Mushoku Tensei: Reencarnação Redundante

Mushoku Tensei: Reencarnação Redundante – Vol. 02 – Cap. 10 – Talhand do Cume da Montanha Áspera e Grande

 

TALHAND DO CUME DA MONTANHA ÁSPERA E GRANDE era o trigésimo sétimo de cinquenta e um irmãos. Ele nascera em uma família anã comum e cresceu cercado por seus muitos irmãos e irmãs.

Obviamente, nem todos os cinquenta e um tinham a mesma mãe. Um fato pouco conhecido sobre os anões era que suas aldeias criavam todas as crianças da mesma geração juntas. Era semelhante a uma escola, exceto que eles se consideravam irmãos pelo resto de suas vidas. As aldeias faziam isso para que nenhuma das crianças soubesse qual família era rica ou pobre, o que tornava mais fácil para todos se darem bem quando, no futuro, assumissem posições de responsabilidade na aldeia. Alguém seria chefe, alguns apoiariam o chefe e outros seriam esposas. Este era apenas o caso para aqueles privilegiados o suficiente para viver em uma aldeia. Anões que deixavam as aldeias não tinham tais costumes.

De qualquer forma, Talhand cresceu como uma criança comum com dezenas de irmãos e irmãs. Interessava-se por terra e ferro, gostava do sabor do álcool e admirava os ferreiros e construtores. A única coisa um pouco incomum nele era que preferia homens a mulheres. Um de seus irmãos, no entanto, era muito menos comum.

O estranho era seu irmão mais novo, o trigésimo oitavo de seus cinquenta e um irmãos: Godbard do Pico Celestial Orgulhoso. Godbard tinha talento.

Todas as crianças anãs começavam a aprender ferraria, artesanato e magia da terra básica quando mal saíam do berço, mas Godbard superava todos e cada um. Dê-lhe um martelo, ele forjaria aço tão duro quanto o de qualquer adulto. Coloque-o para criar, ele produziria ornamentos tão maravilhosos que desafiavam a crença. Mostre-lhe um edifício, ele consertaria tudo de errado nele em um piscar de olhos.

Anões viviam mais que os humanos. Na época em que os talentos de Godbard começaram a se manifestar, ainda havia idosos vivos que se lembravam da Guerra de Laplace. Em Godbard, eles viam a própria imagem do Deus do Minério que morrera naquela batalha. Por causa disso, Godbard era considerado o Deus-do-Minério-em-espera e recebia tratamento especial. Foi incutido nas outras crianças que deveriam se curvar a ele como seu futuro líder.

Depois disso, Talhand mudou. Seu interesse em ferraria e artesanato evaporou. Ele percebeu que não importava quanto esforço meticuloso ele colocasse em seu trabalho, sempre ficaria aquém do que Godbard poderia fazer sem pensar. Não que alguém os estivesse comparando, claro. Para fazer comparações, os adultos teriam que olhar para as criações de qualquer outra pessoa além das de Godbard. Então, ele foi levado a ser o melhor, ou odiava viver à sombra de Godbard? Não, não era nenhum dos dois.

Na verdade, Talhand e Godbard se davam bem. Quando todos se tornaram irmãos e irmãs, Godbard foi seu primeiro amigo – e seu primeiro amor.

Talhand estava feliz que Godbard se tornaria o Deus do Minério, e tudo o que ele queria era ser útil para ele. Ele imaginava que poderia compensar o que faltava a Godbard, agindo como seu braço direito.

Com isso em mente, Talhand se dedicou à magia. Ele se concentrou em particular em dominar a magia da água e do vento, que os anões não viam necessidade. Diz-se que o primeiro Deus do Minério foi um mago da terra de nível Santo que criou uma espada maravilhosa a partir de minério que ele produziu com sua própria magia. No entanto, também se dizia que um elfo habilidoso em magia do vento e da água fora essencial para aquela grande lâmina. Um ferreiro precisava de mais do que apenas terra e fogo. Tinha que haver ar para atiçar as chamas e água para temperar o aço, mas os adultos não estavam interessados em entender esses outros elementos. Eles inventavam todas as desculpas possíveis para tentar dissuadir Talhand de seguir a magia da água e do vento: não era tradição; era contra a propriedade; nenhum de seus ancestrais o fez; anões não eram bons nisso.

