Um dia se passou desde o ataque da Rebelião ao shopping, e uma nova semana havia começado. Isso significava que as batalhas para determinar quais seis alunos representariam a Academia Hagun no Festival de Batalha das Sete Estrelas também haviam começado.
— As batalhas de hoje estão prestes a começar! A lutadora que todos devem ficar de olho hoje é a Blazer Classe B Shizuku Kurogane, bisneta de Ryouma Kurogane!
Um dos membros do clube de transmissão estava elogiando Shizuku, que obteve a segunda maior pontuação nos exames de admissão deste ano.
— Seu adversário será Shigenobu Suga, o cavaleiro de Classe C que derrotou Michiyuki Azuchiyama, representante da Academia Donrou no Festival de Batalha das Sete Estrelas, no torneio interescolar do inverno passado! Ele também é um dos favoritos para se tornar um dos representantes da nossa escola este ano! Será que este veterano do terceiro ano conseguirá derrotar a jovem promessa do primeiro ano, ou será que é hora de uma nova estrela surgir?! Lá está o sinal de início… Uau! Parece que Suga já está entrando em ação!
As espadas gêmeas nas mãos de Suga começaram a crepitar com eletricidade.
— Que azar, estreante! Relâmpago é o elemento mais eficaz contra a água! Azar o seu ter sido pareada comigo na sua primeira partida! Relâmpago Branco!
Suga brandiu ambas as espadas, lançando duas ondas de relâmpagos em direção a Shizuku. Mas ela não se intimidou e permaneceu firme.
— Lótus das Ondas Puras.
Ela usou sua Arte Nobre para erguer uma barreira de cachoeira ao seu redor. A água era um condutor de eletricidade, então Suga tinha certeza de que a barreira de Shizuku não lhe ofereceria nenhuma defesa. No entanto, as ondas elétricas se dissiparam quando colidiram com ela.
— O quê?!
— S-Seu relâmpago não funcionou! Professora Oreki, o que acha disso?! — O locutor entregou o microfone para Oreki, que também estava sentada como comentarista.
— Coff, coff. Isso é porque… é água ultrapura…
— O que é isso?
— A maioria das pessoas presume que a água conduz eletricidade. Mas isso não é verdade. São as impurezas na água, como íons e micróbios, que são condutoras… A água em si é, na verdade, altamente resistente. Em outras palavras, a água purificada atua como um isolante, e não como um condutor… Ultrapura é a água mais purificada que existe, portanto, a eletricidade não consegue passar por ela.
— Entendo… Mas então por que os outros Blazers do elemento água não usam esse truque?
— Não é que não queiram, é que não conseguem. Remover impurezas da água é como tentar peneirar pó de ouro no deserto. É preciso um nível excepcionalmente alto de controle de mana para fazer isso. Se outro cavaleiro tentasse fazer o que Shizuku está fazendo, fritaria o cérebro. Coff, coff. Ela certamente nos mostrou por que ficou em segundo lugar nos exames de admissão… Coff, Coff.
— Whoa! É a terceira vez que tossiu sangue hoje! Você está bem, Professora Oreki?!
— E-Eu estou bem, não se preocupe. Só preciso de outra injeção e ficarei boa como nova. Ahhh, isso é tão boooom…
— Professora Oreki, você não deveria dizer coisas assim enquanto está injetando drogas, mesmo que sejam medicamentos! Tem certeza de que está bem?!
— Mais do que bem… Na verdade, estar doente me deixa feliz, pois isso significa que posso tomar um destes todos os dias.
— Professora, isso é o que chamamos de vício!
Embora o assunto tivesse mudado, Suga agora entendia que ataques elétricos eram ineficazes contra Shizuku.
— Merda. Preciso colocar alguma distância entre nós e…
— Como você vai a algum lugar com seus pés assim? — Shizuku perguntou.
— Hã?!
— Uau! Olha isso! Os pés de Suga foram envoltos em gelo! Ele não vai a lugar nenhum a menos que possa se libertar!
— Prisão da Bolha de Água! — Shizuku apontou Yoishigure para Suga e disparou uma bola de água com trinta centímetros de diâmetro da ponta da lâmina.
A bola atingiu Suga diretamente no rosto e ficou lá, envolvendo sua cabeça inteira na água. Ele agarrou desesperadamente a bolha de água, mas, sem surpresa, seus dedos apenas escorriam impotentes pela água. Afinal, era impossível agarrar algo que não era sólido. Seus esforços foram enfraquecendo com o tempo, até que, finalmente, ele soltou um suspiro.
— Gah…
Quando a água entrou em seus pulmões, os braços de Suga caíram sem força ao lado do corpo. Shizuku então o libertou da bolha de água, e ele caiu no chão.
— Shigenobu Suga está fora de combate! A vencedora é Shizuku Kurogane! — gritou o árbitro, sinalizando o fim da luta.
— E parece que Shizuku Kurogane conquistou sua primeira vitória! Suas habilidades superiores permitiram que ela superasse de forma esplêndida a desvantagem de tipagem — gritou o locutor.
— Não foi uma luta tão difícil assim — murmurou Shizuku. Ela olhou para as arquibancadas e viu Ikki acenando alegremente para ela. Depois de acenar de volta, olhou para o painel gigante pendurado acima da arena para verificar a hora.
Acho que a luta dela também deve estar se encerrando agora.
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Na mesma hora, outra batalha estava acontecendo no sétimo campo de treinamento. Essa tinha quatro vezes mais espectadores do que o décimo quinto campo de treinamento, onde Shizuku havia lutado. O motivo era o fato de que era lá que Stella Vermillion, a prodígio que só aparece uma vez a cada década e que todos chamavam de a novata número um, estava lutando. Além disso, essa era sua primeira luta oficial.
— Você consegue, Momotani!
— Ninguém pode vencê-lo em uma luta de perto!
— Mostre àquela Princesa o que nós do terceiro ano podemos fazer!
— Os aplausos da multidão são esmagadoramente a favor de Momotani, o lutador que todos comparam a um tanque pesado! Parece que ele ainda é o cara mais popular da escola! Será que vamos vê-lo mais uma vez nocautear seu oponente para fora do ringue usando seu golpe característico?! Ele é um dos raros Blazers cujo Dispositivo – Goliath – se manifesta como uma armadura em vez de uma arma, e sua carga com força total é realmente algo digno de se ver!
