A Maneira Incorreta de usar Magia de Cura

A Maneira Incorreta de usar Magia de Cura – Vol. 01 – Cap. 03.2 – Além do cruel! É a escuridão de Llinger!

 

Longe do Reino Llinger estava uma terra envolta em nuvens escuras e ameaçadoras – uma terra totalmente inadequada para a ocupação humana. Em um certo lugar dentro do país, um castelo alto e misterioso perfura o céu cinza.

— Hmph — resmungou o Lorde do castelo.

O Lorde era um homem atraente. Sentava-se em seu trono altamente ornamentado enquanto uma mulher alta que se ajoelhava diante dele. No entanto, a mulher não parecia, e de fato não era, uma humana típica. Ela tinha pele morena escura e cabelo ruivo que lhe caía nos ombros, mas também tinha dois chifres de cabra torcidos que lhe saíam da cabeça. O homem arrogantemente fez uma pergunta à mulher de cabelos ruivos.

— Bem? Como estão indo os planos para invadir o Reino Llinger?

— Tudo está indo bem. Nossas unidades estão se preparando rapidamente para a batalha. Devemos ser capazes de iniciar o avanço num futuro próximo. — A mulher soava indiferente.

— Entendo. Vou deixar todo o comando com você. Os humanos hoje em dia são uma força a ser considerada. Parece que as coisas mudaram. Muito diferente dos dias em que aqueles esnobes confiavam num campeão para ganhar uma guerra sozinho. — comentou ele.

O Lorde olhou ao longe, como se estivesse se lembrando de algo que há muito se foi, então rapidamente olhou de volta para a mulher que ainda estava de joelhos.

— Eles podem ter vencido por uma pequena margem, mas ainda assim nos expulsaram de suas terras. Não vou dizer para você lutar até a morte…, mas espero que você dê tudo de si. — insistiu.

— Farei o meu melhor para satisfazer o seu desejo. — respondeu ela. — Sábia decisão. Se isso é tudo, saia imediatamente. — ordenou.

—Entendido.

A mulher respeitosamente inclinou a cabeça e saiu da sala. Ela então deu um grande suspiro. Era quase como se estivesse liberando todo o estresse em seu corpo.

— Ugh. Encontrar com o Lorde Demônio é tão agradável quanto se sufocar. — reclamou.

— Oh meu Deus. Isso é algo que a comandante do terceiro exército deveria dizer? — uma voz brincou.

— É você, Hyriluk? — perguntou.

Um homem com chifres de carneiro branco falou com a mulher resmungona.

— Quem se importa se eu reclamar? O Lorde Demônio está perdoando. Esse pequeno comentário atrevido não o incomodaria de qualquer maneira. Por isso. O que se passa com você, Doutor Demoníaco? — perguntou ela.

— Pare de me chamar por esse apelido estranho, sim? — sibilou.

— Ugh. — A mulher começou a se afastar como se tivesse perdido o interesse na conversa.

Hyriluk coçou sua cabeça nervosamente.

— Ha ha ha… para responder à sua pergunta, terminei o protótipo do primeiro monstro feito por demônios.

— Ooh — disse ela.

O homem ficou entusiasmado.

— Tem um veneno forte, um corpo grande, presas afiadas e, além disso, tem uma bela…

— Qual é o nome dele? — interrompeu ela.

— Baljinak, Protótipo de Monstro Feito por Demônio Setenta e Dois! Minha maior criação! — exclamou.

— O quê? Não era esse o nome do protótipo setenta e um? — disse a mulher.

  O homem caiu de joelhos e cobriu os olhos como se estivesse chorando.

  — Oh, Baljinak era uma criança tão boa. Foi trazido de volta da última vez que nós avançamos sobre o Reino Llinger. Depois que o comandante do exército inimigo o repeliu, Baljinak nunca mais esteve ativo. Foi horrível! Como se minha carne e meu sangue tivessem morrido.

— Comandante do Exército Siglis. Ele realmente se manteve firme. — observou a mulher.

A imagem de um cavaleiro que estava envolto em fumaça flutuou em sua mente. Ele havia esquartejado seus inimigos com sua esgrima nem um pouco refinada.

— No entanto, suas tropas não eram nossa maior ameaça. — acrescentou.

— Oh. Estava na retaguarda, então não teria como saber. Você não está falando dos “sequestradores”, está? — perguntou ele.

