Rei do Labirinto

Rei do Labirinto – Vol 02 – Cap. 16 – As Chamas Furiosas

 

1

Está chovendo.

Escuto atentamente o som.

Ouço a água batendo nas folhas das árvores do jardim. Ouço as gotas caindo no lago. Escuto quando atingem o chão. Escuto o eco na cobertura do quiosque distante.

Deixo os sons me envolverem. Em dias chuvosos assim, abro a tampa da caixa guardada no fundo do meu coração.

Há chamas furiosas dentro dessa caixa. Chamas de um rancor profundo que jamais morrerá.

Se eu libertasse essas chamas, elas consumiriam a mim, às pessoas que amo e a todo este país, reduzindo tudo a cinzas

É por isso que, em dias de chuva como este, abro a caixa com cuidado. O som da chuva acalma as chamas indomáveis. Só assim evito ser engolido pelo desejo de vingança que mantenho selado.

Ainda assim, de vez em quando, as chamas irrompem e ameaçam me devorar em uma fúria escarlate. Uma parte de mim não se importaria se isso acontecesse. Uma parte de mim deseja, desesperadamente, que isso aconteça.

As chamas foram acesas em mim quando eu tinha cinco anos. Agora, aos oitenta e um, elas ainda queimam com força.

2

Será que aquele garoto sabe que, embora me chame de seu salvador, é ele quem na verdade me salvou?

Ele é quem me salvou. Bem… ele não é mais um garoto. Hoje é o chefe da vigésima quinta família nobre do Conselho e o primeiro Defensor do Reino em mais de mil anos.

É um herói raro: derrotou um monstro invencível e conquistou uma espada divina, extinguiu uma rebelião e decapitou o líder, venceu cem cavaleiros na frente do rei, esmagou os destemidos Cavaleiros do Norte e conquistou a terra de Keza.

Mas, para mim, Panzel Goran, o Defensor do Reino, ainda é um garoto. A forma como o vejo não mudou desde que apareceu diante de mim pela primeira vez, em frente ao Labirinto Sazardon.

Quando o conheci, ele carregava o Bracelete de Alestra, então pensei que Lorde Percival tivesse enviado-o a mim. Achei que estava dizendo que aquele menino seria alguém digno de ser criado para apoiar Lorde Julius. Não creio que isso tenha sido um erro.

Mas então conheci a mãe de Panzel e descobri que seu pai era neto de Eisha Goran. Foi aí que entendi que ele também havia sido enviado a mim por Eisha.

3

Eisha nasceu no sul. Acredita-se que seu local de nascimento tenha sido no noroeste do Império Gorenza, perto dos Pântanos de Era.

Ainda jovem, fez nome na capital imperial como espadachim. Destacou-se em estratégia militar e tinha vasto conhecimento histórico; muitos lordes desejavam tê-lo como vassalo. Em vez disso, vagava pelo mundo sem mestre e vivia ensinando a espada.

Percorrendo os países do sul e desafiando guerreiros renomados em cada região, ficou conhecido como um espadachim inigualável. Seus admiradores aumentaram, e muitos reis e lordes o convidaram com condições extraordinárias. Ainda assim, ele jamais aceitou servir a ninguém.

Sua jornada eventualmente o levou ao Reino Baldemost, no norte. Àquela altura, sua fama já era enorme até ali, e muitos lordes competiam para convidá-lo. Mas o lugar que Eisha decidiu visitar foi o domínio de meu pai, Mazel Sou La Vald.

Naquela época, meu pai era apenas um cavaleiro comum da Guarda Imperial, mas sua habilidade com a espada superava a de seus pares. Eisha visitou o instrutor de espada de meu pai e, por meio dele, acabou cruzando lâminas com ele.

A luta feroz entre eles se tornou lendária. Depois, beberam o suficiente para abrir buracos no estômago e tornaram-se grandes amigos.

O espírito generoso de Eisha e a natureza diligente e honesta de meu pai se harmonizaram profundamente. Eles compartilhavam não só o amor pela espada, mas também pelo álcool. Sempre que perguntavam a Eisha por que viera ao norte, ele respondia que tinha se cansado da bebida do sul.

Meu pai confiou a educação de meu irmão mais velho e a minha aos cuidados dele. Meu irmão começou o treinamento com a espada imediatamente, mas como eu era menor, Eisha e eu passávamos a maior parte do tempo correndo pelos campos e colinas.

Eu corria com todas as minhas forças, ria e comia. Aprendia sobre a grama, as árvores e os animais. Sobre a água, o céu, a terra, as montanhas e o funcionamento do universo.

Meu pai vivia ausente devido ao trabalho, então, para mim, parecia que Eisha era meu pai de verdade.

Eisha não era vassalo de meu pai. Apenas morava em nossa propriedade. Meu pai nunca lhe deu ordens, e Eisha nunca se curvou como alguém que serve seu senhor.

Meu pai provavelmente lhe dava algum dinheiro para viver. Eu não sei, e tampouco preciso saber.

Eisha era amigo de meu pai. Era família para todos nós.

4

Foi impressionante quando meu pai foi escolhido para ser o Inspetor Real. Um posto de grande honra e responsabilidade.

O Inspetor Real trabalha diretamente para o rei. Seu domínio envolve assuntos de governo e administração da justiça. Ele tem autoridade para investigar livremente as atividades governamentais no palácio, denunciar irregularidades e apresentar relatórios para punição. Também pode executar um conjunto de punições diretamente em burocracias sob controle real. Além disso, pode conduzir investigações independentes sobre assuntos delegados pelos lordes e recomendar recompensas ou punições.

Se o Inspetor Real reportar irregularidades no exercício de uma função, até um ministro ou governador pode ser decapitado. Lordes podem perder muitos de seus privilégios.

Naturalmente, os oficiais fazem de tudo para agradar um Inspetor Real. E muita preparação é feita para garantir que o cargo não caia nas mãos de alguém corruptível.

Mas o cargo é de alta nomeação. O rei escolhe pessoalmente quem o ocupa. E, ao menos oficialmente, ninguém mais pode indicar um candidato, a menos que o rei pergunte. É um dos poucos cargos de alto escalão que pode ser ocupado por alguém que não seja um nobre de alta patente.

Ainda assim, um simples cavaleiro da Guarda Imperial assumir tal posto era totalmente fora dos precedentes. Ouvi dizer que os assessores próximos do rei não gostaram nada disso.

No Conselho Privado, os quatro ministros do gabinete – Branco, Vermelho, Azul e Preto – chegaram a escrever um documento ao rei argumentando que sua escolha era inadequada.

Mas o rei não mudou de ideia.

Na época, o monarca era conhecido postumamente como Shana Eran, o Rei Bondoso. E como o nome sugere, detestava injustiça. Todavia, o palácio e a política eram a própria encarnação da injustiça, e o esforço do rei em fazer o certo raramente produzia efeito.

Ainda assim, ele insistiu nessa única decisão. Não abriria mão de nomear meu pai como Inspetor Real.

Chamar isso de “teimosia” soa desrespeitoso. Mas, tecnicamente, era isso mesmo: ignorar o conselho de todos os seus ministros e insistir numa escolha arbitrária.

Por ter tomado para si um cargo desejado por ambas as facções políticas, meu pai virou um vilão. Devia ter usado algum truque sujo para conseguir uma promoção impossível. Tinha corrompido o sistema político enganando o rei.

Para seus acusadores, nem era preciso provar qualquer crime. O fato de ter sido promovido era prova suficiente de sua culpa.

Assim foi pavimentado o caminho para o inferno.

5

Primeiro, meu pai precisava de ajuda. Se ia ser Inspetor Real, precisava de vassalos competentes. Procurou instrutores de espada e conhecidos de vários dojôs. Houve resistência.

No fim, conseguiu reunir o número de pessoas necessário, mas nenhum deles tinha um pingo de nobreza. Havia muitos que compartilhavam os ideais de meu pai, mas os nobres que frequentavam as academias de espada eram, na melhor das hipóteses, segundos ou terceiros filhos, ou nobres periféricos sem poder real. Se a família ordenava que não se juntassem a meu pai, eles obedeciam.