Talhand era mais naturalmente talentoso em magia da terra do que em magia da água ou do vento, mas quando Godbard lhe disse: “Acho uma ótima ideia. Os adultos da aldeia são muito presos a seus costumes”, Talhand tomou coragem e se dedicou ainda mais à sua magia.

Como resultado, ele se viu se afastando dos outros homens anões, e alguns de seus irmãos começaram a criticá-lo. Diziam que ele era mole, que não forjar era efeminado, impróprio para um homem anão. Tudo o que um anão precisava de magia era para quebrar rochas duras, diziam eles; para forjar, a natureza fornecia tudo o que precisavam. Talhand, embora achasse essas ofensas cansativas, continuou a aprimorar gradualmente suas habilidades. Tudo isso, ele fez por Godbard. Assim que Godbard crescesse e se tornasse o Deus do Minério, ele precisaria dos poderes de Talhand. Ele tinha certeza disso.

Depois que atingiu a maioridade, a orientação crítica deu lugar a uma incredulidade resignada. Seus irmãos o tratavam como um pária, e ele desenvolveu uma reputação de ser o mais estranho dos estranhos na aldeia. Mesmo assim, sua certeza nunca vacilou.

O dia finalmente chegou – o dia em que Godbard seria ordenado como o Deus do Minério. A tradição ditava que aquele que assumiria o título de Deus do Minério forjasse cinco espadas. Para cada uma, ele selecionaria alguém dentre aqueles em quem mais confiava para ajudá-lo. Ao fazer isso, ele mesmo escolhia os líderes centrais que apoiariam a aldeia anã depois que ele se tornasse Deus do Minério.

Naturalmente, Talhand se candidatou. Era para isso que ele vinha aprimorando suas habilidades. Para seu choque, Godbard não o escolheu. Primeiro, ele escolheu os três que eram considerados os mais talentosos da aldeia na época, e depois escolheu sua amante. Esses não eram tão ruins. Foi a última pessoa que Godbard escolheu que aborreceu Talhand: o velho que o chamara de tolo.

Talhand protestou. Era ultrajante, disse ele. Ele dedicara sua vida a Godbard!

Godbard lhe perguntou: 

— Você consegue sequer forjar uma espada decente?

Claro. Talhand disse: 

— Uma espada não é nada. Eu consigo. Apenas me dê uma chance.

Godbard não pareceu feliz com isso, mas concordou em atender ao apelo de Talhand. O velho de mente estreita e Talhand forjariam cada um uma espada. Quem fizesse a melhor venceria. Para garantir a imparcialidade, Godbard abriu o concurso para qualquer um que achasse que poderia vencer.

Para o alarme de Talhand, muitas pessoas vieram competir. Por mais que ele tivesse treinado em magia da água e do vento para este momento, ele não pegava em ferramentas de ferreiro desde criança. Podia contar nos dedos de uma mão o número de espadas decentes que forjara. Sua desvantagem era muito grande.

— Espere. — Ele implorou. — Quero te ajudar a forjar uma espada.

Para seu choque, Godbard o recusou. 

— Como um homem que nem consegue forjar uma espada decente sozinho pode entender o que eu quero? Se você não consegue entender isso, não pode me ajudar.

Isso não fazia sentido para Talhand. Ele achava que conhecia Godbard melhor do que ninguém. Como isso pôde acontecer?

Sua mente ainda estava confusa quando ele entrou no concurso. Ele não tinha plano – e perdeu. Talhand se afastou do concurso devastado, sentindo os olhares frios dos outros como um peso sobre seus ombros. Alguns dias depois, após assistir à cerimônia para nomear o Deus do Minério de longe, ele deixou a aldeia.

Com o tempo, ele se tornou um aventureiro, nunca permanecendo em um lugar. Achou difícil confiar em alguém após a traição de Godbard, então passou seu tempo sozinho. Ser um pária por tanto tempo tornou difícil se relacionar com alguém, e ele também se sentia inferior aos outros por causa de sua preferência por homens.

