— Urgh… — Christina geme ao despertar de um longo sono.
Seu corpo está pesado, e ela não consegue entender bem a realidade. A última coisa de que se lembra é de ter descido àquela masmorra.
— Onde estou…?
Seus braços e pernas estão presos à parede.
Ela tenta se libertar, mas não consegue reunir forças. Sua mana está selada.
— Ah, você acordou. Não me surpreende.
Christina olha na direção da voz e vê Isaac.
— Por que… por que estou amarrada?
— Porque eu te amarrei.
— Ah.
— Não parece surpresa.
— Eu sempre soube que você era um homem superficial. Pessoas que escondem algo geralmente são.
— Vou anotar isso.
— Onde estão os outros?
— Claire e a Princesa estão com meu mestre.
— Seu mestre?
— Isso mesmo. Meu mestre. — Ele apenas repete a mesma frase, sem intenção de dar mais detalhes. Então, aponta para a parede do fundo. — E Suzuki está dormindo ali.
Do outro lado da sala, Suzuki está amarrado da mesma forma que Christina.
Christina suspira aliviada.
— Suzuki…
— Infelizmente, ele pode nunca mais acordar.
— O-o que você quer dizer?
— O gás que usei para colocar todos vocês para dormir é especialmente potente em pessoas com pouca mana. Não é incomum que caiam em um sono do qual nunca despertam.
— Suzuki…
— O que deu em você? Ele é apenas um aristocrata de classe baixa de uma família ramo insignificante. Não é do seu feitio lamentar por um ninguém.
— Bem, você não está errado…
Quando Isaac aponta isso, Christina percebe o quão abalada está. Assim como ele diz, Suzuki é apenas um aristocrata de classe baixa de uma família ramo insignificante. Para uma filha de duque como Christina, ele deveria ser completamente substituível.
— Pensei que seus talentos seriam úteis para a família Hope. É só isso — diz ela.
— Ah, entendo. Bem, para ser sincero, não me importo nem um pouco se ele vive ou morre.
Christina encara Isaac.
— Você está dizendo que a vida dele não significa nada para você?!
— Absolutamente nada. Tudo o que me importa é terminar meu trabalho.
— O que você está tramando?
— Seu corpo tem muito potencial. Minha organização pretende usá-lo ao máximo.
— E que organização é essa? Está falando do Jardim das Sombras?
— O Jardim das Sombras? Por favor. Não nos compare com aqueles novatos. Nós governamos este mundo há incontáveis… Mas estou me esquecendo. Contar isso a você não resolverá nada. Afinal, não demorará muito para que se torne uma marionete sem alma.
Isaac saca uma seringa cheia de um líquido vermelho.
— Agora, vamos acabar logo com isso. Se eu perder muito tempo, posso perder o grandioso momento da liberação do braço. Com um talento como o seu, imagino que se tornará uma Segunda Criança. Embora o pobre Suzuki não serviria nem como uma Terceira.
Com um sorriso desdenhoso, Isaac pressiona a seringa contra o braço de Christina.
— Não…! Uma pergunta: para onde foi a Nina?!
Isaac faz uma careta.
— Ela desapareceu.
— Desapareceu?
— Aquele gás deveria ter colocado todos vocês para dormir, mas antes que eu percebesse, ela não estava em lugar nenhum. Não é como se pudesse ter saído do Santuário viva, mas, argh. Significa apenas mais limpeza para mim.
Isaac pressiona a seringa com mais força.
— Não!
— Adeus, Christina.
Então algo se move no canto da visão de Isaac.
— Por que tanto barulho? Eu estava tirando um cochilo tão bom…
A voz pertence a Suzuki, que, por todos os direitos, deveria estar dormindo profundamente.
— S-Suzuki… — gagueja Christina.
— Quê?! Você acordou?!
Suzuki boceja, entediado.
— É, óbvio. Isso é tão estranho assim?
— B-bem, não importa. Acordar não muda nada. Você é um estorvo, então vou me livrar de você primeiro.
Isaac pega a seringa e vai em direção ao local onde Suzuki está amarrado.
— Se livrar de mim?
— Hmph. Talvez quando você virar uma marionete, finalmente cale a boca — diz Isaac, e então aponta a seringa para o pescoço de Suzuki.
— Você vai se livrar de mim? — Os lábios de Suzuki se curvam em um sorriso de canto. — É, isso não vai acontecer.
No momento seguinte, o corpo de Isaac estremece. A seringa de líquido vermelho cai de sua mão e rola pelo chão.
— O quê…?! Rgh… Gorf…
Suzuki crava a mão direita diretamente na barriga de Isaac.
Aquilo é um golpe de palma – um golpe brutal, lançado diretamente no abdômen de Isaac.
Isaac se curva, agarrando o peito, e cambaleia para trás. Espuma ensanguentada escorre de seus lábios.
— Impossível… Como você se soltou das amarras…? Sua mana deveria estar selada!
— Foi fácil. Apenas desloquei minhas articulações — responde Suzuki enquanto solta a amarra de sua mão esquerda.
Depois de dobrar a articulação de uma forma que nenhum humano conseguiria, ele desliza para fora da algema e retorna sua mão ao normal tão rapidamente que parece um vídeo ao contrário. Em seguida, ele neutraliza as amarras em seus tornozelos da mesma maneira.
— Isso não é normal…
— E então? Não ia se livrar de mim?
— Tch… Não fique se achando, perdedor. — Os olhos de Isaac brilham de raiva. — Você não tem o direito de me olhar de cima! — Ele saca sua espada.
Suzuki também leva a mão à arma em sua cintura, e então inclina a cabeça.
— Onde está minha espada…?
Acontece que sua bainha está vazia.
— Más notícias para você — diz Isaac. — Eu me livrei da sua espada.
— Ah. — Suzuki enfia a mão no bolso e tira uma caneta-tinteiro. Ele a destampa e aponta para Isaac. — Bem… isto é tudo que preciso.
— U-uma caneta-tinteiro? Não me faça rir!!
A magia de Isaac explode.
Depois de avançar sobre Suzuki em um piscar de olhos, ele desfere um amplo golpe horizontal com sua espada. O arco que ela traça passará direto pelo tronco de Suzuki e o cortará ao meio.
Ou passaria, se uma pequena caneta não tivesse entrado no caminho.
Suzuki bloqueia a espada com a ponta de sua caneta e, com um som de vidro se quebrando, a espada de Isaac explode em mil pedaços.
Sem perder o ritmo, Suzuki avança com a caneta.
— Quê… hlorc!
Sua ponta afiada perfura a carne de Isaac.
Isaac dá um passo agonizantemente lento para trás, depois outro. Com um olhar de total incredulidade, ele leva a mão à caneta-tinteiro cravada em sua garganta.
— Toss… Com… uma mísera caneta-tinteiro…?
Pinga.
Uma gota de tinta vermelha escorre pela caneta.
— Vou precisar disso de volta, a propósito. Não consigo escrever no meu diário sem ela.