Isso tornou o trabalho dele no palácio muito difícil.

Para começar, ninguém pode entrar no palácio sem possuir determinada patente. Isso impedia meu pai de investigar certos escritórios. Ele podia entrar como funcionário público, mas qualquer departamento poderia usar a desculpa da hierarquia social para barrá-lo. Só podia forçar entrada quando já tivesse provas sólidas de crime.

Apesar das barreiras, meu pai negociava incansavelmente para obter documentos. Fazia seus vassalos copiar, organizar e analisá-los. Depois, tentava avançar na investigação. Mas quando voltava ao local, os documentos haviam sido alterados, movidos ou destruídos.

Os raros oficiais que cooperavam eram punidos com transferência, demissão ou até execução. Oficialmente, nada disso tinha relação com as investigações.

Meu pai mudou de tática. Conduziu seus vassalos até Anpoan e fez uma inspeção-relâmpago em uma instalação de importação e exportação.

Como suspeitava, encontrou provas claras de vendas ilegais, propinas e comércio injusto. Anpoan era o maior porto do reino e havia sido promovido a domínio de marquês poucos anos antes. Com a investigação de meu pai, três viscondes foram destituídos e o Marquês de Anpoan perdeu parte de seus direitos de coleta de impostos.

Isso enfureceu Kurelumo, o então Duque de Riga.

Os viscondes eram todos de famílias ramificadas de Riga. E Anpoan sempre foi leal a Riga. O marquês servia tão bem a Kurelumo que seu nome já estava sendo cogitado para ministro, o que fortaleceria enormemente a facção Riga.

Mas meu pai arruinou esses planos.

Um rebaixamento para domínio de conde chegou a ser cogitado para Anpoan. Kurelumo deve ter sentido anos de esforço indo pelo ralo.

Sua raiva vinha de arrogância.

Toda terra pertence ao rei. Mas muitos nobres pensam ser donos de suas terras. E como Kurelumo justificaria o fato de um porto tão importante ter sido monopolizado por seus aliados?

Distorsões existem em qualquer sistema político antigo. Mas nobres poderosos que abusam dessas distorções são um veneno para o país.

6

O sistema de nobreza do nosso país é muito diferente do de outros reinos, como o Império Gorenza.

Por exemplo, a Casa Mercurius é uma família de nobres conselheiros, o que significa que, em termos de posição na corte, somos equivalentes ao mais alto posto de marquês, mas na época não éramos chamados de “Casa Marquês”, pois não possuíamos terras.

Marqueses são nobres que receberam um domínio de marquês concedido pelo rei.

Condes são nobres que receberam um domínio de conde concedido pelo rei.

A diferença entre o domínio de um marquês e de um conde é determinada por vários fatores: tamanho do território, riqueza, desenvolvimento industrial, transporte, questões militares…

Viscondes são nobres oficiais que recebem uma parte das terras de um marquês ou de um conde.

Já o título de barão surgiu de uma forma completamente diferente. Ele foi criado para lordes que já possuíam terras antes de jurarem lealdade ao rei; assim, seu direito sobre essas terras foi oficialmente reconhecido.

Por causa disso, os domínios de barões variam muito em tamanho e força. Existem barões mais ricos e com mais terras do que certos marqueses. Também não é incomum que um barão ocupe um assento mais alto na corte do que um marquês ou um conde.

E justamente por sua origem, barões jamais podem ser realocados à força pelo rei. Seus títulos nunca são elevados ou rebaixados. Em contraste, marqueses e condes podem ser promovidos, rebaixados e até realocados. Na prática, isso só acontece em casos de guerra ou grandes mudanças territoriais, mas oficialmente, barões são os únicos realmente seguros desse tipo de instabilidade.

Ainda assim, apesar de seus territórios terem sido concedidos pelo rei, muitos nobres vivem preguiçosamente, desfrutando de domínios ricos e confortáveis, ignorando completamente o risco de serem rebaixados ou transferidos. As terras pertencem ao rei, mas eles insistem em tratá-las como propriedade privada.

O Duque de Riga é um desses nobres.

A Casa Riga, na verdade, não deveria nem carregar o título de ducado. Um ducado é concedido a um irmão ou filho do rei que tenha realizado feitos extraordinários e recebe um pequeno pedaço das terras reais como recompensa, terras modestas, mas hereditárias por lei.

Em outros países, é comum criar casas duquesas em excesso para afastar pretendentes ao trono… mas isso muitas vezes sai pela culatra e gera duques poderosos que ameaçam o país. Aqui, isso não acontece, é praticamente impossível que uma casa ducal acumule tanto poder.

O primeiro Duque de Riga era originalmente o herdeiro da Casa Onis, que governava vastas terras entre o oeste de Tada e os estados feudais de Fenks. Ele administrou o reino em nome do jovem segundo rei após a morte do rei fundador. E nunca usou a posição em benefício próprio. Sua retidão lhe trouxe confiança tanto dentro do reino quanto nos países vizinhos.

Quando o chefe da Casa Onis faleceu, o segundo rei implorou ao herdeiro que continuasse servindo Baldemost. A Casa Onis foi então dissolvida e incorporada às terras vizinhas.

Em reconhecimento, o segundo rei presenteou-o com a importante região de Riga e o nomeou duque – um posto equivalente ao da própria família real – garantindo inclusive que seus descendentes herdariam essas terras. Assim nasceu a Casa Riga.

Acredito que o primeiro Duque de Riga foi um homem excelente. Seus feitos, sem dúvida, merecem respeito. Mas tê-lo feito duque foi um erro. Quando recebeu a oferta, ele deveria ter agradecido… e recusado.

Mas ele aceitou. E isso foi o começo da corrupção da Casa Riga.

O título de duque deveria ser exclusivo da família real. Não faz sentido alguém receber terras do rei e não ser nomeado marquês ou conde. O primeiro Duque de Riga serviu ao reino movido pela virtude do rei fundador; o título de barão seria mais adequado. E embora seus feitos tenham sido grandiosos, a Casa Riga não foi a única a colocar o reino acima dos próprios interesses.

Ainda assim, a Casa Riga se agarrou aos méritos do seu fundador e foi se tornando um veneno para o país.

Quando eu era jovem, testemunhei um acontecimento que deixou essa verdade exposta.

Molzora havia herdado o título de duque de Kurelumo.

Um conflito estourou entre um senhor feudal de Fenks e um conde do nosso reino. Se o conde vencesse, o país ganharia terras. Os ministros defendiam que a capital deveria apoiar o conde.

Molzora, então Ministro Branco, rejeitou isso. Ele disse que, caso a capital interviesse, os lordes de Fenks se uniriam à guerra.

Fazia sentido. Mas ele estava tramando algo por trás.

Ele então interrompeu o fornecimento de sal. E ninguém pode travar uma guerra sem sal. O conde e seus aliados tentaram comprar sal na capital… e também direto nos campos de sal.

Mas o preço disparou na capital, e todos os campos tinham vendido sua produção para o país vizinho de Tada. Assim, mesmo vencendo a batalha, o conde foi obrigado a declarar cessar-fogo sem ganhar um único palmo de terra.

Dizem que ele correu para a capital ainda de armadura, encontrou o oficial responsável pelo comércio de sal, sacou a espada e cortou sua mesa ao meio. Mas todos sabiam quem ele queria de fato matar: o Duque de Riga.

A Casa Riga controla todo o sal e ferro do país. Suas terras vão da costa ao coração do reino. Todo transporte marítimo passa por Riga. Todas as vilas de produção de sal pertencem ou são influenciadas por eles. As principais minas também.

Como um kraken, a Casa Riga estendeu seus tentáculos por todo o país, há gerações.

Eles dominam pessoas com bajulação ou chantagem, engolindo tudo que podem. Quem não se submete é esmagado. Chegam ao ponto de interromper o fornecimento de sal de um país inteiro só para prejudicar um conde rival.