O primeiro adversário de Stella era Takeshi Momotani, um gigante imponente com 190 centímetros de altura e amado por todos na escola. Seu Dispositivo era uma armadura completa que o cobria da cabeça aos pés e, no momento em que o gongo soou para sinalizar o início da batalha, ele se agachou e se preparou para atacar. No entanto, ele continuava na mesma posição e não dava sinais de que realmente iria investir.
— O que há de errado, Momotani?! Acabe com ela como fez com todos os outros!
— Ela perdeu para um Classe F! Você consegue!
Os aplausos e vaias de seus colegas de classe não chegaram aos ouvidos de Momotani.
Como diabos vou conseguir derrotar alguém assim?
Momotani estava encolhido diante do oceano de chamas que Stella havia conjurado. Ela estava usando uma manta flamejante e havia um anel de fogo ao seu redor. O calor das chamas era tão intenso que o estava assando através de sua armadura, mesmo estando a mais de dez metros de distância.
Agora que estava cara a cara com ela, podia sentir a imensa energia que Stella irradiava passivamente. Tentar enfrentá-la seria como se jogar dentro de um prédio em chamas.
— Parece que você entende a situação muito melhor do que os tolos despreocupados nas arquibancadas — disse Stella, observando a expressão de Momotani. — Esta é uma batalha real. Ao contrário de quando lutamos com nossos Dispositivos na forma fantasma, você se queimará se pular nessas chamas. Pense muito bem antes de agir.
Stella percebeu suas intenções, e Momotani baixou os ombros.
— Eu desisto.
— P-P-P-P-Puta merda! Momotani desistiu da luta sem dar um único passo!
— Bwa ha ha! Cara, isso é ridículo! Mas foi uma escolha inteligente — disse uma pequena professora vestida com um quimono vermelho, rindo. Ela estava sentada na cabine dos comentaristas ao lado do locutor. Era difícil dizer se estava elogiando Momotani ou zombando dele.
— O que quer dizer com isso, Professora Saikyou?
— Quero dizer que não havia como Momotani vencer! Se alguém lhe dissesse para pular em um vulcão, você faria isso? Claro que não! Mas mesmo assim, é muito covarde desistir sem nem mesmo dar um passo! Aha ha ha ha!
— Hum, P-Professora Saikyou? Você não precisa ser tão dura… — disse o locutor, olhando para Momotani com simpatia.
— Bwa ha ha ha. Cara, aquela garota é assustadora pra caramba. Eu também fugiria dela. Na verdade, acho que vou fazer isso agora mesmo.
Saikyou se levantou e saiu correndo da cabine do locutor.
— Ei, espere! Professora Saikyou, ainda há partidas hoje! Caramba, quem a convidou para ser a comentarista de hoje?!
Que comentário desleixado, pensou Stella, soltando um pequeno suspiro ao sair do ringue.
— Oh! Acabamos de receber a notícia de que Shizuku Kurogane, que estava lutando no décimo quinto campo de treinamento, derrotou Shigenobu Suga, do terceiro ano! — disse o locutor enquanto Stella se dirigia para a saída.
Bem, eu não esperava que ela perdesse para um oponente tão fraco de qualquer maneira.
— Os calouros deste ano são muito fortes! Eles dominaram completamente os veteranos do terceiro ano contra os quais foram colocados para lutar, vencendo suas partidas de estreia sem levar um único arranhão! Talvez tenhamos uma chance de vencer o Festival da Batalha das Sete Estrelas este ano!
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— Parabéns, Stella — disse Ikki quando Stella voltou para o dormitório.
— H-Hmph. É natural que eu ganhe.
Apesar de seu tom, Ikki podia dizer por sua expressão que ela estava feliz por ser elogiada.
— Ouvi dizer que seu oponente se rendeu sem lutar.
— Isso porque fiz minhas chamas queimarem ainda mais forte do que o normal.
— É uma pena que eu não pudesse estar lá. Gostaria de ter visto isso.
— Eu também gostaria que você tivesse visto… — Stella murmurou.
— Hmm? O que foi?
— N-Nada! De qualquer forma, não é culpa sua. As lutas da Shizuku e as minhas simplesmente aconteceram no mesmo horário. Mas é melhor você vir me assistir da próxima vez!
— Claro. A propósito, por que voltou tão tarde?
— A batalha foi uma decepção tão grande que fui à academia para desabafar um pouco.
— Entendi. Mas estou feliz que você, Shizuku e Alice tenham vencido suas primeiras partidas.
A batalha de Alisuin aconteceu logo após a de Shizuku, no mesmo campo de treinamento. Ela derrotou sua oponente, uma aluna do segundo ano de Classe E, em menos de dez segundos após o início da batalha. Embora seus poderes não fossem adequados para duelos ao ar livre, era forte o suficiente para ter sido escolhida como colega de quarto da Shizuku.
— Vi como os poderes da Alice eram versáteis durante o incidente da Rebelião, mas ainda é surpreendente o quão desagradável o seu ataque pode ser. Embora não possua grande poder de fogo, ela tem muitos truques na manga. Agora que penso nisso, esse é provavelmente o tipo de estilo de luta com o qual você teria mais dificuldade, não é, Stella?
— Não pretendo perder para ninguém, independentemente da minha compatibilidade com eles. De qualquer forma, não deveria estar mais preocupado consigo mesmo neste momento, Ikki?
— Ahaha, acho que sim.
Sorrindo sem jeito, Ikki voltou a se concentrar na TV. Ele estava assistindo a um vídeo enquanto esperava Stella voltar para o quarto. Era uma gravação de uma das lutas de Shizuya Kirihara do ano anterior.
— Este vídeo ainda? Você tem assistido várias vezes desde a noite passada.
— Sim. Estou tentando ter uma ideia de seus padrões de respiração enquanto ainda posso.
Este vídeo era um dos materiais de pesquisa que pegou emprestado de Kagami Kusakabe, a presidente do clube de jornalismo. Especificamente, era da primeira batalha de Kirihara no Festival de Batalha das Sete Estrelas. Seu oponente parecia estar parado enquanto ele caminhava no sentido horário ao seu redor, atirando livremente em todos os ângulos. Ele não estava fazendo nada além de olhar em volta confuso enquanto flechas de luz o perfuravam por todos os lados. Por fim, caiu no chão ensanguentado, derrotado.
