência de um imperador.
A porta dos fundos que Tiese estava procurando acabou sendo colocada discretamente no lado norte do prédio. Teria sido mais rápido para elas contornarem pelo norte do que pelo sul, mas Tiese correu ainda mais rápido, mal prestando atenção a tais detalhes, até chegar à porta.
Ela agarrou a maçaneta enferrujada e a girou, mas como Ronie esperava, ela chacoalhou alto e permaneceu firme. No entanto, Tiese colocou ainda mais força nela. Aprendiz ou não, seu nível de autoridade de equipamento era quase 40; então, se ela se decidisse, poderia acabar destruindo uma porta comum. No entanto, esta mansão fora confiscada da dinastia imperial e agora pertencia ao Conselho de Unificação Humana; então, mesmo em caso de emergência, um Cavaleiro da Integridade não poderia destruir a porta sem a permissão do conselho.
Ronie finalmente alcançou sua parceira e prontamente agarrou sua mão.
— Não faça isso, Tiese. Você vai quebrar a porta.
— Mas… o som lá dentro… — respondeu sua amiga em um lamento agudo. Mesmo na escuridão da sombra, sua pele parecia muito pálida.
Ronie usou as duas mãos para envolver os dedos frios de Tiese e suplicou:
— Eu também ouvi o som. Não foi um truque dos ouvidos. Mas é por isso que temos que pensar direito.
O aperto de Tiese na maçaneta enfraqueceu até se soltar, momento em que Ronie a conduziu a um mel ou mais de distância da porta para que pudessem olhar ao redor do pátio.
— …Pode ser um fantasma dentro do prédio, mas pode muito bem ser outra coisa. Se há uma pessoa viva entrando e saindo da mansão, eles terão deixado vestígios de sua habitação em algum lugar.
Isso fez Tiese piscar algumas vezes, clareando os olhos. Ela assentiu, e sua expressão atordoada recuperou um pouco de clareza e vida.
— Sim… você está certa. Vamos dar uma olhada na área.
Ronie deu à sua parceira um aceno vigoroso de cabeça agora que ela parecia mais consigo mesma, e então voltou a examinar a vizinhança. O quintal sombrio era mais apertado que a frente, mas ainda tinha cem mels de largura e trinta de profundidade. Havia canteiros de flores cobertos de musgo à esquerda e à direita, e, no centro, um pequeno lago estagnado de cor verde-escura. Lixo quebrado cobria o caminho, e ervas daninhas cresciam por toda parte. Apesar de ter sido sua ideia em primeiro lugar, ela não tinha ideia de como procurar por pistas.
Mas certamente olhar ao redor aleatoriamente não resolveria o problema. Ela tinha que usar a cabeça e descobrir quais pontos investigar em particular.
— Se alguém está passando pela porta dos fundos… — murmurou Ronie, examinando o chão em frente à porta.
Se a terra estivesse exposta, poderia haver pegadas para encontrar, mas infelizmente, mesmo nos fundos, os caminhos eram todos de paralelepípedos cinzas. Diferente da frente, no entanto, havia finas camadas de musgo aqui e ali. Não grossas o suficiente para preservar pegadas, mas talvez houvesse outra coisa…
— Tiese, você pode cuidar dos dragões por um momento?
— Hum… tudo bem — assentiu Tiese, recuando alguns passos. Ela se agachou para poder colocar uma mão nas costas de Tsukigake e Shimosaki, mantendo-os afastados. Satisfeita, Ronie estendeu a mão direita.
— System Call, Generate Umbra Element.
Seu comando produziu uma luz púrpura brilhante que envolvia uma pequena esfera negra, como um buraco perfurado no espaço vazio. Este era um elemento sombrio, o mais difícil dos oito elementos de controlar.
Ao contrário de um elemento de luz, este possuía uma espécie de energia negativa e, se liberado, sugaria objetos próximos antes de desaparecer. Água e ar eram uma coisa, mas se algum objeto ou pessoa o tocasse, os resultados poderiam ser desastrosos. Mas havia maneiras de utilizar essa propriedade que eram completamente impossíveis com qualquer outro elemento.
— Form Element, Mist Shape — continuou Ronie, e o elemento sombrio se espalhou silenciosamente até formar uma pequena nuvem de névoa roxa. Poderia ser combinado com o vórtice de um elemento de vento e arremessado contra os inimigos como um ataque, mas esse não era o ponto agora.
Ela usou as duas mãos para alargar a névoa em uma forma fina e plana, e então sussurrou:
— Discharge!
A cortina roxa se espalhou na frente dela. Esta névoa tinha a capacidade de atrair poder sagrado para si, reagir a ele e desaparecer. Se combinada com um redemoinho, as lâminas de vento rasgariam a pele do inimigo, e a névoa escura se agarraria à ferida, sugando sangue, que era a fonte do poder sagrado.
Humanos e animais não eram as únicas coisas que possuíam poder sagrado, é claro — as plantas também, até mesmo o tipo de musgo que se agarrava aos paralelepípedos. Eles tinham apenas uma pequena quantidade, mas se pisoteados a ponto de serem danificados, liberariam um traço de poder sagrado no ar.
A névoa foi liberada na forma de uma faixa roxa, ramificando-se finamente como uma planta real enquanto se arrastava pelo chão com um brilho sinistro. A formação que ela fez era, sem dúvida, a de uma pegada humana. E com base na forma como brilhava, o musgo fora pisado muito recentemente.
As pegadas levavam da porta dos fundos da mansão para o norte, desaparecendo na floresta que cercava o pátio traseiro.
— Por ali, Tiese! — sibilou Ronie, começando a correr ao longo da luz tênue dos passos enquanto eles se afastavam.
Ela virou à esquerda no extremo norte do quintal e avistou um pequeno caminho que se abria através da densa floresta, quase como a boca de uma caverna. A vegetação rasteira estava cortada e os galhos quebrados, então era claramente obra humana. Havia uma série de pegadas roxas brilhantes pertencentes a alguém seguindo pelo caminho.
Ronie parou na entrada do caminho e esperou Tiese alcançá-la.
— Cuidado! — sussurrou ela. — Podemos encontrar quem quer que seja o dono dessas pegadas.
— Entendido! — respondeu sua parceira.
