As palavras dela surpreenderam Número 76 um pouco.
Parecia que ela estava sendo investigada por mais de uma pessoa.
Contudo, 400 anos de treinamento lhe haviam ensinado a como esconder as emoções, sem falar que o corpo dela podia ser separado de sua própria consciência quando ela bem entendesse. Um súbito questionamento não era o suficiente para fazê-la entrar em pânico.
Número 76 fingiu surpresa e, em seguida, relutantemente tirou o anel de seu decote. Ela hesitou por um longo tempo antes de dizer:
— Esse anel foi… roubado dos Mercadores Negros.
Ao mesmo tempo, ela passou a admirar um pouco mais a União das Bruxas. Originalmente, ela havia achado que haviam sido muito casuais ao receber as recém-chegadas, mas parecia que esse não era o caso. Elas haviam mandado uma bruxa para detectar mentiras e outra com a habilidade de Clarividência. Elas foram cuidadosas ao extremo.
— Mercadores Negros? — A bruxa de cabelo verde pegou o anel e o inspecionou por um tempo. — Isso… parece ser uma Pedra Mágica, mas é um pouco diferente.
Número 76 franziu as sobrancelhas por dentro.
Elas sabem da existência das Pedras Mágicas? Isso complica as coisas. Embora o anel seja ativado de uma forma diferente da das Pedras Mágicas, elas cedo ou tarde vão descobrir como fazer isso. Eu tenho que distraí-las. Afinal, não tenho um segundo Anel Mágico.
— Mercadores Negros é o nome do lugar subterrâneo onde eu trabalhei desde muito jovem… Eles frequentemente fazem leilões de coisas achadas em ruínas antigas. Meu antigo chefe dizia sempre que essas coisas possuíam um poder inacreditável, e quanto mais exóticos fossem, mais valiosos seriam. Além disso, eles ocasionalmente leiloavam… Bem… Eles leiloavam…
— O quê? — Wendy perguntou.
— Leiloavam bruxas. — Número 76 falou bem baixo.
Ouvindo essas palavras, as quatro bruxas ficaram indisfarçavelmente furiosas, e se esqueceram um pouco mais do anel. Obviamente, vender bruxas como escravas era algo abominável para elas, o que indiretamente ilustrava que a União das Bruxas do Reino de Castelo Cinza nunca concordaria com a ideia apresentada pela Cidade da Estrela Cadente, há 400 anos.
— Número 76 está falando a verdade. Eu quase fui vendida para os nobres no leilão. — Amy concordou. — Felizmente, o Embaixador me salvou.
— Logo logo eles vão pagar por isso. — A bruxa de cabelo loiro disse friamente.
— O anel… — Número 76 fingiu timidez.
— Com certeza a Senhorita Agatha ficaria muito interessada neste anel, mas vamos esperar até que você confie mais na Cidade de Primavera Eterna. — A bruxa de cabelo verde disse, dando de ombros. Em seguida, ela devolveu o anel.
Número 76 ficou surpresa por um instante.
Agatha? Esse nome me soa um pouco familiar. Parece que eu já ouvi ele em algum lugar.
— Prometo que vocês nunca mais vão passar por isso. — Wendy as confortou. — Ninguém se atreverá a atacá-las na Cidade de Primavera Eterna. Sua Majestade, o Rei Roland, acredita que uma nova era, onde as bruxas e as pessoas comuns viverão em harmonia, está prestes a chegar. Quando isso acontecer, não apenas na Região Oeste, mas como em todo o Reino de Castelo Cinza, nenhuma bruxa jamais será chamada novamente de serva do Diabo.
— Isso é realmente possível? — Espadim perguntou, cética.
— Claro que sim, foi por isso que construímos a União das Bruxas. — Wendy riu. — Enfim, deixe-me levá-las para o local onde vocês irão descansar.
Número 76 foi colocada numa maca e carregada pelos marujos para fora da cabine. Ao sair do navio, ela finalmente viu como era a doca. A neve pesada que caía do céu não impedia as pessoas de trabalharem. Dezenas delas varriam a neve do chão enquanto várias outras carregavam e descarregavam os navios. Assim como Amy havia dito, esses navios estranhos, mesmo sem mastros e velas, ainda conseguiam navegar pelo rio.
— Esses navios parecem bem limpinhos…
— Eles são feitos de pedra?
