— De modo geral, os assassinos em série podem ser divididos em duas categorias criminais.
Minha professora Sheila estava dando uma palestra sobre como os assassinos em série podem ser classificados no tipo predador caçador e no tipo impulsivo.
— Uma categoria contém as pessoas que matam porque gostam. Geralmente são pessoas inteligentes que entendem que o assassinato vai contra a moralidade. Fundamentalmente, essa variedade de assassino é inteligente e proficiente em se comunicar com os outros. Muitas vezes, ambos os pais estão vivos e bem, e eles nasceram nas classes sociais mais altas. Assassinos com essas características frequentemente pensam no assassinato como um hobby. Em outras palavras, esses são os caçadores.
Sheila continuou: — Mas o outro tipo principal de assassino é o oposto do caçador. Eles não gostam de matar e não são capazes de entender que é errado. Normalmente, assassinos desse tipo são menos intelectuais e têm dificuldade em se comunicar com outras pessoas. Muitas vezes, eles têm apenas um dos pais. A pobreza também pode ser um fator. Assassinos com essas características costumam sofrer de alucinações visuais e auditivas, e esse sofrimento os leva a cometer assassinatos. Em suma, para esses tipos impulsivos, matar pessoas é simplesmente um meio para um fim… mas há aqueles assassinos em série que não se encaixam em nenhuma dessas classificações. Vocês sabem por que isso pode acontecer? Monica?
Sheila de repente chamou Monica, mas Monica não parecia nem um pouco preocupada. Com uma expressão muito fria, ela respondeu: — Porque essas pessoas provavelmente possuem características de ambas as classificações.
Sheila assentiu. Monica aparentemente respondeu corretamente.
— Isso mesmo. E este tipo de assassino em série é considerado ainda mais difícil de capturar. Os caçadores tendem a ser muito seletivos com suas presas. A maioria deles também usa armas que prepararam de antemão, então se você basear sua investigação nas vítimas e nas ferramentas usadas para matá-las, é fácil restringir um suspeito. Os assassinos impulsivos não são muito exigentes e matam aleatoriamente — por impulso — mas como costumam improvisar armas e tendem a bagunçar a cena do crime, geralmente deixam muitas evidências físicas, e você pode restringir um suspeito se começar sua investigação a partir da cena do crime. Mas pessoas que têm ambos os tipos de características são uma história diferente.
Sheila explicou que, basicamente, eles não deixam evidências para trás na cena, e é extremamente difícil descobrir como eles escolhem suas vítimas.
— Assassinos que ficam fora das duas categorias principais são quase impossíveis de perfilar. Se você se encontrar no rastro de um desses, pode esperar uma investigação difícil.
Ela deve ter enfrentado um assassino assim no passado. Sheila ficou em frente ao púlpito, encolheu os ombros e soltou um suspiro.
— Pode levar muito tempo para pegá-los, o que às vezes pode levar a comunidade em que você está trabalhando a duvidar de suas habilidades. Isso pode ser… difícil.
Na época, Sheila nos havia avisado, quase como uma ameaça…
— É melhor estarem preparadas se algum dia tiverem que lidar com esse tipo de assassino.
E então descobrimos que era realmente como Sheila havia dito.
Tudo o que eu sabia, depois de entrar nesta cidade e investigar por vários dias, era que o culpado não deixava pistas. O assassino aparecia do nada, cometia o assassinato e desaparecia sem deixar nenhuma evidência. Nem sabíamos a idade ou o gênero do assassino, muito menos qualquer característica definidora, e tudo o que havíamos feito era desperdiçar um tempo precioso.
Monica e eu começamos a patrulhar juntas, na esperança de pelo menos evitar que mais assassinatos ocorressem. Embora os soldados da cidade devessem estar de vigia, sentimos que apenas magas como nós eram adequadas para enfrentar outra maga, então, com Monica ao meu lado, andei pela cidade todas as noites até tarde.
Uma semana se passou.
Como sempre, não houve desenvolvimentos em nossa investigação. E assim, a cortina caiu sobre mais um dia, livre da morte.
Como seria agradável se pudéssemos apenas passar nosso tempo assim.
Como seria alegre se as coisas permanecessem assim, sem assassinatos.
— Então, o que se resume é que um assassino em série que é tanto impulsivo quanto um caçador é alguém que é muito inteligente, mas se sente compelido a matar pessoas — é isso que significa?
— Se eles possuem características de ambos os tipos, então acho que é isso que significa.
— Fico me perguntando por que eles têm que matar pessoas.
— Quem sabe? — A voz de Monica era fria. — Eu mesma me pergunto por quê.
Não era algo que eu ouvia Monica dizer com frequência. Normalmente, Monica simplesmente sabia das coisas; seu conhecimento parecia ilimitado. Por exemplo, durante nossas aulas, sempre que havia algo que eu não conseguia entender, ela sempre explicava as coisas rapidamente para mim.
Sempre parecia que não havia nada que Monica não soubesse.
Eu sorri para ela.
— Monica, para onde devemos ir amanhã?
Ao olhá-la de lado, sua expressão parecia atormentada pela angústia.
Eu estava pensando que ela devia estar se esgotando novamente, e que deveríamos ir a algum lugar para relaxar.
Eu queria ver Monica sorrir novamente, mesmo que só um pouco.
Mas ela pareceu ler meus pensamentos e balançou a cabeça.
— Temos trabalho amanhã também. Não vou a nenhum lugar não relacionado ao caso, como fizemos antes.
— Mas…
— Não vou.
Então ela parou de repente.
— ……
Um momento depois, eu parei também. Quando me virei, vi Monica parada sob um poste de luz, de cabeça baixa.
Ela estava na luz, mas sua expressão era sombria, como se pudesse se dissolver nas sombras a qualquer momento.
Eu falei com ela.
— …Tudo bem, pelo menos, se algo está te incomodando, você não vai discutir comigo? Você é minha amiga, Monica. Por que está sofrendo sozinha? Por que não me conta nada? Algo está te causando dor, não está? Então por que…?
Por que você está de cabeça baixa assim?
Assim que vi seu rosto, soube a resposta.
Não importava o quão ilegível fosse sua expressão, ou o quão pouco suas emoções flutuassem, eu sabia. Fazia muitos anos desde a última vez que nos encontramos, mas eu tinha visto Monica fazer uma cara como aquela uma vez durante o tempo que passamos juntas como novas recrutas.
Então, quando a vi, eu soube.