A seus pés, os dois pequenos dragões tinham as asas dobradas e usavam expressões sérias. Se o grupo continuasse por este caminho, poderia terminar em batalha. Ela queria deixar os dragões para trás por esse motivo, mas o pátio da mansão também não era necessariamente seguro.
Percebendo que teriam que levá-los, Ronie se agachou.
— Vocês dois têm que ficar quietos, está bem?
Tsukigake respondeu com um pio baixo, então ela esfregou a cabeça do dragão e se levantou novamente.
A luz das pegadas já estava desaparecendo do caminho, mas com base no tamanho da floresta, eles não se perderiam aqui. Ela e Tiese trocaram outro olhar por precaução e depois entraram nas árvores.
Em apenas alguns mels, o ar frio picou sua pele. Era um dia quente que indicava a chegada da primavera, mas o ar lhes embaçava a respiração como se fosse pleno inverno.
Ronie teve um mau pressentimento sobre isso. Quando ela mergulhara na sala do trono do Castelo de Norlangarth com Tiese durante a Rebelião dos Quatro Impérios, parecera tão opressivo quanto isso. Não era apenas frio; era como se o frio que se infiltrara nas paredes e no chão ao longo de anos e anos estivesse ativamente sugando todo o calor.
Os sinos das duas e meia ainda não haviam tocado, mas a área ficava mais escura quanto mais caminhavam. Arbustos com espinhos afiados bloqueavam as laterais da trilha, e galhos retorcidos das árvores pairavam bem acima de suas cabeças.
Se ficasse mais escuro, elas precisariam usar elementos de luz para ver. Ronie estava apenas ponderando sobre isso quando Tiese gritou:
— Oh! Ronie… olhe!
Através da escuridão, ela pôde ver várias hastes de metal em pé. A princípio, pensou que haviam chegado à cerca de metal que cercava a floresta, mas depois percebeu que não era uma cerca, mas um padrão de treliça. Havia um pequeno prédio semelhante a um santuário no final do caminho, com uma porta de treliça na frente.
Elas pararam, certificaram-se de que não havia sinal de presença humana ao redor do pequeno prédio e se aproximaram com cuidado.
— Este prédio… é muito antigo… — murmurou Tiese. Ela estava certa — o santuário de pedra estava escurecido pela exposição ao vento e à chuva, e o musgo cobria a área onde encontrava o chão.
Dez ou vinte anos não poderiam causar esse tipo de mudança. O grande portão de treliça estava um pouco enferrujado, mas devia ser feito de material de alta prioridade, porque ainda parecia muito resistente.
As duas metades do portão estavam em alinhamento perfeitamente contínuo, com um cadeado de aparência pesada em volta dele, a cerca de um mel do chão. Elas agarraram o portão e tentaram empurrar ou puxar, mas ele estava, sem surpresa, firme. Atrás dele havia uma escadaria que descia para o chão, onde não havia nada além de escuridão.
— Este também está trancado — disse Ronie.
Frustrada, Tiese gemeu:
— E tenho certeza de que há algo além daqui…
Para o alívio de Ronie, ela parecia mais racional, não tão possuída como minutos antes. Ela provavelmente não superara completamente sua fixação por fantasmas, mas, entre a porta dos fundos e esta pequena cabana de pedra, estava claro que quem quer que estivesse aqui era um humano vivo, não um espectro. O mesmo valia para o que quer que tivesse causado o som dentro da mansão.
Era muito provável que a pessoa estivesse quebrando a ordem do conselho que proibia a invasão, então, como aprendizes de cavaleiro, elas queriam expor quem era o responsável e prendê-lo se ele pretendesse fazer o mal — mas isso não justificava quebrar a fechadura. Não havia nenhum crime sendo cometido à vista aqui.
Infelizmente, elas precisariam retornar à Catedral, dar um relatório e voltar com um dos Cavaleiros da Integridade seniores, percebeu Ronie. Mas antes que pudesse dizer isso, Tiese disse:
— Oh…! Ali!
Ela enfiou a mão pela treliça para apontar para a parede direita da escadaria descendente. Ronie aproximou o rosto do portão e encarou a escuridão.
Cerca de sete degraus abaixo, ela viu algo brilhando, opaco contra o preto. Pendurado em um prego em forma de gancho na parede havia um barbante conectado a um longo objeto prateado…
— — …Uma chave! — — gritaram elas juntas, olhando uma para a outra.
Provavelmente era uma chave reserva, caso o usuário ficasse trancado dentro da estrutura. Em outras palavras, este imponente portão era para manter intrusos do lado de fora.
Elas tentaram alcançar a chave através do portão, mas os espaços entre as barras de metal tinham no máximo dez cens de largura, e enfiar os braços até o ombro não era comprimento suficiente para chegar à chave.
— Se… Se, ao menos, pudéssemos usar as Armas Encarnadas… — gemeu Tiese. Ronie concordou, mas se pudessem fazer isso, então poderiam ter aprendido a Abertura de Fechadura com Encarnação com Kirito.
Ela olhou ao redor, caso houvesse um galho longo por perto, mas claro que não haveria. Se houvesse um galho de três mels de comprimento, elas poderiam usá-lo para enganchar a chave e tirá-la do prego, então seria uma coisa muito descuidada de se manter por perto. Mas se iam ter uma chave reserva, não seria melhor mantê-la muito mais abaixo na escada, em vez de ao lado do portão?
“Para que serve este prédio, afinal?”, ela se perguntou novamente.
Nesse momento, ela ouviu um dragão rosnando lá embaixo. O pálido-azul Shimosaki estava tentando se contorcer pelo espaço entre as barras da cerca. Tiese sussurrou apressadamente:
— Não, Shimosaki, mesmo você não consegue espremer —
Mas naquele momento, Tsukigake empurrou o traseiro de Shimosaki com a cabeça. O corpo do pequeno dragão passou pelo espaço, dando uma cambalhota antes de parar pouco antes das escadas.
— Kyurrr! — guinchou Shimosaki com orgulho. Havia um pouco de ferrugem presa em sua penugem macia, mas ele não parecia estar ferido. A camada fofa e macia fazia a criatura parecer maior do que seu pequeno corpo realmente era.
— Agora quem disse que você podia fazer isso? — repreendeu Tiese, mas havia um toque de orgulho em seu sorriso. Com o braço ainda enfiado pelo portão, ela apontou para o benefício de seu dragão. — Você pode pegar aquilo para nós?