A Casa Riga é uma praga sobre esta nação.

7

Kurelumo era talentoso, e certamente tinha carisma. Mas sua mente estava tomada pela doença crônica da Casa Riga.

Terras, riquezas, poder e posição eram dádivas do céu e qualquer um que ameaçasse isso era um louco que precisava ser eliminado. Acreditando nisso, não havia chance alguma de que ele deixasse meu pai vivo.

Meu pai retornou à capital para encerrar o caso e entregar seu relatório. Reuniu seus vassalos e catalogou a investigação de Anpoan sem deixar escapar um único detalhe. Se por acaso os documentos da corte sumissem, haveria provas irrefutáveis, mantidas por diversas testemunhas, de que ele havia conduzido o caso de forma justa.

Depois, com o trabalho concluído, ele reuniu seus vassalos para um banquete em agradecimento. Era o ano 1024 do Calendário Real, terceiro dia da Terceira Lua Rubra.

Foi então que os soldados do Duque de Riga atacaram. Por astúcia de Kurelumo, ele não usou apenas seus próprios homens. Convenceu dois ministros rivais da Casa Riga a enviarem soldados também, assim, o massacre pareceria uma decisão da corte, e não vingança pessoal.

Por que essas duas casas aceitaram participar… até hoje não sei. Deve ter havido algum motivo: talvez ganhassem algo com a morte do meu pai; talvez perdessem muito se não colaborassem.

Qualquer que fosse, Kurelumo farejou. Aos cinco anos eu não sabia das circunstâncias das casas dos ministros, mas nem depois consegui descobrir.

Naquele dia, 343 pessoas foram massacradas em nossa casa.

Vivíamos nos arredores da capital, ao pé de uma montanha que fazia parte do nosso território. Doze mil soldados cercaram a propriedade, lançaram magia incendiária e mataram todos que tentaram fugir.

Na manhã seguinte, Kurelumo visitou o palácio. Esperou o rei sentar e relatou que subjugara o traidor. O traidor era Mazel Sou La Vald.

Sua Majestade deve ter sentido de retribuição divina.

O Inspetor Real que ele próprio escolheu havia descoberto corrupção e negociatas ilegais, conduzido o julgamento com perfeição… Seus talentos estavam além de qualquer contestação. E agora, para completar, o culpado estava ligado à Casa Riga, o que significava que, por um tempo, ele não teria que lidar com o sorriso venenoso de Kurelumo tentando promover seu favorito ao cargo de Ministro Negro.

Como Sua Majestade deve ter ficado satisfeito.

Quem testemunhou na corte disse que estava jubiloso. Sempre brindava meu pai em refeições sem ele. Já ouviu relatório no trono, mas planejava reconhecimento mais íntimo e preparou recompensa.

Então teve que ouvir que meu pai foi acusado de traição e executado. O Duque de Riga bem que podia ter dito que matou o próprio rei. O rosto de Sua Majestade ficou roxo, não conseguiu dizer nada. Retirou-se da sala.

Foi uma reação compreensível, devastadora. Mas…

Naquele exato momento, o rei deveria ter feito uma pergunta.

Kurelumo disse que havia executado o traidor, e que toda sua família e vassalos precisavam ser executados também. Mas Sua Majestade devia ter perguntado se já estavam mortos. Kurelumo ainda não declarou claramente com que provas condenou meu pai como traidor.

Sei que entre acusações de Kurelumo, disse que meu pai abrigou um guerreiro famoso e o usou para treinar um exército que se dizia alunos do guerreiro. Apesar de ser apenas funcionário. Mas na época, além da filha, Eisha só aceitou três alunos, e nem participava do treino dos vassalos. Não devia bastar como prova principal de rebelião.

Por mais frágeis que fossem as acusações, Kurelumo não precisou detalhar. Devia estar lambendo os beiços como cobra após saída de Sua Majestade.

Kurelumo acabou de relatar ao rei que houve conspiração de rebelião, que o líder foi executado e que toda família precisava ser executada também. Em resposta, Sua Majestade encerrou o Conselho Privado sem falar nada. Isso significava que ações dele receberam consentimento real.

Kurelumo ordenou a todos os ministros do gabinete que enviassem seus soldados, agora sob comando real. Todos viraram cúmplices.

De uma vez, a casa onde minha irmã morava com o marido, as casas dos irmãos de meu pai e mãe, e de minha mãe foram atacadas, e nem bebês nem criados foram poupados. Toda minha família foi exterminada. Setecentas e vinte e cinco pessoas morreram em dois dias.

Sua Majestade soube como as coisas se desenrolaram no dia seguinte. A raiva deteriorou sua saúde, e morreu sem sair da cama.

A investigação de meu pai foi tida como fabricação. Registros guardados no palácio sumiram, e documentos que meu pai preparou foram queimados.

Os três viscondes demitidos voltaram aos postos, e o Marquês Anpoan foi nomeado Ministro Preto.

Por muito tempo, ao obter a lista de todos mortos, achei estranho o número. A razão era que meu nome estava lá, apesar de estar bem vivo.

Pensei que talvez tivessem confundido cadáver de filho de vassalo com o meu. Ou que o número 725 estava errado, e haviam contado meu cadáver inexistente.

Mas nenhum dos dois. Setecentos e vinte e cinco pessoas realmente morreram. Soube quando perguntei à mãe de Panzel se sabia o que aconteceu na noite do ataque.

Naquela noite houve uma batalha mais sangrenta do que eu poderia imaginar, tudo para salvar minha vida.

8

O avô de Panzel se chamava Charda, e vinha das terras fronteiriças do oeste. Ele admirava Eisha e se tornou um de seus discípulos. Tinha vinte e dois anos na época do incidente.

Eisha o convidou para o banquete naquele dia, mas recusou, dizendo que cuidaria da casa. Seus dois irmãos foram em seu lugar. Eles também eram discípulos de Eisha e, por ordem dele, já haviam ido a Anpoan como escoltas.

Antes que a tragédia começasse, Eisha percebeu o cerco que se formava em torno da mansão e da montanha. Mas jamais imaginaria que, bem na capital, a casa de um oficial de alto escalão seria atacada com magia sem aviso. Quando entendeu, já era tarde. Vendo o ataque começar, compreendeu que os agressores não deixariam ninguém vivo.

Eu estava com Eisha. Não lembro o motivo, mas segundo Charda, eu havia ido levar uma mensagem do meu pai:

— Tentei fazer um brinde ao incrível trabalho dos seus dois discípulos, mas eles insistiram que só obedecem aos seus comandos e não podem beber na sua ausência. Então venha ao banquete me ajudar.

Duvido que eu tivesse capacidade aos cinco anos para memorizar algo tão complicado, mas Charda afirmava que transmiti a mensagem exatamente assim.

Meu pai era um cavaleiro pobre, mas havia herdado um pequeno território nos arredores da capital por parte da avó. O pátio era amplo, mas apenas o pátio. A casa principal era pequena.

No início, Eisha vivia num chalé ao lado da casa principal. Quando meu pai se tornou Inspetor Real e teve de construir alojamentos para os vassalos, o jardim se encheu de barracas improvisadas. Supondo que Eisha não teria paz ali, meu pai lhe ofereceu uma cabana isolada mais acima na montanha.

Passei mais tempo nessa cabana do que na casa principal.

Eisha vivia ali com sua filha, Enina, e com Charda. Enina tinha quatorze anos na época. Era muito gentil, e eu a admirava como uma irmã mais velha. Ela tinha mãe, mas eu nunca soube o que aconteceu com ela. Talvez tenha morrido viajando, ou se separado de Eisha.

Os dois irmãos de Charda ficavam na casa principal, atuando alternadamente como guardas do meu pai.

Eisha reagiu rapidamente. Me pegou no colo, mandou Charda e Enina segui-lo em silêncio e entrou pelos arbustos, sem sequer olhar para a casa principal em chamas. Manteve-se abaixado e caminhou até um rio, onde havia um pequeno barco de pesca amarrado.