Eu soube assim que cheguei a esta cidade e vi Monica novamente. Ela estava sendo atormentada por algum problema intratável.
Eu a encarei diretamente no rosto. Mas Monica desviou o olhar.
— Vamos trabalhar separadamente a partir de amanhã. Não deveríamos estar juntas.
— …De jeito nenhum. Vamos ficar juntas.
— Por quê?
— …… — Eu respondi: — Não posso deixar você sair sozinha, Monica. No seu estado, se estiver sozinha, pode ser atacada pelo assassino…
— Estou bem. Não serei atacada.
— Mas…
— Ou você está dizendo isso porque estará em desvantagem se me deixar ir sozinha?
— ……
Monica me olhou com olhos que pareciam estar me atravessando, e não pude deixar de desviar o olhar.
Era como se meu mundo inteiro tivesse escurecido. De algum lugar nos limites da minha percepção, ouvi um suspiro, e então uma voz triste, cheia de decepção.
— Você não é mais como costumava ser, não é?
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Depois que as aulas do dia terminavam…
Saya tinha seu treinamento de bruxa e eu ficava para estudar, então muitas vezes saíamos para casa ao mesmo tempo e, com o passar dos dias de aula, caminhávamos para casa juntas com mais frequência.
No dia em questão, estávamos andando pela estrada, lado a lado, enquanto o sol se punha.
— Pensando bem, o que você estava tentando me dizer esta tarde?
Enquanto eu encarava um lírio-da-ressurreição florescendo na beira da estrada, Saya de repente invadiu meu campo de visão, com a cabeça inclinada para o lado, inquisitiva.
Entendi imediatamente que ela queria saber o resto do que eu estava prestes a dizer antes que Sheila começasse sua palestra.
Mas eu estava com vergonha demais para dizer de novo.
— Como assim? — fingi ignorância.
— Você estava prestes a me contar algo, não estava? O que era que você queria dizer?
— Nada em particular.
— Hã? Você está mentindo. Você definitivamente ia me contar algo. O que era? Problemas amorosos?
— Não.
— Tudo bem, o que então?
— Eu te disse, nada em particular.
— …Hmm, é mesmo? — Com base na personalidade dela, eu estava em guarda, esperando que Saya tentasse arrancar o segredo de mim à força, se necessário. Mas ela recuou imediatamente. — Bem, se você não quer me contar, tudo bem, mas…
Mas ela continuou.
— …Se você quiser me contar, não se segure, ok? Posso não ser muito confiável, mas se algo estiver te incomodando, gostaria de te ajudar.
Eu quero saber mais sobre você, Monica. Essas palavras que Saya me disse não eram uma mentira ou uma falsidade.
O que ela realmente pensava simplesmente saiu de sua boca.
É por isso…
— …Você definitivamente não vai contar a ninguém? — Minha boca se moveu antes que eu percebesse. — Nunca contei este segredo a ninguém antes. Nem a conhecidos, nem a meus pais, a ninguém.
— Não vou contar. Claro que não. — Saya assentiu prontamente, com o rosto transbordando de confiança.
Tive a sensação de que, se fosse Saya, ela me aceitaria mesmo que soubesse a verdade.
Senti que queria que ela conhecesse a verdadeira eu.
— Eu…
E então…
Naquele dia, eu lhe contei meu segredo.
Com apenas algumas palavras, revelei o segredo que nunca havia contado a ninguém, todos esses anos.
— ……
No crepúsculo, Saya ficou quieta por um tempo. Então, após uma pausa, ela franziu a testa como se estivesse se perguntando se eu poderia estar brincando. Mas ela olhou para o meu rosto e entendeu que não era brincadeira, e então, finalmente, suas bochechas coraram um pouco.
— É… mesmo…? Isso é… estou um pouco… envergonhada…
Ela não parecia me achar repulsiva. Ela simplesmente acreditou em minhas palavras e sorriu.
Fiquei feliz.
— Eu gosto de você. — As palavras saíram impacientemente, e eu sorri para tentar cobrir minha vergonha. — E gosto de muitas coisas em você.
Ela era uma trabalhadora esforçada. Diligente. Gentil. Ela não suportava machucar os outros. Ela nunca mentia. Ela nem contava pequenas mentiras brancas. Ela apenas vivia honestamente no momento, e eu ficava deslumbrada com ela.
Eu a admirava tanto, e desejava do fundo do meu coração poder viver como ela.
Tanto que eu esperava — implorava — para me tornar a pessoa mais importante em seu mundo.
— Nunca mude, ok, Saya?
Mas eu sabia que havia outra pessoa que já ocupava os recantos mais profundos de seu coração. Eu sabia que não havia lugar para mim ali.
Eu sabia de tudo desde que era muito pequena. Sempre estive dolorosamente ciente.
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Imediatamente depois de eu ter chegado a este lugar — em Emadestrin, uma Cidade Onde as Pessoas Vivem, eu me deparei com Monica, e fiquei muito surpresa ao vê-la.
O fato de os problemas em sua cidade natal ainda não terem sido resolvidos me levou a acreditar que ou Monica havia partido há algum tempo, ou havia algum outro conjunto de circunstâncias em jogo que a impedia de resolver o problema.
Quando aceitei a comissão inicialmente, a preocupação com o bem-estar dela era a maior coisa em minha mente.
É por isso que fiquei surpresa ao vê-la.
Achei estranho que Monica ainda estivesse na cidade e não tivesse resolvido o caso ainda. Era impensável.
Porque ela sabia de tudo.
Porque a Monica que eu conhecia podia resolver qualquer problema.
Porque vários anos antes, ela me contou um segredo que nunca havia revelado a mais ninguém.
— Eu consigo ler a mente das pessoas.
Porque ela me contou, e apenas a mim, a verdade sobre si mesma.
Quando cheguei a Emadestrin e me encontrei com Monica, eu imediata e intencionalmente fechei minha mente.
Forcei-me a esquecer o caso e fui para a avenida principal, que não tinha absolutamente nada a ver com ele, onde fiz uma cena de raciocínio selvagem e desordenado.
De qualquer forma, eu me esforcei para não pensar em nada. Menti também, e manipulei.
Mesmo que fosse contra os desejos de Monica, eu não podia permitir que ela lesse meus pensamentos.
— A razão pela qual você tem me arrastado por aí dia e noite é que você acha que eu posso matar alguém se você me deixar sozinha… certo?