Ele piou afirmativamente e desceu as escadas até ficar diretamente abaixo do prego em forma de gancho. A chave estava a 1,8 mels de altura. Enquanto batia suas pequenas asas, Shimosaki pulou uma vez, depois duas, e na terceira vez, ele conseguiu pegar a chave em sua boca. Então ele retornou ao portão, exultante, e enfiou seu focinho estreito de volta pelo portão.
Tiese pegou a chave e a entregou a Ronie para que pudesse usar as duas mãos para esfregar a cabeça do dragão. Ronie a observou enquanto enfiava a chave envelhecida na fechadura do portão. Ela resistiu um pouco, mas girou como esperado e finalmente clicou.
Depois de esperar Tiese recuar, ela abriu o portão, fazendo-o ranger. Shimosaki agitou as asas por dentro, instigando-as a se apressar.
Agora que o portão estava aberto, elas tinham que investigar o que havia no subsolo, mas quando Ronie deu outra olhada na escuridão abaixo das escadas, sentiu um suor repentino inundar suas palmas.
Ela não gostava das discrepâncias em jogo aqui: o portão de aço extravagante, com sua chave pendurada à vista de todos, pedindo para ser pega. Ela não necessariamente achava que era uma armadilha para atrair intrusos para o subsolo — por que trancar o portão, nesse caso? —, mas não conseguia nem começar a adivinhar o que havia lá embaixo.
Tsukigake pareceu ter percebido a ansiedade de sua mestra e se esfregou em suas pernas. Ela pegou o dragão e sugeriu:
— Tiese, vou ver o que há lá embaixo. Você fica aqui, e…
— Absolutamente não. Eu também vou descer, é claro — disse sua amiga com firmeza. Agora Ronie não podia recuar e dizer que preferia esperar do lado de fora com os dragões.
— …Tudo bem. Apenas lembre-se de ser muito cuidadosa.
— O mesmo para você — disse Tiese com um sorriso.
Isso foi o suficiente para encorajar Ronie um pouco. Ela sorriu de volta, e então caminhou até os arbustos do lado esquerdo do caminho, pegando um galho sem espinhos e quebrando-o. Em seguida, ela gerou um único elemento de luz e o fixou na folha na ponta do galho com o comando Adere.
Com Tsukigake sob o braço esquerdo e a tocha improvisada na direita, ela pôs o pé dentro do santuário. Tiese e seu dragão a seguiram, e então Ronie fechou o portão e o trancou novamente. Ela queria levar a chave com eles, mas alguém poderia notar a falta da chave e perceber que havia intrusos, então ela a colocou de volta no prego em forma de gancho.
A escadaria para baixo era muito mais longa do que ela imaginava. Havia trinta degraus no total para chegar ao fim, ponto em que ela voltava por mais trinta degraus antes de finalmente se transformar em terreno plano. Cada degrau tinha cerca de vinte cens de altura, então elas estavam a doze mels abaixo da superfície agora. Isso equivalia a três andares da Catedral.
O ar estava notavelmente mais quente do que do lado de fora, mas era úmido, mofado e bolorento. Uma parte dela realmente pensou que poderia ser a câmara do tesouro escondido do Império Norlangarth, mas em condições como estas, qualquer tesouro perderia sua vida em poucos anos e se despedaçaria.
Após cinquenta mels inteiros pelo corredor subterrâneo, as escadas viraram à direita. Finalmente, uma luz fraca apareceu à frente. Elas não podiam ser descuidadas agora, no entanto. Qualquer que fosse a fonte de luz, elas encontrariam quem quer que a tenha preparado por perto. Havia mais de trinta mels de espaço entre elas e a luz, mas Ronie parou bem ali, esperando e ouvindo por sinais de vida. Não havia sons ou vozes por enquanto. Quando ela retomou a caminhada, o capuz de seu manto foi puxado para trás.
Ela se encolheu e se virou, exclamando “…O quê?!” o mais baixo que pôde.
Tiese estava olhando para o teto do corredor com uma expressão preocupada. Ronie olhou para cima também, mas era o mesmo revestimento de pedra das paredes. Ela olhou para baixo novamente para Tiese.
— Nós fomos para o noroeste do pátio, para a floresta… depois entramos no subsolo no prédio e voltamos… Ronie, você não acha que estamos de volta sob a mansão agora?
— Uh…
Ela imaginou um perfil lateral da mansão e da floresta, piscando lentamente e assentindo.
— Sim… você pode estar certa. Qual é o seu ponto?
— Isso não é… estranho? Se é um porão para a mansão, eles poderiam simplesmente construir escadas dentro do prédio… Por que haveria uma entrada a dezenas de mels de distância na floresta?
Tiese tinha um ponto muito bom, ela tinha que admitir. Aquela sensação suspeita que teve com a chave na parede ao lado do portão voltou com força, mas elas não iriam descobrir a resposta apenas paradas aqui, ela podia dizer.
— Talvez se olharmos mais para dentro, descobriremos algo — sussurrou Ronie. Sua parceira concordou. De qualquer forma, elas chegaram até aqui, então não podiam voltar antes de terem investigado esta passagem subterrânea de ponta a ponta.
Os pares interespécies se esgueiraram para o sul pelo corredor, ouvindo atentamente. Uma luz amarela tremeluzia fracamente à frente. Ronie se concentrou no ar e notou que, entre o cheiro de mofo, havia o cheiro particular e carbonizado de uma lanterna a óleo. E entre ele, outro cheiro, mais fraco.
Aninhado sob seu braço esquerdo, o focinho pontudo de Tsukigake estava se contorcendo. Ronie podia dizer que já sentira esse cheiro antes, mas não conseguia descobrir onde. Ainda assim, elas seguiram em frente.
A luz acabou vindo de duas lanternas a óleo penduradas na parede direita. O corredor chegava ao fim logo depois delas, mas havia algo na parede esquerda. Brilhava opacamente à luz da lanterna. Um novo portão de barras. Não… era…
— U-uma cela…? — sussurrou Tiese. Ronie assentiu.
Era grande demais para ser uma porta. Barras de ferro iam do chão ao teto, exatamente como as celas da prisão subterrânea no posto da guarda da cidade. Havia duas grandes celas aqui, cada uma com quatro mels de largura. De seu ângulo, elas não podiam ver mais para dentro delas.
