LEMBRO-ME DE OUVIR a voz furiosa de Lilia ecoando pela casa naquela noite. Talvez o Papai e as outras não conseguissem ouvi-la da sala de estar, mas nós ouvíamos perfeitamente. Lilia estava gritando com a Aisha.
— Por que você fez uma coisa dessas?! O que o mestre falecido pensaria?! Não é o nosso lugar seduzir o filho do Mestre Rudeus!
Eu podia ouvir sua voz desanimada vindo de um quarto um pouco afastado. Honestamente, doía meu coração. Eu deveria estar lá levando a bronca junto com a Aisha, mas ela me disse: “Vou ficar bem”, então esperei no quarto. Odeio admitir, mas eu ainda estava agindo passivamente, mesmo depois do que a Mamãe Vermelha me disse.
Não, não era tanto passividade, mas sim que eu confiava muito na Aisha. Na época, ela tinha a habilidade de resolver problemas a torto e a direito, muito mais do que eu jamais poderia. Mesmo agora, isso é verdade. Tudo fica bem se eu deixar ela cuidar das coisas. Ela resolve tudo perfeitamente. Esse é o tipo de mulher que Aisha é – realmente, realmente incrível.
— Ei, Arus… Você acha mesmo que está à altura da Aisha?
Quando minha irmã mais velha, Lara, me perguntou isso, concordei com ela.
Eu não estava.
Eu realmente tinha deixado tudo nas mãos dela. Sempre que estava em apuros, confiava nela. E claro, Aisha podia fazer qualquer coisa, mas isso não significava que era certo eu jogar tudo nas costas dela.
A Mamãe Vermelha tinha dito que eu deveria ter vergonha na cara, e eu sabia o que ela queria dizer. Na época, eu não conseguia articular direito, mas pensava o mesmo.
— Também acho que você está agindo estranho, Arus.
— Sieg…
— Não entendo muito dessas coisas ainda, mas você ama a Aisha, certo? Vocês dois fizeram algo ruim, então por que só ela está levando bronca?
Quando meu irmãozinho disse isso, pensei que ele provavelmente estava certo. Mas ainda pensava comigo mesmo que Aisha dissera que ficaria bem sozinha.
— Ainda bem que a Lucie não está aqui. Ela teria explodido. Provavelmente te daria uma surra.
— É — admiti.
Eu ainda estava relutante e não sabia o que dizer para minha irmã mais velha e meu irmãozinho, que me olhavam tão friamente. Eu tinha consciência de que estava agindo de forma estranha. De jeito nenhum era aceitável fazer a garota que eu amava lidar com todos os problemas sozinha. Eu não tinha aprendido tudo com a Aisha.
Eu sabia que aquele não era o tipo de homem que eu queria ser.
— Arus, agora é a hora de virar homem — disse Lara.
— É, Arus. Você consegue! — acrescentou Sieg.
— Mas como eu supostamente viro homem? — perguntei.
Lara e Sieg, que sempre foram próximos um do outro, trocaram olhares que diziam: É sério que ele não sabe?
Mas como eu poderia? Eu era um idiota, e não sabia o que não sabia.
Ainda assim, eu sabia que não podia simplesmente ficar ali lamentando como agi durante a reunião de família. Precisava refletir sobre minhas ações e seguir em frente sem ficar preso ao passado. Essa era a filosofia da minha família.
— Talvez você devesse derrotar o Papai — disse Lara.
— O quê? — Sieg pareceu atordoado com a sugestão de Lara.
— Eu estava ouvindo a reunião. Pelo que percebi, os únicos que discordaram foram o Papai e a Vovó. A Mamãe Branca ficou brava porque Aisha mentiu, e a Mamãe Vermelha ficou brava porque você estava sendo um covarde, mas elas não pareciam realmente contra vocês dois. Não acho que a Vovó teria dito não se o Papai não tivesse ficado bravo. Afinal, ela sempre pareceu tão feliz por vocês dois se darem tão bem. Em outras palavras, tudo vai dar certo se você vencer o Papai! Tenho certeza de que a Mamãe Vermelha diria o mesmo.
Ela usou seu tom monótono típico enquanto falava, mas raramente dizia muito porque achava um saco se envolver, então pude perceber que ela estava realmente tentando me ajudar – embora sua sugestão fosse tudo menos realista.
— Se eu vencer o Papai? Não tem como eu ganhar — disse eu.
— Você consegue se atacá-lo enquanto ele dorme — retrucou Lara.
Meu pai era forte, mas era um mago e não ficava de guarda contra nós, então ela provavelmente estava certa. Ele estaria vulnerável enquanto dormia. No entanto, eu tinha a sensação de que não deveria tentar isso de qualquer maneira. Era difícil acreditar que a Mamãe Vermelha aceitaria esses resultados.
— A-acho que é uma má ideia. Mesmo se eu vencê-lo, nossas mães ainda estão aqui.
— Bom ponto — disse Lara após uma pausa. Aquilo foi o suficiente para fazê-la recuar. Ela deve ter percebido que não era exatamente um plano genial.
