Império Tearmoon

Império Tearmoon – Vol. 03 – Cap. 37.2 – Capítulo Extra: Uma Festa de Aniversário com Dez Dias de Atraso

 

Os dias de Mia na masmorra eram, via de regra, muito chatos. Naturalmente, não lhe era fornecido nenhum tipo de entretenimento, e não havia esperança de iniciar uma conversa interessante com seus guardas, que eram o tipo de pessoa que, em um bom dia, lhe dariam o tratamento do silêncio; a alternativa era o abuso verbal. Como resultado…

— Cinco mil seiscentos e um… Cinco mil seiscentos e dois…

…Ela recorrera à atividade psicologicamente questionável de contar o número de rachaduras nas pedras que compunham sua cela. Por que as rachaduras, especificamente? Bem, ela já havia terminado de contar o número de pedras e o número de manchas nas pedras, então… Era justo dizer que ela estava chegando aos limites de sua sanidade.

— Bom dia, Alteza.

De repente, ela ouviu algo que era uma raridade na masmorra — a voz encantadora de uma jovem.

Hã. Será que finalmente comecei a alucinar?, imaginou ela, olhando fixamente na direção da voz.

A figura familiar de sua cuidadora constante apareceu.

— Nossa! Anne! Que surpresa agradável!

Era um dia frio perto do final do ano. A população comum estava ocupada com os preparativos para o inverno, e não havia sinal de Anne há sete dias seguidos. Três dias atrás foi quando Mia teve seu grande choro, imaginando que Anne finalmente desistira dela. Ela estivera desanimada desde então, sobrecarregada pelo desespero de ser abandonada. Ter essa conclusão revertida a encheu de alegria, e ela sorriu de orelha a orelha enquanto recebia sua tão esperada parceira de conversa. Conforme Anne se aproximava, ela notou algo enrolado em seu pescoço.

— Nossa, você está usando algo interessante aí, não está?

— Hm? Ah, isto. Certo — disse Anne com uma risada tímida. — Na verdade, é meu aniversário hoje.

Ela desenrolou um pedaço do cachecol em seu pescoço e o ergueu para Mia ver. Os pontos eram grosseiros, resultando em padrões irregulares, e o fio usado era barato. Certamente não era um item de luxo, mas era claramente uma fonte de grande felicidade para ela.

— …Fico feliz que você tenha uma família tão boa — disse Mia em voz baixa.

Ela se lembrou de seu próprio pai, que já fora executado. Superprotetor e inclinado a mimá-la sem fim, ela não tinha certeza do quão eficaz ele fora como imperador, mas como pai, ele sempre fora gentil. O pensamento a deixou um pouco triste, então ela o descartou com um aceno de cabeça e mudou de assunto.

— Falando em aniversários, acabei de fazer o meu também.

— …Hã? — Anne piscou para ela, surpresa. — V-Vossa Alteza, é seu aniversário?

— Foi. Sete dias atrás. — Mia lançou a Anne um beicinho acusador. — Você mora na capital, não mora? Nunca foi a um dos meus festivais de aniversário?

O festival natalício da Princesa Mia era uma celebração maciça de cinco dias que ocorria todo inverno para comemorar seu nascimento. Na época em que o império ainda era próspero, barracas aparentemente intermináveis eram montadas por decreto imperial, e um grande número de pessoas, tanto locais quanto estrangeiras, viajava para participar das festividades.

— Sinto muito. Mas estou sempre ocupada no inverno, ajudando em casa, então… — disse ela em um tom ligeiramente defensivo. — Na verdade, lembro-me de ter ido a um festival depois que minhas irmãs me importunaram, mas não sabia para que era…

— Ah. Bem. Não importa. — A expressão de Mia se suavizou com resignação. — É coisa do passado agora.

Ela pensou naqueles dias passados, sua agitação e excitação agora reduzidas a uma nostalgia melancólica, e forçou um sorriso de lábios apertados. Um suspiro silencioso escapou dela.

— Na época em que eu realmente estava envolvida, achava que era a coisa mais problemática. Agora que se foi, tenho que admitir que sinto um pouco de falta.