Embora Kirihara estivesse bem na frente do rosto de seu oponente, ele não conseguiu fazer nada. A razão para isso era porque não podia realmente vê-lo.
— Ele consegue apagar completamente sua presença com sua Área Invisível, ocultando seu cheiro e tornando-se invisível. É a técnica de camuflagem perfeita, e ele consegue usá-la graças ao seu Dispositivo, Oborotsuki. É uma habilidade difícil de lidar.
— Não posso dizer que sou fã do estilo de luta dele. — Stella olhou com desdém para a tela da TV. Não era uma batalha muito agradável de assistir, então Ikki podia simpatizar.
Honestamente, parecia mais uma caçada do que uma batalha. Kirihara nunca saiu da segurança de sua camuflagem e conseguiu abater sua presa sem nunca se expor ao perigo.
— Mas é a maneira certa de lutar quando se tem um poder como esse. Graças ao seu estilo de luta, ele não levou um único golpe nas batalhas do ano passado. No fim das contas, o Kirihara é forte.
— Espera, isso não faz sentido. Ele disse que participou no Festival de Batalha das Sete Estrelas, mas não foi o Soberano do ano passado. Isso não significa que perdeu em algum momento?
— Sim, ele perdeu sua segunda partida. Mas apenas porque desistiu da batalha.
— Por quê?
— Ele não lutará contra ninguém que consiga superar sua Área Invisível. Claro, é uma habilidade poderosa, mas há uma maneira infalível de acertá-lo: ataques de longo alcance. Kirihara nunca vai lutar contra um cavaleiro que consiga acertar a arena inteira com seus poderes. Por exemplo, você provavelmente conseguiria cobrir todo o ringue com chamas, certo, Stella?
— Ah, sim, acho que faz sentido. Não importa que você esteja invisível se não há nenhum lugar seguro para onde fugir.
— Exatamente. É por isso que ele definitivamente desistiria se tivesse que lutar contra você. Não é uma atitude muito cavalheiresca, mas foi exatamente assim que ele ganhou o apelido de “o Caçador”.
— Hmph, que apelido ridículo. Ele só luta contra adversários que pode derrotar e, além disso, brinca antes de acabar com eles. É um covarde. — Uma coisa era ficar em um lugar seguro usando suas habilidades de camuflagem. Afinal, era assim que seu poder funcionava. No entanto, ficou claro ao assistir à partida na TV que Kirihara estava evitando propositalmente áreas vitais com seus golpes para poder atormentar seu adversário pelo maior tempo possível. — Mas… entendo por que disse que ele seria o pior adversário para você enfrentar.
— Sim, ele é como minha criptonita.
A única maneira de superar a Área Invisível era atacar toda a arena de uma só vez. Mas Ikki não tinha como fazer isso. Sua habilidade com a espada era incomparável, ele havia treinado até atingir o auge da forma física e conhecia todos os tipos de técnicas de artes marciais, mas, no fim das contas, só conseguia atacar a curta distância. O alcance de sua katana era a extensão máxima que ele conseguia atingir com um único golpe.
Para piorar a situação, o dispositivo de Kirihara, Oborotsuki, era um arco. Era certo que Kirihara teria a iniciativa, já que possuía uma arma de longo alcance.
Além disso, Ikki só podia usar seu trunfo, Ittou Shura, uma vez por dia, e durava apenas sessenta segundos. Ele teria muita dificuldade em lidar com Kirihara, que era habilidoso em fugir.
— Você vai ficar bem, Ikki? — perguntou Stella enquanto observava o adversário derrotado de Kirihara ser carregado numa maca. Ela não pôde deixar de pensar na possibilidade de Ikki acabar no mesmo estado amanhã.
— Está preocupada comigo? — a pergunta de Ikki fez Stella corar.
— Por que eu deveria me preocupar com você?! O que me preocupa é que, se perder, terei que me tornar namorada daquele idiota! Já é ruim o suficiente ser sua criada, mas eu nunca, jamais, quero ser mulher daquele cara!
— Foi você quem fez essa aposta, então, por favor, não tente colocar a culpa em mim. Eu tentei te impedir.
— Mrr… Mas… eu não aguentei ele estar tirando sarro de você — Stella murmurou a última parte tão baixinho que Ikki não a ouviu.
— Hmm? Mas o quê?
— N-Não é nada!
Stella desviou o olhar timidamente. Embora Ikki não tivesse conseguido entender o que ela havia dito, percebeu que estava torcendo fervorosamente pela sua vitória.
— Hmm. Bem, não preciso que ele peça desculpas, mas se eu perder, as pessoas podem começar a pensar que você é fraca por ter perdido para mim, e eu definitivamente não quero isso. Então, vou garantir que vou ganhar.
— Você tem um plano?
— Sim — respondeu Ikki sem hesitar. — Eu descobri como vencer aquela Arte Nobre.
No ano passado, Kirihara tinha sido o melhor calouro. Suas conquistas foram tão impressionantes que ele foi escolhido para ser um dos representantes da Academia Hagun no Festival de Batalha das Sete Estrelas, apesar de ainda ser calouro. Mas, ao mesmo tempo, ele não passou da segunda rodada do torneio. Se Ikki não conseguisse nem mesmo derrotá-lo, não teria esperança de alcançar o auge da posição de cavaleiro. Afinal, os seis alunos com os melhores resultados nas partidas de seleção seriam escolhidos como representantes deste ano.
Oreki havia dito a todos que haveria mais de dez batalhas por pessoa. Nesse caso, o número máximo absoluto de batalhas que alguém poderia travar seria cerca de vinte, o que ainda era um número pequeno o suficiente para que mais de alguns cavaleiros tivessem sequências de vitórias perfeitas. Ikki suspeitava que ficaria fora da disputa se perdesse mesmo que fosse uma única batalha. Se isso acontecesse, a chance que finalmente lhe fora concedida após anos de paciência seria desperdiçada.
— Com certeza vou vencer. Prometo — disse Ikki com confiança, fazendo essa promessa mais para si mesmo do que para Stella. Sua expressão pareceu tranquilizá-la, e ela assentiu com a cabeça.