Elas colocaram as costas contra a parede esquerda e se arrastaram ao longo dela. Quanto mais se aproximavam das celas, mais forte era o odor misterioso. Era como palha que fora seca ao sol ou armadura de couro bem usada. Houve um cheiro semelhante antes… não no Mundo Humano, mas no Território das Trevas.
Antes que chegasse à resposta, Ronie parou. Ela chegara à beira da cela mais próxima. Com Tsukigake em seus braços, ela silenciosamente inclinou a cabeça ao redor da esquina para olhar para dentro.
A luz das lanternas na parede oposta era fraca e não iluminava totalmente o fundo da cela. Ela estendeu o galho de elemento de luz, e logo ficou claro que as celas não estavam vazias. No canto mais distante de Ronie, havia um trio de prisioneiros. Eles estavam amontoados, aparentemente dormindo.
As figuras, vestidas com roupas rudes e simples, eram muito pequenas. Cada uma delas tinha menos de um mel e meio de altura. Crianças? Não, seus braços eram longos demais. Suas cabeças eram carecas, e seus narizes e orelhas eram pontudos.
Não eram crianças. Nem mesmo eram humanos. Eram goblins.
Ela recuou rapidamente e pressionou a mão que segurava o galho iluminado na boca. Tiese se inclinou para perto.
— O que é…? Há alguém lá dentro?
Ronie assentiu rapidamente. Ela exalou, e então inalou profundamente pelo nariz. O cheiro de palha seca era familiar para ela porque era o odor corporal dos goblins da montanha que ela sentira ao visitar sua morada.
— Sim… três goblins da montanha. Acho que são os turistas que foram levados da estalagem de Centoria do Sul.
— O quê…? — disse Tiese, com os olhos arregalados. Ela se inclinou ao redor de Ronie, agarrando-se a ela, para olhar para dentro da cela. Três segundos depois, ela recuou. — Você está certa… Mas por quê…? Por que os goblins levados de Centoria do Sul estariam aqui, nas propriedades particulares do imperador em Norlangarth?
Não havia uma resposta imediata para essa pergunta.
Para viajar de Centoria do Sul para Centoria do Norte, eles teriam que passar por Centoria Leste ou Oeste, então, em qualquer caso, isso envolveria cruzar as Muralhas Eternas duas vezes. Para passar pelo único ponto de verificação com portão entre cada cidade, precisava-se de um passe de viagem ou de um certificado de um dia, e mesmo o certificado era difícil de obter, quiçá o passe. Embora as pessoas que sequestraram os goblins forjando uma ordem do governo da cidade de Centoria do Sul e se passando por um oficial pudessem forjar um certificado de permissão, ainda havia a questão de se arriscariam o perigo de serem parados nos portões apenas para levá-los até o império do norte. Havia terra suficiente no império do sul, com igual oportunidade de esconder os goblins.
— …Podemos pensar nisso depois — murmurou Ronie, tanto para si mesma quanto para Tiese. — Temos que tirá-los daqui e levá-los para a Catedral.
— Sim… mas a cela vai estar trancada, é claro.
Tiese estava certa sobre isso. Elas olharam ao redor das paredes, mas não parecia haver nenhuma chave por perto. A situação era muito diferente de antes, no entanto.
Bem diante de seus olhos estavam turistas do Reino Sombrio que foram sequestrados por ordens falsificadas. Isso era claramente um ato de traição contra o Conselho de Unificação Humana, e como cavaleiros, aprendizes ou não, Ronie e Tiese poderiam retificar esta situação como bem entendessem.
— Vou quebrar as barras — disse Ronie, agarrando o pomo de sua Espada Raio de Luar.
O material das barras de metal era provavelmente o mesmo do portão na superfície. Não havia quase nenhuma chance de sua espada ter um nível de prioridade inferior. Se ela poderia cortá-lo ou não, dependia da habilidade do portador.
— …Tudo bem. Vá em frente, Ronie — disse Tiese, que até sorriu por um breve momento. Ela olhou para a cela novamente. — Mas devemos acordar os goblins antes de fazer isso. Eles vão ficar apavorados se você simplesmente começar a esmagar as barras com uma técnica de combate.
— Bem lembrado!
As preocupações de Tiese eram válidas, mas seria um desafio acordar os goblins exaustos e apavorados sem fazer muito barulho. Se eles começassem a gritar, o sequestrador na mansão acima deles certamente ouviria.
Naturalmente, cortar as barras de metal com uma espada faria barulho, mas se Ronie usasse a técnica mais rápida que conhecia, e fosse perfeitamente bem-sucedida, ela poderia minimizar a quantidade de barulho. Ainda assim, isso exigia acordar os goblins antes.
Ronie se agachou para soltar Tsukigake. Então ela colocou as mãos em volta da boca para chamar os goblins adormecidos.
Nesse momento, um barulho tremendo encheu o corredor, como objetos extremamente pesados sendo raspados um contra o outro. Ronie e Tiese pularam, assustadas, enquanto os três goblins na cela também saltaram e notaram as garotas paradas diante das barras.
— Giiie!
— Por favor, parem! Não nos machuquem mais!
Os três se agarraram e tremeram, um sinal do tratamento muito cruel e traumático que receberam. Ela queria tranquilizá-los de que vieram para salvá-los, mas havia um assunto mais urgente no momento.
A parede no final da passagem, que eles tomaram como um beco sem saída, estava subindo lentamente. Era uma porta escondida — e quase certamente a fonte do som que ouviram fracamente do lado de fora da porta da frente da mansão.
E se a porta estava se abrindo agora, isso significava que alguém estava entrando na passagem subterrânea.
Não havia onde se esconder. O canto mais próximo na passagem ficava a mais de trinta mels atrás deles; não havia como correr essa distância a tempo.
— Teremos que lutar — Tiese sussurrou.
De fato. Se não havia lugar para se esconder, as únicas opções restantes eram lutar ou se render. A escolha era clara.
Ronie e Tiese desembainharam suas espadas e as seguraram com as duas mãos em posturas de combate. No chão, diante de Ronie, Tsukigake abriu as asas — uma posição destinada a proteger sua mestra —, enquanto Shimosaki fazia o mesmo na frente de Tiese.
— Tsukigake, Shimosaki, entrem na cela e fiquem quietos! — Ronie ordenou em um silvo.
