Mushoku Tensei: Reencarnação Redundante

Mushoku Tensei: Reencarnação Redundante – Vol. 03 – Cap. 03 – Reunião de Família

 

OLHANDO PARA TRÁS e vendo o que aconteceu, entendo por que me senti daquele jeito na época. Não é que eu considerasse a Aisha uma das minhas esposas; eu a amava como minha irmãzinha e como membro da família, mas nunca pensei nela como “minha”.

Em outras palavras, não era como se eu estivesse sendo traído ou levando chifre. E mesmo que estivesse, não acho que teria o direito de reclamar de traição ou infidelidade, considerando que tomei três esposas.

No fim das contas, fui meio que a causa raiz disso tudo, independentemente de qualquer coisa. Se eu tivesse entendido isso na época, talvez as coisas não tivessem explodido da maneira que explodiram.

— Trecho de O Livro de Rudeus, Volume 29

 

https://tsundoku.com.br

 

Eu tinha terminado o trabalho do dia.

Ultimamente, isso consistia inteiramente em trabalhar com a Chefe da Filial de Asura, Ariel. Estávamos empenhados em estabelecer um círculo de teletransporte em larga escala na fronteira do Reino de Asura.

Círculos de teletransporte eram considerados tabu em todo o mundo, mas a Rainha Ariel usaria sua autoridade para anular isso dentro de sua nação e instalá-los por todo o território. Obviamente, o País Sagrado de Millis iria objetar, e provavelmente haveria pessoas entre a própria população dela que também seriam contra. Embora o Incidente de Deslocamento de Fittoa estivesse se tornando coisa do passado, as vítimas daquele evento terrível certamente protestariam também.

O Reino de Asura não era uma democracia, então a Rainha Ariel poderia ignorar o barulho e as objeções, mas o descontentamento popular poderia levar a um golpe de estado. Ainda assim, ela sempre teve gente mirando em suas costas. Eu me sentia confortável em deixar com ela a responsabilidade de inventar uma desculpa para o que estava fazendo.

De fato, li um rascunho do discurso dela hoje, e estava convincente pra caramba.

Dez anos se passaram desde que o Incidente de Deslocamento causou o colapso da Região de Fittoa e, mesmo agora, ela ainda está se reconstruindo. Provavelmente levará dezenas de anos até que aqueles belos campos dourados de trigo brilhem mais uma vez. Aquele incidente tirou muito de nós – e é precisamente por isso que devemos aprender mais sobre o teletransporte. Precisamos saber, para que possamos evitar que tal catástrofe aconteça novamente. Precisamos saber o que o teletransporte verdadeiramente é.

É por isso que estou revogando a restrição aos círculos de teletransporte. Tenho certeza de que haverá aqueles que discordarão de mim, aqueles que estão preocupados. E talvez minha geração simplesmente repita os erros do passado. Mas prometo a vocês que nossos fracassos se tornarão o sustento para as gerações futuras.

Era esse o resumo da ópera. Basicamente, ela estava tentando transformar os cidadãos opositores em aliados. Nem todos mudariam de lado, mas Ariel já era bastante popular. As coisas provavelmente funcionariam bem.

No fim das contas, os cidadãos que mais se oporiam à remoção da restrição de teletransporte seriam os seguidores da igreja de Millis, porque o clero de Millis era quem liderava a supervisão de tal restrição. Eu estava atualmente preparando o terreno para tornar isso aceitável para Millis, agindo através da Criança Abençoada e do Papa.

Quando lhes contei sobre o plano de estabelecer círculos de teletransporte em larga escala, ambos me olharam com cara feia, depois me disseram gentilmente que provavelmente não poderíamos instalar nenhum círculo em Millis. Desisti dessa ideia, mas o Papa e a Criança Abençoada garantiram que não liderariam nenhuma objeção às ações de Asura. Foi um compromisso, mas ainda era um avanço.

Em troca, fizeram alguns pedidos, mas isso era inevitável dado o que eu estava pedindo. Por enquanto, eu estava satisfeito com o resultado.

Era possível que, depois de verem o quão úteis e lucrativos eram os círculos de teletransporte no Reino de Asura, os seguidores de Millis começassem a pedi-los. O fato de o Papa e a Criança Abençoada não se oporem abertamente quando a hora chegasse era algo importante.

Deixamos Millis de lado por enquanto e começamos a instalar círculos de teletransporte em regiões de Fittoa sem população, bem como em algumas regiões especialmente vazias de Asura. Assim que conduzíssemos mais experimentos e obtivéssemos sucesso, instalaríamos mais círculos.

Havia obstáculos com os quais teríamos que lidar, sim. Esse era o tipo de coisa que tiraria empregos da indústria de transporte, por exemplo. Mas se os círculos de teletransporte se tornassem amplamente utilizados, veríamos um aumento na segurança e na conveniência das viagens de modo geral. No fim das contas, seria um ponto positivo para as pessoas.

Se nada mais, Orsted parecia conhecer algumas maneiras eficazes de usar círculos de teletransporte, e ele certamente os usaria bem na guerra contra Laplace.

De qualquer forma, eu tinha terminado o trabalho. Tinha alguns dias de folga, então ia relaxar em casa.

— Cheguei!

Fiquei feliz em retornar à minha humilde morada, o lugar onde estaria cercado pelos meus filhos, seria abraçado calorosamente pelas minhas esposas e teria uma refeição boa pra caramba. Meu lar, doce lar.

— Hã? Não tem ninguém aqui?

Exceto que minha casa, geralmente agitada, estava silenciosa. Era o início da tarde. Roxy, Lara, Arus e Sieg estariam na escola. A essa hora do dia, Sylphie poderia ter saído para fazer compras. Lily e Chris provavelmente estavam passeando com Eris. Será que Aisha estava lidando com coisas do Bando Mercenários? Zenith não estava aqui também, e nem Dillo. Nesse caso, será que Lilia tinha levado Zenith para sair ou algo assim? Recentemente, elas andavam montando no Dillo para ir a vários lugares, então poderia ser isso. A partir deste ano, Lucie se matriculou na Academia Real do Reino de Asura e estava morando nos dormitórios, então também não estava em casa.