— Sim. São soldados que não lutam, mesmo estando no campo de batalha. Você não tem ideia do inferno que fizeram quando colocamos os pés em suas terras. — a mulher se encolheu enquanto se lembrava de seu avanço para o Reino Llinger. A tática de invasão que empregou havia falhado e isso havia ferido profundamente seu orgulho.

— Bem, nesse caso, por que você não os ataca primeiro? — perguntou.

— Não podemos. Não são soldados comuns. Não só são duros, mas carregam homens feridos para fora do campo a velocidades anormais. Além disso, a chefe deles é… — ela disse, se arrastando.

— A chefe deles? — Perguntou ele.

— Ela é uma curandeira. — disse ela.

— Entendo. Então, seus subordinados levam os feridos para um lugar seguro para que ela pudesse curá-los? — supôs ele.

— Não, esse é o trabalho de seus subordinados. A chefe se lança em batalha e cura suas próprias feridas enquanto luta. O que mais me irrita é que não importa quantas vezes seja atingida, ela cura sua fadiga em um instante. É quase como se fosse imortal. Sua cura comum nunca poderia recupera-la tão rápido. Essa rara variedade de magia oculta mantém seu corpo em forma. — explicou ela.

— Corpos humanos normais não podem suportar tal magia. — afirmou ele.

O homem não era chamado de “doutor demoníaco” por nada.

Ele tinha sua cota de cobaias humanas, então sabia muito sobre seus corpos e limitações. Mesmo que alguém manifestasse múltiplas habilidades sobre-humanas, um ser humano normal não poderia lidar com a dor que causaria aos seus músculos, ossos e órgãos. Qualquer um que empurrasse seu corpo para tais limites não era nada mais do que um tolo imprudente.

— O problema é que ela consegue superar isso devido à sua inabalável persistência. Antes que o Lorde Demônio fosse ressuscitado, ela venceu um duelo mortal contra meu amo. Tudo o que perdeu nessa luta foi seu olho direito. Uma verdadeira monstruosidade. — murmurou a mulher.

— Um duelo com o comandante do primeiro exército? Ela deve mesmo ser um monstro. — concordou ele.

Dizia-se que o mestre da mulher era tão forte quanto toda a raça demoníaca em si. Qualquer um que sobreviveu a esse duelo não era um humano comum.

E sobreviveu? Parece bastante hábil. — observou ele.

— As novas tropas não acreditaram em mim quando contei, mas tenho certeza de que mudarão de ideia depois que avançarmos e ela os torturar. — suas palavras pingavam ódio.

— Oof. Parece brutal. — disse ele fracamente.

— Desta vez, vou vingar meu mestre. Vou me certificar de que ela, essa Rose, seja derrotada.

Hyriluk então mencionou que seu mestre ainda estava vivo, mas ela o ignorou enquanto olhava para o Reino Llinger.

— Eu, Amila Vergrett, terei minha vingança. — exclamou ela.

— Você é uma comandante desta vez, portanto não está autorizada a ir para a linha de frente. — lembrou-lhe ele.

— Oh. — lembrou-se. — É verdade…

 

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Disse ao filhote Urso-azul que caçaria aquela cobra diabólica, então passei a noite fazendo uma lança simples com um galho próximo. Afiei-o com minha faca enquanto me sentava na árvore. Naturalmente, não tinha ideia se essa arma desleixada funcionaria. Não sabia como armar armadilhas. Além disso, os únicos itens semelhantes a armas que tinha eram a minha magia e a faca. Mas esse era mais um motivo para ter pelo menos um truque na manga.

— Sim. Tudo pronto.

Não era nada mais do que uma vara, mas ainda era afiada. Depois de colocar a lança em um local seguro próximo, encostei-me na árvore. Já tinha me acostumado a dormir naquele galho duro todas as noites.

— Me pergunto o que Kazuki e Inukami estão fazendo. — murmurei.

— Kyu? — O coelho parecia curioso.

— Você ficou comigo todo esse tempo.

O coelho olhou para mim enquanto acariciei sua cabeça. Era uma criatura bastante estranha, mas não teria sobrevivido na floresta sem ele.

— Pode haver problemas amanhã. Espero que esteja tudo bem. O coelho assentiu em resposta.

Satisfeito com sua resposta, lentamente adormeci.

 

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No dia seguinte, usei o coelho como um radar para procurar a cobra. Só tinha minha faca e minha lança, tinha deixado tudo o resto na árvore. Naturalmente, também tinha tomado um banho para lavar o meu cheiro. Estava pronto para ir. Estava pronto para encontrar a cobra…, mas então vi o coelho tremer.