Os pequenos dragões piaram descontentes, mas seguiram a ordem. Primeiro, Tsukigake se espremeu entre as barras de ferro. Ela bateu as perninhas, torcendo o corpo até passar e rolar para o centro da cela. Os goblins ao longo da parede dos fundos gritaram de terror, mas logo perceberiam que o dragão não lhes faria mal.
Em seguida, Shimosaki tentou passar. A porta escondida já estava meio aberta, enviando uma névoa branca e gelada através da escuridão. A escuridão era tão espessa que não podiam ver quem estava do outro lado da porta, mas a presença estava absolutamente lá.
— Rápido, Shimosaki! — gritou Tiese. Shimosaki gemeu dolorosamente. Aparentemente, essas barras eram um pouco mais estreitas que as do portão acima. Talvez por ser seletiva com peixes, a constituição um pouco menor de Tsukigake conseguiu passar, mas a base das asas de Shimosaki era larga demais.
Talvez pudessem empurrá-lo, mas isso poderia acabar quebrando suas delicadas asas. E, enquanto isso, a porta continuava a subir.
— Esqueça, Shimosaki! Fique atrás de nós! — gritou Tiese, apertando sua espada. Shimosaki respondeu, recuando das barras e correndo para trás das garotas.
Finalmente, a porta escondida alcançou o teto e parou com um estrondo ainda mais alto.
Da escuridão, alguns segundos depois, vieram os sons secos e nítidos de passos — toc, toc, toc — pelo chão de pedra em direção a elas. Ronie teve que usar todo o seu autocontrole para não usar suas técnicas de combate para cortar a figura antes que ela aparecesse. Isso seria o ato de um covarde, não de um cavaleiro, e matar o inimigo deixaria sua identidade e motivo para sequestrar os goblins da montanha um mistério.
Mais alguns segundos se passaram, embora parecessem uma eternidade, e uma figura apareceu na fraca luz das lanternas a óleo.
Era tão negra que parecia a própria escuridão cortada na forma de uma pessoa. Logo elas perceberam que era um manto preto como breu, mas o efeito era tão severo que, no primeiro instante, Ronie não conseguia nem ter certeza de que era uma pessoa viva.
Não, é definitivamente um humano.
E ela reconheceu sua presença.
Este era o homem de manto preto que sequestrara Leazetta, a filha do Comandante Iskahn e da Embaixadora Sheyta. A figura no corredor diante delas tinha exatamente o mesmo ar daquela pessoa no último andar do Palácio de Obsidia — algo entre homem e monstro.
Mas não era possível.
O sequestrador de manto preto saltara da janela do Palácio de Obsidia e desaparecera há apenas três dias. Mais de três mil quilômetros separavam Obsidia de Centoria. Isso era meio ano de viagem a pé, três meses de carruagem ou duas semanas inteiras usando os mensageiros a cavalo nas dez cidades e vilas que se estendiam pela distância. A única maneira de cruzar essa extensão em três dias seria com dragões — mas haveria pânico se alguém que não fosse um Cavaleiro da Integridade estivesse voando sobre as cidades humanas.
Era a mesma pessoa ou apenas alguém muito semelhante? Ronie encarou ferozmente, esperando captar algum detalhe que a ajudasse a fazer essa determinação.
O braço direito do sequestrador fora decepado por um golpe da Embaixadora Sheyta, a Cavaleira Silenciosa, seguido pelo Salto Sônico estilo Aincrad de Ronie para cortar seu esquerdo. Um usuário muito poderoso de artes sagradas poderia regenerar membros curando-os, mas o movimento nesses membros seria desajeitado por uma semana depois.
Mas este homem — isso ainda era uma suposição — deu um passo para o corredor e ficou completamente imóvel. Da escuridão do capuz profundo da figura, Ronie e Tiese podiam sentir um olhar curioso que se agarrava à sua pele.
“Ele está tentando prever o que faremos primeiro… Ou não, ele está esperando por algo…?”, ela se perguntava.
Ronie apertou um pouco mais o cabo da Espada Raio de Luar. O que quer que o homem estivesse esperando, elas não tinham motivo para obedecer. Se este era de fato o mesmo sequestrador de Obsidia, ele usaria veneno. Melhor para elas atacarem antes que ele pudesse usá-lo nelas de alguma forma.
Elas não podiam simplesmente matá-lo. Ronie atingiria a perna direita do inimigo; Tiese, a esquerda. Isso o privaria da capacidade de lutar.
Ronie apontou a ponta de sua espada um pouco para a esquerda. Tiese entendeu instantaneamente sua intenção e se inclinou na direção oposta.
A respiração delas se alinhou em preparação para uma execução simultânea da técnica estilo Aincrad Corte Inclinado. Inspirar, expirar, inspirar…
No momento em que sentiu que estava perfeitamente em sincronia com sua parceira, Ronie começou a se mover. Mas como se roubasse o próprio ar de seus pulmões, o homem de manto preto agiu primeiro.
Se ele tivesse se movido para atacar, elas teriam feito sua técnica. Em vez disso, o homem levantou preguiçosamente as mãos e simplesmente varreu o capuz para trás. Isso foi o suficiente para atrapalhar o tempo de Ronie, e ela recuou um pouco a espada.Uma voz profunda ressoou:
— Convidados inesperados, então. Ou… talvez eu deva chamar isso de orientação de Vecta.
Ela reconheceu aquela voz profunda e rouca. Não tinha nada a ver com o sussurro áspero do sequestrador em Obsidia.
Para começar, o movimento de seus braços era muito suave. E mais importante, Ronie conhecia suas feições. Eram afiadas e ferozes. Seu bigode e barba eram grisalhos e modelados em pontas, seus olhos do azul pálido de um lago congelado.
— …N-não pode ser… — gaguejou Tiese. Ronie queria dizer o mesmo.
Era o sexto imperador do Império Norlangarth: Cruiga Norlangarth.
Detalhes vieram à mente. Tapeçarias de parede pretas em chamas, o som distante de luta de espadas.
Mas isso não era possível. O Imperador Cruiga morrera na sala do trono imperial mais ou menos nesta época, no ano passado.