As bruxas falaram bem baixinho, conversando umas com as outras. Número 76 notou um sorriso orgulhoso no rosto gentil de Wendy.
Contudo, as surpresas não pararam por aí.
Após uma breve caminhada, elas logo entraram na Cidade de Primavera Eterna.
A nova Cidade Real de Castelo Cinza era diferente de qualquer cidade de pessoas comuns que ela já tinha visto antes. Era grande, sólida, e as ruas eram retas, como se fossem linhas negras verticais. Os flocos de neve não se acumulavam nas ruas, já que a neve parecia ser constantemente varrida para os cantos.
Havia árvores plantadas ordenadamente pelos passeios, o que embelezava ainda mais o cenário. Os troncos das árvores estavam decorados com fitas de todas as cores. As folhas e galhos das árvores se entrecruzavam na parte de cima e formavam uma espécie de tenda natural.
As casas de tijolos ficavam lado a lado, ordenadamente, e todas tinham o mesmo tamanho. Não havia nenhum bangalô ou casas de colmo entre elas; todas eram de tijolos.
Os Meses dos Demônios já haviam iniciado, e muitas pessoas ainda caminhavam despreocupadamente pelas ruas. Várias delas paravam para cumprimentar a bruxa de cabelo escuro. As expressões faciais dessas pessoas demonstravam sinceridade e entusiasmo, então obviamente elas não haviam sido forçadas a fazer isso.
Pela primeira vez, ela presenciava bruxas e pessoas comuns convivendo harmoniosamente umas com as outras. Embora ela já tivesse ouvido sobre o período de não-interferência entre as bruxas e as pessoas comuns durante a primeira Batalha da Vontade Divina, isso havia acontecido há mais de oitocentos anos. E nesta cidade, parecia que a humanidade havia dado um passo à frente, já que as pessoas comuns e as bruxas não viviam separadas, e sim juntas, respeitando umas às outras.
“Sua Majestade, o Rei Roland, acredita que uma nova era, onde as bruxas e as pessoas comuns viverão em harmonia, está prestes a chegar.”
Isso não era uma piada. Na Cidade de Primavera Eterna, eles estavam bem próximos de realizar isso.
Por meio de suas conversas com Yorko durante a viagem, ela havia conseguido saber um pouco mais sobre o Rei Roland do Reino de Castelo Cinza. No início, ele era apenas um lorde de Vila Fronteiriça, mas logo se transformou num rei extremamente poderoso. Ele derrotou a Igreja e dizimou o Exército da Punição Divina, o que provava o seu poder. Será que isso estava relacionado de alguma forma ao que ela estava vendo agora?
Se não fosse pelo seu disfarce de ferida, Número 76 com certeza se levantaria para dar uma olhada melhor na cidade.
De acordo com Pasha, uma hora elas teriam que negociar com as pessoas comuns. Para derrotar os demônios, tinham que ocultar temporariamente o passado da Aliança. Afinal, a guerra se aproximava e elas ainda tinham que resolver os problemas deixados pela Cidade da Estrela Cadente. Contanto que as bruxas continuassem a sobreviver, elas, um dia, conseguiriam reviver a glória de Taquila. Este era um ponto em que ambas, Lady Alice e Lady Natália, concordavam.
Após chegar no Edifício de Relações Exteriores, Número 76 e Salvadora foram levadas para a cama, e as outras três bruxas, sentadas ao redor da lareira, conversaram sobre o que viram e ouviram no caminho. Não havia dúvida alguma de que, nesse pouco tempo, a Cidade de Primavera Eterna havia marcado bastante elas.
Não muito tempo depois, Wendy voltou acompanhada de uma garotinha.
— Essa é Nana. Ela consegue curar ferimentos e lesões.
— E pernas que foram perdidas? — Amy tirou o cobertor de Salvadora e perguntou.
A garotinha estendeu as mãos para tentar e, logo em seguida, balançou a cabeça.
— Não consigo, a não ser que vocês ainda tenham as pernas dela. Eu consigo unir membros que foram decepados, mas não consigo fazer com que cresça um novo.
— Você quer dizer que temos que encontrar pernas novas pra ela?
— Bem, seria ótimo se as pernas fossem frescas, quero dizer, cortadas na hora. — Nana respondeu sinceramente. A voz infantil dela fez todas as bruxas estremecerem.
Tradução: Kabum
Revisão: Pride
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