Embora fosse um dos piores ferreiros anões, seus muitos anos aprimorando suas habilidades o tornaram um mago razoável, mesmo não sendo um grande talento. Para se adequar às suas habilidades, ele teve que lutar usando uma armadura pesada em algum lugar entre o estilo de um guerreiro e um mago. Ainda assim, a vida de um aventureiro solo não era tão árdua.

Foi por volta de quando ele subiu para o rank B que Talhand conheceu Elinalise Dragonroad. A princípio, o interesse dela por ele fora físico. Ela pensou em levar um jovem anão para sua cama para variar, mas ele não estava interessado nela. Não importava o quanto ela tentasse tentá-lo, ele não mordeu a isca. Mas ela era persistente demais para simplesmente desistir, então ele finalmente lhe disse que não estava interessado em mulheres.

Elinalise o olhou boquiaberta e depois gargalhou. Isso o irritou, mas ele aguentou, pensando que agora se livraria dessa elfa amorosa.

Só que, Elinalise não foi embora. Por que, ele não sabia, mas suspeitava que ela pensava que pelo menos não precisaria se preocupar com ele se mantendo para si.

Depois disso, Talhand e Elinalise se uniram algumas vezes. Elinalise, uma lutadora habilidosa, era uma boa parceira para um mago de armadura pesada como Talhand. Era estranho, mas, apesar de achá-la irritante, ele não se importava de estar em um grupo com ela. Talvez fosse porque Elinalise vivia sem se prender a normas, tradições, convenções ou regras.

Dito isso, eles nunca discutiram tornar seu grupo permanente até que o aparecimento de um jovem abalou um pouco as coisas: Paul Greyrat. Na época, Elinalise, Talhand, Geese e Ghislaine eram todos solo, mas Paul os reuniu para formar um grupo, que eles chamaram de Presas do Lobo Negro. Houve uma pequena briga por causa desse nome, mas isso é uma história para outra hora.

Todos os membros das Presas do Lobo Negro haviam sido expulsos de suas vidas anteriores. Embora Talhand fosse o único homem que gostava de homens, eles eram livres para perseguir seus desejos. Paul em particular era desinibido e de pensamento livre. Quando descobriu que Talhand gostava de homens, ele simplesmente riu.

— Então eu fico com as mulheres, Elinalise com os homens, e você com o resto – ninguém é desperdiçado! — disse Paul.

Ele era um malandro, fácil de ler e constantemente aprontando travessuras que faziam Talhand querer colocar a cabeça nas mãos, mas seu comportamento nunca era restrito por nada, e ele gostava de sonhar com o não convencional. Mesmo quando a sociedade dizia que o que ele fazia era errado, Paul apenas seguia seus instintos, cuspindo no chão e dizendo: “Não dou a mínima.”

Paul suportava as coisas com um sorriso que parecia revelador para Talhand. Embora seu comportamento tornasse as Presas do Lobo Negro notórias, Talhand achava divertido. No verdadeiro estilo anão, ele gargalhava de tudo o que Paul fazia. Seus sentimentos pelo outro homem se assemelhavam a se apaixonar, mas não eram exatamente os mesmos. Tinha que ser confiança. Esses membros de seu grupo foram os primeiros amigos em quem ele já confiou.

Sua confiança, no entanto, foi eventualmente quebrada. Ela se estilhaçou quando Zenith se juntou ao grupo. O anteriormente desinibido Paul começou a se ater ao socialmente aceitável em uma tentativa de conquistá-la. Sem dúvida, essas mudanças ajudaram Paul a crescer como pessoa. Mas nada foi o mesmo depois disso. A contenda que ele causou ao se casar com Zenith deixou cicatrizes profundas nos corações de todos os envolvidos.

Para um estranho, poderia parecer trivial, mas fez Talhand decidir nunca mais se juntar a um grupo. Por um tempo depois disso, ele viajou sozinho. Então veio o incidente que dizimou Fittoa. Ele se reuniu com Elinalise, conheceu Roxy e eles formaram um grupo juntos. Sua determinação de não estar em um grupo desapareceu… mas seus sentimentos em relação a Paul estavam tão frescos como sempre.