— Qual é o problema?

Ele estava olhando para frente. Agarrei a lança com força quando minha mão começou a suar. Procedendo com a maior cautela possível, passei silenciosamente através dos arbustos.

— Isso é o som de uma luta? — sussurrei.

Ouvi algo. Algo terrivelmente alto. Era um som tão estridente que pensei que as árvores estavam sendo cortadas. Mas mesmo assim, lentamente fui atravessando o arbusto enquanto olhava diretamente para frente.

Vi meu alvo: a cobra.

Mas o filhote Urso-azul também estava lá.

— É ele! — disse, surpreso.

O filhote tinha hematomas por todo o corpo. Havia passado do ponto de exaustão, mas ainda respirava. Coloquei o coelho no chão e agarrei minha lança com as duas mãos.

— Afaste-se.

Sabia o que tinha que ser feito. Estava preparado. Não preparado para morrer, mas para punir a cobra por atormentar alguém muito mais fraco do que ela.

— Está na hora!

A cobra não era nem de longe tão intimidadora quanto Rose. Sabia o quão assustadora aquela bruxa selvagem e de sangue frio poderia ser. Isso não era nada em comparação.

— Você não me assusta! — gritei, surpreendendo o filhote e a cobra.

Por uma fração de segundo, a cobra não sabia quem atacar.

Agora é a minha chance! Sei que sou muito menor, mas deveria atacar enquanto está pensando para que eu possa obter a vantagem. O problema é que não há nenhuma maneira minha lança pode perfurar as escamas gigantes que a protegem.

Então, o que eu faço? Só há um lugar para atacar.

— Graaah! — gritei.

Dei um passo gigante em direção à cobra. Era muito maior de perto. Seus dentes eram enormes! Uma mordida certamente me mataria.

Hm? O caminho à frente é sombrio.

— Bwuh?! — balbuciei. Dei um passo gigante para trás.

Sua boca tinha se fechado bem na frente dos meus olhos. Se não tivesse pulado para trás, teria me tornado comida de cobra. Mas este era o momento pelo qual estava esperando. A mesa havia virado, levantei minha lança acima da cabeça.

— Coma isso, sua cobra idiota! — Gritei roucamente sem nem pensar.

Naquele momento, brandi minha lança e a enfiei no olho direito da cobra. Estava pronto para empurrar minha lança até seu núcleo.

— Gyaaaaaaaaaah! — gritei.

Concentrei toda a minha força em meu braço. — Mas o que…?! Huh?!

Enquanto apertava meu punho na lança, um impacto aterrorizante sacudiu meu corpo e me mandou voando para trás através do ar. Envolvi-me em magia de cura por instinto. Minhas costas bateram com força contra uma árvore. Encarei a cobra enquanto cambaleava de volta aos meus pés.

— Nrgh. A maldita cauda.

Sou um idiota. Claro, essa estranha cobra vai lutar com a cauda.

Mesmo assim, a cobra tinha acabado de perder um olho. Seus ataques não foram nada em comparação com o golpe que eu havia dado. Depois de curar todas as minhas feridas, empunhei a faca.

— É isso?! Eu não senti nada!

Busquei o lado direito de seu corpo. A serpente veio me atacar, então tentei correr para o seu ponto cego. Sabia que, se ela se chicoteasse com toda a força, me esquivar seria fácil. Entrei em seu ponto cego como era de se esperar…, mas de repente ela congelou e me encarou.

— Huh?!

Fui ingênuo. Havia presumido que era um animal selvagem que estava simplesmente enlouquecendo, mas esse não era o caso. Esta cobra era diferente. Ela pensou antes de agir, antes de massacrar, e antes de ir para a matança. Em outras palavras, esta cobra… estava gostando de brincar comigo.

A cobra abriu bem sua boca e afundou suas presas no meu ombro esquerdo.

— Nrgh. Graaaaaaah! — gritei.

Ow, ow, ow, ow, ow, YEOWCH!

As presas afundaram ainda mais. Gritei em agonia, mas não estava tentando arrancar meu ombro. Ela estava olhando para mim com o olhar que era exclusivo das criaturas de sangue frio.

— Heh heh. — Eu havia encontrado minha saída.

Segurei a faca em minha mão esquerda e a empurrei para o céu de sua boca. Era a única parte da serpente que não estava coberta de escamas. Enfiei minha mão direita entre meu ombro esquerdo e seus dentes inferiores, usando toda a força que pude.

— Graaah! — Sssssss!