Ele colocou a mim e Enina dentro do barco e nos cobriu com uma esteira.

Depois ordenou que Charda nos levasse até o canal da capital.

Lembro de entrar no barco e de ter adormecido logo em seguida. Não vi mais nada.

Os inimigos sabiam da cabana na montanha. Depois de atacarem a casa principal, ela seria o próximo alvo. E certamente monitoravam todas as rotas de descida. Mesmo que conseguíssemos escapar, terminaríamos num campo aberto, impossível fugir sem sermos vistos.

Por isso Eisha decidiu nos esconder no rio e fugir para a capital. O rio se conectava aos canais da cidade. Com a escuridão da noite, talvez chegássemos sem sermos detectados. Mas, uma vez na capital, Charda não fazia ideia do que deveria fazer.

Mantendo-se abaixado e silencioso, ele remou. Quando estávamos prestes a entrar no canal da capital, uma patrulha inimiga se aproximou. Charda encostou o barco entre a vegetação alta, prendeu a respiração e encarou os soldados.

— Duvido muito que tenham chegado até aqui — disse o comandante.

Era Conpachi.

Charda o reconheceu. Conpachi era o terceiro filho de um nobre influente, conhecido por se gabar de sua habilidade com a espada. Por algum motivo, guardava rancor de Eisha. Sempre dizia que espadachins fracos do sul jamais se igualariam aos heróis do norte. Chamava de ridículo qualquer um que seguisse aquele “velho incapaz”, que nem sequer conquistara um posto militar. Três vezes desafiou Eisha para duelos públicos e três vezes foi espancado.

Mas mesmo assim nunca deixou de insultá-lo. Como discípulo de Eisha, Charda era alvo constante de provocações.

E agora, ali estava Conpachi, com uma lanterna mágica na mão esquerda e uma lança na direita, aproximando-se da margem.

Eu poderia matá-lo agora.

Charda pensou nisso. Conpachi era tão habilidoso quanto ele, mas com Eisha ao seu lado, poderiam derrubá-lo e mais meia dúzia antes que ele percebesse.

Mas havia centenas de soldados a poucos metros. E muitos mais depois deles. Seria impossível matar Conpachi sem levantar um alarme.

A única chance de sobrevivência era permanecer invisível. Se fossem descobertos, Charda teria de lutar até a morte contra uma multidão.

Conpachi girou para verificar todo o campo de visão e usou lanterna mágica para iluminar o rio. Empurrou o capim com a lança e viu o esconderijo de Charda. Os olhos se encontraram.

Conpachi desviou o olhar instantaneamente e disse aos subordinados que não havia nada.

— Nada aqui. Vamos verificar rio acima.

Os soldados responderam em coro e seguiram em direção à montanha.

Charda ficou tão chocado que quase desmaiou. Saiu do barco como se suas pernas fossem de pedra. O alívio foi enorme.

Mas havia algo errado. Ele tentou se convencer de que Conpachi não tinha visto nada por causa da luz ou da fumaça do incêndio… mas seus olhares realmente se encontraram.

Quando chegamos à capital, Charda perguntou a Eisha sobre aquilo. E Eisha apenas respondeu:

— Hmm.

9

Eisha disse a Charda para onde levar o barco e, assim que atracamos, todos nós desembarcamos e seguimos imediatamente para o nosso destino.

Eisha me carregava enquanto corríamos, e no caminho Charda levantou Enina nos braços também. Chegamos a um grande solar, e Eisha desembainhou a espada que trazia na cintura e a entregou à pessoa que veio atender à porta. Era uma excelente espada, apesar de sua confecção simples, Eisha a usava havia muito tempo.

Surpreendentemente, mesmo com nossa aparência suspeita e a chegada repentina no meio da noite, o criado nos deixou entrar sem fazer qualquer pergunta. Nem mesmo dissemos nossos nomes. Água e chá foram preparados rapidamente, assim todos – exceto eu, ainda dormindo – puderam saciar a sede.

Pouco depois, a pessoa que nos recebera voltou, disse que encontraríamos o chefe da casa e guiou nós quatro para outra sala. Dessa vez, era Enina quem me carregava.

— Sou Baldoran Mercurius, chefe desta família. Primeiro, devolvo a espada. Sejam bem-vindos à minha casa.

Charda só então percebeu onde estávamos. Aquele nobre era descendente do herói.

— Sou o espadachim Eisha Goran. Peço perdão por chegar de forma tão repentina e tão tarde. Venho pedir que acolha o menino nos braços de minha filha. Ele é o segundo filho de Mazel Sou La Vald.

— Aconteceu algo ao Inspetor Real?

— Sua propriedade está sendo incendiada neste exato momento por uma quantidade inimaginável de soldados.

— …O quê?

O chefe da casa parecia homem bondoso, mas após ouvir isso a expressão mudou. Emanou aura que afastaria até deuses ferozes, deixando claro que a casa não perdera o espírito guerreiro.

Calou-se logo depois, depois falou novamente.

— Eu nunca tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, mas ouvi falar muito sobre ele. Sempre orei por seu sucesso.

— Posso deixar o menino sob sua custódia?

Ele olhou profundamente nos olhos de Eisha e respondeu com uma pergunta:

— Se eu o aceitar… o que pretende fazer?

— Farei o que precisa ser feito.

O chefe da casa fechou os olhos, ergueu o rosto ao alto e suspirou.

— Entendo. Então não há outro caminho. Sua fama, seu rosto, seu caráter… todos são bem conhecidos. Posso ver melhor o filho do Inspetor Real?

Eisha assentiu, e Enina aproximou-se, ainda me segurando.

— Ah… dormindo profundamente. Senhor Goran, pode me dizer seu nome e idade?

— Adol. Ele tem cinco anos.

— Cinco anos… Entendi.

O chefe da casa me observou por um tempo, pensativo. Depois chamou uma criada e lhe passou instruções.

— Sr. Goran, pode deixar seu filho sob meus cuidados. Ele dividirá o quarto com minha filha.

— Meus mais sinceros agradecimentos. Enina, leve-o.

Seguimos guiados pela criada para o interior da casa.

— A propósito, Sr. Goran… acaso teria uma adaga?

Eisha lhe entregou sua adaga. O chefe da casa disse que o pegaria emprestado por um momento e o colocou sobre a mesa. Depois removeu um cordão de couro da bainha em sua cintura, amarrou-o ao punho esquerdo e ao dedo mínimo.

Seu rosto enrijeceu.

A criada voltou trazendo um menino. Eu soube mais tarde que ele tinha meu cabelo e era quase da mesma idade.

Charda sentiu um calafrio ao vê-lo, o garoto vestia as minhas roupas.

A criada retirou-se rapidamente.

— Este é meu filho, mas por certas circunstâncias ele leva o sobrenome de minha esposa. Venha, Pan’ja.

O menino, esfregando os olhos sonolentos, se aproximou. O chefe da casa o abraçou com força… e então pegou a adaga e o cravou em seu coração.

Deitou o corpo da criança no chão. Depois sacou a espada longa, firmou-a com a lâmina voltada para cima na mesa, colocou o dedo mínimo da mão esquerda sobre ela… e o decepou em um único golpe.

Estancou o sangue amarrando firmemente o cordão de couro ao que restava do dedo. Em seguida embrulhou o dedo cortado em um pano retirado da manga e o pousou sobre o peito do filho.

— Perdoe-me, Pan’ja — murmurou, baixinho, antes de se erguer e falar com Eisha:

— Sr. Goran… isso não terminará enquanto eles não encontrarem o cadáver do segundo filho. Vão vasculhar tudo. Arrancarão o rosto de cada corpo queimado se for preciso. Não vão parar até confirmarem a morte dele.

Eisha segurou as pequenas mãos frias do menino… e chorou. Chorou com tanta força que parecia que sua voz rasgaria a própria garganta. Suas lágrimas se acumulavam em sua barba, e seus gritos cortavam o coração de todos ali.