O que significava que eu realmente era o único na casa.

Ah, quase esqueci do Byt, nosso vigia da casa. Agradeço seu trabalho duro, amigo. Graças a você eliminando todas as pragas, poderei desfrutar de um arroz delicioso esta noite. Vou garantir de pegar um fertilizante saboroso para você mais tarde, pensei enquanto subia as escadas.

Foi então que ouvi uma voz.

— Mmm… Mm…

Parecia estar com dor ou algo assim. Achei que estava sozinho, mas aparentemente não. Continuei pelo corredor em busca de onde vinha a voz, eventualmente percebendo que vinha do quarto da Aisha.

— Ah… Mm…

Quase parecia que ela estava febril. Será que Aisha estava doente?

— Ah… Aí mesmo… Mais…

Ah, não, definitivamente não. Aqueles eram os mesmos tipos de sons que Sylphie e Roxy faziam quando dormíamos juntos. Eu fazia os mesmos tipos de sons quando dormia com a Eris, então entendi perfeitamente.

Ela estava no meio do ato, hein? Nunca teria imaginado que a Aisha tivesse alguém assim na vida dela.

Sentimentos complexos se agitaram dentro de mim. Eu estava feliz? Chateado? Aisha era maior de idade e, mesmo como seu irmão mais velho, sabia que ela era uma verdadeira beldade. Não seria estranho ela ter um parceiro, mesmo que fosse constrangedor pra caramba.

Espere, no entanto. Talvez eu estivesse me precipitando. Talvez ela realmente estivesse com febre. Ou tendo os ouvidos limpos. Diabos, ela poderia estar recebendo uma massagem. Digo, era até possível que ela estivesse tentando ganhar a vida fazendo luta livre profissional – certo, talvez não essa. Luta livre não existia neste mundo. De qualquer forma, havia muitas outras razões para ela estar fazendo aqueles sons.

Era desconfortável, mas considerar as outras possibilidades me ajudou a me acalmar. Eu bateria uma vez, depois pediria para ela me apresentar o rapaz mais tarde. Eu ia agir como pai da Norn e da Aisha no lugar de Paul. Isso era algo que eu decidira muito, muito tempo atrás, então planejava avaliar quem quer que fosse o homem. Se ele fosse muito mulherengo, eu provavelmente ficaria um pouco crítico, mas era apenas para protegê-la.

Dito isso, duvidava que ela se deixasse enganar por algum esquisitão. Ela poderia se apaixonar por alguém bastante peculiar, mas nunca escolheria alguém horrível.

Certo, não vou me deixar prender por preconceitos e primeiras impressões. Preciso ver quem esse cara realmente é.

Eu não era particularmente bom com esse tipo de coisa, no entanto.

Tanto faz. Primeiro, precisava bater. Aproximei-me da porta e ouvi vozes lá de dentro.

— Ei, Arus? Isso é bom?

— É… É sim, Aisha.

Arranquei a porta abrindo-a.

— Hã?!

— O quê?!

O que vi diante de mim era inacreditável. Aisha e Arus estavam na cama juntos. Ela estava por cima, e ele por baixo dela. Ambos estavam nus e suados.

O par congelou no lugar como dois gatos pegos no ato de acasalar. Apenas seus rostos se viraram na minha direção, e seus olhos se arregalaram.

Talvez estejam apenas brincando de lutinha?

Não, definitivamente não é isso que está acontecendo.

Seria estranho eles fingirem lutar sem calção ou malha, e o quarto não cheiraria daquele jeito. Eu também não via nenhuma cadeira de aço por perto. Em outras palavras, eles estavam… É.

— Ah, oh.

Eu queria ter aberto a porta e visto a Aisha massageando os ombros do Arus ou algo assim. Eu queria que isso fosse um mal-entendido.

— Er, ah, uh, — Não conseguia encontrar as palavras. Que diabos era isso?

O que eu devo fazer? Como isso aconteceu? Hã?

Aisha ficou pálida com minha aparição repentina. Eu devia estar exatamente igual, pois sentia o sangue drenar do meu rosto.

Ela tentou dizer algo, mas, por razões óbvias, tropeçou nas palavras.

— H-hum, bem-vindo de volta, Irmão… Digo, hum, isto é, uh…

Aquilo foi o suficiente para me dizer que não era nenhum tipo de mal-entendido – eles sabiam o que estavam fazendo.

— Vocês dois. Tomem banho, vistam-se e venham para a sala de estar.

Consegui espremer algumas palavras e fechei a porta.

Desci as escadas e fui para a sala, depois desabei em uma cadeira. A força se esvaiu do meu corpo. Meu coração estava disparado e minha visão se estreitava. Queria que aquilo tivesse sido algum tipo de pesadelo. Mas o barulho de passos e movimentação no andar de cima me informou cruelmente que aquilo era, de fato, a realidade. Senti náuseas e vontade de vomitar. Minha mente estava em branco.

 

https://tsundoku.com.br

 

Enquanto Aisha e Arus tomavam banho, Sylphie e Lilia chegaram em casa. Ficaram surpresas ao me ver e perguntaram o que tinha acontecido. Lutei para colocar em palavras, mas, mesmo assim, contei-lhes tudo o que vira desde que chegara. Lilia ficou pálida, olhou para o meu estado, depois ficou vermelha e tentou correr para algum lugar antes que Sylphie a impedisse.

De alguma forma, Sylphie conseguiu manter a calma durante todo o meu relato. Ela disse que deveríamos conversar assim que todos se acalmassem e Roxy e os outros estivessem em casa. Pelo menos, acho que ela disse algo nesse sentido. Lilia assentiu e saiu para preparar o jantar.

Quando Aisha e Arus terminaram o banho, Eris e os outros já tinham retornado. Quando ela viu minha aparência, perguntou freneticamente quem tinha feito aquilo comigo.

O jeito que ela perguntou me lembrou de quando briguei com o Paul tantos anos atrás. Tentei me manter o mais estável possível enquanto explicava as coisas para ela. Eris parecia absolutamente perplexa com tudo aquilo. Dito isso, ela pôde perceber quão séria era a situação, dado o meu estado atual, então não disse mais nada.