Ronie e Tiese haviam cruzado espadas com o imperador pessoalmente. Elas lidaram com seu estilo de combate Alto-Norkia, onde cada técnica tinha grandes brechas exploráveis, mas também um poder mortal; a batalha durou mais de cinco minutos. Quando Deusolbert finalmente chegou, ele perfurou a perna direita do imperador com uma flecha do Arco da Conflagração. Aquele breve momento foi suficiente para Ronie e Tiese desferirem seus melhores ataques, cravando as lâminas profundamente em cada lado do peito do imperador.
Nenhum ser humano poderia sobreviver a tais ferimentos. Deusolbert confirmou a morte do imperador, e o corpo foi levado para a catedral, onde foi cremado com os corpos dos outros dois imperadores. Os restos imperiais se tornaram luzes de poder sagrado, e Ronie os viu se dissolverem no ar com seus próprios olhos.
Então, o Imperador Cruiga não poderia estar vivo.
E, no entanto, o homem de manto preto diante dela não poderia ser ninguém além do Imperador Cruiga.
Sua mente ficou entorpecida. Ronie não conseguia se mover nem falar. Sua visão se estreitou, e seus sentidos corporais se desvaneceram. Os olhos insensíveis e gelados do homem ficavam cada vez maiores, ofuscando todo o resto.
E porque ela caíra em um estado de dormência, sua reação veio apenas um momento tarde demais para os sons fracos que vinham de trás dela.
Passos… Ataque surpresa… Inimigo!
Os pensamentos explodiram em sua mente. Ronie manteve a mão esquerda apontada para o homem com o rosto do imperador e virou a cabeça na outra direção. Mas o homem recém-chegado, em outro manto preto, já estava pulando para trás, para fora do caminho.
E em sua mão estava o tufo azul claro do pescoço de um dragão juvenil.
— Gyurururuu! — o dragão engasgou de dor.
— Shimosaki!! — gritou Tiese.
Para as garotas, Tsukigake e Shimosaki eram parceiros insubstituíveis com quem passaram oito meses juntos, desde que saíram dos ovos postos por sua mãe, Akisomi. A ideia de que aqueles dragões fossem feridos era insuportável.
Tiese voou em direção ao homem de manto preto em um borrão sem mente, mas, como Ronie, congelou a um passo de distância.
O homem sacara uma grande faca que pressionou contra o pescoço de Shimosaki. A ponta dela estava manchada e verde, claramente revestida com algum tipo de veneno. Shimosaki sentiu o perigo e parou de lutar.
Lenta mas seguramente, o homem recuou, até que havia mais de cinco mels de distância entre ele e as garotas. Elas precisavam fazer algo, mas não podiam se dar ao luxo de se moverem de onde estavam.
— Vocês, cavaleiros, valorizam demais esses lagartos — zombou o homem com o rosto do Imperador Cruiga da porta escondida. — Eles não são nada além de bestas. Estica a compreensão por que deveriam ser tão próximos, quando há muitos mais de onde eles vieram.
— Eu não esperaria que gente como você entendesse de qualquer maneira — disse Tiese em uma voz sufocada, grossa de emoção. — Ordene ao seu homem que o solte. Se você machucar sequer uma única pena no corpo daquele dragão, nenhum de vocês sairá deste lugar vivo.
— Ha-ha-ha! Mesmo como cavaleiros, vocês são tão ousadas quanto sempre. — O homem que parecia o imperador riu, sua voz rachando. Ele traçou o peito esquerdo com os dedos, o exato local onde a espada de Tiese se afundou nele um ano atrás.
— Infelizmente para vocês — continuou ele —, serei eu quem dará as ordens. Joguem suas espadas e as chutem pelo chão até mim. Se fizerem um único movimento extra, a cabeça do seu pequeno lagarto voará.
“E a sua também!”, pensou Ronie sombriamente. Mas mesmo que o homem fosse o verdadeiro Imperador Cruiga, sua vida não era uma troca justa pela de Shimosaki. Tiese olhou para ela, com o olhar suplicante, e Ronie lhe deu um pequeno aceno de cabeça.
As garotas largaram suas lâminas nuas no chão. Com um pedido silencioso de desculpas à sua espada, Ronie colocou a ponta de sua bota contra o pomo e a deslizou em direção ao imperador.
O imperador estendeu um pé de seu manto para parar as duas espadas, e então as chutou descuidadamente de volta para a passagem atrás de onde a porta escondida se abria. Seu brilho prateado logo foi engolido pela escuridão.
— Muito bem. Agora, para suas próximas ordens…
Das profundezas de seu manto, ele tirou uma chave preta e reluzente, que jogou para Ronie. Ela estendeu a mão para pegá-la com as duas mãos. Apesar de ter estado em seu corpo, a chave estava fria como gelo.
— Abra a cela ao lado dos goblins, entre, feche a porta e tranque-a.
Ronie esperava que, se ele se aproximasse delas, descuidado depois de tê-las desarmado, ela pudesse lutar com ele de mãos nuas e tomá-lo como refém, e então exigir que o homem atrás deles soltasse seu dragão. Mas o imperador estava calmo e cuidadoso, mantendo a distância. Ela olhou para trás e viu que Shimosaki se mantinha firme para não agitar a lâmina envenenada, apesar da luta ocasional.
Uma vez que estivessem dentro da jaula, a fuga seria quase insondavelmente difícil, mas havia pouca escolha agora. Ronie deu a Tiese um sinal com os olhos e depois se aproximou da cela vazia à esquerda. Ela destrancou a porta com a chave, entrou com sua parceira, fechou a porta, estendeu a mão por entre as barras e tateou a fechadura para poder inserir a chave novamente e girá-la.
— Se ao menos eu pudesse girá-la apenas o suficiente para parecer trancada sem realmente fechá-la completamente…! — Mas isso não funcionaria. Ela se lembrou de Kirito dizendo algo como: “As chaves e fechaduras deste mundo não são engenhocas mecânicas, são fechaduras controladas pelo sistema”.
A palavra sagrada “sistema” deveria se referir ao funcionamento do mundo, ela sabia. Então, Kirito estava essencialmente dizendo que o ofício de chaveiro, que era passado de pai para filho, envolvia perfurar buracos de fechadura em placas de metal usando cinzéis tradicionais especiais herdados dos ancestrais, e então moldar a peça de metal que foi perfurada na chave — e que o funcionamento do mundo garantia que apenas aquela combinação de chave e fechadura funcionaria junta. Por essa lógica, cada fechadura tinha apenas dois estados — trancada ou destrancada — e não seria possível fazê-la “parecer” destrancada, apenas para soltá-la com um golpe forte.