Na verdade, antes de Stella voltar para o dormitório, Alisuin Nagi a chamou. Alisuin estava preocupada que Ikki pudesse estar ficando nervoso antes de sua primeira partida e pediu-lhe que o ajudasse a relaxar, se pudesse. Mas depois de ouvi-lo agora, ela tinha certeza de que ficaria tudo bem. Ele não estava nem um pouco com medo da batalha que se aproximava e, se fosse esse o caso, sua vitória estava garantida. Afinal, Stella sabia melhor do que ninguém o quão forte ele era.
— Ótimo. Ele jogou a toalha, então agora você tem que derrotá-lo.
— Acho que você quer dizer “jogou a luva”.
O Stella era muito fluente, mas ela ocasionalmente bagunçava expressões aqui e ali.
— De qualquer forma, vamos jantar, Ikki. Estou morrendo de fome.
— Sim. Acho que já obtive tudo o que podia deste vídeo. Vamos embora.
— Os japoneses sempre comem tonkatsu curry antes de lutas importantes, certo?
— Er, na verdade não. Vou apenas comer udon no jantar, como sempre faço.
Os dois caminharam até o refeitório, conversando sobre assuntos menos importantes. E assim, o dia antes da primeira partida de Ikki terminou sem intercorrências.
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“Sinto muito, Kurogane. Acho que não posso mais ser sua amiga.”
— Whuh?!
Os olhos de Ikki se abriram repentinamente. Ainda era bem antes do amanhecer, mas tinha acabado de ter um pesadelo terrível. Ele abriu os punhos e percebeu que suas palmas estavam suadas.
Por que de repente tive um sonho sobre o que aconteceu no ano passado? E por que agora, justamente agora? Aquelas palavras ainda ecoavam em seus ouvidos, e Ikki não sentia que conseguiria voltar a dormir. Mas ainda é muito cedo para sair para correr.
Decidindo que precisava de um pouco de ar fresco, Ikki saiu silenciosamente do beliche de cima, tomando cuidado para não acordar Stella, e saiu do quarto. Era o final de abril, e o ar antes do amanhecer tinha um frio forte que parecia ótimo contra sua pele suada.
— Sério, por que eu me lembrei dessa história toda agora? — Ikki pensou consigo mesmo. Ele não tinha ideia do porquê seu subconsciente lhe enviou aquele sonho.
“Ouvi dizer que o diretor fica bravo se conversamos com ele.”
Em algum momento, rumores dessa natureza começaram a se espalhar sobre Ikki. Ele era o único aluno que não tinha permissão para assistir às aulas. A razão aparente era que era perigoso ensinar alguém tão carente de poder, mas isso era apenas uma desculpa. Qualquer pessoa que conhecesse os professores da escola teria percebido isso apenas observando como reagiram à notícia. Independentemente disso, espalharam-se alegações de que conviver com ele teria um impacto negativo nas notas, então as pessoas começaram a evitá-lo.
— Pensando bem, aquele episódio em particular aconteceu bem ali, não foi?
Ikki olhou para o pátio gramado pela janela do corredor. Foi mais ou menos na época em que todos, exceto seu colega de quarto, pararam de falar com ele, que uma certa pessoa o chamou enquanto ele almoçava nesse gramado, numa tarde. Essa pessoa era Shizuya Kirihara. Ele era o novato promissor do ano e conseguiu se tornar um dos representantes da escola no Festival de Batalha das Sete Estrelas, apesar de ser apenas um calouro.
Mesmo naquela época, Ikki não gostava muito dele. A maioria dos alunos mantinha distância de Ikki principalmente para evitar problemas com sua família. Kirihara, no entanto, fazia questão de tratá-lo muito mal. Ele nunca o atacara fisicamente, mas constantemente o insultava em público e espalhava boatos que manchavam sua boa reputação.
No início, Ikki se perguntou por que Kirihara tinha algo contra ele, já que não achava ter feito nada para desagradá-lo. E a verdade era que não tinha feito nada de errado; apenas era a única pessoa na escola que ninguém defendia. Não havia necessidade de temer qualquer tipo de retaliação por implicar com ele, e Kirihara era uma das muitas pessoas no mundo que adoravam tirar proveito disso.
Em outras palavras, Kirihara sempre foi um idiota com Ikki porque sempre foi um idiota em geral. Quando se aproximou dele naquela tarde, Ikki sabia que seria algo ruim — e estava certo.
“Levará uma vida inteira para que os professores reconheçam sua força apenas fazendo o que dizem e sendo um bom aluno. Você sabe disso, certo? Então, que tal nós dois duelarmos?”
Se Ikki derrotasse um dos representantes do Festival de Batalha das Sete Estrelas, a direção da escola seria forçada a aceitar que ele era digno de ser um cavaleiro. À primeira vista, a sugestão de Kirihara parecia boa, mas ele sabia que não poderia aceitá-la. Lutar sem a permissão de um professor era contra as regras da escola. Se Ikki desse um passo fora da linha, sabia que o diretor, que tinha fortes laços com a família Kurogane, o expulsaria na hora.
Naturalmente, a expulsão de Ikki era exatamente o que Kirihara queria. Na verdade, havia vários professores por perto quando Kirihara confrontou Ikki, todos trabalhavam com o diretor. Nenhum dos professores gostava dele e provavelmente até encorajaram Kirihara a desafiá-lo. Percebendo isso, Ikki recusou e tentou ir para outro lugar. No entanto, Kirihara o impediu.
“Vamos lá, não seja tão frio. Somos colegas de classe, não somos? Estou preocupado com você.”
Kirihara então acionou Oborotsuki e atirou nele. Ikki não só recusou o convite para o duelo, como também não preparou seu próprio Dispositivo.
— Cara, isso foi realmente chocante…
O que Kirihara tinha feito foi surpreendente, mas o que foi ainda mais chocante foi que ninguém o repreendeu. Nem os alunos nem os professores intervieram para dizer alguma coisa a ele. Foi então que Ikki percebeu o quanto estava sozinho na escola.