Foi só quando viajaram para o Continente Demoníaco que ele viu Paul novamente. Quando ele pôs os olhos em Paul depois de todo aquele tempo, não havia sinal do jovem malandro que Talhand conhecera. Paul se tornara um homem, um pai, e agora estava dedicando tudo o que tinha para procurar sua família.

Ele mudou, pensou Talhand. Ele cresceu.

Ele conheceu o filho de Paul, Rudeus, pela primeira vez no Continente de Begaritt. Com Paul como pai, ele esperava que o menino fosse um pouco inútil, mas ele se revelou inesperadamente maduro. Por outro lado, talvez isso não fosse tão surpreendente – seu pai era o Paul que crescera.

Quando Talhand olhou para Paul e Rudeus, sentiu seu peito apertar, mas nunca conseguiu entender por quê.

Então, Paul morreu. Foi um fim nada espetacular. Talhand ficou chocado, mas reconheceu que, para Rudeus, o choque foi ainda maior, então evitou demonstrar. Ele continuou como se nada tivesse acontecido, bebendo como sempre. No rescaldo, ele deixou o Continente de Begaritt.

Mais tarde, ele conheceu a família de Rudeus. Viu que o menino estava vivendo bem, em uma casa que construíra, com uma bela família que criara. Talhand visitou o túmulo de Paul e bebeu ali, e depois partiu da Cidade Mágica de Sharia mais uma vez.

Enquanto viajava, algo dentro dele finalmente desistiu. Era algo que o acompanhava desde que partira como aventureiro. Em meio ao vazio que lhe restou, Talhand teve uma ideia.

Ele ia aprender a ser um ferreiro.

Ele não saberia dizer de onde veio a ideia, mas imediatamente se dirigiu para o Reino de Asura. Uma vez lá, alugou a forja de um ferreiro para treinar enquanto continuava a trabalhar como aventureiro. Ele nem mesmo fez uma pausa quando partiu para Millis para ganhar algum dinheiro depois de perder quase tudo o que tinha quando Geese foi preso por jogo.

Ele usou toda a magia à sua disposição em sua ferraria – fogo, terra, água, vento. Ele complementou tudo o que fazia com ela. Forjou espadas, manoplas, escudos, mais espadas, armaduras, elmos e ainda mais espadas. Começou a entender o que Godbard lhe dissera naquela época. Ele compreendeu detalhes mais finos que não podiam ser expressos em palavras, como respirar, o tempo e o ritmo, e a quantidade certa de força a ser usada.

Talhand melhorou rapidamente. A maneira como Godbard forjara estava gravada em sua mente e, graças à sua vida como aventureiro, ele sabia o que tornava algumas armas e equipamentos superiores. Sua maestria em magia também estava um nível acima do que fora na aldeia. O tempo de Talhand como aventureiro o tornara mais forte.

Enquanto continuava a aprimorar suas habilidades, o Bando Mercenário Ruato começou a procurar por suas mercadorias. Graças ao seu conhecimento com Rudeus, o chefe da filial de mercenários tornou-se seu patrono, permitindo que Talhand montasse sua própria forja em Millishion.

Mas, assim como antes, Talhand não sabia por que estava fazendo tudo isso. Qual era o sentido de um aventureiro brincar de ferreiro em seu tempo livre? Foi só quando Rudeus trouxe toda a sua família de Sharia para visitar que fez sentido.

Quando ele viu o filho de Paul (de todas as pessoas) em pé de igualdade com os Latria, enquanto criava seus próprios filhos, tudo ficou claro.

Ele tinha que voltar para a aldeia. Ele tinha negócios inacabados. Era por isso que ele estava forjando.

Depois que Rudeus lhe deu os pedaços de pedra preta, Talhand voltou para sua forja. Por muito tempo, ele teve uma ideia do que faria se conseguisse criar uma pedra como esta. Ele pensou na teoria. Uma vez, não passou de um sonho, mas agora, ele tinha toda a experiência de que precisava.