Ronie girou a chave para a direita até que começou a empurrar de volta e finalmente deu um último e cruel clique. Ela tirou a chave e a jogou para o imperador.
Cruiga a pegou com uma mão pálida, guardou-a em seu manto e sorriu cruelmente novamente.
— Heh… Fico feliz em ver que vocês podem obedecer a seus superiores. Eu não gostaria de sujar este lugar histórico com sangue imundo de lagarto.
— …!
Tiese rosnou de raiva, mas Ronie colocou uma mão em seu ombro. Com a voz tensa, ela disse:
— Histórico…? Só parece uma prisão subterrânea para mim.
O imperador pinçou a ponta pontuda de sua barba entre os dedos.
— De fato, é apenas uma prisão subterrânea. Mas essas pedras sobre as quais vocês estão são manchadas com o sangue de trezentos anos. Tantos servos foram punidos neste local pela autoridade judicial!
— …!
Agora era a vez de Ronie ofegar. Ela olhou para a pedra enegrecida sob seus pés.
A autoridade judicial era um privilégio concedido apenas a altos nobres e imperiais que lhes permitia punir qualquer um que não lhes mostrasse o devido respeito, por quaisquer meios que escolhessem. Apenas nobres inferiores ou civis em suas terras podiam ser punidos, mas o pai de Ronie, um nobre de sexta categoria, disse que fora humilhado muitas vezes por altos nobres por razões muito injustas.
Mas mesmo a autoridade judicial não podia tirar a vida de outro sem uma razão muito adequada — ou o nobre correria o risco de violar o Índice de Tabus. E punições privadas por nobres não contavam como “adequadas”. Mesmo os Cavaleiros da Integridade, que possuíam os maiores privilégios de qualquer um no Reino Humano, estavam limitados a tirar apenas 70 por cento da vida máxima de uma pessoa culpada em punição.
— Qualquer punição que derrame sangue suficiente para manchar o chão violaria o Índice de Tabus — resmungou Ronie.
O imperador apenas riu novamente.
— Heh, heh-heh-heh! Existem inúmeras maneiras de escapar daquela desculpa esfarrapada de um índice. Você poderia até dizer que a própria história das quatro famílias imperiais e dos altos nobres é a busca por encontrar essas brechas.
Essas palavras trouxeram uma memória horrível à mente de Ronie, como um raio na escuridão da noite.
O ex-Discípulo de Elite de primeiro assento, Raios Antinous, apesar de ser um colega estudante, armara uma armadilha intrincada e tortuosa para Ronie e Tiese e tentara usar a autoridade judicial como desculpa para violá-las. Sua pele se arrepiava ao imaginar que tipo de depravação seu pai e avô, que eram da terceira categoria, deviam ter conduzido em suas próprias terras particulares.
E quando se tratava do Império Norlangarth, que se apoiava nos ombros de todos os outros nobres…
— Você nunca achou estranho, garota? Se há uma porta para a mansão, por que haveria uma passagem subterrânea que leva para a floresta? — perguntou o homem. Ronie encarou o rosto do imperador através das barras.
O bigode fino do homem se curvava sobre um sorriso pálido e cruel. Ele não esperou por sua resposta.
— É para tirar os corpos, é claro. A última coisa que queremos é manchar a mansão com o sangue imundo do povo comum.
— C-como ousa! — gritou Tiese. Ela se jogou contra as barras como se estivesse tentando atravessá-las, agarrando o aço.
Fúria branca e quente percorreu Ronie também. O homem diante dela — e toda a sua linhagem — durante anos e anos trancara pessoas nessas celas, atormentando-as enquanto evitava a lei e tirava injustamente suas vidas.
O portão que encontraram na floresta não era para proteger a passagem contra invasores. Era simplesmente o portão pelo qual carregavam os corpos mortos dos plebeus inocentes das celas abaixo. É por isso que a chave do portão estava em um local tão descuidado. E claro que estava — quem se infiltraria nas terras particulares do imperador com intenções maliciosas?
Apesar dos melhores esforços de Tiese, que era tecnicamente uma Cavaleira da Integridade, as barras de metal apenas rangeram, nada mais. Apenas imaginar o puro desespero que todas aquelas pessoas que foram trancadas aqui ao longo dos anos devem ter sentido enquanto se agarravam a essas mesmas barras fez Ronie tremer com uma fúria ainda maior.
Mas então o homem de manto preto segurando Shimosaki como refém apareceu silenciosamente do lado direito da passagem e assumiu uma posição atrás do imperador. Uma olhada na faca envenenada mantida no pescoço do pequeno dragão ativamente impulsionou Tiese para longe das barras.
Shimosaki estava exausto após lutar, mas quando viu sua mestra, soltou um pequeno lamento. Tiese gemeu com o som, e os olhos de Ronie se encheram de lágrimas.
Mas elas não podiam gritar. Não agora.
Na cela vizinha, através da parede de pedra que as separava, Tsukigake ainda estava escondida. Ela permanecia quieta, mantendo desesperadamente a ordem que recebera mais cedo, mas se Ronie perdesse a calma, Tsukigake provavelmente faria o mesmo. Ela poderia correr de volta pelas barras e atacar o homem de manto para salvar seu irmão mais velho. Por mais frio que fosse pensar assim, se Tsukigake também fosse pega, suas chances de escapar diminuiriam ainda mais.
“Por favor, Tsuki. Fique quieta onde está!”, Ronie orou através da grossa parede de pedra. Era a única coisa que podia conter sua raiva.
Como se estivesse lendo seus pensamentos, o Imperador Cruiga fixou seu olhar afiado em Ronie.
— Você… a garota de cabelo preto. Você não tem seu próprio lagarto?
Ela ficou tão surpresa que só conseguiu balançar a cabeça sem dizer uma palavra. Tiese se encarregou de responder.
— Viemos aqui para o lago para ajudar aquele a superar o fato de ser seletivo com peixes. O dragão de Ronie ainda está na Catedral.
— Ah… Você pode não saber que existem cinco tipos de peixe no Lago Norkia. Permitimos que os servos pescassem quatro desses tipos, mas qualquer um que pegasse a truta dourada proibida seria instantaneamente jogado nessas celas — disse o imperador, com a voz saudosa.