A cobra tentou fechar a boca à força. Ela se recusou a soltar.

Mas desde que vim para este mundo, fui submetido a um treinamento infernal. Quando se tratava de força, digamos que estava um pouco confiante.

Na verdade, não. Não posso fazer isso. Poderia fazê-lo se tivesse os dois braços, mas com apenas um não há como. Nesse ritmo, terei que dizer adeus ao meu braço esquerdo para sempre!

Não conseguia mais sentir meu braço esquerdo. Continuei derramando magia de cura, mas não conseguia repor todo o sangue que havia perdido.

— Hm? Esquerda… mão? É isso!

Eu torci a faca no céu da boca da cobra.

Esperava que causasse muita dor. Como esperado, a cobra afrouxou seu aperto.

— Tome isso!

Vi minha oportunidade, abri a boca da cobra e retirei minha mão esquerda. Depois dei um passo atrás e agarrei meu braço. Estava pingando sangue. A cobra se contorceu com a dor que corria por sua boca. Era outra chance de atacar, mas minha faca estava presa em sua boca. Tinha perdido todas as minhas armas, mas ainda tinha esperança.

— Esse é o único alvo que resta.

Meu alvo era a cabeça feia que ela havia levantado no ar. Sem vontade de lhe dar tempo para curar, corri rapidamente em direção a ela.

— Hã?

Minha visão ficou embaçada e senti toda a força em meus braços e pernas desaparecerem. Administrei primeiros socorros, mas sabia que só havia uma coisa que poderia causar isto.

— Veneno? Você deve estar brincando comigo.

Não só é enorme, como também é venenosa?! Isso é simplesmente injusto.

As chances estavam contra mim, mas esta era minha última chance de atacar e não estava prestes a deixá-la escapar. Um pouco de veneno não me atrasaria!

Envolvi todo o meu corpo com toda a magia que tinha.

Se o veneno está me corroendo, a cura interna deve resolver.

Uma dor excruciante correu pelo meu corpo quando chutei o chão e comecei a correr.

— Graaaaaaaah! — gritei.

A cobra me notou correndo em direção a ela e tentou me acertar com a cauda. Não pude evitar o ataque, mas isso não importava. Se me acertasse, simplesmente me curaria.

Pouco antes da cauda me atingir, uma figura azul saltou no caminho.

  —Grrrrr! — rosnou algo fofo.

— É você! — exclamei.

O filhote Urso-azul… ele acabou de salvar minha vida?

O filhote olhou para mim por um segundo antes de soltar um grito de dor e, em seguida, prendeu a cauda da cobra. Depois de trocar olhares com o filhote, me virei silenciosamente para a cobra.

Sua cabeça estava mais alta do que eu podia alcançar, então a única opção que tinha era escalar o corpo da cobra gigante. Ela se agitava muito enquanto tentava me sacudir. Quase fui jogado, mas me agarrei obstinadamente o máximo que pude.

Finalmente cheguei à cabeça da serpente. Ela tremia mais violentamente do que nunca.

            — Se você acha que pode se livrar de mim… então pense de novo, sua idiota!

Segurei uma de suas escamas e cavei meus calcanhares em ambos os lados de sua cabeça. Agora não poderia me sacudir tão facilmente! Depois disso, soltei sua escama e balancei meu punho acima de sua cabeça.

— Acalme-se!

Dei um soco no topo de sua cabeça enquanto lutava contra mim. Suas escamas reduziram a eficácia do meu ataque, mas achei que ainda era poderoso o suficiente para pelo menos fazê-la recuar. Meu punho atingiu sua cabeça com um estrondo. A cobra estremeceu e cambaleou ao cair no chão. Enquanto ainda estava desorientada, saltei de sua cabeça e agarrei a lança em seu olho com minha mão direita.

— Diga boa noite!

Concentrei toda minha força em meu braço direito e empurrei a lança mais profundamente em seu olho. A serpente ainda estava tentando me sacudir, então empurrei a lança ainda mais fundo. De repente, parou de se mover e caiu no chão com um baque.

A cobra tinha me jogado no chão, e agora estava deitado de costas. Enquanto estava deitado, olhei a cobra pelo canto do olho.

— Ha ha ha ha… Eu consegui! — gritei.

— Grrr! — o Urso-azul rosnou.

O Urso-azul estava por perto. Ferido da cabeça aos pés, veio caminhando na minha direção. Pensei que ia me comer, mas depois percebi que não me via como um inimigo. O filhote se plantou ao meu lado e chorou enquanto olhava fixamente nos meus olhos.