Primeiro, ele quebrou a pedra preta de Rudeus com magia da terra e um martelo. Ele misturou isso com areia de ferro e aqueceu a combinação na forja. Como o calor normal da fornalha não seria suficiente, ele aplicou magia de fogo e vento para elevar a temperatura o máximo possível. Usando o pó superaquecido, ele fez tanto o núcleo da lâmina quanto o metal que formaria sua pele externa. As proporções diferiam, mas eram essencialmente os mesmos materiais. Com as escamas de um dragão vermelho ou os ossos duros de uma hidra, ele poderia ter forjado uma lâmina ainda mais formidável, mas Talhand não os usou – se o tivesse feito, todo esse esforço teria sido sem sentido. Em seguida, ele temperou e aqueceu completamente a lâmina, e depois trabalhou vigorosamente durante a noite, derramando nela um fluxo constante de energia e mana.

No final, ele ficou com uma única espada, sua lâmina forte e preta. Embora não tivesse adornos ou propriedades especiais, Talhand ficou satisfeito com seu trabalho. Ele fez uma bainha para ela, depois a envolveu em um pano de lã fina e a amarrou nas costas. Feito isso, ele embalou os blocos restantes de pedra preta em um saco e deixou Millishion. Seu destino era a aldeia anã de onde viera.

Ele esteve fora por muito tempo, mas a aldeia não mudou nada. Seus edifícios de pedra estavam cravados na encosta de um penhasco, e o som de martelos no aço ecoava de dentro das altas muralhas de pedra que a cercavam. Ninguém desafiou Talhand no portão, e ele passou. Ele não era mais um deles, mas os anões não mantinham uma segurança tão rígida a ponto de questionar um anão desconhecido.

Talhand viu um grande buraco no penhasco onde polias trabalhavam em movimento constante. Homens, nus da cintura para cima e pingando de suor, retiravam carvão e minério de ferro, enquanto mulheres caminhavam para a área de descanso em frente à mina com montanhas de batatas-doces cozidas no vapor equilibradas nos ombros. A cena o encheu de nostalgia. O tempo não os mudara, embora tivesse transformado a maioria deles em estranhos. Ele recebeu alguns olhares curiosos enquanto andava, mas nenhum olhar gelado. Ou nenhum deles o conhecia, ou todos o haviam esquecido. De qualquer forma, Talhand não se abalou.

Ele tinha apenas um destino, e se apressou para lá: a casa do chefe.

Mas, claro, havia alguns que se lembravam dele.

— Cume da Montanha Áspera e Grande? Não te vejo há um tempo. O que está fazendo aqui?

Um de seus irmãos parou diante dele, bloqueando seu caminho. Este homem era um daqueles que riram de Talhand quando eram crianças, e que fora escolhido para o círculo íntimo do Deus do Minério.

— Vim ver o Deus do Minério.

— Não se ache. Ele nunca se rebaixará a ver gente como você.

Sem uma palavra, Talhand alcançou o embrulho em suas costas. Ele desembrulhou o fino pano de lã e puxou a espada de sua bainha. O homem ofegou. A lâmina era preta como azeviche, tão preta que parecia absorver cada vislumbre de luz. Apesar disso, não parecia nem um pouco vil ou sinistra. Se alguma coisa, exalava o orgulho e frescor de uma brisa fresca. A beleza dela lhe deu arrepios.

— O que é isso? — perguntou o homem.

— Eu a forjei.

— Nem pensar!

Para um ferreiro anão, as espadas eram tudo. Grandes anões forjavam grandes espadas. Este nunca poderia ser o trabalho de Talhand.

— É uma oferenda — disse Talhand.

O título de “Deus do Minério” era considerado outro nome para o maior ferreiro do mundo, e uma fonte de orgulho para o povo anão. Quando qualquer ferreiro no mundo forjava algo que considerava excepcional, cabia ao Deus do Minério vê-lo – embora qualquer submissão primeiro passasse pelos olhos experientes de outro anão que recusava qualquer coisa abaixo do padrão. O homem que estava na frente de Talhand agora era aquele anão. Ele não tinha amor por Talhand, mas as espadas diziam a verdade. A lâmina preta não tinha adornos, nem utilizava atalhos. Provavelmente era imensamente dura, e não uma lâmina que pudesse ser facilmente quebrada. Era, em suma, uma obra-prima. Nenhum anão poderia mentir diante de tal espada.