Fiz Lily e Chris tomarem banho depois dos outros dois, então as mandei para o quarto antes de voltar para minha cadeira, onde cruzei os braços e fechei os olhos.

Aisha e Arus estavam um ao lado do outro. Aisha parecia um tanto descontente, mas fora isso, impassível. Arus parecia ansioso, sério e meio como se não entendesse o que estava acontecendo. Sua expressão era difícil de decifrar.

Quando lhes disse que conversaríamos assim que Roxy chegasse, Aisha assentiu.

— Tudo bem.

Eventualmente, Roxy chegou em casa e, depois de mandar Lara e Sieg tomarem banho, estávamos todos presentes na sala de estar.

A reunião de família começou.

Primeiro, precisávamos confirmar o que realmente tinha acontecido. Quando perguntei o que estavam fazendo, Aisha não mediu palavras. Arus ficou em silêncio o tempo todo. Ele encarava as próprias mãos, que estavam fechadas em punhos no colo.

Segundo Aisha, os dois haviam de fato se envolvido em relações sexuais. Ela alegou que era “prática”.

— Isso mesmo. O Mestre Arus atingiu a maioridade, veja bem. E como tenho certeza que o senhor sabe, Mestre, o Mestre Arus é um tremendo mulherengo. Ouvi dizer que, quando ele se formar na universidade de magia, frequentará a escola no Reino de Asura, então concluí que ele teria inúmeras oportunidades de se envolver em relações sexuais lá. Como ele é o filho mais velho, terá que fazer um herdeiro, então decidi servir como sua parceira de prática para que ele não falhe quando a hora chegar.

Aisha explicava as coisas num tom manso e polido. Era o tom frio, robótico e distante que ela usava quando falava com estranhos, e muito diferente de como costumava falar comigo. Contrário a esse tom, a palavra que usou em sua desculpa foi leve e leviana demais: prática.

Foi tão casual que fiquei chocado mais uma vez.

Aisha e Arus não eram irmãos, mas foram criados como irmãos sob o mesmo teto. Era assim que eu sentia, de qualquer forma. Neste mundo, neste país, não havia leis contra incesto. Não havia. Independentemente disso, não podia ser certo se envolver em algo assim tão casualmente. Eu tinha que repreendê-los. Eu não era bom nesse tipo de coisa, mas tinha que fazer. Precisava convencê-los de que o que fizeram era errado e fazê-los colocar um fim naquilo.

— Você não pode fazer isso — disse eu.

— E por que não? — perguntou Aisha.

— Por quê? — O que eu deveria dizer?

A primeira coisa que me veio à mente foi o rosto do Paul. Se o Paul estivesse aqui, o que ele teria dito? Algo como Você não pode porque não pode?

Ele teria dado um soco neles? Ou teria ficado pálido de choque e ficado sem fala?

Eu fui nessa última opção. Não tinha palavras, mas sabia que este momento era importante. Dependendo de como essa conversa fluísse, poderia não haver volta. Eu precisava escolher minhas palavras com cuidado. Ainda assim, não conseguia descobrir o que dizer.

— Aisha! Você entende o que fez?!

Lilia não conseguiu lidar com meu silêncio e foi a primeira a gritar com raiva. Ela estava num acesso de fúria desde o início disso tudo.

— Sim, entendo — disse Aisha. — O Mestre Arus estava sofrendo, então decidi ajudá-lo antes que ele cometesse um erro grave com outra pessoa.

— Não é isso que estou perguntando!

— Mãe, a senhora não me disse uma vez para aceitar o Mestre caso ele quisesse meu corpo? Por que o Mestre Rudeus pode, mas o Mestre Arus não?

— Bem… — Lilia ficou com a língua travada.

Era verdade que Lilia certa vez pressionou Aisha a dar em cima de mim. Ela parou de fazer isso com o tempo, provavelmente porque nunca demonstrei interesse.

— Isso é… porque o Mestre Rudeus não desejou isso.

— Nesse caso, ele algum dia quis que eu o servisse, para começo de conversa?

— Não, mas…

— A senhora pode não entender isso, Mãe, mas tudo o que me fez fazer foi pouco mais do que para sua própria autossatisfação.

Lilia ficou sem palavras. Sua boca abria e fechava em seu rosto pálido. Fazia muito tempo desde que eu a vira tão chocada.

— Não estou tentando culpar a senhora por nada — continuou Aisha. — Eu estava mais do que feliz em servi-lo. O que fiz desta vez foi pela minha própria preocupação com a família Greyrat. Sou igual à senhora nesse aspecto. Só porque não fiz exatamente o que a senhora queria, não significa que tenha o direito de criticar minhas ações.

— Aisha… Isso é sua maneira de se vingar de mim?

— Estou tentando dizer que esta é minha maneira de retribuir a todos, então por que a senhora chegaria a essa conclusão?

Lilia cerrou os dentes e baixou a cabeça. Lágrimas se formavam nos cantos de seus olhos. Ela estava frustrada? Triste? Ambos?

Enquanto isso, Aisha parecia inteiramente calma e controlada. Era o mesmo olhar que eu via frequentemente em seu rosto quando o Bando Mercenário negociava com outra parte. Era a cara que ela fazia quando estava no controle total da conversa – quando sabia exatamente que perguntas e respostas esperar – quando sabia o que as pessoas iam dizer. Era um rosto que teria parecido confiável demais se não fossem as circunstâncias atuais. O rosto composto da Aisha.

— Aisha — chamei.

— O que foi, Mestre?

Mesmo quando falei com ela, a compostura de Aisha não rachou por um único momento. Ela não parecia nem remotamente nervosa. Teria ela antecipado nossa conversa também? Se nada mais, também não parecia envergonhada. Será que realmente achava que não tinha feito nada de errado?

— Você não deveria fazer esse tipo de coisa tão… casualmente.

— Mas é claro. Não estou tratando isso casualmente de forma alguma. Fiz o meu melhor porque foi pelo bem do Mestre Arus. Ou existe alguma razão pela qual eu não deveria ter feito?

