Império Tearmoon

Império Tearmoon – Vol. 03 – Cap. 31 – A Melancolia de uma Santa (Real)

 

— Oh, céus… parece que falei um pouco demais.

Rafina fez uma careta para si mesma depois que Sapphias saiu. Ela bebeu o resto de seu chá, sua amargura combinando com sua expressão, e murmurou: — Ser rejeitada por Mia deve ter me atingido mais do que eu pensava…

A garota chamada Rafina Orca Belluga, ostentando títulos como Santa de Belluga e a Dama Sagrada, era um objeto de reverência para as massas. A adoração e o louvor de seu povo, no entanto, não lhe renderam um único amigo, e ela vivera a maior parte de sua vida sem conhecer a companhia de um colega próximo. No entanto, ela nunca sentiu pena de si mesma. Seu pai a amava muito, e seu povo a tratava com bondade e respeito. Suas circunstâncias eram, se é que alguma coisa, uma bênção. Todos a tratavam como alguém especial. E por que não o fariam? Sua especialidade era um fato objetivo. Que utilidade havia em negá-lo? Havia apenas uma Santa de Belluga, e era ela. Ela era totalmente única. Era apenas natural que fosse tratada de forma diferente.

Mas, ao mesmo tempo, ela não podia deixar de pensar que o mesmo se aplicava a outras pessoas também. Todos foram feitos para serem suas próprias pessoas únicas. Moldados individualmente por Deus, todos eram diferentes, e suas características eram apenas suas. Todas as características eram dons de Deus, então todas as pessoas mereciam igual respeito. Assim diziam os ensinamentos de Deus, e assim estava inscrito no Livro Sagrado de Belluga. Consequentemente, Rafina descobriu que seu tratamento especial era uma fonte de frustração para ela. Ela não era mais especial que seus colegas. Ela desejava que eles a abordassem da mesma forma que faziam com qualquer outra pessoa. Tratassem-na da mesma forma. Fizessem amizade com ela da mesma forma.

Um dia, a filha de um nobre proeminente veio até ela.

— Senhorita Rafina, por favor, seja minha amiga?

Rafina ficou encantada com o pedido. Finalmente, ela encontrara alguém disposto a abordá-la sem todo aquele tratamento especial que ela detestava. Ela transbordava de excitação com a perspectiva de ter uma amiga normal. Então, algum tempo depois, ela testemunhou algo que nunca quis — a visão de sua nova amiga batendo em um assistente com uma vara.

— Como você pode fazer algo assim? — perguntou ela, totalmente perplexa. Sua amiga deveria ser alguém que não se prendia a noções de status. Alguém que não se deixava influenciar pela ficção da especialidade. Alguém que a via não como uma santa ou nobre, mas como uma pessoa. Não foi por isso que ela fez amizade com ela? Mas se sim, por que ela era capaz de agir tão cruelmente com seu assistente?

O incidente forçou Rafina a se voltar para dentro. Após muita reflexão, a resposta lhe veio. Ela percebeu por que a garota nobre a tratava como igual. A razão era simples; porque ela se via como sua igual. Não igual a Rafina, a pessoa, mas igual a Rafina, a santa. A garota acreditava ser igualmente especial, favorecida por Deus e dotada de superioridade. Não era imparcialidade, era apenas presunção.

Que crença tirânica…

Rafina pensava em todos os que viviam nesta terra — uma população devota que acreditava e era abençoada por Deus — como uma grande família. Os vários membros dessa família, sejam eles nobres, camponeses ou mesmo mendigos na rua, diferiam apenas no papel. Aqueles nascidos como filhos mais velhos carregavam tanto o privilégio quanto a obrigação de se tornarem o próximo chefe de sua família. Os segundos filhos, da mesma forma, carregavam sua cota, e o mesmo acontecia com as filhas, pais, mães e assim por diante. Todos tinham um papel, e com ele vinham seus privilégios e obrigações associados. Esses papéis não eram comparáveis. Não havia melhor ou pior, nobre ou baixo. Eles diferiam apenas no conteúdo de seus respectivos deveres. Era só isso.

Foi por isso que ela não tinha nada além de desdém por aqueles que oprimiam os plebeus e tiranizavam seus servos com base em serem nobres. Conduzir-se de uma maneira digna de seus privilégios e obrigações era imperativo. Falhar em fazê-lo, a seus olhos, era absolutamente imperdoável.