Logo, as lágrimas que caíam no peito do garoto ficaram vermelhas. Eisha chorava sangue.

— Seja testemunha, ó Zara, da integridade dos guerreiros do norte!

Com esse brado, típico de sua fé guerreira, Eisha ergueu-se de súbito e virou-se para Charda.

— Fique aqui esta noite. Cuide de Enina. Use o dinheiro que lhe dei como achar melhor.

Depois, voltou-se ao chefe da casa.

— Nunca esquecerei sua bondade.

— Fico feliz por tê-lo conhecido — respondeu ele.

Ambos se curvaram.

Eisha tomou o corpo da criança nos braços e deixou o quarto. Essa foi a última vez que Charda o viu.

No dia seguinte, Charda levou Enina consigo e deixou o solar. O chefe da casa foi gentil o bastante para escondê-los em uma carroça de mercadorias. Eles fugiram juntos para as terras fronteiriças no oeste e se casaram algum tempo depois.

Oito anos após deixarem a capital, tiveram um filho. Charda lhe ensinou a arte da espada.

Depois da morte de Charda, seu filho, Welzea, foi à capital e abriu um dojo de espada. Muitos zombavam dele por ser um “caipira”, mas Welzea era forte – muito forte – e ganhou respeito ao pôr em seu devido lugar até mesmo os piores bandidos. Tornou-se um homem de sucesso.

Welzea se casou e teve um filho: Panzel. Mas Welzea adoeceu e ficou acamado. A pobreza os atingiu de súbito. Acabaram enganados e perderam o dojo.

Antes de morrer, Welzea contou à esposa a verdade sobre o incidente que seu pai, Charda, havia presenciado.

A história que a mãe de Panzel me contou termina aí. Quando terminou, ela me perguntou:

— O que aconteceu com Eisha Goran?

Eu já havia investigado. Nos registros do palácio, consta o seguinte:

Após o massacre dos rebeldes e familiares na casa principal e arredores, iniciou-se a busca pelo segundo filho e pelo guarda-costas, que viviam em uma cabana afastada.

Eles tiveram dificuldades para encontrá-los e decidiram incendiar a montanha, cercá-la e esperar que alguém fugisse entre as chamas. Mesmo assim, ninguém apareceu. Mas, ao amanhecer, o espadachim foi avistado carregando o menino nos ombros, quase ultrapassando o cerco. Os soldados, porém, reforçaram a varredura e conseguiram interceptá-lo.

Ele lutou como um demônio. Mais de oitenta vidas foram ceifadas até que conseguissem capturá-lo. O combate corpo a corpo, entretanto, foi prejudicado pelas magias de longo alcance que o atingiam continuamente. Exausto e sem saída, o espadachim desistiu de resistir, matou o segundo filho cravando a espada em seu coração e então cortou a própria garganta.

Os corpos foram examinados. Confirmou-se que o espadachim era Eisha Goran e, pela idade e roupas, que o garoto era sem dúvida o segundo filho do traidor.

A mãe de Panzel chorou em silêncio ao ouvir isso.

10

Criei Panzel com extremo cuidado. Atribuí os melhores professores que pude encontrar em artes marciais e literárias. Muitos olharam torto, perguntando por que dava tal tratamento a um menino criado, mas não dei bola.

Panzel mostrou crescimento assombroso. O avanço com a espada foi especialmente tremendo, como se possuído pelo espírito de Eisha Goran.

Por coincidência, Lorde Julius também cresceu, como guiado por Panzel. Aprendia rápido e mostrou habilidade notável especialmente em literatura.

Após Panzel tornar-se cavaleiro, começou a liderar soldados da Casa Mercurius e acumulou feitos militares um após outro.

O Duque de Riga armou uma armadilha para Panzel: seria nomeado Defensor do Reino se derrotasse o monstro no labirinto. O rei queria promover Panzel a alto cargo, então consentiu.

Na época eu já havia entregado o posto de vassalo chefe e estava acamado na aposentadoria. Assim que ouvi a notícia, soube que era armadilha de Alkan. Fortaleci a vigilância da Casa Riga.

Descobri que o filho mais velho de Alkan, Garrest, movia secretamente forças militares para a capital. Parecia que realmente planejavam uma rebelião.

Pensei muito, peneirei os fragmentos de informação que nossos espiões coletaram e cheguei ao objetivo de Alkan.

Casa Mercurius. Ele mirava a Casa Mercurius.

Livrou-se do pilar militar da Casa Mercurius enviando Panzel ao labirinto, e planejava nos atacar na ausência dele. Também adicionou condição rigorosa que tornava impossível Panzel derrotar o minotauro ou voltar. O plano era reunir forças, cercar o palácio imperial, forçar o rei a abdicar e passar a coroa ao segundo príncipe. Contava que o coração do rei se partisse ao ouvir da queda da Casa Mercurius.

Me pergunto que cara fiz na hora. Provavelmente sorria de orelha a orelha na cama recebendo relatórios, sentindo a vingança se aproximando.

Alkan cometeu dois erros cruciais. O primeiro foi achar que eu não conseguiria sair da cama. O outro foi presumir que Panzel não voltaria. Quando essas duas suposições caíram, foi a ruína de Riga.

Até então não via meio de derrubá-los com todo seu poder e influência. Não conseguia criar causa justa para que a Casa Mercurius lutasse contra a Casa Riga. Mas agora eles cruzavam essa linha por mim.

Podiam cruzar. Se dessem esse único passo, as chamas furiosas do meu coração os queimariam até as cinzas. Não me importaria queimar a capital real inteira para me livrar deles de uma vez por todas.

Quando Panzel dirigiu-se ao centésimo andar do Labirinto Sazardon, o exército do Duque de Riga caiu sobre a Casa Mercurius. Atacaram nossa propriedade na capital real em plena festa da colheita. Vê esse ato de violência imprudente? Sempre dizem que fazem tudo pelo país e pelo povo, mas é só conversa fiada. Nada mais longe da verdade.

Com gosto saí da cama e assumi o comando da Casa Mercurius.

Lorde Julius estava calmo. Como eu, não tinha dúvida que Panzel venceria e voltaria.

Mas cometemos um erro de cálculo. O Barão de Paulo juntou suas forças à Casa Riga.

Nossas tropas chocaram-se três vezes, e enquanto preparávamos outra batalha, Panzel voltou.

Disse que Lorde Evert, que serviu como observador, o apunhalou com uma adaga envenenada. Sabia que ninguém viria buscá-lo, então teve que voltar do centésimo andar sozinho.

Ao ouvir isso, me horrorizei com minha própria burrice. Claro que era uma possibilidade.

Não havia motivo para duvidar da virtude de Lorde Evert. Mas essa virtude provavelmente o levou a acreditar que desequilibrar a balança para o plano de Alkan era pelo bem do país. Provável, mas não considerei.

Por ser em meio à festa da colheita, também não havia chance de Panzel encontrar outros aventureiros no labirinto. Armadilha mortal.

Quase destruindo a Casa Mercurius. Lorde Baldoran matou o próprio filho, Pan’ja Raban, com as próprias mãos, me deu o nome e posição do filho, e me amou como se eu fosse seu. Para retribuir a dívida, treinei o melhor que pude e servi cinco chefes da Casa Mercurius. E quase destruí tudo.

Onde?

Onde foi que errei?

Enquanto me perguntava isso, Panzel terminou o relatório, pegou o Bracelete de Alestra emprestado de Lorde Julius e avançou sozinho contra o exército inimigo. Quando voltou logo depois trazendo uma cabeça para Lorde Julius.

— É a cabeça do general inimigo, Garrest.

Garrest!

As vozes de Panzel e Lorde Julius deixaram de me alcançar. Cambaleei até a cabeça, levantei até a altura dos olhos e encarei.