Na verdade, os professores esperavam que Ikki mordesse a isca de Kirihara para que pudessem expulsá-lo. A família Kurogane havia pedido à Academia Hagun para não permitir que Ikki se tornasse um Cavaleiro Mágico de pleno direito, e expulsá-lo teria sido a maneira mais rápida de conseguir isso. É claro que Ikki sabia disso, e foi por isso que se recusou a invocar Intetsu, apesar das dezenas de flechas que Kirihara havia disparado. Esquivar-se poderia ser interpretado como aceitar o desafio de Kirihara, então também não tentou fazê-lo.
Depois de um tempo, Ikki havia sido atingido por tantas flechas que perdeu a consciência. Mas como as imagens da câmera provaram que não havia demonstrado qualquer intenção de lutar, os professores não puderam puni-lo formalmente. Enquanto isso, Kirihara se safou com uma advertência severa, confirmando que ele realmente estava envolvido com o diretor anterior da escola.
— Cara, olhando para trás, aquele ano realmente foi o pior.
Esse tinha sido apenas o começo das tribulações de Ikki. O assédio só piorou a partir daí.
No início, alguns alunos sentiam pena dele. No entanto, eles foram engolidos pela atmosfera opressiva criada por Kirihara e alguns professores e, em determinado momento, passaram a tratar o bullying como algo normal e aceitável na vida. No final, até mesmo o colega de quarto de Ikki, o único amigo que ele fizera na escola, o abandonou.
Na época, Ikki nem estava zangado. Apenas lamentava ter causado tantos problemas ao seu colega de quarto. Os dois não se falavam desde então, e Ikki decidiu que não seria ele a mudar isso. E embora seu agora ex-colega de quarto fosse um cara legal que não era capaz de ignorar Ikki quando conversava com ele, passou para a série seguinte, enquanto Ikki teve que repetir o ano. Como resultado, era cada vez menos provável que se vissem.
— Mas ainda assim, por que eu tive esse sonho?
Tudo isso agora era passado. Ikki havia deixado de se incomodar com isso a ponto de esquecer a maior parte do que havia acontecido, até ter aquele pesadelo.
Então, por quê? Será porque conversei com o Kirihara novamente recentemente? Bem, não adianta se preocupar com isso.
Nada disso importava mais. O antigo diretor havia sido demitido e não havia mais nada impedindo o caminho de Ikki. Tudo o que ele precisava fazer era apresentar resultados.
De repente, o sol espiou no horizonte, e uma luz quente e dourada iluminou o rosto de Ikki. Ele apertou os olhos um pouco. Era o amanhecer do dia de seu duelo. Hoje, ele seria testado até seus limites.
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Durante o período em que as partidas de seleção estavam sendo realizadas, os alunos tinham aulas apenas pela manhã, com as tardes e noites dedicadas às batalhas. O duelo de Ikki seria realizado às 13h30, um dos horários mais cedo do dia. Como não tinha certeza se conseguiria digerir um almoço adequado a tempo para a batalha, ele tomou um suplemento nutricional em gelatina. Assim que terminou, dirigiu-se ao quarto campo de treinamento, onde sua partida seria realizada, junto com Stella, Shizuku e Alisuin.
Ainda era 13h, e a partida que aconteceria antes da de Ikki já estava bem avançada. Os lutadores precisavam se apresentar na sala de espera dez minutos antes da partida, então Ikki ainda tinha vinte minutos para matar, e assistir a algumas outras partidas com seus amigos não seria uma má maneira de fazer isso. Na verdade, era isso que Stella e Shizuku estavam planejando fazer.
— Eu sei que é cedo, mas vou para a sala de espera.
— Hã? Você não quer ver nenhuma das outras partidas?
— Não, quero me concentrar na minha própria batalha. — Ikki já estava começando o processo de ajustar sua condição e mentalidade para lidar melhor com os ataques de Kirihara. Ele não queria que esse delicado processo fosse perturbado por assistir às batalhas de outras pessoas. — Vejo vocês mais tarde.
— Eu acredito em você, querido irmão. Sei que pode vencer isso — disse Shizuku calmamente.
— Como eu disse ontem, você já me venceu, então é melhor não deixar esse perdedor te vencer — acrescentou Stella.
— Tenha cuidado — disse Alisuin, parecendo preocupada.
Ikki acenou com a cabeça para as três, depois foi para a sala de espera.
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— Ikki Kurogane, da classe 1-1. Verifiquei sua identidade, então você pode ter seu tablet de volta.
A senhora da recepção segurou o tablet de Ikki sobre um terminal de computador, preencheu um pequeno formulário e devolveu-lhe o tablet.
— Como esta é sua primeira batalha, vou explicar as regras. Assim como as batalhas do Festival de Batalha das Sete Estrelas, esses são duelos um contra um com seus Dispositivos invocados em suas formas verdadeiras. Não há limite de tempo, mas você pode desistir a qualquer momento. Não é permitido mudar seu Dispositivo para a forma fantasma no meio da batalha. Por causa disso, em casos raros, esses duelos podem ser fatais. Naturalmente, os professores e funcionários estão aqui para garantir que isso não aconteça, e o árbitro intervirá se a situação parecer perigosa, mas esteja ciente de que tudo pode acontecer em um duelo e não há garantia de que você sobreviverá.
Com Ikki agora ciente dos termos de seu envolvimento, a recepcionista continuou a garantir que ele os aceitasse.
— Se ainda quiser participar apesar dos riscos, pressione “Sim” no seu tablet. Caso contrário, pressione “Não”. Saiba que, se recusar uma única vez, não poderá participar de mais nenhuma partida e perderá o direito de se tornar um dos representantes da Academia Hagun para o Festival de Batalha das Sete Estrelas.
Ikki, é claro, pressionou “Sim” sem hesitar.
— Bwa ha ha! Esse é o espírito, garoto.
— Hã?
Ikki se virou e viu uma mulher pequena vestindo um quimono branco com um haori vermelho com estampa floral por cima. O quimono era claramente grande demais para ela e, embora tivesse as características de uma menina pequena, ela não era uma estudante. Ikki também a conhecia.
— Você é… Nene Saikyou, certo?
— Oh? Você já ouviu falar de mim?
— Acho que todos nesta escola já ouviram falar da famosa Princesa Demônio. Você representou o Japão nas Olimpíadas no ano passado e também é membro da liga RdC.