E uma Rafina que não conseguia perdoar… era uma Rafina que não conseguia fazer amigos. Todo nobre que se aproximava dela era atraído por seu status de santa. Ela os desprezava por suas intenções desprezíveis; eles não eram dignos de sua amizade. Os plebeus, por outro lado, a estimavam, mas não faziam nenhuma tentativa de fazer amizade com ela. Eventualmente, ela começou a aceitar que suas provações eram simplesmente um fardo inevitável de sua posição. Nascer no papel da Santa de Belluga, ela imaginou, era suportar uma vida sem amigos.

Então, justamente quando estava pronta para se submeter ao seu destino…

— Mia Luna Tearmoon.

…Ela apareceu. Quando Rafina soube pela primeira vez do que ela havia realizado no Império Tearmoon, ficara espantada. Embora nascida na soberania como filha do imperador, ela não se deleitava com os privilégios de sua posição, mas sim trabalhava para cumprir as obrigações de sua estação. Ela agia benevolentemente para com as massas e poupava bondade até mesmo para os mais necessitados de sua população. Quando Rafina ouviu que havia pessoas se referindo a Mia como uma santa, não pôde deixar de sentir uma crescente sensação de antecipação em relação à garota que compartilhava seu título.

— Talvez… Apenas talvez, ela concordasse em ser minha amiga…

A partir daquele dia, Rafina começou a esperar ansiosamente pelo dia em que Mia se matricularia na academia. Sua primeira chance de ver a princesa em carne e osso foi nos banhos comunitários, onde ela demonstrou genuína consideração por sua criada, que era uma plebeia, chegando a declarar que era seu braço direito e confidente. Sua capacidade de ver além do verniz superficial de posição e pedigree nas profundezas do caráter de uma pessoa deixou uma forte impressão em Rafina, que saiu de seu primeiro intercâmbio com as emoções agitadas. Mia, ela pensou, era o tipo de pessoa que ela procurava todo esse tempo.

Mas ela estava errada.

— Você é… ainda mais do que isso, não é, Mia?

Durante o incidente no baile noturno, ela testemunhou a tolerância de Mia. Ao lidar com aqueles que cometiam um erro, sempre que possível, ela buscava conceder-lhes uma chance de se redimirem, e fazia todas as tentativas para realizar essa oportunidade para eles. Sua abordagem era estranha a Rafina, e ainda assim…

— Errar é humano. Errar sem saber, mais humano ainda. Portanto, oportunidades de redenção devem ser dadas em abundância… Você é uma pessoa muito mais gentil do que eu, Mia.

Ela ficou surpresa ao se sentir confortada pelo pensamento.

A inconsistência na punição era um terreno fértil para a corrupção. Uma penalidade leve para o infrator roubava da vítima o consolo emocional. Foi por isso que, durante toda a sua vida, ela vira com desprezo pessoas como Mia que perdoavam os culpados. Punição era punição. Aqueles que detinham o poder eram obrigados a punir o erro e corrigir a injustiça. Mia, no entanto, aplicava ao problema não o princípio, mas a engenhosidade, exercendo preventivamente sua influência antes que danos graves — ou, de fato, qualquer tipo de erro — fossem cometidos, preservando assim a situação em um estado em que a parte culpada pudesse ter a chance de se redimir. Era uma abordagem à bondade que nunca sequer passara pela mente de Rafina, instilando nela um sentimento que era quase admiração. Mas apesar de tudo isso…

— Parte-me o coração dizer isto, Mia, mas você não vai ganhar de mim — disse ela suavemente para si mesma.

Ela já podia ver com grande certeza como as coisas se desenrolariam. Mia perderia a eleição. Não havia dúvida sobre isso. Se ela tivesse abraçado o esquema de Sapphias e recorrido a táticas desonestas, talvez tivesse uma chance. Em vez disso, ela recusara a proposta dele.

— Justo e limpo… com aquela sua convicção bondosa… Mas ela, por sua vez, será acorrentada por suas virtudes, tornando impossível para ela vencer…

Rafina acreditava em Mia e em sua paixão pela justiça. Que irônico era, então, que essa mesma crença a assegurasse de sua própria vitória. Contanto que Mia estivesse comprometida em fazer o que era certo, ela certamente perderia. E a razão para sua perda inevitável era…

Ela balançou a cabeça, como se tentasse se impedir de pensar no assunto.