— Eu permitirei. Você pode passar, Talhand do Cume da Montanha Áspera e Grande.

— Agradeço, Doutor do Aço da Lâmina Flamejante — respondeu Talhand, encontrando o nome de seu antigo irmão em sua memória. Com uma reverência, ele devolveu a espada à sua bainha, a envolveu no pano de lã e a colocou mais uma vez em suas costas. Ele foi parado várias outras vezes assim antes de chegar ao Deus do Minério, mas a espada sempre lhe garantia a passagem.

O Deus do Minério – Godbard do Pico Celestial Orgulhoso – parecia um pouco mais velho do que Talhand se lembrava. Isso não era surpresa. Muitas luas haviam se passado desde que Talhand deixara a aldeia.

— Você envelheceu, Talhand — disse Godbard.

— Eu poderia dizer o mesmo de você — respondeu Talhand.

— Pensei que você tivesse morrido em uma vala há muito tempo.

— Não foi por falta de tentativa.

Eles trocaram apenas breves saudações. Ao lado de Godbard sentavam-se sua esposa e seu círculo íntimo. Eles não esconderam seu alarme ao ver o maior excêntrico da aldeia de volta depois de todo esse tempo, mas não havia estalo de tensão entre Talhand e Godbard. Enquanto Talhand encarava Godbard, seu coração estava em paz.

Nenhum deles falou. Talhand podia estar calmo, mas não tinha intenção de falar com Godbard. Havia muito que ele poderia ter dito – as coisas que vira, as experiências que tivera fora da aldeia, mas não havia necessidade de palavras. Em vez disso, ele silenciosamente ofereceu a espada a Godbard, que a pegou e, tão silenciosamente, a tirou da bainha para olhar a lâmina.

— Oh, minha nossa. — Assim que Godbard pôs os olhos nela, soltou um suspiro de admiração. Ele ergueu a lâmina preta à luz para avaliá-la. — Uma bela lâmina, cheia de convicção… Não há nada de incerto ou hesitante em sua fabricação, mas sua inexperiência transparece em cada parte. Uma lâmina que eu forjasse com os mesmos materiais e métodos seria muito superior.

Com isso, Talhand sorriu levemente. Naturalmente. Não importava quanto trabalho ele tivesse colocado na forja e na ferraria nos últimos anos, a ideia de que ele poderia igualar o Deus do Minério, que vinha aprimorando sua arte por mais de um século, era risível. Talhand sabia disso muito bem. Ele riu.

— Algo engraçado? — perguntou Godbard.

A questão é que, para Talhand, esse não era o ponto. 

— Gostaria de saber quais são esses materiais e métodos?

— Estou curioso. É uma espada estranha.

Era normal um ferreiro contar ao Deus do Minério os materiais e métodos pelos quais forjara suas oferendas. A razão pela qual ofereciam as espadas a ele era para que suas técnicas fossem passadas para as gerações futuras. Havia muitos que desejavam deixar um registro de que metais haviam usado, seu processo e seus ajustes e melhorias para a posteridade.

— Eu a fiz de hastes de pedra criadas com magia da terra — disse Talhand. — Com magia, eu as transformei em um pó, que misturei com areia de ferro. Com magia de fogo e vento, aticei minha forja a uma temperatura alta o suficiente para derreter o pó. Depois disso, eu a martelei e a temperei da maneira usual. Eu a resfriei com magia da água.

— Pedra feita com magia da terra, hmm? — Essas palavras chamaram a atenção de Godbard, e ele de repente se lembrou do porquê: o processo era um que ele já ouvira antes. O anão maluco na sua frente lhe contou sobre isso muitas vezes quando era jovem. — Esta é sua vingança, então?

— Não — respondeu Talhand. — Eu só queria acertar as contas entre nós.

— Você achou que, quando eu visse esta espada, eu lhe diria para voltar?

— Não. Mas você disse o que eu queria ouvir, e isso é suficiente para mim.