Suzuki agarra a caneta que se projeta da garganta de Isaac.
— Espere… Não… Não, NÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOO!
Quando Suzuki a arranca, é acompanhado por uma torrente de sangue.
A tinta ensanguentada espirra pelo chão.
— Ah… Agh…
Isaac cai de joelhos, atordoado.
Então, quando ele olha para Suzuki, seus olhos se arregalam. A coleira de Suzuki acaba de entrar em seu campo de visão, e o número em seu visor representa uma quantidade de mana verdadeiramente inacreditável.
— De onde você tirou… toda essa mana…? Hurgh…
Ele tosse um bocado de sangue e desaba.
— Não posso… terminar… assim… Hungh… nnng…
Sangue jorra incessantemente de seu pescoço, e não demora muito para que sua respiração se torne superficial e, então, pare por completo.
Suzuki lança um olhar desinteressado para sua caneta-tinteiro encharcada de sangue.
— Ugh, agora está toda nojenta. Acho que não precisava tanto dela, afinal.
Ele a joga sobre o cadáver de Isaac.
Então se vira e caminha em direção a Christina.
Há um brilho sinistro nos olhos de Suzuki, e Christina perde a compostura quando ele a encara.
— E-eu… hum… — Ela gagueja.
Apesar de si mesma, seu coração está acelerado. Ainda sem saber o que dizer, ela olha para Suzuki sem se mover um centímetro.
— O importante é que você está bem.
Suzuki desfaz suas amarras.
— O-obrigada, Suzuki… — Diz ela, com uma voz assustadoramente frágil.
— Apenas fiz o que qualquer um faria. Agora, vamos indo. Estou preocupado com os outros.
— Hum, Suzuki, espere!
Bem quando ele está prestes a sair, ela o impede.
— E-eu… vejo agora que te julguei mal. Pensei que você era apenas um completo fracassado, mas… isso claramente não é verdade. — Ela baixa a cabeça, envergonhada. — Se você estiver disposto, ficarei mais do que feliz em trazê-lo para a casa principal assim que tudo isso…
— Seu julgamento estava correto — responde Suzuki, ainda de costas para ela. — Suzuki era um fracassado.
— O quê? Mas… isso não…
— Você não estava errada. Não estava errada em nada.
Há uma racionalidade fria na voz de Suzuki que Christina nunca ouviu antes.
— Oh… Desculpe. Devo ter dito algo que te ofendeu.
— De forma alguma. É que… você deveria ficar longe de mim. O caminho que se estende diante de mim está manchado de sangue. Sou um homem que não pode viver em um mundo aquecido pela luz do sol.
Suzuki se recusa firmemente a se virar. A maneira como ele fala de costas para ela, é como se estivesse rejeitando o mundo inteiro.
— Que tipo de fardo você carrega…?
— Tenho um dever. Um dever que devo cumprir, mesmo que isso signifique carregar todos os pecados do mundo. Se envolver comigo te machucará e manchará suas mãos de sangue.
Então Suzuki finalmente se vira.
Ao ver seus olhos, Christina ofega. São tão inumanos quanto contas de vidro. Toda a emoção foi retirada deles.
Não, não é isso. No fundo, bem no fundo daquelas contas de vidro, há uma chama negra de emoção, ardendo.
Suzuki estende a mão silenciosamente em direção ao pescoço de Christina.
Depois de inclinar seu queixo esguio, ele aproxima o rosto.
Christina sussurra seu nome.
— Suzuki…
Perdida na profundidade de seus olhos, ela fecha os seus.
Então, um estalo agudo soa.
— Hã…?
Ela abre os olhos e descobre que sua coleira sumiu.
— Espera, minha coleira… Mas como?
Suzuki não oferece resposta à sua pergunta. Ela percebe que a coleira dele também desapareceu.
— Não há tempo — insiste Suzuki. — Precisamos nos apressar.
Ele se vira e se afasta. Há algo muito solitário em sua figura em retirada.
— S-Suzuki… espere!
Não querendo ficar para trás, Christina corre atrás dele.
— É melhor você acordar. A situação está um pouco complicada.
Claire sente como se estivesse ouvindo uma voz em sua cabeça, e ela abre os olhos.
— Onde estou…?
Ela está cercada por uma névoa branca e amarrada ao que parece ser uma mesa de exame de aparência suspeita. Ao seu lado, Alexia também está amarrada.
— Alexia, você está bem?! Acorde!
— Unh… Que lugar é este?
Alexia abre os olhos. As duas olham ao redor e então ofegam.
— Mas o quê…?
— O que são aquelas coisas?!
As primeiras coisas que veem são quatro cápsulas cilíndricas. Há seres humanos dentro delas, suspensos em um líquido vermelho.
— Poderiam ser os estudantes desaparecidos?
— São eles, tenho certeza. São as pessoas dos relatórios de desaparecimento.
— Mas o que estão fazendo aqui?
— Estão tendo sua mana drenada… para reviver Diablos. Precisamos sair daqui rápido. Estamos prestes a ter o mesmo destino.
Alexia tenta desfazer suas amarras, mas elas não cedem. Claire faz o mesmo, mas também não consegue.
— Parece que nossa mana está selada — observa Claire.
— Isaac, seu desgraçado… Vou te pegar por isso — diz Alexia, com a voz cheia de veneno.
De repente, as cápsulas começam a se mover. Duas delas emitem um som mecânico surdo enquanto o líquido é drenado.
— O-o que acabou de acontecer?
— Não sei…
Então elas ouvem uma voz atrás delas.
— Vocês acordaram? Na hora certa. As cápsulas acabaram de ser preparadas. Só falta dez por cento.
Com isso, um garoto de cabelos prateados aparece. Ele é tão bonito que parece ter saído de um conto de fadas e, por um momento, as duas garotas ficam sem palavras.
— Quem é você…? — Alexia finalmente pergunta.
— Sou Fenrir, quinto membro dos Noturnos.
— V-você é Fenrir?!
O garoto que acabou de se apresentar como Fenrir parece ter a idade de Alexia e Claire, se não for mais jovem.
— Com o poder da vida eterna, a idade que se aparenta tem pouca importância — diz Fenrir enquanto se posta diante das duas cápsulas agora vazias de seu líquido vermelho.
— O que você planeja fazer conosco?
— Colocá-las nestas cápsulas. Assim, posso reviver o braço direito de Diablos. Estava planejando drenar sua magia através das coleiras, mas se vocês vão se entregar de bandeja, certamente não vou reclamar.
Fenrir solta uma risada fria.
— Vocês me pouparam bastante esforço.
— A academia está um caos agora — Claire retruca. — Você realmente acha que vai se safar dessa?
— E quem vai nos punir, exatamente? A Ordem dos Cavaleiros? Vocês?
— I-isso é, uh…
— Vivemos no submundo. Aqueles que caminham na luz nunca podem nos alcançar.
— Ainda existe o Jardim das Sombras… — diz Alexia em voz baixa.