— ……
Se Monica ainda estava nesta cidade, mas não havia resolvido os casos de assassinato, a verdade era uma de duas opções.
Ou ela era incapaz de pegar o culpado por algum motivo, como, por exemplo, eles a estivessem ameaçando, ou fossem conhecidos dela, ou algo assim, ou ela mesma era a assassina. Uma dessas tinha que ser verdade.
Mas eu havia descartado a primeira opção. Após uma breve investigação, ficou claro que havia muito pouca informação sobre o assassino.
É quase como se eles pudessem ver através das mentes de todos os habitantes da cidade e pudessem se esgueirar sem que ninguém suspeitasse deles.
Era estranho que, apesar dos incidentes acontecerem nos últimos seis meses, nenhuma testemunha ocular pudesse ser encontrada. Os soldados deveriam estar de patrulha e, se tivessem visto alguém suspeito, certamente teríamos ouvido falar.
Mas não captei um único boato.
Isso não era algo que nem mesmo um assassino do tipo caçador poderia ter realizado, muito menos um do tipo impulsivo.
Ninguém poderia, exceto Monica.
— …Você tem algum tipo de problema, não tem? Alguma razão pela qual sente que tem que matar…?
Eu tinha certeza de que ela tinha uma razão. Tinha certeza de que ela havia sido encurralada, a ponto de não ter como evitar fazê-lo.
Foi por isso que implorei para que ela me deixasse ajudá-la.
— Não tem nada a ver com você.
Infelizmente, meus sentimentos não a alcançaram.
Monica já estava segurando sua varinha, apontando-a diretamente para o meu rosto.
— Se você me deixar em paz, posso deixá-la ir.
Em outras palavras, ela quis dizer…
— …Então, se eu ficar no seu caminho, você vai me matar?
— Você é rápida no gatilho. Isso ajuda muito.
— ……
Como Monica podia ler facilmente a mente de qualquer um, ela provavelmente estava perfeitamente ciente do que eu estava pensando naquele momento.
Ela sabia que eu não tinha absolutamente nenhuma intenção de recuar.
— …Entendo. — A tristeza surgiu em seu rosto. — …Que pena. — Então ela acenou com a varinha.
Inúmeras bolas de fogo apareceram ao seu redor. Junto com seu brilho, pude sentir seu calor em minha pele.
Antes que eu pudesse pegar minha varinha, Monica sacudiu o pulso. Aquele leve movimento enviou as bolas de fogo voando em minha direção, uma após a outra.
— Tch…!
Pouco antes de atingirem meu rosto, desviei as bolas de fogo com água conjurada de minha própria varinha.
— Espere, por favor… Monica…! Eu…
Uma a uma, apaguei as chamas com esferas de água, contra-atacando seu ataque.
Minha mente estava a mil, me perguntando se havia algo que eu pudesse dizer ou fazer para que ela parasse. Comecei a caminhar em sua direção e, para bloquear minha aproximação, Monica acenou com a varinha novamente.
Eu não tinha intenção de machucá-la, e certamente nenhuma intenção de matá-la. Então, não pude usar nenhum feitiço altamente letal.
Quando Monica atirou estacas de gelo em mim, eu as quebrei. Quando ela arrancou um poste de luz e o jogou em mim, mudei sua trajetória e o deixei cair na estrada.
Eu quase não fiz nenhum movimento ofensivo.
O máximo que fiz foi pegar latas de lixo e canteiros de flores de casas próximas e atirá-los nela em ataques hesitantes que nem eram ameaçadores.
Mas isso não a deteve.
— Para alguém que conseguiu se tornar uma bruxa, você usa feitiços terrivelmente deselegantes, não acha?
— É o que parece?
— Sim. — Monica riu, e então passou a esmagar cada objeto que eu havia atirado nela em pedacinhos. — Se você não estiver disposta a lançar magia real e letal, nunca vai me parar, Saya.
Tentei juntar toda a madeira quebrada e amarrá-la com ela, mas no momento em que o pensamento me ocorreu, ela já havia incendiado os materiais espalhados ao nosso redor.
Não importava o que eu tentasse, ela contra-atacava meus feitiços.
— ……
Mas…
De forma alguma eu estava em desvantagem.
— …Eu não queria ter que fazer algo assim com você, Monica. — Juntei poder nas pontas dos meus dedos e apontei minha varinha para ela.
Como ela podia ler a mente de seu oponente e, portanto, estava totalmente ciente dos tipos de feitiços que eu estava tentando lançar, provavelmente seria difícil detê-la usando magia superficial.
Mas isso não significava que eu não pudesse enfrentá-la.
— Desculpe — eu disse.
Então disparei um feitiço da minha varinha.
A primeira coisa que disparei foi uma saraivada de bolas de fogo, que ela facilmente apagou com bolas de água, mas imediatamente após o fogo, uma rajada de vento pressionou-a. Claro, ela foi capaz de antecipar aquele ataque também, e o desviou com facilidade, mas sua reação à chuva de estacas de gelo que pairava sobre sua cabeça foi um pouco lenta. Nesse momento, ouviu-se o som de uma explosão atrás dela, onde o vento havia destruído a parede de uma casa, enviando inúmeros pedaços de entulho para atingi-la nas costas. Antes que seu rosto pudesse se contorcer de dor, o próximo ataque, um amontoado grosseiro de energia mágica bruta, aproximou-se diante de seus olhos, mas ela o atingiu com um amontoado idêntico de energia de feitiço e eles se anularam. Na distração momentânea que isso proporcionou, hera rompeu os tijolos vermelhos que cobriam o chão e se esticou para cima até agarrar Monica, mas mesmo isso ela calmamente arrancou. Lancei os tijolos quebrados diretamente em seu rosto, mas não deve ter havido muito dano onde eles a atingiram, e tudo o que ela fez foi parecer um pouco descontente. Mas, mesmo assim, eu sabia que levaria um pouco de tempo antes que ela percebesse que os tijolos haviam sido uma distração, assim como a explosão de energia mágica.
Porque ela relaxou a tensão em seu braço, apenas por um momento, e quando o estendeu para fazer um contra-ataque, ela já não estava mais segurando sua varinha.
— ……!
Essa foi a primeira vez que a vi parecer surpresa.
Entre atingi-la suavemente no rosto com tijolos comuns, consegui arrancar a varinha de sua mão. Hera se enrolou em seus pés novamente enquanto ela estava ali, perplexa, depois de perceber que não tinha varinha, e desta vez eu a contive completamente.