Foi uma pergunta fria. Como se ela estivesse me convidando a inventar uma razão.

— O Arus é família. Ele não é como seu irmãozinho? Seria como se você e eu fizéssemos isso. Isso é… ruim, certo?

— O senhor está errado. Para mim, o senhor é como um rei, o que faz do Mestre Arus como um príncipe. Além disso, nunca fui contra dormir com o senhor, Mestre. É verdade que uma vez discutimos como meus sentimentos pelo senhor são diferentes, mas se o senhor tivesse buscado meu calor, eu teria obedecido.

Eu não sabia o que dizer. Doeu ouvir aquilo. Era assim que ela sempre se sentira em relação a mim? Eu era o único que achava que era o irmãozão dela? Ela achava que eu era apenas seu mestre? Era verdade que, quando nos reunimos em Sharia, ela disse que me serviria. Depois de todo esse tempo, imaginei que ela não se sentisse mais assim.

— Só para deixar claro, eu considero todos vocês minha família — disse Aisha. — É só que, bem… é difícil explicar, mas o senhor também é meu mestre. O senhor é meu irmão mais velho e o Mestre Arus é meu sobrinho, mas vocês dois são pessoas a quem sirvo.

Ela falava como se soubesse exatamente o que eu estava pensando, e fiquei mais uma vez sem palavras. Como eu deveria responder? Sabia que tinha que dizer algo, mas as palavras não apareciam. Seria ruim apenas deixá-la continuar falando, mas, ao mesmo tempo, eu não conseguia apontar exatamente por que o que eles tinham feito era ruim.

Por que não deveriam ter feito? Por que eu, pessoalmente, estava tão chocado? Por que eu odiava tanto aquilo? Por que fiz disso um caso tão grande e convoquei uma reunião de família? A quem eu queria culpar por isso? A quem eu queria repreender? O que eu queria fazer? Eu não sabia a resposta para nenhuma dessas perguntas.

Não conseguia imaginar um cenário em que qualquer coisa que eu dissesse agora não receberia uma resposta articulada dela. Eu não precisava usar meu Olho da Previsão para saber disso. Havia alguém aqui que pudesse falar por mim? Olhei na direção da Roxy, esperando alguma ajuda, mas ela parecia tão deprimida que me senti culpado.

— Se ao menos… Se ao menos eu tivesse cuidado deles direito… — ouvi-a sussurrar.

Ah, quando a Roxy ficava assim, ela não seria de nenhuma ajuda. Ela nunca foi boa quando se tratava de questões do coração. Fazer o quê.

E a Eris? Não, ela estava em pior condição. Estava fuzilando o Arus com um olhar incrédulo no rosto. Se eu buscasse a ajuda dela, ela derramaria sangue. Eu não queria isso.

A Sylphie era a escolha certa, então?

Justo quando a conversa chegava ao fim, Aisha parou de falar em seu tom polido.

— Bem, acho que é o que é, né? Fiz isso pelo Arus e pela família Greyrat, mas o senhor pode estar certo de que fiz com um pouco de casualidade demais. Eu provavelmente deveria ter pensado mais a respeito. Como o senhor disse, Irmão, fui descuidada. Desculpa.

A atmosfera na sala mudou para uma de alívio. Quanto a quem mudou essa atmosfera, nem precisava dizer: Aisha estava encerrando as coisas. Ela estava no controle do fluxo da conversa e tentando colocar um fim nesta reunião. Era isso. Acabamos por aqui. Eu errei um pouco, mas me arrependo do que fiz. E então, no final, ela diria: Não farei de novo.

Mas eu sabia que ela não estava falando sério. Eles estavam fazendo isso em segredo, afinal. Se ela realmente tivesse dormido com o Arus pelo bem dele e da família Greyrat, teria sido mais aberta sobre isso. Talvez não “aberta”, mas teria contado a alguém. Teria obtido permissão para lhe dar educação sexual.

Em outras palavras, ela sabia desde o início que o que estava fazendo era errado. Mesmo que prometesse não fazer isso de novo, muito provavelmente faria. Da próxima vez, tomaria cuidado para não ser pega por ninguém. Conhecendo a Aisha, ela conseguiria.

— Prometo não dormir mais com o Arus…

— Na verdade, eu poderia pedir para você dormir com o Sieg também?

Foi Sylphie quem cortou a Aisha. Ela estava quieta desde que a reunião começou, mantendo seu olhar afiado fixo na minha irmãzinha o tempo todo. Era um olhar que ela raramente dava a alguém da nossa família. Agora, ela estava se pronunciando.

— O quê? — perguntou Aisha.

— Se você está disposta a praticar com o Arus, pensei em pedir para cuidar do Sieg também.

O que ela estava dizendo? Não havia a menor chance no mundo de que isso fosse aceitável! Instintivamente olhei para Sylphie, que me deu um sinal com os olhos. Como se estivesse me dizendo para deixar aquilo com ela.

Era nisso que eu queria acreditar.

— Hum, o Sieg é… ainda um pouco jovem, eu acho — disse Aisha.

— De jeito nenhum — disse Sylphie. — O Sieg vai crescer rápido, então quanto antes ele tiver alguma prática, melhor. Caramba, você poderia começar hoje à noite? Ou você não quer?

— Não é… que eu não queira…

— Ah, e você poderia praticar com o Clive também? Ele não é nosso filho, mas é basicamente da família.

Suor frio brotou na testa da Aisha com os pedidos insanos da Sylphie. Seus olhos corriam por toda parte até pousarem em Arus por um único momento.

Ele ainda mantinha a cabeça baixa em silêncio, mas assim que notou Aisha olhando para ele, levantou-se um pouco. Seus olhos se encontraram. Sua expressão preocupada parecia perguntar: Você vai ficar bem? O que devo fazer?

Aquilo foi o suficiente para Aisha firmar sua determinação. Ela encarou Sylphie e sorriu radiante.

— Tudo bem, claro. Vou ensinar o básico para o Sieg e o Clive.

No momento em que Aisha disse isso, houve um barulho de estrondo quando alguém chutou a cadeira para trás e se levantou.