Fenrir para no meio do caminho.
— Oh, o Jardim das Sombras vai nos punir? — Ele dá uma risadinha. — Heh-heh.
— O que é tão engraçado?
— Nunca pensei que veria a princesa de uma nação se agarrando às saias de um grupo tão suspeito. Sinto pena de você.
— …
O rosto de Alexia fica vermelho vivo. Todos conseguem ouvir o ranger de seus dentes.
— E além do mais, o Jardim das Sombras vai nos punir? Vocês não fazem ideia do tipo de grupo que eles realmente são. — Enquanto fala, Fenrir arrasta as massas de carne que antes eram estudantes para fora das cápsulas e as descarta. — Eles vivem no submundo tanto quanto nós. Não estão em posição de nos julgar. Mesmo que um grupo acabe vencendo o outro, isso apenas deixará o vitorioso para retomar o controle do submundo. Nada mudará de verdade.
Ele se vira. Seus olhos estão vermelhos brilhantes.
— Agora, os preparativos estão todos prontos. A hora da ressurreição se aproxima.
A primeira pessoa para quem ele se vira é Claire.
— Claire Kagenou. Recebi relatórios sobre você usando um poder estranho.
Ele caminha até o lado da mesa de exame e inclina o queixo dela.
— Rgh… Tire as mãos de mim!
— O sangue corre forte em você, mas não de forma anormal. Bem, suponho que tudo ficará claro com o tempo.
Com isso, ele leva uma seringa de líquido vermelho ao pescoço de Claire.
Ela tenta balançar a cabeça para se livrar dele, mas Fenrir é muito forte.
— Não adianta — diz ele.
A seringa perfura sua pele.
Então…
— Eu juro, quanto tempo mais ele planeja me fazer esperar?
A voz de Aurora ecoa na cabeça de Claire, e uma rica mana surge dentro dela.
A seringa se estilhaça e as amarras se rompem.
Fenrir recua.
— Q-que magia é essa?!
— Aqui. Vou te emprestar um pouco da minha força.
— Obrigada, Aurora.
Claire saca suas espadas e corta as amarras de Alexia.
— Boa, Claire — diz Alexia enquanto empunha sua espada.
Fenrir fixa o olhar diretamente em Claire.
— Aurora? Você acabou de dizer “Aurora”, Claire Kagenou?
— Sim, e daí? Você a conhece ou algo assim?
— Heh-heh… Entendo. Acho que terei que ver se ela é a verdadeira. Presa de Sangue… atenda ao meu chamado!
Fenrir saca uma espada do nada. É mais longa do que ele é alto, e sua lâmina é vermelha como sangue estagnado.
— Presa de Sangue… — murmura Alexia. A espada tem uma presença tão poderosa que lhe causa um arrepio na espinha. — Essa é a espada mágica que já foi usada pelo homem aclamado como o maior cavaleiro de todos os tempos. Será que é realmente a verdadeira Presa de Sangue?
— Cuidado, Claire.
— Não precisa me dizer duas vezes. Você não vai lutar, Aurora?
— Você não tem muita mana sobrando, certo? Quando uso seu corpo, isso te causa um grande esforço. Além disso, pode não ser uma má ideia te acostumar a lidar com o poder sozinha.
— …Justo.
Claire reúne a mana em seu corpo. Pouco a pouco, ela está se acostumando com a sensação dos dois tipos distintos de mana se misturando dentro dela.
Então, no espaço de uma respiração, ela se aproxima de Fenrir.
No entanto, ele defende o golpe dela com facilidade.
— Isso é realmente tudo o que você…? O quê?
Tentáculos vermelhos estão se enrolando em volta da Presa de Sangue. Eles se estendem da mão direita de Claire e se enroscam na Presa de Sangue sob seu comando.
— Com este poder, eu consigo…!
— Ah, por favor.
Fenrir brande a Presa de Sangue. Aquele movimento por si só é suficiente para destroçar os tentáculos.
Claire passa para sua próxima manobra.
Quando Fenrir balança a Presa de Sangue em sua direção, ela se esquiva, aproximando-se demais para que ele a atinja com eficácia, e então desfere um ataque próprio em seu flanco.
Um clangor surdo ressoa. Fenrir acabou de bloquear o ataque de Claire com o cabo da Presa de Sangue.
— C-com o cabo?!
— Não é de se admirar que você tenha vencido um Festival Bushin… mas no final das contas, sua esgrima ainda é a de uma criança.
Fenrir gira a Presa de Sangue para desviar a espada de Claire, e então gira o pomo diretamente no queixo dela.
— Hurgh!
O golpe em si é leve. Ao saltar para trás imediatamente, Claire consegue amortecer o impacto. No entanto, ainda lhe deixa um corte no interior da boca que tinge seus lábios de vermelho. Sua postura se desfaz, e Fenrir avança para dar seguimento ao golpe.
Então, do nada, ele congela.
Não está claro o porquê, mas há uma espada cravada em seu ombro esquerdo.
— Caramba, você é bom. Se não tivesse parado aí, eu teria te acertado bem no coração.
É Alexia.
— Eu sabia que você estava procurando uma brecha — responde Fenrir —, mas quando você chegou aí…?
Ele abaixa a Presa de Sangue e recua um passo. Há sangue jorrando de seu ombro, mas ele não parece se importar nem um pouco com isso.
— Hrah!
Com uma exalação aguda, Fenrir ataca com sua lâmina. O golpe é cortante e carrega uma quantidade tremenda de força.
Alexia se prepara para defender o golpe. Seu movimento não é rápido, de forma alguma, e mal há mana imbuída em sua espada. Não há como ela conseguir bloquear o ataque iminente.
A Presa de Sangue está prestes a pulverizar a espada de Alexia. No momento antes que possa, porém, Alexia recua meio passo. Ao mudar o ângulo de sua espada, ela consegue redirecionar a força do ataque de Fenrir.
— Impressionante. — Ele comenta.
A partir daí, ela passa diretamente para o contra-ataque.
Usando os menores movimentos necessários e o mínimo de mana possível, ela avança diretamente contra os pontos vitais de Fenrir.
A posição de Fenrir é insustentável. Ele já se comprometeu com seu golpe e, por todos os relatos, não há nada que possa fazer a não ser esperar que Alexia o atravesse.
No entanto, ele bate a perna dianteira no chão.
O chão se estilhaça com a força incrível de seu pisão, e ele endireita a postura de uma forma que nenhuma pessoa normal conseguiria.
A estocada de Alexia corta o ar, deixando apenas um fino arranhão na bochecha de Fenrir.
Fenrir aproveita a oportunidade para se distanciar consideravelmente.
— Então… esta é a esgrima da medíocre — diz ele. — O estilo de luta pelo qual zombam de você quando a comparam com a Princesa Iris…
— Ei, nós, cavaleiros das trevas medíocres, não somos de se desprezar.