— …Desculpe — pedi desculpas novamente.
Eu sabia desde o início que ela era capaz de ler minha mente. Eu também sabia como detê-la se algum dia entrássemos em uma briga.
Era bem simples.
Eu só tinha que bombardeá-la com tantos feitiços que ela não conseguiria acompanhar todos eles, mesmo que pudesse ler minha mente.
Sempre soube que poderia detê-la dessa forma. Eu estava relutante em fazê-lo apenas porque não queria machucá-la.
— ……
Imaginei que ela provavelmente sabia o que eu estava pensando naquele momento. Contida, incapaz de mover um músculo, ela se rendeu.
— Acho que não fui páreo para uma bruxa — disse ela com resignação, e sorriu.
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A notícia de que Monica, a maga que deveria estar trabalhando para proteger a paz pública, era na verdade a assassina em série se espalhou pela cidade imediatamente.
Todos ou estremeceram de medo ou tremeram de raiva nua. Isso era natural vindo dos familiares enlutados de suas vítimas, mas outras partes relacionadas, bem como pessoas que, até então, nunca haviam pensado nos incidentes, todos a atacaram sem exceção. Não foi uma resposta surpreendente à notícia de que a protetora da cidade na verdade estava a predando.
A cidade transbordava de animosidade por Monica.
— Muito obrigada pelo que fez, Lady Saya.
Até mesmo o funcionário do governo que me ofereceu uma expressão de agradecimento formal em um tom de voz composto provavelmente sentia o mesmo.
— Se você não estivesse aqui, ela provavelmente ainda estaria por aí matando pessoas. Eu gostaria de expressar minha gratidão…
Tenho certeza de que, se eu pudesse ler mentes como Monica, não seria capaz nem de olhá-lo diretamente no rosto.
— Eu estava apenas fazendo meu trabalho — disse eu, balançando a cabeça. — Quanto a Monica… o que acontecerá com ela agora?
— Suponho que ela receberá a punição de acordo com as leis de nossa cidade.
— ……
— Nem preciso dizer que os crimes que ela cometeu foram da maior gravidade. Ela é uma assassina. Pode ser apropriado sentenciá-la à pena capital.
Quando uma maga filiada à Associação Unida de Magia resolvia um caso e capturava o culpado, uma de duas coisas acontecia.
Ou a maga voltava para a sede da Associação com o culpado a reboque e uma punição adequada era aplicada lá, ou o culpado recebia a punição de acordo com as leis do país onde o crime ocorreu.
A primeira opção era uma isenção especial que se aplicava em países onde não haviam sido estabelecidas leis sobre magos, então, como regra geral, o destino do culpado geralmente era deixado para as autoridades locais. Isso também era benéfico para os magos da Associação porque lhes permitia concluir seus casos rapidamente. No entanto, considerando as circunstâncias, senti-me muito, muito relutante em deixar Monica nas mãos dessas pessoas.
— …Ela será sentenciada à morte?
Eu havia descoberto sua verdadeira identidade como assassina. Consegui até mesmo prendê-la.
Mas quanto ao motivo pelo qual ela continuava matando pessoas… quando se tratava desse ponto, ela havia teimosamente mantido a boca fechada. Eu ainda não tinha ideia do porquê.
— A pena capital em nossa cidade não é a pena de morte. — O oficial balançou a cabeça. Aparentemente, eu estava enganada. — Nós não aprovamos nenhum tipo de assassinato aqui. Tanto o suicídio quanto o homicídio são, sem exceção, considerados os delitos mais graves. Isso vale também para a pena de morte. Emitir a pena de morte por matar alguém pareceria contradizer nossas leis, não concorda?
— ……
Mas nesse caso…
— Então, qual é a punição capital aqui? — O oficial me respondeu prontamente.
— Exílio.
Andei pela cidade em transe.
Meu negócio aqui estava concluído. Eu não tinha outro motivo para permanecer nesta cidade. Havia terminado tudo o que vim fazer, então o lógico seria me apressar e voar com minha vassoura para o próximo lugar.
Mas, por alguma razão, eu não conseguia partir.
Monica.
No final, eu ainda não tinha ideia do porquê ela se sentiu compelida a matar pessoas, ou qual era seu objetivo.
Eu queria vê-la apenas mais uma vez.
Foi por isso que andei pela cidade em transe.
— …Você é a Saya, certo?
E então…
Alguém me chamou. Quando me virei, uma maga estava parada ali, sozinha.
Eu a havia encontrado apenas uma vez, mas me lembrava dela.
Vamos ver, o nome dela é…
— É… Frauze… certo?
Eu tinha quase certeza de que ela era a médica que havia realizado as autópsias nas vítimas do assassinato. Eu a havia encontrado apenas brevemente quando Monica e eu visitamos o hospital, então não estava totalmente confiante de que havia acertado o nome dela.
— Sim. Sou a legista, Frauze. — Aparentemente, eu havia acertado. — Você tem um tempo livre agora?
— ……
Sua expressão estava nublada.
Pude perceber que ela guardava sentimentos completamente diferentes dos da maioria das pessoas que viviam na cidade.
— Tenho algo para lhe contar… sobre Monica.
— …O que é?
Ela me respondeu brevemente:
— Nós sabíamos o motivo do assassino o tempo todo.
Eles sabiam e ficaram em silêncio, ela me disse. Esta foi uma confissão de peso, de fato.
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Depois que saí da cidade, como meu pai sempre quis, pensei que nunca mais voltaria. Pensei que provavelmente nunca mais veria meu pai.
Foi por isso que respondi com as mesmas palavras todas as vezes, sempre que Saya me perguntava se eu planejava voltar para casa depois que nosso período de treinamento terminasse.
— Não tenho intenção de voltar para minha cidade natal. — Essas palavras não eram uma mentira.
Por volta da época em que nosso treinamento chegou ao fim, Saya, que havia ficado comigo mesmo depois de saber que eu podia ler a mente das pessoas, parecia ter esquecido nossa troca pouco depois de nos conhecermos, porque ela me perguntou com as mesmas palavras de antes: — Quando nosso treinamento terminar, você vai voltar para casa, Monica?
Eu lhe respondi honestamente:
— …Parece que não tenho escolha a não ser voltar.
Pouco antes do nosso treinamento terminar, uma correspondência chegou a mim de Emadestrin, uma Cidade Onde as Pessoas Vivem.