— Eu matei a cobra.

— Grrr. — grunhiu o filhote.

O que este filhote de urso vai fazer depois disto? Será que ele realmente pode sobreviver nessa floresta? Não, não deveria me preocupar. Quero dizer, ele lutou contra aquela cobra pelo amor de Deus. Se tem tanta coragem, deve ficar bem.

— Ksha… sha…

Ouvi um grito horrível. Tinha pensado que a luta tinha acabado, mas estava completamente errado.

— Nrh?! De jeito nenhum!

A cobra se levantou lentamente. Seus olhos estavam pingando de ódio.

— Grrr… Grr… — o filhote rosnou.

— Vamos, temos que correr. Vamos lá! — gritei.

O filhote de urso mordeu minhas roupas e tentou me arrastar para longe. Não podia me mover e me senti frustrantemente desamparado. Comecei a chorar, convencido de que este era o fim.

Kazuki, Inukami, Rose…

É isso mesmo. Tudo isso é culpa da Rose. Eu deveria ter permissão para amaldiçoar o seu nome se o estiver fazendo com o meu último suspiro.

— Maldita delinquente! Velha bruxa! Maldita megera! Ogra estúpida!

A cobra abriu a boca e nos atacou.

Rose, maldito demônio! Mesmo que eu morra, vou amaldiçoar você do inferno!

No momento em que deveria ter morrido naquela boca escancarada, algo tinha derrotado a cobra.

— Huh? — Não podia acreditar.

— Tch. Nada além de uma pilha de lixo podre. Devia ter morrido sem fazer uma cena.

E apareceu uma mulher com cabelos verdes levantando o pé da cabeça esmagada da cobra. No ombro dela estava o coelho preto que eu conhecia muito bem.

 

 

O filhote de urso e eu ficamos ali com nossas mandíbulas caídas no chão. Demorou alguns segundos para eu entender o que havia acontecido, mas quando fiz isso, todo o meu corpo tremeu. Naturalmente, estava aterrorizado.

— Ei. Bom trabalho, Usato.

— S-senhora R-Rose?!

Eu adicionei “senhora” ao nome dela sem sequer pensar.

Mas suponho que seja natural usar “senhora” quando confrontado com um tirano.

Ela me observou tremer de medo, depois acariciou o coelho preto e sorriu.

— Se não fosse por este carinha, você estaria frito. — observou ela.

— Esse coelho… — me afastei.

— Huh? Coelho? Do que diabos você está falando? Este não é um coelho comum, você sabe. É o meu animal de estimação. O nome é Kukuru. Ele está cuidando de você porque mandei. — disse Rose.

O que antes era meu anjo da guarda agora se tornou meu pior inimigo.

— Veja, eu estava nos arredores da floresta no caso de algo dar errado…, mas nunca teria pensado que um dos monstros da invasão teria escapado para a floresta depois de ser ferido por Siglis. De qualquer forma, tentei ficar o mais longe possível. — disse Rose.

— Invasão? Pelo exército do Lorde Demônio? — Eu perguntei.

Será que ela realmente viu aquela maldita cobra me perseguir? Não sei mais o que dizer. Já estou acostumado com essa megera.

— Mas veja bem, nunca imaginei que isso matasse o Grande Urso-cinzento. O Grande Urso-cinzento deveria ser o monstro mais durão da floresta.

— O quê?! Você está me dizendo que queria que minha primeira luta fosse com o rei da floresta?!

Que insensível! Que cruel!!

— Não. Você entendeu tudo errado. Normalmente, você não poderia matá-lo. Você perderia sua vida se lutasse contra ele no primeiro dia, então ia fazer você lutar contra inimigos de alto nível e ganhar experiência. Eu ia colocá-lo contra o Urso no décimo dia até… — Rose se calou.

— Até o quê? — Perguntei.

— Até te ver fazendo coisas legais! Queria ver o que você faria, então deixei rolar. — acrescentou ela.

— Mas quase morri! — exclamei.

Você está falando sério? Então, tudo o que fiz para sobreviver só iria me matar no final?

Me senti totalmente desanimado. Rose começou a se aproximar, mas não me importava mais com o que iria fazer comigo.

— Grrr!

O filhote Urso-azul pulou entre mim e Rose.

Isto não é bom. Não contrarie essa mulher. Ela é muito mais malvada que a cobra! Sério!

— Hm? Você é o filhote Urso-azul? Você gosta do novato ou algo assim? — Rose perguntou.