Não havia dúvida era Garrest, filho mais velho do atual Duque de Riga. Seria o próximo chefe da Casa Riga e foi prometido ao cargo de Ministro Branco do Reino Baldemost.

Sim!

Sim!

Siiiiim!

Tenho quase certeza que chorei. Nunca pensei que chegaria a este ponto, mas agora estava ao meu alcance. Segurava a cabeça que meu inimigo jurado mais desejaria não perder. A cabeça que carregava o futuro do meu inimigo. Na verdade, aquela cabeça era o meu inimigo.

Naquele instante, o nódulo vermelho escuro no meu peito dissolveu-se, e a pureza voltou ao meu coração. Pensei no que devia fazer em seguida e cheguei rápido à conclusão.

— Lorde Julius. Esta é sem dúvida a cabeça de Garrest. Peço permissão para dizer quais passos devem ser seguidos agora.

— Fale.

— Devemos fazer Panzel levar imediatamente cem cavaleiros e ir ao palácio real. Eu cuido da defesa aqui.

— Faça.

— Ha-ha. Panzel, sei que está cansado. Desculpe. Vá ao palácio real imediatamente e procure o comandante da Primeira ou Terceira Divisão da Guarda Imperial. Diga a ele que a Casa Mercurius foi atacada por rebeldes, e você correu ao palácio para ver se algo aconteceu. Diga que entrará sob comando dele. Entendeu? Caso o palácio já esteja cercado pelos insurgentes ou a batalha tenha começado, não os ataque até encontrar um dos comandantes. Depois entregue uma mensagem ao Grande Camareiro em nome do chefe da Casa Mercurius dizendo que deseja garantir a segurança do primeiro príncipe. Diga que enviará mais soldados se necessário. Como magia de teletransporte é restrita ao redor do palácio, use cavalo e leve cem soldados só de cavalaria. Temos mais cem soldados para enviar, use a seu critério. Mexa-se.

Mas não houve mais combate depois disso. Quando Panzel pegou a cabeça de Garrest, o que o mundo chama de Revolta de Pantram chegou ao fim.

11

A atuação de Alkan após a morte de Garrest teria espantado até o mais perverso dos demônios.

Primeiro, alegou que as tropas que iam atacar o palácio na verdade chegaram para defendê-lo. Ao ver isso, o Barão de Paulo retirou-se para seu domínio o mais rápido possível.

Então Alkan convocou o Conselho Privado e insistiu que o Barão de Paulo era o líder da rebelião. Ele afirmou que o crime de Garrest – ter participado do levante a mando do Barão de Paulo, apesar de sua posição como oficial da Força de Defesa da Capital Real – era imperdoável, e apresentou ali mesmo as cabeças dos filhos de Garrest e de seus assessores mais próximos.

O interrogatório conduzido por Alkan não revelou absolutamente nada, exceto o fato de que ele havia destruído qualquer prova ao matar todos os envolvidos. A investigação perdeu força diante de sua horrenda disposição de executar os familiares e vassalos que ele sempre havia se esforçado para proteger.

Então Alkan declarou que não seria apropriado que ele continuasse responsável pelos procedimentos, já que seu próprio filho era alvo da investigação. Assim, o Ministro Vermelho – o segundo mais alto cargo do Conselho Privado – assumiu o andamento do caso.

Os cavaleiros de maior patente de Lorde Julius e de Garrest prestaram depoimento sobre os acontecimentos da batalha. Ficou claro que Garrest havia participado ativamente, não como mero espectador. Mas, de forma chocante, mesmo com o uso de magia detectora de mentiras, ao serem interrogados novamente, os cavaleiros de Garrest não mencionaram nada sobre um plano de atacar o palácio real após derrubarem a Casa Mercurius.

Em seguida, Panzel relatou o que aconteceu durante sua subjugação do minotauro. Ele disse que o conselheiro privado Evert da Casa Lowell o apunhalou com uma adaga envenenada e que, antes de morrer, ele revelou que a Casa Riga planejava assassinar o chefe da Casa Mercurius, forçar o primeiro príncipe a cometer suicídio e levar o rei à abdicação. Era uma acusação claramente grave.

Alkan, porém, insistiu que, nos últimos meses, só viu Lorde Evert em ocasiões oficiais, que ferir Panzel foi uma decisão individual dele e que toda aquela história sobre o primeiro príncipe era mera suposição.

Mas o que ele disse a seguir mudou tudo.

— Que tal chamarmos um avaliador para examinar a espada longa que Panzel adquiriu?

Chamaram um avaliador e, após a inspeção, descobriram que a lâmina possuía bênçãos dignas de uma arma divina. A atenção de todos se voltou imediatamente para a espada.

Panzel então enfrentou membros da Guarda Imperial, e tanto o rei quanto seus súditos ficaram cativados pelas poderosas bênçãos da arma e pelo talento sobre-humano de Panzel.

— Este homem é digno do título de Defensor do Reino! — gritou Alkan.

Ouvir aquilo ferveu meu sangue.

Para assumir a responsabilidade pelo fracasso de seu filho, Alkan anunciou sua renúncia. Antes de se retirar, porém, realizou três grandes ações.

A primeira foi nomear o primeiro príncipe como príncipe herdeiro. O segundo príncipe recebeu o título de duque e um vilarejo pobre como domínio, caindo ao status de simples vassalo. A segunda rainha consorte foi destituída.

A segunda foi conceder a Panzel o título de Defensor do Reino. Panzel recebeu o direito de fundar uma nova família nobre de conselho, e escolheu Goran como nome de sua casa. Eu temi que alguém apontasse a similaridade com o nome de um famoso espadachim antigo, mas parecia que esse nome já havia sido esquecido.

A terceira foi organizar uma força para subjugar o rebelde Barão de Paulo. Como o próprio rejeitara a intimação e se recusara a responder aos enviados do império, considerou-se que a subjugação era necessária. Alkan demonstrou “generosidade” ao ordenar que a própria Casa Riga arcasse com todos os suprimentos do exército.

Depois de tudo isso, tornou-se muito difícil questionar a culpa da Casa Riga. Muitos até começaram a acreditar que Garrest realmente agiu sozinho.

Percebendo habilmente a mudança de humor, Alkan recomendou ao gabinete seu sucessor. Quando um dos Ministros Branco, Vermelho, Azul ou Negro se aposenta, é costume que ele indique um candidato para assumir seu lugar. A recomendação de Alkan foi que Draydol, o segundo filho da Casa Riga, fosse nomeado Ministro Azul.

A ousadia de Alkan em indicar um sucessor mesmo após assumir responsabilidade por um fracasso tão grande chocou muitos, e ainda por cima indicar seu próprio filho? Poucos acreditavam que o rei aprovaria, mas a aprovação veio sem resistência. O motivo ficou evidente: Alkan emparelhou a indicação com uma proposta de casamento para Panzel.

A Casa Riga declarou que ofereceria a mão de Lady Esseluleia a Panzel.

Lady Esseluleia era filha da segunda esposa de Alkan e irmã de sangue de Draydol. Alkan a adorava, e ela era famosa por sua beleza e perspicácia. Era conhecido que ele não desejava casá-la com outra casa. O fato de oferecer sua favorita ao homem que matara seu filho fez parecer que a Casa Riga estava se curvando à Casa Mercurius.

No ano seguinte, em 1097, Lady Esseluleia e Panzel se casaram. Sua Majestade o Rei, grande admirador da bravura de Panzel, ficou extremamente satisfeito ao vê-lo casar-se com uma jovem tão elegante. Como dote, Alkan enviou cinquenta cavaleiros, um número maior do que o tradicionalmente dado até mesmo às princesas. Ele realmente era um monstro.

Draydol ascendeu então de Ministro Azul a Ministro Vermelho.

No fim daquele ano, o Ministro Negro morreu, e Draydol demonstrou seu talento como estrategista. Ele recomendou Lorde Julius para o cargo. Julius tinha apenas vinte e três anos, mas já possuía grandes méritos militares, então a recomendação não era absurda.