Escrito no pedaço de papel havia uma longa mensagem formal. Mas, em resumo, dizia basicamente: Seu pai matou alguém. Ele recebeu a punição de exílio. Precisamos discutir a questão dos danos. Por favor, retorne à cidade prontamente.
Era tudo o que dizia.
Eu nunca esperei voltar para minha cidade natal novamente.
E, no entanto, em alguma parte da minha mente, o pensamento me ocorreu.
A ideia de que um dia como este poderia chegar.
Esperando por mim quando voltei para a cidade estavam os olhares desconfiados para a única filha de um criminoso.
Assim que voltei, um oficial da cidade me disse que tipo de pessoa meu pai havia sido.
— Seu pai era médico, mas administrou propositalmente drogas perigosas a seus pacientes e acabou com suas vidas. Ele era um assassino em série, lamento dizer. Ele deve ter feito isso durante todo o tempo em que sua família viveu nesta cidade; tempo suficiente para que houvesse muitas, muitas vítimas. E quanto aos danos financeiros…
A quantia de dinheiro que me foi apresentada era um valor que eu nunca poderia esperar pagar sozinha.
O oficial me disse que a cidade usaria o dinheiro para aliviar a dor nos corações das famílias das vítimas mortas por meu pai criminoso. E como meu pai já havia sido punido com o exílio, não havia outra maneira a não ser eu mesma pagar. Eles já haviam confiscado tudo o que meu pai havia economizado e vendido sua casa, mas não era nem de longe o suficiente para satisfazer sua dívida, que agora seria forçada sobre mim.
Então o oficial fez uma proposta.
— Que tal trabalhar para a cidade? Até que a dívida seja paga, você poderia se dedicar à manutenção da segurança pública.
Como a maioria dos magos locais trabalhava no hospital, eles aparentemente estavam procurando alguém para trabalhar para a city há um tempo.
Além do mais, eu tinha um broche da Associação Unida de Magia pendurado no peito. Ter-me trabalhando para a cidade era provavelmente ideal para eles.
— A maioria das pessoas nesta cidade sabe que você não se dava bem com seu pai. Ele a maltratava, e você fugiu quando não aguentou mais, certo? Há muitos que simpatizam com suas circunstâncias. Não acho que alguém se oponha à sua presença.
O oficial tocou meu ombro enquanto falava. Mas eu sabia a verdade.
Eu sabia que meu pai me amava mais profundamente do que qualquer outra pessoa.
Eu nunca, nem uma vez, fui grata pela habilidade de ler a mente das pessoas.
Enquanto andava pela cidade, a animosidade e o descontentamento de outras pessoas ecoavam incessantemente em minha cabeça. Por exemplo, duas pessoas trocando palavras com sorrisos em seus rostos poderiam secretamente se desprezar, ou dois amantes andando de mãos dadas poderiam não se amar de jeito nenhum. Se eu andasse perto o suficiente, poderia aprender tudo.
Não havia nada que eu não soubesse.
Tudo estava perfeitamente claro para mim, toda a raiva, dor, alegria e tristeza que as pessoas escondiam no fundo de seus corações.
Claro, eu também sabia que meu pai vinha matando pessoas enquanto trabalhava como médico.
Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que ele sofria mais do que qualquer outra pessoa na cidade.
Meu pai certamente não estava matando pessoas por seu prazer distorcido. E ele não era louco ou cruel. Ele não era nem uma pessoa impulsiva, nem um caçador.
Era simplesmente que ele não tinha outra escolha a não ser acabar com suas vidas.
A Doença de Lycoris havia devastado a cidade por um longo tempo, desde que eu era criança, mas ninguém nunca havia encontrado uma maneira de tratá-la. Uma vez que alguém contraía a doença, a única coisa que os médicos podiam fazer era colocar o paciente em suporte de vida mágico, o que era incrivelmente caro.
Essas somas assustadoras, maiores do que qualquer pessoa normal poderia esperar pagar, pairavam sobre as famílias dos pacientes. Mas nesta cidade, a eutanásia era tão imperdoável quanto o homicídio ou o suicídio. Os médicos tinham que manter os pacientes em suporte de vida, o que apenas endividava ainda mais suas famílias. Mas a eutanásia era proibida, e assim, para o paciente e sua família, esperar pelo fim não era nada além de sofrimento sem fim.
Para salvar essas pessoas de seus destinos terríveis, meu pai havia colocado certas drogas letais nos medicamentos normais dos pacientes. Ele manteve suas ações em segredo, engarrafando a dor e se recusando a confidenciar a ninguém enquanto, ingratamente, dava descanso a seus pacientes de uma vez por todas.
Todos os dias, o espírito de meu pai era desgastado por seu trabalho. Quando ele chegava em casa, se perdia no álcool e, ocasionalmente, até levantava a mão para mim. Mas eu nunca, nem uma vez, caí em desespero.
Porque eu sabia que o coração de meu pai doía mais do que minha bochecha jamais doeu.
Assim como ele passou a vida lutando contra seus próprios demônios, eu também reprimi meus próprios segredos. Vivi fazendo ouvidos moucos à dor das pessoas.
Quando eu tinha quinze anos, meu pai me disse: — Você é um gênio da magia. Seria um desperdício você usar seus poderes em um lugar de mente fechada como este.
Mas seus verdadeiros sentimentos eram diferentes.
Meu pai sabia. Ele sabia que em algum momento suas ações viriam à tona, e que a cidade não ficaria feliz com isso. Meu pai estava escolhendo uma razão superficial para me expulsar da cidade. Mas não era porque ele me odiava, ou porque eu era um fardo.
Era simplesmente porque ele não via sentido em eu permanecer nesta cidade sem alegria.
— Nunca mais volte aqui.
Até mesmo as palavras que ele me disse pouco antes de eu partir eram uma mentira.
Eu sabia o que ele realmente sentia. Eu sabia que meu pai desejava poder estar comigo, que em seu coração ele esperava que eu, de fato, voltasse algum dia. Mas ele estava suprimindo todos esses sentimentos.
Então, no final…
Quando uma carta chegou à Associação de Emadestrin, resolvi voltar para a cidade.
A verdade é que todo mundo acha esta cidade estranha.
Todos eles têm suas dúvidas sobre o lugar, mas nunca dizem nada. Eles desviam o olhar, escolhendo acreditar que eles mesmos são os estranhos por terem essas dúvidas.
Então eles calam a boca e aguentam qualquer coisa, não importa o quão irracional.