— E o que exatamente aconteceria depois de vencer o Papai? — perguntei.
— Se ele morrer, você vai poder dizer que é o chefe da família e deixar a Aisha fazer o que ela quiser — disse Lara.
— Morrer? Hum, isso não é um pouco demais?
— Totalmente. Só brincadeira.
A piada da Lara quase não teve graça, mas, no que dizia respeito à Mamãe Vermelha, eu provavelmente teria que mostrar que tinha coragem para ir tão longe. Será que eu poderia ir até meu pai e pedir a mão de sua irmã formalmente em vez disso? Isso também não parecia muito certo, embora a Mamãe Branca pudesse concordar se eu conversasse com ela.
É, esse era o movimento certo. Eu precisava me sentar com ela e explicar que amava Aisha e queria me casar com ela no futuro. Se eu falasse com a Mamãe Azul também, ela definitivamente me diria por que o Papai era tão contra e como resolver isso.
Parecia que eu tinha um plano para o que fazer a seguir. Eu não era ótimo com conversas, mas sentia que seria capaz de me fazer entender.
A voz furiosa de Lilia vinda de fora da janela diminuiu, e ouvi o som de uma porta se fechando.
— Ah, ela parou de gritar — disse Lara.
— Eu vou indo — disse eu decisivamente.
— Cuidado para não ser visto.
Assenti, então me movi silenciosamente para evitar ser visto pelos meus pais. Agarrei a mão da Aisha enquanto ela voltava para o quarto.
— Aisha.
— Ah, Arus!
Você não devia estar aqui. Você acabou de levar bronca, sabia? Se te virem aqui, vai se encrencar de novo, imaginei ela dizendo. Ela cutucaria a ponta do meu nariz com um sorriso no rosto antes de me dizer como tínhamos estragado tudo e propor o que poderíamos fazer dali para frente. Por um breve momento, tive certeza de que era isso que ela faria.
Mas não foi o que aconteceu.
— Me desculpa. Eu estraguei tudo — disse ela.
— H-hum — murmurei, incerto.
Aisha estava exausta. Sua expressão era uma mistura de resignação, decepção e frustração. Tentou sorrir como de costume, mas não conseguiu.
— Vamos ser separados — disse eu.
Eu sabia que esse dia chegaria eventualmente, assim como Lucie partira para a academia real. Assim que eu me formasse na Universidade de Magia de Ranoa, eu sairia de casa. Isso já estava decidido há muito tempo.
Será que Aisha planejava vir comigo? Eu não sabia o que ela queria fazer, mas não teria ficado surpreso se ela estivesse fazendo preparativos para isso. Digo, Aisha era mais do que capaz.
Ela ficou parada ali por um momento, em silêncio.
— Arus — murmurou ela. — Vamos fugir juntos. Vamos sair daqui e ir para outro lugar.
Eu nunca a tinha visto fazer uma expressão daquelas. Parecia que estava prestes a chorar. Como se soubesse que não podíamos fazer aquilo, mas disse mesmo assim.
— Hah, brincadei…
— Vamos. — Eu a cortei antes que ela pudesse terminar de dizer que era tudo apenas alguma piada. Foi reflexo da minha parte. Tudo o que eu tinha imaginado para nós até aquele momento já tinha ido para o espaço.
— Se você quer fazer isso, eu vou com você, Aisha — disse eu. — Farei tudo ao meu alcance para te ajudar com o que você quiser. Vamos ficar juntos. Eu te amo, então não quero ficar longe de você.
Aisha pareceu estupefata por alguns segundos.
— Uau — disse ela eventualmente, com a voz inexpressiva.
— Não sou nem de longe forte o suficiente, e posso não ser muito útil, mas prometo que vou te proteger — disse eu, pegando a mão dela na minha.
As bochechas de Aisha ficaram vermelhas, e ela apertou minha mão de volta fracamente.
Não tenho ideia do que ela estava pensando naquele momento. Eu mesmo não estava pensando muito. Mas até alguém tão lento quanto eu podia perceber que Aisha queria estar comigo. Ela era o tipo de pessoa que normalmente ignorava os próprios sentimentos e se atinha ao curso de ação mais eficaz. Pela primeira vez que eu conseguia lembrar, ela ignorou isso e falou com o coração. Eu queria realizar o desejo dela.
— Então, vamos — concordou ela.
Foi assim que decidimos sair de casa.
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Não demorou muito para juntarmos nossas coisas. Aisha já tinha kits de emergência prontos. Não havia como saber quando os inimigos do meu pai poderiam tentar nos atacar, então ela os preparara para que pudéssemos fugir a qualquer momento. Pegamos dois kits, então Aisha pensou por um segundo antes de me fazer levar um terceiro. Nossas bolsas não estavam muito pesadas porque os kits de emergência tinham o mínimo necessário do que precisaríamos.
— Acha que isso vai ser suficiente? — perguntei.
— Sem problemas! Conseguiremos o que mais precisarmos enquanto estivermos na estrada — disse ela com um sorriso.