RdC significava Rei dos Cavaleiros, uma competição de blazers de alto nível que era realizada regularmente. Era o esporte mais assistido da atualidade, e as empresas pagavam mais de três trilhões de ienes por ano para garantir os direitos exclusivos de transmissão.
A liga principal era, como o nome sugeria, a liga mais competitiva do esporte, e todos os aprendizes de Cavaleiro Mágico conheciam o atleta mais famoso de toda a Ásia Oriental.
Saikyou também era famosa por ser desleixada em casa, algo que os programas sensacionalistas adoravam comentar sempre que podiam. No entanto, ninguém nunca disse isso na cara dela.
— O que uma profissional como você está fazendo aqui? — Ikki perguntou.
— Eu vim aqui para encontrá-lo, Ikki Kurogane — respondeu Saikyou.
— Para quê?
— Bem, eu queria ver como era o Classe F da Kuuzinha – que é a Shinguuji, a propósito – que tem sido tão elogiado.
— Tudo bem… Mas eu achava que pessoas de fora não podiam entrar no recinto da escola.
— Sem problemas. Não sou uma estranha. Depois que a Kuuzinha demitiu todos os idiotas inúteis, precisava de novos funcionários para substituí-los. Como somos amigas, estou ajudando-a e dando aulas sempre que tenho tempo livre. Até tirei minha licença de professora e tudo mais.
— Ah, entendi. — Ikki tinha ouvido falar sobre como Kurono havia demitido todos os professores que cooperavam com o antigo diretor, então fazia sentido que ela precisasse de novas pessoas para preencher esses cargos.
— Além disso, ensinar aqui me permite pegar todos os garotinhos fofos… Oh, espere, eu não deveria ter dito isso. Finja que não ouviu nada.
— E-Entendi.
— Bwa ha ha. Sou fã de garotos inteligentes e corajosos como você. Como só é permitido lutar com seus Dispositivos na forma fantasma até chegar ao ensino médio, há muitas crianças que se acovardam quando precisam lutar de verdade pela primeira vez.
Em um duelo real, era inevitável que as pessoas se machucassem. A liga
RdC, da qual Saikyou fazia parte, muitas vezes tinha lutas em que as pessoas perdiam braços ou pernas. Cerca de dez minutos em uma cápsula iPS eram mais do que suficientes para curar essas feridas, mas, sem surpresa, muitas pessoas ainda relutavam em entrar em um mundo tão cruel e sangrento. Nesse aspecto, Ikki compreendia por que os novos alunos às vezes hesitavam antes de concordar com um duelo real.
— É muito legal como você acabou de apertar “Sim” sem pensar duas vezes — acrescentou Saikyou.
— A dor é algo para o qual estou preparado desde o momento em que decidi que queria me tornar um Cavaleiro Mágico.
— A maioria das pessoas desiste mesmo quando pensa que está preparada. Não é de admirar que a Kuuzinha tenha grandes esperanças em você. Na verdade, agora que estou olhando mais de perto, seu rosto é bem bonito, garoto.
Em uma fração de segundo, Saikyou passou de estar a dois metros de distância de Ikki para estar bem na frente dele.
— Whoa. — Ele ficou tão surpreso que alguém tivesse conseguido se aproximar dele tão rapidamente que não teve tempo de reagir.
Saikyou se pressionou contra ele e olhou nos seus olhos. — O que você acha de vir ao meu quarto hoje à noite para algumas aulas especi…
— O que você pensa que está fazendo com meu aluno? — disse Kurono Shinguuji em tom ameaçador, entrando com passos pesados na sala de espera. Como sempre, ela estava usando um terno.
— Whoa, é a Kuuzinha. Você realmente tem que parar de aparecer atrás de pessoas assim. Eu quase te matei por acidente.
— Como se você pudesse me matar. Enfim, o que está fazendo aqui? Pensei que fosse ser a comentarista do quarto campo de treinamento.
— Ah, sim. Mas todos as lutas foram tão chaaaatas. Ainda falta algum tempo para a próxima partida, então aproveitei para ir ao banheiro e decidi dar uma olhada no seu protegido favorito.
— E-Ele não é o meu favorito! — Kurono deu uma pancada na cabeça de Saikyou e depois se virou para Ikki, parecendo um pouco envergonhada. Ele nunca a tinha visto tão nervosa antes. — Desculpe por isso, Kurogane. Espero que não tenhamos quebrado sua concentração.
— T-Tudo bem. Foi um pouco inesperado, mas vou ficar bem.
— Vou colocar essa criatura de volta no lugar dela, então não se preocupe com nada do que ela disse. Volte para o seu lugar de comentarista, sua descarada!
— Ok, eu entendi! Pare de puxar meu quimono! Essa roupa é cara, sabia!
Kurono arrastou a relutante Saikyou para fora da sala de espera. Quando saíram, Ikki chamou Saikyou. — Desculpe, mas vou ter que recusar seu convite. Pretendo fazer uma festa com meus amigos hoje à noite para comemorar minha primeira vitória. — Ele mais uma vez afirmou sua intenção de vencer este duelo.
— Bwa ha ha ha. Bem, se você tem planos, então não tem jeito. Mas, em troca, é melhor que sua luta seja interessante, já que eu estarei comentando ela.
Saikyou sorriu e apontou para Ikki, depois correu atrás de Kurono, com suas geta tengu batendo no chão.
Ela é… uma pessoa difícil de entender. No entanto, Ikki conseguiu perceber, mesmo em seu breve encontro, que ela era forte. Eu nem percebi quando a distância entre nós diminuiu.
Essa foi a primeira vez que alguém conseguiu se aproximar de Ikki sem que ele percebesse. Ela claramente usou algum tipo de técnica especial de caminhada. No entanto, não fazia ideia de qual escola de artes marciais ensinava uma técnica como essa.
— Espere, não é hora de pensar nisso. Preciso me concentrar na minha próxima partida.
Embora a capacidade de se aproximar de alguém que esteja vendo sem que essa pessoa perceba tenha despertado a curiosidade de Ikki, era claramente uma técnica muito complexa para dominar e usar em combate imediatamente. Nesse caso, ele poderia pensar nisso mais tarde. No momento, precisava se concentrar na batalha que tinha pela frente.