Mas eu podia ouvir tudo.
Minha mente estava cheia dos pensamentos angustiados das vítimas da Doença de Lycoris, que ainda não tinham esperança de recuperação, e dos magos que ainda não haviam descoberto um único tratamento bem-sucedido para a epidemia.
Alguém tem que lhes dizer. Dizer-lhes que o que estão fazendo é errado.
Alguém tem que salvá-los. Salvar essas pessoas de seu sofrimento sem fim.
Alguém tem que se tornar um mártir. Eu sei disso.
E eu sei que revelar a verdade nem sempre termina em tragédia.
Mesmo sendo eu quem podia ouvir os pensamentos na mente das pessoas, foi Saya quem me ensinou essa lição, por não me tratar de forma diferente.
Então, mesmo sabendo que meu pai não queria que eu vivesse o mesmo tipo de vida que ele, no final, eu segui o mesmo caminho.
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— É uma história famosa entre os magos que trabalham no hospital. — Frauze me contou a história do pai de Monica.
— O pai dela administrava eutanásia em seus pacientes, plenamente ciente de que ia contra as leis da cidade. Ele foi pintado como alguém que matava por prazer, enquanto ostensivamente descartava as drogas perigosas, mas… pelo menos entre os magos que trabalham no hospital, o pai de Monica é uma espécie de herói. Isso porque ele realizou algo que ninguém mais foi capaz de fazer. Até agora, vimos inúmeras famílias destruídas por enormes despesas médicas que as afogam em dívidas. O pai dela salvou pessoas antes que chegasse a esse ponto. Estamos sob uma ordem de silêncio estrita dos superiores do governo da cidade, e essa verdade nunca veio à tona antes, mas…
— ……
Respondi-lhe com silêncio, e ela continuou: — Consigo ver quase tudo quando realizo a autópsia. Sempre soube que todas as vítimas até hoje estavam afligidas pela Doença de Lycoris.
— …Você está dizendo que ficou quieta?
Não há mais nada que eu possa aprender com este cadáver. Ela havia dito algo assim. Parecia-me lembrar que ela também disse que faria tudo o que pudesse para ajudar.
— Não sou só eu. — Erguendo a voz um pouco, Frauze me encarou de volta. — A maioria dos magos desta cidade está ciente de que cada uma das vítimas de assassinato era um paciente da Doença de Lycoris.
— …Nesse caso…
Por que você não me contou nada?
Frauze interrompeu essas palavras antes que saíssem da minha boca.
— Não queríamos que Monica resolvesse o caso. Mesmo sabendo que os líderes do governo haviam depositado suas esperanças nela.
Se Monica resolvesse o caso, os pacientes que sofrem da Doença de Lycoris ficariam sem nenhum alívio novamente e teriam apenas que continuar sofrendo em desespero.
Então os magos decidiram ficar em silêncio. Deve ter sido por isso que acharam tão desagradável quando Monica veio bisbilhotar tentando resolver os incidentes.
Mas a pessoa que vinha salvando os pacientes da Doença de Lycoris era ninguém menos que a própria Monica. Mesmo quando as pessoas da cidade a chamavam de incompetente por não conseguir resolver o caso, e não importava o quanto os magos do hospital a desprezassem, Monica nunca revelou os segredos de seu próprio coração a ninguém. Ela lutou sozinha.
— Saya…
Quando nós duas soubemos de todos os detalhes, Monica já estava além do nosso alcance.
— Nós fizemos algo horrível com ela…
Ela caiu em um acesso de remorso insuportável, e lágrimas escorreram por seu rosto.
— Recentemente, entre as pessoas que conheci em minhas viagens, havia alguém um pouco estranho.
Lembrei-me de um encontro anterior que tive com Elaina, uma bruxa que tenho em alta estima. Ela me contou uma história de suas viagens.
Uma história sobre uma garota incrível que ela conheceu em uma certa cidade.
— Ela aparentemente podia ver o que ia acontecer no futuro, no dia seguinte e no dia depois. Ela podia até ver mais longe, e sabia o que ia acontecer com a cidade, e como a vida das pessoas mudaria, e coisas assim.
— Uau, essa é uma habilidade útil de se ter. Se eu tivesse esse tipo de poder, provavelmente o usaria para ganhar muito dinheiro.
Eu assenti de forma evasiva, e Elaina continuou contando a história em um tom de voz uniforme.
— Mas essa garota nunca usou seu poder para satisfazer tais desejos egoístas. Em vez disso, ela usou seu poder para ler a sorte das pessoas. Ela disse a uma pessoa: ‘Você terá um acidente amanhã’, e a outra: ‘Seu parceiro está te traindo’, e a outra: ‘Você morrerá em um mês’. E todas as suas previsões se tornaram realidade, assim como ela disse. Embora isso fosse de se esperar, é claro, já que ela podia ver o futuro.
— …Então, em suma, ela andava por aí assediando as pessoas?
— Basicamente, sim. Foi o que a maioria das pessoas disse sobre ela.
— ……
— Por que você acha que ela fez isso? — Eu tinha mais perguntas. Fiquei me perguntando por que diabos ela andaria por aí incorrendo na raiva das pessoas daquele jeito.
Não parecia haver nenhum sentido por trás disso. Quem na terra escolheria que todos a odiassem, eu me perguntei. Aparentemente, meus pensamentos internos estavam claros em meu rosto, porque Elaina respondeu à minha pergunta não dita.
— Bem, veja, ela não estava apenas se envolvendo sem pensar nos assuntos de outras pessoas. Ajudar as pessoas a evitar destinos terríveis significava lidar com o ressentimento delas. A garota sabia que não podia afastar os futuros infelizes que as aguardavam, mas para manter o sofrimento delas ao mínimo, ela deliberadamente andava por aí emitindo profecias que pareciam assédio.
Então Elaina disse… Ela me disse…
— Aquela garota…
Por que estou me lembrando disso agora?
E por que meu peito está apertando assim, com o que deveria ser nada mais do que uma lembrança divertida?
Enquanto corria pela rua, sem fôlego, livrei-me das lembranças de minha conversa com Elaina que tremeluziam em minha cabeça. Eu me amaldiçoava por minha própria tolice enquanto corria em direção a Monica.
A Monica que eu conhecia não era o tipo de pessoa que mataria por prazer. Na verdade, eu tinha certeza de que ela não era o tipo de pessoa que poderia fazer algo assim levianamente, mesmo quando compelida pela necessidade absoluta.