— Eu adoraria ver o que você poderia se tornar em cem anos. A esgrima é construída sobre a experiência acumulada. Mas é precisamente por isso que o abismo entre você e eu é tão vasto…
Fenrir fecha os olhos.
— Talvez seja melhor eu levar as coisas a sério por um momento…
O ar em si muda.
Quantidades insondáveis de magia começam a brotar dentro de Fenrir. À medida que isso acontece, seu cabelo fica branco, seu rosto se enche de rugas profundas e seus membros se tornam finos e murchos.
Finalmente, ele abre os olhos novamente.
O garoto querubim foi substituído por um velho.
— Então essa é sua verdadeira forma, hein? — diz Alexia.
Ele parece um velho frágil, do tipo que seria levado pelo vento mais fraco.
No entanto, Alexia e Claire sabem que não devem subestimá-lo.
Apesar de sua aparência frágil, a pressão bruta que ele exala acaba de aumentar consideravelmente.
Suor frio escorre por suas testas.
— Eu me lembro agora… O Demônio de Midgar.
Claire capta o murmúrio baixo de Aurora.
— O Demônio de Midgar?
— Há muito tempo, havia um assassino temido em toda Midgar. Ele matava incessantemente em uma busca ávida por aumentar sua própria força. Mas ele deveria ter morrido de velhice anos atrás…
— Não sabia que alguém ainda se lembrava desse nome. Você é Aurora? — Fenrir pergunta, com a voz agora visivelmente mais rouca. — Parece que sua Bruxa da Calamidade é autêntica… Planejando usar essa garota como seu receptáculo?
— Aurora, do que ele está falando?
— Concentre-se. Ele é especialista em distrair as pessoas assim.
— Mas…
— Claire!!
— Hã?
A Presa de Sangue de Fenrir se estende, alongando-se como um chicote enquanto ataca o pescoço de Claire.
Claire encara, estupefata, sua morte iminente.
Um momento depois, porém, suas pupilas se tornam violetas. Mais de cem tentáculos disparam, desviando a Presa de Sangue antes de avançarem sobre Fenrir.
— Heh-heh… É isso – é esse poder que estou procurando.
Fenrir balança como um salgueiro para se esquivar do ataque incessante dos tentáculos vermelhos. Eles o roçam repetidamente, rasgando suas roupas em farrapos, mas nunca conseguindo deixar um arranhão em seu corpo. Então, do nada, os tentáculos sangrentos explodem e desaparecem.
— Gah… Minha mana…
Claire cai de joelhos, com os olhos ainda violetas e a respiração ofegante. Restam-lhe apenas 36 de mana.
— Você enfraqueceu, Aurora. Ou será que eu fiquei forte?
— …É este corpo que é fraco, só isso.
A Presa de Sangue avança cortando em direção a Claire.
— Rrgh…
Ela consegue evitar um ferimento fatal, mas não consegue evitar a queda. Ela rola pelo chão.
Seus olhos perdem o tom violeta e voltam a ser vermelhos.
— Como ousa fazer isso com a Claire!!
Alexia lança um ataque.
Seus movimentos são precisos e eficientes. No entanto, Fenrir é muito mais do que isso.
Tudo o que Alexia vê é um rastro vermelho antes de sua espada se estilhaçar em pedaços.
— Não, não…
— A esgrima se constrói sobre a experiência acumulada. Levei mais de um milênio para atingir o auge, e você nem começou sua jornada.
Fenrir ergue sua espada sobre a cabeça.
— Minha… espada…
Ver os cacos de sua espada traz de volta todas aquelas memórias humilhantes. Ela treinou tanto, tanto, para nunca mais se sentir assim – mas não importa o quanto praticasse, aquele ápice da esgrima permanecia para sempre fora de seu alcance.
Lágrimas brotam em seus olhos.
— Acabou.
Fenrir desce a Presa de Sangue.
Então, um zunido agudo corta o ar. Fenrir para no meio do golpe e recua rapidamente.
Com um shunk, uma caneta-tinteiro se enterra no chão.
— Quem é você? — Fenrir rosna.
— É você… — Alexia consegue dizer.
Lá está Suzuki, parecendo tão suspeito e esquecível como sempre.
— Você está bem? — Ele pergunta a ela enquanto caminha lentamente e arranca sua caneta do chão.
— Princesa Alexia, por aqui! — diz Christina enquanto ajuda Alexia a se colocar em segurança.
— M-mas eu ainda posso lutar…
— Não com essa quantidade de mana, você não pode.
Em algum momento, o medidor de Alexia caiu abaixo de 100. Ela morde o lábio e olha para Suzuki.
— Fenrir é muito forte. Ele não terá chance sozinho.
— Não acho que Suzuki vá cair fácil.
Há um olhar sereno nos olhos de Christina enquanto Suzuki enfrenta Fenrir sozinho.
Fenrir encara Suzuki.
— Vou perguntar de novo. Quem é você?
— Sou Suzuki, um calouro da Academia Midgar para Cavaleiros das Trevas — responde Suzuki, girando a caneta na palma da mão.
— Apenas um estudante, hein?
Do nada, Fenrir brande a Presa de Sangue. Sua lâmina vermelha se estende como um chicote e raspa alguns fios da franja de Suzuki.
— Você tem um bom conhecimento de distância para um estudante.
— Distância? O que é isso? — Suzuki responde com indiferença e dá um passo à frente.
Isso o coloca diretamente no alcance de Fenrir. Fenrir estreita os olhos.
Thoom. Os passos de Suzuki ecoam com um volume anormal.
Outro passo ressoa.
Um momento depois, o ataque da Presa de Sangue começa.
Com uma velocidade vertiginosa, rastros vermelhos chovem sobre Suzuki de todas as direções. Cada golpe é elegante, e eles culminam em uma espécie de dança que fascina todos que a testemunham.
No centro de tudo, Suzuki está com suas canetas em punho. Ele segura quatro em cada mão, presas entre os dedos como garras. Suas pontas douradas brilham.
Então a espada vermelha dança, e os brilhos dourados colidem.
Clang, clang, clang, eles soam, ecoando ao infinito enquanto a batalha se desenrola. Ali na névoa, os rastros vermelhos e os brilhos dourados dançam como um só.
— Isso é incrível…! — Alexia ofega.
Fenrir dominou a arte da esgrima – não há dúvida disso. E o fato de Suzuki conseguir acompanhá-lo com nada mais do que canetas-tinteiro significa que ela não consegue nem começar a compreender a força dele também.
Aqueles dois poderiam enfrentar a Guarda Imperial do Reino de Midgar ou as Sete Lâminas do Império Velgalta. Eles poderiam até ser mais fortes…
— Eles são fortes demais… — sussurra Christina.
Ela está certa. Suzuki é muito mais poderoso do que um estudante tem o direito de ser.
— Quem é ele, afinal? — pergunta Alexia. É uma pergunta justa.
— Não sei. Mas posso dizer que ele carrega um fardo enorme. Ele me disse que tem um dever… um que ele precisa cumprir, não importa o quê.