— Como se atreve!

Era a Eris. Durante toda a reunião, ela ficou sentada de braços cruzados, lábios selados com força e olhos fechados. Mas seus olhos estavam bem abertos agora, e ela se aproximou de Aisha com as mãos fechadas em punhos apertados. Ergueu um desses punhos no ar.

Aisha instintivamente cobriu o rosto com as mãos.

— Argh!

Mas não foi ela quem levou um soco na cara. Arus, que estava sentado ao lado dela de cabeça baixa, voou contra a parede junto com a cadeira em que estava. Ele encarou a mãe em choque, sangue escorrendo do nariz.

— Como se atreve a fazer a Aisha ir tão longe!

— Mas ela me disse para deixar com ela…

— Não me venha com “mas”! — Eris mais uma vez bateu o punho em Arus.

Ele se espatifou no chão e gemeu de dor.

— Não criei você para ser assim! — Ela estava furiosa enquanto se aproximava do filho caído. — Eu te ensinei a proteger! Quando te ensinei a abandonar alguém desse jeito?! Você devia ter vergonha na cara!

— Por favor, pare, Eris!

Aisha se colocou entre os dois e envolveu Arus em seus braços, protegendo-o.

— Sai da frente, Aisha! Vou arrancar essa atitude podre dele na porrada!

Parecia que a Eris estava prestes a espancar tanto a Aisha quanto o Arus até a morte àquela altura. Entrei em pânico e corri para segurar a Eris por trás.

— Eris, pare! Acalme-se!

— Como posso me acalmar?! Está totalmente claro agora! — rugiu ela.

— O que está?! — Eu não conseguia acompanhá-la. Fiquei um pouco amargurado que Eris parecia entender algo que eu não entendia, mas eu simplesmente não conseguia compreender. Foi Sylphie quem me deu a resposta.

— Em outras palavras, tudo o que acabamos de ver foi uma atuação da parte da Aisha.

Sylphie levantou-se e caminhou em nossa direção. Ergueu a mão para Eris, acalmando-a. Então, Sylphie ajoelhou-se na frente de Aisha e Arus e falou com eles em uma voz gentil.

 

https://tsundoku.com.br

 

— Aisha, você não quer dormir com o Sieg ou o Clive, certo?

Aisha não respondeu. Simplesmente abraçou Arus, com uma expressão descontente no rosto. Era como se tudo o que tínhamos visto – o quanto ela falara – tivesse sido uma mentira.

— Você ama o Arus e vocês acabaram ficando juntos naturalmente, certo?

Aisha permaneceu em silêncio.

— Mas você sabia que se aparecesse e dissesse que o amava, a Lilia iria objetar, então manteve em segredo, certo?

Ainda assim, Aisha não disse nada.

— Ou você só queria experimentar? Você só está interessada no sexo?

— Não é isso! — Foi Arus quem reagiu a Sylphie, não Aisha. Ele falou com uma expressão desesperada no rosto enquanto o sangue pingava de seu nariz. — Não é nada disso! Quando eu disse à Aisha que a amava e queria casar com ela, ela me rejeitou no começo. Mas continuei dizendo o quanto a amava e, eventualmente, ela cedeu e concordou em dormir comigo só uma vez, mesmo sabendo que era errado. Ela dormiu comigo porque eu continuei insistindo. Eu… Sou eu quem estragou tudo!

Depois de ouvir aquilo, Sylphie voltou-se para Aisha.

— Ei, Aisha? Pode me contar a verdade?

Aisha olhou para baixo depois que Sylphie disse aquilo, mas então cerrou os dentes e ergueu a cabeça.

— É verdade, tá bom?! Eu amo o Arus!

— Desde quando?

Quem foi que fez a pergunta? Tive a sensação de que saiu da minha boca, ou talvez tenha sido a Lilia. Pode ter sido a Roxy.

— Desde que ele nasceu, desde a primeira vez que o vi, eu simplesmente soube que ele era especial para mim! Conforme ele crescia, esse sentimento ficava cada vez mais forte. Eu tentei me segurar, tá?! Digo, estamos falando do Arus! Temos mais de dez anos de diferença… Eu sei disso! Ele deveria ser como meu irmãozinho, então sentir isso por ele é estranho. E ele é o filho mais velho, o herdeiro! Ele tem que se casar com uma garota de uma boa família e ajudar a garantir a estabilidade da família Greyrat. Eu sei de tudo isso, mas ele me disse que me ama!

Finalmente tínhamos ouvido a história completa do que transcorrera. Eles estavam apaixonados, como qualquer casal. A única diferença era que eram tia e sobrinho.

Nunca tentei ter esse tipo de relacionamento com a Aisha. Parte disso era que eu simplesmente nunca senti esse tipo de atração por ela. Ela era minha irmãzinha. Não era uma das minhas esposas. Tracei essa linha na areia e nunca a cruzei. Aisha devia ter decidido que se envolver nesse tipo de relacionamento dentro da família era proibido por causa do meu comportamento.

Mas ela amava o Arus. Ela cuidara dele e se apaixonara.

Eu não tinha ideia de como ela se sentiu quando cruzou a linha pela primeira vez. Talvez ela tenha feito isso com ele acreditando verdadeiramente que seria apenas uma vez, mas Arus não conseguiu se segurar depois daquilo. Como homem, eu entendia totalmente. É assim que as coisas são no começo.

Aisha, vendo-se perseguida tão apaixonadamente, não conseguiu dizer não. Afinal, ela queria estar com ele também. Eles queriam estar juntos. Como resultado, acabaram fazendo sexo todos os dias em segredo.

— Isso não se parece nada com você, Aisha — murmurou Roxy.

Aisha de repente se virou para Roxy e gritou:

— Então o que eu deveria fazer?! Digo, eu amo ele! Não tem como mudar isso! Quero fazer tudo e qualquer coisa que puder por ele! Eu… Eu… Eu amo ele…

As palavras de Aisha ficavam mais baixas quanto mais ela continuava. Ela chorava enquanto segurava Arus nos braços.

Vê-los daquele jeito me lembrou de quando Roxy e eu dormimos juntos no Continente Begaritt.