— O quê? Ele gosta de mim? — perguntei, confuso.

Eu tinha sentido que tinha uma ligação com o filhote. É possível que ele também tenha sentido isso?

— Hah! Parece que você e eu temos algo em comum, filhote. venha cá.

Rose gritou com o filhote de urso, que tremia ao som de sua voz.

Acho que os monstros realmente estremecem quando encontram Rose, por ela ser muito mais forte e tudo mais.

— Você vem com a gente. Leve este artista de fuga daqui. — ela ordenou.

— Bwuh? Do que diabos você está falando? Podemos realmente trazer um monstro de volta ao reino? — perguntei.

— Quem você acha que eu sou? Vou fazê-los concordar com isso. Entendeu? — disse bruscamente.

Caramba. Ela é agressiva demais.

— Além disso, eu estava planejando trazer Kukuru de volta comigo. Não importa se os outros querem ou não ir junto. — acrescentou ela.

Isso não faz o menor sentido! Nós nem sabemos se este filhote vai realmente nos seguir. Espere, o quê? Por que o Urso-azul está me agarrando?!

— Grrr.

— Huh? Você quer vir conosco? Tem certeza que não quer ficar na floresta onde seus pais cresceram? — perguntei.

O filhote de urso começou a balançar em resposta, quase como se entendesse o que eu estava perguntando apenas por intuição. O filhote parecia se sentir em dívida comigo.

Dei um suspiro pesado e fiz a Rose uma pergunta que estava em minha mente.

— Como o coelho foi ferido?

— Huh? Isso foi só para te despistar. Foi tudo uma encenação. — respondeu ela.

— Kyu. — piou o coelho.

Não pareça tão orgulhoso de si mesmo, Sr. Coelho! Vê-lo machucado dessa maneira praticamente me fez em pedaços. Agora sei porque entende o que eu digo. Tudo isto fazia parte do plano de Rose. Só quero chorar.

— Bem, por enquanto vamos levar o filhote para um lugar seguro. — disse Rose. Ela grunhiu enquanto pegava o filhote de urso que eu estava montando.

Argh. Essa senhora me assusta.

— A propósito… — Rose começou.

As lágrimas estavam brotando em meus olhos quando Rose se virou para mim com um sorriso. Uma veia azul estava saltando de sua testa.

— Lembro-me. Do que você acabou de me chamar? Uma maldita bandida? Uma velha bruxa? Uma maldita megera? Uma ogra estúpida? Tenho apenas vinte e cinco anos de idade. Quando chegarmos em casa, prepare-se para uma surra.

Foi quando me dei conta.

Percebi que meu maior inimigo não era a cobra.

— Então, se arredondar para cima, você terá trinta.

— Boa sorte para dormir esta noite.

Meu maior inimigo sempre foi essa capitã aterrorizante.

 

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Finalmente voltamos ao Reino Llinger.

Rose usou sua magia para tratar o veneno e as feridas. Mesmo tendo passado apenas dez dias enfurnado na floresta, voltar para o Reino Llinger me fez perceber o quanto isso pareceu longo. Apenas dez dias se passaram, mas estavam repletos de aventuras.

Eu trouxe o filhote Urso-azul, que tinha carinhosamente chamado Blurin, para um velho estábulo próximo aos alojamentos da equipe de resgate e curei todas as suas feridas.

Seu pelo azul parecia agradável ao toque.

— Ei, é um bom nome, se posso assim dizer. Você não concorda, Blurin?

Sim, “Blurin” é um nome muito bom. Basta pegar o “Blu” de “Blue” e o “Ri” de “Grizzly” e bam! Você tem um nome apropriado para uma mascote adorável.

Coloquei minha mão em sua cabeça, a qual ele mordeu com um homf. Parecia que concordava. Ele parecia feliz por ter recebido um nome.

Ha ha ha. Chega de brincadeira de morder, você sabe, agora que estou sangrando e tudo mais.

Mesmo que os dentes do Blurin não se separassem da minha mão, de alguma forma recebemos permissão para trazê-lo para o país. Honestamente pensei que poderiam expulsá-lo, mas Rose me disse que enquanto obedecesse aos humanos, e enquanto pudéssemos garantir que não causaria muitos problemas, monstros como o seu coelho Kukuru eram autorizados a permanecer no reino após alguns dias de observação.

Ter monstros no reino exigia uma papelada complicada, mas Rose disse que cuidaria disso por mim.

Ela era doce ou assustadora? Eu realmente não sabia.