Ikki entrou na sala de espera e olhou ao redor. Havia alguns armários e bancos na sala, e um espelho de corpo inteiro em uma das paredes. Fora isso, era tão simples quanto poderia ser. No entanto, a pequena porta do outro lado parecia muito mais ameaçadora do que sua aparência sugeria. A razão para isso era que, além daquela porta, era onde a primeira batalha oficial de Ikki seria realizada.
Finalmente cheguei até aqui. Por fim, Ikki deu o primeiro passo para se tornar o Soberano das Sete Estrelas, o maior de todos os cavaleiros estudantes.
A jornada até este primeiro passo foi longa e dolorosa. Ele perdeu sua família, um ano de sua vida e todos os seus amigos. Mas recusou-se a desistir e continuou avançando apesar de todas as adversidades e, como resultado, estava ali hoje.
Do outro lado daquela porta estava a arena onde Ikki lutaria contra Kirihara. Finalmente havia chegado a hora de ver se seu trabalho árduo daria frutos ou se teria sido em vão.
*Tudum*
— Hã?
O coração de Ikki começou a bater forte.
O que… é isso?
Sua visão ficou embaçada, fazendo tudo parecer uma pintura em tons pastéis.
O que está acontecendo com meu corpo? O que está acontecendo comigo?
Ikki não conseguia descobrir o que estava acontecendo, mas notou que estava com muita sede.
Ah, sim, água. Se eu beber um pouco de água, eu vou…
Ele pegou a garrafa de água que havia trazido e começou a destampá-la. Mas suas mãos não estavam funcionando direito e, ao tirar a tampa, ele perdeu o controle tanto da tampa quanto da garrafa. Elas caíram no chão, derramando água em seus sapatos.
Eu tenho que limpar isso. Mas com o quê? Espera, o que estou fazendo?
De qualquer forma, preciso pegar um pouco de água antes…
— Ikki Kurogane do primeiro ano. Shizuya Kirihara do segundo ano. Por favor, dirijam-se para a arena. É hora da sua luta.
— Whuh?!
A voz do locutor trouxe Ikki de volta à realidade. Ele olhou para o relógio e viu que eram 13h30. Embora tivesse certeza de que havia chegado cedo, já era hora de sua luta.
Há quanto tempo estou aqui?
—Ngh…
Será que estou realmente nervoso? Ok, acalme-se.
Ikki colocou a mão no coração e se obrigou a respirar fundo. Ele passou muito tempo assistindo a vídeos das batalhas de Kirihara e memorizou os movimentos e padrões de respiração do oponente. Também analisou a força das flechas de Kirihara e os ângulos que preferia para atirar. Além disso, planejou uma estratégia para romper a Arte Nobre de Kirihara, Área Invisível. Tendo simulado a batalha em sua mente inúmeras vezes, sabia que seu corpo seria capaz de fazer o que precisava.
Vai ficar tudo bem, só tenho que fazer o que pratiquei. E então, eu vou vencer.
Se conseguisse vencer aqui, isso justificaria todo o sofrimento que havia suportado até agora. Significaria que nada disso tinha sido em vão. Tentando acalmar os batimentos cardíacos, Ikki disse a si mesmo que seus esforços seriam recompensados e dirigiu-se para a porta.
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— Muito bem, pessoal, isso encerra nossa terceira luta do dia! A quarta luta começará em breve, e vejo que temos uma grande multidão! Parece que todos querem ver como essa batalha vai acabar! Sou Tsukuyomi, do clube de transmissão, e estarei comentando esta luta ao lado de nossa convidada especial, professora Nene Saikyou!
Tsukuyomi continuou as apresentações pré-batalha.
— Agora, vamos conhecer nossos lutadores! Em primeiro lugar, temos um dos representantes do ano passado no Festival de Batalha das Sete Estrelas, Shizuya Kiriharaaa! Ele não só foi selecionado como representante ainda no primeiro ano, como também dominou completamente seu adversário na primeira partida do torneio, um aluno do terceiro ano da Academia Bunkyoku que era considerado um dos principais candidatos ao título! Sua política é nunca lutar batalhas que não possa vencer e, como resultado, venceu todas as partidas que disputou! Ele fez isso sem sofrer nenhum dano, o que lhe rendeu o apelido de “o Caçador”!
Kirihara acenou para a multidão quando o locutor o apresentou. Muitas das garotas nas arquibancadas gritaram de alegria enquanto ele olhava para elas.
— Como sempre, Kirihara é muito popular entre as mulheres. E não é de se admirar! Basta olhar para o quão bonito ele é!
— Mas prefiro os meus rapazes um pouco mais selvagens…
— Ninguém se importa com suas preferências, Professora Saikyou.
— Grossa.
Parece que Tsukuyomi estava ressentida pelo fato de Saikyou ter abandonado suas funções de comentarista no meio das partidas do dia anterior.
— E agora, vamos apresentar o cavaleiro de Classe F que será o adversário do Caçador! Apesar de sua classificação, seria perigoso subestimá-lo! Este combatente de Classe F em particular é o mesmo Ikki Kurogane que derrotou Stella Vermillion, a famosa Princesa Carmesim, de Classe A, em uma batalha simulada! Então, sua força é real?! Ou ele é realmente o Pior como todos acreditam?! Descobriremos hoje!
Ikki fez uma reverência para os espectadores e entrou no ringue.
Tem tanta gente assistindo…
Era a primeira vez que lutaria diante de uma plateia tão grande, e isso tornava ainda mais difícil para manter a calma. Ele se sentia como se estivesse ocupando o corpo de um estranho — como se estivesse se dissociando de si mesmo. Era como se houvesse uma névoa sobre seu cérebro, fazendo com que ele tivesse dificuldade para pensar direito.
— Não achei que você fosse realmente aparecer — disse Kirihara com arrogância. — Mesmo tendo fugido da última vez que eu gentilmente lhe ofereci um duelo.
— A situação era diferente naquela época — respondeu Ikki.
— Foi mesmo? Bem, tanto faz. Visto que você entrou nesta arena, presumo que esteja preparado para o que está por vir?
— Realmente precisa que eu soletre para você?
— Não, obrigado.
Os dois estavam em suas respectivas posições iniciais.
— Venha, Intetsu.
— É hora de caçar, Oborotsuki.
Ikki e Kirihara manifestaram seus Dispositivos. Uma katana preta apareceu nas mãos de Ikki, enquanto um arco verde-jade apareceu nas de Kirihara.