— Não, eu entendo como você se sente — disse Roxy.

Não era só o Arus. Aisha também não conseguia se controlar. Era raro ela agir assim.

Sexo é parte de quem somos como humanos. Mesmo que você saiba que é uma má ideia, há momentos em que não consegue se segurar.

— Irmão. — Aisha enxugou as lágrimas dos olhos e olhou para mim, a voz calma agora. — Eu realmente sinto muito por como as coisas aconteceram, mas eu amo o Arus, e ele me ama. Não me importo se tivermos que esperar até ele atingir a maioridade. Por favor, deixe-nos casar.

Sua voz séria fez com que todos na sala ficassem em silêncio.

Sylphie virou-se para me olhar com uma expressão gentil no rosto.

— O que você vai fazer, Rudy?

Eu era quem tinha que tomar a decisão?

Bem, fazia sentido. Eu era quem tinha convocado esta reunião, afinal. Mas era realmente meu lugar decidir? Olhei ao redor. A vibe na sala tinha mudado. As pessoas pareciam sentir que estava tudo bem agora. Não foi bom terem dormido juntos em segredo. Mesmo que não fosse o tipo de coisa que se queira anunciar aos quatro ventos, deveria haver uma maneira melhor de revelar, como preparar o terreno com a família antes que as coisas viessem à tona.

Arus e Aisha se amavam. Claro, Arus ainda era jovem, mas não parecia que ele fora forçado a estar com ela. Por que não permitir? Havia realmente alguma necessidade de eu atacá-los ainda mais? Aquele era o sentimento na sala.

Objetivamente falando, eu não conseguia pensar em muitas razões pelas quais aquilo era tão ruim.

Então que sentimento era esse? A repulsa borbulhando do fundo do meu ser?

— Não. Não posso permitir.

— Hã? — Sylphie ergueu a voz em confusão.

O quê, eu disse algo estranho? Não, pense nisso claramente.

Aisha era uma coisa. Arus a perseguira, e ela fizera o ato com ele apesar de saber que era uma má ideia. Aquela foi a escolha dela. Deixando de lado se foi boa ou ruim, ela tomou a decisão de fazer isso. Quando as coisas deram errado, ela tentou protegê-lo.

Mas e quanto ao Arus? Aquela foi realmente decisão dele? Era comum que os homens pensassem com a metade inferior do corpo. Quando deixavam suas partes íntimas controlá-los, tipicamente faziam coisas sem pensar nas consequências. Pensando com as bolas, por assim dizer.

Quando me casei com a Sylphie, eu legitimamente só pensava em sexo. Olhando para trás agora, parte da razão pela qual me casei com ela foi porque não queria que ela escapasse. Eu não gostava de admitir isso, mas era verdade.

E se o Arus não amasse realmente a Aisha, mas tivesse apenas criado um apego instintivo por ela? Em outras palavras, e se ele só quisesse transar? Poderia ser apenas luxúria temporária, não amor.

Eu não ia sair dizendo que isso era errado. Não tinha o direito de dizer que era ruim viver de acordo com seus instintos humanos naturais. Poderia ter começado como luxúria temporária, mas com o tempo, poderia se desenvolver em algo real.

No entanto, será que o Arus era realmente capaz de tomar boas ou más decisões na idade dele? Ele poderia realmente fazer essa escolha?

Isso não era nem especificamente sobre a idade dele. Eris e eu dormimos juntos pela primeira vez quando tínhamos mais ou menos a idade dele. Bem, no meu caso, eu tinha mais de quarenta se contasse minha vida anterior, mas deixaríamos isso de lado por enquanto.

Arus mal dissera algo durante a reunião de família e deixara quase tudo nas mãos de Aisha. Se as coisas tivessem procedido da maneira que ela queria, poderíamos ter concluído que a culpa de tudo era dela. Arus não objetou. Ele deixou tudo para Aisha, deixou-a ser a vilã e tentou escapar da punição. Foi por isso que Eris ficou tão furiosa.

Poderia se argumentar que ele simplesmente seguiu as instruções de Aisha, mas isso também não era bom. Não era uma situação onde havia apenas uma pessoa errada. Também se poderia argumentar que Aisha estava errada porque era a mais velha dos dois e capaz de tomar decisões melhores. No entanto, no que me dizia respeito, ambos eram responsáveis por suas próprias ações.

Arus deveria ter se pronunciado em vez de deixar Aisha encobri-los. Ambos deveriam ter resistido contra mim. Ele deveria ter pensado com a própria cabeça, não importava o quão desajeitado pudesse ter sido. Não havia como eu aceitar o relacionamento deles quando ele não conseguia fazer nem isso.

Estudei Arus. Ele me olhou de volta com uma expressão aterrorizada. Parecia que ele tinha se encolhido completamente dentro de si mesmo depois que Eris lhe deu um soco, como se não tivesse intenção de tentar me convencer e sair dessa situação.

Vê-lo assim me fez pensar se Aisha estivera limpando a sujeira dele toda vez que ele errava. Digamos que eu lhes dissesse: Se vocês dois se amam, é o que é. Mas nada de casamento até o Arus atingir a maioridade. Será que o Arus cresceria com isso? Aisha não conseguiu controlar o Arus desta vez. Diabos, para minha surpresa, ela não conseguiu controlar a si mesma. E da próxima vez?

Ela estava praticamente grudada no Arus desde que ele nasceu. Deixei a educação dele nas mãos dela e assumi que ela nunca ensinaria nada que não devesse. No entanto, quando se tratava de coisas que ela mesma não sabia, não tinha como ensiná-lo. Ela tinha que aprender um pouco por conta própria.

Considerando suas ações passadas, ela provavelmente aprenderia e cresceria com isso. Eu duvidava muito que o Arus o fizesse.

Porque ele não disse nem fez nada antes. É, isso não vai funcionar. Preciso separá-los por enquanto.

Era por isso que eu era contra.