Alexia cerra os punhos.
— Um dever… E o poder para cumpri-lo…
Enquanto ela faz isso, Christina vai até Claire e a ajuda a se levantar.
— Você está bem?
— N-não sei como, mas sim. E agora Suzuki está lutando. — Ela responde, com a voz tensa.
— Em uma luta como essa, nós só atrapalharíamos. Tudo o que podemos fazer é observar.
— Eu sei… — Claire aperta com força o círculo mágico em sua mão direita.
Enquanto isso, o duelo entre Fenrir e Suzuki na névoa continua.
Pouco a pouco, o rumo da batalha começa a mudar. Os rastros vermelhos estão começando a empurrar os brilhos dourados para trás, forçando gradualmente as pontas das canetas-tinteiro a recuarem para a névoa.
A razão reside no alcance dos dois combatentes. Não só a Presa de Sangue de Fenrir é muito mais longa que a espada média, mas as canetas-tinteiro de Suzuki são muito mais curtas. Como resultado, Fenrir consegue atacar sem medo de represálias, enquanto Suzuki tem que passar o tempo todo na defensiva.
A voz de Fenrir ecoa em meio ao seu furioso confronto.
— A luta está decidida. Como um devoto da perfeição marcial, você deveria saber que nunca será capaz de fechar essa lacuna.
— Eu não teria tanta certeza.
Suzuki planta os pés firmemente e então salta no ar. Uma vez no ar, ele pega suas canetas-tinteiro e as arremessa diretamente em Fenrir.
As oito canetas se tornam feixes de luz enquanto zunem em direção ao seu alvo.
— Seus esforços são fúteis — cospe Fenrir. Ele recua e usa a Presa de Sangue para desviar as canetas.
Algumas delas conseguem arranhá-lo, mas é só isso. Agora que Suzuki jogou fora suas armas, ele está indefeso para revidar.
Ou assim se pensaria.
— O quê?
No ar, Suzuki brande outras oito canetas-tinteiro.
— Movimento Especial: Chuva Dourada.
Suzuki começa a disparar uma onda de canetas após a outra. Há tantos pequenos feixes de luz que parecem gotas de chuva, e todos eles caem diretamente sobre Fenrir.
— Você se acha muito esperto, não é?
No entanto, os talentos de Fenrir não são menos impressionantes. Ele se esquiva das canetas com movimentos fluidos, usando a Presa de Sangue apenas para aparar aquelas que sabe que não pode evitar.
A chuva dourada cai no chão sem acertar um único golpe em Fenrir.
Finalmente, a chuva para por completo. Um número impensavelmente grande de canetas jaz cravado no chão.
Parado no meio de tudo isso está Fenrir. Ele não está se movendo – ou melhor, ele não pode se mover.
— Xeque-mate.
Suzuki está parado bem atrás dele.
— As canetas-tinteiro eram uma isca? — pergunta Fenrir.
— Dizem que a caneta é mais poderosa que a espada.
Suzuki está segurando uma única caneta na garganta de Fenrir.
— Você me pegou. Acho que brinquei um pouco demais. Faz tanto tempo que não tenho alguém para brincar que não consegui me conter. Chame isso de um mau hábito de um velho se você…
— Pode continuar se enganando.
Desinteressado em ouvir o discurso de Fenrir até o fim, Suzuki crava a caneta nele. Ela perfura a garganta de Fenrir e faz o sangue jorrar por toda parte.
— Glagh… Vocês, jovens, são tão impacientes. Não sabem ouvir quando os mais velhos estão falando?
Os olhos de Fenrir se arregalam e então brilham em vermelho.
Uma enorme onda de magia explode, arremessando Suzuki pelos ares. O ferimento no pescoço de Fenrir se fecha como se nunca tivesse existido.
— A brincadeira acabou. Vamos começar lidando com o esquecível…
Fenrir se vira para olhar para Alexia e os outros. Lá, ele encontra seu primeiro alvo – Christina.
— Ah…
Um arrepio percorre sua espinha ao encarar aqueles olhos escarlates. O peso de seu olhar é como nada que ela já sentiu antes, e parece que vai esmagá-la.
— Adeus, mocinha.
Um corte vermelho desce sobre ela. Aquilo é a morte dela, e não há nada que ela possa fazer a não ser encará-la fixamente.
No momento antes que a Presa de Sangue a parta ao meio, porém, outra figura se interpõe, abraçando-a com força e recebendo o golpe em seu lugar.
Sangue voa.
— Suzuki… Você…!
Aquela figura é Suzuki.
— O importante é que você está bem… Hurk!
Ele tosse uma quantidade tremenda de sangue.
— Suzuki! Suzuki, você está bem?! Por que fez isso?
— Tenho algo pelo que preciso me desculpar com você…
Cada palavra que ele diz deixa sua boca mais vermelha.
— Você não precisa se desculpar por nada. Agora, você precisa se concentrar em…
— Não, tem que ser agora. Porque a verdade é…
— Hã?
— …Eu não sou Suzuki.
A voz de Suzuki muda, tornando-se tão profunda que parece ressoar das profundezas do abismo, e suas pupilas ficam vermelhas.
— Ele morreu. Agora contemple minha verdadeira forma…
A fileira de canetas cravadas no chão derrete. Após se transformarem em limo negro, elas envolvem o corpo de Suzuki.
— S-Suzuki…
Christina e os outros recuam diante da visão bizarra.
O limo negro que envolve Suzuki ondula de forma anormal enquanto se desprende para revelá-lo.
— Meu nome é Shadow. Espreito na escuridão e caço as sombras.
Vestido com um longo casaco preto como a noite e um capuz baixo, o homem saca sua lâmina de ébano.
— Shadow?! — Alexia grita em choque.
— Shadow…
Christina também está surpresa, mas quando olha para ele, sente seu coração acelerar.
— Ah, Shadow. Eu esperava que você mostrasse o rosto. — Fenrir parece completamente inabalável. Magia surge dentro dele enquanto ele se prepara para enfrentá-lo. — Então você se disfarçou de estudante na esperança de me pegar de surpresa, não é? Você é um covarde, devo admitir.
— Sou? Eu só queria fazer um pequeno show.
— Suas mentiras soam vazias. Ninguém iria tão longe por uma mera brincadeira. Se acha que sou senil o suficiente para interpretar mal suas intenções, então pense de novo.
— …Oh?
— As pessoas mentem quando têm algo a esconder. Mas por trás de toda mentira, esconde-se a verdade.
— Você não está errado.
— Você se deu ao trabalho de se disfarçar de estudante, de procurar uma brecha e de evitar me enfrentar diretamente. O que vejo aí é cautela. Você mentiu sobre fazer isso por diversão para esconder o quão assustado de mim você está.
— Heh… Não me faça rir, velho.
— E se for esse o caso, então é realmente uma pena. Tenho me perguntado o quão forte você é. Uma eternidade de esforço me levou ao ápice da proeza marcial, e devo admitir… eu estava ansioso para ver se você poderia superar minhas expectativas.