Saímos silenciosamente pelos fundos da casa. Leo não latiu. Byt estava quieto também. Todos deviam estar dormindo, porque a casa inteira estava imóvel.
Então, notei que Lara e Sieg nos observavam da janela. Quando nossos olhares se cruzaram, acenei com a cabeça para eles. Eles acenaram para mim, mas não retribuí o gesto. Não estava preocupado em nunca mais voltar. Imaginei que veria Lara novamente pelo mundo afora, embora não soubesse quanto ao Sieg.
Ocorreu-me que eu nunca mais veria minhas mães também.
— Fugindo, é?
No entanto, depois de caminhar apenas alguns passos para fora da casa, ouvi uma voz familiar atrás de mim. Uma voz sonolenta, porém digna, que eu ouvia tanto em casa quanto na escola.
Era a Mamãe Azul – Roxy M. Greyrat.
Paramos e nos viramos. Coloquei-me na frente da Aisha. Àquela distância, eu podia vencer a Mamãe Azul. Com isso em mente, levei a mão à espada na minha cintura, apenas para perceber que minha mão estava tremendo.
— Arus, por favor. Não precisa — disse Aisha.
Tirei a mão da minha arma.
Aquele único momento foi suficiente para encharcar minha testa de suor, então limpei a umidade com a manga.
A Mamãe Azul cuidara de mim desde o começo. Se houvesse algo que eu não entendesse na escola, ela sempre me explicava gentilmente. Sempre que eu brigava com meus amigos, ela vinha comigo para pedir desculpas. Nos dias em que meu pai, a Mamãe Vermelha, a Mamãe Branca, a Aisha e a Lilia não saíam, ela me convidava para comprar mantimentos ou pescar com ela. Ela sempre foi legal, controlada, sábia e atenciosa sempre que eu estava passando por um momento difícil.
Ao lembrar do que eu estava prestes a fazer, senti que estava à beira das lágrimas. Aquilo era realmente aceitável? Eu estava fazendo a escolha certa?
Ninguém estava lá para responder às perguntas que eu fazia a mim mesmo, então tudo o que pude fazer foi ficar parado ali.
— Não achei que seria você a nos encontrar, Roxy — disse Aisha.
— Fiquei chocada por não ter percebido o que vocês dois estavam fazendo antes. Não tinha certeza se deveria chamar vocês ou não.
A Mamãe Azul não nos repreendeu. Ela também não estava brava. Estava calma como sempre.
— Aonde vocês vão? — perguntou ela.
— Não vou dizer. Se eu disser, vocês vão simplesmente nos trazer de volta — respondeu Aisha.
— Você tem um plano?
— Sim. Vamos conseguir nos virar sozinhos.
— Sugiro não fazer essa coisa de aventureiro. Não é particularmente lucrativo.
— Sem problemas — disse Aisha com confiança. — Não vamos fazer nada tão perigoso. Como tenho administrado o Bando Mercenário Ruato, tenho dinheiro. Isso será o suficiente para nos virarmos.
— O Rudy vai ficar preocupado. Ele vai procurar por vocês.
— Ele pode nos encontrar, mas… Quem sabe? Ele pode ser um pouco descuidado às vezes.
— Isso pode ser verdade, mas se ele pedir ajuda ao Senhor Orsted ou ao Lorde Perugius, provavelmente será capaz de encontrá-los.
— Verdade. Mas ainda assim vamos embora.
— É mesmo? — A Mamãe Azul soltou um longo suspiro. — Aisha.
— Sim?
— Vou preparar o terreno, para que vocês não sejam encontrados. Mas se algum dia sentirem que não conseguem continuar, entrem em contato comigo. Não me importo como.
— Tá bom… Eu vou. Obrigada, Roxy.
Aisha se virou e começou a se afastar. Eu a segui enquanto olhava para a Mamãe Azul, que estava sorrindo. Ela parecia não ter intenção de nos impedir – e eu não conseguia lidar com isso.
— Hum, Mamãe Azul? Você não vai nos impedir? — perguntei.
— Não. Quando eu tinha mais ou menos a sua idade, também saí de casa. Foi isso que me levou aonde estou hoje.
— Saiu?
— Saí quando era jovem, virei aventureira e acabei em Ranoa. Não volto para casa há mais de vinte anos. Mas aqui estou, apesar de tudo. Vai ficar tudo bem. Você pode aprender muito quando está lá fora no mundo. Tente pensar com a própria cabeça e não depender da Aisha para tudo. Boa sorte — disse a Mamãe Azul. Ela gentilmente afagou minha cabeça.
— Obrigado — disse eu baixinho.
A Mamãe Azul era pequena, basicamente da mesma altura que eu, mas aquele momento realmente deixou claro o quanto ela era adulta. Lembrei-me de que estive prestes a sacar minha espada contra aquela mesma mulher, e lágrimas se formaram nos cantos dos meus olhos.
— Se cuidem — disse ela.
Com a Mamãe Azul atrás de nós, partimos em nossa jornada.
Tradução: Gabriella
Revisão: Pride
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