Honestamente, porém, não era por isso que eu objetava. Era uma razão, mas não era a razão. Tanto Aisha quanto Arus poderiam aprender a melhorar conforme avançassem. Poderiam fazer isso juntos. Por isso, minha resistência, minha repulsa, não podiam ser explicadas apenas por isso. Mas então o que era? Eu não sabia. Mesmo assim, sentia que tinha que tomar uma decisão aqui, pelo menos por enquanto.

— É um pouco cedo, mas vou fazer você frequentar a academia no Reino de Asura. Você vai morar nos dormitórios — disse eu.

Depois de lutar para descobrir o que era melhor, essa foi a conclusão a que cheguei. Era quase exatamente a mesma que Paul tivera quando viu Sylphie e eu juntos.

— O quê?! O senhor vai nos separar? — perguntou Aisha, chocada.

— Exatamente. O Arus não é adulto ainda, e acho que ele é dependente demais de você. É melhor separar vocês dois por enquanto, para que ele possa aprender a ser mais independente.

— Espere. Calma, Irmão. Sei que o que fizemos não foi certo, mas prometo que serei mais cuidadosa de agora em diante. Vou garantir que farei o que for melhor para ele. Sei que ele aprendeu com o que aconteceu. Ele entendeu depois que a mãe dele lhe deu um soco. Por favor…

— Não é não — disse eu.

— Mas por quê?! Pelo menos me diga por quê! Me convença!

— Porque não quero vocês dois juntos.

— Estou perguntando por que o senhor se sente assim! Porque quer fazer o Arus casar com a filha da Lady Ariel? Porque estou no caminho?!

— Não. — De onde aquilo estava vindo? Era verdade que Ariel me abordara brevemente com algo nesse sentido, mas nunca lhe dei uma resposta favorável.

— Então é porque sou sua propriedade? Mesmo que o senhor nunca tenha me tratado assim antes?!

— Não. Nunca pensei em você assim.

— Então por quê?! Me dê uma razão real! Se conseguir me convencer, prometo que desisto! Me faça parar! — disse Aisha desesperadamente.

— Nem eu sei por quê! Mas não é não! — disse eu.

Aisha mordeu o lábio inferior. Era raro ela me fuzilar com o olhar do jeito que estava fazendo agora. Na verdade, não acho que ela já tenha me olhado assim antes. Não era assustador. Na verdade, ela só parecia triste.

Eu sabia o quão mal estava falhando em me expressar para ela, mas o que mais poderia dizer? Não tinha como explicar a resistência que tinha ao relacionamento deles. Mesmo dizendo em voz alta, não fiz nada para me livrar da sensação nojenta que tinha dentro de mim. Simplesmente parecia errado. Eu precisava de uma razão para o sentimento? Eu sequer tinha uma?

Mesmo que precisasse de uma razão, não me importava. Não conseguia colocar em palavras, mas não recuaria.

— Não, Aisha — disse eu o mais calmamente que pude.

Eu estava basicamente usando minha autoridade para forçar minha opinião sobre ela. Não havia como ela aceitar isso.

Aisha me encarou em choque. Ela buscou ar algumas vezes e, enquanto observava meu rosto, a cor sumiu do dela.

Abruptamente, no entanto, ela começou a respirar de novo, e seus ombros relaxaram. Ela respirou fundo, com calma.

Eu estava errado?

— Certo. Quando o senhor coloca dessa forma… O Arus matou aula hoje, e ele não tem pensado em nada além de sexo ultimamente. Seria ruim para ele ficar perto de mim — disse ela.

Achei que não conseguiria convencê-la, mas parecia que eu a tinha alcançado.

— Agradeço sua compreensão.

— Eu entendo, Irmão.

Com isso, nossa reunião de família chegou ao fim.

 

https://tsundoku.com.br

 

Chamei as crianças do segundo andar. Jantamos, depois nos separamos novamente. Sylphie, Roxy, Eris e eu decidimos conversar juntos na sala de estar.

Sylphie tinha notado o que estava acontecendo alguns anos atrás. Ela frequentemente fazia tarefas domésticas com a Aisha, então percebeu que ela e Arus tinham sentimentos um pelo outro. Ela imaginou que isso acabaria acontecendo eventualmente.

Eris era parecida, exceto que… Em vez de notar o relacionamento específico deles, ela notou que Arus andava um pouco inquieto ultimamente, então pensou que ele tinha encontrado alguém por quem tinha sentimentos. Nunca imaginou que seria a Aisha. O que mais a preocupou foi que Arus se escondeu atrás de Aisha durante toda a reunião de família.

Roxy não suspeitara de nada disso, o que pesava muito sobre ela. Ela propôs acompanhar Arus a Asura, onde poderia continuar a instruí-lo enquanto cuidava dele nas sombras. Pude perceber o quão fortemente ela se sentia sobre isso, então concordei. Roxy garantiria que ele não se tornasse dependente dela.

Também contei às minhas esposas como me sentia sobre o futuro de Aisha e Arus. Eu ia fazê-lo largar a universidade de magia e frequentar a academia real em Asura, onde viveria a vida longe da proteção de Aisha. Queria que ele pensasse e agisse por conta própria para que pudesse lidar com as consequências de suas escolhas o máximo possível. Ao fazer isso, ele poderia escapar de sua dependência da Aisha. Ele atingiria a maioridade quando voltasse para casa.

Se ainda amasse a Aisha naquele momento, se tivesse pensado em seu futuro e quisesse estar com ela, se tudo isso não fosse apenas um acesso de paixão, então eu permitiria o casamento.

Honestamente, eu ainda resistia muito à ideia. Ela me causava repulsa. Mesmo agora, achava que ia vomitar. Mas não cabia a mim decidir. Eles eram meus parentes de sangue, e eu era o guardião do Arus, sim. Isso não significava que me pertenciam. Aisha, em particular, era uma adulta que podia seguir seu próprio caminho. Assim que Arus atingisse a maioridade, teria idade suficiente para se afastar da minha proteção também.

Dada a ameaça do Deus Homem, havia uma parte de mim que queria controlar a vida deles. No entanto, não era certo eu ditar seus futuros.

— Mm, tudo bem. Acho que essa é uma resposta bem a cara do Rudy.

— Se você diz, está tudo bem.