Tiese retrucou:
— Como se eles pudessem escolher que tipo de peixe morderia suas iscas!
— Precisamente. Eles não podem. No entanto, as pessoas famintas não tinham escolha a não ser lançar suas linhas de qualquer maneira, rezando para que a deliciosa truta dourada não mordesse seus anzóis. Você só pegaria uma em trezentas, mas o “sortudo”…, ou devo dizer “azarado vencedor”, podia ser ouvido lamentando do outro lado da água. Era muito divertido desfrutar de uma bebida à beira da água, acompanhado por seus gritos.
Ronie olhou para o homem que ria. Foi outro teste de perseverança para não explodir com ele.
Era verdade que as violações do Índice de Tabus e da Lei Imperial eram quase todas acidentais. Para começar, violar a lei conscientemente exigia quebrar o Selo do Olho Direito. Mas ser punido por algo que não se podia evitar conscientemente era simplesmente injusto e iníquo. E o imperador estava essencialmente coagindo os residentes de sua propriedade particular a caírem na desgraça. Em sua essência, não era diferente de Raios Antinous antagonizando Ronie e Tiese para usar sua autoridade judicial sobre elas.
O sorriso cruel do imperador desapareceu.
— Hmm. Então há apenas um lagarto. Então, vamos levá-lo sob custódia cuidadosa. Não se preocupem, ele será alimentado… e se tentarem escapar, ele será dado de comer aos goblins como um assado.
E com isso, o Imperador Cruiga se virou em direção à porta escondida.
Mas então ele parou e olhou para Shimosaki, que seu lacaio ainda segurava pelo pescoço.
— …Zeppos, você acha que aquele lagarto cabe entre as barras das celas?
O coração de Ronie pulou para a garganta. O homem que ele chamou de Zeppos ergueu Shimosaki em direção ao seu rosto e o examinou. Com uma voz surpreendentemente aguda, o homem disse:
— Se você o empurrasse com força, talvez.
— Entendo.
O imperador pegou uma lanterna a óleo da parede e a ergueu em direção à cela de Ronie e Tiese. Com um olhar afiado, ele examinou a cela inteira e depois assentiu com satisfação.
“Por favor, apenas se vire agora!”, Ronie orou. Mas o imperador virou à direita, não à esquerda, e começou a caminhar em direção à outra cela.
Tsukigake certamente estava escondida no canto da cela, mas, assim que a luz da lanterna a alcançasse, aquela penugem amarelo-pálida seria muito visível. Ela tinha que detê-lo de alguma forma — mas se o chamasse descuidadamente, ele suspeitaria de algo. E que diferença faria comprar mais alguns segundos, afinal?
“Se ele te avistar, Tsukigake, faça o seu melhor para correr para o portão na superfície!”, pensou ela, cerrando os punhos, desejando que a mensagem alcançasse sua pequena parceira.
O imperador parou diante da cela adjacente e ergueu a lanterna. Suas sobrancelhas se franziram, ele esticou o pescoço para a frente e examinou minuciosamente a cela.
Três segundos… cinco… dez.
— …Hmph — ele bufou, afastando-se das barras. Então devolveu a lanterna ao gancho na parede e, sem outro olhar para as garotas, voltou pela porta escondida. O homem que ele chamou de Zeppos o seguiu, Shimosaki pendurado em seu aperto.
Poucos momentos depois que eles desapareceram, houve um pequeno baque da escuridão, e a porta escondida que recuara para o teto começou a tremer e a descer novamente.
Quando a parte inferior da porta se fundiu com o chão, Ronie soltou o ar que estava prendendo. Tiese tirou as mãos das barras e pressionou a testa no ombro de Ronie enquanto se aproximava.
— …Shimosaki vai ficar bem… certo…? — ela guinchou.
— Claro! — tranquilizou-a Ronie. — Ele é um refém valioso. Eles não o machucarão.
— …Sim — concordou Tiese, trêmula. Ronie esfregou suas costas repetidamente antes de finalmente se afastar. Ela se aproximou cuidadosamente das barras e, o mais silenciosamente possível, disse para a cela adjacente: — Obrigada, goblins.
Houve silêncio a princípio, mas eventualmente, outro sussurro respondeu.
— …Eles não encontraram o pequeno dragão.
De fato, havia apenas uma razão possível para o Imperador Cruiga não ter visto Tsukigake na cela apertada. Os goblins da montanha, que ficaram tão assustados com ela quando ela se espremeu entre as barras, usaram seus próprios corpos para esconder a criatura da vista do imperador.
— Muito obrigada…! — disse Ronie. E desta vez a resposta que ela obteve foi um pequeno “Krr!”
Tsukigake se espremeu de volta pelas barras e veio trotando até Ronie. Ela se agachou enquanto a criatura tentava se contorcer pelas barras novamente para se juntar a ela, mas Ronie estendeu as mãos para afastá-la.
— Tsukigake, por favor! Siga pelo corredor até a superfície e encontre um jeito de chegar ao portão norte de Centoria… Se os guardas te notarem, eles te levarão de volta para a Catedral.
Esta era uma ordem difícil de dar a um dragão de oito meses. Não apenas eram mais de dez quilômetros do Lago Norkia a Centoria do Norte, mas não era fácil chegar da mansão à estrada principal. E elas já haviam andado muito hoje — Ronie não conseguia nem começar a adivinhar o quanto da vida de Tsukigake cairia antes de chegar à cidade. Era bem possível que o dragão desmaiasse no caminho.
Mas neste ponto, Tsukigake era a única esperança delas. Seria provavelmente impossível quebrar as barras de ferro sem uma espada, e mesmo que pudessem, certamente chamaria a atenção de seus sequestradores e provavelmente terminaria com a morte de Shimosaki.
Apesar da ansiedade, ela agarrou o corpo de Tsukigake por entre as barras. O dragão piou, como se para tranquilizá-la de que poderia cumprir a tarefa.
Então ela se afastou de Ronie, bateu as asas duas vezes e começou a correr para o norte pelo corredor. Logo ela desapareceu de vista, e seus passos trotantes se perderam de ouvido.
“Sinto muito… Por favor, aguente firme, Tsukigake.”
Ronie caiu no chão de pedra dura, juntou as mãos e orou.
Tradução: Gabriella
Revisão: Fábio_Reis
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