Fenrir prepara a Presa de Sangue.
Shadow ergue agilmente sua espada de obsidiana.
— Quer me testar, então?
— Esse sempre foi o plano. — Fenrir abaixa seu centro de gravidade, puxando a Presa de Sangue completamente para trás e assumindo uma postura de combate. — Não me decepcione, Shadow.
A névoa branca se agita, e Fenrir desaparece.
— Antiga Técnica de Espada Oculta: Casca de Cigarra.
Então ele aparece atrás de Shadow.
Ele já concluiu seu ataque e mudou para se preparar para o inevitável contra-ataque.
— Então você se esquivou do meu golpe. — Ele comenta, com divertimento.
Há um único corte atravessando o longo casaco de Shadow – o resultado do golpe de Fenrir.
— Já enfrentei esgrima rápida mais vezes do que posso contar — retruca Shadow. Ele conserta seu longo casaco enquanto se vira para seu inimigo. — Mas sua esgrima… sua esgrima é lenta.
— Você percebeu depois de apenas uma troca, não foi? — A névoa gira em torno de Fenrir mais uma vez. — Que fascinante.
Shadow fixa silenciosamente seu olhar no fluxo de mana.
Mais uma vez, Fenrir reaparece após um momento, e mais uma vez, ele corta uma fatia do longo casaco de Shadow. Este corte é mais profundo que o primeiro.
Fenrir assume uma posição defensiva atrás das costas de Shadow.
— De novo, você se esquivou.
Shadow passa a mão sobre o rasgo em seu casaco para consertá-lo.
— Você realmente é lento.
— Você estava prestes a ver através da minha Casca de Cigarra?
— Não. E eu observei até o último momento também.
— Então como você conseguiu se proteger?
— Simples. Eu me afastei no momento em que sua espada me atingiu.
— Ah, o estilo suave. Já ouvi falar disso – essa postura em que se anulam os ataques contra si mesmo, da mesma forma que um salgueiro.
— Não posso dizer que já aprendi isso.
— O que você é, então, um talento nato?
— Oh, nada tão pretensioso.
— Então como?
— Prática.
— Ah… E aí reside a verdade da lâmina. — Fenrir se abaixa novamente e prepara a Presa de Sangue. — Então está na hora deste velho lobo te ensinar uma lição.
A névoa se agita.
— …Entendo.
Shadow balança sua espada em um ponto onde não há ninguém.
— Excelente trabalho.
Então Fenrir desaparece.
Um momento depois, ele reaparece atrás de Shadow. Sangue escorre do ombro de Fenrir.
Ele aperta o ferimento recente.
— Então você consegue me ver.
— Não. Apenas segui o fluxo de magia.
— Ah… Já descobriu, então?
— A Casca de Cigarra é uma pós-imagem formada magicamente. Então você a combina com um golpe lento, onde você silencia sua presença ao máximo.
— Certo. No momento em que você vê a Casca, eu já balancei minha espada. Estou impressionado que tenha conseguido ver através disso. Parece que seu talento é genuíno.
Fenrir se vira e retoma sua postura.
— Ainda vamos continuar, então? — pergunta Shadow.
— Mas é claro. Esperei tanto, tanto por este dia. Nenhum prazer se compara ao de colocar sua prática à prova. O homem não pode lutar de espada sozinho. — Ele estende a Presa de Sangue. — Agora testemunhe, Shadow, a forma aperfeiçoada da Casca de Cigarra.
Fenrir brande sua espada.
No entanto, Shadow se esquiva bem antes disso.
A névoa branca se parte, e um corte profundo se abre no chão. Então, um instante depois, a Presa de Sangue o percorre, flexível como um chicote. Causa e efeito parecem invertidos, e o talento de Fenrir acelera ainda mais todo o processo.
É quando a Presa de Sangue se multiplica.
Primeiro uma, depois duas, depois três… Cada vez que Fenrir brande sua lâmina, outra aparece, até que finalmente há nove Presas de Sangue.
Fenrir ri enquanto brande todas as nove.
— Este é o ápice da esgrima – a Casca de Cigarra da Presa de Sangue.
As espadas avançam sobre Shadow de todas as direções ao mesmo tempo.
— Intrigante… — Shadow exala. — Então cada espada que vejo é uma pós-imagem.
Então ele fecha os olhos como se tivesse desistido.
Um momento depois, os nove golpes furiosos o arremessam em todas as direções. Ele é jogado para a direita, depois para a esquerda, para cima, para baixo… e no final de tudo, é brutalmente descartado como uma boneca de pano mutilada.
— Shadow!
— Shadow, não!
Alexia e Christina gritam. É um testemunho do quão selvagem foi a surra.
Fenrir paira sobre Shadow enquanto este cai mole no chão. Um dos dedos de Shadow se contrai.
— …Já chega?
A pergunta vem de Shadow.
— Então não consegui te acertar nem uma vez? — responde Fenrir.
A troca de palavras deles não faz sentido. É como se tivessem invertido o vencido e o vencedor.
Fenrir abate a Presa de Sangue sobre a forma prostrada de Shadow. Ela o corta ao meio com facilidade, deixando uma cicatriz profunda no chão. No entanto, nenhum sangue escorre do corpo de Shadow.
Pelo contrário, ele se desvanece por completo.
Fenrir solta um suspiro derrotado.
— Uma pós-imagem…
Uma voz vem da névoa.
— Agradeço por me deixar ver sua técnica.
Tump, tump, tump. Nove conjuntos de passos soam enquanto nove Shadows avançam.
Fenrir ofega.
— Depois de apenas uma troca…
Nove espadas negras se estendem para fora, dragões dançando na névoa.
— Excelente trabalho. — Há notas de deleite na voz de Fenrir.
— Técnica Oculta: Casca de Cigarra Atômica.
Com isso, os nove dragões devoram Fenrir.
O primeiro rasga seu braço direito, o segundo seu esquerdo.
O terceiro esmaga sua perna direita, o quarto sua esquerda.
O quinto e o sexto rasgam seu torso, o sétimo empala seu peito e o oitavo corta seu pescoço.
Finalmente, o nono abocanha sua cabeça.
— Ainda vivo? — pergunta Shadow.
— Hurk… Finalmente… pude testemunhar o ápice da esgrima… — responde Fenrir, com a voz rouca. — Obrigado… pela demonstração…
Shadow parece desinteressado.
— O ápice não existe.
— Do que você está falando? Você claramente alcançou…
— Acima do ápice existe outro ápice. É só isso que há.
— O quê…?
— Pensar que alcançaram o ápice é quando as pessoas param de subir.
— Entendo… Então foi por isso que perdi…
Um olhar de arrependimento passa pelo rosto de Fenrir.
— …Ainda não vislumbrei o ápice.
O nono dragão fecha a mandíbula.
A cabeça de Fenrir se estilhaça. O longo casaco de Shadow flui atrás dele enquanto ele avança mais fundo na névoa.