— Certo. Eu entendo.

Minhas três esposas assentiram. Elas não tinham a mesma repulsa à ideia que eu, ao que parecia. Eris era contra tudo isso, mas porque achava que Arus estava agindo de forma patética.

Neste mundo, o casamento entre parentes de sangue era comum, especialmente entre a nobreza de Asura, e ouvi dizer que algumas tribos de demônios faziam isso também. Talvez fosse por isso que nenhuma delas resistia tanto à ideia. Eu me sentia o estranho no ninho. Tinha me acostumado com a maioria dos costumes deste mundo, mas, no fim das contas, eu ainda era de outro lugar. Não importava quantos anos se passassem, havia alguns sentimentos que não me abandonavam. Não que eu me importasse tanto com o incesto como tabu no meu mundo original, no entanto.

— Eles são como nós costumávamos ser — disse Sylphie.

— Você acha…?

Inclinei a cabeça. Eu, pessoalmente, sentia que nosso relacionamento era muito diferente do de Arus e Aisha, mas…

Não, não era isso que ela queria dizer. Ela estava falando sobre como meu pai nos separou. Se Paul não tivesse nos separado naquele dia, nossas vidas teriam sido muito diferentes. Conheci Eris, e fui separado de Sylphie tanto pela distância quanto pelo tempo. No fim, acabei com as duas, mas se o Incidente de Deslocamento nunca tivesse acontecido, eu poderia ter me casado apenas com a Eris. Não sabia se Arus ia encontrar sua própria Eris na academia real, mas, de qualquer forma, coisas como o Incidente de Deslocamento não aconteciam todo dia.

Um tempo faria maravilhas para que ambos esfriassem a cabeça, embora eu não soubesse se isso seria realmente uma coisa boa. Queria acreditar que aquilo era apenas uma explosão única de paixão. Aquele era o melhor cenário.

— Tenho que dizer, não foi muito a sua cara simplesmente dizer não sem dar uma explicação ou conversar sobre as coisas — continuou Sylphie.

— É — disse eu após uma pausa.

— Se você tem uma razão adequada, por favor, diga a eles antes de separá-los. É muito doloroso ser afastado de alguém que você ama sem nunca saber o porquê.

O tom de Sylphie foi apenas um pouco crítico. Ela poderia ter tido a intenção de permitir o relacionamento deles desde o início. Ao contrário de mim, ela parecia pronta para isso. Não mostrava sinais de relutância.

— Tudo bem — disse eu.

Talvez eu tivesse sido enérgico demais sobre isso. No fim, separar Sylphie e eu acabou funcionando para nós dois, mas isso não significava que fosse certo forçar a mesma situação em Aisha e Arus. Eles eram pessoas próprias.

Independentemente de quão dispostos parecessem a me obedecer, isso não significava que eu pudesse fazer o que quisesse com eles. Qual era a resposta certa? O que eu deveria fazer?

Nossa conversa chegou ao fim enquanto eu pensava nisso. Voltamos para o nosso quarto e fomos dormir.

 

https://tsundoku.com.br

 

No dia seguinte, Aisha e Arus haviam desaparecido, deixando apenas um único bilhete para trás:

Vamos ficar juntos.

Eles tinham fugido.

 


 

Tradução: Gabriella

Revisão: Pride

 

💖 Agradecimentos 💖

Agradecemos a todos que leram diretamente aqui no site da Tsun e em especial nossos apoiadores:

 

  • decio
  • Ulquiorra
  • Merovíngio
  • S_Eaker
  • Foxxdie
  • AbemiltonFH
  • breno_8
  • Chaveco
  • comodoro snow
  • Dix
  • Dryon
  • GGGG
  • Guivi
  • InuYasha
  • Jaime
  • Karaboz Nolm
  • Leo Correia
  • Lighizin
  • MackTron
  • MaltataxD
  • Marcelo Melo
  • Mickail
  • Ogami Rei
  • Osted
  • pablosilva7952
  • sopa
  • Tio Sonado
  • Wheyy
  • WilliamRocha
  • juanblnk
  • kasuma4915
  • mattjorgeto
  • MegaHex
  • Nathan
  • Ruiz
  • Tiago Tropico

 

📃 Outras Informações 📃

Apoie a scan para que ela continue lançando conteúdo, comente, divulgue, acesse e leia as obras diretamente em nosso site.

Acessem nosso Discord, receberemos vocês de braços abertos.

Que tal conhecer um pouco mais da staff da Tsun? Clique aqui e tenha acesso às informações da equipe!

 

 

Rlc

View Comments

  • Caramba eu tremi, realmente é algo que daria vontade de vomitar se acontecesse com minha família. Mas o que mais me pegou é que o Arus não fez quase nada, concordo com o Rudeus em separá-lo da Aisha, ele não é confiável para proteger sua irmã ainda.

Recent Posts

O Caçador Imortal de Classe SSS – Vol. 13 – Cap. 302 – A Aranha Cinzenta (1)

  A Aranha Cinzenta não sentia como se alguma vez tivesse sentido uma brisa fresca…

17 horas ago

O Caçador Imortal de Classe SSS – Vol. 13 – Cap. 301 – A Grande Campanha (3)

  — Não sabemos quem você é. Fique feliz por isso! Caso contrário, já teríamos…

17 horas ago

Lorde dos Mistérios – Cap. 309 – Escolhendo um de Duas Opções

  O sentimento ilusório passou, e Klein viu que a vela bizarra estava em sua…

18 horas ago

Império Tearmoon – Vol. 03 – Cap. 32 – A Melancolia de uma Santa (Falsa)

  No meio do período eleitoral, Mia estava sentada com sua equipe na sala de…

19 horas ago

Império Tearmoon – Vol. 03 – Cap. 31 – A Melancolia de uma Santa (Real)

  — Oh, céus… parece que falei um pouco demais. Rafina fez uma careta para…

19 horas ago

A Eminência nas Sombras – Vol. 06 – Cap. 04.3 – História Paralela – O Voto da Planície!

Delta está de ótimo humor. Ela pôde caçar muitos bandidos com Shadow hoje. A força…

21 horas ago