— Agora é o seguinte. — comecei.

— Kyu? — Kukuru parecia perturbado.

— Sim você. Você é um vira-casaca… ou devo dizer vira-lebre? — não estava medindo palavras.

— Kyuu! — O coelho exclamou.

— Tão fofo. Mas bancar o bobo e fofo assim não vai tirar você dessa. — disse.

O coelho de estimação de Rose Kukuru tinha seguido eu e o Blurin até o estábulo. Era um membro da espécie Coelho Negro. Rose tinha me dito que esta espécie era bastante rara…, mas mesmo assim, este coelho tinha um histórico criminal.

Ele era culpado de brincar com meu coração puro e ingênuo! Uma vez se machucou para se aproximar de mim! Eu o teria admirado pela fachada quase corajosa que fez para seu mestra…, se não fosse para me enganar, quero dizer.

— Não, simplesmente não consigo superar isso. Se Rose tivesse um animal de estimação, teria pensado que seria um dragão ou uma besta lendária perigosa…, mas não! Você é uma gracinha! — gritei.

— Gwah! — Blurin me mordeu.

— Yeowch! Desculpe! — me desculpei.

Vocês dois são fofos, Blurin! Ok? Então chega de socar minhas canelas!

Kukuru parecia perplexo, observando enquanto tentava desesperadamente suportar a dor. Ele me observou me afastar, então ganiu antes de pular em alguma coisa.

Quando me virei, Kukuru estava de pé no ombro de Rose.

— Esse é um bom menino. — ela murmurou.

— Rose. — disse, surpreso.

— E aí. Acabei de despachar toda a papelada. Aquele urso agora é propriedade da equipe de resgate. — afirmou ela.

— P-propriedade? — gaguejei.

Bem, acho que fazia sentido. Afinal, a equipe não estava alugando o estábulo de graça, além disso, tínhamos que pensar em alimentar o filhote. Este urso teria que trabalhar para ganhar seu sustento. Sabendo disso, olhei para Blurin, que enfiou a cabeça em uma pilha de feno.

Blurin… Eu sei que Rose é assustadora, mas isso é um exagero.

— Bem, isso encerra o assunto para o urso. Eu vim aqui para falar sobre aquela enorme pilha de lixo. — disse ela.

Pilha de lixo? Ela está falando sobre a cobra?

— O coelh – eu quero dizer… Kukuru me levou até a água limpa. Foi quando nos deparamos com a cobra, quando estávamos nas profundezas da floresta. — expliquei.

— Entendi. Parece que ela se curou e acumulou forças onde não conseguíamos encontrá-la. Mas pensar que mataria um Grande Urso-cinzento… — Rose se calou.

— Um… — comecei.

— O quê? — perguntou ela.

— Quão perigoso você diria que o Grande Urso-cinzento era?

Eu simplesmente queria saber em que perigo ela havia literalmente me jogado.

Parecendo irritada, Rose cruzou os braços.

— Bem… um esquadrão de nossas tropas de elite não poderia matá-lo. Em termos de força, talvez um pouco mais fraco que o Comandante Siglis? Perigoso o suficiente para estar no topo da cadeia alimentar da floresta.

— Você está louca?! — deixei escapar.

— Perdão? — Rose disse ameaçadoramente.

— Desculpe, senhora. — me desculpei imediatamente, mesmo que estivesse deixando meu inimigo vencer.

Espere um segundo. Um esquadrão das tropas de elite de nosso país não poderia matar o Grande Urso-cinzento, e aqui estava eu me virando contra ele. Não quero me gabar nem nada, mas fiz um trabalho muito bom!

Mencionei casualmente que achava que me saí bem. Surpreendentemente, ela não me criticou nem me derrubou.

— Quanto ao teste? Você passou. Na verdade, você o superou. Você não matou seu alvo, mas colocou aquela pilha de lixo de joelhos. Você se qualifica. — afirmou ela.

— Qualificar para quê? — Perguntei.

— Qualifica-se para lutar no mesmo campo de batalha que eu. Você ainda precisa dominar o básico, mas você é diferente dos outros curandeiros. Você tem algo que eles simplesmente não têm. — mencionou.

— Eu sou diferente? Como?

— Você pode lidar com a dor insuportável e suas habilidades físicas estão fora dos padrões. Sem mencionar… — Rose disse, de repente colocando o punho no meu peito. — seu coração é tão forte quanto sua mente. Os outros curandeiros não são assim. Você deveria estar orgulhoso.