— Sh… Shadow, espere!! — grita Alexia.
Shadow para.
— Por favor, você tem que me dizer! Quem é você? Pelo que você está lutando?!
Alexia espera por sua resposta.
No entanto, ele mantém as costas para ela e não diz nada.
— Quero proteger meu país! Quero evitar que coisas tristes aconteçam com as pessoas de quem gosto! É por isso que luto! Mas e você?! Como posso saber se posso confiar em você?!
— Eu te disse… seria melhor você evitar.
— Não me venha com essa! Não agora!! Estamos lutando por nossas vidas aqui! Isso pode não parecer muito para alguém tão poderoso quanto você. Você pode pensar que somos inferiores. Mas o que você precisa entender… é que fracotes como nós se esforçam tanto para viver quanto você!!
Shadow se vira lentamente. Ele fixa seus olhos vermelho-sangue diretamente em Alexia.
— Nós removemos aqueles que se interpõem no caminho de nosso objetivo. Nada mais. — Ele diz, com a voz baixa e retumbante, como se ecoasse das próprias profundezas do abismo.
— Que objetivo…? O que você pretende fazer com este mundo?!
A pergunta de Alexia é a primeira coisa que arranca uma reação apropriada de Shadow. Sua boca se curva no menor dos sorrisos.
Então ele brande sua lâmina preta como a noite. Seu alvo é um estranho dispositivo parado na névoa.
Um ruído metálico soa enquanto o dispositivo se parte em dois.
— Minha coleira…
Alexia e Claire olham para baixo e descobrem que suas coleiras estão quebradas.
— Shadow!
Quando elas olham para cima novamente, ele. Por mais que tentem, não conseguem encontrar nenhum vestígio dele.
Alexia cerra os punhos.
— Se ao menos eu fosse mais forte…
— Claire… você está bem? — Christina pergunta enquanto ajuda Claire a se manter de pé.
— E-estou bem… — responde Claire, apertando o peito. Ela pode muito bem precisar de cirurgia.
— Princesa Alexia, quanto antes sairmos daqui, melhor — diz Christina. — Você tem alguma ideia de onde fica a saída?
De repente, elas ouvem passos na névoa.
— E aí! Finalmente encontrei vocês!
Uma garota baixa aparece de dentro dela – Nina.
Apesar da dor que sente, o rosto de Claire se ilumina.
— Nina… Ah, graças a Deus. Onde você estava?
— Ei, sim, desculpe por isso. Mal consegui escapar de Isaac, mas depois me perdi totalmente. Mas encontrei uma saída.
Nina ri, envergonhada, e aponta para a saída.
— Você é uma salva-vidas — diz Alexia. — Vamos indo.
No momento em que ela vira as costas para Nina, ela age rapidamente.
Alexia é a primeira a cair. Em seguida, Claire e Christina desabam em uníssono.
Os golpes de faca são terrivelmente rápidos.
— Cara, sempre fico com o trabalho sujo — resmunga Nina enquanto olha para o trio inconsciente. Ela solta um pequeno suspiro, depois se vira e chama na névoa. — Os preparativos estão todos prontos… Zeta.
Uma teriantropa de cabelos dourados e uma garota loira-morango emergem.
— Excelente trabalho. Tem certeza de que não quer se juntar ao Jardim das Sombras? — Victoria pergunta a Nina.
— Tenho certeza de que poderia me tornar membro dos Números com facilidade, mas… — responde Nina, hesitante, e então olha para Zeta para avaliar sua reação.
— É melhor ter a Nina fora do Jardim das Sombras — diz Zeta. — Sua capacidade de agir sozinha é o que nos permite enganá-los.
— Então continuarei operando como tenho feito.
— Aham. Continue agindo como amiga de Claire… até chegar a hora.
— …Entendido.
Nina conjura um manto branco de limo e puxa o capuz para baixo sobre o rosto. Então, ela ergue o corpo inconsciente de Claire e a leva até a porta nos fundos do Santuário. Zeta dá a ordem, e ela prende Claire a um pedestal coberto de escrita antiga.
Quando ela canaliza mana para o pedestal, as arandelas de cada lado da porta se acendem.
— Uma vez que fizermos isso, não há como voltar atrás — Nina lembra a Zeta.
— Aham.
— Mas o plano da Alpha…
— Alpha é muito mole. Se fosse do jeito dela, o mal ressurgiria, e o mundo repetiria seus erros. É por isso que precisamos governar o mundo – para garantir que erros nunca mais aconteçam.
Zeta contempla o fogo do pedestal, como se as miríades de chamas bruxuleantes estivessem pintando algum tipo de quadro para ela.
— Com a vida eterna, o Mestre Shadow se tornará um deus — diz Victoria, com os olhos brilhando de êxtase. — Este mundo não precisa dos Ensinamentos Sagrados. Vamos pregar uma nova doutrina.
— …Você tem certeza de que estamos tomando a decisão certa? — pergunta Nina.
— É nosso dever.
Com isso, Zeta canaliza mana para o pedestal. Sua escrita antiga dança sobre ele e se conecta às correntes que selam a porta.
As correntes brilham e rangem ruidosamente.
— Rrrgh! Gah!
O corpo de Claire estremece sobre o pedestal. Seus olhos vermelhos se abrem, e seu rosto se contorce em agonia enquanto ela grita.
— AHHHHHHHHHHH!!
— Claire! — Nina corre para o seu lado. — Zeta, olhe para ela!
— É uma reação de rejeição. Vai passar.
— Mas…
— Se quisermos controlar Diablos depois de revivê-lo, precisaremos do corpo dela.
Lenta mas seguramente, as correntes começam a se romper.
Cada vez mais círculos mágicos sinistros começam a surgir na mão de Claire.
— AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!
Enquanto ela grita, as correntes se estilhaçam em pó, e a porta na parte mais profunda do Santuário se abre.
Não há nada além dela. Apenas uma escuridão que se estende para sempre.
Os círculos mágicos na mão de Claire brilham intensamente.
Um sorriso encantador se espalha pelo rosto de Victoria.
— Funcionou.
— Reunimos os braços direito e esquerdo. — Zeta inspeciona os novos círculos de Claire com grande interesse. — Fique por perto e a observe, Nina.
Nina enxuga o suor da testa inconsciente de Claire.
— Então você realmente… realmente fez sua escolha. — Ela murmura.
— Eu e Alpha… Um dia, saberemos qual de nós tomou a decisão certa. — Zeta vira as costas para Nina e se afasta. — Até lá, nos escondemos nas sombras…
Com isso, ela desaparece na escuridão profunda.
https://tsundoku.com.br
Estou em um espaço branco.
Faz um tempo que não tenho uma boa luta ou uma boa chance de interpretar, e devo dizer, aquilo foi exatamente o que eu precisava. A esgrima do velhote terrorista era realmente algo de outro mundo. Acho que é verdade o que dizem sobre os velhos serem sábios.