Mas o fato de justamente a Casa Riga fazer essa recomendação surpreendeu a todos e mudou a forma como Draydol era visto. Para completar, Draydol elogiou exageradamente o trabalho de Lorde Julius e Panzel na conquista do domínio do Barão de Paulo. Era bajulação transparente, mas muitos interpretaram como magnanimidade.

Então, quando a campanha no domínio do Barão de Paulo foi concluída, Draydol declarou ao Conselho Privado que as terras deveriam ser concedidas à Casa Mercurius.

Fiquei boquiaberto ao ouvir isso. Draydol tinha enlouquecido?

Ele até se ofereceu como intermediário matrimonial para Lorde Julius, desta vez não oferecendo parentes da Casa Riga, mas sim uma jovem de uma família nobre de longa tradição no reino.

Fiquei sem palavras.

Se o objetivo fosse apenas conquistar o favor da Casa Mercurius por matrimônio, ele certamente teria escolhido alguém de sua própria casa. Mas qualquer escolha dentro da Casa Riga seria inferior em status e beleza a Esseluleia, e além disso poderia gerar desconforto entre outras casas caso Riga e Mercurius se unissem diretamente.

Contra todas as expectativas, a jovem escolhida pertencia a uma família que odiava a Casa Riga, mas que sempre mantivera boas relações com a Casa Mercurius.

Eram ricos, tinham muitos administradores competentes e eram o tipo ideal de apoio para um jovem chefe de casa que acabara de receber um território vasto. Não pude deixar de admirar o julgamento de Draydol.

Lorde Julius casou-se e tornou-se Marquês de Keza no ano seguinte, que é o ano atual, e Draydol ascendeu ao posto de Ministro Branco aos trinta e seis anos de idade.

12

Ver a reabilitação da Casa Riga não provocou em meu coração a comoção que teria causado no passado. Meu rancor jamais se extinguirá, mas enquanto Panzel existir, nada de ruim acontecerá. Pensando dessa forma, consigo impedir que as chamas do meu ódio cresçam ainda mais.

Sim, foi naquele momento que meu coração foi salvo. No instante em que segurei a cabeça de Garrest com minhas próprias mãos. Essas chamas se apagarão quando eu morrer. Ninguém mais as herdará.

O ódio distorce tudo. Ele me levou a cometer inúmeros equívocos de percepção e julgamento. Acredito que impedir que essas chamas passem para outra pessoa seja minha última responsabilidade.

Memórias desnecessárias devem desaparecer com o tempo. Assim como a lenda do Bracelete de Alestra. Não é uma história que prova o pacto de mestre e servo entre a família real e a Casa Mercurius, nem nada nobre assim. É apenas uma história de ganância.

A deusa Kaldan foi a primeira divindade a quem o rei fundador recorreu em busca de proteção. Com sua bênção, ele teria conseguido criar um novo país na região inexplorada ao norte do continente. Mas Kaldan, cansada de ser usada pelos caprichos humanos, rejeitou seu pedido.

Então o rei fundador ordenou que seus subordinados – que mais tarde se tornariam os vinte e quatro Defensores do Reino – encontrassem e matassem Kaldan. O único que seguiu a ordem foi o primeiro Mercurius. Contudo, ao encontrar Kaldan, ficou estarrecido com sua nobreza.

Mercurius sugeriu ao rei que buscassem outra terra, mas o rei e seus companheiros se opuseram. Haviam finalmente encontrado aquele lugar após serem expulsos repetidas vezes pelo continente; não queriam abandoná-lo.

Mercurius então voltou sozinho até Kaldan, disposto a morrer. Mas Kaldan já estava cansada de lutar e escolheu a morte sem oferecer resistência. Quando estava prestes a desaparecer deste mundo, entregou cinco tesouros a Mercurius.

Ao retornar, o rei enlouqueceu de alegria com as bênçãos extraordinárias dos artefatos. Ele julgou que o Bracelete de Alestra – capaz de resistir a todos os tipos de magia – era digno de um rei fundador. Tentou bajular Mercurius para que lhe entregasse o bracelete. Não duvido que o rei fundador tenha sido um homem excepcional, mas ele tinha o grave defeito de cobiçar o que era dos outros.

Mas, acreditando ir contra os desejos de Kaldan, Mercurius recusou-se a entregá-lo.

Os companheiros do rei ficaram impressionados por Mercurius ter derrotado sozinho a deusa-dragão Kaldan e opinaram que era justo que ele mantivesse o bracelete. Logo se descobriu que seus efeitos só funcionavam para Mercurius de qualquer forma, tornando inútil entregá-lo ao rei.

E então?

Sempre que um novo chefe da Casa Mercurius tomava posse, a família real o convocava para verificar se o rei já conseguia usar o bracelete ou se a Casa Mercurius havia perdido sua qualificação. Tudo com o objetivo de roubá-lo um dia.

Como não podiam declarar publicamente que o item fora um presente da deusa-dragão Kaldan, passaram a afirmar que o bracelete havia sido concedido pela deusa Pharah. O mito transformou-se em uma fábula gloriosa sobre a fundação do reino, na qual o rei fundador o teria presenteado ao primeiro Mercurius.

Os outros quatro tesouros – incluindo a Adaga de Kaldan – tinham nomes de antigas deusas-dragão malignas, e por isso deixaram de ser mencionados, desaparecendo da memória de todos, exceto da nossa casa.

Chegou, finalmente, a hora. Hora de nossa família também esquecer esse segredo.

Ensinei apenas a Lorde Julius que os cinco tesouros eram presentes de Kaldan e expliquei os efeitos das bênçãos. Não resta dúvida de que a família real também esqueceu a velha lenda. O conhecimento da ganância ardente em torno do bracelete morrerá comigo.

Quando todos souberam das habilidades da espada divina com a qual Panzel retornou, não pude evitar temer que a história se repetisse, que fosse cobiçada da mesma forma que o bracelete.

Após o fim da Revolta Pantram, Panzel contou ao rei tudo o que ocorreu no centésimo andar do Labirinto Sazardon. Mas, como não poderia dizer publicamente que Lorde Percival havia morrido no labirinto, omitiu a parte sobre a Adaga de Kaldan.

Chamaram um avaliador, e as habilidades da espada obtida do monstro ficaram claras. As bênçãos eram tão transcendentais que pareciam saídas de um mito. O fato de Panzel ter forçado o monstro a entregá-la foi considerado prova de sua vitória.

Um dos lordes sugeriu que a espada fosse entregue ao rei. Panzel, sem hesitar, a apresentou a Sua Majestade. O rei apenas lançou um olhar sobre a lâmina e devolveu-a a Panzel, dizendo que, sendo ele quem havia conquistado aquela arma, deveria ser o único a usá-la.

Considero isso uma atitude magnífica do rei. Mesmo com o que fez depois, sempre o terei como um governante sábio.

Sua Majestade prosseguiu, dizendo que queria ver Panzel lutar com aquela espada, e organizou um combate entre ele e cem cavaleiros da Guarda Imperial. Panzel venceu. Depois, realizou-se um confronto contra o comandante da Primeira Divisão da Guarda Imperial, desta vez, o comandante seria quem empunharia a espada. Entretanto, as bênçãos não reagiram para ele, e Panzel o derrotou também.

Muitas outras pessoas tentaram empunhar a espada divina, mas logo ficou claro que apenas Panzel conseguia acessar seu poder.

— Esta é claramente uma espada concedida a você pelos deuses — declarou Sua Majestade.

No mesmo dia dos combates no palácio, Panzel convidou os cem cavaleiros contra os quais lutara para a Casa Mercurius. Mesmo no caos que seguia à Revolta Pantram, Panzel teve a ousadia de pedir ao mordomo-chefe e a mim que servíssemos comida e bebida a seus convidados.

Panzel bebeu com os cem cavaleiros e fez muitos amigos. Ele tem essa estranha habilidade de se aproximar de qualquer pessoa com quem cruzou lâminas.

Panzel jamais compreenderá o quanto de conforto trouxe ao meu coração.