Godbard dissera que poderia forjar uma espada muito superior, e só isso já satisfez Talhand. Era como se os sentimentos que apodreceram em seu coração desde criança tivessem sido extirpados. Ah, sim, se ele usasse os mesmos materiais e método, Godbard sem dúvida produziria uma lâmina muito mais fina. Mas sem magia, ele não conseguiria esmagar a pedra, e o ferro aquecido não poderia ser totalmente resfriado apenas com água. De fato, sem um mago com a habilidade necessária, ele estaria perdido. Dito isso, um ferreiro genial como Godbard provavelmente encontraria uma maneira inteligente de trabalhar a pedra sem usar os métodos de Talhand.

— E esta “pedra” — continuou Godbard —, você consegue fazê-la, Talhand?

— Não — admitiu Talhand. — Foi feita pelo filho do meu amigo.

Ele tirou três pedaços de pedra de sua bolsa e os colocou na frente de Godbard. Quando ele estendeu a mão para pegar um, seus olhos se arregalaram com o peso. Ele tentou quebrá-lo para ver a seção transversal, mas não conseguiu, e não teve mais sucesso tentando esmagá-lo com um martelo. A dureza e a resistência do material o surpreenderam. Talhand pôde ver um desejo borbulhar dentro dele de usá-lo. Um sorriso se formou nos lábios de Godbard.

Talhand viu e assentiu, satisfeito. As expressões de Godbard não mudaram desde que eram crianças. Ele não teve problemas em ler seu rosto.

— Em alguns dias, ele virá e se apresentará a você. — Godbard ficou em silêncio. Com o rosto de Rudeus em sua mente, Talhand perguntou suavemente: — Você se encontraria com ele?

Ele já alcançou o que se propusera a fazer. Ouviu as palavras que esperava da pessoa que queria que as dissesse. Agora, ele só precisava retribuir ao homem que tornou isso possível.

— Admito que ele não parece muito confiável, e pode ter certeza de que ele terá algum pedido bestial que não vale o trabalho… mas mesmo assim, ele tem coragem — continuou Talhand. — Você não se arrependerá de se encontrar com ele. Juro por essa espada.

Godbard olhou da espada para as pedras e de volta. Sua esposa e conselheiros ao seu lado estavam contendo suas próprias opiniões, mas Godbard não planejava perguntar a eles. Talhand mal era reconhecível como o homem que fora. Godbard suspeitava que este mago que criou a pedra estivesse envolvido. Sua curiosidade foi aguçada.

— Muito bem — disse ele. — Qual é o nome dele?

— Rudeus Greyrat.

— Entendo. — Gravando o nome na memória, Godbard assentiu.

Com isso, Talhand se levantou. Era apenas um acordo verbal, mas isso o satisfez. Godbard não era de quebrar uma promessa. Talhand uma vez sentira como se ele tivesse, mas não houve promessa entre eles para quebrar. Talhand fora inexperiente e exagerado. Foi só isso.

— Você está de partida? — perguntou Godbard.

— Sim.

— Ninguém se oporá à sua presença aqui.

— Tenho minha própria forja em Millishion. Pretendo ficar lá pelo resto dos meus dias — disse Talhand.

Com isso, ele deixou a casa do Deus do Minério. Em algum momento, seus antigos irmãos se reuniram do lado de fora. Seus olhares eram duros, e alguns não se deram ao trabalho de esconder seu desprezo.

— Com sua licença — disse Talhand. Quando começou a andar, eles se afastaram para abrir caminho. Olhares de confusão e desprezo o seguiram em sua saída da aldeia. Ninguém falou com ele. Ninguém o seguiu.

No entanto, Talhand caminhava com um passo saltitante, seu coração tão claro quanto um céu sem nuvens. Finalmente, sua maldição foi quebrada.

Um mês depois, o Deus do Minério concordaria com uma aliança com o Deus Dragão em troca de um grande suprimento da pedra escura.

 


 

Tradução: Gabriella

Revisão: Pride

 

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Rlc

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  • uma história interessante já que não tinha muita informação do Talhand antes.

  • agora já sabemos o passado de todos do grupo, só que sei pouco sobre Elinalise, talvez ainda tenha a última história desse grupo pra poder dizer sobre a briga do nome deles e a história dela

    • Será que um dia vão contar oq o Paul fez que deixou a elinalise pistola com ele??

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