Por um breve momento, Anne não disse nada, como se estivesse contemplando algo. No final, ela produziu apenas uma curta resposta de reconhecimento.

— …Entendo.

Depois disso, o assunto mudou para outras questões. Mia perguntou sobre como a família de Anne estava e como as coisas estavam lá fora. Eventualmente, a conversa chegou ao fim, e elas se despediram pelo dia.

A próxima vez que Anne a visitou foi três dias depois. Ela entrou na masmorra rapidamente, lançando olhares inquietos para os guardas enquanto passava por eles.

— Anne? Algo errado?

— Shh. Apenas aja normalmente, Alteza — sussurrou Anne, certificando-se de que estava posicionada de costas para o guarda. — Vou arrumar seu cabelo para você hoje. Poderia, por favor, se virar?

Ela apressadamente pressionou os ombros de Mia, girando-a para que ficassem na mesma direção.

— Ei, espere— O que está acontecendo? Você não precisa empurrar… Hã?

Anne passou os dedos pelos cabelos de Mia algumas vezes, fingindo endireitá-los, antes de estender a mão para pressionar algo em sua mão.

— Isto é… um biscoito?

— Sim. Aconteceu de eu encontrar um.

— Nossa!

Mia soltou um gritinho silencioso de alegria. A grande fome que varreu o continente mergulhou a situação alimentar do império em um estado desastroso. Doces se tornaram extraordinariamente escassos, e mesmo Mia, ainda uma princesa na época, raramente conseguia obter algum. Obviamente, depois de ser jogada em uma masmorra, o pensamento de provar algo doce se tornou nada mais que um sonho impossível.

— Rápido. Se eles virem, vão pegar e comer eles mesmos.

— Ah, é verdade. Tudo bem…

Mia olhou para a iguaria assada como se fosse um tesouro inestimável. Segurou-a com as duas mãos. Então, com cuidado, quase reverentemente, levou-a à boca e deu uma mordida. Quando o fragmento tocou sua língua, ela sentiu uma textura seca e arenosa. Mastigá-lo, no entanto, revelou a doçura interior. Tinha gosto de açúcar barato… mas era açúcar. Complementado pelo aroma de massa torrada e um leve sabor floral…

— Ahhh…

…Foi como provar a própria felicidade — sem dúvida a coisa mais deliciosa que ela comera desde que fora colocada nesta masmorra. Enquanto saboreava o momento, expirando com prazer sincero, ouviu Anne dizer: — Feliz aniversário, Alteza.

— Você… — Ela se virou para Anne, seus olhos se arregalando. — Você trouxe isto porque…

— Sim. Sinto muito que esteja dez dias atrasado, no entanto. — Houve um longo silêncio.

— …Foi uma grande provação conseguir um destes, não foi?

Até Mia sabia o quão difícil devia ter sido adquirir um biscoito nestes tempos. De repente, foi tomada por um sentimento de incerteza ansiosa. Anne passara por tantos problemas para obter este biscoito. Estava realmente certo ela dá-lo a Mia, de todas as pessoas? Elas nem eram da mesma família.

— Foi. Mas coisas especiais sempre são. E isto é para o seu aniversário, então tinha que ser algo especial.

— Mas ainda assim…

— Caso contrário… Bem, isso seria triste demais. Não suporto a ideia de alguém não poder comemorar seu aniversário. Acho que todos que nascem neste mundo merecem ter seu aniversário celebrado — declarou ela com convicção, estufando o peito, antes de mostrar a língua. — Ehehe, isso soou um pouco pretensioso? Sempre quis tentar dizer algo assim.

Então, ela baixou a cabeça e disse em tom formal: — Por favor, perdoe minha impertinência, Alteza.

Sua súbita mudança de atitude beirava a comédia, e Mia quase cuspiu sua preciosa boca cheia de migalhas de biscoito no local.

O tempo passou e as vidas mudaram, mas Mia nunca esqueceu aquele aniversário que comemorou dez dias atrasada. Ela se lembrou dele na guilhotina, e continuou a se lembrar depois.

Avançando(?) para outra linha do tempo… — Santas luas, como estou cansada.