Porque ela era muito mais inteligente do que eu, e uma pessoa gentil.
— Com licença! — gritei enquanto corria.
Avistei o funcionário do governo andando pela estrada à frente. Ele parou e, sem nem esperar para recuperar o fôlego, agarrei-o.
Os olhos do funcionário se arregalaram de surpresa com minha aparição repentina.
— Oh, Lady Saya… qual é o problema? — Ele inclinou a cabeça, curioso.
Eu o segurei com mais força e disse: — Escute…! Sobre a Monica…! Onde ela está agora…!?
Eu tenho que falar com ela. Tenho o dever de descobrir seus verdadeiros motivos.
Se o que Frauze disse é verdade… Se Monica foi realmente levada a esse caminho para salvar as pessoas que vivem nesta cidade…
Se foi isso que aconteceu, então seria completamente errado a cidade condená-la, não seria?
Monica não fez nada de errado, fez?
— Infelizmente, ela não está mais na cidade.
O oficial balançou a cabeça e tentou me afastar.
— Há pouco tempo, seu exílio foi oficialmente declarado. Ela provavelmente já foi escoltada para fora dos muros da cidade — disse ele prontamente e com indiferença, e então voltou seus olhos para as fronteiras da cidade.
Ela não está mais aqui…
Isso era simplesmente a verdade, mas fez meu coração disparar. As palavras de Elaina passaram pela minha mente.
— Aquela garota entendia a dor dos outros muito bem.
Tive um mau pressentimento.
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Nesta cidade onde matar pessoas não era permitido, os assassinos eram sentenciados ao exílio. Aparentemente, a cidade não tolerava pessoas que quebravam a lei.
Mas ninguém sabe.
Eles não sabem o que a punição do exílio realmente significa.
— Pare.
Eu estava amarrada com correntes até as pontas dos dedos, de modo que não conseguia nem pegar minha varinha. De trás das minhas costas, alguém me chamou, e eu fiz o que me ordenaram.
Havia dois soldados atrás de mim. Eles estavam viajando comigo, me escoltando para fora dos muros da cidade. Eles não acharam apropriado trocar palavras comigo, a criminosa; eles apenas as atiraram em mim, unilateralmente.
E como eu podia ver o que estava em seus corações, e até sabia o destino que me aguardava, não me esforcei para falar com eles também.
— ……
Diante de mim se estendia um banco de flores vermelhas.
Seus caules se estendiam retos para cima do chão. No topo dos caules havia flores vermelhas brilhantes, com pétalas abertas como fogos de artifício.
Aqui na floresta, com o céu azul se estendendo sobre nossas cabeças, os lírios-da-ressurreição estavam em plena floração ao nosso redor, cobrindo completamente o chão.
Parecia um lago de flores, ou talvez como um mar de sangue.
Imaginei que meu pai provavelmente também já viera aqui uma vez, e o pensamento de que eu estava no mesmo lugar onde meu pai encontrou o fim de sua vida me encheu de emoções complicadas.
Você realmente achou que monstros que mataram outras pessoas teriam permissão para continuar com suas vidas fora dos muros da cidade? Que apenas exilá-los seria suficiente para compensar seus crimes?
Claro que não.
Meu pai, e provavelmente qualquer outra pessoa que cometeu um crime grave em Emadestrin, certamente encontrou este mesmo fim. Punir alguém com o exílio era simplesmente um meio para um fim em um país onde todo assassinato era proibido.
Eu sabia de tudo isso.
Eu até sabia como seriam meus próprios momentos finais.
— Você tem alguma última palavra?
Atrás de mim, um dos soldados me lançou esta pergunta sem emoção.
Olhei por cima do ombro e balancei a cabeça.
— Não.
— Tudo bem, então.
Então os dois soldados começaram a andar.
Eles pisaram nos lírios-da-ressurreição. Enquanto apontavam as pontas de suas lanças para mim.
Minha primeira vítima foi o morador de rua.
Sua mente me disse que seu corpo estava afligido pela doença. Sabendo que havia contraído a Doença de Lycoris, ele abandonou sua família, jogou fora sua posição social e escolheu o caminho da solidão para si mesmo. Tudo isso, ele me disse sem dizer uma palavra.
Então eu lhe fiz uma proposta. Eu o colocaria para dormir com um feitiço e depois acabaria com sua vida.
Ele aceitou imediatamente.
Minha segunda vítima foi o dono da loja, para quem a vida supostamente ia bem. A descoberta da Doença de Lycoris durante um check-up no hospital o colocou à beira do desespero. Fiz minha proposta. E ele aceitou imediatamente.
Minha terceira vítima era uma estudante muito séria. Ela havia sido afligida pela Doença de Lycoris e havia escolhido se matar. Eu a impedi e lhe fiz uma promessa de acabar com sua vida sem dor.
Pessoa após pessoa me permitiu pôr fim a suas vidas com minhas próprias mãos.
Esses crimes tinham que ser expiados.
— Obrigada.
Mesmo que todos eles tivessem sorrisos em seus rostos no final, mesmo que tivessem me dito palavras de gratidão ao morrerem, esses fatos, no final, não significavam nada.
— Sinto muito.
Mesmo essas palavras não poderiam ser consolo para todas aquelas pessoas que já haviam dado seu último suspiro. Mesmo as lágrimas de remorso escorrendo pelo meu rosto não mudavam o fato de que eu havia matado pessoas.
Eu tinha que aceitar minha punição.
Então eu acolhi a lâmina que foi cravada em mim.
Antes que eu percebesse, o céu azul se estendia diante dos meus olhos. Os sons de passos se distanciavam.
Os dois soldados não me finalizaram; eles apenas me deram um ferimento fatal e depois partiram. Eu tinha certeza de que era isso que “exílio” realmente significava.
Assassinos não podiam morrer rapidamente, sem sofrer. Sofrer e sofrer, o máximo possível.
Os soldados me deixaram apenas meio morta.
Com todos os outros se foram, agora totalmente sozinha, estendi uma mão para o céu, na mesma posição de todas as pessoas cujas vidas eu terminei.
E então…
— …Ajude-me… Alguém… Saya, ajude-me…
Deixei escapar as palavras que vinha guardando em meu coração o tempo todo.
Mas com minhas mãos presas por correntes, eu não conseguia nem implorar por salvação.
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Em um lugar a uma curta distância de Emadestrin, uma Cidade Onde as Pessoas Vivem, há um trecho de floresta onde os lírios-da-ressurreição florescem em grande número.