Sua técnica era tão legal que decidi até roubá-la para mim e, como resultado, consegui encerrar a batalha com o final perfeito. Descobrir o golpe especial do seu oponente no meio da luta e depois usá-lo contra ele… Isso é o material de que são feitos os sonhos.
Além disso, a parte do Suzuki foi incrível também.
Ao me disfarçar como ele, aposto que consegui fazer o personagem de Shadow parecer ainda mais profundo. Ser capaz de aparecer em qualquer lugar e lançar uma sombra onde a luz existe é exatamente o que significa ser uma eminência nas sombras.
Enquanto eu relembrava com carinho tudo o que acabara de acontecer, acabei aqui antes de perceber.
Observo meus arredores.
— Este lugar me parece familiar…
Eu conheço este lugar. Foi onde encontrei a pequena Violet da última vez.
— Ei, nos encontramos de novo.
Uma garotinha está abraçando os joelhos bem no meio do espaço branco. Ela está machucada e ferida da cabeça aos pés.
— …Você está bem? — pergunto, canalizando mana para curá-la de seus ferimentos.
— Snif… — Ela levanta a cabeça. Seu rosto está manchado de vermelho por onde ela esteve chorando lágrimas de sangue. — Obrigada.
— Fico feliz em ajudar. O que aconteceu?
— Nada. O de sempre.
— O de sempre, hein?
— Sim. — Ela olha para mim e sorri. — Fico feliz que pudemos finalmente nos encontrar, senhor.
— O que você quer dizer com “finalmente”?
— Bem, sou mais forte perto do núcleo.
— Hã. Ah, sim, tenho algo para você. — Tiro a joia vermelha do bolso. — É muito importante para você, certo?
— …Tem certeza?
— Troco por cem milhões de zeni. Não se preocupe, porém – pode me pagar depois que ficar rica.
— Obrigada. — A garota pega a joia. — Estive esperando por isto.
— Bem, agora você tem. Posso perguntar o que é?
— Ah, claro… — A garota sorri, os cantos de sua boca se curvando para cima em forma de crescente. — Isto aqui… Isto é…
Seu rosto se contorce como o de um monstro horrível enquanto uma magia sinistra começa a fluir. O espaço, antes branco, é pintado de preto.
Os pequenos lábios da garota sussurram duas palavras:
— …minha malícia.
Não consigo ouvir sua voz, mas é definitivamente o que ela está dizendo.
Então, uma torrente de emoções feias surge.
Homens, mulheres, crianças e idosos aparecem um após o outro para encarar a garota com desprezo. Um momento depois de cada um aparecer, porém, eles são rasgados em pedaços por algum monstro misterioso.
Assisto ao processo se repetir por centenas e centenas e milhares e milhares de anos e, antes que eu perceba, estou de volta ao telhado da academia.
É o mesmo lugar onde encontrei a jovem Violet pela primeira vez.
Ao longe, posso ver o sol se pondo.
As coisas estão normais aqui na academia, como sempre.
Eu inclino a cabeça.
— Hã. Em retrospecto, talvez eu não devesse ter dado isso a ela.
https://tsundoku.com.br
A garota de cabelos prateados lança seu olhar escarlate sobre os terrenos da academia.
— Tudo o que a Ordem dos Cavaleiros conseguiu obter de sua investigação foram alguns testemunhos dos estudantes. Não encontraram uma única prova concreta…
Ela se encosta no parapeito da janela da sala de aula vazia.
Além da garota de cabelos prateados, há também um garoto comum de cabelos escuros.
— Não entendo o que isso tem a ver com você querer falar comigo — diz ele.
— Porque você é uma das partes envolvidas.
— Já te disse que estava dormindo no meu dormitório. Não sei de nada sobre o que aconteceu.
— Claire não acordou desde então. A Ordem dos Cavaleiros quer falar com você sobre ela.
— Ahhh, a história da minha irmã. Sim, não tenho nada a lhes dizer. Não é como se eu soubesse de algo sobre isso também.
— Não duvido. Você não sabe de nada. Nem sobre o que está acontecendo com o mundo, nem sobre o quão profunda é sua escuridão…
Um sorriso brinca no rosto da garota de cabelos prateados.
— Sim, então não sei por que querem falar comigo.
— Eles não esperam que nada saia disso. Estão apenas cumprindo formalidades.
— Eh, acho justo — diz o garoto de cabelos escuros, parecendo um pouco irritado.
Uma brisa fria de inverno entra pela janela, fazendo o belo cabelo da garota esvoaçar.
— Pode fechar isso? — pergunta o garoto. — Está congelando aqui.
— Sabe, Fido — começa a garota, ignorando o pedido do garoto —, eu realmente tenho inveja de como sua vida é simples.
— Você faz isso soar como um insulto.
— Não, falo sério. Espero que possa sempre ser assim.
— Não entendi — responde o garoto. A garota sorri.
Então o garoto ouve seu nome sendo chamado de fora da sala de aula.
— Enfim, te vejo mais tarde. Aqueles caras da Ordem dos Cavaleiros querem conversar comigo.
Ele estende a mão para a porta.
— …Diga-me, Fido. — A garota o chama. — Você já quis viver para sempre?
O garoto vira a cabeça tão rápido que parece que vai voar.
— Mais do que qualquer coisa.
— S-sério?
— Eu deixaria o mundo inteiro queimar, se fosse preciso.
— Vejo que você era a pessoa errada para perguntar.
— Se encontrar uma maneira de conseguir, me avise — diz o garoto de cabelos escuros, com uma expressão mortalmente séria ao sair da sala de aula.
Agora sozinha, a garota de cabelos prateados solta um suspiro.
— Vida eterna… Shadow não é um materialista como Fido. Se Shadow está atrás da vida eterna, então o que será do mundo?
Ela olha para o céu.
Os céus cinzentos e estagnados parecem continuar para sempre.
Tradução: Gabriella
Revisão: Pride
💖 Agradecimentos 💖
Agradecemos a todos que leram diretamente aqui no site da Tsun e em especial nossos apoiadores:
📃 Outras Informações 📃
Apoie a scan para que ela continue lançando conteúdo, comente, divulgue, acesse e leia as obras diretamente em nosso site.
Acessem nosso Discord, receberemos vocês de braços abertos.
Que tal conhecer um pouco mais da staff da Tsun? Clique aqui e tenha acesso às informações da equipe!
Que sonho peculiar…, pensou Bel, o calor agradável da água do banho permeando seu…
No momento seguinte, o sorriso de Sylvia tornou-se sombrio e triste. A inocência brilhante…
1 — Você precisa fazer uma viagem, garoto — declarou subitamente Logan, o instrutor de…
Mais de um mês se passou desde que Rose me fez entrar para a…
— M-Minha neta? V-Você quer dizer, tipo, a filha do meu, meu filho? Estupefata,…
Reencarnação da Legião de Monstros era uma colônia penal. Os criminosos que mancharam o…
View Comments
Kkkkkkkkk