— Que comece a quarta luta do dia!
O sinal de partida acompanhou o grito de Tsukuyomi e, imediatamente, Kirihara desapareceu.
— Kirihara já ativou sua Área Invisível! Agora é impossível alguém vê-lo a olho nu!
— Essa é uma habilidade bastante incômoda. Se você não tiver nenhum ataque de longo alcance, será um inferno lidar com isso — ponderou Saikyou.
— Isso mesmo. O adversário que Kirihara enfrentou no Festival de Batalha das Sete Estrelas do ano passado era um lutador de combate corpo a corpo especializado em finalizações de curto alcance, e foi por isso que ele foi derrotado tão facilmente. A questão é: Kurogane tem algum ataque de longo alcance? Esse provavelmente será o fator decisivo nesta batalha!
Assim que o Caçador se retirou em segurança para sua floresta invisível, armou uma flecha e puxou-a. Como era impossível vê-lo, Kirihara sabia que Ikki não seria capaz de detê-lo, então aproveitou para aperfeiçoar sua mira. Após alguns segundos, ele atirou diretamente nas costas de Ikki.
— Bem ali! — gritou Ikki, girando sobre os pés e desviando a flecha com Intetsu.
— Kurogane bloqueia! Mesmo que não consiga ver seu oponente, ele foi capaz de bloquear sua flecha! — Tsukuyomi exclamou.
— Isso não é tudo. Observe — disse Saikyou com um sorriso.
Como ela havia previsto, Ikki não se limitou a bloquear a flecha de Kirihara. Ele começou a correr em direção ao local de onde a flecha havia sido disparada, calculando a posição de Kirihara usando sua trajetória. Foi capaz de fazer isso porque, embora seu adversário fosse invisível, suas flechas não eram.
É possível saber onde um arqueiro está com base na direção de onde vem a flecha. Essa é a fraqueza da Área Invisível!
Desde que Ikki ficasse atento ao momento em que a flecha fosse disparada, ele seria capaz de identificar a posição de Kirihara. A trajetória lhe indicava a direção, e a força por trás do tiro lhe indicava a distância. Essa era a estratégia que Ikki havia elaborado para superar a Área Invisível.
— Hiyaaah!
Ikki brandiu Intetsu na direção onde tinha certeza de que Kirihara estava. No entanto, sua lâmina cortou principalmente o ar vazio. A única indicação de que ele havia atingido alguma coisa foi o pequeno pedaço de uniforme que apareceu de repente e flutuou lentamente até o chão.
— Ufa. Foi por pouco. É preciso muita concentração não só para bloquear minha flecha, mas também para descobrir onde eu estava a partir desse tiro. Especialmente porque atirei do seu ponto cego. Você tem um terceiro olho ou algo assim? — disse Kirihara, sua voz parecia vir de todos os lados graças ao efeito de sua Área Invisível.
— De forma alguma — respondeu Ikki com humildade. Mas, apesar das palavras, ele estava se sentindo confiante.
Eu consigo!
Ele não esperava ficar tão nervoso logo antes da partida, mas parecia que, mesmo com sua concentração um pouco abalada, seu plano funcionaria. Ele certamente acertaria Kirihara no próximo disparo.
Aumentando o foco, Ikki esperou pacientemente pela segunda flecha.
— Oof, que olhar assustador. É assim que você deve olhar para seu ex-colega de classe? Passamos um ano juntos, não se lembra?
— Claro que sim. Neste momento, estamos em um duelo.
— Hmm. Então você realmente acha que pode me vencer, hein, Kurogane?
— Eu não estaria aqui se não fosse assim.
— Ahahahaha! É justo, eu acho. Achei que ser forçado a repetir um ano poderia ter te feito cair na real, mas parece que não há cura para a estupidez, afinal. Não mudou nada. Você realmente me irrita muito.
O tom de Kirihara tornou-se mortal, e Ikki percebeu corretamente que ele havia colocado sua próxima flecha no arco. Ele concentrou todos os seus cinco sentidos, preparado para lidar com um tiro vindo de qualquer direção e qualquer ângulo.
— Se tiver algum problema comigo, então atire em mim. Se conseguir, é claro.
Ikki provocou Kirihara propositalmente, na esperança de levá-lo a atacar. No momento em que ele atirasse, Ikki ativaria o Ittou Shura e o derrubaria antes que ele tivesse chance de fugir. Ele acabaria com essa batalha ali mesmo, naquele momento!
— Heh. Você está mesmo animado. Admito que sua habilidade com a espada é muito boa, Kurogane. Infelizmente para você, truques como esse só funcionam em mortais incompetentes. Para a nova raça escolhida, para os Blazers, o poder é tudo! Um Classe F como você é pouco melhor do que um humano comum! Acha mesmo que pode vencer minha Área Invisível?!
— Não saberei até tentar.
— Tudo bem, faça como quiser. Tente vencer isso!
Um segundo depois, um buraco se abriu na coxa de Ikki, e sangue começou a jorrar dele.
— Hã? — Tudo aconteceu tão repentinamente que Ikki levou alguns segundos para registrar a dor lancinante em seu cérebro. — Gaaah! — Mas, embora a ferida doesse, Ikki estava mais surpreso do que qualquer outra coisa.
O que acabou de acontecer?!
Ikki estava confiante de que seu foco havia sido aprimorado o suficiente para que conseguisse reagir a qualquer ataque. No entanto, ali estava ele, ferido, sem sequer ter percebido a flecha que se aproximava. Ele conseguiu se controlar antes de entrar em pânico e então olhou para sua coxa.
— Ah! — Ao verificar seu ferimento, viu que havia gotas de seu sangue flutuando de forma estranha no ar, como se estivessem revestindo algum tipo de objeto invisível. Ele estendeu a mão e sentiu algo ali – uma haste longa e fina de mana. — Não me diga… — Esse era o pior cenário possível e, infelizmente, também era a realidade.
— Isso mesmo. Eu melhorei minha Área Invisível. Agora, posso até mesmo tornar minhas flechas invisíveis. Percebe como isso é impossível agora? Não poderá perceber meus ataques até que eles já tenham atingido você!
Tradução: Ouroboros
Revisão: Matface
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