E havia um lugar em particular que transbordava daquelas flores, que Monica tanto amava.
Deixei a cidade e voei com minha vassoura em busca dela. Não sabia onde ela estava, ou se já havia partido há muito tempo para outra cidade, mas quando encontrei aquele local, aquele buquê de flores vermelhas, convenci-me de que ela devia estar ali também.
E, com certeza, a avistei ali entre as flores.
— …Monica.
Ela estava deitada no meio de um lago de flores carmesim, olhando para o céu azul brilhante.
Ela estava simplesmente deitada ali, com os olhos bem abertos, como se absorvesse a vista.
As flores vermelhas estavam molhadas de sangue.
— …Saya.
Ela ainda estava respirando. Virou a cabeça pesadamente e me olhou com os olhos molhados de lágrimas.
— …Você veio.
Eu rapidamente a aninhei em meus braços.
Se ela ainda está respirando…
— Aguente firme! Vou lançar um feitiço agora mesmo!
Eu posso salvá-la.
Peguei minha varinha. Se ainda era possível salvá-la, então pensei que tinha o dever de fazê-lo, mesmo que ela fosse considerada uma criminosa em sua própria cidade.
Porque eu era sua amiga.
— Não…
Mas ela recusou minha ajuda. Ela afastou minha varinha com as mãos amarradas e ensanguentadas.
— O que você está…
O que você está fazendo? Você quer morrer?
— Você não pode… — ela respondeu resolutamente. — Não importa o que você faça, não tenho muito tempo…
— …Hã?
— Doença de Lycoris.
Ela proferiu essas palavras de forma curta e concisa. Apenas duas palavras. Com apenas isso, eu soube a razão pela qual ela recusou minha ajuda.
Ela disse:
— Não tenho muito tempo.
A doença já devia ter se instalado em seu corpo. A mesma doença que havia afligido tantas pessoas que viviam em Emadestrin estava dentro dela também.
— …Mas eu quero que você viva. Mesmo que por um segundo a mais. Então…
Então peguei minha varinha, pronta para tentar curá-la, mesmo que ela não quisesse. Com uma mão agora molhada com seu sangue, segurei minha varinha novamente. Meus dedos tremiam e minha mira estava instável. Minha visão também estava invulgarmente embaçada, e foi aí que percebi que estava soluçando.
Monica balançou a cabeça lentamente para mim. Então ela disse: — Deixe-me descansar por enquanto.
Eu respondi: — …Não posso. Por favor, continue. De agora em diante, para todo o sempre…
Eu queria que ela vivesse para sempre. Queria que ela continuasse viva e vivendo. Implorei para que ela ficasse ao meu lado.
Através dos olhos marejados, a vi balançar a cabeça.
— …Está tudo bem.
Então, acariciando minha bochecha gentilmente com os dedos que também estavam presos por pequenas correntes, ela disse:
— Estar cercada pelas coisas que amo em meus momentos finais… não pode haver felicidade maior do que esta. Está realmente tudo bem. Obrigada.
Com isso, ela sorriu uma última vez.
Eu estava prestes a dizer algo mais a ela. Estava prestes a lançar um feitiço, mas quando estendi minha mão, ela não estava mais comigo.
Ela havia caído em um sono do qual nunca mais acordaria.
Seu rosto parecia um tanto pacífico, uma vez que ela havia entrado em seu longo descanso.
Eu nunca mais ouviria sua voz.
— …Diga alguma coisa…
Ainda assim, eu falei com ela.
— …Diga alguma coisa, por favor…
Mesmo que ela não estivesse mais ali.
— Monica…
Mesmo que ela nunca mais fosse voltar.
— Não me deixe…
Mesmo assim, continuei falando com ela, agarrando firmemente as mãos da garota que eu adorava.
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O resto da história eu ouvi apenas de segunda mão, então não sei o quanto é verdade.
Ouvi dizer que não muito tempo depois da morte de Monica, Emadestrin, uma Cidade Onde as Pessoas Vivem, começou a entrar em colapso. Todos os magos se rebelaram e começaram a eutanasiar as pessoas que haviam adoecido, em imitação a Monica, e a doença se espalhou fora de controle. Esses e outros rumores chegaram aos meus ouvidos, mas, infelizmente, nunca tive a chance de saber o verdadeiro motivo pelo qual a cidade caiu em ruínas.
Isso porque nunca mais me aproximei daquele lugar.
— Temos um pedido de um país ao longo da costa. Você pode lê-lo no caminho, mas certifique-se de dar uma olhada no formulário de inscrição deles.
Como sempre, a Associação Unida de Magia recebia pedidos de países de todo o mundo. E, como sempre, bruxas convenientes como eu muitas vezes recebiam os trabalhos problemáticos. Naquele dia, o pedido que analisei parecia um verdadeiro pé no saco.
Minha professora, Sheila, pareceu entender isso, e amaldiçoou o remetente enquanto entregava o formulário.
— Santo Deus, eles sempre fazem pedidos tão irracionais…
— …Entendido.
Depois de dar uma olhada rápida no papel, guardei-o no bolso. Como Sheila havia dito, eu poderia lê-lo com mais detalhes no caminho.
Eu tinha muito a fazer e pouco tempo, então imediatamente me virei e fui embora.
Esse comportamento deve ter parecido incomum para mim, considerando que normalmente eu não tinha nada além de reclamações.
— …Você está bem?
Ouvi Sheila me chamar por trás.
— ……
Infelizmente, eu não tinha certeza se estava bem. Mas não queria preocupar minha professora…
— Sim.
…então me virei e sorri.
— Estou bem.
Comparado à dor que Monica havia suportado por tanto tempo, estar ocupada com o trabalho não era nada.
Então, é claro que eu estava bem.
Deixei a filial da Associação Unida de Magia e, logo, deixei a cidade.
Pequenas flores brotavam ao lado do portão da cidade.
Seus caules se estendiam retos para cima do chão. No topo dos caules havia flores vermelhas brilhantes, com pétalas abertas como fogos de artifício.
Lírios-da-ressurreição.
As flores onipresentes brotavam das frestas das pedras que cobriam o chão, balançando ao vento.
Tenho certeza de que me lembrarei toda vez que vir aquelas flores.
Lembrarei da garota que floresceu na solidão, mais bonita do que qualquer outra.
Tradução: Gabriella
Revisão: Axios
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