13

Está chovendo.

Percebo que o som da chuva ficou distante; então noto que as venezianas foram fechadas e a cortina foi puxada. Sinto o cheiro do óleo de uma lamparina. Parece que já anoiteceu.

Logan deve ter vindo hoje. Na verdade, ele vem todos os dias, então isso deveria ser óbvio. Mas, por algum motivo, não consigo lembrar direito.

Tenho uma relação estranha com esse homem. Provavelmente jamais teria encontrado o Bracelete de Alestra sem a ajuda dele.

Pouco depois de o bracelete ter sido descoberto, o Lorde Julius me perguntou se o presidente da guilda sabia muito sobre seu pai. Quando lhe disse que isso era bem provável, Julius afirmou que queria conversar com ele. Era uma solicitação razoável, então expliquei a situação para Logan e o convidei para jantar com o chefe da casa.

As histórias de Logan eram interessantes. Ele tinha muito mais experiências diretas com o Lorde Percival do que eu imaginava e várias anedotas para compartilhar. Chegou até a fazer pesquisas para saber coisas que não conhecia e trouxe essas informações para nós.

Não posso dizer que ele fala de maneira elegante, mas demonstrava uma verdadeira expertise. Agradecia seu ponto de vista imparcial. Acima de tudo, seu afeto por Lorde Percival era evidente.

Os convites para jantar não pararam no primeiro ou segundo encontro; acabamos convidando-o a cada seis ou sete dias. Julius queria que Logan viesse ainda mais, mas ele era um homem ocupado.

Com o tempo, Logan passou a falar com Julius não apenas sobre Percival, mas sobre vários outros assuntos.

Ele lhe contava sobre a vida dos aventureiros e seus modos de pensar, sobre como enfrentar monstros, sobre pontos de experiência e itens, sobre países distantes e suas paisagens, e sobre espíritos divinos e heróis de terras longínquas.

Ele possuía conhecimentos que até eu não tinha, então nossas conversas eram divertidas. Porém, eu tinha dificuldade em acreditar que tudo aquilo fosse verdade. As histórias exageradas de sua juventude com Gil Linx eram do tipo que eu pagaria para ouvir.

Ele também manejava um martelo de guerra com enorme habilidade. Por que mesmo eu acabei lutando com ele?

Ah, sim. Depois que soube que sua arma principal era um martelo de guerra, expliquei as características da arma a Lorde Julius.

“Não é uma arma que exige técnica, mas é extremamente poderosa e impossível de controlar sem uma força tremenda.”

Era um elogio, mas Logan entendeu errado e reagiu irritado:

“Como é que é? “Arma que não exige técnica”? Que tal eu te mostrar um pouco da minha técnica, então?”

Peguei uma espada longa e lutei com ele. Depois de ele quebrar três das minhas espadas e duas das minhas costelas, eu me rendi. Da próxima vez, é claro, preparei uma arma adequada e consegui acertar um golpe em seu peito.

Eu não tinha um bom parceiro de duelo havia algum tempo, então talvez estivesse carente disso. Mas ele acabou sendo um oponente injusto para mim. Fiquei velho, e agora não consigo sequer sair da cama.

Por outro lado, por mais que o tempo passe, ele continua com a vitalidade de um homem de vinte ou trinta anos. Quando perguntei sua idade, fiquei chocado com a resposta e o questionei por que ele não desacelerava como as outras pessoas.

— Meu velho era um anão, então não sou totalmente humano — disse Logan.

No começo achei que fosse uma piada, mas agora acredito que talvez fosse verdade. Com certeza haveria um enorme alvoroço se viesse à tona que criaturas como anões ainda existem em algum lugar. Mas, pensando bem, ser meio-anão explicaria seu físico anormal e sua resistência.

Quando ele deixou o cargo de presidente da guilda, recomendei que se mudasse para o nosso domínio. Achei que ele tinha criado gosto pelo lugar.

— Acho que vou aceitar essa oferta — respondeu, e desde então passou a viver aqui.

Será que já se passaram dezessete anos desde então?

14

Panzel veio hoje ou ontem? Ou foi antes disso?

Ele trouxe boas notícias. Seu filho nasceu. É um menino. Parece que ele está se dando muito bem com a esposa também. Eu estava preocupado porque ouvi dizer que a Lady Esseluleia era inteligente até demais para o próprio bem, mas parece que esse receio era infundado.

O Lorde Julius e sua esposa também estão felizes como jamais estiveram. O filho deles vai nascer muito em breve. Será da mesma idade que o filho de Panzel, o que me alegra. A amizade entre a Casa Mercurius e a Casa Goran certamente perdurará por centenas de anos.

Agora que penso nisso, o laço entre as duas famílias provavelmente se iniciou com Lorde Baldoran e Eisha naquela noite trágica.

Fiquei surpreso quando me pediram para nomear o filho, mas isso era bem típico de Panzel. Já tinha um nome em mente, um que considerava maravilhoso, então decidi usá-lo. A cerimônia de nomeação foi bastante simplificada, já que estou acamado, mas Panzel e sua esposa pareceram satisfeitos.

Ao ouvir o nome Arza, Panzel apenas agradeceu. Não perguntou uma única vez qual era a origem do nome. Novamente, isso era muito parecido com ele.

Esseluleia me agradeceu por dar a seu filho o nome de um herói e deixou o aposento. Isso mesmo. Arza era um herói lendário, dito ser um atendente que protegia a deusa Pharah de todos os inimigos. Era humano e também um deus.

Também se dizia que Arza havia sido o pioneiro das técnicas de espada entre os humanos.

Mas Arza tinha outro papel: era conhecido como o árbitro dos deuses, aquele que encerrava disputas divinas após ouvir ambas as partes.

Eisha me ensinou esse mito quando eu era muito jovem.

Há muito tempo, os humanos lutavam por causa dos deuses.

Os que desejavam as bênçãos da terra disputavam Bora; os que queriam as montanhas disputavam Gahra; e os que cobiçavam o mar disputavam Elvetta, cada grupo queria “possuir” sua própria divindade.

Os humanos odiavam os deuses por concederem bênçãos aos outros e não a eles. Com o tempo, esses desejos egoístas provocaram discórdia entre os próprios deuses, que entraram em conflito.

A deusa Zara sofreu com a discórdia dos deuses e a dos humanos. Então, transformou-se em vento, invisível aos olhos mortais, subiu aos céus e decidiu observar o destino de ambos do alto.

Certo dia, um herói chamado Arza apareceu na terra e acalmou o conflito entre os deuses. Depois, também aplacou o conflito entre os humanos. Arza não era outro senão uma encarnação de Zara, que assumira forma humana para trazer paz ao mundo.

Com base no mito que Eisha me ensinou, desejei boa fortuna para a vida do filho de Panzel.

Oh, Eisha… Será que eu…?

Será que vivi uma vida digna do seu sacrifício? Eisha!

15

No ano 1100 do Calendário Real, no primeiro dia da Terceira Lua Branca, Pan’ja Raban, antigo vassalo-chefe da Casa Mercurius, faleceu. Seu funeral foi o primeiro realizado no novo domínio de Keza em honra a um retentor ilustre.

O Marquês Julius Mercurius de Keza serviu como principal enlutado, e Panzel Goran, o Defensor do Reino, ficou encarregado da cerimônia. Foi um funeral modesto, mas também nobre, tocou o coração de todos os presentes.

Algo digno de nota é que um emissário imperial foi enviado. Pan’ja Raban não era um descendente direto da família, então ninguém esperava que a realeza enviasse um mensageiro. Houve quem dissesse que o tratamento especial se devia ao fato de que ele havia sido uma figura paterna para dois jovens heróis.

Curiosamente, o emissário não leu o discurso fúnebre que havia trazido. Apenas ofereceu suas condolências em silêncio e o colocou dentro do caixão. Ninguém sabe o que estava escrito nele.

 


 

Tradução: Rlc

Revisão: Pride

 

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