— Heh. Na verdade não parece, mas…, espera. O que aconteceu com os outros curandeiros — perguntei.

Como ainda não os tinha conhecido, tinha esquecido que havia dois outros curandeiros na equipe de resgate.

— Um deles é frágil. O outro é sua irmã mais nova. Eles dirigem juntos uma enfermaria na cidade do castelo. — explicou Rose.

— Entendo. Então, isso significa… — parei.

Eu me senti incrivelmente ciumento naquele momento.

Aqueles dois curandeiros provavelmente não tiveram que passar por todo esse treinamento!

— Eles são reforços em caso de emergência. Tong e os outros transportam os feridos. Você e eu os curamos nas linhas de frente. — declarou Rose.

— Na linha de frente?! — repeti.

— Bem, sim. Já que você é igual a mim. — disse Rose.

— Mas… por quê? — perguntei.

— Não há tempo. O exército do Lorde Demônio estará aqui a qualquer momento. É provável que não repitam seus erros anteriores, o que significa que vão me derrubar assim que puderem. É aí que você, nossa arma secreta, mostra a eles quem manda.

Ela estava dizendo que eu era o trunfo contra o exército do Lorde Demônio? Não, isso seria me dar crédito demais. Talvez fosse mais como o peão que enganaria o adversário para expor sua fraqueza.

Posso mesmo fazer algo tão importante? Serei capaz de ficar calmo no campo de batalha, em uma luta de vida ou morte?

— Preocupar-se não vai ajudar. Mas você precisa se preparar, entendeu?

Haverá heróis no campo de batalha. — comentou Rose.

— Você não quer dizer…! — Eu disse.

Kazuki e Inukami.

Como heróis, era natural que lutassem contra o exército do Lorde Demônio.

O que devo fazer? Para ser honesto, eu não quero lutar uma guerra. Mas o maior problema é que quero salvar meus amigos.

Talvez fosse minha teimosia ou meu senso de orgulho falando, mas parecia errado para mim simplesmente não fazer nada quando estávamos todos na mesma bagunça. Eles estavam se esforçando ao máximo, então se proteger nos bastidores não era uma opção. Não éramos muito próximos na Terra, mas no final os dois se tornaram extremamente importantes para mim.

No fundo, já sabia o que ia fazer.

Sabia que poderia morrer quando estava lutando contra a cobra. Ouvir a história do exército do Lorde Demônio me fez estimar meus amigos mais do que nunca. Eu não era mais a mesma pessoa que era na Terra, o rapaz que evitava todos os riscos como uma praga. Este mundo, este país… este lugar tinha mudado minha vida por completo.

Não sabia o quanto havia mudado. Mas o que eu sabia era que tinha me tornado amigo de Inukami e Kazuki, que pertencia à equipe de resgate e que tinha me fortalecido com um treinamento contínuo que me fez vomitar sangue.

Foi por isso…

— Não vou lutar. — disse.

— Oh? — Rose parecia entretida.

A força vem de muitas formas. Inukami e Kazuki eram os heróis do Reino de Llinger que iriam resistir à invasão do exército do Lorde Demônio. Eu, por outro lado, iria lutar da maneira que quisesse.

— Não vou matar meus inimigos. — acrescentei.

— Oh? — Rose repetiu.

Não precisava de espadas ou outras armas para matar meus inimigos.

— Mas vou salvar o máximo de pessoas possível. Caso contrário, não seria um membro da equipe de resgate. — disse.

Eu estava pronto para acompanhar Rose e proteger este país como um membro da equipe de resgate. Usaria magia de cura para salvar o país que me acolheu quando fui simplesmente enviado para cá por acidente, e para salvar os dois amigos que me eram queridos.

— Bom. Nós somos a equipe de resgate. Não há necessidade de matar o inimigo. É tudo uma questão de resgatar pessoas. Para aqueles que querem ser mártires, basta derrubá-los e arrastá-los para fora do campo de batalha. Afastar os soldados das garras da morte. Se alguém morrer, reanime-os. Esse é o nosso papel no campo de batalha. Você entendeu tudo isso, novato? Fale seus ideais e mantenha-os vivos. É disso que se trata a equipe de resgate. — Rose sorriu ferozmente, e eu instintivamente endireitei minha postura.

Meu caminho estava claro. Olhei em seu olho esquerdo e respondi:

— Sim, capitã!

Essa foi a primeira vez que realmente me senti como um membro da equipe de resgate.

 


 

Tradução: Nagark

Revisão: Bravo

 

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Bravo

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