— Eu também estava ansiosa para tê-la torcendo por mim… — murmurou ela, o toque de tristeza em seus olhos vindo da garota dentro da santa. — Ela é minha amiga, então pensei que ela entenderia…

Desanimada com o pensamento, ela se permitiu achatar o rosto contra a mesa, emburrada enquanto sentia a superfície fria contra a bochecha. Ela, claro, sabia por que Mia estava concorrendo contra ela. Um candidato rival que pudesse desafiá-la era necessário para garantir a justiça e o funcionamento da eleição. Também servia para demonstrar a legitimidade da própria candidatura de Rafina. Além disso, o papel de seu rival só poderia ser desempenhado por alguém que não a colocasse em um pedestal.

— Puxa, isso é tão frustrante…

Ela sabia. Sabia de tudo. Mas o conhecimento provou ser uma barreira fraca contra as emoções, e ela soltou um suspiro solitário.

— Eu estou tentando, sabe…

Entre desenvolver contramedidas contra as Serpentes do Caos e cumprir seus deveres como a Santa de Belluga, além de dirigir o conselho estudantil como sua presidente, até mesmo a diligente Rafina estava mostrando sinais de fadiga.

— Eu realmente estou tentando… então seria bom se…

Ela parou de falar, suas pálpebras subitamente pesadas caindo sobre seus olhos, e logo sucumbiu ao agradável esquecimento do sono.

 


 

Tradução: Gabriella

Revisão: Matface

 

💖 Agradecimentos 💖

Agradecemos a todos que leram diretamente aqui no site da Tsun e em especial nossos apoiadores:

 

  • decio
  • Ulquiorra
  • Merovíngio
  • S_Eaker
  • Foxxdie
  • AbemiltonFH
  • breno_8
  • Chaveco
  • comodoro snow
  • Dix
  • Dryon
  • GGGG
  • Guivi
  • InuYasha
  • Jaime
  • Karaboz Nolm
  • Leo Correia
  • Lighizin
  • MackTron
  • MaltataxD
  • Marcelo Melo
  • Mickail
  • Ogami Rei
  • Osted
  • pablosilva7952
  • sopa
  • Tio Sonado
  • Wheyy
  • WilliamRocha
  • juanblnk
  • kasuma4915
  • mattjorgeto
  • MegaHex
  • Nathan
  • Ruiz
  • Tiago Tropico

 

📃 Outras Informações 📃

Apoie a scan para que ela continue lançando conteúdo, comente, divulgue, acesse e leia as obras diretamente em nosso site.

Acessem nosso Discord, receberemos vocês de braços abertos.

Que tal conhecer um pouco mais da staff da Tsun? Clique aqui e tenha acesso às informações da equipe!

 

 

Rlc

Recent Posts

O Caçador Imortal de Classe SSS – Vol. 13 – Cap. 302 – A Aranha Cinzenta (1)

  A Aranha Cinzenta não sentia como se alguma vez tivesse sentido uma brisa fresca…

23 horas ago

O Caçador Imortal de Classe SSS – Vol. 13 – Cap. 301 – A Grande Campanha (3)

  — Não sabemos quem você é. Fique feliz por isso! Caso contrário, já teríamos…

23 horas ago

Lorde dos Mistérios – Cap. 309 – Escolhendo um de Duas Opções

  O sentimento ilusório passou, e Klein viu que a vela bizarra estava em sua…

1 dia ago

Império Tearmoon – Vol. 03 – Cap. 32 – A Melancolia de uma Santa (Falsa)

  No meio do período eleitoral, Mia estava sentada com sua equipe na sala de…

1 dia ago

A Eminência nas Sombras – Vol. 06 – Cap. 04.3 – História Paralela – O Voto da Planície!

Delta está de ótimo humor. Ela pôde caçar muitos bandidos com Shadow hoje. A força…

1 dia ago

Mushoku Tensei: Reencarnação Redundante – Vol. 03 – Cap. 03 – Reunião de Família

  OLHANDO PARA TRÁS e vendo o que aconteceu, entendo por que me senti daquele…

1 dia ago