Um festival natalício em todo o império, seguido por festas nas residências dos Quatro Duques, a manteve na estrada por nove dias seguidos, durante os quais ela apenas sorria e sorria. No final, todos os músculos de seu rosto doíam.

— Na época em que não existia mais, pensei que sentia falta, mas agora que está aqui de novo, é realmente a coisa mais problemática.

Mia, veja bem, era do tipo que ansiava pelo inverno quando era verão e ansiava pelo verão quando era inverno. Primavera e outono, no entanto, tinham muitas comidas gostosas, então ela não sentia saudades durante essas estações. Ela tinha uma natureza simples, mas isso a mantinha feliz.

Ela tirou o vestido e se jogou na cama, momento em que poderia jurar que imediatamente se derreteu em uma poça de carne sem ossos. Em segundos, o sono começou a chamar sedutoramente sua consciência que se desvanecia.

— Você vai ficar doente se adormecer assim. Por favor, vista uma roupa de dormir, pelo menos — disse Anne, seu tom meio divertido, meio repreensivo, enquanto se aproximava.

Mia lentamente virou o pescoço o suficiente para olhar para Anne, apenas para ter sua curiosidade aguçada pela bandeja que ela segurava.

— Mmm? O que é isso?

— É do chefe de cozinha. Ele esperava que você estivesse exausta, então lhe enviou isto. Acho que é algo feito de leite quente.

— …É bom?

— Não tenho certeza, mas ele mencionou que foi adoçado com mel.

— Não diga mais nada!

As papilas gustativas de Mia estavam dispostas a dar um A para qualquer coisa doce. Eram coisas simples, aquelas papilas gustativas, mas a mantinham feliz, então, na verdade, eram as melhores papilas gustativas. Ela se sentou na cama, pendurando as pernas para o lado, e pegou o recipiente de porcelana na bandeja. Leite quente fumegante balançava dentro. Ao inspirar, uma fragrância doce encheu seu nariz, fazendo-a expirar em um suspiro de satisfação.

— A propósito, senhorita, sobre o resto do dia…

— Oh, minha nossa! Acabei de perceber! — exclamou Mia, cobrindo o rosto com as mãos em um gesto de surpresa exagerada. — É seu aniversário hoje, não é?

Foi honestamente uma atuação brega, mas teve o efeito pretendido, fazendo Anne olhá-la com os olhos arregalados enquanto ela produzia o presente que estivera escondendo.

— Hã? O que é isso?

— É um presente.

Dentro do recipiente havia doces da mais alta qualidade.

— M-Muito obrigada — disse Anne.

Ela estava prestes a dizer outra coisa, mas decidiu não o fazer no último segundo e apertou os lábios. O gesto não escapou à atenção de Mia.

— Anne? Algo errado? Na verdade, deixe-me adivinhar. Sua família está dando uma festa de aniversário para você, então você gostaria do resto do dia de folga?

— Não. É, hum… — Ela mexeu nervosamente na bainha de seu avental por um tempo antes de continuar. — Não quero ser desrespeitosa, e sei que é um grande pedido, mas… há alguma chance de você estar disposta a vir comigo?

— Hã?

Mia a olhou boquiaberta.

— B-Bem, quero dizer, minhas irmãs… Elas, hum, realmente querem que você venha comemorar conosco, e…

Anne lançou-lhe um olhar nervoso, então soltou uma risada envergonhada.

— Ahaha, o que estou fazendo? Estou sendo boba. Você já está tão cansada, e… Deixa pra lá. Desculpe por ter dito algo tão ridículo…

— Você sempre será a garota que comemorou meu aniversário com dez dias de atraso. Sempre — sussurrou Mia suavemente para si mesma, com os olhos fechados, enquanto apertava firmemente as mãos de Anne nas suas.

— Hã? E-Então, senhorita?

— Ridículo, de fato. Como se houvesse necessidade de sequer perguntar. — Ela abriu os olhos novamente e sua expressão floresceu em um sorriso radiante. — Claro que eu vou. E com prazer.

Alguns dias depois, Mia pediria a Anne para acompanhá-la à Academia São Noel, felizmente inconsciente das aventuras que a aguardavam.

 


 

Tradução: Gabriella

Revisão: Matface

 

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